OS LUXOS ABSURDOS DEIXADOS POR CARLOS ALEXANDRE

Há uma música que é só começar. Todo mundo já conhece o refrão. Feiticeira. Feiticeira. Feiticeira. Toca a primeira nota e a mesa do bar inteira acompanha, pois esta música era dele, do Carlos Alexandre, o homem que punha postal para tocar na rádio. Mandando este cartão postal. Ele é uma foto da catedral e fazia o camionista cantar junto na boleia estrada fora.

O homem da ciganinha, aquela que rolava no altifalante da praça, no aparelho de som da festa de casamento, no gira-discos lá de casa ao fim de tarde. Você é a cigania dona do meu coração. Se é do Nordeste, então este gajo era o trilho da sua vida. E olha o tamanho do que construiu. Mais de 2 milhões de discos vendidos, 15 discos de ouro.

Um tipo que saiu de trás do balcão de uma padaria no interior Potiguar e foi parar à televisão cantando pro Brasil inteiro no Chacrinha no programa do Sílvio Santos. Só que esta história há uma pergunta no meio dela que quase ninguém parou para responder. Um homem que vendeu tudo isso, que viveu o sucesso deste tamanho. O que será que deixou para trás quando se foi embora? E ele foi-se embora cedo, da forma mais brusco que tem.

Fica comigo nisto, porque a história vai longe. Começa com um menino tão pobre que foi doado pela própria família, ainda bebé, e termina numa estrada do Rio Grande do Norte, num carro novo, numa madrugada que ninguém daquela região conseguiu esquecer até hoje. No meio há uma frase que arrepia, um automóvel que se tornou uma obsessão e uma corrida contra o relógio por um motivo que te vai apanhar.

Mas para perceber como tudo terminou, temos que voltar pro princípio, pro sertão do Rio Grande do Norte, no fim dos anos 50, e para um menino que ainda nem sequer tinha esse nome. Rio Grande do Norte, 1 de junho de 1957. No Agreste, naquela terra seca, nasce um menino chamado Pedro. Pedro Soares Bezerra, o mais novo de sete irmãos.

E a vida deste menino já começou na pancada, porque o fim dos anos 50 no interior nordestino, foi tempo de seca brava, aquela seca que racha o chão, que mata a roça, que obriga a família a tomar decisões que nenhum pai e nenhuma mãe queriam tomar. E foi o que aconteceu na casa do Pedrinho.

Os pais separaram-se, o pai foi-se embora e a mãe ficou sozinha com sete crianças para criar e quase nada para pôr na mesa. Aí vem a parte mais dura desta história e é logo no começo. Sem ter forma de sustentar o sete, a mãe tomou a decisão mais dolorosa que existe. Doou os filhos, entregou as crianças para outras famílias criarem na esperança de que tivessem uma vida melhor do que ela podia dar.

E o O Pedrinho, coitado, era tão pequenino que dizem que antes de completar do anos de idade já tinha passado por três famílias diferentes. Pensa nisso. Um bebé que ainda nem andava direito, já tinha sido entregue, devolvido e entregue de novo, sem sequer entender o que estava acontecendo com ele.

Mas o destino às vezes tem uma revira-volta guardada, porque numa dessas o menino caiu no colo de uma família que decidiu ficar com ele de vez. Uma família que o acolheu, criou como um filho e, olhe que importante, meteu na cabeça daquele menino que ele tinha um dom. Foi esta família que percebeu que o Pedrinho tinha queda para música e, em vez de podar, incentivou.

meteram-lhe um violão na mão ainda criança com cerca de 8, 10 anos. E o menino aprendeu a tocar e a cantar. E teve uma voz vinda do rádio que se tornou o espelho dele. Naquela altura não havia televisão em toda a casa, não havia internet, não não tinha nada. O que havia era o rádio. E na rádio o Pedrinho descobriu um cantor que mexeu com ele de uma forma que ele nunca esqueceu, o Evaldo Braga, um cantor que também tinha vindo debaixo da pobreza e que cantava o abandono, o desamor, a dor de cotovelo de uma forma

direto, sem enfeite. O Pedrinho ouvia aquilo e reconhecia-se. Pensava: “É assim que quero cantar sobre as coisas de verdade, da maneira que o povo sente, mas sonho não paga a conta e a vida continuava apertada. Para ajudar na casa, o Pedrinho foi trabalhar, foi ser caixeiro num armazém, numa padaria de um irmão de criação lá no bairro da Cidade da Esperança, em Natal.

