Bota fina, enfileirada. E tinha uma mania curiosa. Quando gostava de uma roupa, não comprava uma, comprava cinco, seis, a mesma peça, em cores diferentes. Foi mesmo um dos primeiros homens a usar macacão masculino no Brasil. Numa época em que isso era ousadia pura. Olha só o tamanho disto para você guardar.
Um homem que bateu um Ferrari, perdeu o carro inteiro e em 15 dias comprou outra igual, enquanto o brasileiro lá fora apanhava autocarros lotados para ir trabalhar. Este era o padrão de vida do António Marcos no auge. Vida de milionário, sem poupar um cêntimo, gastando como se aquilo nunca mais ia acabar. Só que tem uma coisa nisto tudo que talvez seja o lado mais bonito da história, porque todo este dinheiro que ele torrava, boa parte nem era para ele, era para os outros.
Há uma coisa que toda a gente que conheceu o António Marcos fala e fala com a voz embargada. Aquele homem não tinha apego a dinheiro nenhum, ganhava como milionário, mas não segurava nada na mão. O que entrava saía e muitas vezes saía para o bolso dos outros. Conta a história que se um amigo chegasse para ele a dizer que estava duro, sem um tstão, o António não pensava duas vezes.
Metia a mão no bolso, tirava todo o o dinheiro que tinha na carteira ali na hora e entregava tudo. Não era uma nota para ajudar, era o que tivesse, sem contar, sem perguntar, quando ia receber de volta. e não se ficava pelos amigos, não. Havia gente que ele nem conhecia direito. Comprava comida boa, daquelas de restaurante caro e saía a distribuir para quem estava na rua, para quem não tinha o que comer.
Imaginem o galã de novela, o homem da Ferrari, parando para dar o seu almoço a um sujeito qualquer na calçada. Mas o caso mais impressionante é o do taxista. Olha só essa. O António estava num bar e tinha um taxista ali ao lado a queixar-se da vida, lamentando que as coisas estivessem difíceis, que mal dava para sustentar a casa.
Sabe o que fez o António Marcos? Deu o seu próprio carro de presente ao homem. O carro dele de presente para um taxista que tinha acabado de conhecer num balcão de bar. E aqui dá para parar um segundo e pensar, há quem olhe para ele e veja um santo, um coração do tamanho do mundo, um homem que não se esqueceu de onde veio e que sentia na pele a dor de quem não tinha nada, porque ele já tinha sido aquele que não tinha nada.
Mas há também quem olhe e veja um homem que não sabia cuidar de si mesmo, que dava tudo aos outros e não guardava nada para a hora que a maré virasse. E olhe, a maré ia virar. As duas leituras cabem e vou deixá-lo decidir qual delas é a sua. Porque esse mesmo modo de não se prender a nada, de viver como se a festa nunca mais ia acabar, estava prestes a cobrar uma conta e ela ia chegar da forma mais cruel possível.
Os anos 80 chegaram e com eles veio aquela coisa que ninguém no auge quer acreditar que um dia acontece. O telefone começou a tocar menos, os hits deixaram de vir. Os convites paraa novela, para o cinema, foram rareando até quase desaparecer. O mundo é assim, vai atrás do que é novo. E o António, que tinha sido o queridinho de todos, foi devagarinho saindo dos holofotes.
E não tem queda mais dura do que a de quem já lá esteve no alto. E aqui a história torna-se triste de contar, porque nestas alturas, quando a fama arrefece, é que se descobre quem tava do o seu lado de verdade. E muita gente que rodeava o António não estava ali pelo melhor.
Conta-se que, em vez de mão amiga, o que lhe apareceu muito foi bebida e droga. Pessoas oferecendo, empurrando e ele fragilizado, sem o chão firme que a fama dava, foi afundando. O álcool virou o dono dele. E não foi pouco, não. Foi uma briga feia daquelas que a pessoa trava e perde várias vezes. Ele internou, tentou parar, saía, voltava a beber, internava de novo.
O corpo foi cobrando. Três enfartes ao longo daqueles anos. Três. E o homem ainda continuava na luta contra aquilo que não largava dele. Chegou a um ponto de cortar o coração. O António Marcos, que enchia uma mala de dinheiro, que dava Ferrari e carro de presente, chegou num ponto em que mal tinha para comer, aquele mesmo.
