Pelé Chorou em Campo Uma Única Vez — e Nunca Explicou o Motivo

PARTE 1

O fotógrafo da Folha de São Paulo que estava atrás do Golo Sul da Vila Belmiro naquela noite de Novembro de 1964 não sabia o que estava prestes a registar. Os outros quatro fotógrafos acreditados também não sabiam. O juiz não sabia. Os 22.000 adeptos apertados nas bancadas de betão não sabiam. nem os jogadores do Santos que estavam no campo, nem os do Botafogo de Ribeirão Preto, que tentavam segurar um resultado que já estava perdido.

Ninguém naquele estádio, naquela noite quente do litoral de São Paulo, com o cheiro de marezia misturado no cigarro das gerais, imaginava que nos próximos 90 segundos o maior jogador de futebol do planeta ia fazer algo que não tinha feito antes e que não faria nunca mais. O Pelé ia chorar.

Não depois do jogo, não vestiário ou não na privacidade de um quarto de hotel ou na casa de família em Santos, em campo, perante 22.000 pessoas com a bola ainda a rolar, com a camisa branca dos Santos encharcada de suor, com o marcador já resolvido. Pelé ia chorar de uma forma que nenhum dos presentes entendeu naquele momento e que ninguém conseguiu explicar de forma convincente nos 60 anos seguintes.

Aconteceu na noite de 18 de novembro de 1964. E esta é a história que ninguém contou direito. Antes de continuar, deixa-me te pedir uma coisa rápida. Se gosta deste tipo de história que ninguém contou direito, subscreve o canal agora. Ajuda mais do que parece. Um like e um comentário dizem ao algoritmo que este vídeo importa e é isso que mantém este tipo de conteúdo vivo.

Agora volta comigo. A partir daqui a história avança lentamente. Ah, porque o que aconteceu nessa noite na Vila Belmiro não começou nessa noite. Começou semanas antes, talvez meses, talvez anos. E para perceber porque é que Pelé chorou em campo, é necessário perceber o que estava a acontecer ao redor dele, dentro dele e entre ele, e um homem que quase ninguém fora do balneário dos santos conhecia pelo nome verdadeiro.

O que acontece quando o maior jogador do mundo descobre que existe um limite para aquilo que ele pode transportar sozinho. Em que momento a força de um homem que o planeta inteiro considera invencível encontra finalmente a parede que não pode ser driblada. E o que significa chorar em público quando é Pelé? Quando o mundo inteiro decidiu que não tem o direito de ser fraco.

Estamos em Santos, Novembro de 1964. O Brasil vive sob um regime militar que tem 7 meses. O Santos Futebol Clube é o melhor equipa do mundo. Pelé tem 24 anos, 432 golos marcados, dois Campeonatos do Mundo, dois títulos da Libertadores, dois mundiais interclubes. Não há televisão a cores, não há replay, não há redes sociais.

O que acontece na Vila Belmiro fica na Vila Belmiro, a não ser que um jornalista decida escrever sobre isso no dia seguinte. E sobre essa noite, quase ninguém escreveu. Essa história quase desapareceu. O seu nome completo era Osvaldo Perez de Araújo, mas dentro do balneário da Vila Belmiro, todos chamava-lhe Vadinho.

Tinha 53 anos em 1964. Mãos grandes, costas largas. e uma função que não aparecia em nenhuma escalação, em nenhuma ata da direção, em nenhuma foto oficial. Vadinho era o roupeiro dos santos. Estava ali desde 1949. 15 anos antes de Pelé chorar naquele campo, Vadinho já abria a porta do balneário toda a manhã antes do sol nascer.

já varria o chão de cimento, já conferia cada cabide, cada gancho, cada prego torto na parede onde os jogadores penduravam as camisas. Quando Pelé chegou ao Santos, em 1956, um miúdo de 15 anos vindo de Bauru com uma mala de cartão atada com cordel e um par de chuteiras emprestadas que não serviam direito no pé esquerdo, foi Vadinho quem abriu a porta do balneário para ele no primeiro dia.

Pelé contou esta história poucas vezes. Não era o tipo de coisa que os jornalistas perguntavam. perguntavam sobre golos, sobre taças, sobre garrincha, sobre o drible que aplicou em tal defesa, sobre o remate que entrou de tal ângulo. Ninguém perguntava sobre o homem que lavava as camisas, mas Pelé se lembrava.

Se se lembrava de ter entrado naquele balneário pela primeira vez e com o cheiro do linimento e da creolina, a luz fraca das fluorescentes, o piso de cimento manchado, os bancos de madeira com a tinta a descascar e de ter visto um homem largo de bigode ralo e avental cinzento, que parou o que estava a fazer, olhou para ele e disse apenas uma coisa.

Pode pendurar a mala ali no canto, rapaz. E tem cuidado com o banco perto da janela que ele bamboleia. Não foi um discurso de boas-vindas, não foi um abraço, não foi nada que se contasse numa entrevista, mas foi a primeira frase que Pelé ouviu dentro do Santos Futebol Clube e veio de um homem que ninguém se ia lembrar fora daquele vestiário.

Pelé nunca esqueceu durante os nove anos seguintes, todos os dias em que Pelé esteve em Santos. E foram muitos dias porque nessa altura os clubes jogavam duas, três vezes por semana. Aí as excursões internacionais duravam 40, 50 dias, mas entre uma viagem e outra voltava-se sempre para a Vila Belmiro. Todos os dias, sem exceção, o Vadinho foi o primeiro rosto que Pelé viu ao entrar no balneário e o último ao sair.

Vadinho não era uma personagem folclórica, não era o tipo de figura que aparece nas crónicas desportivas como alívio cômico ou como pitoresca nota de rodapé. Era um homem sério, calado, que fazia o trabalho dele com uma dedicação que não precisava de audiência. Morava numa casa pequena no Macuco, o bairro operário de Santos, onde as ruas eram estreitas e cheiravam a peixe frito e a óleo de motor.

Tinha uma mulher chamada Eunice, que trabalhava como costureira e que ia à missa na igreja de Valongo todas as quartas-feiras e domingos. Não tinham filhos. Avadinho nunca explicou porquê e ninguém nunca perguntou, porque nessa altura as as pessoas não perguntavam este tipo de coisa. O trabalho de um roupeiro de futebol nos anos 60 não era o que as as pessoas imaginam quando ouvem a palavra roupeiro.

