O Caso Isabelle Mariano: o crime que chocou Curitiba e mobilizou o Brasil
Na tarde de 11 de maio de 2023, um crime brutal abalou a comunidade da Vila Aparecida, na Cidade Industrial de Curitiba (CIC), no estado do Paraná. O desaparecimento da pequena Isabelle Alexandra Mariano, de apenas oito anos, transformou-se rapidamente em uma das investigações mais comoventes do país, levantando um alerta sobre os riscos enfrentados por crianças em áreas vulneráveis.
Uma rotina que terminou em tragédia
Isabelle era descrita pelos familiares como uma menina alegre, educada e apaixonada por futebol. Naquele dia, ela saiu de casa dizendo que iria participar de um treino em um projeto social da comunidade. Como tantas outras crianças da região, costumava circular pelas ruas próximas de casa sem a companhia de um adulto, realidade comum em bairros marcados por dificuldades econômicas e pela convivência constante com problemas relacionados ao tráfico de drogas.
Entretanto, Isabelle nunca chegou ao local do treino.
Quando a noite caiu e a menina ainda não havia retornado, a avó percebeu que algo estava errado. A família entrou em contato com o projeto esportivo e descobriu que Isabelle sequer havia comparecido. Imediatamente, parentes, amigos e moradores iniciaram buscas por toda a comunidade.
As primeiras pistas
Durante as buscas, moradores relataram que Isabelle havia sido vista pela última vez conversando com um homem recém-chegado ao bairro: Josué dos Santos, de 37 anos.
Segundo testemunhas, Josué teria prometido dar dinheiro à menina para que ela comprasse um lanche. Imagens de câmeras de segurança registraram Isabelle correndo por uma rua da comunidade, enquanto um homem aparecia correndo do outro lado da via. Aquela seria a última imagem conhecida da criança com vida.
A gravação aumentou ainda mais a preocupação da família e levou a polícia a concentrar as primeiras diligências no novo morador.
A versão apresentada pelo suspeito
Ao ser questionado pelos moradores, Josué afirmou que havia dado R$ 100 para Isabelle comprar um lanche. Segundo ele, depois disso a menina teria ido embora normalmente.
O suspeito ainda alegou que chegou a procurar a mãe da criança para receber o troco do dinheiro entregue, versão que posteriormente foi parcialmente confirmada pela mulher.
Mesmo assim, sua narrativa despertou desconfiança.
Enquanto toda a comunidade participava das buscas, moradores perceberam que Josué evitava sair de casa. Pressionado pelos vizinhos, acabou acompanhando parte das buscas, repetindo diversas vezes que não tinha qualquer envolvimento no desaparecimento.
Revolta da comunidade
À medida que as horas passavam sem qualquer notícia de Isabelle, a tensão aumentava.
Convencidos de que Josué escondia informações, alguns moradores o renderam, amarraram-no a um poste e passaram a agredi-lo. A situação só foi controlada após a chegada da Polícia Militar, que retirou o homem do local e o encaminhou para atendimento médico, mantendo-o sob escolta para preservar sua integridade física.
Enquanto isso, bombeiros, policiais e voluntários continuavam vasculhando ruas, terrenos baldios e áreas de mata durante toda a madrugada.
A descoberta
Na manhã de 12 de maio, as buscas foram reforçadas com equipes especializadas e cães farejadores.
Inicialmente, os animais não localizaram qualquer vestígio nas áreas externas da residência de Josué. Diante da ausência de resultados, os investigadores decidiram realizar uma busca detalhada dentro da casa.
Foi então que ocorreu a pior confirmação possível.
Escondido no interior de um sofá, sob roupas acumuladas, estava o corpo de Isabelle.
A menina foi encontrada sem vida, sem roupas, com um pano envolvendo a cabeça e as mãos amarradas para trás. Os primeiros exames realizados no local indicavam fortes indícios de violência sexual, hipótese posteriormente submetida à perícia oficial.
A cena causou profunda comoção entre familiares, investigadores e moradores da comunidade.
Prisão em flagrante
Após a descoberta do corpo, a delegada responsável pelo caso determinou a prisão em flagrante de Josué dos Santos.
Durante o interrogatório, o suspeito negou participação no crime. Alegou ser usuário de drogas e afirmou que havia consumido grande quantidade de entorpecentes na noite anterior, dizendo não se recordar dos acontecimentos.
Apesar da negativa, os investigadores reuniram elementos considerados suficientes para mantê-lo preso enquanto as investigações prosseguiam.
Novas linhas de investigação
Durante a perícia na residência, policiais encontraram brinquedos destinados a meninas. Como Josué era pai de dois meninos, os objetos chamaram a atenção da equipe de investigação.
A polícia passou a apurar se esses brinquedos poderiam ter sido utilizados para atrair crianças até a residência e se existiria a possibilidade de outras vítimas.
Outra linha investigativa envolveu a morte recente da esposa de Josué, ocorrida cerca de três meses antes, oficialmente atribuída a um infarto fulminante. Embora não houvesse provas de ligação com o caso Isabelle, os investigadores decidiram analisar novamente as circunstâncias da morte.
Os dois filhos do suspeito foram encaminhados ao Conselho Tutelar e passaram por atendimento especializado para verificar se haviam sofrido qualquer tipo de violência ou se possuíam informações relevantes para a investigação.
Investigações e processo judicial
A Polícia Civil continuou reunindo provas periciais, depoimentos e laudos técnicos para esclarecer completamente o caso.
Como determina a legislação brasileira, Josué passou a responder como investigado e, posteriormente, acusado formalmente pelo Ministério Público, mantendo o direito à ampla defesa durante todo o processo judicial. A responsabilização definitiva dependeria da decisão da Justiça após o julgamento.
Um caso que gerou comoção nacional
O assassinato de Isabelle provocou grande repercussão em todo o Brasil e reacendeu o debate sobre a proteção de crianças, especialmente em comunidades vulneráveis.
Além da dor da família, o caso evidenciou a importância da vigilância constante, da rápida comunicação às autoridades diante de desaparecimentos e do fortalecimento das políticas públicas voltadas à segurança infantil.
A memória de Isabelle permanece como símbolo da necessidade de proteger crianças contra crimes dessa natureza e de garantir que casos semelhantes sejam investigados com rigor e responsabilidade.