PARTE 1
O defesa argentino olhou para Pelé e riu. Não foi um sorriso de quem reconhece um adversário perigoso. Foi uma gargalhada aberta de deboche do tipo que se ouve num balneário quando alguém conta uma piada sobre um jogador que já passou do tempo. Pelé ouviu, não respondeu, não olhou de volta, baixou a cabeça e caminhou até ao círculo central, como se nada tivesse acontecido. Os 42.
000 adeptos que enchiam La Bomboneira naquela noite de junho de 1964 não ouviram o riso. Os jornalistas na tribuna de imprensa também não. Mas os jogadores dos santos que estavam perto do meio campo ouviram e todos, sem exceção, fizeram a mesma coisa. ficaram em silêncio e olharam para o chão, porque todos sabiam o que se passava quando alguém se ria de Pelé.
O que aconteceu nos 90 minutos seguintes não foi um jogo de futebol, foi uma execução pública tão precisa e tão brutal que o defesa que riu nunca mais jogou uma partida internacional. Não porque foi cortado, porque pediu para sair. Aconteceu na noite de 17 de junho de 1964. E esta é a história que ninguém contou direito.
Antes de continuar, deixá-lo eu pedir-te uma coisa rápida. Se gosta deste tipo de história que ninguém contou direito, subscreve o canal agora. Ajuda mais do que parece. Um like e um comentário. Dizem pro algoritmo que este vídeo importa e é é isso que mantém este tipo de conteúdo vivo. Agora volta comigo. A partir daqui, a história avança devagar.
Tudo o que aconteceu naquelas 24 horas precisa de ser contado sem pressa. O que leva um defesa profissional a rir-se de Pelé num terreno de jogo? Em que momento a a humilhação deixa de ser uma provocação e transforma-se numa dívida que só pode ser paga com a bola nos pés? O que acontece dentro de um homem como Pelé quando decide que a resposta não será dada com palavras, mas com algo que o outro vai carregar para o resto da vida.
Estamos em Buenos Aires, Junho de 1964. O Santos Futebol Clube era a máquina mais temida do futebol mundial. Não existia uma Liga dos Campeões unificada, não havia transmissão por satélite para o mundo inteiro, não havia replay em câmara lenta. O que acontecia dentro de um estádio na América do Sul ficava preso às crónicas dos jornalistas que estavam lá e as memórias dos jogadores que viveram aquilo.
E muitas dessas memórias nunca saíram do balneário. O homem que se ria de Pelé chamava-se Raul Menendes. E para perceber porque é que ele fez o que fez, é preciso saber de onde ele veio. Raul Menendes tinha 27 anos e jogava a defesa central no Boca Juniores havia quatro temporadas. Tinha crescido em Mendoza, na base dos Andes, num bairro onde a altitude deixava o ar fino e os miúdos duros.
O pai era pedreiro, a mãe lavava roupa para fora. E Raul aprendeu a jogar futebol num campinho de terra vermelha, onde as traves eram dois montes de pedra e a bola era o que aparecesse. Aos 16 anos, já jogava na terceira divisão do futebol mendocino, marcando atacantes que tinham o dobro da sua idade, com uma valentia que roçava a inconsciência.
Aos 20 anos, foi contratado pelo Independente Rivadavia, a equipa grande de Mendoza, onde ficou três temporadas antes de receber a proposta que lhe mudou a vida. O Boca Juniors queria um defesa central, alguém duro, de confiança, que não tivesse medo de ninguém. Menendes não tinha medo de ninguém. Isso era verdade. Tinha mãos grandes, ombros largos e uma forma de marcar que os jornalistas argentinos chamavam de honesta.
O que significava que batia, batia cedo e batia forte, mas sempre de frente, nunca pelas costas. Em 4 anos no Boca tinha recebido 12 cartões amarelos e nenhum vermelho. Não era um açueiro. Era um defesa que acreditava que a marcação fazia-se com o corpo, não com a maldade. dentro do balneário do Boca, entre jogadores que partilhavam a mesma convicção silenciosa que a maior parte do futebol argentino transportava nessa altura, Menendes foi absorvendo uma certeza que nenhum treinador lhe ensinou e que nenhum jogo até então
tinha desmentido. de que Pelé era um jogador super estimado pela comunicação social brasileira, que o futebol brasileiro vivia de dribles bonitos e de propaganda, não de dureza, que bastava marcar de perto, com intensidade e sem recuar. E Pelé se apagava. Esta certeza não nasceu num dia. Foi construída ao longo de anos.
alimentada por crónicas de jornalistas portenhos que nunca tinham assistido a Pelé de perto, por comentários de colegas de equipa que tinham jogado contra o Santos uma vez e saído, achando que sabiam o suficiente e por uma cultura futebolística que a qualidade de um jogador pela capacidade de resistir à pancada, não pela capacidade de fazer o que mais ninguém conseguia fazer.
com a bola. Menendes não era um ignorante, era um profissional competente dentro de um sistema que alimentava uma ilusão. E ilusões, quando testadas por alguém como Pelé, não se desfazem aos poucos, explodem. Ninguém no Boca Júnior sabia disso. E Menendes menos do que qualquer outro. O Santos chegou a Buenos Aires na manhã de 16 de junho de 1964, um dia antes do jogo.