Não era simplesmente lavar e secar. era manter um balneário inteiro, funcionando como um organismo vivo para um plantel de mais de 30 jogadores num clube que jogava mais jogos por ano do que qualquer outra equipa do planeta. O Santos, de 1964, já tinha feito excursões por todos os continentes. Já tinha jogado na Europa, em África, na Ásia, na América Central, em locais onde as malas chegavam abertas e as camisas desapareciam.

Vadinho não viajava. O Vadinho ficava na Vila Belmiro, mas quando a equipa regressava, ora às 3 da manhã, ora com metade do material perdido, Vadinho estava lá, estava sempre lá. Chegava à Vila Belmiro às 5 horas da manhã, todos os dias. Não importava se era segunda-feira ou feriado, se estava a chover ou se fazia o calor húmido do litoral paulista que colava a camisola ao corpo antes das 7.

º Vadinho abria o balneário com uma chave que trazia no bolso das calças desde 1949 e que nunca perdeu. Acendia as luzes, abria as janelas basculantes para arejar, verificava se a torneira do chuveiro da ponta não estava a pingar, porque pingava sempre. E Vadinho arranjava sempre e ela voltava a pingar na semana seguinte. Depois começava o trabalho.

As toalhas dobradas da mesma forma, todas as vezes em três dobras iguais, empilhadas na prateleira de madeira junto dos chuveiros. As meias separadas por tamanho, porque Pelé usava 39, Coutinho usava 41, Zito usava 43. E misturar tamanhos de meias era o tipo de coisa que podia parecer insignificante para quem está fora de um balneário, mas que irritava um jogador antes de entrar em campo.

E Vadinho sabia disso. As camisas penduradas na ordem dos números, do 1 ao 22, em cabides de arame que Vadinho endireitava todas as semanas porque entortavam com o peso das camisas molhadas. O linimento na prateleira direita, ao lado do algodão e da faixa de esparadrapo. A água na temperatura certa, porque o Vadinho sabia que Lima, o guarda-redes, gostava de água gelada antes do jogo e que Pelé gostava de água natural, nunca gelada, e Vadinho separava as garrafas sem que ninguém pedisse. O café era 7. Vadinho preparava

o café num coador de pano, daqueles que estão pendurados numa armação de arame, com café torrado forte que comprava na mesma venda do Macuo, desde 1952. O café estava na garrafa térmica em cima de uma banqueta perto da entrada do balneário e os jogadores serviam-se quando iam chegando. Ninguém agradecia, não porque fossem mal educados, mas porque o café do Vadinho era como o ar do vestiário.

Estava sempre ali e ninguém pensava na possibilidade de que um dia não estivesse. O Padinho não fazia aquilo por obrigação, fazia-o porque acreditava, com a convicção silenciosa de um homem que não precisava verbalizar as suas crenças, que um vestiário bem cuidado era um vestiário onde os jogadores se sentiam em casa e os jogadores que se sentiam em casa jogavam melhor.

Padinho não percebia de tática, não sabia explicar um 424 ou a diferença entre um médio armador e um ponta direita, mas percebia de pessoas. Entendia que Mengalvio precisava de silêncio antes do jogo e que Pep precisava de barulho. Entendia que Gilmar, o guarda-redes titular, gostava de encontrar as luvas no mesmo local todas as vezes, penduradas no terceiro gancho da esquerda, e que se as luvas estivessem noutro local, Gilmar ficava irritado durante 20 minutos, sem dizer porquê.

Vadinho sabia de tudo isto, sabia porquê observava e observava porque se importava. Pelé tinha com Vadinho uma relação que não cabia em nenhuma categoria convencional. Não era amizade, porque a diferença de idade e de posição não permitia a horizontalidade que uma amizade exige. Pelé era o maior jogador do mundo. Vadinho era o roupeiro.

Nos anos 60, esta distância não era apenas profissional, era social, era estrutural. Era o tipo de abismo que existia em todos os clubes de futebol do Brasil e que ninguém questionava porque fazia parte da paisagem. Mas ao mesmo tempo não era uma relação de trabalho, porque ia muito além do que as funções de roupeiro e jogador podiam conter.

Era algo que se assemelhava à relação entre um sobrinho e um tio mais velho. Daqueles tios que não vivem na mesma casa, mas que estão sempre por perto, que não dão conselhos grandiosos, mas que fazem coisas pequenas com uma constância que ao longo dos anos se torna a coisa mais sólida que existe. Padinho nunca disse a Pelé como se jogava, nunca opinou sobre um passe, um drible, uma finalização.

Nunca disse que o Pelé era o melhor do mundo, porque Vadinho não era homem de elogios e porque Pelé não precisava que um roupeiro dissesse o que o planeta inteiro já sabia. Mas Vadinho fazia outras coisas. Quando Pelé regressava de uma excursão de 40 dias pela Europa, exausto, a com o corpo moído e a cabeça repleta de entrevistas e cobranças e compromissos comerciais que já começavam a acumular-se nos anos 60, Vadinho tinha a camisola número 10 lavada, passada e pendurada no cabide da direita, com um par de

chuteiras novas por baixo, já amaciadas com vaselina, porque Vadinho sabia que Pelé não gostava de estrear chuteiras duras. Quando Pelé se magoava, e Pelé se magoava com frequência porque era o jogador mais caçado do futebol mundial, Vadinho preparava a banheira de gelo sem que ninguém pedisse.

PARTE 2

Quando Pelé tinha um jogo difícil à noite e chegava ao balneário mais cedo do que os outros, tenso, calado, fechado naquela concentração que os companheiros já conheciam e respeitavam, Vadinho não falava, não tentava descontrair, não oferecia palavras de encorajamento, simplesmente colocava o café na banqueta, verificava se a camisa estava no lugar e saía. Deixava o Pelé em paz.

E Pelé, que era rodeado de pessoas o dia inteiro, dirigentes, jornalistas, adeptos, empresários, políticos, todos a querer algo dele. Pelé reconhecia naquele silêncio de Vadinho a coisa mais rara que alguém podia oferecer, a presença sem exigência. Pelé entrava no balneário e cumprimentava Vadinho antes de cumprimentar qualquer jogador. Sempre.

Não importava quem estivesse ali. Podia ser o Coutinho, que era o seu melhor amigo. Podia ser Zito, que era o capitão. Podia ser o próprio Lula, o técnico. Pelé entrava, olhava para o canto onde Vadinho estivesse a trabalhar, acenava com a cabeça ou dizia bom dia e só depois cumprimentava os outros. Era um pequeno gesto, automático, quase invisível.

