Ninguém dentro daquele estúdio de televisão em Roma sabia o que ia acontecer nos 3 minutos seguintes. Nem o apresentador que tinha ensaiado as perguntas durante quatro dias, nem o produtor que fumava atrás da câmara 3 com as mãos a tremer. Nem os dois operadores de câmara que ajustavam o enquadramento pela quinta vez em menos de um minuto.
Só duas pessoas naquele estúdio sabiam exatamente o peso daquele momento e as duas estavam sentadas a menos de 2 m uma da outra, separadas por uma mesa de centro com um copo de água que ninguém ia tocar. De um lado, Edson Arantes do Nascimento, 64 anos, fato escuro, sapatos italianos, sorriso diplomático que já tinha desarmado presidentes, ditadores e a imprensa de quatro continentes.
Do outro lado, Diego Armando Maradona, 44 anos, camisola aberta, corrente de ouro ao pescoço, olheiras fundas e um olhar que não pedia licença para entrar em qualquer lugar. O que aconteceu nos três minutos seguintes foi tão carregado de tensão que o apresentador fez um sinal com a mão para o produtor. O produtor olhou para o diretor, o diretor olhou para o chão e alguém, alguém que nunca foi identificado publicamente pediu para cortar. Não cortaram.
E o que saiu dali mudou para sempre. A forma como o mundo entendeu a rivalidade mais pesada, mais silenciosa e mais mal contada história do futebol. Antes de continuar, deixa-me pedir-te uma coisa rápida. Se gosta deste tipo de história que ninguém contou direito, subscreve já o canal. Ajuda mais do que parece. Um like e um comentário dizem ao algoritmo que este vídeo importa e é isso que mantém este tipo de conteúdo vivo.
Agora volta comigo. A partir daqui, Moná, a história avança lentamente, porque o que aconteceu naquele estúdio não começou naquela noite. começou muitos anos antes em diferentes locais, com pessoas que nunca imaginaram que estavam a construir o caminho que levaria dois homens a se sentarem frente à frente, debaixo de luzes de estúdio, com o mundo inteiro, esperando que um destruísse o outro.
Quantas vezes dois homens se podem admirar e ressentir-se ao mesmo tempo, sem que ninguém à volta se aperceba em que momento uma rivalidade deixa de ser sobre futebol e passa a ser sobre identidade, sobre país, sobre o que cada um carregou às costas sem ter pedido. O que acontece quando dois reis se encontram num espaço demasiado pequeno para dois tronos? Estamos em meados dos anos 2000.
A televisão italiana tinha ainda o poder de criar eventos que paravam continentes. A não havia YouTube com 30 câmaras amadoras, não havia Twitter para transformar cada segundo numa manchete antes de o programa terminar. O que se passava num estúdio de TV ficava nas mãos do editor, do produtor e do emissora. E o que não convinha desaparecia. Essa história quase desapareceu.
A produção do programa italiano levou s meses para conseguir que os dois aceitassem estar no mesmo estúdio, no mesmo dia, à mesma hora, s meses. Não porque havia problemas de agenda. Agenda era o que menos faltava para dois homens que já não jogavam futebol. O problema era outro. O problema era que aceitar significava reconhecer que o outro existia no mesmo patamar e nenhum dos dois estava disposto a dar esse passo sem saber antes o que o outro tinha decidido.
O primeiro contacto foi feito por telefone em março. Um produtor executivo chamado Jeancarlo Ferrete, napolitano de nascimento, homem magro, de bigode fino e uma rara capacidade de convencer pessoas que não queriam ser convencidas. telefonou para o escritório de Pelé em São Paulo numa terça-feira de manhã.
A secretária atendeu, anotou o recado e disse que o Senhor Nascimento regressaria no prazo de cinco dias úteis. Pelé regressou em 48 horas, não porque tivesse pressa, porque Pelé nunca deixava ninguém esperando mais do que o necessário. Era uma regra que tinha aprendido com a dona Celeste lá em Bauru e que manteve a vida inteira, [pigarreia] mesmo quando o mundo inteiro esperava por ele e não o contrário.
A conversa durou 17 minutos. Ferretou o formato do programa. Um encontro inédito, duas lendas, uma conversa aberta, sem guião fixo, sem perguntas previamente aprovadas, a sem censura. Pelé ouviu tudo em silêncio, fez duas perguntas. A primeira foi sobre quem seria o apresentador. Ferret deu o nome, Pelé conhecia.
Tinha feito um programa com ele em 1996 e gostado do tom. A segunda questão foi a que importava. Pelé perguntou com a voz calma de sempre: “Quem mais estaria em palco?” Ferrete hesitou, não porque não soubesse a resposta, mas porque sabia que a resposta mudava tudo. Disse o nome de Maradona. Pelé ficou em silêncio durante 4 segundos.
Depois disse que aceitava com uma condição que Ferret nunca revelou publicamente, mas que as pessoas próximas da produção descreveram como algo relacionado com a ordem das perguntas. Pelé queria saber se as perguntas seriam iguais para os dois. Ferret disse que sim. Pelé aceitou. O contacto com Maradona foi diferente. Ferret não tinha o número pessoal de Maradona.
Ninguém tinha o número pessoal de Maradona. a não ser que Maradona quisesse que tivesse. O primeiro contacto foi feito através de um intermediário em Buenos Aires, um empresário do ramo desportivo que tinha trabalhou com Maradona em campanhas publicitárias na Argentina e que mantinha uma relação baseada menos na contratos e mais na lealdade pessoal.
Esse intermediário levou o convite a Maradona numa tarde de Abril, num restaurante de puerto Madeiro, onde Maradona costumava almoçar às quartas-feiras. Maradona ouviu, não disse que sim, não disse não. Pediu mais uma garrafa de vinho e mudou de assunto. Três semanas se passaram.
