Não é sobre um marcador, é sobre outra coisa. Os outros jogadores entreolharam-se. sabiam do que Pelé estava a falar? A provocação do guarda-redes, a falta violenta, o desrespeito público, aquilo tinha de ser cobrado e seria. O segundo tempo começou ainda mais intenso que o primeiro. O time local tentava de tudo para diminuir o marcador.
Jogavam na base do chutão, da bola longa, do cruzamento na área, mas a defesa do Santos era sólida, nada passava. Aos 12 minutos surgiu o lance que definiu não só essa partida, mas a carreira de três homens. A Pelé recebeu a bola na intermédio e partiu em velocidade pro golo. O defesa, que tinha feito a falta no primeiro tempo, procurou acompanhar, mas não teve hipótese.
Pelé era rápido demais. Quando entrou na área, o defesa desesperou. Não tinha como alcançar, não tinha como parar. Então, fez a única coisa em que conseguiu pensar. Deu um carrinho por trás outra vez. Dessa vez ainda mais violento que o primeiro. Pelé caiu. A multidão gritou. O árbitro apitou. Penálti. Mas não foi só isso.
O árbitro finalmente teve coragem, tirou o cartão vermelho do bolso e expulsou o defesa. O jogador saiu de campo a praguejar, pontapeando o ar, fazendo gestos obscenos para a torcida visitante. Era o fim da linha para ele. Aquela expulsão nessa partida contra aquele adversário ia marcar a sua carreira para sempre, mas a história ainda não tinha acabado.
Na verdade, a parte mais importante estava apenas a começar. Pelé se levantou-se lentamente, a perna doía, a falta tinha sido forte, mas ele não demonstrava. Caminhou até à marca do penálti e colocou a bola. Ajeitou com cuidado, olhou para a baliza e foi aí que Geraldo fez o que ninguém esperava. O guarda-redes saiu a andar do golo, veio até a marca de penálti, parou na frente de Pelé e disse: “Desta vez muito baixo, só para Pelé ouvir.
Não vai fazer esse golo. Eu sei onde chuta. Eu estudei todos os seus penáltis. Você sempre remata no mesmo canto e eu vou estar lá à espera.” Pelé ouviu em silêncio. Geraldo continuou. E quando eu defendo, esta claque aqui vai gritar o meu nome. Vão esquecer os dois golos que marcou. Vão basta lembrar que o grande Pelé não conseguiu passar por mim.
E vai regressar a São Paulo sabendo que perdeu para um guarda-redes do interior de Minas. O árbitro aproximou-se e mandou o guarda-redes voltar para o gol. Geraldo obedeceu, mas antes de ir fez algo que ficou gravado na memória de todos os que estavam naquele estádio. Ele virou-se de costas para Pelé e deu uma gargalhada alta, uma riso de deboche, de desprezo, de quem pensava que tinha ganho uma batalha psicológica.
Alguns jogadores da equipa local riram-se juntos, não muitos, uns três ou quatro, mas riram-se. E a claque contagiada começou a assobear. Havaiar, a gritar o nome de Geraldo, tranquilo porque era só provocação, era jogo psicológico, era parte do futebol. Mas depois Pelé fez algo que mudou tudo.
Ele não se mexeu, ficou parado na marca de penálti, com a bola nos pés, olhando para a baliza. O árbitro apitou, autorizando a cobrança. Pelé não se mexeu. A claque continuou a vaiar. Geraldo na baliza começou a fazer gestos, chamando a bola, provocando. Passaram 10 segundos, 20 30. O árbitro aproximou-se de Pelé.
Vai cobrar ou não vai? Pelé levantou a mão pedindo mais um momento. O árbitro, sem entender, voltou paraa posição e depois Pelé começou a caminhar não na direcção da bola, na direção da baliza. caminhou lentamente, com as mãos na cintura, até chegar perto de Geraldo. O estádio inteiro ficou em silêncio. Ninguém percebia o que estava a acontecer.
Pelé parou a cerca de 2 met do guarda-redes e disse com a voz calma: “Estudou os meus penaltis, né? Sabe onde é que eu chuto?” Geraldo engoliu em seco. A confiança dele tinha diminuído um pouco, mas ainda estava ali. Sei. Canto esquerdo sempre. Pelé sorriu. Ótimo. Então fica atento porque vou rematar no canto direito, alto no ângulo, e nem vai ver a cor da bola passar.
Geraldo riu-se ou tentou rir, mas o riso saiu forçado. Você tá a fazer bluff? Tô. Pelé deu de ombros. Vamos descobrir. E voltou caminhando para o ponto do penálti. O estádio estava mudo, absolutamente mudo. Ninguém respirava, ninguém se mexia. Era como se o tempo tivesse parado à espera aquela cobrança.
Pelé ajeitou a bola de novo, deu três passos para trás, olhou para o gol. Geraldo estava na linha tentando parecer confiante, mas as pernas tremiam. Todo o mundo via. O árbitro apitou. Pelé respirou fundo, correu, bateu. A bola subiu, fez uma curva no ar, passou exatamente onde Pelé tinha dito que ia passar. Canto direito, alto, no ângulo. Geraldo nem se mexeu.
Não era que ele se tivesse atirado para o lado errado, não era que ele tivesse errado o tempo, era que ele simplesmente não conseguiu reagir. A bola passou tão rápido, com tanta precisão, que o guarda-redes ficou paralisado, congelado no lugar. Olhando a bola entrar, o estádio explodiu, não de alegria, de espanto, de descrença.
Ninguém conseguia processar o que tinha acabado de acontecer. Pelé tinha anunciado o golo, tinha dito exatamente onde ia chutar e tinha feito assim mesmo. Os jogadores do Santos correram para abraçar Pelé. Coutinho saltou para as costas dele. Zito gritava alguma coisa que ninguém conseguia ouvir. Era uma loucura total. Mas Pelé não comemorava.
Saiu debaixo dos companheiros, caminhou até à linha do golo, pegou na bola e foi até Geraldo. O guarda-redes ainda estava parado no mesmo lugar, os olhos vidrados, a boca aberta. Pelé entregou-lhe a bola na mão, exatamente como tinha feito no segundo golo. Olho nos olhos, nenhuma palavra, mas desta vez tinha algo mais.
Pelé se aproximou-se do ouvido de Geraldo e sussurrou qualquer coisa. Ninguém ouviu o que foi, nem os jogadores mais próximos, nem os fotógrafos, nem ninguém. Mas o efeito foi imediato. Geraldo caiu de joelhos, largou a bola, tapou a cara com as mãos e começou a chorar. O árbitro correu para ver o que tinha acontecido.
Perguntou se Pelé tinha agredido ele. Perguntou se tinha magoou alguma coisa. Geraldo não respondia, só chorava. O jogo foi interrompido durante alguns minutos. O time local cercou o guarda-redes. Tentaram levantá-lo, tentaram fazê-lo falar. Nada funcionava. Finalmente, depois do que pareceu uma eternidade, Geraldo se levantou-se, limpou a cara com a camisa e pediu para ser substituído.
