O Fim do Trovador Solitário: O Segredo Sombrio do Quarto Escuro de Renato Russo, a Doença Implacável e a Sangrenta Guerra Judicial Pelo Legado da Legião Urbana

O relógio marcava a madrugada do dia onze de outubro de mil novecentos e noventa e seis. A cidade do Rio de Janeiro, com sua beleza nobre e absolutamente indiferente à dor humana, dormia sob a brisa fria do mar. No coração de Ipanema, um dos bairros mais elitizados e famosos do país, um apartamento localizado na rua Nascimento Silva guardava um segredo denso, um mistério que pesava toneladas e que mudaria para sempre a história da música brasileira. Ali, no andar alto de um prédio de luxo, o tempo parecia ter congelado. As cortinas do ambiente estavam hermeticamente fechadas e meticulosamente vedadas com fita crepe nas bordas. O objetivo era claro e doloroso: impedir que qualquer raio de sol atrevido ou qualquer olhar externo e curioso pudesse invadir aquele santuário silencioso de dor.

O ar dentro daquele recinto era pesado, estagnado, impregnado com aquele cheiro inconfundível, adocicado e enjoativo de remédios, éter e de uma vida que, gota a gota, se esvaía lentamente rumo ao fim inevitável. Deitado em uma cama no centro daquele bunker voluntário, transformado em uma ruína humana irreconhecível aos olhos de quem outrora o venerava, estava Renato Manfredini Júnior. Para o Brasil, ele era Renato Russo, o profeta indiscutível do rock nacional, o homem que, com sua inigualável voz de barítono e letras afiadas, guiou toda uma geração de jovens perdidos através da lendária banda Legião Urbana. Mas naquele instante derradeiro, naquele quarto escuro e blindado contra o mundo, Renato já não era o ídolo invencível das multidões. Ele era apenas um espectro de si mesmo.

O peso daquele corpo outrora ágil e performático nos palcos havia despencado para assustadores quarenta e cinco quilos. A anorexia nervosa, um fantasma que o assombrou em diferentes fases da vida, somada à devastação brutal do vírus HIV em uma época em que os tratamentos ainda engatinhavam rumo à eficácia, havia consumido sem piedade seus músculos, sua gordura e toda a sua vitalidade. A pele, desprovida do brilho da juventude, estava tragicamente colada aos ossos. O rosto, que antes exibia expressões fortes, contestadoras e magnéticas perante milhares de fãs em estádios lotados, era agora comparável a uma caveira coberta por uma camada de pele pálida e fina como papel de seda. A doença cobrava o preço mais alto, destruindo o receptáculo físico de uma das mentes mais brilhantes do país.

No entanto, o verdadeiro e profundo mistério dessa história, o fato sombrio que continua a assombrar biógrafos, jornalistas, familiares e a imensa legião de fãs até os dias de hoje, não é meramente a doença incurável em si. A AIDS dizimou milhares de pessoas naquela década sombria. O que choca é a recusa taxativa de Renato em lutar nos momentos finais. Semanas antes do fatídico dia de outubro, quando a situação clínica se tornou absolutamente crítica e insustentável, médicos conceituados e familiares desesperados imploraram de joelhos: “Vamos para o hospital, Renato?“. A resposta, vinda de uma voz fraca, porém carregada de uma determinação inabalável, foi um seco e definitivo “Não”. Ele recusou categoricamente qualquer intervenção invasiva. Recusou-se a ser entubado, recusou-se a ser transferido, mas, acima de tudo, recusou-se a ser visto.

Renato Russo fez uma escolha consciente e dolorosa. Ele decidiu trancar-se naquele quarto de Ipanema, transformando o próprio apartamento não em um lar de recuperação, mas em um bunker inviolável, em uma verdadeira tumba faraônica preparada antes mesmo que a morte batesse à sua porta. A grande e incômoda pergunta que ecoa através das décadas é: por que ele fez isso? Teria sido a depressão profunda, aquele abismo clínico e químico que o acompanhou como uma sombra sinistra ao longo de toda a sua vida, que finalmente sussurrou em seus ouvidos, convencendo-o de que não valia mais a pena continuar lutando? Ou seria o medo paralisante, quase fóbico, de que o Brasil inteiro visse seu herói, o seu ídolo máximo, naquele estado deplorável, destruindo para sempre a imagem poética do trovador solitário e altivo que ele construiu com tanto suor?