Ferret ligava de três em três dias para o intermediário. O intermediário dizia sempre a mesma coisa. Diego ainda não respondeu. Na quarta semana, o telefone de Ferrete tocou às 2as da manhã, hora de Roma. Era Maradona. A voz era rouca, direta, sem cumprimentos. Disse quatro palavras. Ele aceitou primeiro. Ferret confirmou que sim. Pelé já tinha aceitado.
Maradona ficou em silêncio durante um instante. Depois disse que estaria lá e desligou. Não perguntou sobre o formato, sobre perguntas, sobre condições. Não pediu nada. Só precisava de saber que Pelé tinha dito que sim antes dele. Precisava de saber que não era ele quem estava a correr atrás do encontro, que não era ele quem procurava a validação, que se alguém tinha aceite primeiro a ideia de partilhar um palco, esse alguém era o outro.
Os meses seguintes foram de logística e de nervos. A produção montou uma equipa de 16 pessoas dedicadas exclusivamente à garantir que nenhum dos dois desistia. Cada semana alguém ligava para o escritório de Pelé para confirmar datas, voos, alojamento. Cada semana alguém tentava falar com Maradona para o mesmo efeito, mas as respostas de Maradona vinham sempre pelo intermediário, sempre vagas, sempre no limite do compromisso, sem nunca o cruzar totalmente.
Em agosto, houve um momento em que Ferrete achou que Maradona tinha desistido. Esteve cinco dias sem resposta. Na sexta manhã, chegou um fax ao escritório da produção em Roma. Estava escrito à mão com a letra irregular de Maradona. Dizia apenas: “Estou dentro. Parem de ligar”. Pelé chegou a Roma dois dias antes da gravação num voo directo de São Paulo que aterrou em Filmeino ao meio-dia de uma terça-feira.
Viajou em primeira classe, como sempre, com dois assessores e um tradutor de italiano que trabalhava com ele desde os anos 90. No aeroporto, um carro da produção esperava para o levar ao hotel. Não era um hotel qualquer, era um palácio convertido em boutique hotel, no centro histórico de Roma, perto da Piatzana Navona, que Pelé conhecia dos tempos em que o Santos fazia excursões pela Europa nos anos 60.
Nessa altura, claro, o Santos não ficava em palazos, ficava em pensões baratas, com colchões finos e casas de banho partilhados. E Pelé partilhava quarto com Coutinho ou com Zito e dormiam com as janelas abertas porque não havia ar condicionado. Mas Pelé gostava daquela zona de Roma. Gostava das ruas de pedra, do barulho das fontes, do cheiro a café que saía das portas abertas dos bares de manhã cedo.
Disse uma vez a um jornalista brasileiro que Roma era a única cidade europeia onde se sentia quase em casa. No quarto de hotel, depois de desfazer as malas e pedir um café com leite ao serviço de quarto, Pelé sentou-se na cama e abriu uma pasta de couro castanho que o seu assessor principal tinha preparado nas semanas anteriores.
No interior havia recortes de jornal e revistas organizados por data, cobrindo um período de quase 15 anos. Eram todas as declarações públicas que Diego Armando Maradona tinha feito sobre Edson Arantes do Nascimento entre 1980 e 9 e 2004. Havia de tudo naquela pasta. Havia entrevistas em que Maradona chamava Pelé de museu.
Havia conferências de imprensa em que Maradona dizia que Pelé tinha sido fabricado pela FIFA e pela imprensa europeia. Havia programas de televisão argentinos em que Maradona imitava o maneira de Pelé andar e o público ria. Havia declarações em que Maradona dizia que no dia em que Pelé fosse para um bar a sério em Buenos Aires ou Npolis compreenderia o que era o futebol de verdade.
E houve uma entrevista de 2001 em que Maradona, questionado sobre quem foi o maior jogador de todos os tempos, respondeu sem pestanejar: “Eu!” E depois acrescentou: “E quem disser o contrário, nunca jogou na chuva de Nápolis com o máfia inteira a querer matar-te.” Pelé leu cada recorte, um a um, com os óculos de leitura na ponta do nariz, as costas apoiadas nas almofadas do hotel, o café a arrefecer na mesinha de cabeceira.
Não sublinhava, não comentava, não tirava notas, só lia. O assessor, que estava sentado numa cadeirão do outro lado do quarto a trabalhar no portátil, olhava de vez em quando para Pelé, tentando decifrar alguma reação. Não encontrou nenhuma. Pelé lia com a mesma expressão com que lia menus de restaurante ou horários de voo.
Quando terminou, fechou a pasta, colocou-a na mesa ao lado da cama e disse apenas uma frase. disse que já sabia tudo aquilo, que não precisava dos recortes, que se lembrava de cada declaração, de cada entrevista, de cada provocação, que se recordava das datas e dos programas, que não tinha esquecido nada e que nunca tinha respondido publicamente porque a dona Celeste tinha ensinou-lhe que cão grande não ladra para cão pequeno.
Depois tirou os óculos, desligou o candeeiro dormiu. O assessor ficou às escuras durante um momento, ouvindo a respiração de Pelé a acalmar, e pensou que talvez aquela fosse a coisa mais assustadora que já tinha presenciado. Um homem que guardava cada ofensa recebida durante 15 anos em silêncio absoluto, sem nunca ter demonstrado que doía.
Maradona chegou a Roma na véspera da gravação num voo comercial de Buenos Aires com escala em Madrid. A produção tinha oferecido um voo fretado. A Maradona recusou. Não explicou porquê. Talvez porque não quisesse dever favores. Talvez porque não quisesse chegar com a pompa que Pelé chegava. Talvez porque Maradona nunca fez nada do forma que esperavam que fizesse.
E essa era a essência inteira do homem. No aeroporto de Filmecino não havia carro da produção à espera. Maradona tinha pedido que não mandassem ninguém. apanhou um táxi, mas não foi para o hotel que a produção tinha reservado. Um elegante quatro estrelas na via veneto com vista para os jardins do Borguese. Foi para casa de um amigo nos arredores de Roma, na zona da Hóstia, um bairro que não aparecia nos roteiros turísticos e que cheirava a mar, a óleo de motor e a peixe frito.