passava o dia atrás do balcão, vendendo pão, atendendo freguês, e à noite, ou nas folgas, pegava na guitarra e cantava. Virou figura conhecida no bairro com um apelido que dizia tudo sobre a sua vida, o Pedrinho da padaria, ou como o povo falava, Pedrinho Padeiro. Era esse o retrato dele. Um rapaz pobre, criado por uma família que não era a de sangue, trabalhando atrás de um balcão, sonhando alto com uma guitarra na mão.

Qualquer um olharia e veria apenas mais um sonhador, daqueles que o Brasil tem aos magotes e que nunca saem do bairro. Só que faltava uma pessoa nesta história. Uma pessoa que ia olhar para aquele tímido padeiro e ver o que mais ninguém via. E essa pessoa estava prestes a entrar no vida dele. O seu nome era Solange. A Solange entrou na vida do Pedrinho e mudou tudo, mas não da forma que você imagina.

Conheceram-se, se apaixonaram-se, casaram, tiveram três filhos. Só que a Solange não foi só esposa, ela foi a força por detrás do artista, aquela pessoa que acredita mais em si do que você mesmo. E olha que ela precisou de acreditar muito, porque o O Pedrinho tinha um problema grave para quem queria ser cantor.

Ele era tímido demais. E quando digo tímido, é tímido de verdade. A própria Solange contava uma cena que diz tudo. Ela marcava um espetáculo para ele cantar num circo, no bairro. E quando chegava a hora, o O Pedrinho via a multidão e empacava. Encravava de vergonha, não queria entrar. E a Solange tinha literalmente de empurrar o marido pelas costas até ao palco.

Empurrava o homem até à frente do picadeiro para ele cantar. Quando viu a multidão, quis, não queria ir com vergonha de ir e eu tive que o empurrar até ela chega lá à frente do cinco para poder ele cantar. E daí por diante foi só a vitória, não é? Sem ela ali atrás a dar o empurrão, talvez o Brasil nunca tivesse ouvido falar do Carlos Alexandre, porque o nome Carlos Alexandre, aliás, também foi ideia dela.

A Solange achava que Pedrinho da padaria era um mau nome demasiado para um artista brega, sem charme. E ela tinha um afiliado chamado Carlos Alexandre, um nome que ela achava lindo. Disse ao marido: “É esse nome que vai utilizar”. E foi assim na cozinha de casa que o tímido padeiro ganhou o nome de cantor. Ela ainda costurava as suas primeiras roupas para subir ao palco.

Comprava o tecido, cortava, costurava. O artista que o Brasil ia conhecer foi praticamente construído com as mãos dela, mas faltava a chance. E a hipótese de um lugar inesperado. No final dos anos 70, um radialista de nome Carlos Alberto de Souza estava a candidatar-se a deputado. E nessa altura existia uma prática que hoje é proibida, o Jíciil.

Era um comício com o espectáculo junto. O político punha cantor no palanque para atrair povo e de quebra atrair voto. Esse radialista fez uma proposta ao Carlos Alexandre. Canta nos meus comícios e se eu ganhar a eleição, levo-te para São Paulo gravar um disco. E não é que o homem ganhou, ganhou a eleição e cumpriu a promessa.

Levou o Carlos Alexandre e mais alguns artistas para o Sudeste, que era onde se realizava a vida musical do país. E ali numa editora discográfica, o rapaz da padaria gravou o seu primeiro disco. A música principal era Arma de Vingança, uma canção que ele tinha feito para própria Solange lá no início do namoro. Fui usado como arma de vingança para fazer mal ao seu namorado.

O disco rebentou. Vendeu mais de 100.000 cópias. Para o tamanho do miúdo, era uma fortuna das vendas, mas o que veio depois foi muito maior. Em 1978, ele lançou uma música feita também para esposa, uma música que ia virar o nome dele para sempre, feiticeira. Feiticeira. Feiticeira. E depois, podem crer, não houve quem segurasse.