A bebida tomou conta a tal ponto que começou a faltar nos próprios espetáculos. Simplesmente não tinha condições para subir ao palco. E aí entra um pormenor desta história que talvez seja a coisa mais bonita e mais triste ao mesmo tempo. Lembra da Vanusa, a cantora com quem foi casado? Pois, mesmo já separada dele havia anos quando o António não conseguia cantar, sabe quem subia para o palco para cobrir a ausência dele? Ela, a Vanusa, a ex-mulher, a segurar a barra do homem, que já tinha sido o grande amor dela, para o público não ficar
sem espectáculo, para ele não ficar sem o cachê. Há amor que não acaba mesmo quando o casamento acaba, mas o corpo tem limite. E o do António Marcos estava chegando ao dele, porque em Abril de 1992 ia chegar a notícia de que o Brasil não queria receber. E com ela a pergunta que deu origem a este vídeo. Morre em São Paulo o cantor e compositor António Marcos.
Estava internado no Hospital Osvaldo Cruz e teve uma crise aguda do fígado. 5 de abril de 1992, António Marcos morre em São Paulo, internado no hospital Osvaldo Cruz. O fígado não aguentou. Anos e anos de bebida cobraram a conta final. Tinha só 46 anos. 46.Um homem que podia ainda ter pela frente outras tantas décadas de vida e de música.
foi embora cedo demais. Nessa tarde, às 3 horas, saiu o cortejo até ao cemitério na zona sul da cidade e apareceu gente. Centenas de fãs foram despedir-se daquelas pessoas que cresceram a ouvir a voz dele, que namoraram ao som das músicas dele, que ali choraram como se tivessem perdido alguém de casa.
O galã se foi e o Brasil parou um instante para sentir. Mas é exatamente aqui que a gente chega àquela pergunta que ficou no ar lá no início. E eu quero que tu pensa comigo agora com calma. Esse homem teve um Ferrari. Trocou outro Ferrari acidentado em 15 dias. Morou numa mansão no Morumbi com piscina e campo de futebol.
Teve closet de fazer inveja. Encheu mala de dinheiro a vida inteira. Depois, quando ele fechou os olhos naquele hospital, a questão que vem é inevitável. Onde está tudo aquilo? Para onde foi a Ferrari? Quem ficou com a mansão? O que aconteceu com toda aquela fortuna? E aqui eu preciso ser muito honesto consigo, porque esta história não tem aquela resposta redondinha de novela.
A verdade é que ninguém sabe ao certo. Não existe um documento público, um inventário aberto, uma lista de bens que diga: “Olha, ficou isso? foi para fulano, foi para cicrano. Os automóveis de luxo, as mansões, tudo aquilo que brilhava nos anos 70, quando morreu em 1992, simplesmente não aparece em lugar nenhum, desapareceu no caminho.
Aquele homem que viveu como milionário partiu sem deixar registo de fortuna nenhuma. Pensa no tamanho disto. O gajo teve o mundo na mão e no fim todo o luxo tinha evaporado, gasto, dado, perdido pelo caminho da vida que levou. Parece que a história acaba aqui num vazio triste, não é? Um homem que teve tudo e terminou sem nada para deixar.
Só que não acaba porque há uma coisa que o António Marcos deixou para trás que não cabia em nenhuma garagem, em nenhum cofre, em nenhuma mansão. E é precisamente esta coisa que até hoje vale mais do que todos os Ferraris que teve. O que sobraram foram as músicas. E aqui, o meu amigo, está a viragem bonita desta história toda.
Porque os carros enferrujaram ou foram para a mão dos outros. A mansão ficou para trás, o dinheiro escorreu pelos dedos. Mas as canções que aquele rapaz de São Miguel escreveu não morreram com ele. Pelo contrário, continuaram a tocar, continuaram a vender, continuaram entrando na casa das pessoas todos os santos dia, muito depois de ele ter partido.
E para que veja o tamanho do que este homem criou, só como vai você vendeu mais de 700.000 exemplares. 700.000 Numa época sem internet, sem streaming, sem nada, era encher camião e camião de disco e despachar para todo o Brasil. E não foi um sucessozinho de uma época, não foi música que se colou ao país e não mais saiu.
destas que passam de geração em geração, que o avô trauteia e o neto aprende sem sequer saber de onde veio. E repara que coisa, o talento de compositor era tão forte que as suas músicas faziam sucesso até na voz dos outros. Como está você mesmo? Muita gente conhece na gravação de outro cantor e nem imagina que quem escreveu aquilo foi o António Marcos.
O nome dele às vezes ficava na sombra, mas a obra estava ali viva, rendendo, emocionando. E o mais bonito é o que estas músicas viraram depois de ele se foi. Porque cada vez que Como vai você toca, cada vez que o Homem de Nazaré é cantada em algum lugar, esta gera direito de autor. E esse dinheiro, esse sim, continuou a existir.
É dividido entre os cinco filhos do António e os parceiros que ajudaram a compor as obras. Repara na ironia da vida. O que sustentou a sua família não foi a Ferrari, não foi a mansão, foi a voz, foi o talento. Foi aquela mesma coisa que ninguém pagava nada para ouvir na esquina de São Miguel. E olha que pormenor que remata tudo.
