Paulo Gustavo: a PERTURBADORA Verdade dos 53 Dias que o Brasil Nunca Soube e
foi a pessoa mais cuidadosa do Brasil inteiro. Se fechou num sítio na serra, fazia teste COVID todas as semanas, mal deixava o marido encostar-se a ele. Mesmo assim, morreu da pior forma possível aos 42 anos, com dois bebés de um ano em casa à espera que ele voltasse. E o que aconteceu naquele hospital de Copacabana nos 53 dias antes de ele deixar de respirar, é uma coisa que a família tentou guardá-lo para ela própria.
Mas alguém sem querer deixou escapar. Fique até ao fim, porque o que vai descobrir hoje sobre Paulo Gustavo, ninguém te disse. Para perceber o que aconteceu dentro daquele quarto de UCI em Copacabana, é preciso recuar quase 40 anos atrás para uma sala de estar pequena num apartamento de Icaraí em Niterói, para uma foto de família que ninguém olhava bem, excepto uma mulher.
A mulher chamava-se Dea Lúcia Amaral, era a mãe. E enquanto os outros da família sorriam para a câmara, naquele dia comum de domingo, ela ficou a olhar para o filho mais velho, um rapaz magro, sentado torto no sofá, com as mãos cruzadas de uma forma que ela nunca tinha visto em homem nenhum daquela casa.
E ela sentiu naquela altura uma coisa que ia demorar anos a conseguir colocar em palavras. sentiu que aquele filho ia sofrer. Mas o que essa mesma mulher fez dois anos depois, num episódio sombrio que ela só teve coragem para contar em público 30 anos depois, é o que muda tudo nesta história. Vai entender daqui a pouco.
O menino chamava-se Paulo Gustavo Amaral Monteiro de Barros. Nasceu no dia 30 de outubro de 1978 em Niterói, no estado do Rio de Janeiro. Família de classe média. O pai chamava-se Júlio. A mãe Dea Lúcia era professora de Português aposentada. Mulher dramática, escandalosa, com aquela voz alta de quem ocupa todos os quartos ao mesmo tempo.
Paulo era o filho mais velho. Tinha uma irmã mais nova de nome Juliana, conhecida na família como Ju. Apartamento pequeno em Icaraí, Vida Rega, missa aos domingos, escola católica durante a semana. A escola se chamava-se Colégio Salesiano, no bairro de Santa Rosa, uma das instituições católicas mais tradicionais da cidade.
E foi exatamente naquele colégio, no início dos anos 90, que começou a ferida, que nunca cicatrizou no Paulo Gustavo, porque o Paulo era diferente e os outros meninos da escola perceberam antes mesmo de ele entender por era diferente os colegas do recreio, os alcunhas no corredor do colégio, as piadas que ouvia na casa de banho, tudo que entrava naquele menino magrinho de Icaraí todos os dias.
das 7 da manhã até ao meio-dia e regressava com ele a casa em silêncio. A Deia Lúcia recebia o filho no portão do prédio, via os seus olhos, sabia, mas não dizia nada, porque nessa altura, no início dos anos 90 no Brasil, falar daquilo em voz alta era pior do que o próprio problema. Guarde esta imagem na cabeça, porque esta solidão dolorosa da infância de Icaraí é a chave de tudo o que vai acontecer depois.
inclusive do que aconteceu dentro daquele hospital de Copacabana quase 30 anos depois. O que ninguém imaginava naquela época é que aquele mesmo menino calado, observador, ferido, estava a juntar dentro dele um material que ia mudar o cinema brasileiro para sempre. Porque enquanto sofria, ele observava. Observa a própria mãe ao telefone, observava as vizinhas do prédio, observava as tias barulhentas que apareciam no almoço de domingo.
O maneira que estas mulheres gritavam, riam, lutavam, choravam, pediam Deus, diziam mal das amigas, o enorme drama delas em coisas pequenas. Tudo entrava dentro daquele menino sem ele perceber. Anos depois, ia sair tudo de uma só vez. E quando saiu, tornou-se uma personagem que ia fazer 25 milhões de brasileiros chorarem a rir nos cinemas e ia fazer o Paulo Gustavo ganhar mais de R$ 100 milhões de reais, mas o dinheiro não comprou o que mais desejava e não impediu o que aconteceu depois. Aos 15 anos, em 1993,
Paulo Gustavo entrou em casa um dia com o uniforme da escola sujo, de uma forma que a Deia Lúcia nunca tinha visto. Quando a mãe perguntou ao filho o que tinha acontecido nesse dia específico de aula em Santa Rosa, ele não respondeu. Foi logo para o quarto e fechou a porta com força. Foi nessa noite cruel, dentro daquele apartamento de Caraí em Niterói, que esta mãe brasileira tomou uma decisão que mudou a vida dela, a vida do filho, e que ela só ia ter a coragem de contar publicamente 30 anos depois na televisão, já com o filho
morto e enterrado. Vai saber o que foi daqui a pouco. A Deia Lúcia esperou o filho dormir naquela noite sombria de Icaraí. Depois sentou-se na sala vazia do apartamento e ficou a pensar. O Paulo tinha entrado no quarto e fechado a porta com força. O uniforme estava no cesto de roupa suja e ela sabia, sem necessitar de abrir a porta do quarto, o que o filho dela estava a chorar lá dentro daquela cama de adolescente.
Aquela noite específica de 1993, dentro daquele pequeno apartamento em Icaraí, a Deia Lúcia tomou uma decisão e esta decisão mudou a vida dela. Mudou a vida do seu filho e ela só ia ter coragem de contar o que tinha feito publicamente 31 anos depois, em rede nacional, na televisão brasileira. O O depoimento dela aconteceu no dia 30 de outubro de 2024, uma quarta-feira.
aniversário dos 46 anos do Paulo. Só que nessa data já estava morto e enterrado há 3 anos e se meses. E a Deia Lúcia foi até ao estúdio do programa Lady Noite da apresentadora Tatá Vernec no canal Multiow e contou pela primeira vez na vida o que tinha feito nessa noite de 93 em Icaraí. As palavras textuais dela foram registados em vídeo nacional.
Olhando diretamente para a câmera, com a voz embargada, a Deia Lúcia disse para Tatá Wernec o seguinte: “Foi quando eu Reparei numa foto: “Este menino tem alguma coisa estranha. O Paulo Gustavo sentado com a família e eu esperei. Vamos lá ver. Depois percebi que o o meu filho nessa altura não falava gay, era afeminado.
Depois eu disse que tinha que ser forte por ele, lutar por ele, lutar por ele. Em 1993, no Brasil, numa família católica de classe média de Niterói, numa altura em que praticamente nenhuma mãe brasileira de classe média defendia filho gay em voz alta, engolia-se, se escondia, se rezava para passar, mas a Deia Lúcia não engoliu.
Ela brigou e continuou a lutar pelo resto da vida do filho. Na mesma entrevista de Lady Knight, 3 anos depois da morte do filho, a Deia disse ainda uma frase que apanhou a apresentadora de surpresa em estúdio. A vida exigiu de mim também ser esta mãe forte, esta mulher forte e segurei a onda. As as pessoas pensam que sou uma pessoa maravilhosa. Eu não sou, não.
Todo mundo tinha de ser assim. Lembra-se dessa deia, Lúcia? Porque 30 anos depois dessa noite de 93, essa mesma mulher ia estar segurando a mão do mesmo filho dentro de uma UCI de Copacabana, na hora exata em que deixou de respirar e ia precisar de toda esta força silenciosa de novo. O Paulo, com toda esta dor silenciosa da adolescência em Icaraí, começou a proteger de uma forma que ninguém esperava. Ele virou engraçado.
Era a estratégia mais antiga do mundo, fazer rir antes que se rissem dele. E a fonte de inspiração estava mesmo à frente dele, dentro do apartamento de Niterói, a própria mãe Dea Lúcia. Ele observava tudo. A forma como a Deia Lúcia falava ao telefone com as amigas, a forma como ela gritava o nome dos filhos pela janela do apartamento, a forma como ela queixava-se do marido na cozinha, o drama enorme dela em coisas pequenas.
