Por Trás da Imagem de Mãe Exemplar: O Caso Cíntia Mariano e o Envenenamento que Destruiu uma Família
Durante anos, Cíntia Mariano Dias construiu uma reputação quase irrepreensível no bairro onde vivia, na Zona Oeste do Rio de Janeiro. Trabalhava com transporte escolar, estava diariamente cercada por crianças e também atuava como família acolhedora, recebendo temporariamente menores que precisavam de proteção, cuidados médicos ou de um lar provisório.
Para os vizinhos, pais de alunos e pessoas da comunidade, ela parecia representar dedicação, solidariedade e afeto. Mais de trinta crianças teriam passado pela sua casa ao longo dos anos. Algumas tinham problemas de saúde; outras enfrentavam situações familiares difíceis. Cíntia recebia doações de roupas, brinquedos e dinheiro de pessoas que confiavam no seu trabalho.
Essa imagem pública, porém, começaria a desmoronar em 2022, depois de dois jovens da mesma família apresentarem sintomas semelhantes em circunstâncias extremamente suspeitas. Uma deles não sobreviveu. O outro escapou por pouco e forneceu a informação que mudaria completamente o rumo da investigação.
No centro da história estavam Fernanda Carvalho Cabral, de 22 anos, o irmão Bruno, então com 16, o pai dos jovens, Adeílson Cabral, conhecido como Maninho, e a madrasta, Cíntia.
O que inicialmente foi registrado como uma morte por causas naturais acabaria tratado pelas autoridades como um possível homicídio por envenenamento.
Uma família reconstruída
Jane Carvalho Cabral e Adeílson tiveram dois filhos: Fernanda e Bruno. Depois do fim do casamento, os dois mantiveram contato por causa dos jovens, que continuaram próximos tanto da mãe quanto do pai.
Cíntia já conhecia a família havia anos. Quando Bruno tinha aproximadamente quatro anos, ela foi contratada para fazer o seu transporte escolar. O relacionamento com Jane e Adeílson era, naquele momento, exclusivamente profissional.
Com o passar do tempo, depois de Jane e Adeílson se separarem, Cíntia e ele se aproximaram e iniciaram um relacionamento amoroso. Segundo os relatos apresentados no caso, não houve envolvimento entre os dois antes do divórcio.
Cíntia também tinha dois filhos de uma relação anterior, Carla e Lucas. Depois do casamento com Adeílson, os filhos de ambos passaram a formar uma família recomposta. O casal ainda criou uma menina adotiva, cujo nome não foi divulgado por ser menor de idade.
Durante a infância, Fernanda e Bruno moravam principalmente com Jane, mas frequentavam a casa do pai. Mais tarde, Fernanda decidiu mudar-se definitivamente para a residência de Adeílson e Cíntia.
Foi nesse período que a jovem também passou a participar de forma mais ativa dos negócios do pai.
Adeílson trabalhava com venda itinerante de livros. Montava bancas em feiras, centros comerciais e eventos realizados em diferentes pontos da cidade. O trabalho exigia deslocamentos constantes, organização, transporte de caixas e montagem de estruturas.
Fernanda começou ajudando em pequenas tarefas. À medida que crescia, ganhou experiência e assumiu maiores responsabilidades. Depois de atingir a maioridade, já conseguia montar e administrar sozinha um ponto de venda, permitindo que pai e filha trabalhassem simultaneamente em locais diferentes.
Essa parceria fortaleceu ainda mais a relação entre os dois.
A proximidade entre pai e filha
Fernanda era descrita por familiares e amigos como uma jovem alegre, extrovertida e trabalhadora. Gostava de moda, frequentava a academia, organizava cuidadosamente a alimentação e preparava refeições separadas para manter a rotina de treino.
Também era muito ligada à mãe. Jane contou que as duas conversavam quase todos os dias, trocavam roupas, sapatos, bolsas e acessórios. Embora Fernanda morasse com o pai, a relação com Jane permanecia próxima.
Com Adeílson, a ligação era igualmente intensa.
