O cenário político e de segurança pública no Brasil atravessa um momento de tensão sem precedentes. Recentemente, a possibilidade – e a subsequente repercussão – de que o governo dos Estados Unidos classifique as principais facções criminosas brasileiras, como o PCC (Primeiro Comando da Capital) e o Comando Vermelho (CV), como organizações terroristas, gerou um terremoto em Brasília. O jornalista Alexandre Garcia, em análise contundente, não poupou críticas ao que considera uma tentativa desesperada do atual governo em gerir o desgaste político dessa decisão, que promete, segundo especialistas, abalar as estruturas financeiras e a complacência que, por anos, permearam a relação entre o poder político e o crime organizado.
Mas, afinal, por que essa classificação é tão sensível? A resposta reside em uma verdade inconveniente: o Brasil, por muito tempo, normalizou o anormal.
A Normalização do Absurdo: Quando o Crime Vira Rotina
Para entender a gravidade da situação, é preciso afastar-se das estatísticas frias e observar o cotidiano. Alexandre Garcia traz um relato que resume a tragédia silenciosa vivida por milhões de brasileiros. O caso de uma criança, brasileira, vivendo nos Estados Unidos, que descreve aos colegas de escola a rotina de andar em um carro blindado. Para os colegas americanos, soa como um filme de ficção. Para a criança brasileira, é apenas a vida real.
Este episódio ilustra uma das maiores derrotas do Estado brasileiro: a aceitação da violência como parte integrante da paisagem urbana. Não é “normal” que cidadãos precisem de blindagem para transitar em vias públicas, nem que o controle territorial por parte de facções dite as regras de comércio, internet e locomoção em favelas e comunidades inteiras. No entanto, o Brasil construiu uma retórica de convivência, onde a soberania do Estado é frequentemente desafiada – e vencida – pelo poder paralelo.
Quando o governo americano sinaliza que essas organizações possuem características terroristas, ele rompe a bolha de negação. O terrorismo não é apenas o ataque religioso ou político ideológico clássico; é também a imposição de um regime de medo, o fechamento forçado de estabelecimentos comerciais, o controle de fronteiras e a ocupação de territórios. Se os métodos são de guerrilha, se o impacto é o aterrorizante controle social, por que a hesitação em nomear o problema?
O Dilema do Governo Lula: O “Terrorismo Nosso”
Um dos pontos mais polêmicos abordados na discussão gira em torno da reação do governo brasileiro. Em declarações que causaram estranheza, o presidente Lula, ao abordar o tema, pareceu capturado em um jogo de palavras e contradições. A retórica de “o petróleo é nosso”, um mantra histórico da esquerda, parece ter sido adaptada para um cenário sombrio: a sensação de que o governo se sente proprietário do problema, mas refém da solução.
Ao reconhecer, de um lado, que essas facções aterrorizam as populações – algo inegável para quem vive nas áreas de risco –, mas, de outro, hesitar em alinhá-las ao conceito internacional de terrorismo, cria-se um vácuo de credibilidade. Existe um medo latente: se o crime organizado for classificado como terrorismo internacional, as consequências financeiras e diplomáticas serão severas. O rastreamento de fluxos financeiros, a cooperação de inteligência e o isolamento político dessas facções podem, inevitavelmente, expor conexões que o atual governo prefere manter nas sombras.
O Conflito de Inteligência: A Cooperação em Jogo
Um ponto de debate técnico, porém vital, trazido pelo promotor de justiça Lincoln Gakiya – uma autoridade no combate ao crime organizado –, merece atenção. Gakiya levanta uma preocupação legítima: a mudança de patamar na cooperação internacional. Hoje, a colaboração entre o Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado) e órgãos como a DEA (agência antidrogas dos EUA) é fluida.
Se as facções brasileiras forem rotuladas como terroristas, a investigação passa a ser tratada sob o crivo da CIA e de agências de contraterrorismo. Isso pode tornar a partilha de informações mais restrita, ultra-secreta e, possivelmente, burocrática. O paradoxo é cruel: uma medida que visa fortalecer o combate ao crime pode, se não for bem gerida, criar barreiras informacionais. No entanto, como bem ponderou Alexandre Garcia, essa não pode ser uma desculpa para a inércia. O governo brasileiro já deveria possuir a estrutura e a capacidade para combater o crime sem depender exclusivamente da inteligência externa. A dependência excessiva de cooperação estrangeira é, por si só, um reflexo da fragilidade institucional do Brasil.