Tudo que ia entrando dentro daquele adolescente sem ele se aperceber e anos depois ia sair tudo de uma vez. Quando saiu, mudou o cinema brasileiro para sempre. Mas até lá chegar, o Paulo ainda tinha de passar por muita coisa. E a primeira porta que lhe abriu foi numa escola de teatro do Rio de Janeiro.
Em 2004, o Paulo matriculou-se na Casa das Artes de Laranjeiras, no Rio de Janeiro. A escola era conhecida pela sigla C, uma das instituições de teatro mais tradicionais do país. Ali, dentro daqueles velhos corredores do bairro Carioca das Laranjeiras, o Paulo encontrou pela primeira vez na vida um lugar onde não tinha de se esconder, onde o seu modo de falar, de gesticular, de imitar as mulheres tornou-se matériapra de trabalho.
Estudou na mesma turma de gente que ia ficar famosa depois. Fábio Porchá, que anos mais tarde seria um dos criadores do Porta dos Fundos, Marcos Magela, que ia virar parceiro fixo do Paulo em palco, em televisão e em filme até ao fim da vida. A turma da Cal desse ano específico tornou-se uma das mais marcantes do teatro brasileiro recente.
Mas o Paulo O Gustavo, dentro daquela turma do CAL era ainda o quieto, o observador, o que prestava atenção a tudo. Os colegas contam em entrevistas que vieram depois da sua dolorosa morte em maio de 2021, que o Paulo não era o tipo que aparecia nas festas do Rio, não era o tipo que disputava um papel principal nos exercícios.
Era o tipo que ficava sentado ao fundo da sala, olhando, anotando, guardando. E quando ele entrava em cena nos exercícios da Cal, o que saía era sempre uma surpresa, porque era sempre uma mulher, sempre uma mulher de meia idade, sempre uma mãe brasileira gritando alguma coisa, como se aquele material todo da infância em Caraí, aquela mãe gigante de Niterói, aquelas tias barulhentas do almoço de domingo, fosse o único universo que ele realmente sabia interpretar com verdade dentro de um palco.
E depois, no final de 2004, alguns meses antes da sua formatura oficial na CAL, o Paulo recebeu um convite que mudou tudo. Era uma peça pequena, de humor, sem contrato televisivo, montada no Rio, mas foi naquele palco específico, vestido de mulher pela primeira vez na vida perante um público paga, que nasceu a personagem mais lucrativa da história do humor brasileiro contemporâneo.
O convite foi para integrar o elenco de uma peça chamada Surto. Era um espetáculo de humor com vários atores montado no Rio de Janeiro, pequeno, sem contrato de televisão envolvido, teatro independente, basicamente, mas era pago. E para o Paulo Gustavo, que ainda vivia com os pais em Icaraí e dependia financeiramente da família, era a primeira oportunidade real da vida adulta dele de viver do que amava.
Ele aceitou o convite e foi nesse palco específico vestido de mulher, falando com a voz aguda que tinha aprendido escutando a Deia Lúcia desde criança dentro do apartamento de Icaraí, que a A dona Hermínia nasceu de verdade pela primeira vez. Já tinha deixado de ser exercício de faculdade da CAL. Era público pago a assistir no teatro, bilhete vendido à porta, pessoas brasileiras desconhecidas a pagar dinheiro do bolso para ouvir aquela mulher dramática queixar-se dos filhos imaginários em cena. A plateia chorou de
rir naquele modesto palco, mas o efeito ia muito além do simples humor, era reconhecimento universal. Cada brasileiro que assistia naquele teatro pequeno do Rio via a própria mãe naquela mulher de Bobs na cabeça. O jeito específico de gritar pelos filhos, o drama enorme por coisas pequenas do dia a dia, o amor sufocante e generoso ao mesmo tempo.
Era a mãe brasileira inteiro ali num homem só, vestido de mulher num modesto palco da zona sul carioca. E foi aí que o Paulo Gustavo apercebeu-se do que tinha nas mãos. Mas o que veio depois, ainda não viu chegar em sete anos seguidos a correr o Brasil com uma só personagem, a dona Hermínia, ia transformar aquele ator principiante de Niterói num dos homens mais rentáveis da história do humor brasileiro.
Em 2006, dois anos depois da estreia em surto, Paulo Gustavo escreveu sozinho um espetáculo a solo só essa personagem. chamou o espetáculo de A Minha Mãe é uma peça. Era um monólogo, um homem sozinho em palco, vestido de mulher, falando das dores e das alegrias de uma mãe brasileira comum. Entre 2006 e 2013, viveu aquilo que muitos artistas brasileiros chamam de a longa estrada.
7 anos a percorrer o país inteiro com uma peça só, apresentando a mesma personagem em cidade após cidade, sempre a abarrotar, tendo sempre que voltar. Em 2011, o Paulo conseguiu o primeiro programa de humor próprio dele na televisão paga. estreou 220 V no canal Multiow. Era um programa com várias personagens, todas interpretadas por ele.
Mulher feia, Senhora dos absurdos e, claro, a dona Hermínia. Em setembro de 2013, o mesmo ano em que o filme A Minha Mãe é uma peça estreou no cinema brasileiro, iniciou-se também no Multishow O programa Vike Cola. era passado numa pensão fictícia da zona sul do Rio de Janeiro. O Paulo interpretava Valdomiro, o porteiro carismático e meio confuso.
O programa tornou-se um dos maiores fenómenos da TV paga brasileira da década seguinte. E em junho de 2013 deu-se o salto definitivo da carreira dele. A peça virou filme. Custou pouco. Quase ninguém apostou que ia funcionar nos cinemas. Mas o que aconteceu nas salas brasileiras mudou tudo. Filas que davam a volta no quarteirão, pessoas que voltavam a ver duas, três vezes seguidas.
Mãe levando filha, filha levando mãe. Pouco depois da estreia virou o filme brasileiro mais visto desse ano integral de 2013. 3 anos depois, em 2016, surgiu o segundo filme da franquia. E para fechar a trilogia oficial, 2019 trouxe o terceiro filme nos ecrãs do Brasil. Os três filmes juntos venderam mais de 25 milhões de bilhetes nos cinemas brasileiros.
25 milhões de brasileiros a pagar o bilhete para ver a dona Hermínia gritar com filhos imaginários dentro de um cinema, mais do que qualquer outro franchising brasileiro da história nacional inteira do cinema. A combinação de teatro, cinema e televisão paga fez do Paulo Gustavo, em meados da década de 2010, um dos artistas brasileiros mais ocupados e bem pagos de todo o país.
A trilogia A Minha Mãe é uma peça de teatro arrecadou mais de R$ 442 milhões de reais somados nas bilheteiras dos cinemas do Brasil. A fortuna pessoal dele, segundo estimativas publicadas pela imprensa brasileira de celebridades depois da morte, passava de R milhões de reais em capital próprio acumulado.
E o Paulo fazia uma digressão pelo Brasil e para comunidades brasileiras a viver no exterior. Auge absoluto da vida pública dele. Foi exatamente nesta momento de auge que o amor pessoal apareceu na vida dele da forma mais inesperado. Em 2014, numa festa do Rio de Janeiro, o Paulo Gustavo conheceu um homem que ia mudar a sua vida para sempre.
O próprio Thalis Bretas contou esta noite específica anos mais tarde, em publicação no seu Instagram, comemorando os 5 anos do casal. As palavras textuais do médico foram as seguintes: “Há 5 anos, nem imaginava que nesse dia ia conhecer o amor da minha vida. A minha alma gémea, que me completa e põe-me para cima e paraa frente. Uma noite que poderia ser mais uma qualquer de festa no Rio, mas foi o meu turning ponto.
