O cenário político brasileiro nunca deixa de ser um caldeirão fervilhante de expectativas, estratégias e reviravoltas. Em um momento onde as peças do xadrez eleitoral já começam a se movimentar com força visando os próximos grandes embates, o senador Flávio Bolsonaro surge com um discurso que promete reconfigurar as apostas no campo da centro-direita. Durante uma sabatina conduzida pela jornalista Amanda, Flávio não apenas delineou sua visão sobre o futuro do Brasil, mas também apresentou uma nova roupagem política: mais moderada, focada no diálogo institucional e afiada nas críticas econômicas ao atual governo.
O que se viu foi a construção de uma narrativa que busca unir o capital político de seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, a uma postura que visa diminuir rejeições e atrair o eleitorado independente. Com analogias fortes, revelações sobre os bastidores da direita e um olhar voltado para a geopolítica global, Flávio Bolsonaro apresentou o que ele chama não apenas de um plano de governo, mas de um verdadeiro “projeto de Brasil”.
Muito Além do Sobrenome: A Construção de um Perfil Moderado
Logo no início da conversa, o senador foi instado a responder a uma pergunta fundamental: afinal, quem é Flávio Bolsonaro e como ele se diferencia de Jair Bolsonaro? Participando do evento de forma virtual, após retornar de uma extensa agenda internacional que incluiu passagens por Estados Unidos, Israel, Bahrein, Emirados Árabes e França, Flávio fez questão de traçar seu próprio perfil histórico na vida pública.
Ele se apresentou como um homem de família, advogado, empresário e alguém que respira política desde muito cedo. Eleito deputado estadual aos 21 anos e acumulando quatro mandatos consecutivos com votações crescentes, o senador destacou sua jornada até chegar ao Senado Federal pelo Rio de Janeiro em 2018. Flávio ressaltou sua proximidade com as decisões difíceis tomadas durante o governo de seu pai, especialmente no período pandêmico, defendendo o legado econômico e a equipe técnica daquela gestão.
No entanto, o ponto alto de sua apresentação foi a demarcação de estilo. Embora reafirme que Jair Bolsonaro é seu norte e inspiração na política — classificando-o como vítima de grande perseguição e injustiça —, Flávio enfatizou que seus 23 anos de vida pública falam por si. Ele se definiu como uma pessoa “mais centrada, uma pessoa do diálogo”. Esta não é uma mudança repentina, segundo ele, mas a essência de sua atuação política. Ao ser questionado sobre as tensões institucionais que marcaram o mandato anterior, especialmente com o Judiciário e o Legislativo, o senador afirmou ser “testemunha ocular” das tentativas de construir pontes.
Ele relembrou ter sido um dos primeiros a usar o termo “autocontenção” para se referir ao Supremo Tribunal Federal, apontando que, na ausência dessa contenção por parte do Judiciário, cabe aos outros poderes — no caso, o Senado — agir. Ainda assim, a promessa central para sua eventual liderança é clara: “O que depender de mim, vou sempre procurar o diálogo. Tenho a convicção que vamos ganhar essa eleição com cérebro e não com fígado.”
A Metáfora do Opala Velhão e a Dura Crítica Econômica
Se o tom de Flávio Bolsonaro foi moderado ao falar sobre as instituições, o mesmo não se pode dizer sobre sua avaliação da atual gestão econômica. Foi nesse momento que o senador entregou as declarações mais incisivas da sabatina. Para ele, a próxima eleição não será baseada em uma mera disputa de nomes, mas em uma escolha civilizatória entre “o caminho da prosperidade e o caminho das trevas”.
Com uma metáfora que certamente ecoará nas redes sociais, Flávio comparou o atual presidente Luiz Inácio Lula da Silva a um carro antigo: “O Lula é um verdadeiro produto vencido. Se comparar o Lula a um carro, é aquele Opala velhão, marcha manual, já foi bonito, mas hoje não te leva a lado nenhum e ainda bebe para caraças”. A analogia serviu para ilustrar a visão de que o atual governo consumiu rapidamente a estabilidade econômica (“a gasolina”) deixada pela gestão Bolsonaro, que, segundo o senador, havia entregue o país com superávit e contas organizadas.
As críticas se estenderam de forma pesada ao Ministro da Fazenda, Fernando Haddad, a quem Flávio ironicamente chamou de “o melhor ministro da fazenda do Paraguai”, acusando-o de implementar políticas fiscais que empurram as indústrias brasileiras para o país vizinho. O senador condenou veementemente a recente reforma tributária, afirmando que ela se tornou “uma bagunça ainda maior”, punindo profissionais liberais com tributos inéditos e descontrolando as contas públicas.
O Caso da Tilápia: A Burocracia que Trava o Brasil
Para ilustrar o peso da burocracia e da ideologia estatal sobre o empreendedorismo brasileiro, Flávio trouxe à tona um exemplo prático e contundente. Ele citou uma decisão recente em que o governo brasileiro proibiu a criação de tilápias no reservatório da hidrelétrica de Itaipu, sob o argumento de que se trata de uma espécie exótica. Paradoxalmente, no mesmo reservatório, o Paraguai autorizou a criação do peixe.
“Vamos pôr um muro no meio para separar? No lado do Paraguai pode criar tilápia, do lado brasileiro não pode”, questionou o senador. Para ele, esse episódio é o retrato de um Estado que enxerga quem deseja empreender com desconfiança, presumindo a culpa antes mesmo de o negócio ser aberto. Em um país onde milhões ainda cozinham a lenha e enfrentam a miséria, Flávio argumenta que o Brasil perde oportunidades valiosas de gerar alimentos, empregos e atrair investimentos por conta de uma máquina pública engessada. Sua proposta é diametralmente oposta: menos burocracia, menos carga tributária e um Estado mais moderno que liberte os cidadãos da dependência política.