Violência que Supera Guerras: Um Estudo Comparativo

É necessário olhar para os números com honestidade. Ao compararmos as taxas de criminalidade e letalidade urbana no Brasil com cenários de conflitos históricos, a conclusão é aterradora. O nível de periculosidade de viver em certas ruas brasileiras, em termos estatísticos, supera a experiência de soldados americanos na Guerra do Vietnã. Quando a rotina de um civil é comparada à de um combatente em campo de batalha, falhamos como civilização.
A narrativa do governo, muitas vezes focada em culpar fatores externos ou socioeconômicos para a criminalidade, esbarra na realidade nua e crua das facções que operam como empresas transnacionais. Elas não buscam “justiça social”; buscam lucro, território e poder. Elas dominam pistas de pouso na Amazônia, rotas de exportação de entorpecentes e controlam a economia local através da extorsão. Tratar essa realidade com a delicadeza de um debate sociológico é não apenas ineficaz, é um erro estratégico.
O “Consórcio” e a Desmoralização da Justiça
A discussão sobre o crime organizado no Brasil não pode ser dissociada da crise de confiança no sistema de justiça. A percepção pública de que existe uma impunidade seletiva é um combustível para o crime. Quando lideranças de facções são condenadas em múltiplas instâncias e, ainda assim, encontram brechas para a liberdade, a mensagem enviada à sociedade é clara: a lei não é igual para todos.
Alexandre Garcia aponta para uma desmoralização do suposto combate ao banditismo. O que vemos hoje é uma adaptação lenta e silenciosa da sociedade ao crime, como descrito pelo ex-presidente da Federação das Indústrias do Rio Grande do Sul, Dagoberto Godói, que chamou isso de “sobreviver e conviver”. Adaptamo-nos para não sermos notados. Aceitamos a ausência do Estado em favelas como uma “característica cultural” e não como uma falha catastrófica da gestão pública.
O Caminho à Frente: Um Ajuste de Rota Necessário
A decisão americana, embora tenha provocado desconforto diplomático, pode ser o catalisador de que o Brasil necessita. Ela força o país a encarar o problema não mais como um “problema policial local”, mas como uma ameaça à segurança hemisférica.
Para que essa mudança seja efetiva, o governo brasileiro precisará superar o orgulho ideológico e alinhar-se ao esforço global de desmantelamento das redes terroristas. Isso significa:
Reforço Institucional: Investir em inteligência, tecnologia e valorização das forças de segurança, garantindo que o combate não dependa apenas do heroísmo individual de promotores como Gakiya, que vivem sob escolta 24 horas por dia.
Transparência nas Relações: Romper qualquer ambiguidade em relação ao combate ao PCC e ao Comando Vermelho. Não há “terrorismo nosso” ou “terrorismo deles”. O terrorismo é, em sua essência, um ataque à vida e à liberdade dos cidadãos.
Soberania Real: Recuperar territórios ocupados. A soberania nacional não pode ser um conceito abstrato que termina na entrada de uma comunidade. O Estado precisa retomar o controle das áreas sob domínio do crime organizado.
Conclusão: O Fim do Autoengano
O embate entre a retórica governamental e a realidade das ruas chegou a um ponto de ruptura. O “baque” sentido pelo atual governo, descrito por Alexandre Garcia, é o reflexo de quem percebeu que a narrativa construída ao longo de décadas não resiste ao escrutínio da realidade.
Não se trata apenas de uma decisão de Donald Trump ou de qualquer outro líder estrangeiro. Trata-se da incapacidade do Brasil de olhar no espelho e reconhecer que, ao permitir que o crime organizado se enraizasse em todas as esferas – do social ao político –, o país entregou as chaves da sua própria casa para aqueles que não têm qualquer respeito pela lei ou pela vida humana.
A pergunta que fica para o cidadão brasileiro não é se o governo se sente abalado ou não. A pergunta é: quando o Estado brasileiro voltará a ser, de fato, o garantidor da segurança, e não apenas um espectador da tragédia que se desenrola todos os dias em cada esquina, em cada carro blindado, em cada comunidade sitiada? A história, como sugere o jornalista, está cobrando a conta. E esta conta não pode ser paga com discursos, mas com ações concretas que devolvam ao brasileiro o direito inalienável de viver sem medo.
A classificação americana pode ser o início do fim dessa era de complacência. Ou, se o Brasil decidir ignorar o sinal vermelho, pode ser o prelúdio de um isolamento ainda maior. A escolha está posta, e o tempo, como mostram os dados de violência, é um luxo que o país não possui mais. É hora de decidir: o Brasil será um país civilizado e soberano, ou continuará aceitando o “anormal” como sua nova rotina? A resposta não está em Washington, nem em Brasília, mas na coragem de enfrentar a verdade que, por muito tempo, tentamos esconder debaixo do tapete.