O avião aterrou em Ezeisa com 40 minutos de atraso por causa de turbulência sobre o rio da Prata. Era um DC6 fretado que o Santos utilizava nas excursões internacionais. Uma aeronave barulhenta e desconfortável, que trepidava tanto que alguns jogadores preferiam não comer antes do voo. Pelé desceu pela escada traseira do avião com uma mala de couro castanho e um casaco cinzento que não combinava com nada.
PARTE 2
tinha 23 anos, dois títulos mundiais com a seleção, uma média de golos que nenhum jogador do planeta chegava perto e um cansaço que não aparecia nas fotos dos jornais, mas que qualquer pessoa que estivesse perto dele podia perceber. O O Santos dessa época jogava três, quatro vezes por semana.
Não era um exagero, era rotina, campeonato de São Paulo, torneios internacionais, amigáveis em cidades do interior do Brasil, excursões pela América do Sul, pela Europa, pela África. O clube vendia Pelé como atração mundial e ganhava dinheiro com cada partida. A agenda não tinha folga. Um jogo na quarta-feira em Santos, outro no sábado em São Paulo, outro na terça-feira em Bogotá, outro na sexta-feira em Buenos Aires.
O corpo de Pelé aguentava porque tinha 23 anos e uma constituição física que os médicos da época não sabiam explicar bem. Mas o desgaste existia não nos músculos que recuperavam com velocidade anormal. nos olhos, na expressão, na forma como Pelé andava pelos aeroportos e hotéis com um cansaço que não era do corpo, era de quem transportava o mundo nos ombros sem poder colocar no chão.
Tinho, que dividiu o táxi do aeroporto até ao hotel em Buenos Aires, disse depois que Pelé dormiu durante todo o percurso sem dizer uma palavra, encostou a cabeça ao vidro do carro e fechou os olhos antes do táxi sair do estacionamento. Coutinho ficou a olhar para as ruas de Buenos Aires a passar pela janela, escutando a respiração pesada de Pelé ao lado, e pensou que talvez nessa noite o jogo ficasse nas pernas dos outros.
Não seria a primeira vez. Pelé tinha jogos em que parecia estar ali apenas para cumprir contrato, tocando a bola sem intensidade, poupando o corpo como um pugilista que aguarda os rounds finais. Esses jogos existiam e ninguém falava neles, porque mesmo nos dias em que Pelé jogava no meio sem explosão, ele ainda era melhor do que qualquer outro jogador em campo, mas era uma versão mais pequena, uma versão que dava aos adversários a ilusão de que estavam no controlo.
Coutinho não sabia se nessa noite seria uma dessas partidas, mas tinha um pressentimento de que algo estava diferente. Não sabia o quê. Ainda não. Na manhã do jogo, os jornais de Buenos Aires trouxeram os Santos na capa, mas não da forma que o clube esperava. O Diário Clarim publicou um artigo de página inteira com o título O Santos sem mistério, assinado por um cronista desportivo chamado Eduardo Castelli, que tinha assistido ao Santos perder para o Rassing três meses antes numa partida amigável em Avelaneda.
O texto era longo, detalhado e impiedoso. defendia que o futebol brasileiro vivia de reputação, não de resultado, que o Santos era uma equipa de excursão, habituado a jogar contra adversários fracos em amigáveis pagos e que quando enfrentava equipas argentinas de verdade mostrava as suas fraquezas.
que Pelé, aos 23 anos, já apresentava sinais de desgaste físico que a imprensa do Brasil se recusava admitir e que a defesa dos Santos era vulnerável a qualquer equipa que tivesse coragem de pressionar nos primeiros 20 minutos. A matéria era preconceituosa, tendenciosa e mal fundamentada, mas era escrita com uma autoridade jornalística que a tornava convincente para quem queria acreditar nela.
E no balneário do Boca Juniors, antes do almoço, quase toda a gente queria acreditar nela. A matéria circulou de mão em mão. Os jogadores leram em silêncio, alguns em voz alta, sublinhando os excertos que confirmavam o que já pensavam. O treinador José Maria Silveiro não proibiu a leitura. Talvez devesse ter proibido.