A Despedida Silenciosa e os Fantasmas do Passado

Renato Russo morreu em silêncio esmagador. Ele partiu segurando firmemente a mão do pai, longe dos flashes incessantes dos paparazzi, sem multidões cantando na sua janela, sem discursos públicos de despedida, sem câmeras invadindo sua privacidade. Ele orquestrou sua própria morte para que fosse um evento estritamente particular. Contudo, os longos dias e as madrugadas silenciosas que antecederam esse suspiro final foram marcados por episódios angustiantes de delírios, provocados pela falência múltipla do corpo e pelo coquetel pesado de medicações. Foram momentos de conversas imaginárias com os fantasmas do passado, revisitações de traumas não curados e a constatação de uma solidão tão vasta, profunda e avassaladora que nem mesmo a marca de vinte milhões de discos vendidos conseguia preencher ou consolar.

Para compreender a alma complexa, brilhante e fraturada que definhou e se apagou naquele quarto nobre da Zona Sul carioca, não podemos olhar apenas para o homem no leito de morte. Precisamos rebobinar a fita da história com cuidado. Precisamos buscar a essência do menino antes do nascimento do mito. E essa jornada reveladora não tem início sob os holofotes e o som ensurdecedor das guitarras distorcidas, mas sim em uma imagem de imobilidade e clausura: uma cadeira de rodas.

Renato Manfredini Júnior nasceu no dia vinte e sete de março de mil novecentos e sessenta, no Rio de Janeiro. Filho de um funcionário de carreira do Banco do Brasil e de uma professora, ele cresceu em um ambiente de classe média estabilizada. Renato não conheceu de perto a miséria financeira, a fome física ou as carências materiais que assombram a biografia de tantos e tantos artistas brasileiros que nascem na periferia. A fome de Renato era de uma ordem completamente diferente. Era uma fome intelectual, artística e existencial. Era uma sensação crônica e perturbadora de inadequação, um sentimento constante que o fazia sentir-se como um verdadeiro estrangeiro dentro da própria pele e da própria casa.

Desde muito tenra idade, a sua infância e pré-adolescência foram marcadas por mudanças geográficas drásticas. Devido à profissão do pai, a família Manfredini mudou-se para Nova York, nos Estados Unidos, onde residiram por dois anos fundamentais para a formação do menino. Foi ali, vivendo na metrópole mais efervescente do planeta, que Renato absorveu como uma esponja a cultura norte-americana, aprendeu a falar e a pensar em um inglês de pronúncia absolutamente impecável, e teve o seu primeiro e irreversível choque com a cultura pop musical e cinematográfica que explodia pelo mundo nos anos setenta. Ele voltou para o Brasil modificado, com uma bagagem cultural que a imensa maioria dos jovens de sua idade não possuía.

O Abismo Físico e a Fuga Para o Mundo da Imaginação

De volta ao Rio de Janeiro, residindo na tranquila e familiar Ilha do Governador, o destino decidiu aplicar a Renato o primeiro e mais cruel golpe de sua trajetória. Aos quinze anos de idade, uma dor aguda, insuportável e inexplicável nos ossos das pernas o derrubou brutalmente. Após inúmeras consultas e exames, veio o diagnóstico médico que soou como uma sentença de prisão para um garoto: epifisiólise. Tratava-se de uma doença óssea raríssima e agressiva, uma condição degenerativa que fazia com que a cartilagem de crescimento falhasse e a cabeça do fêmur começasse a se descolar da bacia.

Tente fechar os olhos e imaginar o impacto psicológico dessa tragédia. Um adolescente cheio de vida, fervilhando de hormônios, curiosidade e vontade de conquistar a cidade maravilhosa, sendo subitamente arrancado do convívio social e condenado ao abismo cruel da imobilidade. Renato precisou colocar pinos de platina e passou longos e excruciantes dois anos confinado entre a sua cama e uma cadeira de rodas. Enquanto os outros garotos da sua idade viviam os ritos normais de passagem — jogando bola descalços na rua, dando os primeiros beijos, namorando nas praças, indo a festas e descobrindo a liberdade do mundo lá fora — Renato estava literalmente preso. O cheiro predominante do seu quarto juvenil não era o da maresia, mas o cheiro seco de gesso, pomadas, pó de livros velhos e, sobretudo, de uma solidão cortante.

