QUEM AMA CUIDA: QUARTA 03/06 Novela  Capítulo de HOJE! Ao VIVO

QUEM AMA CUIDA: QUARTA 03/06 Novela  Capítulo de HOJE! Ao VIVO

No próximo capítulo da novela Quem ama cuida, Pilar vai ao encontro do criminalista mais temido de São Paulo e entrega-lhe nas mãos uma missão com nome, apelido e morada. Destruir Adriana, sem limites, sem piedade, sem margem para o erro. E como se não bastasse, enquanto a protagonista ainda tenta respirar dentro de um apartamento que se transformou num velório sem caixão, a polícia bate-lhe à porta com uma intimação que deixa claro que o pesadelo não chegou nem perto do fim.

 Mas a bomba que vai fazer tudo tremer de verdade ainda não explodiu, porque dentro do O próprio sangue dos Brandão tem gente escondendo coisa que quando vier ao de cima vai mudar tudo. Thago está com uma verdade engasgada na garganta. Fábia está a um passo de descobrir que o marido esteve em algum lugar muito suspeito exatamente na noite em que O Artur foi ao chão.

 E Pedro está prestes a tomar a decisão mais perigosa de toda a a sua vida. Tudo isto começa agora. Tudo começa quando o sol ainda está alto sobre São Paulo e Pilar já está em movimento, e isso por si só deveria assustar qualquer pessoa. Ela não está de luto, ou pelo menos não da forma que se esperaria de uma irmã que perdeu o irmão há menos de 48 horas.

 O casamento de Artur acabou em tragédia. O milionário foi ao chão. A família Brandão está de cabeça para baixo. E enquanto o resto do mundo ainda está a tentar absorver o choque do que aconteceu naquela noite, Pilar já acordou com um plano. Já tomou o café com a mesma frieza de sempre. Já escolheu a roupa preta com a mesma precisão de sempre e já pegou no telefone para fazer a ligação mais importante da manhã.

 Ela não liga a um parente, não telefona a um amigo, telefona a Ademir. E não é um pedido, é uma convocatória. Quando os dois finalmente se sentam frente à frente no escritório do criminalista, o silêncio entre eles é daquele tipo que pesa. Pilar cruza as mãos sobre a mesa com uma calma que intimida mais do que qualquer grito. Os os olhos dela varrem o rosto do advogado com aquela frieza de quem nunca, em nenhum momento da vida, perdeu o controlo da situação.

 Ela endurece a postura, apoia os cotovelos com precisão cirúrgica e abre a boca sem rodeios nenhum. A voz sai baixa, cadenciada, carregada de uma autoridade que não pede licença para ninguém. Eu quero que tu use tudo o que tiver, tudo. Não me venha com limitações. Não me fale em ética. Não me explique o que é permitido e o que não é.

 A Adriana vai pagar pelo que fez com o meu irmão. Isto não é um pedido. É o motivo pelo qual estou sentada aqui. Ademir não pestaneja. Ele conhece este tipo de clientes, já recebeu muita gente naquela cadeira cheia de raiva e de dinheiro, prontos para comprar a condenação de outra pessoa. Mas há algo em pilar que vai para além da raiva comum.

 Tem método, tem controlo, tem uma determinação que não oscila nem quando o silêncio da sala empurra contra ela. E isso num cliente é muito mais perigoso do que qualquer explosão emocional. O advogado encosta-se devagar no espaldar, cruza os braços com aquele calma ensaiada de quem mede cada gesto antes de executar e deixa um silêncio longo preencher o escritório antes de responder.

 “Entendido?”, diz com aquela voz grave, treinada para intimidar juiz em plenário. “Mas saiba que o que a senhora está a pedir vai custar caro em todos os sentidos.” Pilar sustenta o olhar sem pestanejar uma única vez. Para ela, aquilo não é ameaça, é contrato. E contratos com Ademir nos círculos certos de São Paulo, não costumam correr mal para quem paga.

A mulher levanta-se da cadeira com a postura de quem nunca foi vergado na vida. Agradece com uma frieza que arrepia mais do que qualquer rispidez e sai do escritório de cabeça erguida e um novo peso no peito. Não o peso da culpa, não o peso do luto, o peso da quem acabou de acionar uma engrenagem enorme e sabe exatamente onde ela vai chegar.

