Em 1983, um general de três estrelas entrou no escritório de Silvio Santos sem ser convidado. Ele veio com uma ordem direta do governo militar. Ou Sílvio mudava a programação da SBT, ou o canal seria encerrado em 48 horas. Sílvio ouviu tudo em silêncio e depois fez algo que deixou o general sem palavras.
O que aconteceu naquela sala mudou para sempre a relação entre a televisão brasileira e o poder. Para que perceba a gravidade do que aconteceu naquele dia de setembro de 1983, preciso de te levar de volta ao contexto da época. O Brasil vivia ainda sob regime militar. Faltavam ainda dois anos pro fim oficial da ditadura e os generais continuavam a controlar praticamente todos os aspetos da vida nacional.
A imprensa era censurada, a televisão era vigiada e qualquer empresário que quisesse operar no país necessitava de manter relações cuidadosas com o poder. Silvio Santos tinha acabado de completar do anos à frente da SBT. A estação tinha entrado no ar em agosto de 1981, resultado de anos de negociação e planeamento. Era o sonho de uma vida finalmente realizado, a sua própria emissora de televisão, onde podia fazer o que quisesse, da forma que quisesse, mas a liberdade tinha limites.
Mesmo sendo dono do canal, Silvio sabia que operava sob a sombra do regime. A concessão de televisão era um favor do governo e os favores podiam ser revogados. Outros empresários já tinham descoberto isso da pior forma possível. Quem desagradava aos militares podia perder tudo de um dia para o outro.
Durante dois anos, Sílvio tinha navegado estas águas com cuidado. Ele mantinha a programação do SBT focada no entretenimento puro, jogos, sorteios, programas de auditório. Nada de política, nada de controvérsia, nada que pudesse irritar quem estava no poder. Era uma estratégia de sobrevivência que tinha funcionado até então.
Mas em setembro de 1983, e algo mudou. E a mudança veio na forma de um general chamado Hélio Brandão. O O general Hélio Brandão era um homem temido nos círculos do poder. Ele comandava uma importante divisão do exército em São Paulo e tinha ligações diretas com o presidente Figueiredo. Mais importante, era conhecido como o cão de guarda do regime na área de comunicações.
Quando o governo quis pressionar uma emissora ou um jornal, era Brandão quem fazia o trabalho sujo. E ninguém sabia exatamente porque Brandão tinha escolhido o SBT como alvo naquele momento. Algumas teorias circularam nos bastidores. Uma delas dizia que um dos programas da SBT tinha feito uma piada que desagradou a alguém importante.
dizia que Brandão tinha interesses pessoais numa empresa concorrente e queria enfraquecer o Sílvio. E havia quem dissesse que era simplesmente uma demonstração de poder, uma forma de lembrar a todos quem realmente mandava no país. Independentemente do motivo, o resultado foi o mesmo. Numa manhã de terça-feira, o general Hélio Brandão apareceu na SBT exigindo uma reunião imediata com Silvio Santos.
A recepcionista que o atendeu ficou apavorada. Ela nunca tinha visto um verdadeiro general, muito menos um com aquela expressão no rosto. Brandão estava fardado completo, medalhas no peito, acompanhado de dois oficiais que pareciam igualmente intimidantes. Não perguntou se Silvio estava disponível.
Ele informou que ia subir para o escritório e que era melhor que Sílvio estivesse lá. A recepcionista apressou-se a avisar a secretária de Sílvio. A secretária apressou-se a avisar o próprio Sílvio e Sílvio, que estava no meio de uma reunião com produtores, ouviu a notícia com uma calma que surpreendeu a todos. “Diz-lhe subir”, disse Sílvio.
“Eu recebo-o aqui. Os produtores foram dispensados. A sala foi esvaziada e poucos minutos depois o general Hélio Brandão entrou no escritório de Silvio Santos. O contraste entre os dois homens era marcante. Brandão era alto, corpo lento, com postura militar rígida e olhos que pareciam avaliar cada canto da sala em procura de ameaças.
O Sílvio era mais baixo, mais magro, com aquele sorriso característico que podia significar qualquer coisa. Um era a personificação do poder estatal, o outro era a personificação do poder popular. Brandão não esperou ser convidado a sentar-se e ele simplesmente ocupou uma das cadeiras em frente à mesa de Sílvio e colocou uma pasta em cima da mesa entre eles.
Senr. Abravanel, começou ele, utilizando o nome de registo de Sílvio em vez do nome artístico. Eu vou ser direto. Não tenho tempo para joguinhos. Sílvio assentiu ainda sorrindo. Eu agradeço a franqueza, general. O que posso fazer pelo senhor? Brandão abriu a pasta e tirou alguns papéis. Eram transcrições de programas da SBT, marcações a caneta vermelha, destacando trechos específicos.
Nas últimas semanas, disse Brandão, os seus programas têm veiculado conteúdos que preocupa certas pessoas em Brasília, piadas que podem ser interpretadas como críticas ao governo, comentários de convidados que não deveriam ter sido ao ar, material que francamente roça a subversão. O Sílvio olhou para os papéis sem pegar neles.
O seu sorriso não desapareceu, mas algo mudou nos seus olhos. “General”, disse -lo calmamente. “Eu consigo ver estes documentos?” Brandão empurrou os papéis na direcção dele. O Sílvio pegou nele, foliou rapidamente e depois colocou-o de lado. “Eu compreendo a preocupação do Governo”, disse Silvio. “Mas, com todo o respeito, general, o que está aqui destacado são piadas de um humorista sobre o preço da carne.
