O DIA QUE LAMPIÃO ENCURRALOU 80 SOLDADOS VOLANTE COM 30 CANGACEIROS A GUERRA DE MARANDUBA
Imagine que comanda 80 soldados armados. Tem metralhadora, tem espingardas, há homens experientes que passaram anos treinando para exatamente esse momento. Cercou o inimigo, tem vantagem numérica de quase três para um. Você chegou primeiro ao local. Tudo o que a lógica militar ensina diz que esta batalha é sua antes de começar e depois perde. Não perde por azar.
Não perde porque o inimigo tinha armamento superior. Não perde porque houve circunstância imprevisível que derrubou o plano. Perde porque estava mais preocupado em vencer o seu parceiro do que em vencer o inimigo. Porque passou mais energia medindo quem era melhor, baiano ou pernambucano, do que medindo onde estavam os 30 homens que tinhas vindo caçar e que nessa tarde de Janeiro de 1932 estavam a virar a caçada ao contrário, com uma eficiência que décadas depois continuava a ser estudada como exemplo de tática de guerrilha em terreno
aberto. Maranduba, o nome é feio, como o próprio Manuel Neto reconheceria mais tarde. O local era bonito, com um buzeiros grandes de copas que se destacavam acima da mataria, com pias naturais que guardavam água durante os meses de seca, com aquela paisagem do sertão sergipano que só quem nela cresceu sabe reconhecer como Bela.
E foi naquele lugar bonito, com um nome feio, que o tenente Manuel Neto, o mais temido perseguidor de cangaceiros do Nordeste, travou o que ele próprio chamaria a mais encarniçada batalha da sua vida. Batalha que perdeu. Para perceber o que aconteceu em Maranduba no dia 9 de janeiro de 1932, é preciso recuar dois dias e entender o estado em que os dois lados chegaram à aquele encontro.
Porque as guerras não começam no primeiro disparo, começam antes, nas decisões que colocam os homens em determinado lugar, num determinado estado, com determinadas vantagens e determinados ângulos mortos que só ficam visíveis quando o tiro é disparado. E aí é tarde para refazer as escolhas. Era início de 1932. Lampião conduzia o seu bando pelo sertão de Sergipe depois de um episódio que havia deixado um rasto de indignação por toda a região.
Em Canidé do São Francisco, o cangaceiro Zé Baiano, membro do bando, tinha praticado atrocidade que nem o código torto do cangaço conseguia justificar. Ferrar a mulheres inocentes com ferro de ferrar gado. A brutalidade específica daquele ato tinha provocado reação que vai para além da indignação moral. tinha criado urgência política e policial para que os autores fossem encontrados e punidos com a velocidade que a magnitude do crime exigia.
Duas volantes foram mobilizadas em resposta: a do tenente Liberato de Carvalho, com 52 homens da Baía, e a do tenente Manuel Neto, formada maioritariamente por pernambucanos da Nazaré, com 27 homens. Juntas, 79 militares experientes com armamento que incluía uma metralhadora de mão, convergindo para a região onde o bando tinha sido visto.
Lampião, com os 30 cangaceiros, sabia que as volantes vinham. havia o que ele chamava de sexto sentido, que era na realidade a rede de informação que coiteiros fiáveis mantinham ativa, que chegava a si a ele antes que chegasse às autoridades, que dava-lhe por vezes horas ou dias de vantagem sobre os perseguidores que pensavam estar a aproximar-se furtivamente.
No dia 7 de janeiro, Lampião tomou uma decisão que revelou este instinto em funcionamento. Os cangaceiros queriam descansar no povoado Cajoeiro, local conhecido pelas raparigas bonitas com excelentes coiteiros. Lampião não concordou. Nada de descanso, sobretudo depois do que tinha acontecido em Canidé.
alterou a rota, afastou-se do rio, levou o bando a passar a noite na quinta da Queimada Grande, abaixo de Poço Redondo. A ironia da escolha não estava apenas no nome. A queimada grande era propriedade de Pinduca Alexandre, irmão do tenente Liberato de Carvalho, o mesmo tenente que vinha no encalço de Candeeiro com 52 homens.
O Lampião dormiu na quinta do irmão do homem que tentava capturá-lo. Se soube, não deixou o registo. Se não soube, o destino tinha produziu coincidência com aquela crueldade específica que o destino reserva para as histórias que ficam. No dia 8, Lampião passou o dia nas matas da quinta da Queimada Grande. A tardinha foi à sede.