O treinador da equipa local hesitou, ainda tinha mais de 20 minutos de jogo, mas olhou nos olhos de Geraldo e compreendeu que algo se tinha partido ali, algo que não ia ser corrigido tão fácil. O guarda-redes reserva entrou. Geraldo saiu de campo com a cabeça baixa, não olhou paraa torcida, não olhou para ninguém, foi logo para o vestiário e não saiu de lá até muito tempo depois do jogo terminar. A partida continuou.
O Santos marcou mais dois golos, 5-0 no final, uma goleada que deveria ser celebrada. Mas ninguém falava dos outros golos. Todo mundo só falava daquele penálti. Depois do jogo, os jornalistas rodearam Pelé. Queriam saber o que ele tinha dito ao guarda-redes. Queriam saber como é que ele tinha conseguido fazer aquele remate depois de anunciar onde ia bater.
Queriam perceber que tinha acontecido. Pelé deu uma breve entrevista, educado como sempre, mas não revelou nada sobre a conversa com Geraldo. E quando perguntaram diretamente, ele apenas disse: “Isto fica entre mim e ele, não é coisa para jornal”. E foi-se embora. Mas a história não acaba aqui. Na verdade, o que aconteceu depois desse jogo é ainda mais importante do que aquilo que aconteceu durante nunca mais foi o mesmo.
Nos jogos seguintes, falhava em lances que antes pegava facilmente. Tomava golos que qualquer guarda-redes mediano defenderia. A confiança que tinha antes daquela partida simplesmente evaporou. Em menos de se meses foi dispensado da equipa. Tentou jogar noutros clubes mais pequenos, não conseguiu afirmar-se em nenhum.
Aos 28 anos, Geraldo Ferreira de Souza pendurou as luvas. Nunca mais jogou futebol profissional. Voltou ao interior de Minas e abriu um pequeno comércio. Viveu o resto da vida evitando falar sobre futebol. Quando alguém perguntava sobre aquela partida contra o Santos, ele mudava de assunto ou ficava em silêncio.
Mais uma vez, muitos anos depois, um jornalista local conseguiu convencê-lo a falar. Era uma matéria sobre jogadores que tinham enfrentado Pelé. Geraldo resistiu no início. Disse que não queria lembrar daquilo, mas o jornalista insistiu e finalmente Geraldo contou. Eu achava que era especial”, disse. Tinha defendido alguns penáltis importantes.
A claque gritava o meu nome, os jornais falavam de mim. Eu comecei a acreditar que era melhor do que realmente era. E quando vi que o Santos ia jogar na nossa cidade, pensei: “Esta é a minha oportunidade. Vou mostrar ao Brasil inteiro quem sou. Vou parar o Pelé”. O jornalista perguntou o que Pelé tinha dito depois do golo.
O que ele tinha sussurrado ao ouvido de Geraldo. A Geraldo ficou em silêncio durante um longo tempo. Quando finalmente falou, a voz estava trémula. Ele disse uma coisa simples, uma coisa que nunca esqueci. Ele disse: “O futebol é um espelho. Ele mostra quem realmente é agora todo mundo viu. O jornalista não percebeu completamente, pediu a Geraldo explicar.
Eu tinha passado a semana inteira a falar mal dele, a dizer que ia humilhá-lo, fazendo pose, achando que era alguma coisa. E depois, quando chegou a hora da verdade, fez exatamente o que disse que ia fazer. Não fez bluff, não recuou, cumpriu. E eu percebi naquele momento em que toda aquela minha pose era só isso. Pose. Não tinha nada por trás.
Eu era o por dentro. E o Pelé, com uma frase mostrou-me isso. A entrevista foi publicado num jornal regional, quase ninguém leu, mas algumas pessoas que estiveram naquele estádio em 1967 lembraram. Lembraram-se do guarda-redes que provocou o rei. Lembraram-se do penálti anunciado.
Lembraram-se do choro no relvado e lembraram-se também do que veio depois. Porque esta história tem mais uma camada, uma camada que pouca gente conhece. 20 anos depois desse jogo, em 1987, Pelé participou num evento beneficente em São Paulo, um jogo de veteranos, craque contra craque, aquele tipo de partida em que os jogadores reformados se reencontram, trocam abraços, recordam os velhos tempos.
Depois do jogo, houve um jantar. E nesse jantar alguém se aproximou de Pelé. Um homem mais velho, cabelo grisalho, corpo meio curvado pelo tempo. Pelé não reconheceu no primeiro momento, mas quando o homem disse o nome, Pelé lembrou-se imediatamente. Era o Geraldo. Ah, o antigo guarda-redes tinha viajado de Minas para São Paulo só para ter aquela conversa.
Tinha vendido uma parte do comércio para pagar o bilhete. tinha ensaiado o que ia dizer durante semanas e agora estava ali de pé na frente de Pelé, com os olhos cheios d’água. “Vim pedir desculpa”, disse Geraldo, “Pelo que fiz nesse dia, pela provocação, pelo desrespeito. Eu era jovem, era arrogante, achava que podia enfrentar qualquer um.
E você ensinou-me uma lição que carreguei a vida inteira.” Pelé ficou em silêncio durante alguns segundos, depois fez algo que ninguém esperava, levantou-se da cadeira e abraçou Geraldo. Um abraço longo, forte, de verdade. Não me deve nada, disse Pelé. O o futebol é assim. A gente entra em campo, faz o que tem a fazer e depois a vida segue. Eu nunca guardei mágoa de ti.
Ah, nunca. Geraldo começou a chorar de novo, mas desta vez era diferente. Não era o choro de vergonha de 20 anos antes, era alívio. Era o peso de duas décadas saindo dos ombros. Destruíste a minha carreira, Geraldo disse entre soluços. Mas também me ensinou a ser humilde. Depois desse jogo, nunca mais achei que era melhor do que ninguém.
E que, no final de contas, fez de mim uma pessoa melhor. Pelé sorriu. Aquele sorriso que quem o conhecia sabia que era genuíno. Então, valeu a pena, disse. Os dois conversaram durante mais de uma hora naquela noite. Recordaram o jogo, relembraram a provocação, relembraram o penálti e riram.
Riram juntos de coisas que 20 anos antes tinham sido tão graves, tão intensas. tão carregadas de emoção. Quando Geraldo se foi embora, Pelé o acompanhou-o até à porta, deu mais um abraço e disse uma última coisa. Sabe o que é o mais engraçado disto tudo? Nesse dia disse que tinha estudado todos os meus penáltis, que eu rematava sempre no mesmo canto.
Mas a verdade é que tinha razão. Eu rematava sempre no canto esquerdo. Sempre. Geraldo arregalou os olhos. Então, por que razão mudou? Pelé deu de ombros. Porque me desafiou e eu nunca recuso um desafio. Geraldo regressou a Minas nessa noite. Viveu mais 15 anos. Morreu em paz, rodeado pela família, sem nunca mais falar publicamente sobre aquele jogo.