No fim de um dia de trabalho, os dois costumavam deitar-se juntos para assistir televisão, conversar sobre a rotina e descansar. Fernanda chamava o pai carinhosamente de “Homem de Ferro”, uma referência ao esforço físico que ele fazia diariamente carregando livros e montando as bancas.
A relação parecia natural para pai e filha. Para Cíntia, entretanto, a proximidade teria se transformado progressivamente em motivo de desconforto.
Segundo os depoimentos reunidos na investigação, a madrasta demonstrava ciúmes da atenção que Adeílson dedicava a Fernanda. Também se incomodava com a crescente importância da jovem no trabalho da família.
Quando Fernanda administrava sozinha uma feira de livros, Adeílson permitia que ela ficasse com o resultado daquele ponto de venda. Cíntia não teria aprovado a decisão. Ela própria passou a tentar participar mais ativamente do negócio e, segundo os relatos, disputava com a enteada os locais considerados mais lucrativos.
Adeílson, porém, continuava priorizando a experiência e a competência da filha.
As divergências não se limitavam ao trabalho. Durante a construção da nova casa da família, o pai frequentemente consultava Fernanda sobre pisos, cores e outros detalhes. Quando a opinião da jovem prevalecia sobre a da esposa, novas discussões surgiam.
Para Adeílson, os conflitos aparentemente terminavam depois de cada reconciliação. Mais tarde, familiares diriam que o ressentimento de Cíntia talvez nunca tivesse realmente desaparecido.
A noite em que Fernanda passou mal
Em 15 de março de 2022, Fernanda cumpriu a rotina habitual. Trabalhou, foi à academia e voltou para casa no fim do dia.
Na residência, preparou um lanche com banana e granola. Depois, deitou-se com o pai para assistir televisão. Cíntia e a filha mais nova do casal também estavam no quarto.
Pouco tempo depois de comer, Fernanda começou a queixar-se de mal-estar. Inicialmente, a família acreditou que pudesse ser uma indisposição passageira ou uma queda de pressão. Ela tinha apenas 22 anos, praticava exercícios físicos, alimentava-se de forma controlada e não possuía histórico conhecido de doenças graves.
Em poucos minutos, entretanto, os sintomas se intensificaram.
Fernanda sentiu fortes dores abdominais e correu para a casa de banho. Ainda conseguiu enviar uma mensagem de áudio ao namorado, dizendo que estava muito mal e não compreendia o que estava acontecendo.
Como demorava a sair, a irmã mais nova ficou preocupada. Cíntia foi até ao local e encontrou a enteada suada, debilitada e caída. Segundo o relato da família, ela decidiu dar-lhe um banho antes de chamar Adeílson.
Quando o pai viu o estado da filha, entrou em desespero.
Fernanda estava extremamente pálida, quase inconsciente, salivava e apresentava rigidez corporal. A família envolveu-a em lençóis e colocou-a no banco traseiro do carro. Adeílson permaneceu ao lado da filha enquanto Cíntia conduzia até ao Hospital Municipal Albert Schweitzer, em Realengo.
Pouco depois de chegar à unidade, Fernanda sofreu uma paragem cardíaca. Os profissionais conseguiram reanimá-la, mas a jovem estava severamente desidratada e entrou em coma.
O maior problema era determinar o que havia provocado uma deterioração tão rápida.
Um diagnóstico que nunca chegou
Os médicos perguntaram se Fernanda havia consumido algum alimento, medicamento ou suplemento diferente. Como frequentava uma academia, foi levantada a possibilidade de utilização de substâncias para ganho de massa muscular.
Adeílson rejeitou essa hipótese. Segundo ele, a filha era disciplinada e não tinha o hábito de consumir produtos desconhecidos.
Cíntia, contudo, teria insinuado que Fernanda poderia ter ingerido alguma substância na academia. Ela não teria apresentado uma acusação direta, mas deixado a possibilidade em aberto diante da equipa médica.
O namorado da jovem posteriormente declarou que treinava com ela e nunca a vira utilizar anabolizantes ou produtos ilegais. Segundo ele, Fernanda seguia apenas uma dieta voltada ao aumento saudável de peso e massa muscular.