O Thalis Bretas era médico dermatologista, calmo, discreto, o oposto exato do Paulo no temperamento pessoal. E era este oposto que o Paulo precisava do lado dele na vida adulta. Em abril de 2015, o Paulo Gustavo assumiu o namoro publicamente em entrevista ao jornal Folha de São Paulo. As palavras dele sobre o namoro foram simples.
Nunca disse que estávamos a namorar, mas pode dizer que eu namoro com o Thales. Ele é ótimo, não tem o mínimo problema. 8 meses depois daquela entrevista da Folha, no dia 20 de dezembro de 2015, os dois casaram numa cerimónia quase secreta. O local escolhido foi o Parque Laje, dentro da zona sul do Rio de Janeiro.
Anita cantou na festa. Quase nenhuma foto vazou para a imprensa de celebridades da época. O Paulo fez questão pessoal de proteger aquele momento específico da exposição pública. Entre os convidados presentes naquela festa do Parque Lage esteve uma atriz brasileira que ia ter um papel silencioso e arrepiante na história final do Paulo Gustavo.
Uma mulher chamada Malu Vale, lembra-se desse nome? Vai voltar a ele dentro de poucos minutos. A partir dali, o sonho do casal era um só, ser pai. Mas o que aconteceu na busca deste sonho dois anos depois do casamento do Parque Lage é uma das tragédias pessoais mais brutais da vida adulta do Paulo Gustavo.
Uma tragédia que o Brasil já esqueceu e que ninguém imaginava que ia explicar anos mais tarde porque é que aquele homem decidiu sentar-se e fazer um testamento detalhado aos 39 anos completos. No dia 13 de outubro de 2017, o Paulo Gustavo abriu o seu Instagram e anunciou pro Brasil inteiro a notícia mais feliz da vida adulta dele até àquele momento.
Ele e o Thalis iam ser pais de gémeos, um rapaz e uma rapariga, gerados nos Estados Unidos por uma barriga solidária contratada pelo casal. Os nomes já estavam escolhidos pelos dois: Gael para o menino, Flora para menina. A Deia Lúcia ficou em êxtase com a notícia do neto. Partilhou no Instagram dela uma foto com dois pares de sapatinhos pequenos.
A família inteira de Icaraí organizou-se para receber as duas crianças que estavam para vir. E depois, dois meses depois daquele anúncio do Instagram do Paulo, em meados de dezembro de 2017, aconteceu uma coisa que ninguém daquela família esperava, algo que destruiu [a música] o Paulo Gustavo por dentro de uma forma que nunca mais voltou a ser o mesmo homem público que tinha sido até então.
A barriga solidária contratada pelo casal entrou em trabalho de parto antes da hora prevista, muito antes. Os dois Os bebés ainda não eram viáveis para sobreviver fora do útero materno. E o que aconteceu naquele hospital americano específico em dezembro de 2017 é o que destruiu o Paulo Gustavo silenciosamente por dentro.
Gael e Flora não resistiram. O parto prematuro horrível a meio da gestação e nenhum dos dois bebés sobreviveu fora da barriga da grávida. No dia 16 de dezembro de 2017, um sábado, o Paulo Gustavo publicou no Instagram pessoal dele uma das mensagens mais duras da sua vida adulta. As palavras textuais escritas por ele nesse post de luto público foram as seguintes: “Pessoal, gostaria de partilhar convosco um momento super difícil.
Na semana passada, a mamã de aluguer entrou em trabalho de parto a meio da gestação, quando os bebés ainda não eram viáveis. Infelizmente, não será desta vez. Estamos muito tristes, mais fortes e acreditamos que tudo isto tem algum porquê que saberemos mais paraa frente. A mensagem era curta, educada, quase profissional.
Era o estilo dele sempre, não chorar em público, não dar de bandeja a dor pessoal para o mundo, engolir e seguir. Mas por dentro daquele apartamento do Rio de Janeiro, alguma coisa silenciosa mudou no Paulo Gustavo a partir daquela perda dolorosa de 17. E é exatamente aqui, nesta altura cronológica específica da vida pública dele, que toda esta história começa a apontar para o hospital de Copacabana, onde ia morrer 4 anos depois.
2 anos depois daquela dolorosa perda de 17, em agosto de 2019, finalmente os bebés esperados pelo casal nasceram. Foram duas barrigas solidárias diferentes nos Estados Unidos. Os óvulos das duas gravidezes vieram da mesma dadora, uma mulher que o Paulo e o Thales não chegaram a conhecer pessoalmente, para que os dois irmãos fossem geneticamente meios irmãos entre si.
No dia 3 de agosto de 2019, dentro da cidade americana de San Diego, na Califórnia, nasceu Romeu, gerado a partir do material biológico do Thalis. 10 dias depois, no dia 13 de agosto, nasceu o Gael, gerado a partir do material do Paulo Gustavo. E o Paulo decidiu uma coisa que apanhou a família inteira de surpresa.
Deu ao segundo filho exatamente o mesmo nome do bebé que tinha perdido dois anos antes. Trouxe o nome morto de volta ao mundo e foi o momento mais feliz da vida adulta dele. Segundo o que o Paulo dizia nas entrevistas brasileiras desse ano, a vida estava finalmente no lugar por uns meses. E aqui aparece um pormenor perturbador da vida pessoal do Paulo Gustavo, que a sua família só veio a contar do anos depois da morte do ator.
Em maio de 2023, a Deia Lúcia foi convidada para um podcast brasileiro chamado Quem Pode pode da Giovana Il Bank e da Fernanda Paislem Leme. E ali, em pleno estúdio, ela divulgou uma informação que deixou as duas apresentadoras sem ar dentro do programa. As palavras textuais da Deia Lúcia naquele podcast brasileiro foram as seguintes [música]: “Estou a viver num apartamento que me deixou e pro pai em testamento.
Já viu uma pessoa de 39 anos fazer um testamento? É incrível. Ele deixou aquele apartamento para mim e para o pai. O mesmo apartamento era para nós vendermos e levarmos o dinheiro. 39 anos no auge da carreira nacional. 100 milhões de reais estimados em património acumulado. Saúde aparentemente perfeita, casou com o amor da vida, dois filhos pequenos em casa, topo absoluto do mundo brasileiro do humor.
e mesmo assim sentou-se e assinou um testamento detalhado, item a item, apartamento da mãe, apartamento do pai, cláusulas específicas escritas de próprio punho, tudo amarrado em notário, como se já soubesse de alguma coisa silenciosa. Por que razão um homem brasileiro de 39 anos, no auge da vida pessoal, faz um testamento detalhado? O que tinha sentido naquela altura específica da vida adulta? O que ele tinha visto que mais ninguém da família tinha visto ainda? A resposta para esta pergunta não está num pressentimento místico, está num episódio real e documentado que
aconteceu do anos antes do testamento. A perda dolorosa dos dois primeiros filhos mesmo antes de eles nascerem. O Paulo Gustavo tinha entendido na pior forma possível que o dinheiro do cinema brasileiro, a fama nacional, o casamento perfeito, nada daquilo protege ninguém da morte chegando de repente.
E a partir dali começou a proteger-se de uma forma quase obsessiva da vida pública dele. Porque o que ninguém imaginava nessa altura silenciosa de 2019 é que essa proteção toda, esse cuidado pessoal, esta paranóia que o Paulo desenvolveu nos meses seguintes não ia ser suficiente. Em março de 2020, 3 meses depois daquele Natal de 19, com os bebés recém-chegados, o mundo inteiro parou.
A pandemia da Covid chegou ao Brasil a um ritmo arrepiante e o Paulo Gustavo, com aquele medo da morte instalado no seu interior desde a perda dos gémeos, com a asma que carregava desde criança, com dois bebés de um ano em casa à espera que o pai regresse, ele fez uma coisa que praticamente nenhuma outra celebridade brasileira fez naquela altura específica de 2020. trancou-se de verdade.