A música caiu na boca do povo, rebentou no Brasil inteiro. De repente, aquele rapaz que vendia pão em O Natal estava na televisão, nos maiores programas de auditório do país. Cantava no Chacrinha, no programa do Bolinha, no palco do Silvio Santos. O sertanejo tímido tornou-se ídolo nacional. E aqui tem um pormenor que diz muito sobre o tipo de artista que era.

A música do Carlos Alexandre era do tipo que a crítica torci e o nariz. Chamavam-lhe brega, de brega, de música de pobre. Mas sabe o que ele respondia a esse preconceito? Nada. Quem respondia era o povo. Era o público a encher os concertos, comprando os discos, sabendo as letras de cor. Ele não cantava para agradar a um crítico de jornal. cantava para gente igual a ele.

Gente que amava, que sofria, que era traída e que se reconhecia em cada verso. Os números provam o tamanho daquilo. Foram 15 discos de ouro, mais de 2 milhões de exemplares vendidos ao longo da carreira, um sucesso gigante construído por um homem que tinha começado empurrado pela esposa para dentro de um picadeiro.

Por fora era a glória, era a vida dos sonhos a tornar-se realidade. Mas todo este sucesso trouxe dinheiro. E o que o Carlos Alexandre fazia com o dinheiro é uma história à parte que vale a pena nós olharmos de perto. Dinheiro. O Carlos Alexandre passou a ganhar muito. Mas guardar dinheiro, ah, isso era outra conversa. Porque o homem gostava de viver e gostava principalmente de uma coisa, carro.

O Carlos Alexandre era um apaixonado por automóvel e não era de ter um carro e cuidar dele a vida inteira. Não pega este pormenor, porque é de não acreditar. Dizem que em apenas 2 anos mudou de carro 36 vezes. Isso mesmo que você ouviu, 36 carros em 2 anos. Qualquer arranhãozinho na chapa já era motivo para ele se desfazer do carro e comprar outro.

Para terem ideia, é quase um automóvel novo, de três em três semanas. E não parava no carro. O Carlos Alexandre gastava o cachet dos concertos fazendo festa para os amigos. Recebia o dinheiro do concerto e, em vez de guardar, punha toda a gente numa festa. Pagava a conta, fazia a alegria da turma. Dinheiro para ele era para circular, para dar prazer na hora para viver o agora, não era para ficar parado numa conta poupança.

E aqui no meio desta abundância toda, vem a informação que vale a pena você guardar. Porque é fácil olhar para este gajo. 2 milhões de discos, 15 discos de ouro trocando de carro toda a semana e imaginar uma fortuna gigante: mansão, terreno, dinheiro empilhado no banco. A maioria das pessoas pensaria exatamente isso.

E com razão, artista que vende tanto assim tem que ter juntou um camião de dinheiro, não é? Só que com o Carlos Alexandre, a conta não fecha desta maneira, porque toda aquela dinheiro que entrava saía na mesma velocidade. O homem que vendeu mais de 2 milhões de discos não tinha o hábito de guardar um tstão.

Vivia o sucesso com a mão aberta, gastando tudo no carro, na festa, no prazer do momento. Isso pode anotar e a ter uma consequência grave, uma consequência que ninguém naquela fartura toda imaginava e que só ia aparecer quando já fosse tarde demais. Mas calma que lá chegamos. Apesar de tudo isto, há uma coisa nele que nunca mudou.

Porque pode até pensar: “Ah, o gajo virou estrela, encheu-se de dinheiro, deve ter largado a origem para trás.” Mas não, mesmo famoso em todo o Brasil, mesmo aparecendo na televisão todas as semanas, o Carlos Alexandre continuou a viver em Natal. Não trocou o Nordeste pelo Rio, não trocou pela vida de São Paulo, continuou ali na sua cidade, perto da família, perto de nós que ele conhecia desde sempre.

Subia ao palco do Chacrinha e regressava a casa, ao lugar de origem. A vida dele transformou-se nisto, a estrada e a regressa a casa. Cantava a um canto, pegava no carro e voltava para Natal. Dormir na própria cama, almoçar com o mulher e os filhos. O sucesso era nacional, mas o coração continuava ancorado no mesmo lugar pobre de onde tinha saído.

