O Teatro das Tesouras Exposto: A Hipocrisia das Alianças, o Fantasma de 2006 e a Realidade Brutal da Insegurança no Brasil

A política brasileira é, muitas vezes, um palco onde as cortinas se abrem para revelar os espetáculos mais inacreditáveis e, em muitos casos, dolorosos para a população. Quando observamos atentamente os movimentos das peças nesse complexo tabuleiro de xadrez em Brasília, percebemos que não existem ingênuos ou tontos, especialmente nas altas esferas do poder. O que existe, de fato, é um jogo de conveniências, onde narrativas são moldadas, passados são convenientemente esquecidos e alianças que outrora pareciam impossíveis tornam-se a nova realidade. O caso de Geraldo Alckmin, atual vice-presidente da República, e sua relação paradoxal com Luiz Inácio Lula da Silva, é talvez o exemplo mais cristalino e assustador desse fenômeno que afeta diretamente a vida, a segurança e o futuro do povo brasileiro.

Para compreendermos a profundidade dessa situação, que muitos classificariam como verdadeiramente patética, é preciso fazer um exercício de memória e retornar ao ano de 2006. Naquela época, o estado de São Paulo viveu dias de puro terror, orquestrados por uma das maiores facções criminosas do país, o Primeiro Comando da Capital (PCC). A sociedade paulista e brasileira acompanhou, amedrontada, uma onda de ataques, rebeliões e mortes que paralisaram a maior metrópole da América do Sul. E quem era a voz firme que se levantava para apontar os culpados? O próprio Geraldo Alckmin, então uma figura proeminente da oposição tucana. Naquele momento histórico, Alckmin não poupou palavras e responsabilizou diretamente o governo Lula e o Partido dos Trabalhadores pelo crescimento vertiginoso e pelas ações do grupo criminoso em todo o território nacional.

As palavras proferidas pelo atual vice-presidente em 2006 ecoam de forma ensurdecedora nos dias de hoje. Ele afirmava categoricamente que o problema da segurança não era exclusivo de São Paulo, mas uma chaga aberta em todo o Brasil. Com veemência, Alckmin acusava o governo federal de se omitir, de abrir mão da responsabilidade na segurança pública, de passar quatro anos contingenciando verbas vitais e de falhar miseravelmente na construção de presídios e no combate ao tráfico de drogas. Eram acusações de crimes hediondos, de negligência criminosa e de complacência com o submundo. Hoje, contudo, em uma reviravolta que desafia a lógica moral, vemos essas mesmas figuras dividindo o poder, sorrindo para os mesmos fotógrafos e defendendo as mesmas bandeiras. A velha guarda da política revelou que o PSDB e o PT, que por décadas encenaram uma rivalidade ferrenha para o eleitorado, eram, no fundo, faces de uma mesma moeda. Uma aliança impulsionada não por ideais em comum, mas pela necessidade desesperada de se unir quando as entranhas de Brasília foram expostas ao público nos últimos anos.

Mas por que o vice-presidente, de repente, decide lançar ataques infundados contra a oposição e focar no clã Bolsonaro? A resposta, de acordo com as análises mais atentas do cenário político atual, reside na velha e conhecida tática da “cortina de fumaça”. Quando o calo aperta, cria-se um factoide. As declarações recentes de Alckmin, tentando jogar a opinião pública contra a oposição sob o pretexto de “pensarem mais em si do que no país”, coincidem estrategicamente com o avanço das discussões sobre o gigantesco caso de corrupção e evasão fiscal envolvendo o Banco Master. Trata-se de um escândalo gravíssimo, com potenciais consequências devastadoras para o sistema financeiro e para a economia nacional. Ao invés de prestar contas ou exigir transparência, a estratégia adotada é a de desviar o foco. E a ironia atinge o seu ápice quando lembramos que o próprio Alckmin já esteve no centro de escândalos revoltantes, como as investigações sobre desvios na merenda escolar das crianças de São Paulo — um processo que, não fosse o trancamento e arquivamento pelas mãos do então ministro Ricardo Lewandowski no Supremo, poderia ter tido um desfecho muito diferente perante uma justiça verdadeiramente implacável.

Essa hipocrisia discursiva não se limita apenas ao vice-presidente. Ela é uma marca registrada de todo um grupo político que baseia sua sobrevivência na criação de narrativas fabricadas. Um dos exemplos mais gritantes é a constante tentativa do PT de associar a direita política e a família Bolsonaro às milícias do Rio de Janeiro. A narrativa é repetida à exaustão na esperança de que se torne verdade. No entanto, quando lançamos a luz dos fatos sobre a própria base governista, o castelo de cartas desmorona. A imprensa já documentou amplamente as ligações orgânicas e umbilicais do atual governo com figuras centrais de áreas dominadas por milicianos. A proximidade de Lula com a família de Vaguinho, líder político em Belford Roxo, e a subsequente nomeação de Daniela do Waguinho para o cobiçado Ministério do Turismo, mostram quem realmente está sendo alimentado por essas estruturas paralelas de poder. O encontro, articulado por nomes fortes do partido no Rio de Janeiro, como Washington Quaquá, evidencia que as relações com a milícia não são uma acusação que eles podem atirar livremente contra os outros sem que a pedra retorne para quebrar seus próprios telhados de vidro.