O amigo se chamava-se Salvatore Ferrara e tinha sido massagista do Nápoles na época de 1980 e 6 a 87 a época do primeiro escudeto. Na época em que Maradona transformou uma cidade inteira numa nação à parte dentro da Itália. Salvatori vivia num apartamento pequeno, no segundo andar de um prédio sem elevador, com uma varanda estreita, onde secava roupa e fumava cigarros olhando para o estacionamento.
Na parede da sala, entre uma estante com livros velhos e uma televisão de tubo, havia uma camisola azul do Napoli emoldurada com o número 10 nas costas e a assinatura de Maradona com caneta prateada. Salvatore nunca tinha vendido aquela camisola. recebeu ofertas, muitas, algumas de cobradores que pagavam o equivalente a 2 anos do seu salário de reformado.
Nunca vendeu. Dizia que aquela camisa era a única coisa na vida dele que valia mais parada na parede do que num cofre de banco. Maradona chegou por volta das 8 da noite, abraçou o Salvatore à porta. Um abraço longo daqueles que homens da geração deles só davam quando sabiam que o outro tinha sofrido.
Salvatore tinha sofreu uma cirurgia à anca em 2002, a morte da esposa em 2003. Uma solidão que não aparecia na cara, mas que Maradona reconhecia porque conhecia solidão por dentro. Jantaram na cozinha. Massa com molho de tomate feito na hora com manjericão fresco e queijo ralado. Vinho tinto da região, sem rótulo especial, servido em copos de vidro grosso.
Maradona comeu devagar. Não era o Maradona das festas, o Maradona das conferências de imprensa gritando, o Maradona que jogava às cadeiras. Era outro Maradona, o que só aparecia quando se sentia-se seguro, o que ficava em silêncio, olhando para o prato com a expressão de um homem que está a refazer mentalmente todos os caminhos que o trouxeram até ali. A Salvatore tentou meter conversa.
Falou do atual Nápoles, falou do campeonato italiano, falou de um sobrinho que jogava na série C e que tinha talento, mas não tinha cabeça. Maradona ouvia, sentia-a com a cabeça, mas não entrava na conversa. Pegou no copo de vinho, rodou o líquido, bebeu um gole, depois outro, depois outro. Não estava a beber para esquecer.
Estava bebendo ao ritmo de quem está organizando pensamentos que não cabem em palavras. Perto da meia-noite, com a garrafa quase vazia e os pratos já lavados por Salvatore, Maradona falou pela primeira vez desde que tinha chegado. Não olhou para Salvator e quando disse, olhou para a camisa para atrar camisa na parede, para o número 10 desbotado, para a assinatura que ele mesmo tinha feito quase 20 anos antes.
Disse que amanhã ia olhar nos olhos dele. Salvator não perguntou de quem é que ele estava a falar. A não precisava. Todo mundo sabia de quem Maradona falava quando dizia ele daquela maneira, com aquela ênfase, com aquele peso. Só havia um ele no vocabulário emocional de Diego Armando Maradona.
E esse ele estava dormindo a 30 km dali, num palazio do centro de Roma, com uma pasta de recortes na mesa de cabeceira e 15 anos de silêncio guardados atrás do sorriso mais famoso do planeta. Maradona dormiu no sofá da sala. Salvatore ofereceu a cama. Maradona recusou. disse que no sofá estava bom, que já tinha dormido em lugares piores.
Salvatore deixou um manta dobrada no braço do sofá e apagou a luz. Antes de fechar a porta do quarto, olhou para trás. Maradona já estava deitado, com os braços cruzados atrás da cabeça, olhando para o teto no escuro. Salvatore pensou em dizer alguma coisa, não disse. E fechou a porta e foi dormir com a sensação incómoda de que algo ia acontecer no dia seguinte que ninguém ali conseguia prever.
O estúdio ficava num edifício nos arredores de Roma, na zona industrial de Sincitá, perto dos estúdios de cinema, onde Feline tinha filmado laevita 40 anos antes. Não era um edifício bonito, era funcional. Paredes de betão, corredores estreitos com piso de linóleo gasto, portas de metal que rangiam, um cheiro permanente a café queimado misturado com tinta fresca e poeira de cenário.
As paredes dos corredores tinham manchas de humidade e cartazes de programas antigos que ninguém se tinha dado ao trabalho de tirar. Num canto, perto da entrada dos bastidores, existia um bebedouro com um copo de plástico amassado no chão ao lado. O ar condicionado fazia um barulho contínuo que as pessoas deixavam de ouvir passados 10 minutos, mas que ficava gravado no fundo de todas as fitas daquele estúdio, como um zumbido grave e constante. Pelé chegou primeiro.
Eram 4 da tarde. O carro da produção parou no entrada lateral, longe das câmaras externas, longe de qualquer possibilidade de flagrante delito. Pelé desceu do carro com o fato escuro já impecável, os sapatos italianos reluzindo mesmo no parque de estacionamento de betão bruto. Vinha acompanhado dos dois assessores e do tradutor.
Um segurança particular, discreto de fato cinzento, ficou ao lado do carro. A primeira coisa que Pelé fez ao entrar no edifício foi cumprimentar os técnicos, não os produtores, não os realizadores, os técnicos. O homem que arrumava os cabos no chão, o rapaz que posicionava as luzes, a rapariga que organizava os microfones de lapela numa bandeja de metal.
Pelé apertou a mão a cada um, perguntou o nome, repetiu o nome em voz alta, como se estivesse a gravar na memória. Era um hábito antigo. Quem conviveu com Pelé nos tempos dos santos sabia que ele fazia isso desde os 18 anos. Valdemar de Brito, o homem que o levou aos santos, tinha-lhe dito uma vez que o segredo de durar não era ser o melhor, era ser recordado pelas pessoas que ninguém se lembra.
