OS LUXOS ABSURDOS ABANDONADOS PELOS MAMONAS ASSASSINAS APÓS A MORTE!
Fecha os olhos um segundo. Volta para 1995. Está na sala da sua casa. Sábado. TV de tubo ligado, cheiro de comida a vir da cozinha e cinco miúdos de peruca aparecem no Faustão a fazer todo o mundo que estava naquela sala rir junto. Ainda não comi ninguém. Não importa quem era, pai, mãe, irmão, vizinho que apareceu para almoçar.
Todo o mundo parava e ria. Os teus cabelos é da hora. Se ligasse o rádio tinha mamonas. Se ia a uma festa, havia mamonas. Se passava na rua e ouvia uma música a sair de uma janela aberta, era mamonas. Mas tudo mudou no dia 2 de março de 1996. O avião que trazia os mamonas assassinos caiu numa zona de difícil acesso a 1200 m de altitude na Serra da Cantareira, zona norte da capital.
Um avião despenhou-se na Serra da Cantareira e levou os cinco de uma vez. E nesse dia o Brasil inteiro perdeu alguém. Mesmo quem nunca tinha ido a um espectáculo, mesmo quem só conhecia pela TV, doeu a toda a gente. Hoje vamos voltar lá no início. Quando estes cinco miúdos não tinham nada, vai acompanhar a estrada toda, os calotes, a luta, a mentira que mudou tudo, o sucesso que explodiu do nada, o dinheiro absurdo que entrou, os automóveis importados, o sítio com disco de ouro na parede, os luxos que nunca
imaginaram ter. E depois vai descobrir o que aconteceu a tudo isto quando eles se foram, onde foi parar, quem se esqueceu, quem resgatou e como está hoje. Prepara o coração. Antes de fama, antes de disco de ouro, antes de qualquer coisa. Os mamonas eram cinco miúdos comuns de Guarulhos. E quando falo comuns, falo do tipo de vida que muita gente que está a ver este vídeo viveu.
O Dinho, que na verdade se chamava Alexander, trabalhava como assessor de um vereador, ganhava 200 reais por mês. Hoje isso equivale a uns R$200. Mal paga uma renda. E olha mesmo, este dinheirinho ele quase não via, porque o O Dinho não ia trabalhar, arranjava sempre uma desculpa.
vivia com os pais e dois irmãos num sobrado de três quartos na vila Barros em Guarulhos. O Bento estudava física na faculdade e tentou abrir um negócio, uma loja de ração de animais. Faliu. Tentou de novo. Montou uma empresa de divisórias para escritório com seis irmãos, sete pessoas a partilhar um negócio. Imagina.
O Samuel foi office boy durante 3 anos. 3 anos apanhando ônibus. lotado, carregando o envelope, correndo de um lado para o outro. E o irmão dele, o Sérgio, trabalhou na Olivete e depois fez uma coisa que quem tem mais de 35 anos se vai lembrar na hora. montou uma loja de aluguer de vídeo no quintal de casa, aquele quartinho com uma prateleira de fita, VHS e placa escrita à mão.
Nos anos 90 era o negócio da moda e o Júlio, o mais velho com 27 anos, era técnico de motores numa indústria. O mais quieto, o mais centrado, cinco vidas normais, cinco brasileiros a fazer o que milhões faziam, desenrascando-se. E é aqui que a história fica boa. Em 1989, o Sérgio, o Bento e o Samuel decidiram montar uma banda de rock.
Chamaram-lhe utopia. Faziam covers de legião urbana para lamas, titãs. Tocavam em barzinho, numa festa de bairro, em qualquer lugar que deixasse. Aí, numa noite de 1990, a meio de um concerto, o público começou a pedir Sweet Child of Mine do Guns Roses. E ninguém na banda sabia inglês, ninguém sabia a letra.
Falaram para o público: “Nós não cantamos essa música”. Mas o melhor desta noite ainda não aconteceu. Alguém na plateia levantou a mão. Era o Dinho. Subiu ao palco sem saber nada e cantou tudo no Imbromation, aquele inglês inventado que todo o brasileiro já tentou pelo menos uma vez na vida.
O público adorou, riu, aplaudiu, pediu mais. E naquela noite, sem ensaio, sem convite, sem plano nenhum, o Dinho virou vocalista. O Júlio entrou junto como teclista, cinco elementos, uma banda de covers e nenhum cêntimo no bolso. Só que ter banda era uma coisa, viver dela era outra. E o que veio depois foi duro.