Uma das suas filhas, a Areta, chegou a contar que vive precisamente dos direitos das canções do pai. Quer dizer, o homem que dava o seu próprio carro a um taxista que não guardava um tstustão para si, no fim de contas, deixou sim uma herança. Só que não era a herança que a gente esperava.
Não era de cofre, era de melodia. e daquelas que não acaba no fim do mês e o tempo só o fez provar. Depois de ele morrer, foram saindo colectâneas, discos de tributo, gente reunindo o que ele gravou para a nova geração conhecer. Em 2008, saiu uma coletânea juntando os grandes êxitos dele. E em 2015, no ano em que faria 70 anos, lançaram até uma caixa com quatro CDs, garimpando gravação rara, coisa que pouca gente tinha ouvido.
23 anos depois de morto, e ainda tinha pessoas a correr atrás de preservar a obra daquele homem. Isto não acontece com qualquer um. Isto só acontece com quem deixou marca de verdade. E tem um momento que é talvez o mais emocionante de todos. Em 2005, quando saiu o filme Dois filhos de Francisco, o do Zezé de Camargo e Luciano, que encheu o cinema no Brasil inteiro, sabe qual a música que entrou na banda sonora? Como vai? Mais de 30 anos depois de escrita, a canção de António Marcos estava lá de novo no grande ecrã,
fazendo gente nova emocionar-se. Gente que nem sequer tinha nascido quando morreu. É, ou não é o luxo que não acaba? No final, o tipo perdeu tudo o que se compra, mas o que criou, o que saiu de dentro dele, isso ninguém conseguiu tirar. Está vivo até hoje e vai continuar vivo muito depois de nós também.
E depois, no fim de tudo, fica aquela pergunta a rondar a cabeça da gente. O que é o verdadeiro luxo? Pensa comigo, o António Marcos teve o luxo que toda a gente sonha em ter um dia. Teve a Ferrari importado num tempo em que o brasileiro apanhava autocarro lotado para trabalhar. Tinha a mansão no Morumbi com piscina e campo de futebol no quintal. Houve um closet de fazer inveja.
Houve mala de dinheiro a entrar depois dos espectáculos. O gajo teve o mundo na palma da mão e perdeu. Tudo aquilo escorreu pelos dedos, desapareceu, virou pó pelo caminho da vida que escolheu levar. Mas repara que coisa, a voz dele não desapareceu. Aquela mesma voz que começou gratuitamente numa esquina de São Miguel Paulista com um velho violão e uns amigos ao lado, essa continua aí.
Entra em casa das pessoas, toca na rádio do carro num domingo à tarde, emociona um casal que se está a conhecer agora, gente que nem sabe bem quem foi o homem que cantou aquilo. O corpo desapareceu em 92. A voz não, a voz ficou. E talvez seja essa a lição que este menino de S. O Miguel deixou sem sequer querer ensinar.
que aquilo que nós juntamos com tanto esforço, o carro na garagem, a casa, o dinheiro guardado no banco, um dia fica para trás, vai tudo. Não tem cofre que segure, não há mansão que dure para sempre, mas aquilo que fazemos com o coração, aquilo que nós entregamos de verdade para o mundo, isso a vida não consegue levar.
Olha o homem que dava o seu próprio carro a um taxista que ele mal conhecia, que tirava o dinheiro todo da carteira a um amigo duro, que comprava comida e distribuía na rua. Talvez ele soubesse de uma coisa que a as pessoas às vezes esquecem-se, que o dinheiro é para passar pelas mãos, não para colar nelas. Errou muito, viveu demais, se perdeu no caminho, isso ninguém vai negar.
Mas mesquinho nunca foi e generoso, foi até ao último cêntimo. E há uma imagem dessa história que para mim diz tudo. Lembra-se da Vanusa subindo ao palco para se cobrir já separados, mesmo depois de tudo? Pois é, o António Marcos foi deste tipo de pessoas que deixa marca na vida dos outros, que mesmo errando, mesmo caindo, fez com que as pessoas gostassem dele de uma forma que não acaba.
E gente assim não morre por inteiro nunca. Fica um pedaço na música, na memória, no carinho de quem conviveu. No fim das contas, ele partiu cedo, com 46 anos, deixando uma porção de saudade e uma pergunta sobre os luxos que desapareceram, mas deixou beleza, deixou voz, deixou música que vai tocar muito depois de todos nós.
E a beleza, meu amigo, é o único luxo que não enferruja, que ninguém rouba, que o tempo não leva. Este o António Marcos deixou de sobra.