Pelé nunca esqueceu essa frase. Cumprimentava os motoristas, empregados de mesa, porteiros, faxineiros, seguranças, sempre com o mesmo aperto de mão firme e o mesmo sorriso aberto. Não era estratégia, não era cálculo, era Pelé. Era o menino de Bauru que nunca deixou completamente de ser o menino de Bauru.
Por mais que o mundo à tentasse convencê-lo de que era outra coisa. Tapelé foi para o camarim. Era uma divisão pequena, com um espelho rodeado de candeeiros, uma cadeira de maquilhagem, um sofá curto e uma mesa com garrafas de água e um prato de bolachas que ninguém comeu. Sentou-se na cadeira, deixou que a maquilhadora fizesse o trabalho dela e ficou a olhar para o próprio reflexo no espelho sem expressão particular.
Os assessores conversavam entre si em voz baixa. O tradutor revia anotações. Pelé assobiava uma música. baixinho, quase inaudível. Uma bossa nova antiga que ninguém ali reconheceu, mas que repetia em loop, como se estivesse a usar a melodia para calibrar um relógio interno que só ele entendia. Maradona chegou 40 minutos depois, às 4h40, sozinho, sem assessor, sem empresário, sem segurança, sem ninguém.
Entrou pela mesma porta lateral, ali com óculos escuros que não tirou ao entrar no edifício. Vestia uma camisa preta aberta nos primeiros botões, calças de ganga, sapatos escuros sem meias. A corrente de ouro ao pescoço balançava a cada passo. Não cumprimentou ninguém. Não olhou para os técnicos, não perguntou nomes.
Caminhou direito pelo corredor com passadas rápidas, curtas, como se tivesse medo de perder a coragem. se andasse demasiado devagar. Um assistente de produção tentou abordá-lo para indicar o camarim. Maradona acenou com a cabeça sem parar de andar. Já sabia onde era. Tinha perguntado ao intermédio em Buenos Aires a fábrica do estúdio uma semana antes.
Sabia onde ficava o seu camarim, onde ficava o camarim de Pelé, qual era a distância entre os dois? por que porta cada um entraria em palco. Tinha estudado o terreno como um jogador estuda o campo antes de uma final. O camarim de Maradona ficava ao lado do de Pelé, separados por uma parede de gesso cartonado fino que não isolava quase nada.
Um elemento da equipa técnica, um rapaz de 20 e poucos anos que trabalhava posicionando microfones, estava no corredor quando os dois já estavam nos respectivos camarins. ouviu do lado de Pelé o suave assobio da bossa nova e ouviu do lado de Maradona um som diferente, uma batida arritmada, um pé contra o chão, constante, repetitiva, como um metrónomo, como alguém a contar segundos até uma detonação.
O rapaz contou depois que ficou parado no corredor durante quase um minuto, ouvindo os dois sons ao mesmo tempo, o assubiu e a batida, e que sentiu algo que não sabia explicar. Uma pressão no ar, uma densidade, como se as duas paredes do corredor estivessem a aproximar-se devagar. Às 18 horas, a gravação começou.
A, o estúdio principal era uma sala retangular com cenário montado, duas poltronas de couro castanho-escuro, uma mesa de centro baixa com um copo de água e um arranjo discreto, fundo escuro com iluminação focada nos rostos. Três câmaras, uma frontal, uma para cada convidado. Além da equipa técnica, existia uma plateia restrita de aproximadamente 30 pessoas, convidados da produção, jornalistas selecionados, alguns rostos conhecidos da televisão italiana.
Todos sabiam o que iam presenciar. Nenhum sabia como ia ser. Pelé entrou pela porta da esquerda. A plateia aplaudiu de pé. Pelé acenou com a mão direita, abriu o sorriso que o mundo inteiro reconhecia e caminhou até à poltrona com a naturalidade de quem já se tinha sentado em milhares de assentos iguais àquele em programas de televisão de todos os continentes.
entou-se, cruzou a perna, ajeitou-a a gravata, olhou para si a câmara frontal com a serenidade de um homem que sabia exatamente quem era e que nunca tinha precisado que ninguém lhe confirmasse isso. 30 segundos depois, Maradona entrou pela porta da direita. O aplauso foi diferente, não foi menos intenso, foi diferente na textura, mais grave, mais cauteloso, como se as pessoas que estavam a bater palmas soubessem que estavam a aplaudir algo que podia virar qualquer coisa a qualquer momento.
Maradona não acenou, não sorriu, caminhou diretamente até à poltrona com passos curtos e decididos, os óculos escuros finalmente tirados e pendurados no bolso da camisa. sentou-se, não cruzou as pernas, plantou os dois pés no chão, afastados, como se estivesse a preparar-se para levantar a qualquer segundo.
Olhou em frente, depois virou a cabeça para o da esquerda e olhou para Pelé. Pelé olhou de volta. Pela primeira vez na vida, os dois estavam a menos de 2 m de distância um do outro, sem intermediários, sem campo de jogo, sem bola, sem adeptos, sem árbitro, sem câmara de transmissão ao vivo, sem nada entre eles, para além de uma mesa de centro com um copo de água que ninguém ia tocar.
O olhar durou 3 segundos, talvez quatro, mas todos os que estavam ali disseram depois que pareceu mais tempo. Pareceu-me o tipo de olhar que dois generais trocam antes de uma batalha que ambos sabem que vai custar caro para ambos os lados. O apresentador começou a falar, deu as boas-vindas, apresentou os convidados, fez a introdução que a produção tinha preparado, mas nenhum dos dois estava olhando para ele.
Pelé olhava para o câmara. Maradona olhava para Pelé e o apresentador percebeu há nos primeiros 10 segundos que o guião que tinha ensaiado durante quatro dias não ia servir para nada. A primeira questão foi para Pelé. Era uma pergunta suave, pensada para aquecer, para abrir espaço, para deixar o convidado confortável. O apresentador perguntou o que o futebol significava na vida de Pelé.