 Do lado de fora, ela pára por um segundo na calçada, respira o ar quente da cidade e o que lhe aparece no rosto não é tristeza, é satisfação controlada. A máquina está em movimento. Adriana ainda não sabe, mas o cerco começou a fechar e vai fechar rapidamente. Do outro lado da cidade, o apartamento de Artur tem aquela atmosfera pesada de lugar que perdeu quem o habitava.

 A luz do o meio-dia entra pelas grandes janelas, mas parece que não aquece nada, como se os próprios quartos tivessem decidido lamentar a moda deles. A Adriana está parada no meio da sala, olhos percorrendo os recantos daquele espaço que ainda ostenta as marcas de quem foi embora. O casaco atirado sobre a poltrona, como se o proprietário fosse voltar a qualquer hora.

 O copo que ficou por cima da estante, os sapatos à entrada ali quietos à espera de alguém que não volta mais. Ela não chora agora. Já não tem lágrimas disponíveis para este momento específico. O corpo cobrou tudo que tinha nos momentos mais agudos e entregou agora uma espécie de torpor pesado no lugar. O que domina o rosto dos Adriana não é desespero, é aquela suspensão estranha de quem foi atingida tantas vezes seguidas que o organismo decidiu pausar as reações por alguns minutos, só para não colapsar de vez.

Ela deixou de tentar perceber o que aconteceu, agora está a tentar descobrir o que faz com esse dia. É quando batem a porta. Do outro lado, está um homem de rosto neutro e postura burocrática. envelope na mão. Ele confirma o nome dela com a economia de palavras de quem faz aquilo 200 vezes por semana.

 Estende o documento, aguarda a assinatura com a indiferência profissional de quem não quer saber a história de ninguém e vai embora sem mais explicações. Adriana fecha a porta devagar, segura o envelope entre os dedos por um segundo, dois, tr Como se este pequeno intervalo pudesse alterar alguma coisa no que está escrito lá dentro.

 Quando abre, a primeira palavra que salta da folha é intimação. Logo abaixo a que ela receava confirmar, suspeita. E logo abaixo deste a data e o horário em que ela precisa de aparecer na esquadra para responder a perguntas sobre a partida do próprio marido. A Adriana não rasga o papel, não grita, não se desmorona, mas os olhos fecham-se por um instante mais longo do que o normal.

 E quando abrem de novo, há algo de diferente dentro deles, uma determinação áspera, crua, que parece estar a ser esculpida ali naquele segundo exato pela força pura da necessidade de continuar de pé. Ela estava a tentar perceber como viver daqui para a frente e agora a polícia está a convocá-la como suspeita pela partida do marido que jurou amar diante de todos.

 A mesma Adriana encontrou Artur caído na calçada e se desesperou. A mesma que Pilar apontou o dedo à frente de todos sem hesitar nenhum segundo. A intimação está na mão, o depoimento está marcado. E enquanto ela tenta processar tudo aquilo de pé, há alguém do lado de fora a bater com uma insistência diferente da polícia, diferente de pilar, diferente de tudo que bateu na vida dela nos últimos dois dias. é Otoniel.

 E o avô da Adriana não veio trazer consolo, veio com uma proposta que lhe vai exigir uma resposta que ela ainda não sabe se tem condição de dar. Toniel não é homem de meias palavras, nunca foi. É daqueles que cresceram a acreditar que a verdade dita no momento certo, por mais que doa, vale mais do que qualquer conforto de mentira.

 E é exatamente por isso que ele está do lado de fora daquele apartamento, batendo com a insistência calma de quem não se vai embora sem ser ouvido. Não importa o que a Adriana esteja a sentir, não importa o que aquele lugar representa para ela. Agora o avô veio com uma missão e missão de Otoniel, quem conhece sabe, não se abandona a meio do caminho.

 Quando a porta se abre e os dois se encontram, há um segundo de silêncio entre eles que diz mais do que qualquer frase conseguiria. Toniel olha para a neta com aqueles olhos que viram muita coisa na vida, olhos que já souberam da dor antes mesmo de ela aprender a andar. Ele entra sem fazer cerimónia, percorre o apartamento com o olhar de quem está a medir o peso do lugar e quando finalmente pára a meio da sala, é como se aquele homem simples, vendedor de flores, proprietário de uma banca na frente de um cemitério, de repente preencher-se todo o espaço daquele

apartamento de milionário com uma presença que nenhum luxo consegue comprar. A Elisa está sentada num canto do sofá, os ombros curvados, as mãos no colo, o rosto carregando aquele cansaço que vai muito para além do físico. Ela olha para o pai com o mesmo olhar de filha que sempre teve, mistura de amor e de medo do que ele vai dizer.