Nada que qualquer dona de casa não esteja dizendo na feira”. Brandão bateu com a mão sobre a mesa. A violência do gesto fez com que os objetos tremerem. “Não me interessa o que as donas de casa dizem na feira”, rosnou ele. “É me interessa o que vai ao ar numa estação de televisão que chega a milhões de pessoas”.
Tem noção do poder que está nas suas mãos, Bravel? Tem noção do que acontece quando utiliza esse poder de forma irresponsável? Sílvio permaneceu imóvel. O seu sorriso finalmente desapareceu, substituído por uma expressão neutra, impossível de ler. “Tenho noção, sim”, disse. “Por isso mesmo tenho muito cuidado com o que vai para o ar” ar.
” Brandão inclinou-se paraa frente, invadindo o espaço de Sílvio. “Aparentemente não o suficiente.” “Então, aqui está o que vai acontecer. Vai mudar a sua programação, vai despedir o humorista que fez estas piadas, vai submeter todos os guiões de comédia para aprovação prévia do Ministério das Comunicações. E vai fazer isso até sexta-feira? E se eu não fizer? A questão ficou suspensa no ar por um momento.
Brandão sorriu, um sorriso sem humor. Se não o fizer, eu pessoalmente vou garantir que a concessão da SBT seja revogada. Mal você vai perder tudo o que construiu e ainda vai responder a processo por atentar contra a Segurança Nacional. Isto é uma promessa. Sílvio ficou em silêncio por um longo momento. Os dois oficiais que acompanhavam Brandão ajeitaram-se nas cadeiras, esperando claramente que Sílvio capitulasse.
Era o que acontecia sempre. Ninguém defrontava o general Brandão. Mas calma, porque o que aconteceu a seguir mostrou porque Silvio Santos não era como os outros. Sílvio levantou-se da cadeira devagar. Não era um gesto de submissão, era um gesto de alguém que precisava de espaço para pensar.
“General”, disse ele caminhando até à janela do escritório. “O senhor sabe qual é a audiência do meu programa de domingo?” Brandão franziu a testa, confuso com a mudança de assunto. “O que é que isso tem a ver?” O Silvio olhou pela janela para o Skyline de São Paulo. 40 milhões de pessoas todas as semanas. 40 milhões de brasileiros sentam-se à frente da televisão para me assistir, para assistir aos jogos, aos sorteios, aos brincadeiras.
São operários, donas de casa, crianças, idosos, gente simples que trabalha a semana inteira e ao domingo quer relaxar um pouco. Ele virou-se para encarar Brandão. Estas 40 milhões de pessoas confiam em mim. Elas deixam-me entrar nas casas delas todas as semanas. Elas participam nos meus programas, compram os produtos que publicito, acreditam no que eu digo.
Essa confiança levou décadas para construir. Brandão começou a perder a paciência. Eu não estou interessado nas suas estatísticas de audiência, Abra Vanel. Eu estou a dar-te uma ordem. Sílvio abanou a cabeça lentamente. Não, general, o senhor está a fazer-me uma ameaça. São coisas diferentes. Voltou para a cadeira e sentou-se, dessa vez com uma postura diferente, mais descontraída, mais confiante.
“Imaginemos um cenário”, disse Sílvio. O senhor fecha a SBT, revoga a minha concessão, processa-me, faz tudo o que prometeu. O que acontece no domingo seguinte? Brandão não respondeu. Sílvio continuou. 40 milhões de pessoas ligam à televisão à espera de ver o meu programa e no lugar encontram o quê? Um comunicado dizendo que o canal foi fechado pelo governo.
O senhor acha que estas pessoas vão aceitar isto quietas? O silêncio na sala tornou-se pesado. Os dois oficiais trocaram olhares nervosos. Sílvio continuou. Eu vou dizer-te o que vai acontecer, general. Vai haver protesto nas ruas, nas fábricas, nas escolas. As pessoas vão perguntar porque é que o governo fechou o canal que elas adoram. E sabe que mais? Não vai ter como esconder. A notícia vai espalhar-se.
Os jornais estrangeiros vão noticiar. O mundo inteiro vai saber que o Brasil fechou uma estação de televisão por causa de piadas sobre o preço da carne. Brandão levantou-se abruptamente, a cadeira a ranger contra o chão. Isso é uma ameaça? Sílvio voltou a sorrir, mas desta vez era um sorriso diferente.
Não, era o sorriso do apresentador de televisão, era o sorriso de um homem que sabia exatamente o que estava a fazer. Não, general, esta é uma constatação de realidade. O senhor pode pressionar-me o quanto quiser. Pode ameaçar fechar o meu canal, prender-me, fazer o que achar melhor. Mas o senhor não pode mudar o facto de eu ter algo que o governo não tem? O amor do povo brasileiro.
Ele inclinou-se para a frente, olhando diretamente nos olhos de Brandão. E antes de tomar qualquer decisão, é a general, sugiro que o senhor pense bem sobre quem vai sair a perder nesta história, porque posso perder uma emissora, mas o governo pode perder muito mais. O silêncio que se seguiu durou quase um minuto inteiro.