Talvez devia ter dito que subestimar os santos era o primeiro passo a perder. Mas Silvero era um técnico pragmático, não um educador, e achava que a confiança do grupo podia ser útil, desde que não se transformasse em arrogância. Raul Menendes leu a notícia toda, leu duas vezes, depois dobrou o jornal, colocou-o debaixo do banco e começou a atar as chuteiras.
Naquele momento, olhando para os fechos de metal que brilhavam sob a luz amarelada do balneário, Menendes decidiu que não precisava de ter medo de ninguém, que Pelé era carne e osso como qualquer outro, que bastava marcar de perto com intensidade e o mito se desfazia. Era a decisão mais perigosa que um defesa podia tomar em 1964.
E Menendes não sabia disso. O vestiário visitante de La Bombonera cheirava a bolor e a tinta fresca. As paredes tinham sido pintadas recentemente, provavelmente na véspera, mas a humidade de Buenos Aires não deixava a tinta secar direito. Quando os jogadores dos Santos encostavam-se às paredes, ficava uma mancha branca nas costas das camisas.
Os cabides eram de arame retorcido, os chuveiros pingavam mesmo fechadas e a luz era amarelada, do tipo que faz com que todos pareçam doentes. Era o balneário que Buenos Aires reservava para os visitantes. Não era hostilidade declarada, era desprezo institucional, do tipo que se pratica sem ter de dizer nada em voz alta. Pelé entrou no balneário, escolheu o canto mais afastado da porta e sentou-se no banco de madeira.
Tirou os sapatos, abriu a mala e começou a enfaixar o tornozelo esquerdo com uma faixa elástica que ele próprio trazia de santos. Não deixava que ninguém o fizesse por ele. Era um ritual que repetia antes de cada jogo, desde os 17 anos, quando tinha magoou o tornozelo numa partida contra o jabaquara e aprendeu que ninguém cuidava do seu corpo melhor do que ele próprio.
Enrolava a faixa lentamente, com precisão, apertando nos pontos certos, testando a flexibilidade com pequenas rotações do pé. Enquanto fazia isso, não falava com ninguém. Zito, que sentou-se ao lado dele, como fazia em quase todos os jogos, notou que o silêncio de Pelé era diferente do habitual. Pelé era normalmente calado antes dos jogos, mas era um silêncio relaxado de quem guarda energia.
Naquele dia era um silêncio carregado, como o silêncio de quem está a segurar alguma coisa que ainda não decidiu se vai soltar. Zito conhecia Pelé desde que tinha 16 anos. Tinha jogado ao lado dele em mais de 300 partidas e sabia reconhecer a diferença entre os silêncios de Pelé, como um marinheiro reconhece a diferença entre as calmas do mar.
Aquele silêncio não era descanso, era concentração. O tipo que vinha antes de jogos em que Pelé decidia pessoalmente que alguém ia pagar por alguma coisa. Zito não perguntou nada, apenas olhou para Pelé, olhou para a faixa que enrolava lentamente no tornozelo e voltou a olhar para a própria chuteira.
Qualquer coisa que estivesse a fermentar dentro de Pelé ia aparecer no campo. Sempre aparecia. Do outro lado do balneário, Pep ajustava as caneleiras e assobiava uma marchinha que ninguém reconhecia. Lima penteava o cabelo com um pente de bolso diante de um espelho rachado que alguém tinha pendurado num prego. Gilmar, o guarda-redes, fumava um cigarro na porta da casa de banho, como fazia antes de cada jogo, com a naturalidade de uma época em que o guarda-redes fumava e ninguém achava estranho.
O balneário dos Santos, antes de um jogo, era um misto de rotina e tensão controlada, onde cada jogador tinha os seus rituais e ninguém interferia nos rituais dos outros. Era assim que funcionava uma equipa que jogava junto há anos. Cada um sabia o espaço do outro e respeitava esse espaço sem precisar de instrução.
Lula, o treinador dos Santos, entrou no balneário a 20 minutos do jogo. Era um homem magro, de cabelo ralo e olhos fundos, que falava pouco. E quando falava era para dizer coisas práticas, não era de discursos motivacionais. acreditava que jogadores do nível dos Santos não precisavam de ser motivados, precisavam de ser informados.
“A marcação deles é pela direita”, disse Lula, apontando para um quadro imaginário no ar. O lateral esquerdo sobe pouco. Coutinho, ocupa esse espaço. Pelé, eles vão marcar-te com dois, talvez três. Se marcar com três, o Pep vai estar solto. Você decide. Pelé assentiu sem se levantar os olhos da faixa.