Jane acompanhou a internação com crescente angústia. Em determinado momento, chegou a perguntar aos profissionais se a filha poderia ter sido envenenada. A hipótese, de acordo com o seu relato, não avançou.
Fernanda apresentou comprometimento grave do sistema nervoso e uma lesão no fígado. Sem um diagnóstico conclusivo, os médicos concentraram-se em estabilizar o quadro e tratar as complicações.
Durante a internação, Cíntia comparecia diariamente ao hospital. Mesmo sem poder entrar na unidade de cuidados intensivos, permanecia próxima da família, consolava Adeílson e oferecia alimentos a Jane e Bruno.
Jane afirmou mais tarde que evitava aceitar a comida. Não sabia explicar exatamente o motivo, mas sentia uma desconfiança instintiva.
O quadro de Fernanda continuou agravando-se. Ela contraiu uma infeção hospitalar e ficou ainda mais debilitada.
Em 27 de março de 2022, depois de doze dias de internação, a jovem morreu.
Como os exames não haviam esclarecido a origem do problema inicial, o atestado de óbito apontou causas naturais associadas às complicações hospitalares.
A família sepultou Fernanda acreditando que havia perdido uma jovem saudável para uma doença repentina e inexplicável.
Dois meses depois, a história mudaria completamente.
O almoço preparado para Bruno
Em 15 de maio de 2022, exatamente dois meses depois de Fernanda passar mal, Bruno tinha participado de um importante simulado escolar.
Cíntia sugeriu que Adeílson convidasse o rapaz para almoçar na casa do casal. O adolescente aceitou. A madrasta preparou uma refeição de que ele gostava: arroz, feijão, bife e batatas fritas.
Várias pessoas estavam presentes, incluindo Adeílson, Cíntia, Carla, Lucas e a filha mais nova do casal.
A maior parte dos alimentos foi colocada sobre a mesa para que cada pessoa se servisse. O feijão, no entanto, permaneceu na cozinha.
Enquanto os demais montavam os próprios pratos, Bruno recebeu o seu já preparado por Cíntia.
Em determinado momento, Carla tentou tirar algumas batatas do prato do irmão. A mãe reagiu de forma ríspida e mandou-a não tocar na comida.
Ao começar a comer, Bruno percebeu que o feijão tinha um gosto amargo e estranho. Também notou pequenos grãos azulados, semelhantes a sementes, misturados ao alimento.
Quando comentou o problema, Cíntia demonstrou irritação. Pegou no prato, levou-o para a cozinha e retirou parte do feijão, substituindo-o pelo que estava na panela.
Bruno voltou a experimentar a refeição, mas o sabor desagradável permanecia.
A madrasta afirmou que provavelmente algum tempero industrializado não se havia dissolvido corretamente.
Ela levou o prato de volta à cozinha mais de uma vez. Numa dessas ocasiões, apagou a luz durante alguns segundos, comportamento que chamou a atenção das pessoas que estavam na sala.
Mesmo desconfiado, Bruno ainda tentou continuar a comer para não parecer indelicado. Afinal, acreditava que Cíntia havia preparado a refeição especialmente para ele.
O adolescente, porém, não conseguiu terminar.
Pouco depois, foi levado de volta à casa da mãe.
“O mesmo está acontecendo com ele”
Ao chegar, Bruno contou a Jane que havia comido um feijão amargo, com pequenos grãos azulados. Perguntou o que poderia fazer para provocar vómito.
A mãe ficou imediatamente preocupada.
Bruno foi para o quarto alegando cansaço. Minutos depois, começou a apresentar tonturas, náuseas, suor excessivo e fraqueza.
Jane reconheceu a semelhança com o que havia acontecido com Fernanda.
Telefonou para Adeílson, que chegou acompanhado de Cíntia. Ao vê-la, Jane perguntou diretamente o que ela havia feito com o filho.
Bruno foi levado ao mesmo hospital onde Fernanda ficara internada.