E foi precisamente esse amor pela casa, esta pressa de sempre voltar para junto da família que ia pôr o Carlos Alexandre na estrada numa madrugada que tudo mudaria, porque há um carro nesta história, um carro novo. E é aí que a coisa se torna séria. O auge do sucesso. O Carlos Alexandre comprou o carro que ia entrar para história desta tragédia.

Era um Chevrolet Opala Comodoro, quatro portas, cor vinho. Pelo menos é o que dizem, porque a única foto que resta é em preto e branco. E há gente que jura que o carro era azul, mas a cor é a de menos. O que importa é o que aquele carro representava. Em 1988, um Opala Comodoro era uma nave. Era o sonho de consumo do brasileiro.

E o Carlos Alexandre, apaixonado por automóveis que era, não comprou e deixou-o do jeito que veio. Ele incrementou tudo, mandou instalar ar- condicionado, que era luxo na época. Botou rodas especiais, sistema de som com leitor de cassetes e equalizador, porque fazia questão de um bom leitor de cassetes em todos os carros dele e mandou colocar até um tecto de abrir.

Pega a cena, um Opala cor de vinho todo equipado com tecto de abrir rodando pelas estradas do Nordeste no fim dos anos 80. Era o auge do estatuto para um homem que tinha começado a vida vendendo pão. Só que este carro trouxe briga dentro de casa. A Solange não gostou da compra. Achava o Opala um exagero.

Queria que ele trocasse por um Santana, um carro que ela considerava mais sensato. E teve discussão por causa disso. Foi numa destas discussões que o Carlos Alexandre soltou uma frase que hoje arrepia em quem ouve. Ele disse: “Prepara o coração que era melhor ele pôr fim àquele carro antes que o carro desse um fim nele.

Ele disse isto sem saber o que estava para vir. E o que veio foi no dia 29 de janeiro de 1989, uma sexta-feira à noite. O Carlos Alexandre deu um concerto na cidade de Pesqueira, no Agreste de Pernambuco. Foi a última apresentação da sua vida, embora ninguém ali o pudesse imaginar. Acabou o concerto e ele quis voltar para casa.

Os organizadores do evento até tentaram segurar. Falaram: “Fica, descansa, está cansado, viaja amanhã”. porque estava visivelmente cansado mesmo. Mas o Carlos Alexandre estava com pressa. Tinha um motivo simples e bonito para querer voltar correndo. Queria chegar a Natal a tempo de almoçar com a mulher e os filhos. Era só isso.

Almoçar em família? Por causa disso, recusou o descanso e tomou o estrada de madrugada. No carro seguiam cinco pessoas: o Carlos Alexandre, dois músicos e um motorista. Na primeira parte da viagem, quem conduzia era outra pessoa e o Carlos Alexandre ia ao banco do Carona. Mas houve uma paragem que mudou tudo.

Pararam num posto na cidade de Belém, na Paraíba, para fazer um lanche e ir à casa de banho. E ali aconteceu uma cena que ficou marcada. Um homem simples, um andarilho, aproximou-se pedindo uma esmola. Um dos músicos ia levantar-se para ir buscar uma moeda, mas o Carlos Alexandre disse: “Deixa, eu dou”. E sacou uma nota alta, generosa, muito mais do que se esperava.

O homem ficou tão feliz, tão agradecido, que olhou no fundo dos olhos do cantor e disse: “Obrigado, boa sorte”. E o Carlos O Alexandre respondeu uma coisa que, depois de tudo, ninguém se esqueceu. Disse que era um homem de sorte, que tinha tanta sorte que Deus não o ia deixar morrer. Foi nesta paragem que calçou um par de luvas pretas e assumiu o volante.

Porque além de tudo, o Carlos O Alexandre gostava de conduzir e gostava de velocidade. Com a pressa de chegar para almoçar, pisou fundo. O condutor, agora no lugar do pendura, contou que a última vez que olhou para o velocímetro, o ponteiro batia em cima dos 190 por horah, 190 de madrugada, numa estrada do interior. E depois o tempo dele acabou.

Já em terras do Rio Grande do Norte, perto da cidade de Tangará, num troço recto da estrada, o Opala saiu voando da pista, despenhou-se numa vala. O Carlos Alexandre, que estava sem cinto, foi projetado para fora do carro. Os dois músicos que iam atrás, também sem cinto, não resistiram. O único que sobreviveu foi o condutor, precisamente o que estava a usar o cinto de segurança.