Lula olhou para ele por um momento, como se quisesse dizer algo mais, mas não disse. Saiu do balneário e foi para o túnel. 15 minutos depois, as duas equipas entraram juntas no campo. La Bomboneira estava lotada. 42.000 1 adeptos a fazer o estádio tremer com aquele barulho grave e contínuo que só os argentinos conseguem produzir.
Não era um grito, era uma vibração que vinha do betão, das bancadas íngrciam desabar sobre o campo, dos corpos comprimidos uns contra os outros, do fumo dos cigarros que subia em nuvens espessas sobletores. O som de La Bomboneira não entrava pelos ouvidos, entrava pelo peito. Os jogadores se posicionaram para o apito inicial.
Os Santos de um lado, o Boca do outro, as camisolas brancas contra as azuis e amarelas. Pelé caminhou até ao círculo central, onde ficaria para a saída de bola, com o passo lento e medido de quem não tem pressa de chegar a lado nenhum. A erva de La Bombonera era curta e irregular, com falhas nos cantos e uma mancha de terra seca perto da área esquerda.
Pelé olhou para o chão enquanto caminhava, registando cada pormenor, cada imperfeição, cada pedaço de terreno que podia afetar o kick da bola. E foi aí, a menos de 3 m de distância, que Raul Menes olhou para ele. Menendes estava posicionado logo atrás do círculo central, do lado do Boca. Quando Pelé parou e se virou, os dois ficaram frente à frente.
Menendes era 4 cm mais alto e pelo menos 10 kg mais pesado. Tinha os ombros abertos, o peito estufado e uma expressão que não era de concentração, era de desdém. Olhou para Pelé de cima a baixo, medindo o corpo como quem avalia uma mercadoria que não vale o preço que pediram. e riu-se. Não disse nada, não era preciso.
A risada dizia tudo, dizia. Eu li o jornal de hoje. Dizia: “Eu sei que estás cansado”, dizia: “Não tenho medo de você”, dizia tudo o que um defesa pode dizer a um atacante quando acredita que é superior. Pelé registou a gargalhada sem alterar a expressão. Não levantou os olhos, não encarou Menendes. Olhou para baixo, ajustou a meia direita com um gesto mecânico e esperou pelo apito com as mãos na cintura.
Nenhum músculo do rosto mexeu, nenhuma palavra saiu da boca. Para quem olhava de fora, parecia que Pelé não se tinha apercebido de nada, mas Coutinho percebeu. Estava a 5 m, posicionado para receber o passe de saída e viu a cena toda. Viu a gargalhada de Menendes, viu o rosto imóvel de Pelé, viu a forma como Pelé ajustou a meia sem pressa e sentiu um frio no estômago que não tinha nada a ver com o inverno portenho.
Coutinho jogava com Pelé desde os tempos de base dos Santos. Conhecia cada versão dele dentro de campo, a versão alegre, que driblava por prazer e marcava golo sorrindo. A versão pragmática que tocava a bola rapidamente e deixava os outros decidirem. A versão cansada que fazia o mínimo necessário e guardava energia para o jogo seguinte. e a versão que aparecia quando alguém cometia o erro de o provocar.
Essa versão não sorria, não gritava, não queixava-se, simplesmente jogava com uma precisão e uma intensidade que transformavam 90 minutos de futebol num demonstração de superioridade tão completa que o adversário saía do campo sabendo que nunca mais seria o mesmo. Coutinho olhou para Menendes e pensou: “Coitado, não sabe o que fez.
O apito do árbitro cortou o ar a Buenos Aires. O jogo começou. Men incumpriu o que tinha prometido a si próprio. Nos primeiros 20 minutos, marcou Pelé de perto, com o corpo colado, cortando cada jogada antes que esta se desenvolvesse. Era uma marcação intensa, agressiva, mas dentro das regras.
Menendes não chutava por trás, não dava cotoveladas, entrava de frente com o peito aberto, disputando cada bola como se fosse a última. E nos primeiros 20 minutos funcionou. Pelé recebia a bola e sentia o impacto da Menendes antes de se poder virar. Tocava de novo e recebia outra pancada. Tentava um drible curto e encontrava o ombro de Menendes a bloquear o caminho.
A torcida do Boca aplaudia cada dividida como se fosse golo. Cada vez que Menendes tirava a bola de Pelé, 42.000 argentinos rugiam de aprovação. Os jornalistas na tribuna anotavam que Pelé estava apagado, que a matéria do O Clarim tinha razão, que o Santos não era mais aquele papão que a publicidade brasileira vendia.
E Menendes, a cada lance olhava para a bancada, como quem diz. Viram? Eu disse que não era para o efeito. O problema era que Menendes estava tão concentrado em vigiar Pelé que não percebeu o que Pelé estava a fazendo. que Pelé não estava a tentar passar por ele, não estava a tentar driblar, não estava a tentar rematar, não estava a tentar forçar nada, estava medindo.