Os rapazes pagavam para tocar. Isso mesmo. Montavam tudo, faziam o espetáculo e na hora de receber levavam calote, espectáculo de graça atrás de espectáculo de graça. Gravaram o primeiro [canção] disco, chamava-se A fórmula do fenómeno. Mandaram fazer 1000 exemplares, venderam 100. O restante foi doado e mesmo doando, sobrou.
Aí entra o Rick Bonadio, um produtor musical que acompanhava os meninos e via uma coisa que não conseguiam enxergar. Porque quando os mamonas deixavam de tentar ser uma banda séria de rock e começavam a gozar entre eles, a coisa ficava genial. Letras absurdas, melodias pegajosas, humor que fazia rir toda a gente.
O Rick insistia: “Lancem isto, esta palhaçada é que vai funcionar”. E eles não. Isto é brincadeira entre a gente. Até que um dia o Dinho pediu o estúdio emprestado. Não era para gravar disco, era para gravar duas musiquinhas para tocar num churrasco com os amigos. Pode acreditar. As duas músicas eram Robocop Gay e Pelados em Santos.
As músicas mais famosas dos mamonas assassinas nasceram para animar um churrasco de fim de semana. Ninguém planeou. Ninguém imaginou. E foi aí que tudo [a música] mudou. A banda Utopia morreu ali. Novo nome, novo visual, novo som. Pensaram em vários nomes: cangaceiros do seu pai, tangas vermelhas, mamonas assassinas do espaço. No final ficou mamonas assassinas.
Tinham duas canções, apenas duas. E para conseguir um contrato, contaram uma mentira. Com duas músicas gravadas e um nome que ninguém conhecia, os mamonas fizeram o que qualquer banda sem dinheiro fazia. Enviaram uma demo para toda a editora que acharam pela frente. A Sony recebeu, ouviu e jogou no lixo.
O diretor artístico referiu que a banda era péssima, mas do outro lado aconteceu uma coisa diferente. O Rafael Ramos, filho do diretor artístico da EMI, ouviu as músicas, gostou, levou para o pai. Pai, ouve isto aqui. O João Augusto, que era o pai e mandava na imi, decidiu dar uma oportunidade. Foi ver um concerto dos meninos ao vivo.
E o espectáculo era aquele que só os mamonas sabiam fazer, o cinco no palco em cuecas com c pendurado na frente, fazendo todos chorar de rir. Contrato assinado. Só que depois veio o problema. A Mi queria 10 músicas para o disco e os mamonas tinham duas, duas. Robocop gay e nus em Santos, mais nada. E aí a coisa ficou séria. Os meninos olharam um para o outro e fizeram o que qualquer brasileiro encurralado faz.
Deram um jeito. Falaram para o João Augusto que tinham sete músicas prontas. Mentira. Não tinham nenhuma para além daquelas duas. E por causa dessa mentira fecharam-se no estúdio e escreveram sete músicas em s dias. Saíram com 12. Em maio de 1995, cinco miúdos de Guarulhos embarcaram para Los Angeles para gravar o disco com o Rick Bonadiio Los Angeles, os mesmos tipos que meses antes pagavam para tocar num bar de periferia.
O disco ficou pronto e no dia 23 de Junho de 1995 foi para o mundo. No dia seguinte, todas as rádios do Brasil passavam mamonas. Todas. As pessoas ligavam a pedir música. As lojas não conseguiam repor. Chegaram a vender 50.000 1 exemplares num único dia. Para si que ter uma ideia, a maioria dos artistas brasileiros comemorava se vendia isso no ano inteiro.
No total, o disco vendeu mais de 3 milhões de cópias. Triplo diamante, o disco mais vendido do Brasil nessa época. Só que a história muda aqui, porque o dinheiro que entrou não era dinheiro normal. O cachet dos mamonas era de 40 a R$ 100.000 R por espetáculo. Isto em 1995. Para se ter uma ideia, era o dobro do que os paralamas do sucesso cobravam e os os guarda-lamas já eram gigantes.