E enquanto as cúpulas em Brasília trocam farpas e tecem narrativas para esconder seus próprios esqueletos no armário, quem sofre as consequências dessa governança pautada pela leniência com o crime? A resposta está nas lágrimas e no desespero do povo brasileiro, mais especificamente, no caso relatado, nas famílias do estado do Ceará. Governado por Elmano de Freitas, do PT, o Ceará tornou-se um retrato vivo e doloroso do avanço irrestrito das facções criminosas. Os relatos vindos de comunidades como o Passaré e o bairro do Jangurussu são de cortar o coração. Ruas inteiras estão tomadas pelo abandono. Famílias trabalhadoras, pessoas que suaram a vida inteira para erguer suas humildes casas, estão sendo sumariamente expulsas pelo Comando Vermelho e outras facções. As residências ficam para trás, rebentadas, pichadas com os símbolos do crime e a irônica letra “L” marcada nas paredes — uma referência amarga ao slogan de campanha daqueles que prometeram amor, mas entregaram abandono.

A dor dessas pessoas é incalculável. Elas deixam para trás não apenas tijolos e cimento, mas histórias de vida, memórias e a dignidade do lar. Algumas famílias, por pura falta de opção e completa ausência de recursos para recomeçar, tentam resistir em suas casas. O preço dessa resistência, muitas vezes, é pago com a própria vida, já que as facções criminosas não hesitam em matar aqueles que não se curvam às suas leis paralelas. É uma verdadeira zona de guerra urbana, onde o Estado se acovardou, recuou e entregou as chaves das ruas aos bandidos. É diante desse cenário de atrocidades e sangue derramado que figuras do governo têm a pachorra de vir a público falar sobre “soberania”.

O conceito de soberania tem sido completamente distorcido para justificar o injustificável. Quando agentes do estado reagem negativamente à possibilidade de que os Estados Unidos, com seu vasto aparato de inteligência, monitorem os passos de membros do PCC e do Comando Vermelho classificando-os como os terroristas que de fato são, o governo brasileiro alega “interferência na soberania nacional”. Mas que soberania é essa que blinda o criminoso internacional e deixa o cidadão refém? A verdadeira soberania, aquela que importa para a dona de casa, para o pedreiro, para o estudante e para o comerciante, é a soberania de poder viver com tranquilidade. É o direito inalienável do trabalhador de sair de casa ao amanhecer, pegar seu ônibus em paz, e retornar ao seio de sua família sem o medo iminente de ser vítima de uma bala perdida, de um assalto ou de ser expulso do seu próprio lar por um tribunal do tráfico. Se for necessário o auxílio de inteligência internacional para desmantelar as engrenagens de lavagem de dinheiro e o terrorismo dessas organizações — que, segundo delatores como Marcos Valério e Antonio Palocci, já foram usadas no passado pelo próprio PT para esquemas obscuros —, então que essa ajuda seja muito bem-vinda. A soberania nacional não pode ser o escudo protetor da criminalidade.

É neste ponto de inflexão histórica que a população brasileira começa a distinguir com clareza cristalina os dois lados da moeda política atual. De um lado, temos aqueles que romantizam o crime, que tratam vândalos e assaltantes como “vítimas da sociedade” e que, por mero oportunismo, se unem a antigos inimigos para manter o controle do Estado. Do outro lado, emerge uma nova força de lideranças que tem demonstrado uma lealdade inabalável ao povo e à ordem. Nomes como Ricardo Nunes em São Paulo, Tarcísio de Freitas com sua postura técnica e pulso firme, Romeu Zema em Minas Gerais e Ronaldo Caiado em Goiás, representam um contraponto de responsabilidade e gestão. Eles entregam segurança, enfrentam as organizações criminosas de peito aberto e, acima de tudo, não mudam de discurso ao sabor dos ventos eleitorais. O brasileiro sabe em quem pode confiar.

O grau de perversidade necessário para fechar os olhos para o avanço das facções e, simultaneamente, posar de salvador da pátria é assustador. Quando vemos políticos que no passado choraram perdas trágicas, como mortes inexplicáveis em acidentes aéreos sob governos passados, e hoje se abraçam aos mesmos líderes que criticavam, percebemos que para essa velha classe política, os interesses pessoais sempre estarão acima da moralidade. Mas hoje, diferentemente de outrora, nada fica escondido por muito tempo. A internet, as redes sociais e os canais independentes de comunicação quebram o monopólio da informação. A sociedade amedrontada que Alckmin descreveu em 2006 evoluiu para uma sociedade indignada e vigilante em 2024.

Eles podem tentar desviar a atenção. Podem criar factoides sobre ataques imaginários. Podem acusar os outros dos crimes que eles mesmos cometem nos bastidores de Brasília. Mas a realidade se impõe com a força de um furacão. Impõe-se nas portas arrombadas das casas no Ceará. Impõe-se nos escândalos financeiros que tentam abafar. Impõe-se nas fotos antigas e nos vídeos resgatados que provam, sem sombra de dúvida, que as juras de amor de hoje são construídas sobre as traições e as conveniências de ontem. O Brasil não aceitará passivamente ser devolvido à cena do crime. A verdadeira soberania popular está apenas despertando, e ela cobrará, nas urnas e nas ruas, o preço da verdade, da segurança e da justiça que tanto foi negada ao seu povo.

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