Cada toque na bola, cada drible curto que Menendes cortava, cada mudança de direção que Menendes bloqueava, era um teste. É estava a aprender Menendes, aprendendo para que lado ele desequilibrava quando entrava na dividida, aprendendo quanto tempo demorava a rodar o quadril quando Pelé mudava de rumo, aprendendo qual perna era a de apoio e qual era a de ataque, aprendendo a distância exata em que Menes começava a comprometer-se com o bote.
Era como um mecânico a desmontar um motor, peça a peça, parafuso a parafuso, sem pressa, sem raiva, sem emoção. Pura análise feita em velocidade de jogo, com a bola nos pés e um estádio inteiro a gritar contra ele. Ninguém na tribuna de imprensa se apercebia disso, ninguém na bancada percebia isso, nem mesmo os jogadores do Boca percebiam.
Para todos, Pelé estava a ser anulado. Para Pelé, Menendes estava sendo estudado. E quando o estudo terminasse, a aula começaria. Aos 23 minutos da primeira parte, a aula começou. Coutinho recebeu a bola na intermédia e olhou em frente. Pelé estava de costas para a baliza, com Menes colado a ele, o peito do defesa colado nas costas do atacante.
Era a posição que Menes mais gostava. Pelé imobilizado, sem espaço, sem ângulo, sem saída. Coutinho tocou na bola para Pelé. Uma bola rasteira, firme na medida. Menes esperou pelo toque para pressionar com o corpo e roubar. Estava certo de que ia resultar. Tinha funcionado oito vezes nos 20 minutos anteriores.
Pelé recebeu a bola com o pé direito, sentiu o peso de Menendes nas costas e fez depois um giro sobre o próprio corpo que não existe em nenhum manual de futebol. Não foi um drible clássico, não foi uma finta de corpo, não foi uma pedalada, foi um movimento que pareceu desafiar a física. Pelé rodou 180º, utilizando o pé esquerdo como eixo, tirando o corpo de cima da bola e reaparecendo do outro lado de Menendes num único movimento fluido que durou menos de um segundo.
Num instante, Menendes estava a marcar um homem. No instante seguinte, estava marcando o ar. Os seus braços se estenderam para agarrar o que já não estava lá. Os seus pés ficaram plantados no chão enquanto o seu cérebro tentava processar o que tinha acabado de acontecer. Pelé saiu do giro com a bola no pé esquerdo, olhou para a baliza e chutou.
Não foi um pontapé de força, foi um pontapé de colocação precisa no canto inferior direito, rasteiro, com a velocidade exata para passar entre o guarda-redes e a trave. Amadeu Carriso, um dos melhores guarda-redes da história argentina, não teve tempo para mover uma mão. A bola entrou na baliza com um som seco que ecoava pelo estádio silencioso.
La Bomboneira esteve em silêncio durante 2 segundos. 2 segundos de 42.000 pessoas sem emitir um som. No futebol argentino. Isso não acontece. La Bomboneira nunca está em silêncio. É um estádio construído para ser barulhento, concebido para intimidar, feito para que o visitante se sinta pequeno. E naqueles 2 segundos, 42.
000 Os argentinos sentiram exatamente o que Menés sentiu. O choque de descobrir que o que pensavam saber sobre Pelé estava completamente errado. Nendes ficou parado no meio do campo. Não correu a reclamar com o juiz, não gritou com os companheiros, ficou parado, olhando para a rede estufada, como quem olha para um espelho que acabou de mostrar uma verdade desagradável.
O jornal que tinha lido de manhã, a matéria que dizia que Pelé estava em declínio, a certeza de que bastava marcar de perto, tudo isso se evaporou num rotação de menos de um segundo. E no lugar desta certeza, ficou algo que Menendes nunca tinha sentido antes em campo. dúvida. Pelé não festejou o golo, não correu para a bancada, não fez gesto nenhum, virou-se, voltou a caminhar para o círculo central e esperou pela reposição de bola com as mãos na cintura.
O seu rosto estava impassível. Não havia satisfação, não havia raiva, não havia triunfo. Havia apenas a calma de quem fez o que tinha de ser feito e sabe que ainda não terminou. No balneário do Boca Juniors. Durante o intervalo, o técnico José Maria Silveiro tentou reorganizar a marcação. O placar estava 1-0 para o Santos.
Não era um resultado irreversível. Silvero sabia que tinha jogadores para empatar. Sabia que La Bombonera podia virar o jogo com a pressão dos adeptos, mas precisava de resolver o problema Pelé. E o problema Pelé naquele momento tinha nome Menendes. Silvero pediu que outro defesa, Ratim ajudasse Menendes na cobertura, que os dois marcassem Pelé alternando a pressão, um à frente e outro atrás.