O adolescente chegou em estado crítico, com a saturação de oxigénio em níveis extremamente baixos. Os médicos conseguiram reverter o quadro e colocaram-no sob ventilação mecânica.
Desta vez, porém, havia uma pista concreta.
Jane relatou a história do feijão e insistiu na possibilidade de envenenamento. Durante a lavagem gástrica, os profissionais encontraram no conteúdo do estômago pequenos fragmentos azulados semelhantes aos descritos pelo rapaz.
Uma amostra foi encaminhada para análise.
Os exames indicaram a presença de uma substância conhecida popularmente como “chumbinho”, um produto clandestino frequentemente utilizado como raticida. A comercialização desse tipo de veneno é proibida, embora ele ainda seja encontrado ilegalmente em diferentes regiões do país.
Com a confirmação de que Bruno havia sido envenenado, a morte de Fernanda deixou de parecer um episódio isolado.
Os pais passaram a considerar a possibilidade de que os dois filhos tivessem sido vítimas da mesma pessoa.
A busca na residência
A polícia iniciou uma investigação e solicitou autorização para realizar buscas na casa de Adeílson e Cíntia.
Adeílson concordou imediatamente e acompanhou o trabalho dos agentes.
Na cozinha, os investigadores encontraram produtos tóxicos, incluindo uma embalagem escondida no interior do fogão. Restos de alimentos também foram recolhidos e enviados para perícia.
Diante do que havia sido descoberto, Adeílson deixou a residência. Pediu aos agentes que o afastassem de Cíntia porque já acreditava que a mulher poderia ser responsável pelo que acontecera aos seus filhos.
Segundo a investigação, Cíntia ingeriu uma pequena quantidade de veneno depois de perceber que estava sob suspeita.
Ela foi levada ao hospital, mas não apresentou o mesmo quadro grave de Fernanda e Bruno. Pouco tempo depois, deixou a unidade médica.
O episódio passou a ser interpretado de maneiras diferentes. A defesa poderia argumentar que ela atravessava uma crise emocional. Para os familiares, porém, tratava-se de uma tentativa de despertar compaixão ou desviar a atenção.
A confissão relatada pelos filhos
Depois de sair do hospital, Cíntia pediu ao filho Lucas que a levasse à casa de uma amiga. Ele recusou e conduziu-a até à residência da avó materna.
Ali, Lucas decidiu confrontar a mãe.
Segundo o depoimento prestado posteriormente, ele perguntou diretamente se Cíntia havia colocado veneno na comida de Bruno.
Ela teria admitido.
Quando questionada sobre Fernanda, inicialmente negou. Lucas continuou a conversar, dizendo que não a abandonaria e que precisava ouvir a verdade.
De acordo com o relato do filho, Cíntia acabou por admitir também o envolvimento na morte de Fernanda. Quando ele perguntou o motivo, ela teria respondido que amava Adeílson.
Lucas telefonou para a irmã Carla e pediu que conversasse com a mãe. Durante a chamada, Cíntia teria repetido a admissão.
No dia seguinte, os familiares entraram em contato com a polícia. Carla ainda quis falar pessoalmente com a mãe antes de os agentes chegarem.
Cíntia foi então conduzida à delegacia.
Segundo as autoridades, enquanto aguardava numa sala ao lado de Lucas, ela voltou a admitir o envolvimento. Na sala vizinha, investigadores teriam escutado a conversa.
Quando interrogada formalmente, no entanto, Cíntia recusou-se a assumir a responsabilidade e tentou atribuir os factos ao próprio Lucas.
A investigação concluiu que o filho não possuía qualquer relação com os envenenamentos. Para os familiares, a acusação contra ele teria sido uma retaliação por ter revelado as conversas à polícia.
Carla e Lucas acabaram testemunhando contra a mãe.
A exumação de Fernanda
Para comprovar que Fernanda também havia sido envenenada, a Justiça autorizou a exumação do corpo, realizada em 26 de maio de 2022.