Brandão olhava para Sílvio como se o estivesse a ver pela primeira vez. Os dois oficiais pareciam petrificados, sem saber como reagir. Finalmente, Brandão falou. A sua voz era mais baixa agora, menos agressiva. Está a jogar um jogo perigoso, a Bravel. Sílvio assentiu. Eu sei, mas eu também sei que às vezes é preciso jogar jogos perigosos para proteger o que importa.
A minha emissora importa para mim, o meu público importa para mim e não vou sacrificar nenhum dos dois, porque um general decidiu que as minhas piadas são demasiado subversivas. Brandão ficou parado durante um longo momento, calculando claramente as suas opções. Depois, sem dizer mais nada, ele pegou na pasta da mesa, fez um gesto pros oficiais e caminhou em direção à porta antes de sair, e parou e olhou por cima do ombro.
Isto não acabou, bravel, O Sílvio sorriu. Eu sei que não, general. Até à próxima. E Brandão foi-se embora. Mas tranquilo, porque esta história ainda está longe de terminar. O que aconteceu nas horas e dias seguintes à visita do general mostrou que Sílvio sabia exatamente o que estava a fazer e que a sua estratégia ia muito para além daquela conversa no escritório.
Assim que Brandão saiu do prédio, Sílvio chamou o seu advogado principal, um homem chamado Doutor António Ferreira, que trabalhava com ele desde os anos 70. Ferreira era conhecido no meio jurídico como um dos melhores especialistas em direito de comunicação do Brasil. E mais importante, tinha contactos em todos os os locais certos.
Sílvio contou tudo o que tinha acontecido, cada palavra, cada ameaça, cada pormenor da conversa. Ferreira ouviu em silêncio, fazendo anotações ocasionais. “O que é que quer fazer?”, perguntou o advogado quando Sílvio terminou. Sílvio pensou por um momento. Eu quero proteção, não do tipo que vem de advogados ou juízes, do tipo que provém de ter os aliados certos.
Ferreira entendeu imediatamente. Quer subir à hierarquia? Sílvio assentiu. Brandão é um general de divisão. Ele é poderoso, mas não é todo-poderoso. Acima dele há pessoas que pensam diferente, pessoas que entendem que fechar uma emissora popular seria um desastre de relações públicas pró governo. Ferreira assentiu lentamente. Está a pensar no Golberi? General Goberry do Couto e Silva era uma figura lendária no regime militar.
Ele tinha sido o arquiteto da abertura política que estava gradualmente a transformar o O Brasil de volta numa democracia. Era conhecido como um estratega brilhante, um homem que pensava em termos de décadas em vez de dias. E crucialmente ele compreendia a importância da opinião pública de uma forma que outros militares não compreendiam.
Sílvio confirmou. Goldbery sempre foi pragmático. Sabe que o regime está em transição. Sabe que criar mártires populares neste momento seria um erro estratégico enorme. Se conseguir falar com ele. Ferreira levantou a mão. Sílvio, você está a falar de ir por cima da cabeça de um general de divisão para falar diretamente com um dos homens mais poderosos do país.
Isto pode dar muito errado. O Sílvio sorriu. Eu sei, mas também pode resultar muito bem. E nesse momento estar parado não é uma opção. Nas horas seguintes, Silvio acionou uma rede de contactos que poucos sabiam que tinha. anos a fazer televisão, anos negociando com políticos e empresários, anos cultivando relações em todos os os níveis da sociedade brasileira, tinham-lhe dado acesso a pessoas que outros não conseguiam alcançar.
Primeiro, ligou para um empresário amigo que tinha ligações com o Palácio do Planalto. Esse empresário conhecia alguém que conhecia, alguém que trabalhava diretamente com Golbery. A mensagem foi passada. Sílvio Santos precisava de uma conversa urgente. Depois, Silvio ligou para um jornalista veterano que conhecia dos tempos de rádio.
Este jornalista tinha fontes dentro do próprio exército, pessoas que não concordava necessariamente com as tática de Brandão. A mensagem foi plantada. Havia uma situação se desenvolvendo que podia tornar-se embaraçosa para o governo. Finalmente, T Silvio fez algo que poucos esperavam. Ele ligou diretamente paraa redação de um grande jornal de São Paulo e pediu para falar com o chefe de redação.
A conversa foi breve, mas significativa. Sílvio contou de forma geral que estava sofrendo pressão do governo para mudar a sua programação. Não deu pormenores específicos. não referiu nomes, mas plantou a semente de uma história que, se necessário, podia explodir nas manchetes. O chefe de redação entendeu perfeitamente.
“Com, se alguma coisa acontecer consigo ou com a SBT”, disse ele, “vamos noticiar tudo e não vai ser uma notinha de rodapé.” Sílvio agradeceu e desligou. Agora tinha três linhas de defesa: a pressão política por cima, informação a vazar por baixo e a ameaça de exposição mediática. Era uma estratégia de guerra e Sílvio estava jogando para ganhar, mas ele ainda não tinha terminado porque a parte mais ousada do plano estava para vir.
Na manhã seguinte, Sílvio gravou uma abertura especial para o programa de domingo. Não era nada explícito, nada que pudesse ser utilizado como prova de desafio ao governo. Era apenas uma simples mensagem dirigida diretamente aos telespectadores. Os meus amigos disse ele olhando para câmara.
Eu quero agradecer-vos por estarem aqui todos os domingos. Vocês são a razão de eu fazer o que faço. E eu prometo-vos que enquanto eu tiver forças vou continuar a fazer televisão do jeito que vocês gostam. Se ninguém vai tirar-nos isso. Era uma mensagem codificada. Quem não sabia do conflito com o governo ia pensar que era apenas uma demonstração de afeto pelo público, mas quem sabia ia perceber perfeitamente.