O Paulo levou a família toda para um sítio em Itaipava, distrito do concelho de Petrópolis, dentro do interior do Rio de Janeiro. Subiu a Serra Fluminense com o Thales, o Romeu e o Gael. Trancou os portões da propriedade e praticamente não saiu de lá por mais de um ano de pandemia brasileira. Os raros visitantes que conseguiam chegar à porta do sítio eram obrigados a fazer um teste de PCR antes da entrada.
O próprio Paulo O Gustavo fazia testes semanalmente, religiosamente, esfregava o cotonete no nariz, mandava para o laboratório carioca, esperava o resultado a cada semana brasileira de isolamento. A imprensa de celebridades chamou o Paulo de paranóico no isolamento e ele assumiu publicamente nas redes sociais, sem vergonha disso, só com medo silencioso, real, medo legítimo, medo dessa mesma coisa que tinha previsto à mãe dela a Lúcia desde criança em Icaraí.
E aqui é onde tudo muda, porque em maio de 2020, dois meses depois do início oficial da pandemia no Brasil, o Paulo Gustavo deu uma entrevista pública em cadeia nacional e nessa entrevista específica disse uma frase arrepiante que vista hoje com tudo o que [a música] aconteceu depois é assustadora de escutar de novo. A entrevista foi para a amiga próxima do Paulo, a atriz Ingrid Guimarães.
O programa era o Além da Conta do canal GNT. A conversa decorreu de forma remota por causa do isolamento sanitário da pandemia e nela o Paulo Gustavo falou a seguintes palavras textuais em rede nacional brasileira: “Eu tenho um problema respiratório. A medicina não sabe ainda como este vírus reage dentro de cada pessoa.
Eu tenho medo de apanhar isso, a pessoa não saber o que usar em mim e eu morrer. Então tenho medo que eu morra.” Foi o que disse em rede nacional. para todo o Brasil que estava assistindo quase um ano antes de morrer, exatamente da forma que ele descreveu naquela entrevista específica do GNT. Mas o Paulo Gustavo não foi o único da família que sentiu isso a vir.
A Deia Lúcia, em entrevista pública dada anos depois da morte do filho, confessou uma coisa que ela tinha guardado dentro dela durante a vida inteira. As palavras textuais dela foram registadas em vídeo nacional. Ele tinha uma energia que não era comum, era sensitivo e tinha medo disso. Ele sempre falava que morreria cedo.
Desde sempre ele dizia isso. Desde sempre. Não desde a pandemia. Não desde os 39 anos do testamento. Desde sempre. Desde criança no apartamento de Icaraí. Desde adolescente no liceu salesiano. Desde antes da fama, do dinheiro, dos filhos. E foi exatamente isso que aconteceu 10 meses depois dessa entrevista do GNT com a Ingrid Guimarães.
Em dezembro de 2020, em pleno isolamento brasileiro de Itaipava, decorreu uma coisa que mudou para sempre o equilíbrio emocional no seio daquela família. A Deia A Lúcia, mãe do Paulo, levou o COVID de forma assintomática. Quer dizer, ela tinha o vírus dentro do corpo dela, mas não sentia absolutamente nada do quadro clínico tradicional.
No dia 15 de dezembro desse ano, ela fez um exame de controlo médico e o resultado veio negativo. Finalmente, operou um olho paraa catarata no dia seguinte. No no dia 22 de dezembro operou o outro olho do rosto. No dia 23 de dezembro de 2020, dois dias antes do Natal brasileiro, o Deia Lúcia pegou num carro e subiu à Serra Fluminense em direção a Itaipava.
Ia passar o Natal com o filho mais velho, o Genro Thales, e os dois netos pequenos, Romeu e Gael. Quando chegou ao sítio da família, o Paulo Gustavo olhou para a cara da mãe e fez uma brincadeira pesada. que ia ficar registada para sempre dentro daquela família carioca. As palavras textuais que a própria dona Deia contou em entrevista pública anos mais tarde sobre aquele momento foram as seguintes.
Quando lá cheguei, ele olhou paraa minha cara e disse: “Mãe, és tão má raça que nem a O Covid aguentou contigo, mas se eu apanhar, eu vou morrer. Se eu o apanhar, eu vou morrer.” Foi esta a frase exata que o Paulo disse à mãe naquele almoço de Natal de 20 dentro daquele sítio fluminense de Itaipava. 2 meses e meio antes do internamento real dele no hospital Copa Star de Copacabana.
Quase 80 dias depois daquele almoço específico de Natal, o seu filho ia estar de facto internado no hospital de Copacabana com o pulmão destruído pela mesma doença que ele tinha previsto que ia matá-lo. E para perceber o que aconteceu naquele intervalo entre o sítio e o hospital, é necessário voltar ao contexto institucional sombrio que estava a acontecer em paralelo no Brasil inteiro.
que enquanto Paulo Gustavo estava trancado naquele sítio de Itaipava, fazendo PCR semanal, aguardando o resultado negativo a cada domingo, em paralelo, o governo federal brasileiro estava a recusar ofertas formais de vacina contra a COVID. Foram 11 ofertas formais documentadas, segundo o inquérito publicado pela coluna do jornalista Octavio Guedes no portal G1 da Globo em abril de 2021.
Seis das 11 ofertas provinham do Instituto Butantã em parceria com o laboratório chinês Sinovac. O diretor do Butantã, Dimas Covas, enviou três ofícios oficiais pro Ministério da Saúde Brasileiro durante o ano de 2020, oferecendo a vacina Coronavac. Nenhum foi respondido pelo governo federal de Brasília.
E, entretanto, o O presidente Jair Bolsonaro fazia declarações públicas em rede nacional. registadas em vídeo durante todo o ano de 2020 contra a vacinação contra a COVID. As palavras textuais dele dentro do Palácio do Planalto no dia 15 de dezembro desse ano, o mesmo dia em que a Deia Lúcia fazia o exame negativo dela, foram as seguintes: “Como sempre, nunca fugi da verdade, digo-te, eu não vou tomar vacina. E ponto final.
E ali, dentro daquele sítio da Itaipava, em fevereiro de 2021, o Paulo Gustavo apanhou o telemóvel e fez uma das publicações mais dele comentadas em toda a fase final da vida pública dele. No dia 3 de março de 2021, uma quarta-feira, 10 dias antes da internamento real, o Paulo Gustavo pegou no telemóvel dentro do sítio de Itaipava e fez uma das publicações mais comentadas dele em toda a fase final da vida pública.
partilhou capturas de ecrã de uma série de reportagens brasileiras sobre o agravamento da pandemia no país, lotação das UCIs, falta de oxigénio em Manaus, variantes mais transmissíveis e escreveu em texto público no Instagram dele uma curta frase que se tornou viral em poucas horas: “Onde está a vacina, meu Deus?” 10 dias depois daquela postagem específica do Paulo no Instagram, ele ia estar de facto internado no hospital de Copacabana, lutando pela vida adulta dentro de uma UCI brasileira.
E uma das amigas próximas dele, a atriz Malu Vale, ia receber durante esse intervalo uma mensagem privada de poucas palavras que só seria relida no dia do seu velório. Lembra-se deste nome? Falta pouco para essa mensagem aparecer aqui. Na primeira ª semana de março de 2021, depois de quase um ano inteiro de isolamento rigoroso, depois de dezenas de testes semanais que tinham sempre dado negativo, o Paulo O Gustavo fez mais um teste de rotina, mais um cotonete no nariz, mais um envelope para o laboratório carioca, mais
uma espera de algumas horas pelo resultado que vinha sempre negativo. Só que desta vez o resultado não veio do forma como vinha sempre, veio positivo. O Paulo Gustavo entrou em pânico dentro daquele sítio da Itaipava. Tudo o que ele tinha previsto desde criança em Icaraí estava a realizar-se ali no envelope do laboratório em letra clínica preta.