Mas Coutinho percebeu. Coutinho percebia tudo o que Pelé fazia. Ah, porque o Coutinho conhecia Pelé como quem conhece o próprio reflexo no espelho. E Coutinho compreendeu, sem que ninguém precisasse explicar, que aquele gesto diário, repetido centenas de vezes ao longo de anos, era a forma que Pelé tinha de dizer algo que nunca disse por palavras, que via o Vadinho, que sabia que ele estava ali, que reconhecia o que ele fazia.

Num vadinho era invisível para quase toda a gente, Pelé o via. E isto para um homem como Vadinho, valia mais do que qualquer salário ou louvor público. Na segunda semana de setembro de 1964, Vadinho faltou ao trabalho pela primeira vez em 11 anos. Não avisou ninguém, não mandou recado, não ligou para o clube, simplesmente não apareceu.

Na Vila Belmiro, a ausência de Vadinho foi notada antes das 7 da manhã, ou quando os primeiros jogadores chegaram para o treino e encontraram o balneário fechado. O reserva do roupeiro. Um rapaz de 20 e poucos anos chamado Toninho, que normalmente só trabalhava nos dias de jogo, foi chamado à pressa e abriu o vestiário com uma chave suplente que se encontrava na portaria.

As toalhas não estavam dobradas, as camisas não estavam separadas, o café não estava pronto. Os jogadores trocaram olhares. Zito perguntou em voz alta onde estava o Vadinho. Ninguém sabia. Quando Vadinho apareceu no dia seguinte, ninguém fez perguntas diretas. Era assim que funcionava. Um homem como Vadinho, que nunca faltava, que nunca se queixava, que nunca pedia nada, tinha o direito implícito de faltar um dia sem dar explicações.

Mas quem olhasse para ele percebia que algo tinha mudado. O rosto estava mais magro, as olheiras eram fundas, a escuras, do tipo que não vem de uma noite mal dormida, mas de algo mais pesado, mais interno, mais permanente. Padinho entrou no balneário, vestiu o avental cinzento e começou a preparar as coisas como se nada tivesse acontecido.

Disse que tinha tido uma indisposição. Uma indisposição? A palavra ficou no ar do balneário como uma mentira que todos reconhecem, mas que ninguém questiona por respeito. Pelé chegou para o treino às 8 da manhã. Entrou no balneário, olhou para o canto onde Vadinho estava a dobrar toalhas e acenou com a cabeça como fazia todos os dias.

Mas não foi imediatamente para o o seu lugar. Ficou parado à porta por um segundo a mais do que o normal. Olhou ao Vadinho, não disse nada, depois caminhou até ao banco, sentou-se, começou a atar as chuteiras. Coutinho, que estava no banco ao lado, apercebeu-se. B reparou que Pelé ficou a olhar para Vadinho por um tempo mais longo do que o normal.

Percebeu que os olhos de Pelé tornaram-se estreitos, concentrados, como ficavam quando ele olhava para um defesa antes de um jogo e tentava ler aquilo que o adversário ia fazer. Coutinho não disse nada, mas compreendeu que Pelé tinha sentido algo, algo que não estava certo, algo que Pelé, com aquele instinto que tinha para perceber as coisas antes dos outros, tinha captado no rosto de Vadinho, antes de qualquer diagnóstico, antes de qualquer notícia, antes de qualquer confirmação.

Algo não estava bem e Pelé sentiu isso antes de saber o que era. Durante todo o mês de outubro de 1964, Vadinho continuou a chegar à Vila Belmiro às 5 da manhã. Continuou a abrir o balneário com a mesma chave de sempre. Continuou a preparar as toalhas, as camisolas, as chuteiras, ao café. A rotina era a mesma, os gestos eram os mesmos, os horários eram os mesmos, mas o corpo não era o mesmo.

As mãos grandes de Vadinho, aquelas mãos que durante 15 anos tinham lavado, torcido, dobrado, pendurado, carregado, reparado, limpado, aquelas mãos começaram a tremer. Não era um tremor violento, era um tremor fino, quase invisível, que só aparecia quando vadinho segurava algo pequeno ou quando ficava parado durante mais de alguns segundos.

Tentava esconder, apoiava as mãos na bancada quando pensava que ninguém estava olhando, segurava a borda do tanque com os dois braços quando torcia uma camisa. Cruzava os braços sobre o peito quando não tinha nada nas mãos, como se pudesse conter o tremor pela força da vontade. A camisa do uniforme de trabalho, o avental cinzento que Vadinho vestia todos os dias, ao estava cada vez mais folgada.

Em setembro, o avental ajustava-se no corpo. Em outubro, sobrava tecido nos ombros, nas costas, na cintura. Vadinho não comprou um avental mais pequeno. Continuou utilizando o mesmo. Talvez porque não quisesse admitir que estava a emagrecer. Talvez porque, na cabeça dele, trocar o avental seria reconhecer que algo estava a mudar e Vadinho não estava preparado para reconhecer nada.

O rosto que sempre fora redondo e corado, o rosto de um homem que comia arroz com feijão e bife de cebolada no almoço e que bebia uma cerveja no bar da esquina do macuco nas noites de folga. Aquele rosto ia afinando semana a semana. Os ossos da mandíbula foram aparecendo, as maçãs do rosto foram subindo, os olhos foram ficando maiores, não porque crescessem, mas porque o rosto à volta deles encolhia.

A Vadinho emagrecia como quem vai sendo apagado aos poucos, de dentro para fora, como uma vela que consome a cera sem que a chama mudar de tamanho. Os jogadores notaram: “Não todos, não os mais novos, que entravam e saíam do balneário sem olhar para os lados. Mas os mais velhos, os que ali estavam há anos, os que tinham convivido com Vadinho tempo suficiente para reconhecer o formato do rosto dele de olhos fechados, estes notaram.

Zito notou, Mengalvio notou, Pep reparou, mas ninguém disse nada, ninguém perguntou, porque perguntar significava forçar uma resposta que nenhum deles queria ouvir. E porque naquela época, naquela cultura, naquele balneário de futebol dos anos 60, os os homens não falavam sobre a doença. Doença era assunto de médico e de família. No balneário falava-se de futebol, de mulher, de dinheiro e de jogo.

