Um miúdo dentro de uma casa simples ensinando a própria mãe a ler. Isto aqui diz mais sobre quem ele era do que qualquer mansão que ele comprou depois. Guarda isso, certo? Porque este pormenor vai fazer muito mais sentido lá à frente. Só que enquanto a vida era dura, tinha uma coisa que já estava ali a crescer com ele dia após dia. O som do samba.
>> O batuque, o ritmo, as rodas, o calor das pessoas reunidas. Aquilo não era só diversão, era o que dava sentido para tudo. E sem saber, aquele menino que cresceu no meio da dificuldade já estava a ser preparado para algo muito maior. >> És forte, és bom, nunca baixa a cabeça para ninguém.
Sabe porquê? Porque vai ser o melhor alun da >> algo que o ia tirar do monte e levar ele para o mundo inteiro. Mas ninguém ali fazia ideia disso ainda. E o mais curioso é que o primeiro passo desta viragem não veio da televisão, veio da música. E é aí que a história começa a mudar de verdade.
O menino que cresceu no monte da mangueira, rodeado de dificuldade, estava agora diante da primeira oportunidade real de mudar de vida. E ela veio através de algo que sempre esteve ali desde o início. O samba. Sem a cadência do samba não posso ficar. Não posso ficar. >> Ainda jovem, Msum juntou-se a um grupo que naquela época ninguém imaginava, mas que acabaria por marcar a história da música brasileira, os originais do samba.
E não era apenas mais um grupo tentar espaço, não. Eles tinham algo diferente. Energia, presença, identidade e principalmente verdade. Era o som da rua. Apavora disse eu que vou investir. >> O som da mangueira, o som de quem vivia aquilo de verdade. E o Brasil começou a perceber. Logo vieram os concertos, depois vieram as digressões e quando viram aquele grupo que nasceu no meio do samba já estava a correr o país inteiro e a ir além.
Sim, começaram a viajar para fora do Brasil. Agora pensa nisso por um segundo. Um miúdo que cresceu no monte, que ensinou a própria mãe a ler. Agora estava em palcos internacionais, levando o samba brasileiro ao mundo. Isto naquela altura não era comum, era gigantesco. E enquanto o país vivia um dos momentos mais tensos da sua história, com censura, medo e repressão, o Musum estava a fazer exatamente o contrário, levando alegria, levando música, levando o Brasil que resistia através do ritmo, o dinheiro começou a aparecer. Ainda não era fortuna, ainda
não era uma mansão, ainda não era um luxo extremo, mas já era suficiente para mudar a vida. Pela primeira vez, o menino da Mangueira começava a ver um futuro diferente. Conheceu outros lugares, outras realidades, outros mundos que antes pareciam impossíveis. Mas há aqui um pormenor importante. Mesmo com tudo isto a acontecer, ele nunca largou as suas raízes, nunca deixou a mangueira para trás, nunca esqueceu quem era e de onde veio.
E talvez tenha sido exatamente isso que fez com que tudo acontecer da forma que aconteceu. No meio desta fase de crescimento que surgiu um convite, um convite simples, quase despretensioso, mas que mudaria completamente o rumo da vida dele. Um convite que ia tirar o musum da música e colocá-lo dentro da casa de milhões de brasileiros todos os domingos à noite.
E a partir daí nada, absolutamente nada, seria como antes. O convite veio e mudou tudo. Em 1973, Musum juntou-se a um grupo que não só fez sucesso, mas tornou-se um fenómeno nacional. Os trapalhões. >> Como se chama a música? >> Cala a boca. Que que sen falou? >> Cala-te. Como? Cala boca. Trago o senhor aqui.
Cala a boca é o nome da música. Muito bem. Então vamos ouvir aqui o senhor empalhadinho da mangueira. >> Cala a boca, o teu olhar tá-me a dizer. >> E a partir desse momento, a vida dele saiu de crescimento e entrou em explosão. Não era só televisão, era um ritual. Domingo à noite, família reunida e milhões de brasileiros a assistir aos mesmos quatro homens, Didi, Dedé, Zacarias e Musum.