A Janela Geopolítica e a Segurança Global
A recente turnê internacional de Flávio Bolsonaro não foi apenas um aceno para o eleitorado externo, mas uma base para seu argumento de que o Brasil vive um momento geopolítico ímpar — e está desperdiçando essa janela. O senador relatou as conversas que teve no Bahrein e nos Emirados Árabes Unidos, onde a maior preocupação dos líderes locais é a segurança alimentar, agravada pela instabilidade no Oriente Médio.
O Brasil, capaz de alimentar mais de um bilhão de pessoas mundialmente, surge como o parceiro natural e complementar. Os países árabes possuem os recursos financeiros que o Brasil carece para modernizar sua infraestrutura: ferrovias, portos e aeroportos. No entanto, o que trava esse fluxo bilionário de investimentos, de acordo com o senador, é a enorme insegurança jurídica e a instabilidade política interna.
O mesmo raciocínio foi aplicado à França e à Europa em geral. Com o continente europeu buscando desesperadamente alternativas ao gás natural russo devido aos conflitos recentes, o Brasil tem o potencial de se consolidar como um grande exportador de energia limpa e barata. “Mas temos de fazer o trabalho de casa aqui”, alertou Flávio, apontando que o capital estrangeiro só desembarcará com segurança quando o ambiente de negócios interno for pacificado e profissionalizado.
Tarcísio, Michelle e a União da Direita

Um dos tópicos de maior curiosidade na sabatina girou em torno das relações internas da direita. Por que Jair Bolsonaro teria apontado Flávio, e não o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, para liderar esse novo momento? Flávio abordou a questão com naturalidade, revelando que gostaria de continuar focado em seu trabalho no Senado, mas aceitou a missão dada pelo pai com a convicção de estar preparado.
Sobre Tarcísio, as palavras foram de absoluta admiração. Flávio fez questão de rechaçar qualquer tentativa da imprensa de criar animosidade entre eles. “Eu sou fã dele. Acho que ele faz um grande governo em São Paulo, é uma pessoa genial”, declarou. O senador prevê um cenário de total alinhamento, onde Tarcísio será reeleito governador de São Paulo, fornecendo um palanque robusto que a direita não teve na mesma intensidade na eleição anterior. A relação descrita não é de subordinação ou de cobrança, mas de complementaridade, essencial para o sucesso do projeto conservador no Sudeste.
Quanto a Michelle Bolsonaro, o senador demonstrou profundo respeito. Ele reconheceu o peso da ex-primeira-dama e sugeriu que ela ainda avalia os próximos passos em sua trajetória na vida pública. A expectativa de Flávio é que, quando a campanha ganhar as ruas, todas essas lideranças fundamentais estarão unidas no mesmo palanque, formando uma frente imbatível para, em suas palavras, “livrar o Brasil do PT”.
Pesquisas, Alianças e a Marcha para 2026
No campo prático das eleições, os dados já começam a falar. A jornalista Amanda trouxe à tona os números recentes da pesquisa Quaest, que mostram a candidatura de Flávio consolidada e diminuindo a distância para Lula, tanto no primeiro quanto no segundo turno. A diferença, que era de dez pontos meses atrás, caiu pela metade, com um empate técnico nos índices de rejeição.
Flávio analisa esses números olhando para a tendência. “Não vai demorar muito para o Flávio Bolsonaro estar numericamente na frente”, previu. Ele credita esse avanço rápido e consistente à percepção do eleitorado de que o atual governo falha em entregar resultados e à desmistificação de sua própria imagem. À medida que os eleitores percebem a viabilidade de sua candidatura para derrotar o projeto político adversário, a confiança dos partidos de centro-direita também aumenta.
Falando em partidos, o senador abordou a cobiçada fatia do “Centrão” e outras legendas. Partidos que vêm sendo sondados pela esquerda, segundo ele, não embarcarão em uma “canoa furada”, pois conhecem as pesquisas e compreendem para onde o país caminha com a atual gestão. Flávio tem mantido diálogos constantes, ainda que reservados, com líderes como Ciro Nogueira, Antonio Rueda e até mesmo Gilberto Kassab.
Ainda que o PSD de Kassab estimule uma terceira via com nomes como Ronaldo Caiado, Ratinho Júnior ou Eduardo Leite, Flávio se mostra cético quanto à viabilidade de romper a polarização, mas garante que respeita os governadores e acredita que, no limite, todo esse campo caminhará junto com a direita para evitar mais quatro anos do atual governo.
Por fim, ao ser questionado sobre a possibilidade de ter o governador de Minas Gerais, Romeu Zema, como seu “vice dos sonhos”, o senador elogiou o trabalho do mineiro, classificando-o como um excelente nome, mas manteve a cautela institucional, respeitando a pré-candidatura do Partido Novo à presidência. Ele também destacou a força do PL em Minas Gerais, citando o fenômeno Nikolas Ferreira, cuja liderança e capacidade de reacender a esperança no eleitorado são vistas como ativos inestimáveis, independentemente do cargo que venha a disputar.
O recado deixado por Flávio Bolsonaro é límpido: a direita está se organizando, amadurecendo suas lideranças e construindo um projeto focado na prosperidade econômica e na segurança jurídica. Se as eleições são decididas com o cérebro, como ele defende, a estratégia apresentada na sabatina demonstra que o jogo está apenas começando. Resta agora acompanhar como os eleitores e os adversários reagirão a essa nova, e cada vez mais competitiva, configuração política.