O resto ficava do lado de fora. Pelé observava. Todos os dias quando entrava no balneário, olhava para o Vadinho. Não dizia nada. Cumprimentava com o aceno de cabeça de sempre. Sentava-se no banco, atava as chuteiras, preparava-se para o treino, mas olhava. E Coutinho, que estava sempre ao lado, percebia que o olhar de Pelé para Vadinho mudava a cada semana.

Na primeira semana de outubro era um olhar de preocupação. Na segunda, era um olhar de quem está a tentar compreender algo que não faz sentido. Na terceira era um olhar de quem já compreendeu, mas não aceita. Na quarta era um olhar diferente de todos os outros. Era o olhar de um homem que sabe que está a perder alguém e que não pode fazer nada para o impedir.

Na primeira ª semana de novembro de 1964, numa terça-feira à noite, o telefone tocou no apartamento de Pelé em Santos. A Pelé vivia num apartamento na Avenida Ana Costa, uma avenida larga e arborizada que ia do centro até à praia, num edifício de seis andares com fachada de azulejo branco. O apartamento era grande para os padrões da época, com sala ampla, dois quartos, varanda com vista parcial para o mar.

Pelé estava sentado na sala sozinho. A televisão estava ligado, a passar alguma coisa que ele não estava a ver. O telefone estava numa mesa pequena perto da porta da cozinha. Era a dona Celeste. A mãe de Pelé vivia em Santos desde que mudara-se para a cidade em 1956. Tinha acompanhado o filho, como acompanharia até ao fim.

A Dona Celeste era uma mulher pequena, forte, de fé inabalável e de uma rara capacidade de dizer as coisas mais duras com a voz mais calma. Ligou nessa terça-feira à noite, não porque quisesse dar uma notícia, a mais porque achava que Pelé precisava de saber. precisava de saber porque ia entrar no balneário no dia seguinte e ia veradinho outra vez e precisava de saber o que estava a olhar.

A Dona Celeste conhecia a esposa de Vadinho, Eunice, da igreja de Valongo. Frequentavam a mesma missa das quartas-feiras à tarde. entavam nos mesmos bancos, rezavam os mesmos terços e ao longo dos anos tinham construído aquele tipo de proximidade que as mulheres de fé constróem em silêncio, feita menos de conversas e mais de presenças partilhadas.

Depois da missa dessa quarta-feira, Eunice ficou sentada no banco da igreja depois de todos saírem. Dona Celeste sentou-se ao lado dela. Eissou muitas palavras. Disse que o Vadinho estava doente. Disse que o médico tinha feito exames. Disse que era cancro no estômago. A disse que o médico tinha falou em três meses e depois chorou.

chorou daquele modo silencioso que as as mulheres daquela geração choravam sem escândalo, sem espetáculo, apenas com as lágrimas a escorrer pelo rosto enquanto as mãos apertavam o terço no colo. zona celeste ouviu, segurou a mão de Eunice, ficou com ela na igreja durante mais de uma hora, até que Eunice se acalmou e disse que precisava de ir para casa preparar a jantar de Vadinho, porque Vadinho continuava a jantar todas as noites na mesa da cozinha, como se nada estivesse acontecendo.

E Eice continuava preparando o jantar todas as noites, como se aquela normalidade pudesse de alguma forma manter o mundo no lugar. Naquela terça-feira à noite, a dona Celeste ligou a Pelé e contou-lhe tudo. Contou com a mesma voz calma de sempre, sem dramatizar, sem chorar. Há porque A dona Celeste acreditava que as notícias más devem ser dadas com clareza e sem adornos, como quem arranca um esparadrapo de uma só vez.

Pelé ouviu em silêncio, não interrompeu, não fez perguntas. Quando a dona Celeste terminou, o Pelé disse apenas: “Obrigado, mãe”. E desligou. Ficou sentado na sala do apartamento. A televisão continuava ligada. Pelé se levantou-se, desligou a televisão e voltou a sentar-se. O apartamento ficou em silêncio.

O único som era o barulho dos automóveis na Avenida Ana Costa, seis andares abaixo, e o zumbido longínquo do mar, que entrava pela varanda entreaberta. Pelé ficou ali sentado, com as mãos nos joelhos, olhando para Padtera, a parede da sala, onde não havia nada para olhar durante mais de uma hora. Não chorou, não se levantou-se para ligar a ninguém, não abriu uma cerveja, não fez nada, ficou ali parado, aprocessando o que a dona Celeste tinha dito, tentando encaixar aquela informação num mundo onde o vadinho não estar no balneário da Vila Belmiro

às 5 da manhã. Era tão impossível como o sol não nascer sobre o porto de Santos. A dada altura da noite, Pelé se levantou-se e foi dormir. Mas antes de ir para o quarto, ficou parado à porta da sala e olhou para o telefone em cima da mesa perto da cozinha. pensou em ligar para Vadinho, pensou em ligar a Coutinho, pensou em ligar a alguém, não ligou, porque Pelé sabia com aquela inteligência emocional que não vinha dos livros, nem das entrevistas, mas da vida, que ligar ao Vadinho naquela hora significaria forçar Vadinho a

admitir algo que Vadinho tinha decidido não admitir. E Pelé respeitava essa decisão, mesmo que doesse. Entre a terça-feira, em que Pelé soube do diagnóstico de Vadinho e o jogo de sábado frente ao Botafogo de Ribeirão Preto, passaram quatro dias. Quatro dias que, vistos de fora, foram quatro dias normais na vida do maior jogador do mundo.

Pelé treinou na quarta-feira de manhã, trabalhou com bola à tarde, fez musculação na sala de pesos da Vila Belmiro, que na altura era uma sala pequena com equipamentos rudimentares e um espelho rachado na parede. Na quinta-feira, treinou de novo pela manhã. Almoçou com os companheiros num restaurante perto do clube, onde o Santos costumava comer depois dos treinos.

Um local simples, com toalhas de plástico axadrezado e ventiladores de teto que faziam mais barulho do que vento. Na sexta-feira, participou num evento da Câmara Municipal de Santos, a uma cerimónia protocolar no Passo Municipal, onde o presidente da Câmara entregou uma placa comemorativa ao Santos pela campanha no Campeonato de São Paulo. Pelé apertou mãos.

sorriu para as câmaras, disse as coisas que se espera que Pelé diga. Depois deu uma curta entrevista à Gazeta Desportivo sobre o Campeonato de São Paulo, respondeu com educação, falou dos adversários com respeito e saiu. Ninguém notou nada de diferente. Pelé sorriu quando devia sorrir, respondeu quando devia responder, jogou quando devia jogar.