Era o tipo de pergunta que Pelé tinha respondido 5000 vezes. E ele respondeu como respondia sempre, com elegância, com palavras medidas. Referiu o Santos, mencionou o Brasil, mencionou a infância em Bauru, o campo de terra, o pai que jogava, a mãe que rezava, a bola de meia que era mais desejo do que objeto. Foi uma resposta limpa, bonita, verdadeira e completamente previsível.
Maradona viu-o sem se mexer, sem pestanejar, sem tirar os olhos de Pelé. Quando Pelé terminou, Maradona fez um movimento quase imperceptível com o canto da boca. Não era um sorriso, não era desdém, era reconhecimento. O reconhecimento de quem sabe que o adversário acabou de jogar uma carta segura e que agora é a vez dele de jogar.
Então o apresentador virou-se a Maradona e fez uma pergunta diferente. Não era suave, não era protocolar, não era para aquecer. Era a questão que a produção tinha decidido nas reuniões fechadas das semanas anteriores, utilizar como detonador. A pergunta que Ferret tinha aprovado pessoalmente, sabendo que era arriscada, sabendo que podia rebentar na cara de todos, mas sabendo também que sem ela o programa seria apenas mais uma entrevista educada entre dois ex-jogadores que saíam de Roma no dia seguinte, sem que nada tivesse mudado.
O apresentador perguntou a Maradona em italiano pausado, mas se achava que a rivalidade entre ele e Pelé existia de verdade ou se era uma construção da imprensa. E acrescentou antes que Maradona pudesse responder, uma segunda parte que não estava no guião aprovado. Perguntou se Maradona achava que Pelé tinha medo de ser comparado com ele.
A palavra medo ficou no ar do estúdio como uma faísca que ainda não encontrou o combustível. O produtor atrás da câmara 3, que tinha acendido mais um cigarro 30 segundos antes, deixou cair o cigarro no chão e apagou-se com a sola do sapato, sem tirar os olhos do monitor. Sabia o que tinha acabado de acontecer.
sabia que aquela questão não era jornalismo, era uma granada de mão puxada ao vivo dentro de um espaço fechado com 40 pessoas. Maradona não respondeu de imediato, olhou para o apresentador, não com raiva, com surpresa. Uma surpresa que durou menos de um segundo e que foi substituída por algo mais frio, mais calculado.
Depois olhou para Pelé. Pelé estava imóvel, as mãos cruzadas no colo, o sorriso diplomático ainda no rosto, mas algo por detrás dos olhos tinha mudado. Depois, Maradona olhou para o chão. Foram 11 segundos de silêncio absoluto. 11 segundos num estúdio com mais de 40 pessoas, três câmaras a rodar, luzes acesas, microfones captando cada respiração, cada ranger de poltrona, cada batida de coração que reverberava pelo lapela.
11 segundos que na televisão parecem uma eternidade. Na televisão, 3 segundos de silêncio já são desconfort, cinco são crise, 11 são território desconhecido. São o tipo de silêncio que faz produtores procurarem botões de emergência e os apresentadores reformularem perguntas por puro instinto de sobrevivência profissional.
O apresentador abriu a boca, ia reformular, ia suavizar, ia oferecer uma saída. Maradona levantou a mão esquerda lentamente, sem olhar para o apresentador. A palma aberta, os dedos relaxados, o gesto universal de quem está a dizer: “Não me interrompas”. O apresentador fechou a boca. O estúdio inteiro prendeu a respiração.
Maradona começou a falar. Não olhou para o apresentador, olhou diretamente para Pelé. E o que disse não estava em nenhum guião, em nenhuma preparação, em nenhuma estratégia pensada nas semanas anteriores. O que disse saiu de um lugar que Maradona raramente mostrava em público, o lugar da honestidade sem armadura.
Há da verdade que não serve para ganhar debates, mas que serve para resolver coisas que ficaram abertas durante demasiado tempo. Maradona disse, olhando para Pelé, que a rivalidade era real, que não era invenção da imprensa, que a imprensa tinha usado, tinha exagerado, tinha lucrado, mas que no fundo, no fundo de verdade, a rivalidade existia, porque os dois sabiam que ocupavam o mesmo lugar na história e que este lugar era pequeno demais para dois.
disse que durante anos teve raiva de Pelé, não do jogador, do símbolo, da perfeição que Pelé representava e que ele, Maradona, nunca conseguiu nem quis representar. disse que Pelé era o futebol que as federações queriam mostrar ao mundo, bonito, educado, sorridente, sem mácula, e que ele, Maradona, era o futebol que existia de verdade, sujo, dorido, injusto, a com chuteiras nos tornozelos e cocaína nos sanitários e dirigentes que te abraçam à frente e vendem-te por trás.
disse que sabia que Pelé tinha sofrido, que sabia que aquele sorriso escondia coisas que ninguém viu, que sabia que ser Pelé não era mais fácil do que ser Maradona, era apenas um tipo diferente de prisão. Disse que nunca tinha dito isso em público, que talvez nunca mais fosse dizer, mas que naquele momento, com Pelé sentado ali à frente, tão perto que se podia sentir o perfume do palitó, precisava de dizer.
E então disse a última coisa, a frase que fez o apresentador levantar a mão debaixo da mesa. Maradona disse que o futebol não tinha sido justo com nenhum dos dois, que o futebol tinha dado tudo e tinha tirado tudo e e que a única pessoa no mundo que podia compreender o que era ser Maradona era o homem sentado a 2 m dele.
Porque o único peso comparável ao de ser Maradona era o de ser Pelé. O estúdio voltou a ficar em silêncio, mas era um silêncio diferente do anterior. O primeiro silêncio era tensão. Esse era algo mais pesado. Era o som de 40 pessoas percebendo ao mesmo tempo que estavam a assistir a algo que não ia se repetir. Pelé não sorriu.
