Os Mutantes Desafiaram Tim Maia a Tocar Guitarra — Sérgio Dias Não Sabia que Paulinho Estava Lá

O Sérgio conhecia o Tim mais de vista do que de conversa pessoal. Sabia que era cantor de sou famoso que vendia muito disco, mas nunca tinha visto ele tocar instrumento nenhum e assumia que era apenas cantor, como muita gente achava. Achou engraçado o Tin estar ali parado a vê-lo tocar guitarra e resolveu provocar com aquele jeito descontraído de quem não está a levar muito a sério.

Então, Tin? Gostou do som? Quer tentar tocar alguma coisa ou prefere só cantar mesmo? falou em tom de brincadeira, mas com aquela competitividade natural de um músico, querendo afirmar território e mostrar superioridade. O Tin ia responder com alguma coisa certamente afiada. Já estava a abrir a boca e a dar um passo à frente, quando uma voz grave e conhecida veio lá do jardim das traseiras.

Deixa isso comigo, Tim. Eu resolvo esta situação. Era Paulinho Guitarra que tinha entrado pela porta das traseiras sem ninguém perceber e vindo diretamente para a sala ao ouvir a provocação dirigida ao amigo. Paulinho era uma lenda viva, respeitadíssima da guitarra brasileira. tinha tocado com absolutamente todo o importante mundo da música nacional e conhecia muito bem o Tim, porque tocava regularmente com ele e sabia exatamente o nível técnico que Tin tinha no instrumento.

Caminhou até onde Sérgio estava a segurar a guitarra, olhou diretamente nos olhos dele com respeito mais firmeza e  disse calmamente: “Respeito muito o seu talento, Sérgio, mas vou mostrar-te como se toca de verdade”. Antes de Paulinho pegar na guitarra das mãos do Sérgio, o Tim deu dois passos para frente e disse com aquela voz grave dele: “Paulinho, sai da frente”.

O Tom não deixava dúvidas que não era pedido, era ordem. Paulinho virou-se para Tim surpreendido, sem esperar aquela reação, e tentou explicar. “Calma, Tin. Eu só ia, mas o Tim cortou-o no meio. Eu sei o que ia fazer. Ia defender-me como se eu precisasse de defesa, como se eu não soubesse tocar.

como se eu fosse só cantor e tinha que provar alguma coisa por mim. Caminhou até onde O Paulinho estava, estendeu a mão pedindo a guitarra que Paulinho tinha pegado, encostada à parede, e disse, olhando diretamente nos olhos dele: “Eu resolvo os meus próprios problemas, Paulinho. Sempre resolvi. Dá-me essa guitarra.” Paulinho entendeu na altura que tinha pisado a bola.

Conhecia Tin o suficiente para saber que detestava ser tratado como se necessitasse de proteção e entregou a guitarra sem discutir mais nada. Tin pegou na guitarra. Uma Gibson Lespeta que estava encostada do lado da estratocaster que o Sérgio tinha utilizado, verificou rapidamente à afinação, ajustando duas cordas e ligou-se ao mesmo amplificador.

A sala ficou em silêncio, todos percebendo que a coisa tinha ficado séria. As 20 e tal pessoas observando, sem compreender completamente o que estava a rolar, mas sentindo que era importante. Sérgio estava parado ainda segurando a estratocaster vermelha, confuso com a forte reação do Tim, sem saber se tinha feito algo de errado ou se era só o feitio dele.

Arnaldo, ao lado, tinha perdido completamente aquele sorriso confiante de antes e estava quieto a observar. Ritalie estava encostada à parede com os braços cruzados e aquele sorriso dela de quem tinha provocado exatamente o que queria, sabendo que ia dar merda boa. Pin ajustou a correia da guitarra no ombro, testou o volume do amplificador, rodando o botão, olhou para a sala toda e disse: “Vou tocar uma vez só.

Prestem atenção, porque não vou repetir. O Tin começou a tocar e nos primeiros 5 segundos já ficou claro para todos que tinha acontecido um erro gigante de julgamento sobre quem era. O que saiu daquela guitarra não era uma tentativa de amador, não era cantor a fingir que sabia tocar, era guitarra verdadeira tocada por alguém que dominava o instrumento.

tocou um rif de blu sujo e pesado que fez o chão vibrar, os dedos a correr pelo braço da guitarra com velocidade e precisão que rivalizava fácil com o que O Sérgio tinha mostrado antes. Mas não era só técnica limpa, tinha ali alma, tinha swing, tinha aquele balanço que vem de anos a tocar sou e funk e a compreender gruve de verdade.

Algumas pessoas na sala abriram a boca, outras trocaram olhares de surpresa e Sérgio especificamente ficou parado a olhar para os dedos do Tim, tentando processar o que estava a ver. Caetano Veloso, que estava no canto da sala, deu uma gargalhada e disse baixinho para a pessoa ao lado. Eu tentei avisar.

Tim continuou por mais um minuto, apresentando variações do rif, subindo paraas notas agudas com bandas que choravam nas cordas, descendo para os graves com peso, criando tensão e libertação do jeito que só guitarrista experiente sabe fazer. Não era estilo psicadélico como o do Sérgio. Era diferente. Era blues brasileiro misturado com sou americano.

Tinha clara influência de Baby King, mas com tempero próprio. A guitarra respondia a cada intenção dele, cada nota saindo exatamente onde ele queria. E ficou evidente para qualquer pessoa que percebia de música que Tim não era apenas competente. Ele era mesmo bom, provavelmente melhor do que a maioria dos guitarristas profissionais a trabalhar no Brasil naquele momento.