Em valores de hoje, cada concerto dos mamonas valeria mais ou menos R 1 milhão deais. E eles faziam oito por semana, oito espectáculos de segunda a segunda, de avião em avião, de cidade em cidade. Em se meses, a gravadora faturou R milhões de reais só com venda de discos. Sem contar com concertos, merchandising, TV.
Eles estavam em todo o lugar. Faustão, Jô Soares, Domingo Legal. Se ligava a TV num domingo de 1995, tinha mamonas. Se ligava o rádio no carro, havia mamonas. Se ia num aniversário de uma criança, havia mamonas. Apesar das letras politicamente incorretas, toda a gente ouvia. Adulto, criança, avó, ninguém escapava. E aí vem uma parte desta história que é de arrepiar.
Lembram-se que eu disse que antes da fama os rapazes foram até um ginásio chamado Tomezão pedir para tocar lá e o dono olhou para eles e disse que aquele lugar era para grandes bandas, não para bandinhas? O Dinho saiu de lá revoltado, jurou que ia voltar. No dia 6 de janeiro de 1996, os mamonas assassinas tocaram no tomesão 18.000 pessoas.
O ginásio cheio, o chão tremendo. E o Dinho parou no meio do espectáculo, olhou para aquela multidão e fez um desabafo com a voz embargada. Um miúdo de Guarulhos que anos antes foi chamado de bandinha, agora ali naquele palco com 18.000 pessoas a cantar cada palavra. E com esse dinheiro todo fizeram o que qualquer um de nós faria.
Compraram os sonhos que nunca encontraram que podiam ter. A primeira coisa que o Dinho fez quando o dinheiro começou a enchival entrar não foi comprar nada para ele, foi comprar um carro para o pai, depois uma casa para a mãe, primeiro a família, depois ele. E quando chegou a sua vez, pensou grande, foi e comprou um Mitsubishi 3000 GT branco, modelo de 1995, 0 km.
Se viveu os anos 90, você sabe o que era esse carro? A Ferrari japonesa. O carro que aparecia nos posters colados na parede do quarto de todo o miúdo que sonhava com velocidade. Motor turbo, tração nas quatro rodas, um design que parecia coisa de filme na altura um dos carros mais desejados do Brasil. E esse pormenor dói.
O Dinho comprou este carro 10 dias antes do acidente. 10 dias. O sonho de consumo de um rapaz que 2 anos antes ganhava R$ 200 por mês, finalmente na garagem dele. E teve 10 dias para aproveitar. quase não andou nele. Depois do acidente, o Mitsubishi ficou parado em Guarulhos, parado de verdade, estacionado, sem que ninguém ligasse o motor, os pneus a esvaziar, a pintura a perder brilho. Os meses tornaram-se anos.
a Ferrari japonesa a ganhar pó numa garagem como se o dono nunca tivesse existido. Mas a família não vendeu, não se desfez, guardou e com o tempo o carro foi reparado e restaurado. Hoje está de volta e vai saber onde ele está daqui a pouco. Agora a Brasília amarela, essa toda a gente conhece, um Volkswagen. Brasília, 1974, pintado de amarelo vibrante que apareceu no clip de Pelados em Santos e tornou-se um dos símbolos mais reconhecidos da música brasileira nos anos 90.
Não era um carro de luxo, era um carro popular, velho, simples, mas com os mamonas no interior tornou-se lenda, quase um sexto membro da banda. E o destino desta Brasília é mais louca do que parece. Depois do acidente, o Brasília amarelo foi sorteada no Domingo Legal do SBT, programa do Gugu. Alguém ligou, acertou na resposta, ganhou o carro dos mamonas.
O vencedor levou a Brasília para o Rio de Janeiro. Até aqui tudo bem. Só que deixou o documento vencer e o carro foi apreendido e ficou num pátio público no Rio de Janeiro, 10 anos. A Brasília amarela dos mamonas assassinas, o carro do mais famoso clip deles, 10 anos debaixo de sol e chuva, enferrujando, descascando, virando sucata, sem ninguém ir buscar, sem ninguém reclamar.
E foi aí que o pai Dudinho tomou uma decisão. Em 2015, o o seu rio de Brando foi até ao rio e trouxe a Brasília de regresso. No ano seguinte, a restauração ficou pronta. Pintura amarela novinha, tudo no sítio, igualzinha ao clip. Hoje a Brasília pertence à família do Dinho, aparece em exposições pelo Brasil inteiro e esteve no filme dos mamonas.
