QUEM AMA CUIDA: QUINTA 04/06 Novela Capítulo de HOJE! Ao VIVO
No próximo capítulo da novela Quem ama cuida, três dias de revelações, traições e escolhas sem retorno vão abalar tudo o que ainda parecia estar de pé. O laudo pericial confirmou o que o instinto de já toda a gente dizia. Artur não caiu da varanda, foi empurrado. E enquanto Adriana ainda tenta processar a perda e o choque daquela noite impossível, Pilar já está em pleno funcionamento, reunindo Ulisses, Silvana e Diná para construir a muralha de mentiras que vai tentar esmagar a protagonista de vez. E como se
não bastasse, Ulisses, o irmão cheio de apostas, de dívidas e de segredo, começa a mentir à própria esposa sobre onde estava naquela noite que vai mudar o destino de todos. Mas as bombas não se ficam por aí. A Fábia vai descobrir que Ulisses mentiu. Thago vai deixar escapar que desconfia de alguém dentro da própria família Brandão.
E o Pedro vai tomar a decisão mais cara da vida. Enfrentar o próprio pai para defender a mulher que ama. Pai e filho, mesmo sangue, lados opostos. Uma guerra que está só no início. Tudo começa quando amanhã chega com aquela luz dura que não pede licença. E o aportamento de cobertura onde Artur construiu toda uma vida ainda cheira a flores do casamento que ninguém teve coragem de deitar fora.
A Adriana tá sentada no sofá com as mãos no colo e os olhos fixos em algum ponto que não existe, transportando um peso que é grande demais para ter nome ainda. Ela tinha entrou naquele casamento como gesto de lealdade e de recomeço. Uma decisão tomada entre a necessidade de sobreviver e a consciência de que Artur precisava de alguém verdadeiro ao lado e tinha saído desse mesmo casamento como viúva e como suspeita na mesma noite, sem ter tido um segundo sequer para ser uma coisa antes de virar a outra.
A Elisa tá sentada ao lado da filha em silêncio, fazendo o que as mães fazem quando não existe palavra que caiba, simplesmente ficando sem sair, sem perguntar, apenas presente. Foi neste silêncio que a porta bateu. Não bateu de quem chega com cuidado, bateu de quem chega com objetivo. Pilar entrou no apartamento com a naturalidade de quem já considera aquele espaço território conquistado.
E não houve sequer a performance mínima de pesar que qualquer pessoa com algum resquício de consciência teria encenado. Ela olhou directamente paraa Adriana com uma frieza construída, calibrada, o tipo de frieza que se ensaia durante a noite para estar afiada de manhã. E a voz que saiu foi limpa e perigosa.
Você empurrou, meu irmão. Todo o mundo que estava lá nessa noite vai dizer isso e a polícia também vai saber. Adriana ficou parada. Não porque não tivesse resposta, mas porque a frase era tão calculada, tão certeira, que o corpo não sabia o que fazer antes da mente organizar o que estava a acontecer. Não foi a Adriana quem respondeu, foi o Pedro, o advogado que na noite anterior tinha assistido, paralisado de dor, a mulher que amava casar com o seu padrinho e que depois a viu desesperada, de joelhos no passeio ao lado do seu corpo, deu um
passo em frente com uma calma que custava muito caro e colocou o próprio corpo entre Pilar e Adriana, como se aquele posição fosse a mais óbvia do mundo. Adriana não fez nada e acusação sem prova é calúnia. Pilar virou o rosto para o sobrinho com um sorriso que não chegou nem perto dos olhos. Era o sorriso de quem já tinha calculado a resistência dele e decidido que era um detalhe gerenciável dentro de um plano muito maior.
Quando Pilar saiu, levando consigo a atmosfera de guerra que se tinha trazido, a Adriana fechou os olhos. Às vezes a dor é demasiado grande para virar lágrima. Ela fica lá dentro, seca e pesada, sem encontrar saída. Adriana abriu os olhos e virou-se paraa mãe com uma calma que doía ouvir. Mãe, Pilar não vai parar.