Nunca os dois no mesmo instante. Era uma marcação inteligente, bem pensada, que teria funcionado contra 99% dos atacantes do mundo. Mas Pelé não estava nos 99%. Pelé era o 1% que tornava qualquer plano tático numa sugestão otimista. Menendes ouviu as instruções do técnico sentado no canto do balneário com uma toalha branca sobre a cabeça.
Não disse uma palavra. Não concordou, não discordou, não fez perguntas. ficou sentado com os cotovelos nos joelhos e os olhos fixos num ponto do chão de concreto. Um colega de equipa, o Mei Alberto Gonzales, contou anos mais tarde numa entrevista a uma revista desportiva argentina que o olhar de Menendes naquele intervalo era o olhar de um homem que tinha percebido algo sobre si mesmo que preferia não ter descoberto.
Não era raiva, não era tristeza, era o reconhecimento silencioso de um limite que não sabia que tinha. Do outro lado do corredor, no balneário dos Santos, o clima era diferente. Pelé tomava café de um copo de papel e conversava com Pep sobre o chão do estádio. Dizia que o relvado tinha uma inclinação subtil perto da grande área esquerda, que fazia a bola correr mais depressa do que o normal.
Pep ouvia com a atenção de quem sabe que quando Pelé fala sobre o relvado está falando de geometria e física, não sobre erva. Não mencionaram menendes, não referiram o golo, não referiram a risada. Era como se nada daquilo importasse o suficiente para merecer uma conversa. Zito, do outro lado do balneário, observava Pelé, com a discreta atenção de quem conhece alguém há 10 anos.
E o que viu preocupou-o, não pelo que Pelé dizia, mas pelo que não dizia. A calma de Pelé era excessiva, demasiado controlada. Não era a calma de quem está satisfeito com um golo de vantagem, era a calma de quem ainda não terminou. O segundo tempo começou e Menendes voltou para o campo com Ratim ao lado, seguindo o plano de Silvero.
Nos primeiros 5 minutos, a marcação dupla funcionou. Pelé recebeu duas bolas e das duas vezes encontrou dois marcadores a fechar o espaço. Tocou de primeira para Coutinho nas duas ocasiões. A claque do Boca voltou a fazer barulho. A esperança estava a se reconstruindo. Aos 11 minutos da segunda parte, Pelé recebeu uma bola pelo lado esquerdo, perto da linha da grande área.
Menendes estava à frente. O Tim estava atrás. O espaço entre os dois era inferior a 1 m. Não havia por onde passar. Qualquer jogador do mundo teria devolvido a bola ou tentado uma jogada lateral. Pelé não não fez nenhuma das duas coisas. Ele parou. Simplesmente parou com a bola no pé esquerdo e ficou a olhar para Menendes como quem espera alguma coisa.
Menendes hesitou. A hesitação durou menos de meio segundo, mas foi o suficiente. Pelé tocou na bola por baixo das pernas de Menendes, correu por fora do seu corpo, recuperou a bola do outro lado e antes que Ratin pudesse reagir, cruzou para a zona onde Pep cabeceou para ampliar o marcador. Não foi o golo mais bonito da noite, mas foi o mais cruel, porque Menendes não foi driblado por velocidade ou por força, foi driblado pela inteligência.
Pelé esperou que ele hesitasse. Sabia que ia hesitar porque tinha passados 20 minutos do primeiro tempo aprendendo exatamente como Menendes reagia em cada situação. A gargalhada do início do jogo tinha custado a Menendes a única coisa que um defesa não pode perder, a certeza de que sabe o que o atacante vai fazer.
Aos 17 minutos, Pelé fez o terceiro golo do Santos. E o seu segundo na partida foi de cabeça num cruzamento de Lima pela direita. Pelé saltou ao lado de Menendes e subiu acima dele com uma elevação que parecia impossível para um homem do seu tamanho. Menendes saltou junto com toda a força que as pernas lhe davam e ficou 20 cm abaixo.
A bola bateu na testa de Pelé e entrou no canto esquerdo da baliza com uma velocidade que fez a rede balançar duas vezes antes de parar. A claque do Boca já não fazia barulho. Não era silêncio, era algo pior. Resignação. Aos 26 minutos, Pelé fez o terceiro dele e quarto do Santos. Foi de falta a 22 m da baliza. Menendes estava na barreira.
Pelé olhou para ele antes de cobrar, não com raiva, não com deboche. Olhou como quem olha para alguém que já não interessa e bateu por cima da barreira com a bola descrevendo uma curva que fez Carriso dar um passo para a direita antes de perceber que a bola ia para cita à esquerda. Quando tentou corrigir, a bola já estava dentro da baliza.