O mesmo medo que ele tinha confessado a Ingrid Guimarães no GNT em maio do ano anterior. A mesma frase que tinha dito à mãe Dea Lúcia no Natal de 20 dentro do almoço da família. Em poucos dias seguintes ao resultado positivo do laboratório, ficou claro para a equipa médica particular do Paulo que não ia conseguir tratar aquela infecção respiratória dentro de casa.
O pulmão do humorista de Niterói estava a entrar em colapso silencioso a cada hora de evolução clínica. No dia 13 de março de 2021, um sábado, o Paulo Gustavo entrou no Hospital Copa Star, dentro do bairro de Copacabana, na zona sul do Rio de Janeiro. Já chegou à urgência do hospital com a saturação de oxigénio do sangue baixa, falta de ar acentuada.
parte do pulmão dele já comprometida pela inflamação provocada pelo vírus dentro do corpo. Quem contou isto publicamente foi a amiga próxima do Paulo Gustavo, a médica e realizadora de cinema Susana Garcia, em entrevista posterior pro programa Fantástico da Rede Globo. As palavras textuais da Suzana sobre aquele momento de entrada do Paulo no hospital de Copacabana foram as seguintes.
Ele já chegou à urgência com a saturação baixa, com falta de ar, já com parte do pulmão comprometida. Ele ficou dias assim na luta, tentando que o pulmão melhorasse essa inflamação. E foi exatamente ali, dentro daquele quarto de hospital de Copacabana, que começou a contagem brutal dos 53 dias, que ninguém da imprensa brasileira tinha autorização para cobrir de perto.
53 dias que a família tentou guardar para si, mas alguém sem querer deixou escapar. Durante oito dias inteiros, dentro daquele quarto privado do hospital Copa Star em Copacabana, o Paulo Gustavo tentou segurar a inflamação dos próprios pulmões sem necessitar do tubo respiratório. Recebeu oxigénio por catéter nasal, tomou medicamentos antivirais, recebeu corticoide em alta dose, lutou silenciosamente contra a doença que tinha previsto desde criança, mas a inflamação não respondia ao tratamento clínico. Em
16 de março, três dias depois da internamento, a assessoria do humorista divulgada à imprensa de celebridades um boletim médico classificando o quadro dele como estável. No dia 21 de março de 2021, um domingo, 8 dias completos depois do internamento, a equipa médica do Taça Star tomou a decisão mais difícil daquele tratamento.
O Paulo Gustavo estava com uma dificuldade aguda de respirar, mesmo com oxigénio suplementar no nariz. Uma nova tomografia computadorizada revelou um número arrepiante. Praticamente 100% da área pulmonar dele já estava comprometida pela inflamação viral. Os médicos chamaram a família para o corredor da UCI e explicaram que ia ser necessário intubar o ator para que a respiração mecânica assumisse o controlo do oxigénio no sangue.
Antes do anestesista entrar com a sedação paraa intubação, o Paulo Gustavo virou-se para amiga próxima Susana Garcia, que era médica e realizadora dos filmes Minha Vida em Marte e a Minha Mãe é uma peça três. A Susana contou esta cena específica em entrevista para o programa Fantástico da Rede Globo, dias depois da entubação acontecer.
As palavras textuais do Paulo Gustavo naquele momento dramático foram as seguintes: ” Susana, se eu pudesse agora, queria mostrar aos brasileiros, mostrar a todos o quanto esta doença nos faz sofrer, o quanto é difícil o que eu estou passando por aqui, o quanto é importante as pessoas se cuidarem.” Era um pedido público dirigido aos outros brasileiros, não para ele próprio, para os outros compreenderem o sofrimento real dentro de uma UCI de COVID em 2021.
Depois dessa frase para o mundo, antes do tubo respiratório entrar de facto, o Paulo Gustavo virou o rosto para o lado da cama, onde estava o Thalis Bretas, marido e dermatologista, e disse três palavras curtas que se tornaram um dos momentos mais recordados da fase final pública dele. Amo-te, até já.
Três palavras dirigidas ao marido, cheias de promessa silenciosa, cheias de uma esperança que naquele preciso momento dentro da UCI de Copacabana parecia ainda razoável de se ter, mas o Paulo Gustavo não voltou e o que aconteceu dentro daquele quarto de hospital nos 44 dias seguintes é uma das mortes mais demoradas e dolorosas que o Brasil acompanhou pela imprensa nacional em décadas seguidas.
Mas existe um pormenor arrepiante daquele dia 21 de Março que ninguém da família soube até depois do velório acontecer. Pouco antes do anestesista entrar com a sedação, mais ou menos meia hora antes do tubo descer-lhe pela garganta, o Paulo Gustavo pegou no telemóvel pessoal dele dentro da cama do hospital, enviou uma mensagem privada de WhatsApp para atriz Malu Vale, a mesma amiga próxima que esteve no seu casamento no Parque Lage em 2015.
A mensagem tinha quatro frases curtas: “Vou entubar aqui daqui a meia hora. Vai ser melhor para mim”. Reza, amo-te. A Malu Vale leu a mensagem na hora, respondeu rezando pelo amigo, mandou força e só ia voltar a ler aquela mensagem específica dentro do telemóvel dela no dia do velório do Paulo Gustavo, 44 dias depois.
E o que ela encontrou no detalhe técnico do horário registado dentro do WhatsApp dela é uma das coincidências mais perturbadoras documentadas em toda a história do humor brasileiro contemporâneo. Mas para compreender o peso exato desta coincidência específica, é preciso primeiro acompanhar o que aconteceu nos 44 dias seguintes dentro daquela UCI.
Nesse mesmo dia 21 de março, o Thalis pegou no telemóvel pessoal e fez um post nas redes sociais para acalmar os fãs do Paulo. Disse, com a voz calma de médico dermatologista que era, que aquela intubação era mais um passo na cura da infecção respiratória. Disse que o Paulo tinha sido cedado para que o o pulmão dele descansasse.
O Brasil acreditou no boletim do marido. Os amigos famosos da família Paulo Gustavo acreditaram também. A apresentadora Tatá Vernec convocou nas redes sociais dela uma corrente coletiva de oração pelo amigo. A Ana Maria Braga falou do Paulo na televisão da Globo. A Fátima Bernardes pediu carinho ao público brasileiro.
Todo o mundo achou naquela altura específica que era questão de dias até o ator acordar da sedação. O seu pulmão continuava sem responder ao tratamento clínico, mesmo com o tubo colocado. E no dia 2 de abril de 2021, 12 dias depois da intubação, a equipa médica do Copa Star tomou uma decisão clínica drástica. O respirador mecânico tradicional, sozinho, já não conseguia manter o oxigénio no sangue do Paulo em níveis suficientes para alimentar o cérebro humano.
O pulmão estava muito comprometido pela inflamação acumulada de semanas. Os médicos iniciaram então um tratamento chamado e sigla que vem do inglês e significa oxigenação por membrana extracorporal, em palavras simples para qualquer brasileiro compreender em casa. O ECMO é uma máquina que substitui o pulmão biológico dentro do corpo.
O sangue do doente sai do seu corpo por um cano, passa por uma membrana sintética que adiciona oxigénio e remove o dióxido de carbono e volta para o corpo já oxigenado. O pulmão real dentro do peito não precisa trabalhar entretanto. Fica em repouso clínico, tentando curar-se sozinho. O A ECMO é o último recurso da medicina moderna.
Quando um hospital coloca um paciente nessa máquina específica, é porque tudo o que vinha antes já não estava a dar conta sozinho. E o Paulo Gustavo, aos 42 anos, asmático desde criança, com 106 milhões estimados em património, dois filhos pequenos esperando que o pai regressasse a casa, foi colocado nesse limite extremo. O tratamento com a máquina trouxe outro problema clínico imediato.
Para utilizar o eco, o sangue do doente precisa ser anticoagulado por medicamento específico. Quer dizer, ele não pode coagular dentro do equipamento se não entope todos os canos da máquina. E o problema é que o sangue mais fino também sangra mais facilmente. Em 4 de abril, dois dias após a introdução do ECMO, o Paulo foi submetido a uma toracoscopia para corrigir uma fístula broncopleural que tinha-se formado no pulmão dele.