Fãs viajam até Guarulhos só para tirar foto ao lado dela e os outros integrantes. Quando os mamonas rebentaram, a editora IMI deu de presente um carro importado para cada um. Toda a gente aceitou, todo mundo menos o Bento. E isso diz tudo sobre quem era. O Bento olhou para o carro importado, pensou e recusou.
Pegou o valor e guardou-o para comprar uma casa para os pais dele. Um miúdo de 25 anos que tinha uma loja de rações falida, escolhendo entre um carro de luxo e o teto da família. e nem pensou duas vezes. O Júlio, sempre o mais cabeça, seguiu o conselho do pai do Dinho e investiu em imóveis.
Mesmo com o sucesso, continuava a viver com a família. Não ostentava, guardava, mas os carros eram apenas uma parte. O bem mais especial que o Dinho comprou não tinha motor nem volante, era um pedaço de terra. Em 1995, com o dinheiro a entrar forte, o Dinho encontrou à venda um sítio em Itaquaqu Setetuba, na grande São Paulo, 5000 m², quase do tamanho de um campo de futebol.
Na altura, a região ainda era de quintas, tudo verde, tudo calmo. O tipo de lugar que quem cresceu na grande cidade sonha ter um dia. O Dinho não pensou duas vezes, comprou para família para dar aos pais dele um lugar melhor, com espaço, com quintal, com sossego. E esse lugar virou muito mais do que um sítio, porque o O Dinho não levou só a família para lá, levou a banda toda.
Tudo o que os mamonas usavam nos concertos parar dentro daquela casa. As fantasias de superheróis, as perucas, [a música] as pantufas, aquela roupa do Chapolim que toda a gente se lembra, a roupa de recluso, instrumentos musicais e na parede os discos de ouro e de platina que receberam por venderem milhões de exemplares.
Um sítio em Itaquaquecetuba com disco de ouro na parede, pensa nisso. Era um museu particular dos mamonas assassinas. Montado ali no meio de uma quinta entre árvores e churrasqueira. Os amigos iam, os fãs mais próximos iam. Era onde a banda descansava entre um concerto e outro, onde podiam ser apenas cinco miúdos de Guarulhos de novo, sem palco, sem câmara, sem multidão.
E foi nesse sítio que aconteceu uma coisa que aperta o coração. Na viragem de 1995 para 1996, a família toda se reuniu ali. Os cinco membros, os pais, os irmãos, os namoradas, os amigos. Churrasco no quintal, futebol no campinho, riso alta, cerveja gelada, fogos de artifício, o tipo de ano novo que qualquer brasileiro conhece.
Todos juntos, barriga cheia, feliz. Aquela foi a última reviravolta dos mamonas juntos. Dois meses depois, tornaram-se foram, mas o tempo faz o que sempre faz. Depois do acidente, o pai do Dinho, o teu rio de Brando, fez uma coisa bonita. Manteve o sítio aberto, os fãs apareciam sem avisar e ele abria o portão.
Mostrava as figurinos, os discos, as fotos. Recebia toda a gente como se fosse visita de família. Uma banda de covers dos mamonas chegou a ficar lá hospedada por alguns dias. Imagina tocar as músicas dos mamonas e dormindo no sítio onde os mamonas de verdade passaram o último ano novo. O o seu rio de Brando fez isso durante anos sozinho, cuidando de 5.
000 m² de memória. Só que o bairro foi mudando. Onde antes era a quinta, começaram a subir prédios. A região foi ficar urbana, barulho, vizinho, construção. E manter um terreno daquele tamanho tornou-se cada vez mais difícil. O seu rio de Brando já não era mais jovem.
Em 2019, a família tomou a decisão. Venderam a quinta. Mas antes de entregar a chave, tiraram tudo. [canção] Cada fantasia, cada disco de dourado, cada foto, cada peruca, cada lembrança. Nenhuma memória dos mamonas se perdeu. O sítio foi-se embora, mas o que importava ficou. Os carros foram resgatados, o sítio foi vendido, tudo guardado.
Mas há uma noite que ninguém conseguiu guardar. E o que aconteceu nessa noite ainda arrepia. Dia 2 de Março de 1996, o último concerto da digressão pelo Brasil, Brasília. Depois dali, os mamonas iriam a Portugal, a primeira digressão internacional, o sonho de levar aquele humor para fora do país. Os meninos estavam cansados, não cansados de fim de semana, cansados de verdade, meses sem parar.