O sorriso era o mesmo, as respostas eram as mesmas, a postura era a mesma, a armadura era a mesma, porque Pelé, aos 24 anos, já tinha aprendido uma coisa que a maioria das pessoas leva toda a vida para aprender, que quando és quem ele era, quando carrega o peso que carregava, a quando o mundo inteiro olha para si e espera que você seja forte, alegre, invencível. Genial.

Todos os dias, sem pausa, sem férias, sem permissão para ser humano. Quando tudo isto acontece, aprende-se a separar o que está dentro do que aparece fora. Aprende a construir uma parede entre o que sente e o que mostra. Aprende a sorrir enquanto desmorona. Aprende a jogar enquanto carrega. Mas Coutinho notou uma coisa.

No treino de quinta-feira, no campo auxiliar da A Vila Belmiro, aquele campo mais pequeno que ficava atrás das bancadas e que tinha o relvado mais batido e as traves mais tortas, Pelé fez algo que Coutinho nunca o tinha visto fazer. O treino era de finalização. O preparador de guarda-redes colocou o guarda-redes reserva na baliza e os atacantes se revesavam rematando de fora da área.

Era um exercício simples, rotineiro, é a que faziam três vezes por semana. Pelé rematou a primeira bola, passou por cima do travessão durante pelo menos 3 m, rematou a segunda, mais longe ainda, pontapeou a terceira, mais longe. Não eram pontapés errados. Pelé não falhava remates daquela distância, não com aquela frequência, não com aquela consistência no erro.

Coutinho estava ao lado e percebeu que Pelé estava a chutar para fora de propósito, pontapeando com força, com uma força que não era técnica, era uma força que vinha de outro lugar. Pelé estava esperneando como se estivesse a tentar magoar o ar, como se estivesse tentando expulsar alguma coisa de dentro de si pela sola da chuteira.

Os outros jogadores não se aperceberam. Acharam que Pelé estava a ter um dia mau. Dias maus aconteciam até para Pelé, mas Coutinho sabia que não era um dia mau. Sa Coutinho conhecia cada variação do humor de Pelé, cada sinal, cada mudança mínima de postura, de olhar, de ritmo. Coutinho sabia que aqueles remates não eram erro, eram dor.

Depois do treino, Coutinho caminhou ao lado de Pelé até ao vestiário. Não perguntou nada. Coutinho tinha essa sabedoria. A sabedoria de quem sabe que certas perguntas não ajudam e que o melhor que se pode fazer por um amigo que está a sofrer é estar ao lado dele sem exigir explicação. Caminharam em silêncio, entraram no vestiário.

O Vadinho estava lá, como sempre, preparando as toalhas para o banho. Pelé olhou para o Vadinho. olhou para Pelé e Coutinho, que viram aquele olhar de fora, sentiu pela primeira vez que algo muito pesado estava a acontecer entre aqueles dois homens. Algo que não compreendia inteiramente, mas que reconhecia pelo peso que transportava.

Na manhã do dia 18 de novembro de 1964, Pelé chegou à Vila Belmiro mais cedo do que de costume. O relógio da portaria marcava 6:15. O jogo contra o Botafogo de Ribeirão Preto era às 8 da noite, o o que significava que a concentração começava às 4 da tarde. Pelé não precisava de estar ali às 6:15 da manhã. Não havia treino, não havia reunião, não tinha motivo profissional para estar ali àquela hora, mas estava.

O estacionamento estava vazio. O sol ainda não tinha aparecido por detrás dos edifícios da rua Princesa Isabel. O ar estava húmido, pesado, com aquele cheiro a marezia que em Santos entra em tudo, nas roupa, nos móveis, nas paredes, nos pele. O portão lateral, o portão de ferro que os jogadores usavam para entrar sem passar pela multidão e que rangia quando abria, ainda estava fechado. O Pelé buzinou uma vez.

O vigia, um senhor de idade que dormia numa cadeira de praia na guarita, acordou, reconheceu o carro de Pelé e abriu o portão sem perguntar nada. Ninguém perguntava nada a Pelé. Não àquela hora, não com aquela cara. Pelé estacionou no lugar de sempre, perto da parede do vestiário. Desceu do carro. Estava vestido com calças escuras, camisa clara de manga curta, sapato sem meia.

O jeito como os homens de Santos se vestiam nessa época, simples, funcional, sem pretensão, caminhou pelo corredor de betão que conduzia ao vestiário. O corredor era estreito, com paredes pintadas de branco que já estavam amarelando, uma fileira de lâmpadas no tecto que de manhã ficavam apagadas e o chão de cimento liso que produzia um eco abafado a cada passo.

Pelé conhecia cada centímetro daquele corredor. Conhecia cada fenda na parede, a cada mancha de humidade, cada prego solto. Tinha passado por ali milhares de vezes nos últimos 9 anos. Empurrou a porta do vestiário. A porta era pesada, de madeira, com um puxador de metal que andava solta há meses e que ninguém consertava porque já toda a gente sabia que precisava de empurrar com o ombro.

Pelé empurrou. O Vadinho estava lá dentro sozinho, dobrando toalhas na penumbra. As luzes fluorescentes não tinham sido acesas ainda. A única luz provinha de uma janela basculante no cimo da parede dos fundos, aquela janelinha estreita que dava para o estacionamento e que deixava entrar uma faixa de luz cinzenta, a luz de antes do amanhecer, que não iluminava todo o balneário, mas que iluminava o suficiente para Vadinho trabalhar.

E Vadinho estava a trabalhar de pé ao lado da bancada de madeira onde se encontravam as toalhas, a com o avental cinzento, que agora parecia duas vezes demasiado grande para o corpo dele, com as mãos a tremerem a cada dobra, com o rosto afinado e os olhos encovados, dobrando toalhas como fazia todos os dias, como se não houvesse nada de errado.

como se o diagnóstico não existisse, como se três meses não fossem um prazo. Pelé parou na porta. Vadinho levantou os olhos. Os dois olharam-se em silêncio. Não foi um olhar longo, talvez 5 segundos, talvez seis. Mas foi o tipo de olhar em que duas pessoas dizem tudo o que precisam dizer sem abrir a boca. Pelé sabia.