A análise não conseguiu identificar de forma direta o veneno utilizado. Isso já era esperado, porque Fernanda permanecera hospitalizada durante quase duas semanas, recebera diversos medicamentos e passara por vários procedimentos. Além disso, determinados agentes tóxicos são eliminados rapidamente pelo organismo.
Apesar da dificuldade, a avaliação dos documentos médicos e dos exames indicou um quadro compatível com intoxicação exógena, expressão utilizada quando uma substância externa provoca danos ao organismo.
Para a acusação, os elementos médicos, a semelhança dos sintomas, as circunstâncias familiares e os depoimentos sustentavam a conclusão de que Fernanda não havia morrido por causas naturais.
Bruno, por sua vez, recuperou-se depois de aproximadamente uma semana de internação e recebeu alta sem sequelas graves.
A sua sobrevivência foi determinante.
Sem o relato sobre o gosto amargo, os grãos azulados e a forma como o prato havia sido servido, talvez a morte de Fernanda jamais tivesse sido reavaliada.
O possível motivo
A investigação considerou o ciúme como uma das principais motivações.
Cíntia teria ressentimento da relação próxima entre Fernanda e Adeílson. A jovem vivia na casa do casal, trabalhava com o pai, participava das decisões familiares e tinha cada vez mais autonomia no negócio dos livros.
Segundo a acusação, a madrasta desejava ocupar esse espaço.
Entretanto, familiares também levantaram a possibilidade de interesse financeiro. Fernanda e Bruno eram filhos de Adeílson e, portanto, seus herdeiros naturais. Caso ambos desaparecessem, a configuração patrimonial da família seria completamente alterada.
Essa hipótese, contudo, exige cautela. O interesse económico foi discutido como possível motivação, mas não pode ser tratado como facto definitivamente comprovado sem uma decisão judicial fundamentada.
O que a investigação sustentou foi que os conflitos envolviam ciúmes, controle, ressentimento e disputas familiares.
Comportamentos reinterpretados
Depois da prisão, parentes começaram a recordar episódios que, na época, pareciam insignificantes.
Quando Fernanda passou mal, por exemplo, Cíntia teria insistido em dar-lhe um banho antes de levá-la ao hospital. Para a acusação, esse intervalo poderia ter retardado o atendimento e permitido que a substância agisse durante mais tempo.
No hospital, ela mencionou a possibilidade de Fernanda usar produtos relacionados à academia. Essa insinuação foi interpretada como uma tentativa de transferir a responsabilidade para a própria vítima.
Durante a internação, também insistia em oferecer comida a Jane e Bruno.
No almoço do adolescente, não permitiu que Carla tocasse no prato, reagiu agressivamente às reclamações sobre o sabor, substituiu o feijão várias vezes e chegou a apagar a luz da cozinha enquanto manuseava a refeição.
O telemóvel de Cíntia também foi apreendido. Segundo a investigação, partes de conversas haviam sido apagadas. No histórico de pesquisas, teria sido encontrada uma consulta sobre como eliminar mensagens do WhatsApp.
Outro episódio provocou indignação em Jane.
Pouco depois da morte de Fernanda, Cíntia perguntou o que deveria fazer com os pertences da jovem. A mãe pediu que tudo permanecesse no quarto até que estivesse emocionalmente preparada para recolher as coisas.
Cerca de um mês depois, quando procurou a madrasta, Jane descobriu que roupas, objetos e recordações já haviam sido retirados. Segundo o seu relato, Cíntia desfez-se de praticamente tudo.
Outras suspeitas
Com a repercussão do caso, episódios antigos relacionados a Cíntia passaram a ser reexaminados.
É fundamental destacar que essas histórias foram apresentadas como suspeitas ou relatos de terceiros. Não devem ser consideradas crimes comprovados sem investigação conclusiva e julgamento.
Um dos casos envolvia um antigo enteado, que teria aproximadamente seis anos quando passou mal depois de receber um xarope dado por Cíntia. No hospital, segundo os relatos, teriam sido identificados vestígios de creolina no organismo da criança.
Na época, o pai não suspeitou de qualquer envolvimento da companheira.