A frase que tinha dito sobre o carro na discussão com a Solange tinha-se cumprido da pior forma possível. A morte do Carlos Alexandre foi instantânea. Ele tinha apenas 33 anos. Quando bateu, a cabeça dele embateu contra uma pedra. Não houve tempo, não houve socorro. Não houve despedida. O homem que horas antes estava a cantar feiticeira no palco, com a casa cheia, com a pressa de chegar para almoçar com a família, morreu ali no asfalto antes de chegar a casa.

E essa é a imagem mais dura desta história inteira. Não foi o excesso, não foi a doença, não foi nada complicado, foi a estrada, foi a pressa de um pai que só queria almoçar com os filhos. E depois veio uma cena que arrepia até hoje, porque a família contou um pormenor, que é de tirar o chão. Naquela manhã, antes de qualquer telefonema, antes de qualquer notícia chegar, o filho mais novo do Carlos Alexandre, ainda criança, disse uma coisa que ninguém lhe entendeu na hora.

Ele falou que Deus estava levando o pai para o céu, uma criança do nada a dizer aquilo. A mãe pediu para ele não dizer uma coisa dessas, que palavra tem força, mas pouco depois a notícia chegou e a notícia confirmava, palavra por palavra, o que o menino tinha dito. O Brasil e, principalmente o O Nordeste parou para chorar.

O corpo foi velado num ginásio desportivo lá no bairro Cidade da Esperança em Natal, o mesmo bairro pobre onde tinha sido o Pedrinho da padaria. Milhares de fãs apareceram para se despedirem. O funeral foi no cemitério do Bom Pároco em Natal, em 31 de janeiro de 1989. O ídolo voltou de vez para a terra de onde tinha saído.

Mas agora chegamos naquela pergunta. que ficou a pairar desde o início. O que terá ficado? Um homem que vendeu mais de 2 milhões de discos, que ganhou 15 discos de ouro, que trocava de carro todas as semanas, o que um sucesso destes deixa para trás para família? E aqui a resposta vai apanhá-lo, porque lembras-te que eu disse lá atrás que o Carlos Alexandre não tinha o hábito de guardar dinheiro, que gastava tudo no automóvel, na festa, no prazer do momento.

Pois é aqui que essa conta chega. A esposa, a Solange, enviuvou com três filhos para criar e passou dificuldades. Isso mesmo. Apesar de todo o volume de negócios, apesar dos milhões de discos vendidos, o Carlos Alexandre não deixou uma fortuna guardada. O dinheiro que tinha entrado toda a vida já tinha saído na mesma pressa com que ele dirigia.

E é aí que muita gente se engana sobre esta história. Porque quando se fala em luxos absurdos deixados para trás, a imaginação voa. Mansão, quinta, conta cheia. Mas a verdade documentada é mais simples e mais pé no chão. O que sobrou de betão foi o carro. Aquele mesmo Opala da tragédia. Foi o seu violão que ficou guardado na família.

E foram os discos, os prémios, as fotos, coisas de um cantor que viveu intensamente o presente, não de um homem que impilhou bens para o futuro. Então, qual era afinal o verdadeiro tesouro que ele deixou? Não era o que estava no banco, era a obra, eram as músicas, mais de 200 canções gravadas que deixou registadas na voz dele.

Feiticeira, postal, a ciganinha, arma de vingança. Esse era o património de verdade. Um tesouro que não desvaloriza, que não enferruja e que, como vamos ver, continuou vivo muito tempo depois de ele ter partido, porque a história do Carlos Alexandre não terminou naquela estrada. De certa forma, ela só estava a começar a virar lenda.

Há uma frase que resume bem o lugar do Carlos Alexandre na história. Foi esquecido pela crítica, mas nunca foi esquecido pelo povo. E essa diferença é tudo. Mas para compreender o peso desta frase, precisa de entender o que significa ser esquecido pela crítica no Brasil. Significa que o seu nome não aparece nos manuais escolares de música.