Cada um tinha o seu estilo, mas o Mussumon tinha algo diferente. >> Besta quadrada, és um burro. Já que foram apresentados, do que se trata? Ele não precisava de um guião complexo, uma frase, uma expressão, um cassildes e pronto. A gargalhada vinha automática. Isso transformou-o em um dos rostos mais conhecidos do país.
Mas o impacto não parava na TV. Os trapalhões foram para o cinema e dominaram também. Foram 37 filmes e não eram produções pequenas. Lotavam salas, criavam filas, tornavam-se evento nacional, era bilheteira garantida. Agora soma isso. Televisão mais cinema mais publicidade. O resultado? Muito dinheiro, mas muito mesmo.
Os contratos com a Globo eram de elevado nível e a publicidade elevou ainda mais. Mussum tornou-se garoto propaganda da Volkswagen. >> Queils é o >> Carocha 2013. Perfeito. >> E naquela altura isso significava uma coisa só. Contrato milionário. O rosto dele estava em todo o lado: revista, outdoor, comercial. Ele já não era só famoso, ele era uma marca.
E foi aqui que tomou uma decisão que muita gente não tomava naquela altura. Enquanto o Brasil enfrentava uma inflação absurda, moeda a perder valor, economia instável, Musum não deixou o dinheiro parado. Ele investiu, comprou imóveis, terrenos, património real, transformou um cachê em estrutura e isso fez crescer a fortuna de verdade.
Mas é aqui que a história começa a mudar de direção, porque ganhar o dinheiro é uma coisa. Agora, o que ele fez com esse dinheiro é o que realmente define tudo o que veio depois. Porque o Mussum não só ficou rico, como passou a viver como poucos. E quando eu digo poucos é porque o nível de luxo que que alcançou não era comum nem entre famosos.
E é exatamente aí que a história entra na parte que mais impressiona e ao mesmo tempo a mais perigosa. Com o dinheiro a entrar forte de todos os lados. Mussung não só ficou rico, como construiu uma vida que parecia saída de um filme. Só que ao contrário da televisão, aquilo era real. Acontecia longe das câmaras, a um nível que muita gente que ria dele todos os domingos nem imaginava.
A casa dele ficava no condomínio Eldorado, em Jacarpaguá, um dos endereços mais desejados da zona oeste do Rio de Janeiro nessa época, conhecido por concentrar grandes nomes da televisão. E ali, Musum não tinha apenas uma casa, tinha uma verdadeira mansão com amplo terreno, piscina, espaço para festas e uma estrutura pensada para receber pessoas a todo o momento.
E recebia mesmo. Os fins de semana eram movimentados com samba, churrasco, amigos a chegar sem avisar, artistas circulando como se aquilo fosse uma extensão natural do palco. O portão estava sempre aberto e não era figura de linguagem, era literalmente um ponto de encontro. E como se não bastasse, o vizinho era ninguém menos que Dedé Santana, o parceiro de palco.
Imagina isso. Dois dos maiores ícones do humor brasileiro vivendo lado a lado, fora das câmeras, mantendo a mesma energia que o público via na televisão. Só que essa mansão não era o auge, porque enquanto muita gente achava que aquele era o máximo que ele tinha conquistado, existia um outro lugar muito mais exclusivo, muito mais inacessível e que define melhor do que qualquer outra coisa o nível que Mussumon alcançou.
Em Angra dos Reis, na ilha da Gipoia, ele tinha uma casa de veraneio que só podia ser acessada por barco ou helicóptero. Não tinha estrada, não tinha acesso fácil, não tinha movimento comum, era isolamento total, com conforto absoluto. E ali a cena era surreal. Mussum de bermuda e chinelo sentado à beira do mar, enquanto alguns dos maiores nomes do samba tocavam ao vivo no quintal dele.
Não era evento, não era show, não era gravação, era só mais um fim de semana. O homem que cresceu sem quase nada agora chegava de lancha em um pier privativo, em uma ilha que praticamente funcionava como um refúgio particular. E não era qualquer lancha, eram embarcações de alto padrão, avaliadas em valores que na época já colocavam ele muito acima da média até entre famosos.
Fora isso, vinham os carros importados, especialmente após a abertura das importações no início dos anos 90, algo que na época ainda era símbolo claro de status. relógios de ouro, joias e até versões sofisticadas do próprio instrumento que o acompanhou desde o começo, o recor peça de luxo. Tudo isso fazia parte da rotina de alguém que saiu do morro da mangueira e alcançou um padrão de vida que poucos brasileiros naquela época sequer conseguiam imaginar.