Foi exatamente nesse período de total ruína física, encarcerado no próprio quarto, que a mente do gênio se expandiu de maneira incontrolável para tentar compensar o corpo quebrado. O quarto apertado tornou-se o seu universo inteiro. Com uma sede inesgotável de conhecimento, ele devorava os livros da biblioteca da família. Leu as obras densas de J.R.R. Tolkien, as tragédias sombrias de William Shakespeare, os poemas existencialistas do português Fernando Pessoa. E, de forma crucial, ele ouvia discos de vinil repetidamente, até a agulha quase furar o plástico.

Foi nessa imersão que ele descobriu o movimento punk rock que começava a nascer, sujo, barulhento, rebelde e urgente, nos becos de Londres, na Inglaterra, e nos porões escuros de Nova York. Aquele som cru falava diretamente e sem intermediários ao coração despedaçado do adolescente doente. Bandas sem qualquer virtuosismo técnico, como os britânicos Sex Pistols e os americanos Ramones, não estavam interessadas em cantar baladas adocicadas sobre amorzinho ou passeios no parque. Eles cuspiam no microfone sobre raiva, sobre o tédio institucional, sobre o ódio ao sistema e sobre a sensação sufocante de não ter nenhum futuro pela frente (“No Future”). Renato, preso naquela cama estreita, com pinos nas pernas e sem saber se voltaria a caminhar normalmente um dia, entendia de forma visceral o que significava a angústia de achar que não tinha nenhum futuro.

Para não sucumbir à loucura diante da privação de liberdade, foi ali, no silêncio forçado da sua enfermidade, que Renato Manfredini Júnior criou a sua primeira banda de rock. Mas havia um detalhe trágico: era uma banda completamente imaginária, que só existia nos recônditos da sua mente brilhante. Ele a batizou de “Fort Saint Band”. Sentado na cama, ele passava horas a fio escrevendo as letras em cadernos espirais, desenhando os encartes e as capas dos discos com lápis de cor e canetas, e elaborando biografias complexas, entrevistas falsas e personalidades detalhadas para cada um dos integrantes fantasmas do seu grupo fictício. Ele vivia uma fantasia imersiva e completa para suportar o fardo e a feiura da sua própria realidade. Sem que ninguém percebesse, aquele adolescente doente estava treinando ferozmente para se tornar um deus do rock brasileiro, mesmo em uma época em que sequer conseguia ficar em pé sozinho sem a ajuda de muletas.

Brasília, o Tédio Concreto e o Aborto Elétrico

A cura física eventualmente chegou. O fêmur consolidou-se, mas o processo deixou cicatrizes inegáveis. Renato passou a andar com um leve mancar que o acompanharia, e a longa imobilidade fez com que a sensação profunda de ser para sempre diferente, um desajustado, se cristalizasse de forma permanente em seu caráter. No ano de mil novecentos e setenta e três, em busca de novos rumos profissionais para o patriarca, a família mudou-se do calor úmido do Rio de Janeiro para o planalto seco da capital do país, Brasília.

A mudança foi um choque cultural sísmico. Se o Rio de Janeiro era sinônimo de mar, ginga, praia, malandragem e caos orgânico, Brasília representava o deserto, a poeira vermelha, as linhas retas, a arquitetura modernista e uma ordem impositiva e militar. A capital federal naquela época da ditadura não passava de um imenso canteiro de obras futurista e vazio, habitado majoritariamente por burocratas engravatados, políticos, militares e, mais importante, pelos filhos desses funcionários públicos que viviam crônica e profundamente entediados em apartamentos idênticos espalhados pelos blocos das superquadras. O tédio monumental de Brasília foi, paradoxalmente, o grande útero que gerou o rock nacional dos anos oitenta.