Significa que os programas de televisão mais sofisticados não te convidam. Significa que os prémios da indústria discográfica passam perto de -lhe sem te olhar nos olhos. Significa que quando alguém escreve um artigo sobre os grandes da música popular brasileira, o seu nome fica de fora, não por falta de talento, mas por excesso de popularidade.

Porque no Brasil, durante décadas, existiu uma lógica perversa dentro de certos círculos. Quanto mais o povo comum amava um artista, menos a elite cultural levava este artista a sério. Porque os livros que contam a história oficial da música brasileira, aqueles que falam dos grandes nomes consagrados, quase não citam o Carlos Alexandre.

Para a crítica, ele era brega demais, demasiado popular, demasiado simples, para entrar no panteão dos grandes. E olha que ironia. brega era o insulto, era a palavra que usavam para diminuir, como se canta sobre o amor de gente simples, sobre saudades de gente pobre, sobre a dor de quem trabalha e chora, fosse uma coisa menor do que cantar, sobre as mesmas coisas num arranjo mais sofisticado.

A música era a mesma, a dor era a mesma, apenas mudava a morada de quem ouvia. Mas há uma coisa que crítica nenhuma controla, a memória do povo. E na memória do povo, o homem da feiticeira nunca saiu de cena. Enquanto os críticos preenchiam as suas listas de melhores e os seus guias de essenciais, lá nas periferias, lá nas festas de interior, lá nas rádios AM, que passavam de madrugada, o Carlos Alexandre seguia sendo passado de geração em geração como um segredo precioso, como aquelas receitas de família que nunca são escritas em lado nenhum, mas toda a gente

sabe de cor. E quem segurou essa memória de pé em primeiro lugar foi a família A Solange, aquela mesma que empurrava o marido tímido para o palco, que escolheu o nome artístico, que costurou as primeiras roupas com as próprias mãos. Ela não desmoronou depois de ele se foi. Pelo contrário, ela tornou-se a guardiã.

guardou as fitas, guardou as histórias, guardou a dignidade do nome do marido em tempos em que seria muito mais fácil deixar tudo para trás e seguir em frente. A Solange compreendeu, antes de qualquer um, que aquela obra não era só de Carlos Alexandre, era de toda a gente que já tinha chorado junto com ele.

E houve um pormenor que é quase poético. O filho mais velho, o Carlos Alexandre Júnior, herdou não só o nome do pai, mas a voz e o dom. O menino tornou-se cantor e não foi cantor de outro estilo. Não foi cantor que quis se distanciar do pai para criar a sua própria identidade. Não. Ele abraçou o repertório do pai de cabeça e coração e passou a cantar aquelas canções em concertos ano após ano, cidade após cidade.

É como se a voz do Carlos Alexandre tivesse encontrado um jeito de continuar a ecoar agora pela garganta do filho, como se a morte tivesse tentado apagar aquela vo e a vida tivesse respondido: “Não, hoje pensa no peso disso. Sobes num palco e canta as canções que o seu pai cantava antes de nascer. Você olha paraa plateia e vê pessoas que choram porque estão ouvindo-te e está a recordá-lo ao mesmo tempo.

Você carrega dois legados numa só voz. Isto não é só carreira, isso é devoção. E com o tempo, o reconhecimento que a crítica negou a terra dele fez questão de dar, porque lá no Rio Grande do Norte, o Carlos Alexandre tornou-se património, não metaforicamente, literalmente. A Câmara Municipal de Natal criou uma comenda, uma honraria formal com o seu nome para premiar artistas que contribuíram para a cultura local.

O nome do menino que foi doado em bebé, que cresceu em Mossoró. que cantava para sobreviver, tornou-se nome de prémio, tornou-se referência, tornou-se régua de excelência para medir outros artistas. E houve uma homenagem que quando soube deixou-me parado durante um tempo. O estado do Rio Grande do Norte criou o dia estadual do brega, o dia oficial com lei, com data, com tudo, dedicado àquele género que a crítica torcia o nariz, aquele género que era chamado de brega, de popularesco, de coisa de gosto duvidoso.

O estado inteiro resolveu dizer: “Este género é nosso. Esta música é nossa e temos orgulho dela.” E sabe que dia escolheram para essa data? O dia 1 de junho. O aniversário do Carlos Alexandre deixa que assentar por um momento. Um estado inteiro, com toda a sua força institucional fixou a data de celebração de um género musical no dia em que nasceu o filho mais ilustre deste género.