A cada golo, Menendes tornava-se menor dentro de campo, não fisicamente. Alguma coisa dentro dele encolhia a cada vez que Pelé tocava na bola. A confiança que tinha demonstrado no círculo central, o riso, a certeza de que era suficiente. Tudo isto foi sendo desmontado ao longo daqueles 90 minutos, com a mesma precisão metódica com que Pelé tinha desmontado a sua marcação nos primeiros 20 minutos.
Lance a lance, golo a golo, como uma parede que se disfaste tijolo a tijolo até não restar nada de pé. O Boca fez um golo nos minutos finais de grande penalidade, mas ninguém no estádio festejou verdadeiramente. O resultado de 4 a 1 poderia ter sido maior. Pelé tirou o pé nos últimos 15 minutos, como se soubesse que o que já tinha sido feito era suficiente.
E era quando soou o apito final, o estádio estava meio vazio. Parte da claque já tinha ido embora depois do quarto golo. Algo que em La Bomboneira era tão raro quanto neve em Buenos Aires. Os jogadores das duas equipas caminharam pelo campo na direção dos balneários. Uns trocaram apertos de mão, outros passaram direto.
Pelé não foi direto para o balneário, caminhou até ao meio-campo, onde Menendes estava parado com as mãos nos joelhos e os olhos no chão. A postura de um homem que não quer olhar para cima porque sabe o que vai encontrar. Pelé parou diante dele e ficou de pé em silêncio à espera. Menendes levantou a cabeça devagar. Os seus olhos estavam vermelhos, não de choro, mas do tipo de esforço que vai para além do físico.
Olhou para Pelé durante talvez 3 segundos. Naqueles 3 segundos, os dois homens mostraram-se mediram pela última vez. Mas desta vez não havia deboche, não havia desdém, não havia provocação. Havia apenas o reconhecimento silencioso de algo que Menés podia ter evitado se não tivesse rido. Pelé estendeu a mão.
Não disse nada, não precisava. O gesto dizia o mesmo que os golos tinham dito. Eu ouvi o que disse. Aqui está a minha resposta. Menendes apertou a mão a Pelé sem falar. O aperto durou dois segundos, firme dos dois lados. Não houve troca de camisolas, não houve abraço, não houve nenhuma palavra, apenas um aperto de mão entre dois homens que sabiam exatamente que tinha acontecido e porquê.
Menendes largou a mão de Pelé, voltou-se e caminhou para o balneário, sem olhar para trás. Entrou, sentou-se no mesmo canto onde tinha estado no intervalo e não saiu até que o estádio estivesse completamente vazio. Os companheiros foram-se embora, um a um. O roupeiro recolheu as camisas sujas. As luzes dos refletores foram apagadas e Menendes continuava ali sentado com a toalha branca sobre a cabeça e os olhos fixos no mesmo ponto do chão de concreto.
Na semana seguinte, pediu ao Boca Juniores para não ser convocado para a próxima partida internacional. Disse que era uma lesão muscular. O departamento médico não encontrou nenhuma lesão. Os jornais argentinos publicaram que estava a poupar o corpo para o campeonato local. Os companheiros de equipa sabiam que não era isso.
Sabiam que algo se tinha partido dentro de Menendes naquela noite de junho e que a peça partida era do tipo que não se repara. Menendes continuou a jogar no Boca Juniores por mais duas temporadas. jogava bem no campeonato argentino contra equipas que conhecia e atacantes que podia medir, mas nunca mais quis defrontar uma equipa brasileiro.
Quando o Santos voltou a Buenos Aires no ano seguinte, Menendes pediu dispensa quando a seleção brasileira veio para um particular em 1965, Menendes não estava no grupo. Cada recusa era explicada com uma razão diferente. Cada razão era plausível e cada razão era mentira. Em 1967, Menendes transferiu-se para o Veles Sarsfield, um clube mais pequeno, onde jogou mais 3 anos antes de se reformar.
Terminou a carreira com 33 anos, uma idade razoável para um defesa da época, sem qualquer escândalo e sem nenhuma explicação pública. Voltou a Mendoza, abriu um negócio de materiais de construção e nunca mais falou sobre futebol profissional. Quando os jornalistas o procuravam para entrevistas sobre os tempos de boca, ele recusava educadamente.
Uma única vez, em 1978, durante o Campeonato do Mundo na Argentina, um O repórter local de Mendoza conseguiu uma entrevista curta. Perguntou sobre os melhores jogadores que Menendes tinha enfrentado. Menendes citou três nomes argentinos. Não mencionou Pelé. O repórter insistiu e Pelé.