Mas no velório, o filho mais velho contou uma história. Disse que o pai guardava uma fotografia no escritório. Uma foto velha, amarelecida pelo tempo, era a foto do penálti, o momento exato em que a bola saía do pé de Pelé em direção ao golo. Geraldo estava parado na linha, os braços abertos ao olhar paraa bola, que já era inalcançável.
O filho disse que quando era criança, perguntou ao pai porque é que ele guardava aquela foto. Porquê manter uma recordação de um momento tão difícil? E o Pai respondeu: “Porque essa foi a noite em que conheci a grandeza de verdade. E a grandeza de verdade não está em nunca perder, está na forma como trata os outros, mesmo quando ganha.
” Esta história nunca foi contada em livros, nunca apareceu em documentários, nunca foi tema de reportagem especial na televisão, mas aconteceu. Aconteceu numa pequena cidade do interior de Minas Gerais, numa noite de 1967, quando um guarda-redes arrogante resolveu provocar o maior jogador que o mundo já viu.
E o rei mostrou mais uma vez porque era chamado de rei. Sabe o que é mais interessante em tudo isto? Não é o golo, não é a humilhação, não é sequer o reencontro 20 anos depois. O mais interessante é o que esta história revela sobre Pelé enquanto pessoa. Porque olhe, o futebol daquela época era diferente, muito diferente. Não tinha proteção para jogador, não tinha câmara apanhando cada lance, não havia punição severa para quem entrava com violência.
Era um tempo em que o tipo tinha que se defender sozinho, tinha de impor respeito com atitude, tinha de mostrar que não ia aceitar desaforos de ninguém. E o Pelé fazia isso, mas fazia da maneira dele, com classe, com inteligência, com uma combinação de habilidade técnica e força mental que muito poucos jogadores na história conseguiram ter.
Quantos outros teriam perdido a cabeça naquela situação? Quantos teriam partido paraa briga depois da primeira provocação? A quantos teriam deixado a raiva tomar conta e comprometido o próprio desempenho? O Pelé não. Pelé guardou, esperou, planeou e executou da forma o mais devastador possível, não com violência física, não com gritos ou ameaças, mas com o futebol, com o único língua que dominava como ninguém.
E isso, meu amigo, é o que separa os grandes dos lendários. Mas vamos continuar, porque esta noite em Minas Gerais não foi um caso isolado, foi um exemplo do que acontecia constantemente na carreira de Pelé. os os desafios, as provocações, os adversários que pensavam que iam conseguir intimidá-lo e a resposta sempre devastadora que dava em campo.
Teve um jogo, por exemplo, em 1965 contra uma equipa da Argentina. Não era um jogo oficial, era daquelas partidas beneficentes que o Santos fazia pelo continente. Mas para a equipa argentina era mais do que isso. A era uma hipótese de humilhar o Brasil, de provar que o futebol do país vizinho era superior. O jogo foi em Buenos Aires.
O estádio estava lotado. A claque fazia uma barulho infernal e a equipa argentina havia um defesa que tinha feito uma declaração nos jornais dizendo que ia mostrar ao mundo que Pelé não era tudo isso. O seu nome era Roberto Montoia, defesa violento, daqueles que não tinham medo de nada, que entrava duro em todo o lance, que usava cotovelo, ajoelhada, pisão, o que fosse necessário para travar o adversário.
Pelé soube da declaração antes do jogo, leu no jornal e não disse nada. Mas os Os companheiros de equipa perceberam que ele estava diferente no balneário, mais focado, mais quieto, mais determinado. O jogo começou e Montoia foi para cima de Pelé logo nos primeiros minutos. Uma falta, duas faltas, três faltas, a todas as duras, todas perigosas e o árbitro não punia. Era assim naquela altura.
O juiz deixava correr o jogo e quem se desenrascasse. Aos 20 minutos, Montoia fez uma falta particularmente violenta. Entrou de sola na canela de Pelé. O brasileiro caiu e ficou no chão durante quase um minuto. Quando se levantou, tinha sangue a escorrer pela perna. Montoia aproximou-se e disse em espanhol: “Isto é só o começo brasileiro.
Quando o jogo terminar, você não vai conseguir andar.” Pelé olhou para ele, não respondeu, apenas olhou e seguiu jogando. Aos 35 minutos, surgiu a resposta. Pelé recebeu a bola na intermediária. Montoia veio a marcar, colou-se ao brasileiro, segurou a camisa, puxou o braço, fez tudo o que podia para impedir o avanço.
E aí, Pelé fez algo que ninguém esperava. Em vez de tentar passar pelo defesa, ele parou. Simplesmente parou, segurou a bola e ficou a olhar para Montoia. O defesa não entendeu. Achou que Pelé tinha desistido da jogada. relaxou a marcação por um segundo. Um único segundo foi o suficiente. Pelé fez um drible seco, tão rápido que Montoia nem viu a bola passar.
O defesa tentou acompanhar, mas as pernas não obedeceram. Caiu sozinho no chão, olhando para o céu enquanto Pelé seguia em direção à baliza. Mais um veio defesa. Pelé passou por ele também, outro veio. Mesmo destino. Quando chegou à zona, só tinha o guarda-redes. Pelé bateu no canto. Golo! O estádio ficou em silêncio.
A torcida argentina não podia acreditar. O equipa inteira não conseguia acreditar. E Montoia, ainda no chão, lá atrás, olhava pro alto como se perguntasse aos deuses do futebol o que tinha acabado de acontecer. Pelé festejou discreto, levantou o braço, acenou à torcida e quando voltou para o meio campo, passou por Montoia, que ainda estava a se levantando.
Estava a perguntar como ia terminar o jogo, não é? Pelé disse em espanhol perfeito. Já viu? O jogo terminou 4-1 para o Santos. Pelé fez dois golos e fez duas assistências. Montoia saiu de campo destruído, não só fisicamente, mas mentalmente. A sua carreira nunca mais foi a mesma depois dessa noite. E olhem, eu sei que vocês podem estar pensar, está bem, mas isso são histórias de jogo.
Todo o grande jogador tem histórias assim. E é verdade, tem. Mas com Pelé era diferente, porque não era só o que fazia em campo, era como ele lidava com tudo o que estava à volta, as pressões, as tentações, os perigos. Porque naquela altura jogar futebol não era só jogar futebol, era lidar com dirigentes corruptos, a com apostadores querendo comprar resultados, com ameaças de todo o tipo.
E Pelé passou por tudo isto sem nunca se sujar. Teve um episódio, por exemplo, em 1961, o Santos ia jogar uma final importante, Campeonato de São Paulo. O adversário era forte, a pressão era enorme. E na véspera do jogo, apareceram três homens no hotel onde a equipa estava concentrada. Não eram jornalistas, não eram adeptos, eram homens de fato, homens sérios, homens que claramente tinham dinheiro e influência.
Pediram para falar com Pelé. O funcionário do hotel hesitou, mas os homens insistiram. Disseram que era importante, que era sobre negócios. Pelé aceitou a conversa, desceu para o lobby do hotel, encontrou os três homens sentados a um canto, afastados de todo mundo. O mais velho deles foi direto ao assunto.