Sílvio estava a sinalizar que não ia ceder. A mensagem foi gravada e guardada. Se tudo corresse bem, ela nunca precisaria de ir para o ar. Mas se as coisas piorassem, Sílvio teria uma forma de comunicar diretamente com os seus 40 milhões de espectadores o que estava acontecendo. As horas passaram tensas.
Sílvio continuou a trabalhar normalmente, ou pelo menos tentando parecer que estava a trabalhar normalmente, mas por dentro esperava. esperava a reação a todas as as peças que tinha colocado em movimento. A primeira resposta surgiu na Quarta-feira à tarde, dois dias depois da visita de Brandão. O telefone tocou no escritório de Sílvio.
Era uma ligação de Brasília. do outro lado, e uma voz que não reconheceu disse apenas: “O general Golbery gostaria de conversar com o senhor amanhã, às 10 horas da manhã, no escritório dele, Sílvio confirmou que estaria lá e depois desligou, permitindo-se pela primeira vez um suspiro de alívio. A reunião com Golberry aconteceu conforme o combinado.
Silvio voou para Brasília na manhã de quinta-feira, foi recebido num edifício governamental discreto e conduzido a um escritório que não tinha nada da ostentação que ele esperava. Era uma sala simples, funcional, com uma mesa de trabalho cheia de papéis e um homem idoso sentado atrás dela. General Golbery do Coutto e Silva tinha 72 anos naquela época.
Ele já se tinha afastado formalmente do governo, mas continuava sendo consultado sobre assuntos importantes. A sua opinião ainda carregava peso e ele tinha concordado em ouvir Sílvio Santos. A conversa durou quase 2 horas. Sílvio contou tudo e desde a visita de Brandão até às medidas que tinha tomado para se proteger. Golberry ouviu em silêncio, fazendo perguntas ocasionais, demonstrando um conhecimento surpreendente sobre a indústria de televisão e sobre o próprio Silvio.
Quando Sílvio terminou de falar, Golbery ficou em silêncio durante um longo momento. Os seus olhos que tinham visto décadas de A política brasileira pareciam estar calculando algo complexo. Finalmente ele falou: “Senhor Santos, vou ser honesto com o senhor. O general Brandão não está a agir sozinho.
Há pessoas no governo que gostariam de ver televisão mais controlada. As pessoas que acham que a a abertura política está a ir rápido demais e que querem usar os media para abrandar o processo. Sílvio assentiu. Eu imaginei algo do género. Golberry continuou. Mas também há pessoas que pensam de forma diferente, pessoas que entendem que o Brasil está a mudar e que tentar controlar os meios com mão de ferro neste momento seria um erro estratégico grave.
Eu sou uma dessas pessoas. Ele se inclinou-se paraa frente. O que posso fazer por si é o seguinte. Eu vou falar com determinadas pessoas. Vou deixar claro que uma ação contra a SBT neste momento seria imprudente, que as consequências políticas seriam piores do que qualquer benefício que pudessem obter. E o Brandão? perguntou o Sílvio.
Golbery esboçou um sorriso seco. O general Brandão vai descobrir que há batalhas que não vale a pena lutar. Ele é um homem inteligente. Quando perceber que não tem apoio para ir em frente, vai recuar. Sílvio sentiu um alívio imenso, mas manteve a compostura. E em troca? O que é que o senhor espera de mim? A pergunta ficou no ar durante um momento.
Golberry olhou para Sílvio com algo que parecia respeito. Em troca, eu espero que continue a fazer o que faz. Entretenimento popular, alegria pro povo brasileiro, um domingo de diversão para quem trabalha a semana inteira. Não interessa-me que faça propaganda do governo. A mim interessa-me que não dê munições para os extremistas de nenhum lado.
Sílvio assentiu. Isso eu posso fazer. Os dois homens levantaram-se e apertaram as mãos. E o Sílvio saiu daquela sala sabendo que tinha ganho uma batalha que muitos teriam perdido. Mas a história não termina aí, porque o que aconteceu nas semanas seguintes mostrou as consequências a longo prazo daquele confronto.
O general Hélio Brandão nunca mais procurou Sílvio Santos. Ele não recebeu uma ordem explícita para recuar, mas percebeu que as suas ações não tinham o apoio que ele esperava. As ligações que que fez para Brasília não foram retornadas. Os aliados que ele pensava ter, de repente, ficaram indisponíveis. A mensagem era clara.
Essa batalha não era dele para lutar. Brandão continuou a sua carreira militar por mais alguns anos, mas nunca mais tentou interferir com a programação de televisão. Uns dizem que ele aprendeu uma lição valiosa naquele episódio, que o poder tem limites e que mesmo os generais precisam de escolher as suas batalhas com cuidado.
Sílvio, por sua vez, continuou fazendo televisão da forma que sempre fez. Os programas de humor continuaram com as suas piadas sobre o quotidiano brasileiro. Os jogos de auditório continuaram a distribuir prémios e aos domingos 40 milhões de brasileiros continuaram a assistir sem nunca saber da batalha que tinha sido travada nos bastidores para garantir que aquele programação continuasse a existir.