Renato desenvolveu uma relação passional com Brasília; ele odiava e amava a cidade com a exata mesma intensidade. Valendo-se de sua proficiência no idioma, o jovem se tornou um elogiado professor de inglês no instituto Cultura Inglesa. Ali nascia o “Professor Renato”: um rapaz alto, de postura educada, culto, que usava suéteres bem cortados por cima de camisas de botão, e que passava as tardes discorrendo para os alunos sobre verbos irregulares e a literatura clássica britânica. Mas, quando a noite caía e as luzes pálidas dos postes de Brasília se acendiam, a sombra rebelde do punk rock tomava conta daquele corpo magro.

Buscando seus iguais, ele encontrou na cidade outros jovens desajustados, filhos rebeldes de diplomatas, políticos e funcionários públicos do alto escalão, que simplesmente não tinham absolutamente nada de útil ou divertido para fazer debaixo dos pilotis das superquadras de concreto. Foi desse choque de frustrações que nasceu a icônica “Turma da Colina”, o núcleo duro de jovens que revolucionaria a música brasileira. E, no meio desse grupo, Renato fundou a sua primeira banda real, crua e barulhenta: o Aborto Elétrico.

No Aborto Elétrico, Renato não estava interessado em apenas cantar no sentido estético da palavra. Ele subia no palco e declamava, berrava, cuspia palavras. Ele cortava a própria carne e a da plateia com letras urgentes e politizadas. Músicas históricas como “Que País É Este” e “Veraneio Vascaína” não eram meras canções de entretenimento; eram verdadeiros gritos de guerra declarada contra a truculência da ditadura militar vigente, contra o marasmo cultural do interior do Brasil e contra a hipocrisia covarde da sociedade de aparências. Suas performances eram catárticas. Ele insultava a plateia provocativamente, adotava uma postura corporal agressiva e visceral. Em sua mente conturbada, ele parecia desejar secretamente que as pessoas na plateia sentissem, mesmo que por alguns minutos, o equivalente da mesma dor aguda, isolamento e desespero que ele havia sentido trancado naquela cama no Rio de Janeiro durante dois anos.

A banda, no entanto, era uma panela de pressão. A intensidade desmedida, o perfeccionismo neurótico e o ego em formação de Renato eram difíceis de lidar na rotina de uma banda punk adolescente. O ápice do desgaste ocorreu após uma violenta e infantil briga física com Fê Lemos, o baterista do grupo. Em um momento de fúria durante um desentendimento rítmico, Renato pegou uma das pesadas baquetas de madeira e a jogou com força na cabeça do companheiro. O sangue esfriou, as discussões se acaloraram e a banda, de forma abrupta, chegou ao fim.

O Trovador Solitário e o Nascimento da Legião Urbana

Com o fim repentino do Aborto Elétrico, Renato sentiu que o mundo desabava. Parecia o fim irrevogável do grande sonho de viver da música. O choque do fracasso empurrou o jovem artista para um período de profunda depressão. Ele acreditava, em sua mente ansiosa, que o bonde da história havia passado e que sua única e preciosa chance tinha sido jogada no lixo pela sua própria intemperança. Na tentativa desesperada de não afogar seu talento, ele se reinventou. Criou a persona do “Trovador Solitário”. Armado apenas de um violão acústico e da própria voz, ele passou a se apresentar sozinho em bares esfumaçados, lanchonetes e festas caseiras. Seu repertório era formado por versões desplugadas de suas letras e novas composições com arranjos lentos, longos, intrincados e quase medievais.

A reação do público, acostumado ao barulho punk, foi desastrosa. As pessoas frequentemente riam dele durante as apresentações acústicas. Conversavam alto de costas para o palco, diziam que o som era insuportavelmente chato e melancólico demais. Foi nessa fase dolorosa e humilhante que ele assumiu de vez a alcunha artística com a qual faria história. Adotou o sobrenome “Russo”, não por causa do país congelado, mas como uma homenagem intelectual aos filósofos e pensadores que admirava, Jean-Jacques Rousseau e Bertrand Russell, respondendo ao deboche da plateia com a elevação de um pseudônimo erudito. O peso do fracasso momentâneo fez com que ele cogitasse seriamente desistir da música de uma vez por todas. Pensou em engavetar as composições, prestar vestibular para ser jornalista, ou aceitar o destino pacato e estável de ser apenas o professor de inglês Renato pelo resto dos seus dias, enterrando o deus do rock no cemitério do tédio de Brasília.