Vadinho sabia que Pelé sabia. E os dois sabiam que não iam falar sobre o assunto. Não ali, não naquela manhã, talvez nunca, porque falar sobre aquilo significaria aceitar que era real. E nenhum dos dois, naquele momento, estava disposto a fazer isso. Vadinho baixou os olhos e voltou a dobrar as toalhas.

Pelé entrou no balneário, caminhou até ao banco onde sentava-se e sentou-se sempre. ficou ali em silêncio, no balneário quase escuro, ouvindo o som das mãos de Vadinho, dobrando tecido e o ruído longínquo de um camião a passar na rua Princesa Isabel. Ficaram assim durante mais de 20 minutos, sem falar, sem precisar de falar.

A dada altura, Vadinho deixou de dobrar toalhas e foi até à banqueta perto da entrada preparar o café. Pelé ouviu o som do fósforo a acender, o som da água a começar a ferver, o som do café a ser coado no coador de pano. Cheiros familiares, sons familiares. A rotina dos 9 anos condensada num ritual que estava a acontecer naquela manhã, pela última vez, de uma forma que nenhum dos dois reconhecia como última, mas que os dois sentiam como se fosse.

Adinho trouxe o café, e não chávena, num copinho de vidro grosso, daqueles de botiquim. Colocou-o na mão de Pelé, sem dizer nada. Pelé pegou nele, deu um gole. O café estava forte, amargo, quente. O café de Vadinho. Pelé olhou para cima. Vadinho já estava de costas, voltando para as toalhas. Pelé terminou o café, levantou-se e saiu do balneário.

Não disse bom dia, não disse obrigado, não disse nada, mas quando passou por Vadinho, encostou a mão ao ombro dele por um segundo. Só um segundo. A mão aberta, espalmada, no ombro esquerdo do Vadinho. o toque mais breve e mais pesado que aquele balneário já tinha presenciado. Depois saiu para o parque de estacionamento, entrou no carro e foi-se embora.

Voltaria às 16 horas para a concentração. O jogo era às 8. O Santos goleou o Botafogo de Ribeirão Preto por 6-1 naquela noite de 18 de Novembro de 1964, perante 22.000 adeptos na Vila Belmiro. O relvado estava em boas condições para os padrões da época, firme, apesar do calor, com as marcações de cal bem visíveis à luz dos refletores.

Os holofotes da Vila Belmiro nos anos 60 não eram como os reflectores modernos. Eram torres de metal com holofotes potentes, mas irregulares, que iluminavam o campo de forma desigual, com zonas de luz forte e zonas de penumbra, especialmente nos cantos perto das bandeirinhas. As sombras dos jogadores por vezes duplicavam, ora triplicavam, dependendo da posição em relação aos torres.

Era um efeito que dava ao futebol noturno na Vila Belmiro uma qualidade quase teatral. É como se o campo fosse um palco e os jogadores fossem atores de um espetáculo que nunca se repetia. O Botafogo de Ribeirão Preto era uma equipa modesto de meio da tabela no Campeonato Paulista, com jogadores esforçados, mas sem a qualidade técnica para enfrentar o Santos de igual para igual.

Todo mundo sabia que o Santos ia ganhar. A questão nunca era se o Santos ia ganhar, mas por quanto? E nessa noite o Santos ganhou por muito. Pelé marcou três golos. O primeiro veio aos 22 minutos da primeira parte. Uma jogada simples, trabalhada pelo lado direito. Dorval cruzou da linha de fundo, a bola passou pela área.

Pelé apareceu na segunda trave e rematou cruzado, rasteiro, no canto esquerdo do guarda-redes. O guarda-redes nem se mexeu. Foi um baliza limpa, eficiente, sem espetáculo. O tipo de golo que Pelé marcava de olhos fechados e que os jornais do dia seguinte descreveriam em duas linhas. O segundo golo surgiu aos 35 minutos do primeiro tempo.

Falta à entrada da área do lado esquerdo. Pelé colocou a bola no chão, ajeitou, olhou para a barreira, olhou para o ângulo e bateu. A bola subiu por cima da barreira, curvou-se para a direita e entrou no ângulo esquerdo do baliza, rente à trave, com o guarda-redes esticado no ar, sem alcançar. A multidão gritou: “Os companheiros vieram abraçar.

Pelé celebrou com o sorriso de sempre, o braço erguido, o gesto rápido de quem agradece e já está pensando no próximo lance. Dois golos. Jogo controlado, noite normal. Mas o terceiro golo não foi normal. O terceiro golo aconteceu aos 38 minutos do segundo tempo. O resultado já estava 5-1. O jogo estava morto. O A claque já cantava relaxada, apreciando a goleada com o prazer preguiçoso de quem assiste a algo que não oferece risco.

O Botafogo de Ribeirão Preto já tinha desistido de marcar. Os jogadores adversários caminhavam pelo campo com a resignação de quem sabe que a noite vai ser longa e que o autocarro de regresso a Ribeirão O preto vai ser silencioso. Pelé recebeu a bola na intermediária, recebeu de costas para a baliza, virou o corpo e começou a caminhar com a bola no pé.

Não correu, caminhou devagar, como se tivesse todo o tempo do mundo. Um defesa veio na direção dele. Pelé deu um toque subtil com a parte exterior do pé direito e passou por ele sem acelerar. Outro apareceu defesa. Pelé mudou de rumo com um movimento de anca tão mínimo que parecia que a bola tinha decidido sozinha para onde quer que vá.

passou pelo segundo. Um terceiro defesa tentou chegar. Pelé tocou a bola para a frente, deixou o defesa passar em frente e continuou a caminhar. A claque foi ficando em silêncio à medida que Pelé avançava. Não era o silêncio de desinteresse, era o silêncio de quem se apercebe que está a assistir a algo fora do comum.

Pelé não estava a jogar futebol, estava a fazer outra coisa. Os dribles não eram dribles de jogo, eram dribles de quem vai a algum lugar que só ele sabe onde fica. Pelé chegou à área, o guarda-redes saiu. Pelé driblou o guarda-redes com a mesma calma com que tinha driblado os três zagueiros. A baliza estava vazia, a bola estava no pé direito de Pelé.