Mas algumas coisas mudaram. Sílvio tornou-se mais cauteloso em certos aspetos. Não que tivesse cedido às pressões de Brandão, mas este entendeu que havia linhas que era melhor não cruzar desnecessariamente. Os humoristas da SBT continuaram a fazer piadas, mas com uma maior consciência de onde pisavam. E o Sílvio também aprendeu algo sobre si mesmo.
Descobriu que era capaz de enfrentar o poder quando necessário, que não era apenas um apresentador de televisão, mas um homem com recursos e contactos e coragem para defender o que acreditava. Essa confiança ia servir bem nos anos seguintes, quando outros desafios apareceriam. Agora quero falar-te sobre outros confrontos que Silvio teve com figuras de autoridade ao longo da carreira, porque o episódio com o general Brandão não foi único, fez parte de um padrão que se repetiu várias vezes de formas diferentes.
Uma dessas histórias aconteceu em 1978, ainda antes de o SBT existir oficialmente. A VV estava a negociar a compra de horários emissoras regionais, alargando a sua rede de programação independente, e um dos governadores do Nordeste decidiu que não queria que os programas de Sílvio fossem exibidos no seu estado. O governador em questão era um homem chamado, bem, vamos chamar-lhe governador Meirelles.
Ele era do tipo autoritário, habituado a ser obedecido sem questionamento. e ele tinha uma razão específica para não gostar de Sílvio Santos. A arca da felicidade e a empresa de Sílvio que vendia carnês de capitalização, estava a competir diretamente com um esquema semelhante que o O próprio governador controlava nos bastidores.
Meirelles mandou chamar o proprietário da estação local, que exibia os programas de Silvio e fez um ultimato. Ou tira os programas do Silvio do ar, ou não renova a sua concessão no ano que vem. O dono da estação local, que eu vou chamar seu António, ficou entre a cruz e a espada. De um lado, os Os programas de Silvio eram os mais populares da sua grelha, responsáveis por boa parte da sua receita publicitária.
Do outro, desafiar o governador podia significar o fim do seu negócio. O seu António fez o que muitos fariam naquela situação. Ligou para Silvio e explicou o problema, esperando que Sílvio o entendesse e aceitasse sair do ar nesse estado. O Sílvio ouviu tudo em silêncio. Depois perguntou: “O seu António, qual é a audiência dos meus programas aí no seu estado?” Chissu António respondeu: “É a maior da grelha.
60% de participação aos domingos.” Sílvio pensou por um momento. “Então, me diz uma coisa: se os meus programas saírem do ar, o que vai colocar no lugar?” O senhor António admitiu que não tinha nada que se aproximasse daquela audiência. Sílvio continuou. E se a sua audiência cair, os seus patrocinadores vão continuar a pagar o mesmo? Seu António disse que provavelmente não.
Então você tem um problema maior do que o governador, quem disse Sílvio. Você vai perder dinheiro agora para talvez ter uma concessão renovada posteriormente. E quem garante que ele vai renovar na mesma? Homens como este não respeitam quem se ajoelha, respeitam quem está de pé. O senhor António perguntou: “E o que é que sugere que o faça?” Sílvio sorriu, mesmo que o senhor António não pudesse ver pelo telefone.
“Eu sugiro que não faça nada. Deixe os programas no ar. Se o governador quiser tirar, que ele próprio tome a iniciativa. Aí a culpa é dele, não sua. Chesse António hesitou. E se ele realmente não renovar a minha concessão? Sílvio respondeu: “Depois você me liga de novo e pensamos em algo juntos.
” Mas duvido que vá chegar a esse ponto. Os governadores têm muitos problemas para resolver. Brigar com a televisão popular raramente está no topo da lista. O senhor Antônio seguiu o conselho de Sílvio. Ele não tirou os programas do ar. O governador Meirelles fez algumas ameaças adicionais, enviou recados através de intermediários, mas nunca realmente agiu.
E quando chegou a hora de renovar a concessão, foi renovada sem problemas. O governador tinha passado para outras batalhas, outros conflitos que pareciam mais urgentes. O senhor Antônio ligou para o Silvio para agradecer. “Tinhas razão”, disse ele. Ele recuou. Sílvio respondeu: “Os homens poderosos fazem muitas ameaças. A maioria delas nunca se concretiza.
O segredo é saber quais são reais e quais são bluff. E na televisão, a audiência é sempre a carta mais forte. Quem tem o público tem o poder. Essa filosofia guiou Sílvio ao longo de toda a carreira. Entendia que a televisão era uma forma de poder, não o poder das armas ou do dinheiro, mas o poder da atenção, da influência, da ligação com milhões de pessoas.
E esse poder usado corretamente podia ser mais forte do que qualquer autoridade oficial. Outra história que ilustra esta aconteceu em 1989, já no período democrático. O Brasil tinha acabado de passar pela primeira eleição presidencial direta em quase 30 anos e Fernando Color tinha sido eleito e o país encontrava-se numa fase de transição tumultuosa.
Neste contexto, um dos assessores mais próximos de Color decidiu que queria conversar com Silvio Santos sobre a cobertura que a SBT estava a dar ao novo governo. O assessor, que eu vou chamar do Dr. Paulo, achava que a SBT não estava a ser suficientemente favorável ao presidente. O Dr. Paulo marcou uma reunião com Sílvio usando pretextos vagos.
disse que queria discutir oportunidades de colaboração entre o governo e a emissora. Sílvio aceitou a reunião, curioso para ver o que o homem queria. O encontro aconteceu no escritório de Sílvio no SBT. O Dr. Paulo chegou acompanhado de um assessor de imprensa e de um advogado. A presença do advogado era já um sinal de que a conversa não seria amigável. O Dr.