O vaqueiro António Joaquim se prontificou-se a matar alguma criação para o jantar. Lampião recusou, disse que estava com pressa. Os cabras comeram rapadura com farinha, beberam água e foram em frente. Simples, sem cerimónias. A pressa de um homem que tem um sexto sentido e o sexto sentido estava a dizer para não estar parado.
As duas volantes vinham convergindo. A distância entre o ponto delas e Maranduba era de aproximadamente 20 km em linha reta, tranquila para forças que conseguiam percorrer 40 a 50 km num único dia. Seria simples se o objetivo fosse apenas chegar ao local, mas o objetivo tinha sido contaminado por outra coisa que não não tinha nada a ver com Lampião.
A rivalidade entre Liberato e Manuel Neto tinha começado antes de os dois se encontrassem. era histórica, cultural, do tipo que o sertão nordestino conhece bem quando dois lados fortes são colocados lado a lado numa mesma missão. Baiano e pernambucano, cada um querendo ser melhor que o outro. E nesse caso específico, dois tenentes com personalidades que tornavam a convivência numa missão partilhada mais difícil do que qualquer operação militar que tivessem conduzido separados.
Quando Manuel Neto disse que, apesar de ser pernambucano, conhecia o sertão da Baía como ninguém, estava fazendo declaração que qualquer baionense com orgulho receberia como a fronte. Liberato respondeu que tinha nascido e crescido na Serra Negra, que conhecia aquela região como o quintal da sua casa. Era troca de espadadas verbais entre dois homens que ali estavam para capturar Lampião, mas que tinham encontrado nos primeiros minutos de convivência inimigo mais imediato do que Lampião um ao outro.
Mas o problema não ficava nos comandantes. Descia para a tropa com aquela velocidade que qualquer dinâmica de grupo conhece, onde o tom dos líderes define o tom dos liderados, de forma que raramente necessita de instrução explícita. Os Nazarenos de Manuel Neto consideravam-se superiores com razão técnica, eram mais experientes.
Alguns haviam entrado para as volantes ainda miúdos. Conheciam o combate ao cangaço de dentro para fora. Quando questionado sobre o tamanho da força, responderam com a provocação que o orgulho pernambucano produziu. É só mesmo. E não precisa deais, porque cada homem de Nazaré luta por 10. Os baianos de Liberato não eram sem experiência, mas não tinham o mesmo nível de traquejo e não estavam ali para ouvir isso de pernambucanos.
Enquanto os dois grupos mediam forças entre si, Lampião chegava à fazenda Maranduba. As mulheres estavam lá. Maria Bonita, Lídia, mulher de Zé Baiano, Otília, mulher de Mariano, Durvinha, mulher de Virgínia. Outras. Lampião tinha deixado as mulheres em segurança em Maranduba antes de ir a Canidé com dois cangaceiros de guarda e tinha evitado ir diretamente de volta depois do conflito para não colocar as mulheres em risco de perseguição que viria no encalço do bando.
Quando chegou a Maranduba, ao meio-dia, chamou Luís Pedro, o seu braço direito, e deu instruções que revelam a estado mental do capitão naquele momento. Compadre, eu sei que os meninos estão muito cansados. Mas nós temos que ficar esperto. Mandei-o espaiar-se pelos matos. Quanto mais espalhado, melhor. Diga-lhes que não larguem as armas.
Quero todos de prontidão. Nada de dormir e nada de jogar às cartas. Bate uns cabros de vigia. Quem for fazer comida, cuidado para não deixar levantar muita fumo. Com toda a certeza, os macacos vêm no nosso rasto. Maria Bonita percebeu, conhecia aquele jeito. Quando Lampião estava assim, havia macaco por perto.
Tentou meter conversa, perguntou como tinha sido a viagem. Ele respondeu que o Zé Baiano tinha aprontado e que ele havia deixado. O povo precisa de aprender a respeitar-me. Se eu não fizer assim, me desmoralizo. Maria tinha caçado. Preas e Peba. Mandou a Sarangaceiro estar faminto. Nesse instante, Lampião retesou o pescoço.
O pássaro terém terém cantava. Quando o terém terém canta, está a bisbilhotar alguma coisa. Era 2 horas da tarde do dia 9 de janeiro de 1932, um sábado. Do outro lado, Manuel Neto tinha chegado às Pias de Maranduba com apenas 15 homens à frente de Liberato, que ainda aguardava a chegada dos soldados que tinham ficado para trás. Manuel Neto resmungava: “Não há quem aguente a lentidão deste soldado da Bahia, uns palermos que caminham parecendo lesma. Assim não dá.