Não foi por acidente, foi uma escolha, uma afirmação coletiva de que aquele homem, aquela voz, aquela história eram inegociáveis. Quer reconhecimento maior do que este? Não precisa de Gramy, não precisa de crítica literária, precisa de um povo que diga: “Este aqui é o nosso”. E o amor do povo, este não precisou de lei nenhuma. Até hoje, décadas depois da morte de Carlos Alexandre, os fãs ainda visitam o túmulo dele no cemitério do Bom Pastor em Natal.

Não é uma peregrinação organizada, não tem divulgação em rede social. As as pessoas simplesmente aparecem, levam flores, ficam um tempo em silêncio, cantam baixinho. É o tipo de homenagem que não tem câmara, não tem audiência, não tem nada. Só a saudade pura de alguém que fez a diferença na vida de quem está ali parado diante do túmulo. E as músicas, as músicas continuam mais vivas do que nunca.

Agora também na internet alcançando gente que ainda nem tinha nascido quando morreu. Jovens de 20 anos descobrindo a feiticeira num algoritmo e ficando dois, três dias a ouvir no repeat. Gente em São Paulo, no Rio, em Brasília, conhecendo pela primeira aquela voz do Nordeste que chegava com uma honestidade que a música produzida hoje raramente consegue imitar.

A ciganinha, o postal, telefonema cruel, continuam vivas, continuam a ser cantadas, continuam a arranhar o coração de quem ouve pela primeira ou pela centésima vez. O tesouro que ele deixou continua a render emoção, que é a única moeda que de facto não acaba. Dinheiro inflaciona, a fama passa, emoção verdadeira, essa fica.

E é aqui que aquela pergunta do início lá do primeiro capítulo encontra a resposta mais bonita. O Carlos Alexandre não deixou mansão, não deixou fortuna guardada no banco. A família passou inclusive por aperto real depois de ele se ter ido. Isso dói saber, porque um homem que deu tanto para tanta gente merecia no mínimo a tranquilidade de saber que os seus estavam seguros.

Mas a vida não funciona com esta justiça simples, nem sempre funciona com justiça nenhuma. Mas talvez, e digo talvez com toda a convicção, nenhum cofre cheio valesse o que ele realmente deixou. Uma obra que o povo decorou, uma voz que atravessou gerações sem perder a sua força. Uma história que começa com um bebé doado numa cidade do interior do Nordeste e termina com um estado inteiro a celebrar o dia do seu nascimento.

Isso não se compra, isso não se herda, isso se constrói canção a canção, espectáculo a show. Cada vez que sobe ao palco, mesmo com medo. Cada vez que canta com a alma mesmo quando o bolso está vazio. No final de contas, a vida deste o homem ensina uma coisa simples, e as as coisas simples são sempre as mais difíceis de aprender.

O sucesso da verdade não é o que se acumula, é o que toca nas pessoas. O Carlos Alexandre saiu de trás do balcão de uma padaria. Foi doado quando o bebé cresceu sem saber bem de onde vinha. Viveu rápido, criou muito e morreu cedo demais, antes dos 50 anos, antes de ver tudo o que plantou se transformasse em árvore, mas deixou um nome que o povo guardou com carinho no lugar mais seguro que existe, dentro do peito.

E isso, pode reparar ora, é o tipo de herança que nenhum acidente, nenhum tempo, nenhuma crítica, nenhum esquecimento consegue tirar de alguém. Alguns artistas existem paraa sua época. Carlos Alexandre existiu para sempre. E tu, qual a música do Carlos O Alexandre mexe mais consigo? Feiticeira, postal, a ciganinha ou há alguma outra que poucos se lembram, mas que trazes no coração? Me conta aqui em baixo nos comentários.

Eu leio todos. E diz-me também: já conhecia a sua história completa ou só as músicas? Porque há muita gente que canta a feiticeira de cor, mas nunca soube que aquele homem foi doado quando bebé que tinha medo do palco, que a esposa deu-lhe o nome artístico. Agora já sabe e agora pode contar.

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Uma vida que parece um guião de cinema com altos e baixos que o vão deixar de queixo caído até lá. Valeu por ter ficado até ao fim. Isso significa muito.

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