 Otoniel não aquece muito, acomoda o chapéu nas mãos, respira fundo e fala com aquela voz grossa de quem não aprendeu a enfeitar o que sente. Adriana, este lugar não é seu, nunca foi. E quanto mais tempo vocês ficam aqui dentro, mais vocês estão a deixar que esta história engula vós vivas. Eu vim buscar-vos. A família precisa de voltar a ser família.

Adriana franze o senho e cruza os braços devagar, não por arrogância, mas pelo reflexo de quem está a tentar segurar alguma coisa por dentro sem deixar aparecer. Ela olha para o avô e quando responde, a voz sai mais firme do que ela própria esperava. Vou, se sair daqui agora, parece que estou a fugir. E não fugi de nada. Eu não fiz nada.

Otoniel bate com o chapéu suavemente na própria coxa, a cabeça a abanar de lado com aquela paciência de quem já houve esta conversa na imaginação umas 10 vezes antes de chegar. Não se trata de fuga, minha filha, trata-se de sobrevivência. Acha que ficar dentro das paredes do homem que te acusaram de empurrar vai fazer-te parecer inocente aos olhos de quem já decidiu que é culpada? O silêncio que se segue é pesado.

 Elisa desvia o olhar para o chão. Adriana fica a olhar para o avô por um longo instante e é possível ver nos olhos dela o momento exato em que a lógica começa a empurrar contra a teimosia milímetro a milímetro, sem que ela admita em voz alta. O Toniel sabe que plantou a semente, não precisa forçar agora.

 Ele conhece melhor a neta do que ninguém. sabe que ela precisa de um tempo para chegar sozinha onde ele já está. Mas a conversa não se fica por aqui. Termina com Elisa, a olhar para o pai com os olhos marejados e dizendo quase em sussurro o que a Adriana não consegue dizer. Pai, ela tem uma intimação na mão.

 A polícia quer-na na delegacia como suspeita. Otoniel fecha os olhos por um segundo, volta a abrir e quando fala, a voz saiu diferente, mais baixa, mais grave, carregada de uma preocupação que não tentou esconder. Então vocês precisam ainda mais de alguém ao lado e esse alguém não pode ser esse apartamento. A discussão vai e vem, as as palavras ora sobem, ora descem.

 Mas o que fica a pairar no ar daquele apartamento depois de a poeira baixa um pouco, é uma questão que nenhum dos três consegue responder sozinho. Onde termina exatamente a resistência de Adriana e começa o risco real? Enquanto isso, do outro lado da cidade, numa atmosfera completamente diferente, mais leve na aparência, mais pesada por dentro, o Pedro está sentado com André e tem uma expressão no rosto que qualquer pessoa que o conheça de verdade reconheceria na hora.

 é o rosto de quem finalmente está a falar de algo que ficou demasiado tempo represado. André ouve-o com atenção. Pedro não é homem de se abrir facilmente. É advogado, filho de Ademir. Cresceu num ambiente onde mostrar o que sente é sinal de fraqueza. Mas tem coisas que guardamos até não poder mais guardar.

 E a Adriana, para o Pedro é uma dessas coisas. Ele começa devagar, como quem procura as palavras certas, mas à medida que fala vai esquecendo-se de procurar e começa só deixar sair. Conta do dia da cheia, do abrigo improvisado, onde centenas de as pessoas tentavam reconstruir o que perderam em questão de horas. conta que quando viu Adriana pela primeira vez no meio de todo aquele caos, ela não estava a pedir ajuda, estava a dar, estava de braço a dar com uma senhora mais velha, ajudando a organizar colchões, distribuindo o pouco que havia, agindo

como se naquele momento não existisse espaço para ruir, porque tinha gente a precisar. Aperta os lábios por um instante antes de completar, os olhos indo para um ponto distante. Eu me apaixonei-me ali no meio da lama, do barulho, do desespero de todos. Eu Olhei para ela e soube. O André não interrompe, deixa o amigo falar.