A 7 de abril, o Thalis Bretas teve de ir pessoalmente às redes sociais explicar aos fãs que o marido tinha necessitado de transfusão de sangue urgente. aproveitou o post para pedir que os fãs brasileiros do sangue nos bancos públicos do Brasil, que estavam vazios por causa da pandemia. Em 22 de março de 2021, um dia depois da entubação, a apresentadora Tatá Vernec publicou nas redes sociais da mesma uma das mensagens mais partilhadas daquele período inicial do internamento.
As palavras textuais escritas pela Tatá Vernec no Instagram foram as seguintes: Paulo Gustavo está a atravessar um momento difícil. A oração é uma arma poderosa, gratuita e eficaz. Não importa a sua religião, todas são legítimas. Vamos rezar ao Paulo para sair logo desta e voltar a fazer o que mais gosta, fazer vocês rirem.
Outras celebridades brasileiras, como Luciano Hul, Angélica, Marcos Magela e Mônica Martelli, também aderiram publicamente à corrente coletiva nas redes sociais. No dia 11 de abril, o boletim médico oficial do hospital Copa Star utilizou pela primeira vez uma palavra que pesou à família inteiro: “Crítico, situação clínica continua a ser crítica”.
Foi isso que o hospital divulgou à imprensa brasileira de celebridades naquela manhã e acrescentou uma frase que assustou ainda mais. As diversas complicações pulmonares já exigiram procedimentos invasivos. Em palavra simples, o pulmão do Paulo Gustavo já tinha tido tantas intervenções, tantos tubos, tantas câmaras, tantas correções clínicas, que praticamente cada parte daquele órgão já tinha sido invadida por algum procedimento médico.
Em 26 de abril, o boletim trouxe mais uma má notícia: pneumonia bacteriana, em cima da COVID, em cima do pulmão já destruído pela inflamação viral acumulada. Uma bactéria oportunista aproveitou que o sistema imunológico do humorista estava debilitado e atacou. E depois, no domingo 2 de maio de 2021, depois de 50 dias completos de inferno respiratório dentro daquela UCI de Copacabana, aconteceu uma coisa que ninguém da família imaginava acontecer naquela altura do tratamento e foi o pior tipo de esperança documentada que o
O Brasil já viveu coletivamente em décadas. No dia 2 de maio de 2021, um domingo à tarde, a equipa médica do Copa Star tomou uma decisão clínica de rotina. Resolveram reduzir os sedativos do Paulo Gustavo gradualmente. Queriam testar como é que ele estava respondendo neurologicamente.
Queriam medir o nível de consciência do paciente. Era um procedimento técnico padrão e aconteceu o milagre que toda a família estava à espera há semanas. Segundo o boletim médico oficial divulgado pelo hospital no dia seguinte, palavra a palavra, após redução dos sedativos e do bloqueador neuromuscular, o doente acordou e interagiu bem com o equipa profissional e com o seu marido.
O Paulo Gustavo tinha acordado, olhou em redor do quarto, reconheceu o Talis, segurando a mão dele, interagiu com a equipa médica do serviço, comunicou-se silenciosamente com os médicos. 50 dias a dormir dentro da UCI brasileira, quase dois meses com o tubo respiratório descendo pela garganta, uma pneumonia bacteriana, fístulas pulmonares, transfusões de sangue, ligado de dia e de noite e mesmo assim acordou.
O Thalis saiu a correr do quarto para contar à família que estava no corredor. A Deia Lúcia chorou no telefone do prédio de Icaraí. A A Juliana, a irmã Caçula, chorou no apartamento dela do Rio. Os amigos famosos começaram a publicar nas redes sociais brasileiras. A Tatá Vernec escreveu sobre a energia coletiva do Brasil.
O país inteiro respirou de alívio naquela tarde silenciosa de domingo e o Paulo Gustavo só tinha voltado para se despedir porque nessa mesma noite de Domingo 2 de maio, poucas horas depois de ele acordar para o Tal segurar a mão dele, o pesadelo entregou a última cartada arrepiante. Segundo o boletim médico oficial divulgado pelo Taça Star na segunda-feira seguinte, palavra a palavra escrita pela equipa clínica.
À noite, subitamente houve pior acentuada do nível de consciência e dos sinais vitais, quando novos exames demonstraram ter havido embolia gasosa disseminada, incluindo o sistema nervoso central, em consequência de uma fístula bronquíulo venosa. Vou traduzir o que este boletim médico significa em palavra simples, para qualquer brasileiro compreender em casa.
O pulmão do Paulo O Gustavo, depois de quase dois meses sendo destruído pela COVID e pelas bactérias oportunistas, desenvolveu uma fissura específica entre os bronquíolos pulmonares e as veias circulatórias. Foi exatamente nesta fissura clínica que o ar do seu pulmão entrou diretamente na corrente sanguínea. Pequenas bolhas de ar que viajam pelo sangue, sem oxigénio dissolvido, ar puro entrando dentro das veias do humorista.
E estas bolhas de ar subiram pelo sistema circulatório do organismo, pelo pescoço, até chegarem ao cérebro dele. A a embolia gasosa cerebral é uma das mortes mais cruéis que existem na medicina moderna. Cada bolha de ar que chega ao cérebro entope um pequeno vaso sanguíneo e cada vaso entupido pelo ar mata uma região específica do cérebro humano.
Linguagem, memória, movimento, reconhecimento facial. Tudo parte por parte vai sendo desligado lentamente por dentro do crânio. Foi exatamente isso que aconteceu com o Paulo Gustavo naquela noite silenciosa de 2 de Maio dentro da UCI de Copacabana. Em poucas horas, saiu de acordado e interagindo com o marido para uma pior acentuada do nível de consciência.
O cérebro dele estava a ser desligado por no interior lentamente, enquanto o coração ainda batia e a máquina ainda oxigenava o sangue dele artificialmente. No dia 3 de maio, o boletim médico oficial usou as palavras instável e de extrema gravidade. No dia 4 de maio, o boletim informativo usou uma palavra ainda pior, irreversível.
E na noite específica desse mesmo dia 4 de maio, todos os fios sombrios desta história inteira vieram amarrar dentro do mesmo ponto, dentro do mesmo horário registado, dentro do mesmo número que ninguém da família ainda tinha conseguido ligar com a mensagem privada que o Paulo tinha enviado para Malu Vale 44 dias antes.
4 de maio de 2021, uma terça-feira brasileira, manhã de outono carioca. A família do Paulo O Gustavo recebeu uma chamada direta do serviço de urgência do hospital Copa Star, pedindo-lhes que viessem ao prédio com urgência. Deia Lúcia, a mãe, Júlio, o pai, Juliana, irmã Caçula, Penha, madrasta da família, o empresário pessoal do humorista.
Todos chegaram dentro do hospital de Copacabana pela manhã e passaram o dia inteiro acompanhando o estado de saúde do filho dentro daquela UCI. Era tempo de se despedir. E o que esta família carioca fez naqueles minutos finais dentro do quarto número desconhecido daquela UCI brasileira é o que transforma esta história dolorosa numa cena que ninguém presente naquele quarto ia esquecer para o resto da vida adulta.
A família inteira se posicionou cuidadosamente à volta da cama hospitalar. À Deia Lúcia, mãe do humorista, segurou uma das mãos do filho. À Juliana, irmã Caçula, segurou a outra mão livre. O Thales Bretas, marido dermatologista, segurou um dos pés do Paulo. A Penha, madrasta da família carioca, segurou o outro pé.
O Júlio, pai do humorista, colocou a mão sobre a cabeça do filho dentro da cama. cinco pessoas adultas, cinco pontos de contacto físico distintos, cinco laços diferentes com aquele homem brasileiro de 42 anos que estava prestes a partir definitivamente. E depois, dentro daquele quarto específico de UCI da zona sul do Rio de Janeiro, esta família começou a cantar em prosa.