Mas o instinto criativo é uma força indomável. A vontade de gritar suas angústias em grupo falou mais alto. Quando o rock nacional começou a dar os primeiros e lucrativos sinais de que seria o grande fenômeno de mercado fonográfico do Brasil na década de oitenta — com o surgimento estrondoso da Blitz no Rio de Janeiro —, Renato entendeu que precisava de uma banda. Uma banda que não fosse calcada no amadorismo juvenil, mas um projeto musical e intelectual sólido, denso e definitivo. Convocou o talentoso Marcelo Bonfá para assumir a bateria e o técnico e sensível Dado Villa-Lobos para a guitarra. A união dessa trindade sombria, acompanhada em sua fase inicial por Renato Rocha no baixo, fez nascer a Legião Urbana. E a partir desse encontro, a história do pop e do rock na América Latina nunca mais seria a mesma.

A Ascensão, a Glória e o Vírus da Solidão

O que se seguiu à gravação do primeiro álbum homônimo da Legião Urbana em 1985 foi algo parecido com um maremoto sociocultural. Letras quilométricas, desprovidas de refrões óbvios ou melodias fáceis e dançantes, e com uma carga poética absurdamente densa e complexa, caíram como uma bomba no coração da juventude brasileira. Clássicos épicos e melancólicos como “Tempo Perdido”, “Eduardo e Mônica”, “Faroeste Caboclo”, “Pais e Filhos” e “Índios” não eram consumidos como meras músicas pop nas rádios FMs; eram ouvidas e recitadas como verdadeiros hinos sagrados, hinos de uma geração inteira que havia nascido sob os coturnos repressivos de uma ditadura militar violenta e que agora, nos albores turbulentos de uma frágil redemocratização, estava tateando no escuro em busca de esperança, significado, identidade e direção para o futuro da nação.

Renato Russo tornou-se um fenômeno de massas, o maior porta-voz de um país em convulsão política e social. As multidões entoavam suas letras com os olhos marejados, os estádios tremiam sob os pés de centenas de milhares de jovens em catarse coletiva durante os shows apoteóticos da banda. O sucesso traduziu-se em dinheiro abundante, capas de todas as grandes revistas do país, aclamação irrestrita da crítica especializada, prêmios e um poder de influência monumental.

No entanto, o sucesso fenomenal cobrava um imposto caríssimo e letal à saúde mental do cantor. A fama esmagadora não serviu como remédio para as suas dores; ela funcionou como uma gigantesca lupa que expôs e ampliou impiedosamente todos os seus antigos medos, complexos de inferioridade e traumas da adolescência que nunca haviam sido tratados e cicatrizados. O peso avassalador de ter que ser, o tempo todo, o intelectual perfeito, o farol moral inabalável, a bússola de toda uma geração perdida, esmagou a frágil espinha dorsal psicológica do homem.

Para conseguir lidar com a pressão enlouquecedora de uma agenda lotada e das expectativas do público, Renato afundou nas drogas, abusou ferozmente do álcool e perdeu o controle sobre a própria vida nos bastidores. A revelação devastadora e sem retorno de que havia contraído o vírus do HIV no final da década de 1980 foi a pá de cal na sua sanidade. Naquela época sombria, o diagnóstico de AIDS não era tratado como uma doença crônica administrável como nos dias de hoje; era uma condenação à morte explícita, cercada de um estigma social perverso, preconceito covarde e pânico generalizado.

Renato tentou esconder o diagnóstico do grande público o máximo de tempo que suas forças permitiram. A banda continuou lançando álbuns magistrais e sombrios, como “O Descobrimento do Brasil” e o triste “A Tempestade”, onde cada verso soava como uma nota de suicídio prolongada. Mas, no fundo, o homem estava sendo devorado de dentro para fora. Os holofotes brilhavam nos palcos e estúdios da MTV, mas a sua alma já habitava a escuridão do bunker carioca que ele construíra para si na rua Nascimento Silva.