Mas tem um ponto aqui que muda completamente a leitura dessa história. Apesar de todo esse patrimônio, todo esse luxo, toda essa estrutura, Muson nunca foi um homem de guardar dinheiro. Ele era conhecido por ajudar todo mundo ao redor, família, amigos, conhecidos. Não importava. Se alguém precisava, ele ajudava. O dinheiro entrava rápido, mas saía com a mesma velocidade, não por descontrole, mas por generosidade.
Ele simplesmente não sabia dizer não. E é exatamente aqui que começa o problema. Porque tudo aquilo, mansão, ilha, lancha, carros, dependia de uma única coisa para continuar existindo naquele nível, ele estar vivo. E quando isso mudou, tudo começou a desmoronar. Tudo aquilo que Musum construiu ao longo de anos dependia de uma única coisa, ele continuar ali.
E essa realidade mudou de forma brusca no dia 29 de julho de 1994. Com apenas 53 anos, Mussum morreu. >> Mussum morreu às 2:45 da manhã de hoje na UTI do hospital >> e o Brasil sentiu na hora. Não foi só a perda de um artista famoso, foi como se uma parte da rotina das pessoas tivesse sido arrancada. O domingo à noite nunca mais foi o mesmo.
Aquele momento em que famílias inteiras se reuniam para rir, simplesmente deixou de existir como antes. Só que enquanto o público lidava com a saudade, dentro da vida real começava outra história, uma bem mais dura, porque junto com a ausência veio o peso de tudo aquilo que ele deixou: mansão, casa em ilha, lancha, carros, tudo aquilo que antes representava conquista, agora passou a representar custo e custo alto, muito alto.
Nada daquilo se mantinha sozinho. Salário não tá dando e a panela tá furada. >> Cada bem exigia dinheiro constante, manutenção, impostos, despesas que não paravam. E sem o Mussum gerando renda no mesmo ritmo, a conta não fechava. A família precisou agir rápido, não por escolha, por necessidade. Os bens começaram a ser vendidos.
Primeiro o que era mais caro de manter, depois o que ainda tinha valor de mercado. A lancha saiu, os carros também. E aos poucos aquele patrimônio que parecia gigante foi sendo desmontado peça por peça. Não era luxo sendo trocado por outro luxo, era sobrevivência substituindo o conforto. E aqui entra um detalhe decisivo.
Grande parte da fortuna dele estava concentrada em bens, não em dinheiro disponível. E isso quando a pessoa vai embora vira problema. Porque imóvel não paga conta do dia a dia, não resolve inventário, não sustenta a família imediatamente. O resultado foi inevitável. O império que levou anos para ser construído começou a desaparecer em pouco tempo.
Ao mesmo tempo, a herança precisava ser organizada. Mussum deixou cinco filhos e o processo de divisão não foi simples. >> Um novo capítulo na polêmica herança do comediante Musum, que morreu há 30 anos. >> 19 exige publicamente a parte dele na partilha e agora os outros >> papelada, decisões, avaliações, tudo demorando muito mais do que a família esperava.
O que parecia ser apenas uma formalidade, tornou-se um processo longo, desgastante e cheio de complicações. A herança milionária que é mil, isto daí está no mundo dele. >> E o mais impressionante é isso. Foram necessários 16 anos para que a partilha fosse oficialmente concluída. Somente em 2010, tudo parecia finalmente resolvido. Os bens já tinham sido vendidos, os valores distribuídos, cada filho seguindo a sua vida e a história aparentemente encerrada.
Mas não estava, porque quando toda a gente achava que aquele capítulo tinha sido fechado, algo completamente inesperado aconteceu e mudou tudo outra vez. Depois de anos de desgaste, vendas e um inventário que demorou mais de uma década a ser concluído, parecia que finalmente tudo tinha terminado. A família seguiu a vida, cada um com a sua parte, e o nome de Musum começava a ficar apenas na memória e na saudade.