Ah, estamos dispostos a pagar muito dinheiro para não jogar bem amanhã. Pelé ouviu em silêncio. Não precisa de perder o jogo. O homem continuou. Só precisa de não jogar bem. Falha uns passes, perde umas bolas, deixa a partida equilibrada. Nós cuidamos do resto. O valor que ofereceram era absurdo. Era mais do que Pelé ganhava em um ano inteiro no Santos.
Era dinheiro para mudar de vida, para comprar casas, automóveis, segurança paraa família. E adivinhem o que fez o Pelé? Ele levantou da cadeira, caminhou até ao telefone mais próximo, ligou para o delegado que conhecia na cidade e disse em voz alta a todo o mundo no átrio ouvir: “Há três homens aqui a tentar subornar-me.
Quero eles presos antes do fim do dia. Os homens entraram em pânico, saíram a correr do hotel, nunca foram identificados, nunca foram presos. A mais também nunca mais apareceram perto de Pelé. No dia seguinte, o Santos venceu a final por 3 a 0. Pelé marcou dois golos, jogou a melhor partida da época e quando os os jornalistas perguntaram o que tinha motivado aquele desempenho especial, ele apenas disse: “Há coisas que valem mais do que dinheiro”.
Esta história também não apareceu nos livros, também não se tornou documentário, mas aconteceu e mostra uma coisa fundamental sobre quem era o Pelé de verdade. Porque olha, ser talentoso é uma coisa, tem muito jogador talentoso por aí. Tem muito cara que nasceu com habilidade, com visão de jogo, com capacidade técnica acima da média.
Mas poucos têm carácter, poucos têm integridade, poucos conseguem resistir às tentações que vêm junto com a fama e o sucesso. Pelé resistiu à vida inteiro, mesmo quando era jovem e poderia ter sido corrompido. Mesmo quando o dinheiro era tentador e ninguém ia descobrir, mesmo quando seria mais fácil seguir o caminho errado, ele escolheu o certo sempre.
E é isso que faz dele mais do que um grande jogador. É isso que faz dele uma lenda. Mas vamos voltar ao campo porque ainda há muita história para contar. Tinha um O guarda-redes italiano, por exemplo, que jurava que ia parar o Pelé no Mundial do Mundo de 1970. O seu nome era Henrique Albertos, O guarda-redes do Kaglery, que tinha sido campeão italiano nesse ano, um dos melhores da Europa.
O gajo achava que tinha visto de tudo, que não tinha atacante que não conseguisse ler, que tinha reflexos, posicionamento, experiência suficiente para lidar com qualquer um. Depois veio a final da Taça. Brasil contra Itália, o maior palco do futebol mundial. E Albertosi estava lá confiante, pronto para fazer história. No balneário antes do jogo, dizem que o técnico italiano reuniu os jogadores e falou sobre a importância de manter a disciplina, de não se deixar levar pela emoção, de jogar com a cabeça fria.
E Albertos levantou a mão e disse: “Não se preocupe, treinador. Eu estudei os remates do Pelé. Sei exatamente onde ele vai chutar em cada situação. Ele não vai passar por mim. Os companheiros de equipa sorriram, acreditavam nele. Albertos era um guarda-redes de Copa do Mundo, tinha experiência, tinha qualidade.
Se ele dizia que ia parar Pelé, então ia parar. Aí o jogo começou e logo nos primeiros minutos, Pelé mostrou do que era capaz. Não marcou o golo de imediato, mas criou jogadas. Participou. organizou. Era o maestro de uma orquestra perfeita. Aos 18 minutos, surgiu o primeiro golo. Não foi de Pelé, foi de cabeça do Tostão.
Na verdade, não. Foi do Pelé mesmo. Golo de cabeça. Um pulo impressionante. A bola entrou forte no canto. Albertos nem viu. O O guarda-redes italiano levantou-se do chão e olhou para o céu. Não entendia. Ele tinha estudado, tinha-se preparado e mesmo assim não conseguiu fazer nada. O jogo continuou, a Itália empatou, a tensão aumentou e no segundo tempo, o Brasil começou a jogar um futebol que entrou para história.
Golo atrás de golo, jogada atrás de jogada. Era uma demonstração de superioridade absoluta. Pelé participou de tudo, deu assistência ao terceiro golo, dominou a bola no peito antes do quarto, comandou cada ataque como se estivesse a brincar e Albertos. O guarda-redes que tinha prometido pará-lo tornava-se cada vez mais desesperado. No final, 4-1.
O Brasil era tricampeão mundial e Pelé era definitivamente o maior jogador que o mundo já tinha visto. E depois do jogo, um jornalista italiano conseguiu entrevistar a Albertose. Perguntou o que tinha dado errado, por as promessas de travar Pelé não se tinham concretizado. Albertose ficou em silêncio durante um momento, depois disse: “Pode estudar Pelé o quanto quiser, pode analisar cada movimento, cada pontapé, cada jogada, mas quando está em campo, nada do que estudou funciona, porque ele não joga como os outros, não pensa como os outros,
ele é algo diferente, algo que nós não consegue compreender.” Esta declaração nunca foi muito divulgada. Perdeu-se no tempo, nos arquivos de jornais antigos que ninguém mais lê. Mas ela resume perfeitamente o que era defrontar Pelé. Não era só habilidade, era uma presença, uma força, algo que ia para além do físico, do técnico, do tático.
Era puro instinto, pura genialidade, pura magia. E quem teve a sorte de ver isto ao vivo sabe do que eu estou a falar. Mas nem tudo na carreira de Pelé foram glórias. Teve momentos difíceis também, momentos de dúvida, de dor, de quase desistir. Teve uma lesão, por exemplo, em 1966, que quase acabou com a sua carreira. Campeonato do Mundo na Inglaterra.
Pelé chegou como favorito. O mundo inteiro esperava que ele brilhasse, que repetisse os feitos de 1958 e 1962. Mas não foi assim que aconteceu. Os adversários tinham aprendido. Sabiam que não conseguiam parar Pelé a jogar limpo. Então decidiram jogar sujo, muito sujo. No jogo contra Portugal, Pelé foi massacrado. Literalmente massacrado.
Os portugueses entravam em força em todo o lance. Cotovelo, pisão, carrinho por trás. Era caça ao rei. E o árbitro não não fazia nada. Deixava correr o jogo, deixava passar as faltas. Era como se tinha um acordo tácito de que Pelé podia ser agredido à vontade. No final do primeiro tempo, Pelé jama conseguia andar. A perna esquerda estava inchada.
Cada passo era uma tortura. Mas ele continuava. Não queria sair, não queria abandonar os companheiros. No segundo tempo surgiu a falta definitiva. Morais, o defesa português, entrou de carrinho por trás com tanta força que Pelé caiu e não conseguiu mais levantar-se. Saiu de campo carregado. O Mundial tinha acabado para ele.
No balneário, Pelé chorou. Chorou de raiva, chorou de frustração, chorou porque sabia que não tinha sido derrotado a jogar, tinha sido caçado. Depois desse jogo, declarou que nunca mais ia jogar outro Mundial. Estava cansado. Cansado da violência, cansado da falta de proteção, cansado de ser tratado como um alvo. Não vale a pena.
