A cultura do cancelamento e a volatilidade das redes sociais têm demonstrado, com uma frequência assustadora, que a linha que separa o amor do ódio na internet é microscópica. O caso mais recente deste fenómeno de amnésia coletiva e inversão de papéis está a decorrer em plena digressão de imprensa para o lançamento do filme Enola Holmes 3. Num espaço de apenas doze meses, o ecossistema digital realizou uma cambalhota de 180 graus na forma como avalia a atriz Millie Bobby Brown. A jovem, que anteriormente era o alvo preferencial de uma onda massiva de toxicidade, viu a sua imagem ser reabilitada de forma quase milagrosa, sendo agora aclamada como uma figura espontânea, divertida e autêntica. No entanto, esta redenção pública não aconteceu por acaso; ela foi impulsionada pela transformação imediata do seu colega de elenco, o ator Louis Partridge, no novo “vilão” da vez.
Para contextualizar esta mudança drástica de narrativa, importa recordar o cenário vivido no ano transato. Durante a promoção do filme The Electric State, Millie Bobby Brown enfrentou uma avalanche de críticas ferozes que ultrapassaram os limites da avaliação profissional. A internet desandou a tecer comentários cruéis sobre a sua aparência física, alegando que a jovem de 21 anos aparentava ser “demasiado velha”, além de escrutinar de forma invasiva o seu casamento precoce com Jake Bongiovi. A situação atingiu um ponto de saturação tal que a própria atriz se viu obrigada a vir a público pedir mais empatia aos jornalistas e utilizadores das redes sociais.

Esta perseguição, contudo, não era uma novidade na vida da estrela. Desde o estrondoso sucesso da primeira temporada de Stranger Things, quando era apenas uma criança, Millie tem sido rotulada pela comunidade digital como “chata” ou “irritante”. Na segunda temporada da mesma série, com apenas 13 anos de idade, a jovem já sofria com uma hipersexualização precoce e inadequada por parte do público adulto. Diante deste panorama hostil, a atriz tomou uma decisão radical em 2021 para preservar a sua saúde mental e o seu bem-estar psicológico: eliminou todas as aplicações de redes sociais do seu telemóvel. Atualmente, a gestão dos seus perfis é realizada por um profissional contratado, embora a atriz garanta que continua a escrever as suas próprias legendas para manter a proximidade com os fãs. É, no mínimo, irónico concluir que, se Millie decidisse quebrar o seu jejum digital hoje, encontraria um cenário de exaltação absoluta em vez do habitual linchamento virtual.
A grande engrenagem que moveu esta transformação reside na dinâmica peculiar exibida entre Millie e Louis Partridge nas entrevistas de divulgação de Enola Holmes 3. Embora ambos enfatizem frequentemente que possuem uma ligação profunda e uma amizade comparável à de dois irmãos — algo validado pela própria atriz num teste com um detetor de mentiras —, a perceção do público foi por um caminho inteiramente diferente. Enquanto Millie assume o papel de elemento cómico, terra-a-terra e genuíno, Partridge tem sido amplamente fustigado e descrito pelos internautas como condescendente, snob e rabugento.

Vários momentos das entrevistas tornaram-se virais devido ao desconforto gerado pelas interações. Num dos episódios mais comentados, durante uma dinâmica com a plataforma Pop Sugar, os atores foram questionados sobre as suas canções de verão preferidas. Millie respondeu entoando um trecho da música Minan, da artista Zara Larsson, ao que Louis reagiu com desdém, questionando a relevância da escolha. Perante a resposta da colega, o ator retorquiu que estava a tentar pensar em “algo mais pop” para que ela conseguisse acompanhar o seu raciocínio, uma afirmação que a internet interpretou imediatamente como uma tentativa machista e arrogante de diminuir o intelecto da atriz.
Esta postura repetida de Partridge alimentou o descontentamento do público. Numa conversa com a revista Interview, Millie inquiriu o colega sobre qual seria o álbum que escolheria para ouvir pelo resto da vida. Louis optou por citar o trabalho erudito do pianista clássico Sergei Rachmaninoff, uma escolha que levou a atriz a acusá-lo abertamente de estar a mentir e a forçar uma imagem intelectualizada apenas para parecer culto e “cool”. Confrontado, o ator acabou por admitir que a sua escolha real seria o álbum pop Teenage Dream, de Katy Perry. Noutro momento, para a revista Glamour, quando Millie afirmou que a versão de Selena Gomez da canção Only You era a sua favorita, Louis apressou-se a contestar a afirmação, sendo prontamente apelidado de hater pela colega. Esta reiteração de atitudes acabou por consolidar um estereótipo prejudicial na mente dos espectadores: o rapaz culto e aborrecido que tenta superiorizar-se perante a rapariga dita “superficial” que consome cultura pop de massas.
Por outro lado, a desforra de Millie Bobby Brown tem sido o combustível perfeito para o entretenimento das redes sociais. Com um sorriso malicioso e uma cumplicidade evidente, a atriz não tem poupado o colega a provocações públicas relacionadas com a sua mediática ex-namorada, a cantora Olivia Rodrigo. Os utilizadores mais atentos notaram que Millie tem introduzido referências milimetricamente calculadas às faixas do álbum Guts — amplamente associado ao término do namoro entre Olivia e Louis — no meio das entrevistas.
Exemplos não faltam: Millie referiu-se ao cabelo de Louis como sendo “flopy” (termo usado por Olivia na canção You Plus Me Equals Heartache), passou largos minutos a discutir a marca de chocolates Cadbury (também citada na mesma faixa) e chegou a apelidar o colega de “Honeybee”. Adicionalmente, utilizou expressões como “so American” e proferiu a frase exata “Have you ever been to Japan?” durante uma participação no canal Travel Plus Leisure, mimetizando o verso cantado por Olivia Rodrigo na música Drop Dead. Longe de ser um ataque cruel, estas rasteiras psicológicas assemelham-se a provocações típicas de melhores amigos, mas foram suficientes para que a internet aplaudisse a sagacidade de Millie em colocar o colega numa posição desconfortável.

Apesar de a receção crítica de Enola Holmes 3 se mostrar mista — registando uma aprovação de 68% no Rotten Tomatoes e uma estreia mais modesta em termos de visualizações na Netflix —, a prestação e a maturidade de Millie Bobby Brown foram amplamente elogiadas por veículos de prestígio como o The Hollywood Reporter. A própria atriz já assumiu publicamente que não tem a ambição de reinventar o cinema com os seus projetos, preferindo focar-se em produções leves, acessíveis e capazes de entreter as famílias no conforto dos seus lares, uma postura considerada honesta e honrada pelo seu público.
Contudo, a análise fria deste fenómeno digital obriga-nos a encarar uma verdade desconfortável: Millie Bobby Brown não mudou o seu comportamento ou a sua personalidade do ano passado para este. Ela continua a ser a mesma jovem caótica, que fala pelos cotovelos, faz piadas e não teme passar vergonha nas entrevistas. A única variável que se alterou foi o contexto. Antes, as suas características eram lidas como irritantes; hoje, por estar posicionada ao lado de alguém que está a atrair a antipatia do público, as mesmas atitudes são vistas como carismáticas. Millie foi transformada, involuntariamente, num amuleto para que a internet possa exercer o seu desdém sobre outra pessoa. Esta maleabilidade extrema da opinião pública serve de alerta para a necessidade de consumirmos o entretenimento digital com moderação, lembrando-nos de que a mesma onda que hoje eleva um ídolo ao topo é a mesma que, amanhã, o arrastará para o fundo sem qualquer hesitação.