O que Roberto Carlos fez naquele dia DESTRUIU sua amizade com Tim Maia

Tinha era genial, mas disperso. Iniciava 1 projetos e terminava poucos. tinha crises de fúria quando as coisas não saíam da maneira dele. O primeiro atrito grave aconteceu em 1959, quando o Roberto aceitou fazer uma apresentação a solo num programa de TV sem avisar a banda. Ele foi, cantou duas músicas e voltou contando como se não fosse nada de mais. Tinha explodido.

Como assim foi tocar sozinho? A gente é uma banda, fazemos as coisas em conjunto. O Roberto respondeu demasiado calmo. O que irritou tinha ainda mais. Relaxa, Tião, foi apenas uma apresentação. Mas não era só uma apresentação. Era o primeiro sinal de que Roberto via Desputnicks como trampolim e não como um projeto coletivo.

A banda desfez-se pouco depois, sem briga explícita, apenas um esvaziamento, onde cada um começou a seguir caminhos diferentes. Roberto ficou no Brasil construindo uma carreira a solo e aparecendo em programas de rádio conhecendo produtores. Tin tomou a decisão oposta. Em 1959, com 17 anos, decidiu ir para os Estados Unidos sem plano, sem convite, apenas com a ideia de aprender soul music de verdade e regressar como músico completo.

Tim esteve 4 anos nos Estados Unidos entre 1959 e 1963, vivendo no limite. Viveu em Boston, frequentou clubes de jazz em Harlem, tocou em bares que quase nada pagavam, mas davam palco a músicos negros. Foi aí que ele realmente compreendeu o Sou. R and Blues viu ao vivo James Brown, Wilson Picket, Sam Cook absorveu não só a música, mas a atitude, o balanço, a forma de interpretar com o corpo inteiro.

Isto que Tin aprendeu nos Estados Unidos foi o que depois o diferenciou de todos os cantores brasileiros. Ele tinha vivido aquilo de no interior, mas o preço foi altíssimo. Sem visto de trabalho legal, sobrevivia lavando pratos, tocando em esquinas e se envolveu com pequenos furtos e droga. Em 1964, foi detido por roubo e posse de maconhagem.

Ficou detido algumas semanas e foi deportado de volta ao Brasil sem nada. Enquanto isso, Roberto Carlos e Erasmo estiveram construindo algo que mudasse a cultura jovem brasileira. Em 1965, estreou-se na TV Record o programa Jovem Guarda. O programa explodiu. Chegou a ter 30 milhões de espectadores num país de 80 milhões. Roberto tornou-se o rei.

Vendia milhões de discos. Tinha fãs a desmaiar. Ganhava fortunas. Vivia em mansão. Andava de carro importado. Tim Maia regressou ao Brasil em 1964 e encontrou um país completamente diferente. A jovem guarda dominava. Roberto e Erasmo eram estrelas inalcançáveis ​​na TV e ele era um deportado sem dinheiro, sem casa.

Dormindo no sofá de familiares, tentou diversas vezes fazer contacto com Roberto. Ligava para a editora discográfica, para a produção do programa, enviava recados, mas nunca conseguia passar da secretária. O Roberto está em gravação. O Roberto viajou. Deixa um recado que a gente avisa. Para Tim. Aquilo era traição insuportável.

Ele tinha ensinado guitarra para o Roberto, tinha colocado Roberto na primeira banda, tinha sido o líder quando Roberto era apenas um miúdo inseguro e agora que precisava de ajuda, nem conseguia falar 5 minutos com o antigo amigo. A mágoa começou a crescer ali, alimentada por cada ligação não devolvido, por cada recado ignorado.

O episódio que partiu tudo ao meio teria acontecido entre 1965 e 1967, nos bastidores da TV Record. Segundo o que Tim contou anos mais tarde em entrevistas, conseguiu finalmente chegar perto de Roberto depois de meses tentando. Estava desesperado, sem conseguir tocar em lado nenhum, porque ninguém conhecia o seu trabalho.

Quando viu o Roberto nos corredores da TV, pediu ajuda. Roberto terá chamado um assessor e dito: “Dá lá um dinheiro ao Tião”. O assessor pegou em algumas notas, amassou numa bolinha e atirou-a no chão para Timegar à frente de outras pessoas. Tim contou que teve um acesso de choro naquele momento.

Pegou no dinheiro porque precisava, mas jurou que nunca perdoaria. Roberto sempre negou que este tenha acontecido. Disse que nunca soube de nada parecido e que nunca trataria um amigo daquela forma. Talvez tenha acontecido sem o Roberto se aperceber a dimensão da humilhação. Talvez o assessor tenha agido sozinho. Talvez o Tim tenha interpretado mal no auge do desespero.

Nunca saberemos a verdade completa. O que sabemos é que Tin carregou essa mágoa até morrer.  Aqui estava a acontecer algo brutal. Tin e Roberto tinham começado no mesmo local tocando juntos na Tijuca, mas as suas escolhas criaram destinos opostos. Roberto tinha ficado no Brasil, construiu relações na indústria, sido profissional, de confiança, agradável.

Em 1965 era o homem mais famoso do Brasil. Tin tinha ido para os Estados mergulhar na Soul Music, aprender de verdade, mas voltou sem nada para além do conhecimento musical. Essa diferença criava uma assimetria de poder insuportável. Não importa o quanto duas pessoas se gostem. Quando uma se torna ídolo milionário e a outra regressa deportado e quebrado, a relação nunca mais é entre iguais.