Isso foi o que ninguém esperava. O sorriso diplomático, a frase elegante, o desvio educado, a arte milenar de Pelé, de transformar qualquer situação incómoda numa sequência de palavras bonitas que não diziam nada e que deixavam toda a gente satisfeito. Era isso que o mundo esperava, era isso que o apresentador esperava, era isso que a produção inteira tinha apostado que ia acontecer.
Pelé ia sorrir e ia dizer algo generoso sobre Maradona. Ia chamar-lhe grande jogador, ia encerrar o assunto com classe e o programa seguiria para a próxima questão. Mas Pelé não sorriu, não se desviou, não utilizou o repertório diplomático de 40 anos, inclinou o corpo para a frente, apoiou os cotovelos nos joelhos, as mãos juntas, os dedos entrelaçados e olhou para Maradona com uma expressão que os técnicos de som, que monitorizavam os níveis de áudio nos auscultadores, disseram depois que nunca tinham visto no rosto de nenhum
entrevistado. Não era raiva, não era frieza, era algo que se situava entre o respeito ferido e a paciência gasta de quem carregou um peso que ninguém pediu para carregar durante 40 anos e que finalmente se encontra perante a única pessoa que pode entender o formato exato desse peso. Pelé começou a falar.
A voz era diferente, a mais baixa, mais lenta, sem a musicalidade habitual que Pelé colocava em tudo o que dizia em público. Era uma voz crua, quase privada. O tipo de voz que Pelé usava quando falava com Zito nos balneários da Vila Belmiro depois de um jogo difícil, ou quando ligava para a dona Celeste a altas horas da noite desde um hotel em algum lugar do mundo que ele já não lembrava-se do nome.
Pelé disse que nunca tinha tido medo de ser comparado com ninguém, que a comparação era um problema dos outros, não dele, que ele sabia quem era antes de o mundo decidir quem deveria ser, que sabia quem era quando jogava pelada em Bauru com uma bola de meia aos 7 anos, que sabia quem era quando marcou dois golos na final da Copa de 1958 aos 17 anos, que sabia quem era quando o Santos viajava.
pelo mundo em aviões que tremiam e hotéis que cheiravam a mofo. É que sabia quem era quando a Europa inteira duvidou dele em 1966 e quando calou toda a Europa em 1970, que nunca precisou que ninguém validasse isso, nem a imprensa, nem a FIFA, nem Maradona. Mas, de seguida, Pelé fez uma pausa, uma pausa curta, e acrescentou algo que mudou o tom de tudo.
Disse que compreendia Maradona, que sempre tinha compreendido, que sabia o que era carregar um país nas costas e sentir que o país só te ama quando ganhas e te esqueces quando precisa. Disse que sabia o que era sorrir para as câmaras quando por dentro estava despedaçado. Disse que a diferença entre eles dois não era talento, não era títulos.
Não era golos. A diferença era que ele e Pelé tinha escolhido carregar o peso em silêncio e Maradona tinha escolhido gritar e que nenhuma das duas escolhas estava errada e que nenhuma das duas tinha funcionado de verdade. Disse que os dois tinham perdido coisas que não regressam: o tempo, a paz, a confiança, a capacidade de saber quem é amigo de verdade e quem está ali pelo reflexo da fama.
disse que os dois tinham ganho tudo o que o futebol podia dar e que os dois tinham pago um preço que ninguém que não esteve no lugar deles podia calcular. E terminou dizendo que não tinha medo de Maradona, nunca teve, mas que tinha respeito. Um respeito que não era de palavras. Porquê palavras? Disse Pelé, olhando diretamente nos olhos de Maradona. Palavras qualquer um fala.
Respeito de verdade é o que fica quando as câmaras desligam. E ninguém está olhando. O apresentador, neste ponto, fez o sinal. A mão direita, abaixo da linha da mesa, um gesto rápido e discreto que significava uma só coisa. Corta, vai para o intervalo, tira o ar daqui antes que alguém diga algo que não tem volta.
O produtor atrás da câmara três viu o sinal, olhou para o monitor. No monitor, o rosto de Maradona ocupava a tela inteiro e nos olhos de Maradona havia [pigarreia] algo que o produtor, com 22 anos de carreira na A televisão italiana nunca tinha visto num convidado. uma emoção que não cabia em nenhuma categoria profissional, que não era boa nem mau para o programa, que simplesmente era demasiado grande para aquele espaço.
O produtor olhou para o diretor. O diretor estava de pé, ao lado da mesa de controlo, com os auscultadores no pescoço e voltou a olhar para o produtor sem dizer nada. Os dois entenderam-se sem palavras. Se cortassem, perderiam o momento. Se continuassem, não sabiam o que podia acontecer. Mas sabiam que o que ali estava a acontecer não era televisão.
Ora, não era entretenimento, não era audiência, era algo que tinha peso próprio, gravidade própria e que não obedecia a qualquer guião, nem a sem sinal de mão. As câmaras continuaram a rodar, o apresentador baixou a mão e os dois continuaram. O que aconteceu nos minutos seguintes foi uma conversa que perdeu o formato de entrevista e ganhou o formato de algo que não tem nome na televisão.
Pelé e Maradona falaram um com o outro, não com o apresentador, não com as câmaras, não com a plateia. Falaram de coisas que disseram em público e que gostariam de não ter dito. Falaram de pessoas que confiaram e que os traíram. Falaram do peso de ser o maior num desporto que trata os seus maiores como produtos descartáveis.
Falaram de filhos, de solidão, de noites em hotéis de cidades cujo nome lembravam. Ao olhar para tetos de quartos que eram todos iguais, falaram baixo, quase sussurrando. Os técnicos de som tiveram de aumentar o ganho dos microfones de lapela duas vezes. A plateia estava completamente imóvel. Ninguém tsciu, ninguém se mexeu na cadeira.
O apresentador ficou em silêncio com as folhas do guião abandonadas na mesa, olhando para os dois como quem assiste a algo que sabe que não se vai repetir e que precisa de ser guardado sem interferência. Durou 3 minutos, talvez quatro. Ninguém cronometrou com precisão, mas todos os que estavam ali depois concordaram que foram os três ou quatro minutos mais intensos que já tinham presenciado dentro de um estúdio de televisão.