A oração escolhida para acompanhar a despedida foi a oração de S. Francisco de Assis, sob a forma cantada de prosa religiosa. Senhor, fazei de mim um instrumento da vossa paz. Onde houver ódio, que eu leve o amor. Onde houver ofensa, que eu leve o perdão. Era a oração específica que a Deia Lúcia cantava ao Paulo desde criança em Icaraí.
O seu filho gostava daquela oração desde sempre. Pedia à mãe cantar antes de dormir nas noites de escola salesiano. Desde menino sensível dentro do apartamento de Niterói, antes do colégio católico, antes do bullying no recreio, antes de mais o que veio depois na vida pública. Ele dormia a ouvir a mãe a cantar esta oração. Esta mesma oração de S.
Francisco, cantada pelas mesmas pessoas da família carioca, acompanhou o Paulo O Gustavo nos últimos minutos da vida adulta dele. Agora, todos crescidos, todos com os olhos vermelhos de 44 dias seguidos de espera dentro do hospital, todos sabendo dentro da cabeça que aquela era a despedida real. E enquanto a família cantava à volta da cama hospitalar, os números dos monitores eletrónicos começaram a cair lentamente.
Os batimentos cardíacos foram diminuindo. 70, 60, 50, 40. A frequência respiratória mecânica continuava igual nos monitores, porque era a máquina Ecimo a trabalhar ainda. Mas o coração biológico do Paulo Gustavo foi se rendendo-se lentamente dentro do peito dele. A Deia Lúcia, segurando a mão direita do filho dentro daquela cama hospitalar, disse uma frase que nenhuma mãe brasileira deveria ter de dizer no fim da vida adulta de um filho.
Olhou para o rosto do Paulo ali deitado, sem se mexer mais, com a oração de São Francisco ainda no ar do quarto, e falou: “O meu filho, meu filho, obrigada por teres me escolhido para ser sua mãe.” Os batimentos cardíacos do Paulo Gustavo deixaram de aparecer dentro dos monitores às 21:12 da noite, carioca daquele 4 de Maio, 21:12.
Este foi o horário exato registado pela equipa médica do turno do Copa Star dentro do boletim oficial divulgado paraa imprensa brasileira. E aqui é onde a história inteira amarra dentro de um único ponto perturbador. Lembra-se daquela mensagem privada de WhatsApp que o Paulo Gustavo tinha enviado para Malu Vale 44 dias antes, meia hora antes da intubação, dentro daquela mesma UCI de Copacabana? Aquelas quatro frases curtas.
Vou entubar aqui daqui a meia hora, vai ser melhor para mim. Reza, amo-te. A Malu Vale só foi reler esta mensagem específica no dia do velório do amigo, dois dias depois da morte. E quando ela abriu o WhatsApp dela para voltar a olhar o texto que o Paulo tinha enviado, viu o horário registado pelo aplicativo no telemóvel.
A mensagem tinha sido enviada exatamente às 21:12 da noite do dia 21 de março de 2021. Mesmo horário, mesmo minuto, 21:1, a mesma hora exata, o mesmo minuto exato. 44 dias entre a mensagem introduzida por ele no telemóvel dentro daquele quarto e o horário registado da morte dele dentro do mesmo quarto. A Malu Vale contou esta coincidência arrepiante anos depois, numa edição especial do programa Sem Censura do canal TV Brasil, em homenagem pública ao amigo.
A frase exata dela sobre o momento da descoberta foi a seguinte: “No dia do velório, fui buscar para ler e ele tinha enviado no horário que veio a falecer 21:1.” Eu disse, gente, é muito doido. Paulo Morreu Gustavo Amaral Monteiro de Barros aos 42 anos de idade, 53 dias depois de entrar no Hospital Copa Star com falta de ar.
44 dias depois daquela mensagem privada enviada a Malu Vale pelo O WhatsApp pessoal dele, exatamente do forma que ele tinha previsto no Natal, de 20 paraa mãe Deia Lúcia dentro do sítio de Itaipava, exatamente da forma que ele tinha previsto no Natal para Ingrid Guimarães no canal GNT em maio do ano anterior. Exatamente do forma como a mãe Dea dizia que ele falava desde criança no apartamento de Icaraí em Niterói.
Na madrugada do dia 5 de maio de 2021, poucas horas depois da morte do Paulo Gustavo, o Thalis Bretas pegou no telemóvel pessoal e convocou pra rede social uma manifestação coletiva nacional. A ideia da campanha era simples. Às 8 da noite daquele mesmo dia 5, todo o brasileiro que amava o ator abriria a janela do apartamento e bateria palmas em homenagem ao humorista carioca.
A hashtag específica que tornou-se viral em poucas horas foi aplauso Paulo Gustavo, escrita em letras juntas. E na noite combinada do calendário em Niterói, no Rio de Janeiro, em várias cidades brasileiras espalhadas pelo país inteiro, milhares de janelas abriram-se simultaneamente. Milhares de pessoas bateram palmas em silêncio durante minutos seguidos.
No bairro de Icaraí, onde o Paulo tinha morado há mais de 30 anos da vida adulta, a manifestação foi particularmente intensa. Pessoas que estavam a praticar atividade física na orla pararam para participar. Das janelas dos apartamentos do prédio onde a Deia Lúcia ainda viviam, vizinhos antigos da família bateram palmas em silêncio pelo ilustre morador que tinha acabado de partir.
E depois, nas 24 horas seguintes à morte do Paulo Gustavo, aconteceu uma coisa que ninguém da família esperava acontecer àquela escala internacional. O Brasil inteiro parou e o mundo internacional do entretenimento parou juntamente com o Brasil. No dia 5 de maio de 2021, a cantora norte-americana Beyonc, no O seu site oficial, publicou uma homenagem direta ao Paulo Gustavo.
A frase que ela escolheu para escrever foi simples e curta: Paulo Gustavo, descansa em paz. Beyonc, a maior cantora pop do mundo daquela década, prestando homenagem pública a um ator brasileiro que ela provavelmente nunca tinha visto pessoalmente ao vivo dentro de um palco. No dia seguinte, 6 de maio, a mãe do Beyoncé, Tina Nose, publicou no Instagram dela uma mensagem pública, dizendo que tinha perdido um ator e comediante muito amado, o Senr.
Paulo Gustavo e acrescentou uma frase que apanhou os fãs brasileiros do humorista de surpresa. O Senr. O Gustavo era um grande fã da Beyoncé e era fã dele também. O Paulo Gustavo era Bay Hive, declarado nas redes sociais, fanático, confesso, pela cantora norte-americana. postava sobre ela com frequência no Instagram pessoal dele.
Sonhava encontrar com a Beyoncalmente. E quando morreu, o Brasil descobriu que a Beyonc também sabia exatamente quem ele era. O sonho tinha sido recíproco, só que silenciosamente tarde demais. Na mesma data, o ator norte-americano Marlon Wans, estrela do filme White Chicks de 2004, publicou uma homenagem no próprio Instagram, dizendo que, apesar de nunca ter conhecido Paulo pessoalmente ao vivo, sempre tinha ouvido coisas ótimas sobre o humorista por amigos e fãs brasileiros.
E enquanto a comunidade internacional do entretenimento prestava homenagem pública ao humorista brasileiro, dentro do Brasil mesmo aconteceu uma coisa que ninguém imaginava acontecer na noite específica daquela 4 de Maio. Uma figura intelectual brasileira divulgou no Twitter dela uma das acusações mais duras já dirigidas a um governo federal em pleno luto coletivo.
E a homenagem pública que mais doeu dentro do Brasil veio do O escritor brasileiro Paulo Coelho, na noite mesma da morte do humorista, logo depois das 21:12, o escritor é um dos brasileiros mais lidos do mundo internacional, escreveu nas redes sociais oficiais dele uma das mensagens mais duras dirigidas ao governo federal brasileiro durante todo o a pandemia.