Oito espetáculos por semana, dormindo dentro de um avião, acordando numa cidade diferente. Quando não estavam em palco, estavam a voar e quando não estavam voando, estavam com saudades de casa. No concerto de Brasília, anunciaram que aquela seria a última apresentação no Brasil, depois Portugal. E, de facto, foi a última.
Só que não da forma que ninguém imaginava. E 12 horas antes aconteceu algo que arrepia até hoje. O Júlio, o teclista, o mais velho, o preocupado do grupo, foi filmado no aeroporto de Guarulhos antes de embarcar paraa Brasília. No vídeo, ele está irrequieto, coçando a nuca sem parar. A família dele confirmou depois que este era o sinal.
Quando o Júlio coçava a nuca assim, era porque estava com medo. E depois olha para a câmara e diz: “Diz que sonhou que o avião caía 12 horas antes.” Os mamonas sempre tiveram uma relação estranha com os aviões. O Samuel desenhava aviões a toda a hora. Eles moravam perto do aeroporto de Guarulhos, cresceram ouvindo turbina.
No disco, agradeceram Santos do Mon porque senão teríamos que ir para os Estados Unidos a pé. Era piada, era sempre piada com eles. O Dinho contou em entrevista que o avião da banda quase tinha caído na Amazónia porque o radar avariou e fez graça. Pouco antes de embarcar para o último concerto, um amigo disse ao Dinho que ele ia arrebentar em Portugal.
O Dinho respondeu que o que ia rebentar era a cabeça. Uma vidente tinha previsto o acidente. Em Dezembro de 95, ninguém levou a sério. No aeroporto de Guarulhos, a Valéria, namorada do Dinho, e o pai, já estavam à espera do avião chegar de Brasília. A Valéria foi a última pessoa que falou com o Dinho por telefone.
O jato Learet decolou de Brasília com os cinco membros, o piloto, o copiloto e dois assistentes. Viagem normal. Chegou a Guarulhos. Se tivessem ficado no chão, estariam vivos. O avião tocou no solo, aterrou, mas o piloto arremeteu, voltou a subir e na hora de fazer a curva, virou para a esquerda em vez da direita.
Era noite, não havia sinalização e ali à frente, no escuro, encontrava-se a serra da Cantareira. Às 23:16 do dia 2 de Março de 1996, o avião embateu na serra. Ninguém sobreviveu. Os cinco membros, o piloto, o copiloto, dois assistentes, todos. Quem viveu aquele dia sabe. Você lembra-se onde estava quando soube? É daquelas notícias que param tudo, que fazem-no ficar parado olhando pra TV sem conseguir dizer nada.
E quando a dor deu espaço à realidade, veio a pergunta: “E agora? Quem fica com o quê? Como se divide? O que sobrou de cinco vidas que mal tinham começado? Nenhum dos cinco tinha filhos. Nenhum era casado no papel. Eram cinco miúdos na casa dos 20 e poucos anos. Mal tinham iniciado a vida adulta. Assim, quando já se foram, quem herdou [a música] tudo foram os pais, os mesmos pais para quem tinham comprado casas e carros poucos meses antes.
Cada família ficou com os bens do seu filho. Os pais do Dinho herdaram a quinta, os carros, os direitos de autor das músicas que ele compôs. A família do O Bento ficou com o que era do Bento, os pais do Samuel e do Sérgio com o que era dos dois irmãos e a família do Júlio com o que era do Júlio.
Não teve divisão conjunta. Cada um tinha o que era seu. Mas o legado dos mamonas não era só de um ou de outro, era dos cinco juntos. E alguém precisava de cuidar disso. O Jorge Santana, primo do Dinho, criou o Instituto Mamonas. A ideia era simples, organizar e proteger [a música] tudo o que envolvia o nome da banda, licenciamento, utilização da imagem, das músicas, dos vídeos.
E isso foi combinado entre todas as as famílias. Cada vez que o nome Mamonas Assassinas aparece em alguma coisa, filme, propaganda, regravação, documentário, as cinco famílias recebem, todas, sem exceção. Quase 30 anos depois, o nome ainda gera rendimentos pros pais que ficaram. É pouco perto do que os rapazes geravam vivos, mas é algo e é justo.