 E Pedro fala, fala do encontro que veio depois, da amizade que se foi construindo, do momento em que compreendeu que o que sentia não ia embora, independentemente de quanto ele tentasse racionalizar. e fala com aquela honestidade incómoda de quem não consegue mais fingir nem para si próprio, que quando descobriu que a Adriana ia casar com Artur, o seu próprio padrinho, foi como levar um murro no peito do qual ele ainda está a tentar recuperar.

 E agora diz o Pedro, encostando os cotovelos nos joelhos e baixando a cabeça por um segundo antes de voltar o olhar para o amigo. Ela está a ser apontada como suspeita pela partida do homem que ela amava como a um pai. Ela está sozinha e eu não consigo estar parado. André observa o amigo com aquela seriedade de quem percebeu tudo e ainda assim não sabe bem que dizer, porque não há muito que dizer quando alguém está nesse ponto, quando a decisão já foi tomada por dentro e só está à espera do momento de ser pronunciada em voz alta. Ele sabe

disso. O Pedro também sabe. O que nenhum dos dois sabe é o que o regresso de André ao Brasil vai mexer em gente que está muito próximo do Pedro. Alguém que conhece André de uma forma que Pedro talvez não imagine. E essa pessoa, nesse exato momento, está a haver uma conversa que vai fazer o nome do André soar diferente, muito diferente da forma como ele soou aqui.

 A Fábia é daquelas mulheres que aprenderam cedo que a aparência dos normalidade custa caro, mas que vale cada cêntimo. Cresceu numa família que vivia malinha ténue entre o que tinha e o que fingia ter e acabou por casar com um homem que faz exatamente a mesma coisa. Ulisses e Fábia são, neste sentido, dois espelhos voltados um para o outro, reflectem a ilusão de prosperidade que os dois precisam de acreditar para continuar de pé.

E é precisamente por isso que quando alguma coisa ameaça essa ilusão, o O instinto dela não é confrontar, é proteger, cobrir, encobrir. Mas tem um limite para o tempo que dá para segurar alguma coisa que começou a vazar. Quando Dora aparece, a madrasta de Pedro, mulher de Ademir, alguém que A Fábia conhece bem o suficiente para conversar, mas não o suficiente para revelar tudo.

 As duas encontram-se naquele território feminino de conversas que começam sobre uma coisa e terminam sobre outra completamente diferente. O ambiente é de uma leveza que engana. O café está quente, as palavras saem com cuidado. Nenhuma das duas quer dar um passo em falso. É Dora quem muda a temperatura da conversa sem querer, ou talvez querendo, mas sem admitir nem para si própria.

 O nome de André escapa com uma naturalidade que trai o quanto ele ainda ocupa espaço dentro dela. Ela menciona o seu regresso ao Brasil com um tom que tenta ser casual, mas que carrega um peso que qualquer mulher do outro lado da mesa consegue sentir, mesmo sem perceber de onde vem. Fábia franze o senho ligeiramente, a chávena parada no ar a meio caminho da boca.

 André, quem é André? Dora desvia o olhar por um segundo, demasiado rápido para ser despercebido, suficientemente devagar para ser registado. Recoloca a chávena na mesa com uma delicadeza que parece ensaiada e responde com aquela economia de palavras de quem está a escolher o que deixa sair e o que segura. Um velho conhecido, alguém que ficou fora do país durante um bom tempo.

 A notícia de que ele está a voltar preocupa-me um pouco. Só isso. Fábia não insiste, mas também não esquece. Porque a Fábia, por baixo de toda a aquela camada de aparência e de charme social, é uma mulher que observa, que regista, que guarda. E a forma como a Dora pronunciou aquele nome, como quem tenta diminuir o volume de algo que naturalmente grita, vai ficar a ecoar na cabeça dela durante um bom tempo depois de esta conversa terminar.

 As duas continuam a falar de outras coisas, trocam amenidades, mantém o tom leve da superfície, mas há algo que mudou no arreas. Uma camada de desconforto quase imperceptível, como aquela humidade que antecede a chuva sem que ninguém consiga apontar de onde vem. E enquanto Dora e Fábia partilham este espaço carregado de subtexto, do outro lado da cidade acontece uma cena que vai fazer com que qualquer coisa relacionada com o André parecer pequena perto do que está prestes a vir à tona.