E disse num desabafo que poucos viram: “Eu adoro o futebol, mas o futebol não me ama de volta. Os meses seguintes foram difíceis. A lesão demorou a curar. O estado emocional era ainda pior. Pelé pensou seriamente em se aposentar, em abandonar tudo, em seguir com a vida longe dos campos.
Mas depois aconteceu algo que mudou tudo. Era uma noite comum em Santos. Pelé estava em casa a assistir televisão, tentando não pensar em futebol. De repente, a campainha tocou. Ele foi abrir. Do lado de fora tinha um menino. Não devia ter mais de 10 anos, descalço, roupa rasgada, claramente de família pobre. O menino olhou para Pelé com os olhos cheios de água e disse: “Senhor Pelé, vim pedir ao senhor não parar de jogar.
O senhor é a única coisa boa que aconteceu na minha vida. Quando assisto ao Senhor jogar, eu esqueço-me de tudo. Eu esqueço-me que não tenho pai. Eu esqueço-me que a gente não tem dinheiro para comer como deve ser. Eu esqueço-me de tudo. Se o senhor parar, eu não sei o que vai ser de mim. Pelé ficou em silêncio durante um longo momento, olhou para o menino, olhou para os olhos cheios de esperança, de admiração, de fé, e sentiu alguma coisa mudar dentro de si.
Convidou o menino para entrar, deu comida. Conversaram por horas. O menino contou a história da vida dele, as dificuldades, os sonhos, a vontade de um dia ser jogador de futebol como o ídolo. Quando o menino se foi embora, levando consigo uma bola autografada e a promessa de que Pelé ia continuar a brincar, o rei ficou sozinho na sala, pensando, refletindo, e decidiu que não ia parar.
Não por ele, não pelos títulos, não pela fama, mas por aquele menino, por todos os meninos e meninas que viam nele uma inspiração, uma razão acreditar que as coisas boas eram possíveis. Dois anos depois, em 1970, Pelé esteve no México, Mundial, a última da carreira, e desta vez ninguém ia impedi-lo. O Brasil jogou o futebol mais belo que o mundo já tinha visto.
E Pelé estava no centro de tudo, comandando, organizando, fazendo magia em cada jogo. Quando levantou a taça de tricampeão, Pelé pensou naquele rapaz de Santos. pensou em todos os outros meninos que estavam a assistir naquele momento e sorriu porque sabia que tinha feito a escolha certa.
Esta história do menino também não aparece nos livros, mas aconteceu e mostra o lado de Pelé que poucos conheceram, o lado humano, o lado que via no futebol mais do que um desporto, por via de uma ferramenta de transformação, uma forma de dar esperança para as pessoas. E é por isso que ele é eterno. Ah, mas vamos continuar, porque ainda há muito para contar.
Depois de 1970, Pelé jogou mais uns anos no Santos. Foram anos gloriosos ainda, golos, títulos, momentos mágicos, mas também foram anos de despedida. Todo mundo sabia que o fim estava a chegar. Em 1974, Pelé retirou-se do futebol brasileiro. O último jogo pelo Santos foi uma emoção só. Estádio lotado, adeptos a chorar, jogadores adversários a aplaudir.
Era o fim de uma era, mas a história não acabou aí, porque um ano depois, em 1975, Pelé fez algo que surpreendeu o mundo. Aceitou uma proposta para jogar nos Estados Unidos, no New York Cosmos. Um equipa de um país que mal sabia o que era futebol. Muita gente criticou. disse que Pelé estava a vender-se, que ia atrás de dinheiro, que andava a trair o futebol brasileiro.
Mas Pelé tinha um motivo, algum motivo que ele revelou anos depois numa entrevista pouco conhecida. Eu fui aos Estados Unidos porque queria que o mundo inteiro conhecesse o futebol, não só a América do Sul, não só a Europa, o mundo inteiro. E a única forma de o fazer era levar o futebol para onde ele não existia, fazer crescer o desporto no maior país do mundo.
E foi exatamente isso que ele fez. Nos três anos em que jogou no Cmos, Pelé transformou o futebol americano. Os estádios que antes ficavam vazios passaram a encher. As crianças que antes só jogavam O basquetebol e o futebol americano começaram a pontapear bola. As transmissões televisivas passaram a mostrar jogos de futebol.
Pelé plantou uma semente e hoje, décadas depois, os Os Estados Unidos são uma potência no futebol feminino e crescem cada vez mais no masculino. Isso é legado, isso é grandeza. Mas nem tudo foram rosas nos Estados Unidos. Houve confrontos, também teve momentos tensos. Houve gente que não aceitava a presença de um negro brasileiro a ser tratado como rei em terras americanas.
Houve um jogo, por exemplo, em 1976 contra uma equipa do sul do país, região conservadora, público hostil e alguns adeptos que não escondiam o racismo. Pelé entrou em campo e ouviu de tudo. Insultos, insultos, coisas que um homem não deve ouvir de outro homem. Mas ele não reagiu, não brigou, não se queixou, simplesmente jogou. marcou dois golos nessa partida.
O Cosmos venceu facilmente e no final, quando ia para o balneário, Pelé passou pela claque adversária, parou, olhou para eles e sorriu. Não era um sorriso de provocação, era um sorriso de pena, de quem sabe que aquelas pessoas nunca vão compreender o que acabaram de ver e que vão passar a vida inteira presas no próprio ódio enquanto ele segue livre, fazendo o que ama.
Depois do jogo, um jornalista norte- perguntou como é que Pelé lidava com o racismo. Com futebol, respondeu: “Quando estou em campo, não importa a cor da minha pele, não importa de onde eu vim, só importa o que eu faço com o bola e a bola não vê cor”. Esta resposta tornou-se viral na época, foi publicada em jornais por todo o país e mudou a forma como muitos americanos viam o futebol e os jogadores estrangeiros.
Pelé não era apenas um atleta, era um embaixador, um transformador, alguém que utilizava o desporto para mudar mentalidades. Mas vamos recuar um pouco no tempo, porque quero contar uma história que muito poucas pessoas conhecem. Uma história que aconteceu em 1969, logo a seguir ao milésimo golo de Pelé. O milésimo golo, sabem, ah, foi um evento mundial, decorreu no Maracanã.
O estádio parou, o Brasil parou, o mundo parou. Era o maior marco da história do futebol até então, mas o que ninguém sabe é o que aconteceu depois. Na noite do milésimo golo, Pelé voltou a para o hotel onde o Santos estava hospedado. Estava exausto, emocionalmente drenado. Queria só dormir e processar tudo o que tinha acontecido.
Mas quando chegou ao quarto, encontrou um envelope debaixo da porta. O envelope não tinha remetente, não tinha identificação, apenas uma folha de papel com uma mensagem escrita à mão. A mensagem dizia: “Parabéns pelo milésimo golo, mas lembra-te que ainda tem muito a fazer. Não deixe que a fama subir a cabeça.