Paulo começou com rodeios falando sobre a importância dos media no novo Brasil democrático, sobre a responsabilidade dos comunicadores, sobre a necessidade de parceria entre governo e imprensa. Sílvio ouviu tudo com paciência, esperando que ele chegasse ao ponto. Finalmente, o Dr. Paulo foi direto.
O presidente está insatisfeito com a forma como a SBT tem tratado o governo. Gostaríamos que V. fossem mais construtivos na sua cobertura. Sílvio não se alterou. O que exatamente quer dizer com construtivos? O Dr. Paulo ajeitou-se na cadeira. M. Gostaríamos que o telejornal da SBT desse mais destaque às conquistas do governo, que os humoristas evitassem piadas que possam ser interpretadas como críticas ao presidente.
Que houvesse uma maior coordenação entre a emissora e a assessoria de comunicação do Planalto. Sílvio ficou em silêncio por um momento. Quando falou, a sua voz era calma, mas tinha um ED de aço. Dr. Paulo, vou ser honesto com o senhor. Ah, o que o senhor está a pedir é que eu transforme o SBT num veículo de publicidade do governo. Isso não vou fazer. O Dr.
Paulo tentou argumentar. Não é publicidade, é parceria. é trabalhar juntos pelo bem do país. Sílvio balançou a cabeça. Não, o que é que o senhor está descrevendo é o controlo editorial. E no dia em que entregar o comando editorial do meu canal para qualquer governo, deixo de ser jornalista e passo a funcionário público.
Não é isso que eu faço. O Dr. Paulo começou a perder a paciência. O senhor entende que estamos a falar do presidente da República? Que existem formas de tornar a vida do seu canal muito difícil se não cooperarem? O Sílvio sorriu, mas não era um sorriso amigável. Dr. Paulo, compreendo perfeitamente com com quem estou a lidar, mas eu também entendo uma coisa que o senhor parece não compreender.
Nós já não estamos em 1983. O Brasil é uma democracia. Agora vocês não podem simplesmente fechar estações que não cooperam. A lei já não permite isso. Ele inclinou-se paraa frente. E sabe que mais? Mesmo que pudessem, eu não cederia. Porque o dia em que eu vender a minha a independência editorial é o dia em que perco a confiança do meu público.
E sem essa confiança não sou nada. A reunião terminou pouco depois. Dr. Paulo saiu frustrado, fazendo ameaças veladas que nunca se concretizaram. O governo color tentou pressionar a SBT por outros meios, utilizando canais regulatórios e inspeções suspeitamente frequentes, mas nunca conseguiu o que queria, controlo editorial sobre a programação.
Vi continuou a fazer televisão do seu jeito e quando o color caiu em 1992, derrubado pelo escândalo que levou ao seu impeachman, Sílvio estava lá para noticiar, sem parcialidade, sem vingança, apenas reportando os factos como qualquer veículo de comunicação independente deveria fazer. Essas histórias mostram um padrão consistente no comportamento de Silvio Santos quando confrontado com o poder.
Ele não era um rebelde, não procurava o conflito por princípio, mas também não era submisso. Ele compreendia os seus limites, sabia até onde podia ir, mas dentro desses limites defendia a sua independência com unhas e dentes. Mas a história mais importante, a que começamos por contar, ainda tem desenvolvimentos que precisa conhecer.
O general Hélio Brandão, depois de recuar na questão da SBT, continuou a sua carreira por mais alguns anos. Aposentou-se em 1987, a quando o regime militar finalmente chegou ao fim, e depois desapareceu da vida pública, vivendo discretamente num apartamento em São Paulo. Em 1995, algo inesperado aconteceu. Sílvio recebeu uma carta.
O remetente era o próprio general Hélio Brandão. A carta era curta, escrita à mão em papel simples. Brandão dizia que tinha pensado muito sobre aquele encontro de 1983, que na altura achava que estava certo, que estava a defender os interesses do país, mas com o passar dos anos tinha mudado de opinião. Ele escreveu: “Fui treinado para ver inimigos em todos os lugares, para encontrar que qualquer crítica ao governo era subversão.
Levei muito tempo a entender que democracia significa permitir que os pessoas discordem, que a força de um país está precisamente na capacidade de ouvir vozes diferentes.” E concluía: “O Senhor teve a coragem de me enfrentar quando eu representava o poder. Essa a coragem é rara. Eu admiro isso, mesmo que tenha levado anos a admitir.
Sílvio leu a carta várias vezes, depois guardou-o numa gaveta do escritório onde ela ficaria durante os próximos anos. Ele nunca respondeu: “Não porque não quisesse, mas porque não sabia o que dizer. O que responde para um homem que te ameaçou e depois admite que estava errado? A situação não tinha precedente na experiência de Sílvio, mas ele guardou a carta e às vezes em momentos de reflexão, ele a relia.
Ela era um lembrete de que pessoas podem mudar, que mesmo os homens que parecem inamovíveis por vezes encontram a humildade de reconhecer os seus erros. O general Brandão morreu em 2001, aos 83 anos. O obituário nos jornais mencionava a sua carreira militar, os seus serviços ao país, as medalhas que tinha recebido.