Vira-se entre quem tem poder de ajudar e quem precisa de ajuda. E isso mata a amizade porque cria vergonha de um lado e desconforto do outro. A indústria musical dos anos 60 funcionava através de redes de influência extremamente fechadas. Não bastava ter talento, era necessário conhecer as pessoas certas, ser indicado por alguém de dentro.

Roberto tinha construído esta rede com cuidado. Conhecia todos os directores de gravadora, todos os produtores de TV. Quando o Roberto recomendava alguém, as portas abriam-se, mas ele aparentemente nunca o fez por Tim. Alguns especulam que Roberto tinha vergonha da rebeldia de Tim, da forma explosivo dele, do histórico de detenção. Roberto estava a construir imagem limpa de bom rapaz bem comportado e talvez não quisesse arriscar essa imagem, associando-se a alguém problemático.

Do ponto de vista frio, de construção de carreira, fazia sentido. A indústria sempre castigou os artistas que saíam da linha. Roberto protegia o próprio império, evitando associações arriscadas. Tin conseguiu finalmente gravar o primeiro disco em 1970, 5 anos depois de Roberto já estar no topo.

Conseguiu-o não por ajuda de Roberto, mas porque um produtor chamado Robson Jorge acreditou nele e convenceu a editora a dar uma oportunidade. O disco tinha azul da cor do mar, a primavera foi sucesso imediato. De repente, Tim Maia era reconhecido como um dos maiores cantores do Brasil. tinha conseguido sozinho o que Roberto poderia ter facilitado anos antes.

Em 1971, Roberto gravou Não vou ficar composição de Tim e teve um enorme sucesso. A música rendeu importantes direitos de autor, mas para Tim aquilo não era generosidade, era migalha atirada quando já não precisava tanto. A relação entre os dois nunca foi reconstruída. Se cruzavam-se em eventos, cumprimentavam-se com educação gelada, mas sem intimidade.

Tim, em entrevistas, alternava entre piadas ácidas sobre o rei e momentos de nostalgia. Uma vez disse: “O Roberto tornou-se uma empresa, já não é uma pessoa, é marca registada que não pode errar. Eu prefiro ser humano e errar do que ser estátua perfeita e morta por dentro.” Roberto evitava falar de Tim quando pressionado, respondia com frases genéricas sobre respeitar o talento, mas sem entrar em pormenores pessoais até ao fim da vida de Tim.

A 15 de março de 1998, os dois nunca fizeram as pazes de verdade. Não houve aquele momento de reconciliação, apenas um afastamento que começou nos anos 60 e nunca mais terminou. Quando Timreu de paragem cardíaca aos 55 anos, Roberto não foi ao velório, mandou flores e uma mensagem formal de pêes. Alguns viram-na como última confirmação da distância entre eles.

Outros entenderam que Roberto evitava exposição pública em situações delicadas. Seja qual for a interpretação, o facto é que uma amizade que começou em 58, com dois miúdos a tocar rock na Tijuca, terminou em 98, sem nunca ter sido reparada. décadas de mágoa, de palavras não ditas, de orgulho ferido de ambos os lados, de caminhos que separaram-se tanto que não havia mais ponte possível de volta.

A história deles ensina algo que vai muito para além da música. Quando duas pessoas começam juntas, mas uma descola e a outra fica para trás, a amizade raramente sobrevive. Não porque um seja mau e o outro bom, mas porque deixam de ser iguais. A amizade precisa de reciprocidade, de troca equilibrada. Quando um se torna o que sempre dá e o outro que sempre recebe, apodrece tudo, vira favor, transforma-se em hierarquia disfarçada de afeto.

Tinha esperava que o Roberto usasse o poder conquistado para abrir portas. O Roberto provavelmente sentia que não tinha obrigação de carregar o amigo nas costas. Ambos tinham uma razão parcial. Ambos estavam presos em expectativas que não conseguiam comunicar corretamente. E o tempo foi passando, a mágoa foi endurecendo, até que se tornou tarde demais para reparar qualquer coisa.

Do ponto do ponto de vista da carreira, Roberto fez tudo certo, tecnicamente, foi disciplinado, pontual, profissional, transformou talento em império comercial que dura há 60 anos. O Tin viveu intensamente. Mergulhou fundo em experiências que enriqueceram a sua música, mas destruíram a sua estabilidade. Musicalmente, Tim era mais genial, mais inovador, mas comercialmente era imprevisível, explosivo.

A indústria prefere artistas controláveis, mesmo que menos brilhantes. Nenhum dos caminhos é objetivamente melhor. São apenas diferentes, com consequências diferentes. Roberto construiu o império, mas tornou-se refém da própria imagem perfeita. Timanteve a liberdade total, mas pagou com instabilidade, com portas fechadas, com oportunidades perdidas.

O que fica é que o sucesso muda tudo, principalmente amizades. Tinha e o Roberto eram genuinamente amigos quando ninguém não tinha nada, quando partilhavam o mesmo sonho impossível de tocar rock sendo rapazes do subúrbio carioca. Mas quando um atingiu o topo e o outro passou anos no fundo, já não havia terreno comum para se encontrarem como iguais.

Tentaram manter o contacto, mas era sempre entre rei e súbdito, entre quem tem poder e quem dele necessita. E isso não é amizade, é outra coisa. É transação mascarada de afeto. Dois dos maiores talentos da música brasileira, que podiam ter feito história juntos, mas escolheram caminhos opostos e pagaram o preço dessa escolha, cada um à sua maneira.

O Roberto perdeu o amigo que o ensinou a tocar guitarra. Tim perdeu o amigo que se tornou demasiado poderoso para ser apenas amigo. Ambos perderam algo que nunca conseguiram recuperar e carregaram esse vazio até ao fim.

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