Thago é filho de Silvana, sobrinho de Artur, faz parte do clã Brandão pelo sangue da mãe. Carrega o apelido com o peso de quem cresceu, sabendo que herança e expectativa são as duas coisas que nunca te largam nesta família. Ele não é ingénuo, sabe muito bem como a engrenagem de interesse funciona ali dentro, mas tem uma diferença entre Thago e o resto daquele clã.

 Ele ainda tem uma voz dentro dele que de vez em quando teima em não se calar. E é precisamente essa voz que o vai trair agora. Quando mãe e filho se encontram, a conversa começa no território seguro do quotidiano. Como vai? O que tá a acontecer? O que vai ser da empresa agora que o Artur já não está? São os assuntos óbvios de uma família que perdeu o patriarca de forma violenta e está a tentar perceber o que vem a seguir.

A Silvana faz isso bem. Ela é professora universitária, é investigadora, é habituada a conduzir o raciocínio com método. Ela ouve, processa e devolve com precisão. Mas depois, Thago faz aquela pausa, a pausa de quem estava a pensar em dizer alguma coisa há demasiado tempo e já não consegue segurar.

 Ele desvia o olhar, bate com os dedos uma só vez sobre a mesa com aquele nervosismo contido de quem está a pesar o risco do que vai soltar. E quando fala, a voz sai mais baixa do que deveria, como se uma parte dele ainda quisesse não ser ouvido. Mãe, e se não foi ela? E se tivermos apontando o dedo para o lugar errado esta semana inteira? Silvana erde os olhos do forma que professora faz quando alguma coisa muda no tom da sala, devagar, com atenção total.

 O que é que você tá a dizer, Thaago? Ele aperta o maxilar, olha para mãe e depois diz com aquela coragem torta de quem sabe que não há volta a dar depois de abrir a boca. Estou a dizer que há pessoas nesta família que tinham motivo, motivo de verdade, e não estou conseguindo olhar para esta situação e fingir que não pensei nisso.

 O silêncio que cai entre os dois é daqueles que alteram a temperatura de um quarto. Silvana fica absolutamente imóvel por alguns segundos, e é impossível saber, pela expressão do rosto dela, se o que está a surgir ali é choque, medo ou algo que se parece perigosamente com reconhecimento, como se alguma parte dela já tivesse flertado com esse mesmo pensamento, sem coragem para nomear.

 “Você tem consciência do que acabou de dizer?”, pergunta ela. E a voz saiu mais seca do que provavelmente pretendia. Thago, não recua. mas tampouco avança. Ele fica ali no meio do caminho entre a coragem e o arrependimento, olhando para mãe com os olhos de quem acabou de jogar uma pedra num lago, sem saber bem até onde as ondas vão chegar.

 E as ondas vão chegar longe, que qualquer um consegue sentir. Porque a Silvana não é qualquer pessoa. A Silvana está aliada a Pilar. A Silvana faz parte do grupo que alinhou o depoimento para apontar Adriana como culpada. E se o filho dela, o filho que ela própria criou, está levantando a suspeita de que alguém dentro da família pode ter feito aquilo, ela tem agora uma escolha a fazer.

 Uma escolha que vai definir de que lado ela realmente está quando a verdade, qualquer que seja ela, vier ao de cima. Thago disse demais. A Silvana ouviu. E o que ela vai fazer com isso é uma questão que fica pendurada no ar como fumo depois de o fogo já passou. Mas há outra questão ainda mais urgente, porque enquanto Thago detonou esta bomba silenciosa do lado da mãe do outro lado da cidade, A Fábia voltou para casa com o nome de André ainda a ecoar na cabeça.

 E quando entrou no quarto e começou a arrumar uma coisa ou outra no quotidiano automático de qualquer tarde, encontrou algo que não deveria ter encontrado, algo que não tem explicação fácil, algo que tem tudo a ver com Ulisses e com a noite em que O Artur foi ao chão. Ulisses tem vivido estes últimos dois dias como alguém que está a tentar andar normalmente com um enorme peso amarrado aos pés.

Aparentemente funcional, cumprimenta, responde, desloca-se de um quarto pro outro, mas com aquele olhar de quem está constantemente travado numa cena que já ninguém está a ver, é a culpa. E a a culpa tem um modo particular de habitar um homem que não está habituado a ela. Ela não grita, não explode, não chora.