Mas em 2019, 25 anos após a sua morte, aconteceu algo que ninguém esperava. Um homem apareceu no justiça com uma afirmação que mudou completamente a história. Ele dizia ser filho do Musson. >> Depois de eu ter feito este ADN, muita coisa aconteceu para o bem, muita coisa aconteceu pro pro mau. O seu nome era Igor Palhano, um médico dentista com vida formada, rotina comum, mas com uma dúvida que nunca tinha sido resolvida.
E desta vez não era apenas uma suspeita. Ele decidiu ir até ao fim, fez o teste de ADN e o resultado não deixou espaço paraa discussão. Era positivo. O Igor era de facto filho biológico de Musson. Papá, fala. >> A partir desse momento, tudo o que já tinha sido resolvido deixou de ser definitivo, porque pela lei não importa quando o filho aparece, se é filho tem direito e isso muda tudo.
A herança que já tinha sido dividida, voltou a ser questionada. O processo foi reaberto e a justiça tomou uma decisão imediata, bloqueio de bens dos outros herdeiros como garantia de uma nova divisão. De uma hora para a outra, o passado voltou com toda a força e tornou-se conflito. De um lado, Igor, com um argumento simples.
Ele não escolheu nascer sem saber quem era o pai. Quando descobriu, foi atrás do direito que a lei garante. Para ele não se trata de oportunismo, trata-se de reconhecimento e justiça. Do outro lado, os cinco filhos que sempre ali estiveram sustentam outra realidade. Dizem que não existe mais património para dividir, que os bens já foram vendidos há anos, que o dinheiro já foi utilizado, que a vida seguiu.
Para eles, reabrir tudo depois de tanto tempo é impor uma cobrança sobre algo que já não existe. E é aqui que a história se torna mais pesada, porque não existe uma resposta fácil. Quem está certo? O filho que apareceu depois ou os filhos que viveram toda a trajetória desde o início? A verdade é que cada lado transporta a sua própria razão.
E enquanto a justiça tenta encontrar um equilíbrio, o nome de Musson, que antes unia milhões de pessoas no riso, agora vê-se no centro de uma disputa que ninguém imaginava. Mas há um pormenor nesta história que muda completamente o jogo. O novo herdeiro pode sim participar nessa receita futura do que adiv.
Porque mesmo depois de tudo isto, mesmo com os bens vendidos, o dinheiro gasto e processos na justiça, existe ainda uma herança. E essa herança ninguém consegue vender, dividir ou esconder. Mesmo depois de tudo, os bens vendidos, o dinheiro gasto, lutas na justiça, a história do Musum não terminou, porque existe uma parte da sua herança que nunca desapareceu e que continua a gerar dinheiro até hoje.
Pela lei brasileira, os direitos de autor de um artista continuam a ser válidos por 70 anos após a morte. Mussum morreu em 1994. Isto significa que até 2064, tudo o que envolve a imagem, a voz e o trabalho dele ainda gera receita. Cada reprise dos trapalhões, cada música tocada, cada exibição, cada utilização da imagem, tudo isto ainda rende.
E agora este valor é disputado por seis herdeiros. Mas aqui está a grande viragem dessa história. Tudo aquilo que parecia mais valioso, a mansão, a ilha, o lancha, os automóveis, já não existe na prática. foi vendido, desapareceu, tornou-se passado, mas o que realmente importa continua intacto, o riso. >> Porque ninguém se lembra do Mussum pelo que tinha.
Foi a maneira dele falar, foi o sorriso fácil. Faz o seguinte, eu compro o bilhete, entrego-o ali, ele rasga-o e atira no buraquinho, compro o bilhete. >> Foi aquele momento em que o Brasil inteiro se esquecia dos problemas, nem que fosse por uma hora. E isso não se perde, não se vende, não se divide em tribunal. O mais impressionante desta história é que um homem que saiu do monte da Mangueira, sem nada conseguiu construir algo que vai durar mais do que qualquer fortuna. Não deixou apenas bens.
Ele deixou memória. E talvez seja isso que mais incomoda nesta história toda, porque enquanto o dinheiro gerou uma briga, a memória dele continua a unir pessoas até hoje. E agora quero saber de você. Acha justo o que aconteceu com a herança do Mussum? Ou depois de tanto tempo? Isto já não deveria ser mexido? Comenta aqui em baixo, porque esta história definitivamente não é tão tão simples quanto parece. M.