Não por gritos, não por escândalo, não por provocação, pela densidade, pelo peso, pela rara. uma raríssima experiência de ver dois homens que o mundo inteiro tinha transformado em rivais perceberem ao vivo diante de câmaras que a única pessoa que realmente os compreendia era o outro. Quando a gravação terminou, o apresentador agradeceu, a plateia aplaudiu, os técnicos começaram a desligar equipamentos e enrolar cabos.
A rotina de fim de gravação é sempre igual. Luzes apagam-se, pessoas falam mais alto, alguém pede café, alguém faz piada para aliviar a atenção. Mas naquela noite a rotina não resultou. As pessoas faziam as coisas habituais, mas em silêncio, como se falar alto fosse desrespeitar algo que ainda estava no ar.
Pelé levantou-se primeiro devagar, ajeitou o casaco com as duas mãos, o gesto automático de quem usou fato a vida inteira. Passou a mão pela gravata, olhou para o cenário em redor, a para as luzes que já estavam a ser desligadas uma a uma, para as poltronas que dentro de uma hora seriam desmontadas e guardadas num depósito. Depois olhou para Maradona.
Maradona ainda estava sentado, não tinha se movido. As mãos cruzadas no colo, os pés assentes no chão, o corpo ligeiramente inclinado para trás na poltrona. Olhava para um ponto indefinido à frente, não para a câmara que já estava desligada, não para a plateia, que já estava a sair, para um ponto que só ele via.
Pelé deu um passo em direção a Maradona. Estendeu a mão, mas não estendeu para um aperto de mão. Não era o gesto protocolar institucional que Pelé fazia com presidentes e dirigentes e empresários em eventos oficiais. Estendeu a mão e segurou o braço de Maradona acima do pulso com firmeza, com intenção, não é? Do jeito que os jogadores da geração de Pelé faziam no terreno de jogo, quando soava o apito final e os dois equipas tinham dado tudo, e não havia vencedores nem vencidos, apenas homens exaustos que reconheciam nos adversários
o mesmo esforço, a mesma dor, a mesma disposição para ir até ao limite. Era um gesto de um outro tempo, um gesto que os Os jogadores dos anos 60 trocavam nos balneários da Vila Belmiro, do Maracanã, de estádios da Europa e da América do Sul que já não existem. Um gesto que significava: “Eu sei o que tu passou e sabe o que eu passei e isso é suficiente.
” Maradona olhou para a mão de Pelé no seu braço, depois olhou para o rosto de Pelé e segurou-o de volta. a mão esquerda segurando o antebraço de Pelé com a mesma firmeza no mesmo lugar, como um espelho. Ficaram assim por quatro, talvez 5 segundos. Há dois homens de pé num estúdio que já se estava a esvaziar, ligados por um gesto que ninguém ali tinha visto antes e que ninguém fotografou. Ninguém filmou.
As câmaras estavam desligadas. Os telemóveis daquela época não tiravam fotografias no escuro. Não havia registo. Só a memória das 40 e poucas pessoas que ainda ali estavam e que pararam o que estavam a fazer para olhar. Pelé largou o braço de Maradona, deu um passo atrás, assentiu com a cabeça um movimento quase imperceptível e saiu pela porta da esquerda.
Não olhou para trás, caminhou pelo corredor em silêncio, com os dois assessores atrás e entrou no carro da produção que esperava na saída lateral. O carro arrancou em direção ao hotel. Pelé, segundo o assessor que estava no banco ao lado, não disse uma palavra durante todo o trajeto. Olhou pela janela para as ruas de Roma que passavam na escuridão e assim ficou até o carro parar à entrada do palazo.
Subiu para o quarto, tirou o fato, pendurou-o no cabide com o cuidado de sempre e sentou-se à beira da cama. O assessor perguntou se precisava de alguma coisa. Pelé disse que não. O assessor saiu e Pelé ficou ali sentado, com as mãos nos joelhos, olhando para a pasta de recortes que ainda estava na mesa de cabeceira com todas as declarações de Maradona dos últimos 15 anos.
Não abriu a pasta, já não precisava. No estúdio, Maradona não se levantou, ficou sentado na poltrona enquanto os técnicos desmontavam o cenário à sua volta. As luzes foram desligadas uma a uma, os refletores principais, depois os laterais, depois os de fundo. O estúdio foi ficando progressivamente mais escuro e Maradona continuou ali.
A imóvel com as mãos cruzadas no colo, os pés no chão. Um técnico aproximou-se para recolher o microfone de lapela. Maradona levantou a mão e desclipou o microfone ele mesmo, entregando-o sem olhar. O técnico agradeceu em italiano. Maradona não respondeu. Os minutos passaram. 5 7 10. A equipa foi saindo. O apresentador passou por Maradona, hesitou, pensou em dizer alguma coisa, pensou melhor e saiu sem falar.
O produtor Ferrete ficou por último, encostou-se ao batente da porta do estúdio e olhou para Maradona, sentado naquela poltrona quase no escuro, com as luzes do corredor entrando fracas pela porta aberta, Ferrete acendeu um cigarro, fumou metade, depois apagou no batente e saiu. Maradona ficou ali mais 10 minutos sozinho no estúdio vazio, com as luzes apagadas, sentado na mesma poltrona, olhando para o Bu na poltrona ao lado, a poltrona onde Pelé tinha estado, a poltrona vazia, o copo de água na mesa de centro, ainda cheio, intocado, exatamente como estava no
começo. Ninguém sabe o que Maradona pensou naqueles 10 minutos. Ninguém perguntou. Quando finalmente se levantou, saiu pela porta da direita, a mesma por onde tinha entrado. Caminhou pelo corredor vazio, passou pelo bebedouro com o copo de plástico amolgado ainda no chão e saiu pela porta lateral para a noite de Roma.