A rede estava ali aberta à espera. Todo o estádio aguardava o remate. O remate forte, seco, ao canto, como Pelé fazia normalmente, como Pelé tinha feito centenas de vezes antes. Pelé não pontapeou, parou. Anc a bola na linha do golo. A linha branca de cal que separava o quase do consumado. Parou com o pé direito sobre a bola, olhou para baixo, olhou para a bola e empurrou lentamente com a planta do pé.

A bola rolou os últimos 30 cm e entrou na baliza como se estivesse sendo entregue, não pontapeada, como se Pelé estivesse a colocar alguma coisa num altar, como se aquele golo não fosse para o marcador, não fosse para os adeptos, não fosse para os jornais, fosse para outra pessoa, para uma pessoa específica. 22.

000 pessoas viram aquilo e não entenderam. Os fotógrafos registaram Pelé parado na linha de baliza e não entenderam. O narrador de rádio descreveu a cena e não compreendeu. Os Os jogadores dos Santos correram para festejar e não entenderam. Coutinho entendeu. Coutinho correu para abraçar Pelé. Chegou primeiro antes dos outros. estendeu os braços, tocou no ombro de Pelé e sentiu.

Sentiu que o corpo de Pelé tremia. Não era o tremor de esforço físico, não era o tremor do frio, porque estava calor, era o tremor de dentro. O tremor que acontece quando uma emoção guardada durante semanas encontra a brecha por onde escapar. Pelé virou o rosto. Não para os adeptos, não para os companheiros.

Virou-se para a linha lateral, para o banco de suplentes, para um ponto atrás do banco de suplentes, onde sentado num banquinho de madeira que ele próprio tinha trazido do depósito de materiais, com uma toalha dobrada no colo e as mãos grandes cruzadas sobre ela, um homem de costas largas e avental cinzento olhava para o campo.

Vadinho estava ali, como sempre, estava sentado no mesmo lugar onde se sentava, em todos os jogos. Atrás do banco de suplentes. Invisível para 22.000 pessoas. Visível para uma. Pelé olhou para Vadinho. Vadinho olhou para Pelé. Os olhos de Vadinho brilhavam, não de alegria, de algo que não tinha nome e que não precisava de nome para existir.

E Pelé chorou. Não foi um choro de alegria, não foi choro de dor, não foi choro de vitória, nem de derrota. Foi um choro que vinha de um lugar tão fundo que os companheiros que estavam à volta de Pelé recuaram sem se aperceberem, como se sentissem que estavam a invadir algo privado que não pertencia àquele campo, aquela noite, àquela goleada.

Pelé chorou com o rosto virado para o lado, com a boca fechada, com os ombros tremendo, com as lágrimas a escorrerem pelo rosto suado, sem que ele fizesse qualquer esforço para limpar. chorou como choram os homens que passaram demasiado tempo segurando. Coutinho ficou ao seu lado, não abraçou, não falou, colocou a mão no ombro de Pelé, a mesma mão que Pelé tinha colocado no ombro de Vadinho nessa manhã, e ficou ali parado em silêncio, até que Pelé respirou fundo, passou a mão pela cara e voltou para o centro do campo para o reinício do jogo.

O jogo terminou 4 minutos depois, 6-1. Pelé caminhou para o balneário sem comemorar. Entrou, sentou-se no banco, tirou as chuteiras. O Vadinho estava lá dentro. Já tinha preparado as toalhas para o banho, já tinha enchido os baldes de água, já tinha colocado o linimento na prateleira. Estava a fazer o que fazia sempre, com as mãos a tremer, com o avental largo, com o rosto cada vez mais fino.

Pelé tomou banho, vestiu-se e saiu do balneário. Quando passou por O Vadinho, parou, olhou para ele. Vadinho olhou de volta e Pelé disse uma frase, uma frase curta, ó tão baixa que ninguém além de Vadinho ouviu. O que disse Pelé nessa noite? As palavras exatas, ninguém sabe. O Vadinho nunca contou. Pelé nunca contou.

A frase ficou entre os dois, naquele balneário que cheirava linimento e a suor e a café, e nunca saiu dali. Vadinho morreu em fevereiro de 1965, três meses depois dessa noite, quase exatamente o prazo que o médico tinha dado. Morreu em casa, no Macuco, na cama de casal que partilhava com Eunice, com a janela aberta para a rua estreita que cheirava a peixe frito e a brisa do mar.

Eunice estava ao lado. Um vizinho foi chamar o médico. Quando o médico chegou, O Vadinho já tinha ido. O enterro foi simples. Caixão de madeira clara, sem adornos. A capela do cemitério do Jabaquara, que ficava num monte com vista para o porto de Santos. Eunice, de preto com o terço nas mãos, lhe sentada no primeiro banco, alguns vizinhos do Macuco, o vigia da Vila Belmiro, Toninho, o reserva do roupeiro e três jogadores do Santos, Zito, Coutinho e Pelé.

Pelé ficou no fundo da capela de pé, com as mãos cruzadas à frente do corpo. Não chorou não. Nesse dia, quando o caixão saiu para o funeral, Pelé caminhou atrás em silêncio, com Coutinho ao lado. Não carregou o caixão, não falou com ninguém. No cemitério, ficou afastado debaixo de uma árvore, olhando a descida do caixão de longe.

Quando acabou, caminhou até Eunice, segurou-lhe as duas mãos entre as suas e disse algo que a Eunice contou depois à dona Celeste e que a dona Celeste guardou para si durante anos. Pelé disse que Vadinho tinha sido o primeiro rosto que viu nos santos e que nunca ia esquecer. Depois saiu do cemitério, entrou no carro e foi para a Vila Belmiro.

Romai tinha treino à tarde. A vida continuava, o campeonato continuava, o Santos continuava, a camisola número 10 continuava pendurada no cabide, agora por mãos diferentes, as mãos do Toninho, que tentava fazer as coisas à maneira de Vadinho, mas que nunca conseguiu dobrar as toalhas exatamente da mesma forma. Nos dias seguintes, Pelé treinou normalmente, jogou normalmente, marcou golos, deu entrevistas, sorriu para as câmaras.

A armadura voltou, o sorriso voltou, Pelé voltou a ser Pelé, ou pelo menos a versão de Pelé que o mundo exigia que ele fosse. Mas Coutinho notou uma pequena mudança, quase invisível. A partir dessa semana, Pelé passou a chegar ao balneário e a olhar para o canto onde Vadinho costumava ficar. Um olhar rápido, automático, como quem procura algo que sabe que não está lá, mas que não consegue parar de procurar. Durava menos de um segundo.