Ela apenas fica ali instalada atrás dos olhos, pesando em cada palavra que ele escolhe dizer e em cada silêncio que ele escolhe guardar. Ulisses é bom em silêncios, sempre foi. Aprendeu desde cedo que a melhor defesa é o quanto se consegue parecer que não tem nada a esconder. E essa capacidade ao longo dos anos foi o que manteve o vício em apostas invisível para a Fábia.

 foi o que manteve a falência financeira disfarçada de prosperidade. Foi o que manteve até agora o paradeio dele na noite em que O Artur foi ao chão, fora de qualquer conversa. Mas há um pormenor que Ulisses não calculou. A Fábia também é boa em observar. Ela chegou a casa com a cabeça ocupada, o nome de André ainda ecoando lá dentro, a conversa com Dora ainda a processar em algum canto do pensamento e foi fazer aquela coisa automática que se faz quando se volta para um espaço familiar.

 arrumar, não por necessidade urgente, só pelo movimento, pelo ritual de pôr as coisas no lugar como forma de pôr também o pensamento. Foi mexendo numa gaveta do quarto, reorganizando papéis que Ulisses deixa ali empilhados com a desorganização característica de quem não quer que ninguém mexa. E foi aí um recibo, um simples recibo impresso, dobrado duas vezes, escondido entre contas e documentos, como se fosse mais um papel qualquer. Mas a Fábia parou.

abriu, leu a morada, leu a hora, leu a data e o chão desapareceu debaixo dos pés dela, porque a hora e a data nesse papel colocam Ulisses em algum lugar que nunca mencionou, em algum lugar que não combina com nenhuma das versões que ele deu sobre onde estava na noite em que o Artur foi ao chão. Não é uma prova de nada, ela sabe disso, mas é uma prova de mentira.

 E mentira paraa Fábia naquele momento específico, com tudo o que está a acontecer em volta, pesa como se fosse a coisa mais grave do mundo. Ela fica parada segurando aquele papel durante um tempo que ela própria não conseguiria calcular. Os pensamentos chegam a uma velocidade que não permite ordem, fragmentos, imagens, possibilidades.

 O casamento, a noite, Artur a cair, Pilar a apontar o dedo para a Adriana. Ulisses no dia seguinte, demasiado nervoso, demasiado quieto, esquivando demasiado qualquer pergunta direta sobre essa noite. Quando escuta os seus passos no corredor, o reflexo é guardar o papel. Ela não sabe ainda porque o faz, se é para se proteger, se é para o proteger ou se é porque precisa de mais um segundo antes de decidir o que significa o que acabou de descobrir.

 Ulisses entra no quarto com aquela postura de homem que está a tentar ocupar o menor espaço possível sem que ninguém perceba. Ele encontra-a de pé perto da gaveta e por um segundo, apenas um segundo, os olhos dele piscam de um maneira que não é propriamente culpa, mas é parente próximo dela. “Está tudo bem?”, pergunta e a voz sai mais cuidadosa do que deveria sair. Uma pergunta banal.

A Fábia olha-o e nesse olhar tem uma guerra inteira a acontecer por baixo da superfície. a parte dela que quer acreditar no marido contra a sua parte que acabou de ver com os seus próprios olhos que ele mentiu. Ela respira antes de responder e quando fala escolhe cada palavra com uma precisão de quem está testando o gelo antes de pisar.

 Onde estavas na noite em que o Artur morreu toda a noite? Ulisses congela. É imperceptível para a maioria das pessoas, mas a Fábia não é a maioria. Ela é a mulher que dorme ao lado dele há anos, que conhece o compasso da sua respiração, que sabe exatamente qual é a pausa que pertence ao cansaço e qual pertence ao medo. E essa pausa é a do medo.

 Já te disse, ele responde. E a voz ficou um pouco mais baixa do que anteriormente. Fiquei em casa até ir ao casamento. Depois voltei quando não Fábia interrompe-o com uma firmeza que surpreende os dois. Ela dá um passo na sua direção, os olhos fixos, a voz saindo agora sem o cuidado de antes, só com o peso do que não pode mais fingir que não sabe onde estavas na noite em que Artur morreu a noite toda? Ulisses abre a boca, fecha, os ombros descem num movimento quase imperceptível.