Será que Liberato não sabe que para lutar com Lampião o cabra tem de ser macho? E foi ali, enquanto esperava impacientemente pelos baianos. E enquanto olhava para aquela paisagem que lhe fazia lembrar a sua Nazaré distante, que Manuel Neto ouviu vozes animadas de homens e mulheres provenientes de um umbuzeiro à frente a cerca de 50 m, meio escondido entre arbustos mais pequenos.
Manuel Neto atirou-se para o chão. Os soldados o seguiram, fez sinal para que a força cercasse o umbuzeiro. vesticulou para liberato ao longe, apontando o espingarda, indicando que tinha localizado o coito dos bandidos. O cerco estava montado em redor de um umbuzeiro. O problema que nenhum dos dois tenentes tinha processado ainda é que Lampião tinha mandado os homens espalharem-se pelos matos.
Quanto mais espalhado, melhor. Não havia um umbuzeiro com todo o o bando concentrado. Havia vários umbuzeiros com cangaceiros distribuídos, formando aquilo que os relatos descrevem como leque, estrutura que permitia que cada ponto do leque desse cobertura ao ponto seguinte, enquanto o centro se movia.
Quando Manuel Neto ia dar a ordem de ataque, ouviu o grito que acabou com qualquer possibilidade de surpresa. O grito do indiabrado candeeiro. Cuidado, meninos. Os macacos cercaram-nos e aí os começaram tiros de todos os lados ao mesmo tempo. Manuel Neto, que havia concentrado o ataque num só ponto, supondo que todo o bando estava naquele umbuzeiro, percebeu em segundos que estava a ser atacado de direções que não havia previsto.
Os cangaceiros não estavam onde ele achava. estavam em todos os lugares ao mesmo tempo, ou pelo menos em locais suficientes para que qualquer posição que a força tomasse estivesse exposta ao fogo de outro ângulo. Praguejou furioso com a própria estupidez. Como é que não tinha pensado nisso? Para agravar, havia erro estratégico na distribuição das tropas que a corrida para o cerco tinha produzido.
A volante pernambucana estava apostada na frente. Alguns homens de Liberato ficaram na retaguarda e no flanco direito. Os soldados baianos que chegaram atrasados posicionaram-se de forma que colocou a força pernambucana entre dois fogos, entre os disparos dos cangaceiros de frente e os tiros dos próprios companheiros baianos de trás, que no caos do início de combate disparavam sobre qualquer vulto nos matos, sem terem a certeza do que estavam a ver.
Os soldados gritavam: “Mistura! Mistura! Queriam formar um bloco único, consolidar posição, criar linha de fogo coerente. Manuel Neto e Liberato gritavam o oposto: “Separa! Separa! incapazes de se comunicar eficazmente no meio da chacota infernal de tiros, gritos e insultos, os dois comandantes davam ordens contraditórias que chegavam à tropa como confusão acrescentada sobre confusão.
No meio do caos, os cangaceiros usavam recurso psicológico que o cangaço tinha desenvolvido ao longo de anos de combate em terreno aberto e que os manuais Os militares convencionais não contemplavam. Imitavam burros, relinchavam como cavalos, urravam como touros. Eram sós animais que, misturados ao barulho dos tiros e ao fumador da pólvora, criavam desorientação adicional em soldados que já não sabiam de onde vinham os tiros e que agora não conseguiam distinguir posições inimigas de sons naturais do meio ambiente. Os
soldados respondiam no mesmo tom, e o sertão sergipano naquela tarde era uma mistura de tiros, gritos humanos, urros animais, palavrões em dialectos diferentes dos dois lados do rio São Francisco, tudo envolto em fumeiro que escurecia a visão e tornava o arrespirável. Enquanto este ca instalava do lado das volantes, Lampião executava a manobra que os relatos descrevem como assombrosamente eficaz.
Os cangaceiros iam abrindo cada vez mais o leque, mudando sempre de posição, de forma a que os soldados não conseguiam fixar onde estava o combate. 30 homens estavam envolvendo 80. A proporção era inversa ao que qualquer lógica militar convencional prescrevia. Mas a lógica militar convencional tinha sido construída para campos abertos, para exércitos que se deslocam em formação, para terreno que a catinga não era.
No um buzeiro onde Lampião, Maria Bonita e poucos cangaceiros estavam, os restantes davam cobertura ao chefe e ao mesmo tempo criavam condições para que as mulheres fugissem pela abertura do leque. Enquanto isso, na linha da frente da Força Baiana, três contratados de Santa Brígida, Elias Marques, Poridónio e Mané Velho, se haviam postado na vanguarda desde o início.
Eram civis com experiência de combate, o tipo de contratado que as volantes recrutavam para tarefas específicas que exigiam conhecimento local. Uma bala atingiu Elias. Por Sidónio, filho de Elias, perguntou ao pai se era grave. Elias disse que não, que era um ferimento besta no braço. Estava a mentir para não desencorajar o filho.