As palavras textuais escritas pelo Paulo Coelho nessa noite específica foram as seguintes: assassinos de Paulo Gustavo. Quem dizia é só uma gripezinha, não passa dos 200 mortes. A cloroquina resolve. Gente morre todos os dias. Lockdown destrói o país. Máscara faz-nos respirar ar viciado. Eu obedeço ao comandante e por aí fora. Canalhas da pior espécie.
No dia 7 de maio, o desenhador brasileiro Maurício de Souza o Paulo Gustavo, transformando o ator em personagem temporária da Turma da Mônica. A banda desenhada publicada no Instagram oficial da marca mostrou o Paulo Gustavo no topo da imagem, de chapéu, com os braços abertos derramando um arco-íris sobre as personagens infantis.
A legenda específica da publicação dizia o seguinte: Paulo O Gustavo trouxe tantas cores paraas as nossas vidas. Descansa em paz, querido amigo, és eterno. No dia 9 de maio, a Câmara Municipal de Niterói anunciou publicamente que a empresa de lazer e turismo da cidade fluminense, conhecida pela sigla Neutour, ia criar o circuito turístico cultural Paulo Gustavo, numa homenagem oficial ao ator filho mais ilustre da cidade carioca.
Porque a homenagem mais concreta e mais rentável para a cultura brasileira inteira ainda não tinha chegado àquela hora. E foi exatamente um ano e dois meses depois da falecimento do Paulo Gustavo que o seu nome tornou-se lei federal, sancionada dentro do Congresso Brasileiro. No dia 8 de julho de 2022, pouco mais de um ano depois da morte do humorista carioca, o O Congresso Brasileiro aprovou a Lei Complementar número 195.
O nome oficial da lei era simples, lei Paulo Gustavo. Era uma lei federal que destinava verbas públicas pro setor cultural brasileiro, que tinha sido devastado financeiramente pela pandemia da COVID. eram cerca de R$ 3.800 milhões de reais distribuídos para cidades e estados investirem em cultura, em arte, em audiovisual independente.
Pela primeira vez na toda a história do Brasil, uma lei federal de incentivo à cultura nacional carregou o nome de um humorista popular, sem ser nome de um general das Forças Armadas, de político brasileiro tradicional ou de industrial poderoso. Carregou o nome de um ator gay. filho de professora aposentada de Icaraí, casado com um médico dermatologista, criador de uma personagem inspirada na própria mãe brasileira.
E em São Paulo capital, dentro do bairro do Campo Limpo, na zona sul de São Paulo, o artista plástico brasileiro Paulo Terra pintou um mural enorme em maio de 2021. O desenho aparece dias depois do velório do humorista. mostra o rosto do Paulo Gustavo junto do rosto da dona Hermínia. O mural específico fica numa parede de esquina dentro de um imóvel particular cujo proprietário cedeu o espaço de graça paraa arte urbana.
Quem passa por aquela esquina Paulistana hoje, há mais de 5 anos depois da morte do humorista, vê o sorriso do Paulo Gustavo ainda a olhar para a rua, como se nunca tivesse ido embora dali fisicamente. O que sobra desta história inteira não tem a ver com o sucesso financeiro acumulado pelo Paulo Gustavo. Nada do material. Não importa a dona Hermínia consagrada nos cinemas brasileiros, a fila de fãs nas portas, os 25 milhões de bilhetes vendidos durante toda a trilogia.
Não importam os 100 milhões de reais estimados na conta bancária dele depois da morte. A homenagem internacional da Beyonc no site oficial dela, o mural feito no campo limpo Paulistano, o aplauso convocado pelo Thales nas janelas de Niterói durante a internação. O que resta desta história é outra coisa.
O que resta desta história inteiro são dois meninos brasileiros, dois bebés que tinham 1 ano e 8 meses de idade, no dia em que o pai deles deixou de respirar dentro daquela UCI de Copacabana, Romeu e Gael, hoje em dia, ambos com se anos completos, crescendo silenciosamente, sem se lembrar do som da voz do Pai, do cheiro pessoal dele ou de qualquer imagem física daquele homem que escolheu trazer os dois ao mundo.
Depois de já ter perderam outros dois bebés antes de eles nascerem em dezembro de 2017, no prazo de outro hospital americano específico. O que sobra também é uma mãe brasileira chamada Dea Lúcia. Hoje, na casa dos 70 e poucos anos completos, vive num apartamento que o filho lhe deixou em testamento aos 39 anos. surge com frequência em entrevistas e podcasts brasileiros a contar a história pública de um filho que dizia desde criança em Icaraí que ia morrer cedo e que agora já não está ali presente para a proteger. como ela protegeu o
filho aos 15 anos de idade em 1993, numa época do Brasil em que praticamente ninguém da classe média carioca defendia filho gay em voz alta no seio de uma família católica. O que sobra é também um marido brasileiro chamado Thales Bretas, médico dermatologista de 30 e poucos anos hoje, que segurava o pé do Paulo dentro daquela cama hospitalar na hora de ele ir embora para sempre.
que escutou a frase Amo-te até já dita pelo Paulo antes da entubação respiratória de 21 de março e ficou dolorosamente à espera 44 dias seguidos de espera dentro do hospital de Copacabana que reconstruiu a vida pessoal depois da perda da forma que conseguiu sozinho, com os dois filhos pequenos sob a responsabilidade legal dele.
Mas o que sobra principalmente desta história brasileira inteira é uma pergunta arrepiante que ninguém consegue responder com certeza. Por que razão algumas pessoas específicas desde criança parecem saber? Porquê a Deia Lúcia confessou em entrevista pública na televisão que o seu filho era sensitivo, que tinha uma energia que não era comum no seio da família alguma, que falava sempre em voz alta, desde sempre dentro do apartamento de Icaraí em Niterói, que ia morrer cedo e que, de facto, morreu exatamente como tinha previsto, [música]
da forma respiratória que tinha descrito em rede nacional para Ingrid Guimarães no canal GNT. em maio de 2020, no momento exato em que o mundo brasileiro inteiro estava com a respiração coletiva ameaçada pela pandemia da Covid, talvez algumas pessoas específicas, de facto, saber coisas antes do tempo cronológico chegar.
Talvez nasçam com esta antena ligado para um sinal silencioso que a maioria de nós não consegue captar dentro da rotina. Ou talvez seja apenas coincidência arrepiante. Talvez a vida adulta seja isso mesmo. Gente que tem medo e morre. Gente que não tem medo e também morre. E contamos histórias depois para tentar perceber o que não dá para entender direito.
Se há uma coisa que toda esta história brasileira ensina, é uma única coisa silenciosa. As pessoas que amamos estão na nossa vida agora, hoje, esse exato instante em que está aqui a ouvir esta história específica e nenhum testamento discriminado em cartório, nenhum isolamento social rigoroso, não se verificou PCR semanal religioso, nenhum sítio escondido na Serra Fluminense, nenhum hospital privado de luxo em Copacabana.
Nada disto garante que estas pessoas vão estar do nosso lado amanhã de manhã. O Paulo O Gustavo trancou-se em casa. se cuidou silenciosamente, fez tudo o que a medicina dizia para fazer e morreu dolorosamente do mesmo jeito. Talvez a única coisa que vale a pena dentro desta vida brasileira curta, então, seja deixar de adiar a chamada para a mãe que mora longe.
Parar de adiar a visita ao pai que envelhece silenciosamente. Parar de adiar a frase de carinho que a gente quer dizer a alguém antes que essa pessoa específica receba um mau diagnóstico do médico. Ou entre num hospital de Copacabana ou subir uma serra fluminense e nunca mais desça. Se esta história de Paulo Gustavo fez se pensar em alguém específico agora, em alguém que se ama verdadeiramente, em alguém que ainda tem do seu lado, envia este vídeo para essa pessoa hoje à noite. Não amanhã, hoje mesmo, porque a as pessoas nunca sabem bem quanto tempo é o tempo que ainda sobra.