Continua a ser quem você é”. Pelé leu-o várias vezes, tentou descobrir quem tinha mandado, perguntou aos funcionários do hotel, perguntou aos companheiros de equipa. Ah, ninguém sabia de nada. A identidade do autor daquela mensagem permaneceu um mistério por anos. Até que em 1985, num evento em São Paulo, Pelé finalmente descobriu. Era o Garrincha.
Manega Rincha, o outro génio do futebol brasileiro, tinha mandado aquela mensagem, não tinha assinado porque achava que Pelé não ia levar a sério se soubesse que era dele. Queria que a mensagem falasse por si. Quando Pelé descobriu, procurou Garrincha, quis agradecer, quis conversar sobre aquela noite, sobre aquela mensagem, sobre tudo o que ela significava.
Mas Garrincha, como sempre, desconversou. disse que não era nada, que tinha escrito por impulso, que não precisava de agradecimento. Os dois nunca mais falaram sobre o assunto, mas Pelé guardou aquela mensagem, guardou-a para toda a vida. E quando Garrincha morreu, em 1983, a Pelé chorou como não tinha chorado em muito tempo, porque sabia que tinha perdido não só um colega de profissão, tinha perdido um irmão, um dos poucos que realmente compreendia o que era ser Pelé.
A rivalidade entre Pelé e Garrincha é famosa, toda a gente conhece, mas o que poucos sabem é que por detrás desta rivalidade tinha uma amizade profunda, um respeito mútuo, uma admiração que nenhum dos dois expressava em público, mas que existia de verdade. Pelé uma vez disse numa entrevista que quase ninguém viu.
Garrincha era melhor do que eu em algumas coisas. O drible dele era impossível de copiar. A alegria que tinha em campo era impossível de fingir. Eu era mais completo, talvez, mas era mais livre. E sempre invejei essa liberdade. Esta declaração mostra um lado de Pelé que não aparece nos documentários. O lado humilde, o lado que reconhecia a grandeza dos outros, o lado que não tinha medo de admitir que não era perfeito.
E é isso que faz dele ainda mais especial. Porque olha, é fácil ser arrogante quando se é o melhor do mundo. É fácil pensar que não se deve nada a ninguém. É fácil fechar-se numa bolha de elogios e lisonjas. Pelé não fez isso, nunca fez. Manteve os pés no chão durante toda a sua carreira, respeitou os adversários, admirou os companheiros e lembrou-se sempre de onde tinha vindo.
Porque não nos podemos esquecer, Pelé veio da pobreza. Nasceu em Três Corações, interior de Minas Gerais. cresceu em Bauru, em condições muito humildes. O pai era jogador de futebol, mas nunca ganhou muito dinheiro. A família passava dificuldades. O jovem Edson engrachava sapatos para ajudar em casa, vendia amendoins nos comboios, a fazia o que podia para colocar comida na mesa e mesmo quando se tornou o maior jogador do mundo, nunca esqueceu desses tempos.
Teve uma entrevista nos anos 80, depois de reformado, em que um jornalista perguntou qual tinha sido a maior conquista da carreira de Pelé. E a resposta surpreendeu toda a gente. Não foi o Mundial de 58, não foi o Mundial de 70, não foi o Milésimo Golo, não foi nenhum título, troféu ou prémio. Pelé disse: “A maior conquista foi poder dar uma vida digna à minha mãe, ver ela sair daquela casa pequena e viver num lugar confortável, vê-la sem precisar de se preocupar com dinheiro.
Isso vale mais do que qualquer título. Dona Celeste, a mãe de Pelé, foi sempre a sua maior adepta. Estava em todos os jogos, rezava antes de cada partida. E quando o filho marcava um golo, ela chorava de emoção. Aí não importava se era o primeiro ou o milésimo, ela chorava igual. E Pelé retribuía esse amor de todas as formas possíveis.
Comprou casa paraa mãe, cuidou dela até ao fim. e sempre fez questão de dizer que sem ela nada daquilo teria sido possível. A minha mãe ensinou-me a ser honesto, a trabalhar muito, a respeitar os outros. Tudo o que sou, devo-o a ela. Esta relação entre Pelé e a dona Celeste é um dos aspetos mais belos da vida dele e mostra que por detrás de toda a fama, de toda a glória, de todos os holofotes, existia um homem simples, um homem que amava a família, um homem que nunca se deixou perder no sucesso.
Mas voltemos às histórias de campo, porque eu sei que é isso que vocês querem ouvir. Teve um jogo em 1963 que ficou famoso entre os jogadores da época, mas que quase nunca é referido nos documentários modernos. Foi uma partida do Santos contra o São Paulo no Morumbi. A rivalidade entre os dois equipas era intensa, muito mais intensa do que é hoje.
Os jogos eram guerras, verdadeiras batalhas em campo. Nessa partida específica, o São Paulo tinha um lateral chamado Hildo. Hildo era conhecido por ser um marcador implacável. Não tinha medo de ninguém. Entrava duro em todo o lance. Era o tipo de jogador que os adversários temiam. Antes do jogo, Rildo foi ao balneário dos Santos, bateu à porta, pediu para falar com Pelé.
Os jogadores do Santos ficaram surpreendidos. Não era comum adversário aparecer no balneário antes da partida, mas Pelé aceitou conversar. Os dois foram para o corredor. Hildo olhou para o rei e disse: “Pelé, eu quero avisar-te uma coisa. Hoje vou marcar-te e vou marcar de verdade, não importa o que eu tenha de fazer. Ai, não vai passar por mim.
Pelé ouviu em silêncio, depois sorriu. Está bom, Rildo, boa sorte. E foi só isso. Voltou para o balneário, sem mais nenhuma palavra. O jogo começou e Hildo fez exatamente o que tinha prometido. Marcou Pelé homem a homem, colou-se ao brasileiro. Não dava um segundo de sossego, era uma marcação asfixiante. Os primeiros 20 minutos, Pelé mal conseguiu tocar na bola.
Hildo estava em cima dele o tempo todo. A claque do São Paulo gritava o nome do lateral. Parecia que a estratégia estava a funcionar, mas aí aos 23 minutos, aconteceu algo que ninguém esperava. Pelé recebeu a bola de costas para a baliza. Rildo estava colado nele, como de costume. Os outros jogadores do Santos estavam marcados.
Não tinha passe, não tinha saída. Qualquer outro jogador teria devolvido a bola, teria esperado e teria tentado outra jogada. O Pelé não. De costas para o golo, sem olhar, deu um toque por cima da própria cabeça. A bola passou por cima de Hildo. Pelé rodopiou e pegou na bola do outro lado.
Hildo, completamente perdido, tentou acompanhar, mas foi tarde demais. Pelé estava livre, correu para a baliza, passou por mais um defensor, bateu cruzado, a bola entrou no ângulo. O Morumbi, repleto de são-paulinos, ficou em silêncio absoluto. Durante 2, 3 segundos, ninguém conseguia acreditar no que tinha acabado de ver.
Era um golo impossível, um lance que desafiava a lógica do futebol. Hildo ficou parado no lugar onde Pelé tinha feito o primeiro drible. Olhando para o vazio, tentando entender o que tinha acontecido. Depois do jogo, os os jornalistas perguntaram a Pelé sobre aquele lance, como ele tinha pensado naquilo, a como tinha executado de forma tão perfeita.