A Batalha Final: A Guerra Pela Marca e Pelo Legado

A tragédia do poeta não terminou com o último e silencioso suspiro naquele 11 de outubro de 1996. Na verdade, a morte do líder foi apenas o preâmbulo de um novo e repugnante espetáculo de dor que mancharia o legado da banda pelos anos seguintes. A triste ironia do destino é que o dinheiro, os contratos leoninos e a avidez financeira, que Renato tanto criticava e desprezava em suas letras mais idealistas e puras, tornaram-se os grandes e nefastos protagonistas da sua história póstuma.

A herança financeira e intelectual incalculável de Renato gerou uma guerra judicial longa, desgastante e de proporções gigantescas. De um lado das trincheiras do tribunal estava Giuliano Manfredini, o único filho e herdeiro legítimo do cantor, que tinha apenas frágeis sete anos de idade quando acompanhou o caixão do pai descer à terra. Giuliano cresceu sob a sombra de um mito que ele mal teve tempo de abraçar em vida, lutando furiosamente, como empresário, para controlar, monetizar e defender o legado do próprio sangue que corria em suas veias.

Do outro lado do ringue, com os corações igualmente machucados pela perda, estavam os fiéis escudeiros de Renato. Os músicos Dado Villa-Lobos e Marcelo Bonfá, os brilhantes arquitetos sonoros do grupo. Foram eles que criaram, nota por nota, os arranjos de guitarras e as batidas marciais que sustentaram as poesias de Renato. Eles exigiam na justiça o direito natural, moral e artístico de continuarem usando o nome e a marca da banda que ajudaram a fundar para promoverem turnês e tocarem as próprias músicas que gravaram no passado.

A disputa pela marca “Legião Urbana” tornou-se uma verdadeira carnificina nos tribunais, inundando os jornais do país com liminares, processos infindáveis e acusações públicas humilhantes, trocadas através de caros escritórios de advocacia. O absurdo da situação atingiu seu ápice inaceitável quando as autoridades foram acionadas e a polícia do Rio de Janeiro precisou deflagrar a controversa operação “Tempo Perdido”, batizada em alusão à clássica canção. Agentes armados invadiram estúdios para apreender fitas master com gravações e materiais inéditos do artista, tratando a sacrossanta memória e a obra do poeta maior da nossa geração como um reles e sujo caso de polícia e de busca e apreensão.

A completa e absoluta ruína daquela amizade, que no passado superou o caos e criou a maior banda de rock do país, é, sem dúvida, o capítulo mais triste que Renato nunca teve a chance de escrever ou de cantar. O jovem idealista e sofredor que, do alto dos palcos, pregava fervorosamente aos fãs que “é preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã”, deixou como testamento póstumo, mesmo sem querer, um intrincado cenário de ódio, processos judiciais e divisões familiares e empresariais que perduram como chagas abertas até os dias de hoje. A icônica banda que, através de melodias perfeitas e versos profundos, conseguiu unir os corações de um país inteiro de norte a sul, acabou lamentavelmente separando de forma brutal e violenta aqueles poucos indivíduos que Renato mais amava, confiava e protegia no mundo.

Renato Russo 25 năm sau: phù hợp hơn, không thể - 12/10/2021 - UOL ECOA

O Eco Eterno e os Diários do Abismo

Mas a grandiosidade irrefreável do legado artístico e literário de Renato Russo vai muito, mas muito além das pífias e mesquinhas brigas judiciais que tentam manchar a sua história. O impacto da sua genialidade transcende a matéria física deteriorada pela doença e as páginas frias dos processos advocatícios. Anos após a sua morte silenciosa e traumática, cadernos pessoais e os preciosos diários íntimos do cantor foram finalmente abertos ao público e a pesquisadores. O que foi encontrado naquelas páginas amareladas não foi o roteiro de uma vida de glamour ininterrupto de um popstar milionário, mas sim o retrato fiel e impiedoso de um mapa detalhado do abismo humano e existencial.