Não mencionava o episódio com Silvio Santos, porque ninguém, fora dos envolvidos, sabia que tinha acontecido. Quando Sílvio soube da morte, ficou em silêncio por um momento e depois disse a um assessor próximo: “Ele era um homem do seu tempo. Fez o que achava certo, mesmo quando estava errado. Não é fácil admitir erros quando se passou a vida inteira a pensar que estava certo.
” O assessor perguntou: “Perdoa ele?”, Sílvio pensou: “Não tenho o que perdoar. Ele fez o seu trabalho e eu fiz o meu. Nós discordamos e no final as coisas se resolveram. Não há mágoa nisso, há apenas a vida a seguir em frente. Era uma resposta típica de Sílvio. Não era homem de guardar rancores durante muito tempo.
Preferia olhar para a frente, para a próxima batalha, para próxima oportunidade. O passado servia para aprender, não para se prender. Agora quero falar-te sobre o legado deste episódio e de outros similares, porque revelam algo fundamental sobre como a televisão brasileira se desenvolveu e sobre o papel que Sílvio Santos teve neste desenvolvimento.
Durante o regime militar, a televisão brasileira operava num equilíbrio delicado, que de um lado havia a pressão do governo para controlar o que ia ao ar. Do outro, havia a necessidade comercial de atrair audiência, o que exigia liberdade criativa. Os Os empresários de televisão precisavam navegar entre estas duas forças, tentando satisfazer o governo sem perder o público.
A maioria escolheu o caminho da submissão cautelosa. Aceitavam as diretrizes do governo, evitavam assuntos polémicos, faziam televisão segura, que não irritava ninguém, mas também não entusiasmava ninguém. É. O Sílvio escolheu um caminho diferente. Ele não desafiava o governo abertamente, mas também não se curvava completamente. Encontrou um espaço no meio, onde podia fazer televisão popular sem ser subversivo, mas também sem ser propaganda.
Este espaço não era fácil de manter. Exigia negociação constante, jogo político, a capacidade de saber quando ceder e quando resistir. Exigia também coragem, porque às vezes resistir significava arriscar tudo. Mas o resultado foi uma televisão que manteve certa independência mesmo nos anos mais duros do regime.
Uma televisão que, apesar de todas as limitações, continuou conectada com o público popular de uma forma que outras emissoras mais oficiais não conseguiam. E quando a democracia finalmente chegou, a SBT estava bem posicionado para prosperar. Não tinha o peso de ter sido demasiado cúmplice do regime anterior.
Não precisava de se reinventar completamente para sobreviver no novo ambiente. E o Sílvio tinha construiu uma base sólida de credibilidade popular que transcendia mudanças políticas. Isso não foi acidente. Foi o resultado de decisões conscientes tomadas em momentos de pressão por um homem que compreendia o jogo que estava a jogar.
Mas eu quero-te contar também sobre os custos desta postura, porque resistir ao poder sempre tem custos, mesmo quando se ganha. Depois do episódio com Brandão, Sílvio nunca mais foi completamente tranquilo em relação ao governo. Mesmo depois da Redemocratização, mantinha uma vigilância constante. Tinha advogados especializados em relações governamentais.
Tinha assessores que monitorizavam movimentos em Brasília. tinha redes de contactos que o alertavam para possíveis problemas antes que ele se tornassem crises. Era uma forma de paranóia produtiva. O Sílvio nunca mais queria ser apanhado de surpresa, como tinha sido naquela manhã de setembro de 1983. Ele queria saber de qualquer ameaça antes que ela chegasse à porta dele.
Esta vigilância constante tinha os seus benefícios, mas também tinha custos. Sílvio tornou-se mais fechado em relação a determinadas questões políticas. Evitava tomar posições públicas que pudessem criar inimigos. Mantinha uma neutralidade cuidadosa que por vezes parecia excessiva. Alguns críticos diziam que Sílvio era demasiado apolítico, que usava a sua plataforma apenas para entretenimento quando podia fazer muito mais.
Mas O Sílvio tinha aprendido da forma mais dura possível e que a visibilidade política era uma faca de dois gumes. Ela podia dar poder, mas também podia fazer de si um alvo. A decisão de manter distância da política não era cobardia, era estratégia. O Sílvio preferia ter influência sem exposição, poder sem responsabilidade pública.
Era uma escolha que muitos não compreendiam, mas que funcionava para ele. E funcionou durante décadas. Sílvio atravessou governos militares e civis de direita e de esquerda, conservadores e progressistas. E em todos eles, a SBT continuou no ar fazendo televisão da mesma maneira, atingindo os mesmos milhões de brasileiros.
Isso é um legado em si mesmo. Não o legado de um revolucionário ou de um herói político, mas o legado de um sobrevivente, de um homem que compreendeu as regras do jogo e jogou melhor que a maioria. Agora quero-te contar uma última história relacionada com esse tema. Uma história que aconteceu muitos anos depois e que mostra como o aprendizagem daqueles confrontos continuou a influenciar Silvio até ao fim.
Em 2015, durante um período de grande turbulência política no Brasil, Sílvio foi procurado por emissários de diferentes grupos políticos. Todos queriam a mesma coisa: apoio da SBT para as suas causas. De um lado, havia pessoas que queria que a SBT apoiasse o impeachment da Presidente Dilma Roussef. Do outro, havia gente que queria que a SBT defendesse o governo e se opusesse à que chamavam de golpe.