Não havia carro à espera, não havia assessor, não estava ninguém. Maradona parou no parque de estacionamento de concreto, olhou para o céu escuro de outubro e ligou a Salvatore. Disse que ia apanhar um táxi de volta para a hóstia. Salvatori perguntou como tinha sido. Maradona ficou em silêncio durante 3 segundos.
Depois disse que ia contar quando chegasse. Desligou, chamou um táxi na rua e desapareceu na noite. O programa foi para o ar três semanas depois, editado. A versão transmitida tinha 18 minutos. Do encontro original, que durou mais de 40, menos de metade foi para o ar. Os três minutos mais intensos, os minutos em que Pelé e Maradona falaram diretamente um com o outro sem intermediação do apresentador, foram cortados para sete fragmentos de 20 a 30 segundos cada, intercalados com comentários do apresentador e imagens de ficheiro. O momento em que Maradona disse
que a única pessoa que conseguia compreender o que era ser Maradona era Pelé, foi reduzido a uma frase de 6 segundos retirada de contexto. A resposta de Pelé, a resposta que fez o apresentador pedir para cortar foi editada de forma a parecer uma declaração genérica de respeito mútuo. A tensão desapareceu, a densidade evaporou.
O que foi para o ar era um programa de televisão competente, bem produzido, com dois grandes nomes do futebol, dizendo coisas agradáveis sobre o desporto e sobre a vida. Ninguém que assistiu ao programa pela televisão sentiu o que as 40 pessoas dentro daquele estúdio sentiram. Ninguém viu o silêncio de 11 segundos. Ninguém viu Pelé inclinar o corpo para a frente.
Ninguém viu Maradona olhar para o chão antes de falar. Ninguém viu o gesto final, o aperto no braço, a reconhecimento silencioso entre dois homens que o mundo tinha transformado em inimigos e que descobriram naquela noite, num estúdio nos arredores de Roma, que não eram inimigos, nunca tinham sido.
eram apenas dois homens que carregaram o mesmo peso de lados opostos do mesmo continente e que nunca tinham tido a hipótese de dizer isso um ao outro sem que alguém estivesse a gravar e editando e vendendo cada palavra. Passaram os anos, Ferret reformou-se da televisão em 2009 e nunca falou publicamente sobre a gravação não editada. Salvatore Ferrara morreu em 2014 na mesma casa de hóstia com a camisa do Napoli ainda na parede.
O apresentador fez uma vaga referência ao encontro numa entrevista em 2016, dizendo apenas que tinha sido o momento mais difícil da sua carreira e que algumas coisas não foram feitas para televisão. Os técnicos de som, os operadores de câmara, os Os assistentes de produção foram seguindo as suas vidas, transportando consigo a memória de algo que viram, mas que não podiam provar.
Maradona morreu a 25 de novembro de 2020, em Buenos Aires, sozinho num quarto, com o coração parado. Pelé, quando soube, publicou uma mensagem curta. disse que esperava que um dia pudessem jogar à bola juntos no céu. Era uma frase bonita, pública, diplomática. Mas quem conhecia a história daquela noite em Roma sabia que por detrás daquela frase havia outra coisa.
Havia a memória de um gesto no escuro de um estúdio vazio, um aperto acima do pulso, 4 segundos de silêncio entre dois homens que finalmente se reconheceram. E havia a certeza de que aquilo nunca ia acontecer de novo, não porque não houvesse mais grandes jogadores, mas porque já não havia dois homens no mundo que tivessem carregado aquele peso específico, daquela forma específica, por aquele tempo específico, e que tivessem necessitado de 40 anos e de um estúdio em Roma para finalmente dizer, sem palavras, o que nunca tinham
conseguido dizer com elas. Pelé morreu do anos depois, a 29 de dezembro de 2022, em São Paulo. Na mesa de cabeceira do hospital havia flores, lucartões e um porta-retratos com uma foto de dona celeste. Não havia pasta de recortes, não houve declarações de Maradona, não não havia nada que lembrasse aquela noite em Roma.
Mas quem esteve perto de Pelé nos últimos anos disse que de vez em quando, sem motivo aparente, ficava em silêncio, olhando para algum ponto distante, com a mesma expressão que o assessor viu no quarto do Palazio naquela noite de outubro e que quando perguntavam o que estava a pensar, Pelé sorria, o sorriso diplomático de sempre, e dizia que não era nada, que estava só lembrando.
Hoje, quando ligamos a televisão e vemos o futebol em alta definição, com 10 câmaras e replay imediato, quando vemos jogadores que nunca se defrontaram trocando provocações nas redes sociais que transformam tudo em espetáculo e nada em verdade. É fácil esquecer que houve um tempo em que duas pessoas podiam sentar-se a 2 m de distância uma da outra e resolver em silêncio o que 20 anos de manchetes não tinham conseguido resolver.
É fácil esquecer que houve um tempo em que o gesto mais importante de uma noite não foi filmado, não foi fotografado e não foi publicado. É fácil esquecer que houve um tempo em que a coisa mais poderosa que um homem podia fazer era segurar o braço do outro, olhar para os olhos dele e não dizer nada. A história não termina com justiça, nem com alívio.
Termina com um estúdio vazio nos arredores de Roma, com as luzes apagadas, com um copo de água entocado numa mesa de centro e com duas poltronas vazias que ninguém voltou a usar. Termina com duas vidas que se cruzaram uma única vez no local certo e da forma certa. A quando já era tarde para mudar alguma coisa, mas ainda era tempo de reconhecer.
Termina com a certeza silenciosa que só quem esteve ali carrega de que nessa noite por 3 minutos, o futebol não foi um desporto, não foi um negócio e não foi uma rivalidade. Foram apenas dois homens que finalmente se entenderam e que depois foram-se embora, cada um para o seu lado, carregando o mesmo peso de sempre, mas talvez, apenas talvez um pouco mais leve. M.