 Não é rendição, mas é o sinal de que alguma coisa dentro dele começou a ceder. Os olhos dele, que já estavam carregados há dias, ficam mais pesados ​​ainda. Ele levanta a mão como se fosse tocar-lhe no braço, mas para no meio do gesto. Fábia, começa ele com aquela voz que tenta ser firme e já nasce gretada.

 Ela não recua, fica ali de pé, segurando o chão sobre os próprios pés, com uma determinação que ela não sabia que tinha até este momento. Porque há coisas que um casamento sobrevive, dívida sobrevive, vício com esforço sobrevive, mas a mentira em cima de morte esta Fábia ainda não sabe se tem forma de atravessar. E é exatamente isso que Liss está a ler no rosto da mulher que está à frente agora.

 Não, raiva. Pior do que a raiva, é a distância. A distância fria de quem lá está fisicamente, mas já começou a calcular o que faz com o que sabe. Ulisses responde ou tenta, as palavras saem partidas sem a ordem que ele ensaiou mentalmente durante os últimos dois dias. E o que sobra depois de ele terminar de falar não é alívio, nem esclarecimento, é mais silêncio, mais peso, mais uma camada nova de algo que nenhum dos dois sabe exatamente como nomear ainda.

 A Fábia sabe e Uliss sabe que Fábia sabe. O que ela vai fazer com isso é a pergunta que fica suspensa no ar do quarto como uma sentença que ainda não foi lida em voz alta. Ela vai proteger o marido, vai falar, vai utilizar essa informação como escudo ou como espada. Tudo é possível. Tudo está aberto.

 E enquanto esse silêncio pesado ocupa o espaço entre os dois, do outro lado da cidade, alguém está a chegar até a Adriana com a única coisa que ela ainda não recebeu hoje. Uma razão para não desistir. A Adriana está sentada à mesa da cozinha do apartamento de Artur quando o intercomunicador toca. Ela nem se levanta-se de imediato.

 O dia já trouxe tanta coisa a bater à porta que o reflexo de antecipar mais uma notícia mau virou automático. Mas a voz do outro lado não é da polícia, não é de Pilar, não é de nenhum desconhecido com o envelope na mão. É o Pedro e só o nome dele pronunciado com aquela objetividade direta de quem não está ali para enrolar já muda alguma coisa no ar do apartamento.

 Quando ele entra, é a primeira vez no dia inteiro que alguém entra nesse espaço sem trazer peso. Não é que o Pedro não carregue o peso do que está a acontecer, ele carrega e muito. Mas há uma diferença entre entrar num lugar com o peso de um problema e entrar com o peso de uma decisão. E Pedro entrou com a segunda.

 Ele percorre o apartamento com os olhos por um segundo. Regista a intimação em cima da mesa, regista a postura de Adriana. Registra a exaustão que ela está a tentar disfarçar com a espinha ireta e o queixo levantado e não perde tempo. Puxa uma cadeira, senta-se à frente dela, coloca os cotovelos na mesa e olha-a diretamente nos olhos com aquela firmeza que não tem nada de arrogância. tem de determinado.

A voz sai clara, sem rodeios, sem aquecimento. Eu vim dizer-te uma coisa e quero que o ouça antes de responder qualquer coisa. A Adriana não desvia o olhar. Espera. Eu vou ser o teu advogado, diz Pedro. Oficialmente, a a partir de agora, vai para esse depoimento com alguém ao seu lado, vai enfrentar o que vier com representação jurídica e não vai fazer mais nenhum movimento sozinha neste processo.

 O silêncio que se segue dura exatamente o tempo que a Adriana precisa para compreender o tamanho do que acabou de dizer, porque não é apenas uma declaração profissional. Ela sabe, e ele sabe que ela sabe o que significa Pedro assumir a defesa dela. Significa ir de frente contra Ademir, o criminalista mais poderoso de São Paulo, o homem que Pilar acabou de contratar para a destruir, o pai de Pedro.

A Adriana franze o senho devagar e quando fala, a voz saiu mais rouca do que ela pretendia, carregada de uma mistura de gratidão e de algo que se assemelha a medo por ele. Pedro, sabe o que isso significa? O teu pai tá do outro lado. Ela contratou-o. Se assumir a minha defesa, vais est Eu sei exatamente onde votar.