Outro episódio dizia respeito à morte de um dentista de cerca de sessenta anos, com quem Cíntia manteve um relacionamento. A causa oficial teria sido um acidente vascular cerebral. Familiares, porém, passaram a questionar por que o homem fora levado a um hospital distante, apesar de existirem outras unidades no caminho.
Também foi mencionado um vizinho com doença terminal que morreu de problemas cardíacos. Cíntia teria alegado que ele lhe prometera um apartamento e entrou numa disputa judicial contra os familiares do falecido. Ela não obteve o imóvel.
Carla ainda relatou que, quando tinha aproximadamente doze anos, a mãe teria inventado um assalto e um falso rapto para exigir dinheiro do pai da menina. Como era criança, Carla teria sido orientada a esconder a verdade.
Esses episódios contribuíram para a construção de uma imagem de comportamento manipulador. Ainda assim, cada ocorrência necessita de análise individual, provas materiais e contraditório judicial.
O processo
Após o período inicial de prisão temporária, a detenção de Cíntia foi convertida em preventiva.
A defesa contestou diversos elementos do processo. Entre os pedidos apresentados estavam a anulação de provas relacionadas à exumação de Fernanda e a retirada da qualificadora de motivo torpe.
Também tentou sustentar que a morte da jovem poderia estar relacionada ao uso de anabolizantes ou substâncias consumidas na academia. Essa hipótese foi rejeitada pela acusação e contestada por familiares, pelo namorado e pelos hábitos conhecidos da vítima.
Em 15 de maio de 2023, foi realizada uma das audiências de instrução no Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro. A prisão preventiva foi mantida, e os recursos da defesa não conseguiram interromper o andamento do processo naquele momento.
Cíntia foi encaminhada para julgamento pelo Tribunal do Júri, onde jurados devem avaliar as provas, os depoimentos e os argumentos apresentados pelas duas partes.
Até uma sentença definitiva, ela deve ser tratada juridicamente como acusada, e não como culpada de forma irrevogável.
Uma morte que poderia ter permanecido sem resposta
O caso de Fernanda e Bruno expôs uma das maiores dificuldades em investigações de envenenamento: os sintomas podem ser confundidos com doenças, infeções, distúrbios neurológicos ou problemas gastrointestinais.
Fernanda chegou ao hospital com sinais intensos e uma deterioração extremamente rápida. Ainda assim, o envenenamento não foi confirmado durante a sua internação.
A certidão inicial atribuiu a morte a causas naturais e às complicações hospitalares.
Somente quando Bruno apresentou sintomas semelhantes, depois de uma refeição preparada na mesma casa, a hipótese começou a ser investigada de forma mais profunda.
A diferença foi a existência de uma pista física: os pequenos grãos azulados encontrados no alimento e, depois, no conteúdo estomacal do adolescente.
A sobrevivência de Bruno não salvou apenas a sua própria vida. Também permitiu que a morte da irmã fosse reaberta, que o corpo fosse exumado e que as circunstâncias familiares fossem examinadas novamente.
Para Jane e Adeílson, a revelação significou enfrentar duas dores simultâneas: a perda de Fernanda e a suspeita de que uma pessoa considerada parte da família pudesse ter sido responsável.
Para Carla e Lucas, significou depor contra a própria mãe.
A mulher conhecida por acolher crianças, transportar alunos e demonstrar dedicação à comunidade passou a ocupar o centro de uma investigação que revelou uma realidade completamente diferente daquela que os vizinhos acreditavam conhecer.
Por trás da reputação de cuidadora exemplar, segundo a acusação, existia uma disputa marcada por ciúme, controle e ressentimento.
A Justiça ainda precisaria determinar a responsabilidade penal e analisar cada prova dentro do devido processo legal. Mas uma conclusão já parecia impossível de ignorar: se Bruno não tivesse percebido o sabor estranho daquele feijão e sobrevivido para contar o que viu, a morte de Fernanda talvez continuasse registrada apenas como mais uma tragédia médica sem explicação.