Eram milhares de letras inéditas rascunhadas na calada da noite, desabafos confessionais sobre a sensação aterrorizante de uma solidão que cortava a carne, declarações de amores platônicos que jamais foram correspondidos e extensas listas infantis de desejos mundanos e espirituais que ele nunca teve tempo ou saúde para realizar em vida. Através da leitura póstuma desses textos confidenciais, descobrimos a verdade mais dolorosa de toda essa jornada trágica: o homem idolatrado, que parecia deter com eloquência e sabedoria todas as grandes respostas para as dores do mundo e para a crise existencial de milhões de fãs fervorosos, na sua essência e intimidade, não encontrava absolutamente nenhuma resposta calmante para consolar a si próprio.

Descobrimos, com o peito apertado, que Renato Russo não compunha belas músicas pelo simples desejo egoísta da fama, mas sim como um doloroso mecanismo de defesa psíquica. Ele escrevia loucamente para não afundar nas trevas da loucura absoluta. Ele derramava sua alma nas composições para, ironicamente, não morrer muito antes da hora que lhe foi estipulada pelo destino. E hoje, ao caminharmos pelas ruas de qualquer cidade grande ou minúscula do Brasil, basta prestrar atenção no vento: a presença daquele menino fluminense criado em Brasília é maravilhosamente fantasmagórica e onipresente em nosso cotidiano. Seja em uma despretensiosa rodinha de jovens com um violão desafinado em volta de uma fogueira numa praia, seja em um bar de karaokê barulhento e iluminado, nas rádios tocando no painel de um táxi na madrugada metropolitana, ou na mente de um adulto lembrando com nostalgia da juventude.

A inconfundível voz anasalada de barítono de Renato continua ecoando, firme, lírica e eternamente poderosa através das décadas ininterruptas. De uma forma ou de outra, lutando contra o próprio corpo, a depressão crônica, a fama que não soube engolir e a doença impiedosa que o corroeu e trancou no escuro, ele no fim conseguiu atingir, a fórceps e lágrimas, o que inconscientemente talvez desejasse desde aquele quarto de isolamento e gesso quando tinha quinze anos de idade: ele tornou-se, de forma inegável e definitiva, um ser imortal no panteão cultural da nação.

Mas ao estudarmos de perto as fotos perturbadoras e o relato fúnebre do peso agonizante de seus quarenta e cinco quilos na cama de Ipanema naquele fatídico outubro de 1996, não temos como escapar da reflexão dolorosa sobre os custos da arte verdadeira. Renato Russo entregou-se como um mártir voluntário no altar impiedoso da sensibilidade e da criação poética. A genialidade para ele não foi uma bênção dos deuses, mas uma lente de aumento implacável que agigantava os próprios demônios que habitavam o seu porão mental. A sua existência meteórica no planeta Terra serve como uma advertência luminosa e também como um consolo melancólico. Ele consumiu sua juventude, sua saúde física mental e o seu próprio sangue, gota a gota, em cada linha de suas composições para entregar algo sublime que pudesse amenizar o choro silencioso do próximo.

Ele nos ensinou através da dor alheia sobre o tempo que não para, a efemeridade das certezas terrenas, a violência do dinheiro e a necessidade absoluta e vitalícia do afeto genuíno. Ele nos entregou as palavras que formaram a cura poética e coletiva para a nossa própria solidão existencial moderna, mas, num último ato quase shakespeariano em sua tristeza insuportável, Renato Russo morreu asfixiado, solitário e escondido do mundo atrás da fita crepe de seu apartamento, impiedosamente engasgado com o peso e a imensidão da sua própria dor insuportável. Uma prova viva de que a máscara dourada, festejada e invejada da glória pública na televisão quase sempre serve apenas para tentar esconder desesperadamente do mundo exterior os contornos amargos de uma verdadeira e silenciosa tragédia que ocorre a portas cerradas. Ele viveu no limite da velocidade possível e amou de forma destrutiva para se assegurar que, enquanto nós escutássemos seus discos na vitrola de nossas casas seguras, ele estaria ali para sempre, consolando nosso pranto enquanto chorava irremediavelmente sozinho no escuro, até que sua luz e sua voz calassem para sempre nos braços da eternidade fria da qual todos viemos e para a qual, todos nós, um dia, fatalmente retornaremos.

 

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