 Ele interrompe, mas sem rispidez, com a firmeza de quem já atravessou este argumento dentro da própria cabeça umas 50 vezes antes de chegar aqui e não encontrou qualquer motivo suficientemente bom para mudar a conclusão. Há algum tempo que eu e o meu pai estamos em lados diferentes de muita coisa, Adriana. Isto não é novidade.

 O que seria novidade é eu fingir que não vejo o que se passa aqui porque é conveniente para a minha carreira ou paraa a minha família. Adriana olha-o por um longo instante. É aquele tipo de olhar que vai para além da superfície, que está tentando perceber não só o que ele está dizendo, mas de onde é que este homem tirou a coragem de dizer.

 Porque ela já viu muita gente prometer apoio na hora fácil e desaparecer quando o custo apareceu. Já viu uma promessa virar pó quando o peso real da situação chegou. E o que O Pedro está a fazer agora não é prometer, é anunciar com nome, com sequência e tudo. As mãos dela, que estavam quietas sobre a mesa, fecham-se lentamente.

 Ela desvia o olhar por um segundo para a janela, pro apartamento, para intimação em cima da mesa. E quando volta os olhos para Pedro, há algo de diferente dentro deles. Não é um alívio propriamente dito, é algo mais seco, mais real do que alívio. É o reconhecimento de quem estava sozinha e de repente percebeu que já não está.

“Vais enfrentar o teu pai por mim?”, diz ela. Não como pergunta, mas como se precisava de ouvir a frase em voz alta para acreditar que é real. O Pedro não sorri, não faz qualquer gesto de heroísmo, apenas sustenta o olhar e responde com aquela simplicidade de quem está absolutamente convicto do que diz. Eu Vou enfrentar o que for preciso para provar que não fez nada.

 Isto não é por si, é porque há o que está certo a fazer. E é nesse momento, nesta frase específica, dita daquela forma específica, que alguma coisa dentro da Adriana, que estava tensionada desde a manhã, afrouchou 1 milímetro, apenas um. Mas num dia em que cada milímetro conta, este é tudo.

 Ela pega na intimação da mesa, olha para ela uma última vez com aquela expressão de quem decidiu não deixar um papel de papel ter mais poder do que ela. E quando o coloca de volta é diferente. Já não é um papel que chegou para a derrubar. É um papel que vai ser enfrentado com advogado, com estratégia, com alguém ao lado. Do lado de fora do apartamento, São Paulo continua o seu barulho indiferente.

 A cidade não parou para Adriana, não parou para Artur, não vai parar a ninguém. Mas dentro daquele apartamento que pertenceu a um milionário e agora guarda apenas memória e silêncio, duas pessoas sentadas frente à frente acabaram de fazer uma espécie de acordo que vai muito para além do jurídico.

 É o acordo de quem escolheu não se vergar. Cada um à sua maneira, cada um pagando o seu próprio preço por isso. Pilar tem Ademir, há o Ulisses, há a Silvana, há Diná, tem um relatório pericial e um plano construído com frieza de engenharia. Mas A Adriana tem o Pedro e o Pedro, ao contrário do pai, não joga pelos métodos que vencem a qualquer custo, joga pela verdade.

 E a verdade, por mais que demore, por mais que o caminho seja longo e cheio de armadilha, tem uma forma de aparecer na hora que menos se espera. O Thago já soltou uma palavra que não volta. Fábia já segurou nas mãos uma prova que não desaparece só porque ninguém viu. A Silvana já ouviu algo que vai ficar rondando a consciência dela ou o que sobrou dela.

 E UC está a carregar um segredo que se tornou demasiado pesado para um homem só. O cerco de pilar está montado, mas o alicerce por baixo dele está começando a rachar por dentro de onde ela menos esperava. E quando este tipo de estrutura começa a ceder por dentro, não há engenheiro no mundo que segure durante muito tempo.

 O capítulo de hoje termina com Adriana de pé, com Pedro ao lado e com uma intimação na mão que agora parece mais pequeno do que era duas horas atrás. O jogo continua e vai ser muito mais intenso antes de se tornar mais fácil. Acredita que Pedro foi corajoso ao decidir enfrentar o próprio pai para defender a Adriana? Que nota de zer a 10 esta atitude dele merece? Deixa a sua resposta aqui nos comentários.

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