Um cangaceiro valente, parecendo alucinado, correu em direcção a Manuel Neto, como se quisesse pegar-lhe à mão, indiferente às balas. Manuel Neto acertou-lhe um tiro no peito. O cangaceiro caiu-lhe aos pés. Mané velho, que já não suportava a sede, viu que o cangaceiro caído tinha consigo uma cabaça.
Pegou nele para ver se havia água. Havia um pouco. Bebeu. A água tinha um sabor esquisito, um sabor a sangue. A bala que tinha atravessado o cangaceiro tinha também atravessado a cabaça, e o sangue do morto havia se misturado com a água. Mané velho tinha bebido o sangue do cangaceiro Sabonete. O cangaceiro por Sidónio foi baleado numa perna.
Em desespero, gritou ao Mané Velho, pedindo-lhe que tirasse o pai do local onde se encontrava. O ferimento de Elias Marques era grave e ele esvaía-se em sangue. Manévelho carregou o tio para trás de árvores fora da linha de fogo. Por Sidónio se arrastou até eles. Os três já não lutavam. procuravam ver no meio da fumaceira a posição dos companheiros e não compreendiam porque não tinha chegado ordem para recuar.
No lado pernambucano, o jovem Ercílio Nogueira foi atingido por uma bala acima da orelha esquerda. A bala arranhou o crânio, arrancando tufo de cabelo. Exclamou: “Vale a minha Nossa Senhora!” Foram as últimas palavras registadas. O soldado Guncin do Saraiva, ao lado, ferido numa perna, ouviu: A Dalgísio Nogueira, irmão de Ercílio, tinha apenas 15 anos. era da volante de Liberato.
Quando foi informado que o irmão tinha sido baleado, perdeu a noção do perigo. Correu desvairado em direção ao irmão, foi atingido por vários tiros, caiu morto em cima do corpo do irmão. 15 anos morto em cima do irmão. Esse pormenor que os relatos preservam com a precisão que tragedias específicas produzem na memória de testemunhas é o tipo de coisa que o entusiasmo pela narrativa tática frequentemente apaga.
Havia, por detrás de cada número de baixa um ser humano com história específica. A Dalgísio Nogueira tinha 15 anos e tinha entrado para a volante de Liberato, provavelmente pelo mesmo motivo que muitos jovens do interior dessa época entravam para as volantes. Era o que havia disponível, era onde adultos que respeitava estavam.
era forma de pertencer a algo maior do que o quotidiano difícil do interior nordestino. E morreu aos 15 anos em cima do corpo do irmão, numa confusão de tiros amigos e inimigos misturados que já ninguém conseguia distinguir por causa de uma rivalidade entre dois tenentes que tinha importado mais do que o objetivo que os tinha trazido até ali.
Liberato levou uma bala no braço, o que o impediu de utilizar a metralhadora. deu sinal para os seus homens recuarem pelo único caminho disponível. Era da única saída a opção que restava quando tudo mais tinha falhado. Manuel Neto mostrou-se relutante. 5 anos tinha sonhado com a vingança pelo infortúnio da Serra Grande, onde havia sofrido derrota anterior com Lampião.
5 anos à espera do momento em que finalmente capturaria o rei do cangaço. Aquele era o momento e ele estava perdendo de novo. Relutou, mas não foi suicida. Olhou para os soldados caídos em redor, alguns já mortos, muitos feridos. pensou nos pais, nas mães, nos irmãos daqueles rapazes que tinham seguido a sua liderança.
Deu a ordem debandada. Na tropelia de fuga, feridos foram carregados de qualquer forma pelos companheiros, alguns praticamente arrastados, porque quem ficasse seria morto. Os cangaceiros não perseguiram os fugitivos, também desapareceram do campo de batalha. Quando o fumo baixou e os sobreviventes reuniram-se para avaliar, os números eram pesados para o lado que tinha chegado com 80 homens e vantagem numérica de quase três para um.
dos homens de Liberato. Mortos o sargento João Cavalcante de Araújo, o João de Aníba da Ipoeira, o soldado Adalgísio de Souza Nogueira, o soldado Pedrinho de Paripiranga e o civil Elias Marques de Santa Brígida, cujo ferimento fora fatal, apesar de por Sidónio, ter acreditava nas palavras do pai que era besta.