Paulinho estava encostado à parede com aquele sorriso de quem sabia o que ia acontecer, abanando a cabeça ao ritmo. E quando cruzou o olhar com o Arnaldo Batista, viu a expressão de total choque no rosto dele. Tin terminou o solo com um acorde final que deixou ressoar por alguns segundos antes de cortar com a palma da mão nas cordas.

A sala explodiu em aplausos, pessoas a gritar, alguns assobeiando. Tim tirou a guitarra do ombro, desplugou-se do amplificador e encostou-a de volta à parede. Olhou pro Sérgio, que continuava parado com a estratocester, e disse sem arrogância, mas com firmeza. Eu comecei na música tocar guitarra antes de cantar. Toquei em banda, toquei em baile, toquei em festa, toquei em estúdio.

Só porque eu escolhi focar-me no vocal, não quer dizer que me esqueci do resto. Virou-se pro Paulinho e disse num tom mais suave, mas ainda grave. E não preciso que ninguém me defenda, Paulinho. Nem você, nem ninguém. Se alguém me desafiar, eu mesmo resolvo. Pegou numa cerveja que alguém ofereceu, deu um longo gole e saiu da sala voltando para a cozinha.

Deixando todos ainda a processar o que tinha acabado de ver. Sérgio Dias esteve parado na sala durante uns bons 30 segundos, depois de Tin sair, ainda segurando a estratocaster, olhando para porta da cozinha como se tivesse a ver um fantasma. Arnaldo aproximou-se dele e disse baixinho: “Mano, eu não sabia que o O Tim tocava assim. Ninguém sabia.

” Sérgio abanou a cabeça concordando, colocou a guitarra de volta ao suporte e admitiu: “Eu assumi ele era só cantor. Julguei o cara sem saber nada sobre ele de verdade.” A Rita passou por eles a rir, deu uma palmadinha nas costas do Sérgio e disse: “Bem-vindo ao clube de quem subestimou o Tim Maia. Tem bastante gente aqui.

” O Paulinho ainda estava encostado à parede observando tudo. E quando Sérgio olhou para ele procurando alguma explicação, o Paulinho só deu de ombros. Eu tento avisar as pessoas, mas ninguém acredita até ver. O Tim toca guitarra, baixo, bateria, teclado, tudo. É músico completo que escolheu ser cantor, e não cantor que tenta ser músico.

Uns 20 minutos depois, Sérgio juntou coragem e foi até à cozinha, onde Tim estava a conversar tranquilamente com Ga Costa sobre não sei quê. esperou uma pausa na conversa, pediu licença e disse: “Tim, desculpa a provocação. Foi uma patetice minha assumir que não sabia tocar só porque te conheço como cantor.

” Tin olhou para ele, tomou um gole da cerveja e respondeu sem rancor: “Relaxa, Sérgio, não foste o primeiro e não vai ser o último a fazer este julgamento. A maioria das pessoas vê-me em palco a cantar e assume que é tudo que eu sei fazer.” Sérgio perguntou por já não mostrava as habilidades dele com instrumentos, por escondia aquilo do público.

Tinha explicado que não escondia, apenas priorizava, que tinha decidido há anos focar-se no vocal, porque era onde se sentia mais completo, mas que isso não significava abandonar os outros instrumentos. Sérgio acenou, compreendendo, estendeu a mão e os dois apertaram sem mau tempo. A festa continuou até à noite e em algum momento depois da meia-noite, quando só tinha ficado a malta mais próxima da Rita, alguém sugeriu uma gem session.

Tim, Sérgio, Paulinho e mais alguns músicos pegaram em instrumentos e começaram a tocar em conjunto, desta vez sem competição, só pela diversão mesmo. O Tin tocou guitarra em algumas músicas, cantou em outras e, numa específica tocou baixo enquanto cantava ao mesmo tempo. Sérgio observava tudo com renovada atenção, apercebendo-se de detalhes que tinha ignorado antes, vendo Tim transitar entre instrumentos com natural facilidade.

No fim da noite, quando iam embora, o Sérgio comentou com o Arnaldo no automóvel: “Errámos feio hoje. Julgamos o Tim pela embalagem e esquecemo-nos de ver o que estava lá dentro.” Arnaldo concordou e os dois ficaram quietos no caminho de regresso a casa, pensando na lição que tinham aprendido sobre não subestimar ninguém.

Essa história ensina-nos que julga as pessoas o tempo todo, baseado apenas no que elas mostram-lhe e ignora completamente tudo o que existe por trás disso. Vê alguém a fazer uma coisa bem e assume automaticamente que é apenas aquilo que a pessoa sabe, que é o limite dela, que não tem mais nada ali. Olha para o cantor e esquece-se que ele pode ser músico completo.

Olha para o vendedor e esquece que ele pode ter formação em outra área. olha para o colega de trabalho e assume que aquela função é tudo o que ele consegue fazer e você faz pior ainda. Usa esta visão limitada para menosprezar, para diminuir, para fazer comentários como se soubesse mais. Mas a verdade é que não sabe nada sobre as capacidades completas de ninguém, a não ser que pergunte ou que a pessoa decida mostrar.

E quando você subestima alguém em público, quando se faz aquele comentário de superioridade, achando que a pessoa não tem como responder, corre o risco de levar a mesma humilhação que o Sérgio levou naquela festa. Então, deixa de assumir que sabe tudo sobre as pessoas baseado no pouco que vê. Trata todo o mundo com respeito, não porque a pessoa vai provar alguma coisa, mas porque você simplesmente não sabe do que ela é capaz de fazer quando provocada.

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