Pelé encolheu os ombros. Não pensei, simplesmente fiz. Quando se joga desde criança, as as coisas acontecem naturalmente. Você não precisa de pensar. O seu corpo sabe o que fazer. Esta resposta resume perfeitamente o que era Pelé em campo. Não era só técnica, não era só inteligência tática, era puro instinto, era o jogo incorporado no corpo de tal forma que não havia separação entre pensamento e ação.
E isso é algo que não se ensina. Você nasce com ele ou não nasce? Mas deixem-me contar outra história, uma que vai mostrar um lado diferente do Pelé, um lado mais negro, mais perigoso. Estávamos em 1968. O Santos estava em digressão por África. Jogou em vários países, levou o futebol brasileiro para locais que nunca tinham visto nada igual. Foi um enorme sucesso.
Mas numa das paragens, há num país que eu prefiro não nomear por razões que vão ficar claras, aconteceu um incidente que quase custou a vida a Pelé. O Santos chegou à capital daquele país e foi recebido com honras. O presidente local era fã de futebol, queria conhecer o Pelé pessoalmente.
Fez um jantar no palácio presidencial, convidou os jogadores todos. Era um evento formal, terno e gravata, comida farta, música ao vivo. Parecia um sonho, mas algo estava errado. Durante o jantar, Pelé apercebeu-se que algumas pessoas olhavam para ele de forma estranha. Não era admiração, era outra coisa. Era como se estivessem avaliando, medindo.
Quando a noite estava a chegar ao fim, o presidente se aproximou-se de Pelé e pediu para conversar em particular. disse que tinha uma proposta, uma proposta que poderia mudar a vida do jogador. E Pelé acompanhou o presidente até um gabinete privado. A porta foi fechada, os seguranças ficaram do lado de fora e depois o presidente fez a proposta.
Ele queria que Pelé ficasse no país permanentemente. Disse que ia dar dinheiro, casas, terras, tudo o que o jogador quisesse. Em troca, Pelé jogaria na equipa nacional. seria o símbolo do país, o rosto de uma nação. Pelé recusou educadamente. Disse que era brasileiro, que o seu coração estava no Santos, que não podia abandonar a equipa que o tinha feito, quem ele era.
O presidente insistiu, ofereceu mais dinheiro, mais terra, mais poder. Pelé recusou de novo e aí o tom da conversa mudou. O presidente se aproximou-se de Pelé e disse a voz baixa, mas firme. Você não compreende. Não estou pedindo. Estou a dizer. Você vai ficar aqui e se tentar sair, não vai conseguir. Pelé percebeu, mas naquele momento, que estava em perigo real, que aquele homem não era apenas um fã de futebol, era um ditador, um homem habituado a conseguir tudo o que queria a qualquer custo.
Mas Pelé não demonstrou medo. Olhou nos olhos do presidente e disse: “Se eu não voltar para o Brasil, o mundo inteiro vai conhecer e o mundo inteiro virá atrás de mim. O senhor pode ser presidente aqui, mas lá fora eu sou Pelé e isso significa mais do que qualquer cargo político. O presidente ficou em silêncio durante um longo momento.
Estava claramente avaliando a situação, pensando nas consequências. Finalmente recuou. “Vai-te embora”, disse. “Mas saiba que está a cometer um erro. Eu poderia tê-lo tornado muito mais rico do que nunca será no Brasil. Pelé não respondeu. Saiu do escritório, reuniu os companheiros de equipa e pediu para irem embora imediatamente nessa mesma noite.
O Santos deixou o país às 3 da manhã num voo fretado que Pelé pagou do próprio bolso. Ninguém dormiu durante a viagem. Toda a gente estava tenso, olhando pelas janelas, esperando que algo acontecesse. Mas nada aconteceu. O avião levantou voo, atravessou a fronteira e só então os jogadores respiraram de alívio. Esta história nunca foi contada publicamente.
Os jogadores que lá estavam fizeram um pacto de silêncio. Não queriam criar problemas diplomáticos, não queriam atrair a atenção negativa pro futebol brasileiro. Mas aconteceu e mostra que a vida de Pelé não era só glória e sucesso. Tinha perigos reais, tinha momentos de medo, tinha situações que poderiam ter acabado muito mal.
E Pelé sobreviveu a tudo isto com inteligência, com coragem, com a consciência de que o seu nome, a sua fama, sua lenda, eram proteções mais poderosas do que qualquer exército. É isto que significa ser uma figura histórica de verdade. Não é só ganhar jogos, é navegar por um mundo complexo, perigoso, cheio de armadilhas e sair do outro lado ainda mais forte.
Vamos avançar um pouco mais no tempo porque eu Quero falar sobre o Pelé depois da reforma. O Pelé, empresário, embaixador, figura pública. Muita gente critica as coisas que Pelé fez depois de deixar de jogar, as publicidades, os produtos que ele endossou, as declarações polémicas que deu de vez em quando.
E eu compreendo as críticas, algumas eram justas. Pelé não era perfeito, ninguém é. Mas o que as pessoas não compreendem é o contexto. Pelé foi um dos primeiros atletas do mundo a tornar-se uma marca global. Não tinha manual para tal, não tinha precedentes. Ele estava a navegar num território desconhecido e fê-lo numa época em que os atletas negros, sobretudo vindos do terceiro mundo, não tinham voz, não tinham poder, não tinham representação.
Pelé abriu portas, mostrou que era possível, mostrou que um rapaz pobre do interior de Minas Gerais podia tornar-se a pessoa mais famosa do planeta. podia sentar-se com presidentes, reis, papas, podia influenciar milhares de milhões de pessoas. E isso tem um preço, tem um custo, porque quando se é tão grande, toda a gente quer um pedaço de si.
Todo o mundo quer utilizar o seu nome, a sua imagem, a sua reputação pros próprios interesses. Pelé teve de aprender a lidar com isso e nem sempre acertou, mas manteve sempre a essência, manteve sempre a dignidade, sempre manteve a posição de representante do futebol brasileiro no mundo. Teve uma cena em 1995. O Kik resume bem isso.
Pelé estava num evento internacional a conversar com líderes mundiais. Um deles, um político europeu importante, aproximou-se e disse em tom de gozo: “Então tu és o famoso Pelé, aquele que jogava futebol?” A forma como ele disse jogava futebol era claramente depreciativa, como se o futebol fosse algo menor, algo não digno de atenção.
Pelé sorriu educadamente e respondeu: “Sim, eu jogava futebol e graças a isso, hoje tenho mais influência do que a maioria dos políticos desse evento. Então, talvez o senhor devesse reconsiderar o que é importante ou não.” O político ficou vermelho, não tinha resposta. E todos à volta ouviram. Esta é uma das coisas que mais admiro no Pelé.
Ele sabia exatamente quem era. Sabia o tamanho do próprio legado e não deixava ninguém, por mais poderoso fosse, a diminuir isso. Não era arrogância, era a consciência, era o entendimento de que ele representava algo maior do que ele próprio. Representava o futebol, representava o Brasil, representava milhões de pessoas que sonhavam em realizar o impossível.