Dos homens de Manuel Neto, morto o soldado António Benedito da Silva. Manuel Boaventura, agonizava, morreria três dias depois no hospital do Penedo. Entre mortos e feridos, 17 baixas do lado das forças. E nesse número está incluído dano que os cangaceiros não tinha infligido, ferimentos por fogo amigo por soldados baianos que no caos atiraram invultos que eram pernambucanos.
Do lado dos cangaceiros, dois mortos em combate, sabão e Catingueira. Um terceiro, Kina Quina ficou com a barriga literalmente estraçalhada. Lampião, por compaixão, acabou de matar o companheiro para terminar o sofrimento. A Bananeira levou bala na perna direita, foi carregado em maca improvisada com cobertas pelos companheiros.
A história posterior da Bananeira revela como o mundo do cangaço terminava frequentemente para os seus membros. O próprio pai, coagido ou convencido pelas autoridades, deu informação sobre o paradeiro do filho. Bananeira foi detido. Manuel Neto disse depois de Maranduba ter sido onde travou a mais encarniçada batalha da sua vida. Não disse que foi uma derrota, mas também não disse que foi vitória. Foi o que foi.
80 soldados chegando ao encontro de 30 cangaceiros com vantagem numérica, armamento equivalente e posição de ataque, e saindo dali com 17 baixas, feridos a serem arrastados, comandantes em retirada desordenada, sem ter capturado Lampião, nem qualquer líder do bando. A batalha de Maranduba é estudada até hoje como exemplo de guerrilha eficaz em terreno aberto por razões que vão para além do resultado numérico.
É estudada porque demonstra algo que a teoria militar formula de formas complicadas, mas que a prática de Lampião aplicou de forma intuitiva naquela tarde de janeiro. Coesão de comando é vantagem que supera a superioridade numérica quando o lado maior está dividido internamente. 80 soldados divididos em dois grupos que se desconfiavam, com dois comandantes que queriam a glória individual mais do que resultado coletivo, com uma comunicação que tinha falhado antes do primeiro tiro pela rivalidade que tinha impedido coordenação real. Eram, em termos
operacionais, menos efetivos do que os números sugeriam. 30 cangaceiros com comando unificado, com instrução clara de espalhar e não concentrar, com conhecimento do terreno que permitia mudança de posição rápida, com capacidade de utilizar sons animais para criar desorientação adicional, com o instinto do capitão que tinha mandado todos se espalharem antes do ataque, porque o terém terém estava a cantar, eram operacionalmente mais eficazes do que a proporção numérica sugeria.
Lampião saiu de Maranduba com Maria Bonita com a maioria do bando intacto, com as mulheres que tinha deixado protegidas sob os umbuzeiros. Continuou pela catinga em direção ao que viria depois, que seriam mais 7 anos de cangaço, antes de Angico em 1938. Manuel Neto regressou a Nazaré. voltou sem Lampião, com feridos que precisavam de cuidados médicos, com mortos que necessitavam de explicação às famílias, com a derrota do Serra Grande confirmada pela derrota de Maranduba como padrão que o orgulho já não conseguia negar.
A vaidade tinha custado 17 baixas humanas e não tinha produzido o resultado para o qual tinha sido mobilizada. Esta é a lição de Maranduba que os números confirmam e que a história preservou com a fria precisão que as batalhas perdidas frequentemente produzem na memória dos sobreviventes que precisam de perceber o que correu mal para não repetir.
Não foi a coragem que faltou. Manuel Neto era valente. Liberato era valente. Os Nazarenos de Nazaré eram experientes e tinham reputação merecida. Os baianos de Liberato não eram cobardes. Adgísio Nogueira, que correu para morrer em cima do irmão com 15 anos, demonstrou uma coragem que não está em discussão. O que faltou foi aquilo que nenhuma coragem individual substitui numa operação coletiva.
A capacidade de deixar o ego pessoal de lado em função do objetivo comum. A capacidade de cada tenente para dizer ao outro: “Conheces melhor esse terreno”. Portanto, você lidera agora. e de o outro aceitar sem transformar a aceitação em derrota pessoal. a capacidade de chegar ao campo de batalha pensando em vencer Lampião em vez de vencer o parceiro.
Lampião não havia ganho Maranduba. As forças tinhamdo sozinhas e Lampião tinha aproveitado com a competência de quem tinha sobrevivido ao tipo de situação que mata a maioria e que tinha aprendido da única escola disponível, que é o próprio combate, a ler as condições do inimigo tão bem quanto lia as condições do terreno. O terenterém tinha cantado.
O capitão tinha espalhado os homens pelos matos. E quando começaram os disparos de todos os lados ao mesmo tempo, naquele sábado de janeiro de 1932, o resultado já estava parcialmente decidido antes que qualquer bala fosse disparada. M.