E este pormenor arrepia quando o filme Mamonas Assassinas, O Impossível não existe, começou a ser produzido. As famílias abriram tudo, não guardaram nada, entregaram os objetos originais para o set de filmagem. A a bateria do Sérgio foi levada para o filme. A mesma bateria, aquela que ninguém tinha tocado desde o dia do acidente.
Quase 30 anos em silêncio. E o ator, que interpretou o Sérgio, sentou-se ali e tocou. Pela primeira vez desde 1996, aquela bateria voltou a soar. A guitarra original do Bento também lá estava. E olha que coisa, o ator que fez o papel do O Bento no filme é o sobrinho dele na vida real.
O sobrinho a interpretar o tio que nunca mais voltou a casa. Imagina o peso disto. A fantasia de coelho que o Din utilizava nos concertos, a original. A Brasília amarela no sete, a mesma do clip, tudo real, tudo de verdade. E a mãe do Sérgio e do Samuel, a mulher que perdeu dois filhos no mesmo acidente, nunca foi ao sete, nenhuma vez.
Porque até hoje, quase 30 anos depois, cada vez que fala dos filhos, ela chora. E ninguém no mundo tem o direito de julgar uma mãe que chora pelos filhos que perdeu. As famílias se organizaram. O legado tá protegido, mas tem uma conta que ninguém pagou até hoje e essa parte é a que mais dói. Em 2021, a mãe do O Dinho, a dona Célia, revelou uma coisa que quase ninguém sabia.
Não há das cinco famílias recebeu indemnização pelo acidente aéreo. Nenhuma. Zero. E essa parte quase ninguém sabe. O processo contra os responsáveis ainda corre na justiça quase 30 anos depois. 30 anos de audiência, de advogado, de papel, de espera. Cinco miúdos mortos num avião que chegou a pousar e não devia ter subido de novo.
E as suas famílias, as mesmas que abriram o sítio aos fãs, que entregaram os objetos ao filme, que cuidaram da memória dos filhos, nunca receberam um tostão de quem devia ter garantido a segurança daquele voo. 30 anos e nada. Mas as famílias não pararam na dor. Fizeram uma coisa que só quem percebe de amor percebe de verdade.
Em 2023, os pais dos cinco elementos reuniram e autorizaram a esumação e a cremação dos restos mortais. E com as cinzas plantaram árvores, um memorial arborizado, raízes onde antes só tinha dor, folhas onde antes só tinha silêncio. Vida a nascer da perda. Cinco árvores para cinco miúdos de Guarulhos.
E talvez seja isso que fica no final de tudo. Não são os carros, não é o sítio, não são os discos de ouro. O maior luxo que os mamonas assassinas deixaram para trás não cabe numa garagem e não tem preço numa tabela. É a prova de que cinco miúdos comuns, um que não ia trabalhar, outro que faliu vendendo ração, outro que tinha uma loja de aluguer de vídeo no quintal.
podem fazer um país inteiro rir, cantar e chorar junto. Em menos de um ano, o Bento recusou um carro importado para comprar casa para os pais. O Dinho comprou sítio para a família antes de pensar nele próprio. O Júlio investia em imóveis porque pensava no futuro. O Samuel e o Sérgio, dois irmãos que cresceram ouvir turbina de avião em Guarulhos, se foram dentro de um.
Eles eram gente como a gente. E talvez seja por isso é que dói até hoje. Porque quando perdemos alguém assim, não perdemos só a pessoa. A as pessoas perdem um pedaço daquilo que a gente era naquela altura. Mas enquanto a música tocar, estes cinco miúdos continuam vivos. E pelas árvores que crescem em Guarulhos, parece que concordam.
Conta-me nos comentários qual o momento dos mamonas marcou a sua vida. Foi ouvir no rádio pela primeira vez, ver na TV com o família ou foi o dia em que soube do acidente e nunca mais se esqueceu? Escreve aí, leio tudo. Se este vídeo te fez lembrar de alguma coisa, deixa o like. Se conhece alguém que cresceu a ouvir mamonas, manda esse vídeo para essa pessoa agora.
Subscreve o canal e ativa o sininho, porque para a semana há mais uma história destas, de um artista brasileiro que juntou uma fortuna que ninguém imaginava. E o que resta dela vai deixá-lo de queixo caído.