Menendes ficou em silêncio durante alguns segundos. Depois disse apenas: “Pelé não era um jogador, era outra coisa e mudou de assunto. Pelé nunca falou publicamente sobre Menendes. Em mais de 1 entrevistas ao longo da carreira, nunca mencionou o riso, nunca mencionou o jogo, nunca mencionou O defesa argentino que tentou humilhá-lo e saiu destruído.
Para Pelé, aquela noite em La Bomboneira foi mais uma noite numa carreira que teve centenas de noites semelhantes. Três golos, uma assistência, vitória fora de casa, voo de regresso a Santos na manhã seguinte. Rotina. Mas para Menendes não foi rotina. Para Menendes foi o dia em que ele descobriu que existe uma distância entre ser bom e ser o melhor, que não se mede em centímetros, nem em habilidade.
Mede-se na capacidade de um homem de absorver uma provocação, guardar em silêncio e transformar em algo que o provocador vai lembrar-se pelo resto da vida. Menendes aprendeu isso em 90 minutos e levou a lição para o túmulo. O Santos dessa época já não existe. O futebol dessa época já não existe. As excursões internacionais, os aviões trepidantes, os balneários com cheiro a bolor, os jornais dobrados nos bancos dos balneários, os estádios sem câmara em cada ângulo.
Tudo isto ficou preso num tempo que se vai apagando à medida que as pessoas que lá estiveram vão desaparecendo e com eles as histórias que os jornais não publicaram, os silêncios que só quem estava em campo ouviu, as gargalhadas que custaram carreiras e os apertos de mão que diziam mais do que qualquer manchete. Passaram-se os anos e o futebol mudou de uma forma que os homens desse tempo não reconheceriam.
Hoje existem 10 câmaras em cada jogo. Replay em alta definição, análise tática feita por computador, entrevistas no intervalo e imagens de cada ângulo possível. Um defesa que se rise de um avançado em 2024 teria o vídeo viralizado em segundos. seria analisado, comentado, debatido e esquecido em uma semana. Em 1964 não era assim.
O que aconteceu em La Bomboneira ficou dentro de La Bomboneira, ficou nas crónicas de dois ou três jornalistas que lá estavam e que escreveram sobre os golos, mas não sobre a gargalhada. Ficou nas memórias dos jogadores que viram e que aos poucos foram contando a história em balneários, em churrascos, em conversas de fim de noite com uma cerveja na mão.
A história passou de boca em boca, como passavam todas as grandes histórias do futebol antes da televisão dominar tudo, ganhando aqui detalhes, perdendo nuances aí, mas mantendo sempre o mesmo núcleo. Um defesa rio de Pelé. E Pelé respondeu da única forma que Pelé sabia responder. Com a bola, não com palavras, nunca com palavras.
Esta é uma das coisas que separam o que Pelé foi do que qualquer outro jogador tentou ser. A maioria dos grandes atacantes responde às provocações com gestos, com declarações, com entrevistas, com desabafos. Pelé respondia em campo, guardava a provocação num lugar que ninguém via, esperava o momento certo e devolvia-o em forma de golo, sem ódio, sem rancor visível, com a mesma tranquilidade com que enfaixava o tornozelo antes do jogo.
Era um ajuste de contas feito com precisão cirúrgica, onde a única arma era o talento e a única testemunha era o placar. A história de Menendes não termina com justiça, nem com vingança, termina com silêncio. O silêncio de um homem que voltou a Mendoza e nunca mais falou sobre a noite em que se riu do maior jogador de todos os tempos.
O silêncio de uma carreira que foi boa, mas que poderia ter sido maior se aquele riso não tivesse acontecido. O silêncio de um aperto de mão no meio de campo que não precisou de palavras para dizer tudo. E o silêncio de Pelé, que nunca mencionou Menendes, porque para Pelé a resposta já tinha sido dada. E uma resposta dada em campo com três golos e uma assistência não tem de ser repetida.
Hoje, quando ligamos a televisão e vemos o futebol moderno com todo o seu aparato tecnológico, é fácil esquecer que houve um tempo em que tudo dependia do que acontecia dentro daquelas quatro linhas, sem rede de segurança, sem replay, sem segunda chance. Um tempo em que um defesa podia olhar para o maior jogador do mundo e rir-se na cara dele, e em que o maior jogador do mundo podia responder de uma forma que destruía não só a partida do adversário, mas a certeza que tinha sobre si mesmo.
Menendes faleceu em Mendoza em 2003, tinha 66 anos. O obituário nos jornais locais mencionava as suas temporadas no Boca Juniors e no Vy Sarsfield. Não mencionava Pelé, não mencionava La Bomboneira, não mencionava a noite de 17 de de junho de 1964. Mas os homens que lá tinham estado sabiam.