Cada lado achava que estava certo e cada lado oferecia vantagens em troca de apoio. Sílvio recebeu todos os emissários com cortesia, ouviu os seus argumentos e depois recusou todos. A sua resposta foi a mesma para cada um. O SBT não toma partido em disputas políticas. Nós reportamos os factos, deixamos o público formar a sua opinião e não utilizamos a nossa plataforma para fazer campanha por ninguém.
Os emissários insistiam, diziam que aquele era um momento histórico, que ficar neutro era impossível, o que o silêncio era clicidade. Sílvio ouvia e repetia a mesma resposta. Depois de uma dessas reuniões particularmente tensa, um assessor perguntou: “Sílvio, tu realmente acredita que a neutralidade é possível, que podemos ficar de fora de uma briga desta?” Sílvio pensou por um momento, depois disse: “A neutralidade perfeita é impossível, mas o esforço de ser neutro é importante.
O dia em que a gente escolher um lado é o dia em que nós perde metade do público. E mais do que isso, é o dia em que nos viramos ferramenta de político em vez de comunicador independente.” Olhou pela janela do escritório. Eu aprendi isso lá em 83, quando um general entrou aqui a querer controlar o que eu colocava no ar.
Eu disse-lhe não e depois disse não a muitos outros. Não porque não tenho opiniões, mas porque as minhas opiniões pessoais não são o que o público quer ver. Eles querem entretenimento, informação, diversão. Não querem que eu use a minha posição para empurrar agenda política goela abaixo deles.
O assessor insistiu, mas por vezes não é necessário tomar posição por questões de princípio. O Sílvio sorriu. Há mil maneiras de tomar posição sem ser explícito. A gente pode escolher quais as histórias a cobrir, como cobrir, quem entrevistar. Isto já é uma forma de posicionamento. Mas existe uma diferença entre este e virar cabo eleitoral de um político.
Eu prefiro ficar do lado de cada linha. Essa filosofia guiou o SBT. Durante os anos turbulentos que se seguiram, a estação cobriu os acontecimentos políticos, reportou os factos, deu espaço a diferentes vozes, mas nunca se transformou numa plataforma de campanha para nenhum dos lados. Alguns acharam que isso era cobardia, outros acharam que era sabedoria.
Sílvio não se importava com nenhuma das opiniões. Ele tinha tomado a sua decisão décadas antes e ia mantê-la até ao fim. Se chegou até aqui, obrigado por ter assistido. E esta foi a história do general que tentou pressionar Silvio Santos e recebeu uma resposta inesperada. Uma história sobre o poder, a coragem e a capacidade de dizer não quando o mundo inteiro espera que diga sim.
Mas mais do que isso, esta é uma história sobre como a televisão brasileira se desenvolveu, sobre os compromissos que foram feitos, as batalhas que foram travadas, os princípios que foram defendidos ou abandonados. É uma história que poucos conhecem em pormenores do Porque aconteceu nos bastidores, longe das câmaras e dos holofotes.
Silvio Santos não era um herói de capa, não era um revolucionário que derrubou regimes ou alterou o rumo da história, mas ele era algo talvez mais raro, um homem que manteve a sua integridade em circunstâncias que pressionavam a maioria para ceder. Ele construiu um império de entretenimento num país que passou por ditadura, hiperinflação, crises políticas, impeachments e todas as formas de turbulência imaginável.
E através de tudo isto, manteve o SBT no ar, fazendo televisão popular, ligando-se com milhões de brasileiros que dependiam dele para ter um pouco de alegria no meio do caos. Isso merece respeito. Não o respeito que se dá aos heróis, mas o respeito que se dá aos profissionais competentes, que fazem o seu trabalho bem feito ano após ano, década após década.
A história com o general Brandão é apenas um capítulo nesta trajetória. Houve muitos outros confrontos, muitas outras pressões e muitos outros momentos em que teria sido mais fácil ceder do que resistir. Sílvio resistiu em todos os eles, nem sempre da forma mais espetacular, nem sempre da forma mais corajosa, mas sempre de forma suficiente para manter a sua independência.
E no final é o que fica. Não as batalhas individuais, mas o padrão. Não os momentos de crise, mas a consistência através das décadas, a capacidade de dizer não quando necessário, de dizer sim quando conveniente ou e de sempre manter o foco no que realmente importava, fazer televisão que o povo brasileiro queria ver.
Eu quero-te perguntar, lembra-se daquela época da televisão dos anos 80 e 90, quando tudo era diferente, quando os domingos eram sagrados, a família reunia-se na frente da TV e Silvio Santos era uma presença constante na vida de milhões de brasileiros? Se se lembra, conta nos comentários. conta-me as suas memórias, as suas histórias, os momentos que ficaram guardados na sua memória, porque estas histórias merecem ser preservadas.
Fazem parte da nossa história coletiva, da identidade de uma geração que cresceu com uma televisão que já não existe. E se gostou deste vídeo, subscreve o canal. Aqui contamos as histórias que os outros não contam, as verdades que ficaram escondidos nos bastidores, os segredos que fizeram da televisão brasileira o que foi. A era de Silvio Santos acabou.
Partiu em agosto de 2024, te deixando um legado que vai ser recordado por gerações. Mas enquanto houver gente que se lembra, que conta, que preserva estas histórias, ele continua vivo de alguma forma, nas memórias, nas histórias, na gratidão de milhões de brasileiros que cresceram com o seu sorriso nos domingos das suas vidas.
Descansa em paz, Sílvio. E obrigado por ter dito não quando o fácil era dizer sim.