E ele carregou esse peso com dignidade até ao fim. Mas deixa-me contar mais uma história de campo. Uma das minhas favoritas. Aconteceu em 1962, pouco antes do Campeonato do Mundo no Chile. O Santos estava a treinar em São Paulo. Era uma sessão normal. Aquecimento, passes, remates, rotina de qualquer equipa profissional.
Mas no final do treino, um adepto conseguiu invadir o campo. Era um homem mais velho, claramente humilde, que tinha saltado o alambrado e corria em direção aos jogadores. Os seguranças foram atrás dele, iam expulsá-lo, iam talvez até chamar a polícia, mas mais Pelé levantou a mão e mandou os seguranças pararem.
O homem chegou ofegante até onde Pelé estava, caiu de joelhos, pegou na mão do jogador e disse: “Pelé, o meu filho está a morrer, está no hospital. Ele é o seu maior fã. A única coisa que ele quer antes de ir é conhecer-te. Por favor, por favor, vai lá vê-lo. Pelé ficou em silêncio por um momento, olhou para o homem, olhou para os companheiros de equipa, olhou para o técnico e disse: “Vamos agora”.
Abandonou o treino, pegou num carro, foi até o hospital indicado pelo homem. Quando chegou, encontrou um rapaz de cerca de 12 anos deitado numa cama de hospital, magro, pálido, claramente muito doente. Mas quando o menino viu Pelé entrar no quarto, algo mudou. Os olhos se iluminaram. Um sorriso surgiu no rosto.
Por momentos, a doença não existia. Só existia a alegria de conhecer o ídolo. A Pelé sentou-se na beira da cama, conversou com o menino durante mais de uma hora. contou histórias de jogos, prometeu dedicar um golo na próxima partida, assinou uma bola, tirou fotografias. Quando se foi embora, o menino estava em paz.
O pai chorava de gratidão e Pelé prometeu voltar. O menino morreu duas semanas depois, mas morreu feliz. Morreu tendo realizado o maior sonho da vida. Pelé foi ao velório discretamente, sem holofotes, sem câmaras, estava lá como ser humano, não como celebridade, e ficou até ao fim. Depois procurou a família, ajudou nas despesas do funeral, continuou a ajudar durante anos, financeiramente e de outras formas.
Esta história nunca apareceu nos jornais da época. A família pediu privacidade e Pelé respeitou. Mas mostra quem ele era de verdade por detrás da lenda, por detrás dos golos, por detrás da fama. Era um homem que se preocupava, que via nas pessoas mais do que adeptos ou fãs, via seres humanos. E isso talvez ser o maior legado de todos. Vamos avançar de novo porque eu quero falar sobre os últimos anos de Pelé, os anos difíceis, os anos em que o corpo começou a falhar.
Pelé passou por várias cirurgias nos anos 2010 e 2020. Problemas na anca, problemas nos rins, problemas de saúde que eram consequência de uma carreira inteira de esforço físico extremo. Mas ele nunca reclamou, nunca se colocou como vítima. enfrentou cada desafio com a mesma determinação que tinha mostrado em campo.
Teve uma entrevista, já quando estava mais debilitado, em que perguntaram-lhe como lidava com o envelhecimento, com a perda da mobilidade, com o aproximar do fim. E a resposta foi típica de Pelé. Tive uma vida abençoada. Depois fiz o que amava, conheci o mundo, ganhei títulos, fiz história. Se morrer amanhã, morro em paz, porque sei que deixei algo para o mundo e enquanto o futebol existir, um parte de mim vai continuar viva.
Isto é sabedoria, isto é maturidade, isto é compreender que a vida é passageira, mas o legado pode ser eterno. E o legado de Pelé é, sem dúvida, eterno. Porque quando pensamos em futebol, pensamos em Pelé. Quando pensamos no Brasil, pensamos em Pelé. Quando pensamos em superar obstáculos, em vencer contra todas as probabilidades, em transformar um sonho improvável em realidade.
Pensámos em Pelé. Ele não era apenas um jogador, era um símbolo, um farol, uma prova de que as coisas extraordinárias são possíveis quando se tem talento, trabalho árduo e caráter. Pelé morreu em dezembro de 2022. Tinha 82 anos. O mundo inteiro parou para chorar. Presidentes enviaram condolências.
Estádios fizeram homenagens. Milhões de pessoas recordaram os golos, as jogadas. os momentos mágicos. Mas, para além de tudo isto, muitos lembraram das histórias menores, das gentilezas, dos gestos de humanidade, das vezes em que Pelé mostrou que era mais do que um atleta, era um ser humano completo. E é por isso é que eu faço este canal, por é isso que eu conto estas histórias, porque Pelé merece ser recordado não só pelos números, não só pelos títulos, mas pela pessoa que era.
E você que está ouvindo-me? Você que cresceu a ver Pelé? Você que viu os golos ao vivo ou nas repetições, você que sentiu a emoção de torcer pelo Brasil quando estava em campo, faz parte dessa história. Porque Pelé não pertence apenas ao futebol, pertence a todos nós, a todos os que amam o desporto, a todos os que acreditam na magia, a todos os que sabem que um menino pobre do interior de Minas pode tornar-se o maior de todos os tempos.
Assim, voltando àquela noite em Minas Gerais em 1967, quando Pelé colocou a bola na marca do penálti e olhou para o goleiro que tinha ido dele, quando anunciou exactamente para onde ia chutar, e fez assim mesmo, quando se aproximou do adversário caído e sussurrou aquelas palavras que mudaram uma vida, ele não estava só a marcar um golo, estava a mostrar quem ele era.
estava a provar que a grandeza de verdade não está em humilhar os outros, está em mostrar através das ações o que significa ser o melhor, o que significa ter carácter, o que significa merecer o título de rei e o guarda-redes que se riu, o guarda-redes que pensava que podia enfrentar o maior de todos os tempos.
A ele aprendeu a lição mais importante da sua vida nessa noite e viveu o resto dos dias lembrando que existem forças no mundo que não podem ser desafiadas, que há homens que são simplesmente maiores que outros, não em tamanho, não em força, mas em espírito. Pelé era um desses homens e sempre o será, porque as lendas não morrem, as lendas vivem para sempre.
E enquanto houver uma bola a ser pontapeada em algum lugar do mundo, enquanto houver uma criança a sonhar em ser jogador de futebol, enquanto houver alguém a recordar os golos, as jogadas, os momentos de magia, Pelé estará lá presente, eterno, o rei. Então, se você é um verdadeiro fã, se cresceu admirando este homem, se sente saudades dessa época em que o futebol era jogado com coração, com raça, com orgulho, subscreve o canal.
Comenta lá em baixo qual foi o momento de Pelé que mais o marcou. E fica ligado porque tem muito mais história para contar. Histórias que os livros não contam, histórias que só quem viveu aquela época conhece. Histórias do rei de Pelé, do maior de todos os tempos. Até à próxima.