Depois, Pelé desviava o olhar, cumprimentava quem ali estivesse e seguia a rotina. Mas aquele segundo existiu todos os dias durante meses. Coutinho viu e nunca disse nada. O fotógrafo da Folha de São Paulo, que estava atrás do Gol Sul, nessa noite revelou as fotos no dia seguinte no laboratório do jornal.

Tinha três chapas do terceiro golo de Pelé. Numa delas, Pelé aparecia parado na linha de baliza com a bola debaixo do pé. Na outra, Pelé aparecia com o rosto virado para o lado, os olhos a brilhar, algo no rosto que o fotógrafo não conseguia classificar. Na terceira, Pelé aparecia com Coutinho ao lado, a mão de Coutinho no seu ombro e uma expressão que não era de vitória.

O editor de fotografia olhou para as chapas e escolheu uma foto do segundo baliza, a cobrança de falta no ângulo para publicar no jornal. As fotos do terceiro golo foram arquivadas, não porque fossem más, porque não faziam sentido. Um jogador a chorar depois de marcar o sexto golo de uma goleada não era notícia, era estranheza.

E a estranheza, em 1964 não vendia jornais. As fotos desapareceram num ficheiro. A história desapareceu com elas. O que ficou foi a memória dos que ali estavam. 22.000 adeptos que viram Pelé chorar e que foram para casa a pensar que tinham visto uma coisa que não compreendiam. Coutinho, que compreendeu, mas nunca contou publicamente.

Zito, que se apercebeu, mas nunca perguntou. Os jogadores do Botafogo de Ribeirão Preto, que viram de longe e pensaram que Pelé estava machucado. O narrador radiofónico que mencionou as lágrimas de Pelé numa frase rápida entre a descrição do golo e a leitura do placar e que nunca mais voltou ao assunto. Pelé, ai que nunca explicou, que nunca disse publicamente por chorou naquela noite, que carregou aquele momento no mesmo lugar onde transportava tudo.

Dentro de si, em silêncio, trancado atrás do sorriso que o mundo inteiro conhecia e que nunca ninguém conseguiu abrir completamente. Passaram os anos e o Santos daquela época foi-se dissolvendo aos poucos, como todas as coisas feitas de tempo e de gente. Os jogadores foram saindo um a um, aposentando, envelhecendo, seguindo para outros clubes ou para a vida fora do futebol.

Coutinho deixou de jogar em 1970, Zito em 1967, Pep em 1969, Pelé ficou até 1974, mais tempo do que todos, transportando o peso dos Santos nas costas, enquanto o equipa à volta dele ia ficando menor e o mundo ia ficando maior. A aldeia Belmiro continuou ali na rua Princesa Isabel, com as mesmas bancadas de betão, as mesmas torres de reflectores, os mesmos corredores estreitos com paredes amareladas. Mas o balneário mudou.

As as toalhas passaram a ser dobradas por outras mãos. O café passou a ser preparado de outra forma. O cabide onde ficava a camisola número 10 continuou no mesmo lugar. Mas quem por ele passava de manhã já não era o mesmo homem que passava em 1964. Vadinho desapareceu da memória do clube, como desaparecem os homens que nunca foram registados.

Não há foto dele nos arquivos dos santos, não há qualquer menção ao o seu nome nas publicações oficiais. Não há placa, homenagem, sala. Nada que diga que existiu um homem chamado Osvaldo Perez de Araújo, que abriu a porta do balneário da vila Belmiro todas as manhãs durante 15 anos e que fez com que Pelé chorar em campo na única vez em que Pelé chorou em campo.

E viveu sozinha na casa do Macuco até 1978, a quando se mudou para a casa de uma irmã em Cubatão e nunca mais voltou a Santos. A Dona Celeste continuou a ir à missa na igreja de Valongo e continuou a rezar por Vadinho todas as quartas-feiras à tarde, porque era o tipo de mulher que rezava pelos que já tinham ido com a mesma constância com que rezava pelos que ainda estavam.

Pelé continuou a jogar, marcando golos, vivendo com o peso de ser o maior num país que amava os seus heróis, com a mesma intensidade com que esquecia os homens que cuidavam deles por trás. continuou a sorrir para câmaras, dando entrevistas, apertando mãos de presidentes e de crianças, transportando o Brasil às costas, sem reclamar, sem pedir descanso, sem pedir que alguém compreendesse o que era ser ele.

E durante todos estes anos, em algum canto silencioso da memória, a Pelé guardou a imagem de um homem de mãos grandes e costas largas, dobrando toalhas na penumbra de um balneário antes do amanhecer, com um avental cinzento que já não cabia no corpo e uma dignidade que não precisava de público. Hoje, quando ligamos a televisão e vemos o futebol em alta definição com 10 câmaras e replay imediato, quando vemos roupeiros de clubes modernos em salas equipadas com máquinas industriais e sistemas de logística que movimentam centenas

de fardas por semana, é fácil esquecer como era antes. É fácil esquecer que houve um tempo em que um homem sozinho lavava as camisas de um todo o tempo num tanque de cimento com as próprias mãos. É fácil esquecer que houve um tempo em que o café era coado num pano e servido em copo de botequim. É fácil esquecer que houve um tempo em que as pessoas mais importantes dentro de um balneário eram as que ninguém fotografava, ninguém entrevistava e ninguém homenagiava.

A história não termina com justiça, nem com alívio. Termina com um balneário vazio numa madrugada de Santos, com uma janela basculante que deixa entrar uma faixa de luz cinzenta, com o cheiro de linimento e café que já se dissipou e com a certeza silenciosa de que o golo mais importante que Pelé marcou em toda a a carreira não foi em nenhuma final de Mundial, não foi em nenhum estádio lotado da Europa, não foi contra qualquer adversário que a história decidiu lembrar.

Foi um golo empurrado com a sola do pé. Numa noite de Novembro, na aldeia Belmiro, perante um homem que estava moribundo e que dobrava toalhas como se o mundo não estivesse a acabar. Ah, porque era a única coisa que sabia fazer e a única coisa que ainda podia oferecer. E foi nesse golo, nesse instante que Pelé descobriu algo que nenhum título, nenhum recorde e nenhuma ovação tinham conseguido ensinar.

que a coisa mais difícil do mundo não é contornar três defesas e um guarda-redes, é olhar para alguém que ama e compreender que não pode guardá-lo e jogar na mesma. M.

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