o cinema brasileiro perdia uma de suas figuras mais icônicas e respeitadas. Em um apartamento silencioso na Lagoa Rodrigo de Freitas, no Rio de Janeiro, José Lewgoy partia aos 82 anos, deixando para trás um legado de 105 filmes e mais de 30 novelas. A notícia de sua morte repercutiu não apenas pela perda de um grande talento, mas pela constatação de um fim melancólico: o homem que foi adorado por multidões e admirado por cineastas como Werner Herzog, Glauber Rocha e Stanley Donen morreu sem esposa, sem filhos e sem a estrutura de uma família que ele próprio tivesse construído.
A trajetória de José Lewgoy é uma tapeçaria complexa de brilho intelectual e lacunas afetivas. Nascido em Veranópolis, no interior do Rio Grande do Sul, em 1920, ele era o caçula de oito filhos de um casal de imigrantes — um pai russo e uma mãe americana. Essa origem singular já apontava para um homem que, em muitos aspectos, seria um eterno estrangeiro em sua própria terra, um indivíduo que carregava o mundo em si mesmo, mas que, paradoxalmente, sentia dificuldades em criar raízes profundas no ambiente familiar imediato. Relatos de sobrinhos próximos sugerem que traumas de infância, talvez mal resolvidos, criaram uma barreira invisível, mas intransponível, em sua comunicação com os irmãos, um distanciamento que ele nunca conseguiu superar totalmente.

Sua inteligência prodigiosa logo o destacou. Poliglota por vocação e acidente geográfico, Lewgoy estudou em Yale, nos Estados Unidos, onde respirou o ar do teatro de elite e conviveu com nomes que moldariam sua visão artística. Lá, ele não era apenas um estudante, mas um artista que dominava as nuances de textos de Shakespeare e Molière, conquistando respeito em um dos centros culturais mais prestigiados do mundo. Ele poderia ter seguido carreira em Hollywood, mas um estranho e profundo magnetismo o puxou de volta ao Brasil. Ao retornar, sem recursos e enfrentando a precariedade de uma indústria incipiente, dormiu em bondes enquanto aguardava a sorte. Ela veio com o papel de vilão em Carnaval no Fogo, que o alçou ao estrelato imediato.
No entanto, a fama trouxe consigo uma espécie de gaiola dourada. Lewgoy tornou-se o vilão número um do cinema brasileiro, um rótulo que, embora lhe trouxesse trabalho, parecia limitar a percepção de um artista cujo talento era “maior que a vida”. Buscando fugir das chanchadas e do papel repetitivo, ele passou uma década em Paris, na França, mergulhando na cena europeia e exercitando sua cultura vastíssima. Mas, enquanto sua carreira internacional se consolidava em produções memoráveis como Fitzcarraldo e O Beijo da Mulher-Aranha, sua vida doméstica estagnava. Enquanto seus irmãos formavam famílias, criavam filhos e estabeleciam lares, Lewgoy mantinha seu foco absoluto na arte.
A arte, para Lewgoy, não era apenas profissão; era um estado de ser, uma prioridade que muitas vezes eclipsava a saúde e o bem-estar. A dedicação extrema ao trabalho, como o episódio em que usou morfina para gravar uma cena difícil logo após um grave acidente, ilustra um homem para quem o dever artístico estava acima de qualquer outra consideração. É inevitável questionar se, nesse compromisso inabalável com a carreira, ele não teria sacrificado, consciente ou inconscientemente, os anos preciosos em que poderia ter edificado uma família. O vazio do seu apartamento, preenchido por uma impressionante coleção de gravuras, sugere que, talvez, fosse mais seguro colecionar objetos que não exigissem a permanência e a vulnerabilidade das relações humanas.
A humanidade de Lewgoy, contudo, transparecia no seu afeto pelos sobrinhos. O famoso Fusca vermelho que, semanalmente, cruzava estradas rumo ao sul para visitar a família dos irmãos, era a prova tangível de uma carência, de um desejo de sentir o calor doméstico que ele, por razões nunca totalmente reveladas, não construiu para si mesmo. Era ali, na convivência com os sobrinhos, que ele baixava a guarda, exercendo um papel de tio querido, um refúgio emocional que lhe permitia vislumbrar a felicidade do cotidiano familiar sem precisar assumir os riscos de uma estrutura própria.
Nos últimos anos de vida, o ator ainda buscava o novo, aprendendo japonês por amor à literatura de Kenzaburo Oe e Yukio Mishima, e dedicando-se à redação de um caderno de memórias que nunca chegou a ser concluído. Aquele caderno, deixado em branco, torna-se a metáfora final da vida de um homem que guardou para si as respostas sobre suas escolhas e dores. Ao falecer, suas cinzas foram levadas para perto daqueles que preenchiam o seu espaço familiar, fechando um ciclo que, embora marcado por uma solidão persistente, foi também preenchido por uma lealdade inquestionável aos amigos e um amor profundo pela arte.
A dor que José Lewgoy carregou não era a de um fracasso, mas a de quem amou intensamente de uma forma que, por caminhos tortuosos, nunca encontrou o destino final do lar. Ele nos deixa a reflexão sobre o preço da grandeza e sobre como a busca pelo sucesso, quando se torna o centro absoluto da existência, pode obscurecer a construção do que realmente permanece quando as luzes do palco se apagam. Lewgoy foi, acima de tudo, um homem que buscou, em cada linha de texto e em cada personagem, um sentido que a vida real, na sua simplicidade doméstica, não lhe proporcionou.