Ela já decidiu quem ela vai culpar. Se ela conseguir montar a história da forma que quer, não tem como eu sair deste processo em pé. Elisa segurou o rosto da filha nas duas mãos. tinha tantas coisas que queria dizer e todas eram insuficientes. Então ficou com o que era real e concreto, o toque, a presença, a voz que dizia sem palavras que ali estava alguém que não ia embora.
Do outro lado desse mesmo edifício, Pilar não estava de luto. Pilar estava em funcionamento. Com a eficiência clínica dos quem conhece de cor a fraqueza de cada pessoa em redor, reuniu três peças em uma sala fechada, sem ata, sem testemunha de fora, sem registo nenhum. Ulisses estava ali com aquela expressão de quem tem água pelo pescoço e ainda tenta fingir que estás bem.
A Silvana estava ali com a postura de quem acena, antes mesmo de ouvir a pergunta, porque já aprendeu que desgostar de Pilar tem um preço que não compensa. E Diná estava ali, a governanta que amara Artur em silêncio durante anos, que tinha visto Adriana entrar naquela vida e discutir com ela ainda antes do casamento, e que trazia ao peito um ressentimento que Pilar sabia exatamente o que usar.
A agenda era simples, direta e perigosa. Alinhar os depoimentos que dariam a polícia. O discurso oficial da família Brandão, a partir desse momento, tinha uma única narrativa. Adriana empurrara Artur. Não havia outra versão. Silvana sentiu-a sem pespanejar. Diná concordou com uma seriedade que gelava. Ela não precisava de muito convencimento.
O ódio por Adriana já estava pronto mesmo antes do chamado. Ulisses hesitou por um segundo, por dois, por um silêncio que Pilar observou sem alterar a excreção e depois cedeu como sempre cedia. O que nenhum dos quatro naquela sala tinha calculado é que do outro lado da cidade, dentro de uma esquadra que cheirava a café velho e papel acumulado, um envelope com o relatório da perícia estava prestes a mudar o rumo de tudo.
O investigador entrou na sala do delegado com o documento na mão e uma expressão que dispensava qualquer comentário. O relatório pericial era definitivo. Artur Brandão não havia escorregado na borda da varanda, não tinha tropeçado, não tinha tido um mal súbito. Artur fora empurrado. Era um crime. E alguém presente nessa cobertura, naquele blackout que apagou a luz de tudo, tinha feito aquilo de propósito.
Do lado de fora, Pedro aguardava com Cléber, o amigo e sócio, que partilhava não só o escritório, mas a disposição para lutar por causas que pareciam perdidas. A notícia chegou até -los em segundos, pelo tom do investigador, pela movimentação na sala, pela forma como o delegado atravessou o corredor com um peso diferente nos ombros.
Pedro olhou para Cléber com os olhos carregados do que não queria ter que confirmar, e a voz saiu baixa, pesada. Depois dos depoimentos que Pilar organizou, com aquele discurso alinhado e esta perícia nas mãos deles, Adriana tornou-se formalmente a primeira suspeita. Cléber ficou em silêncio por momentos, processou e quando falou foi diretamente ao ponto, como sempre é.
Então ela precisa de defesa agora de verdade. O Pedro olhou para o corredor vazio. A decisão já estava tomada. Havia mais tempo do que ele queria admitir. Só faltava dizer em voz alta. E enquanto Pedro ainda carregava o peso daquela decisão sem a anunciar para o mundo, do outro lado da cidade, Pilar já descava o número de Ademir, porque o relatório era a ferramenta e o Ademir seria o arma.
Só que o que ela lhe ia pedir naquela conversa era algo que iria mudar não apenas o processo de Adriana, mudaria tudo dentro da família que Ademir tinha construído. Ademir atendeu na primeira chamada. Este pormenor, por si só, já dizia muita coisa sobre a natureza do homem. Advogados do calibre de Ademir não atendem na primeira chamada de qualquer um, mas Pilar não era qualquer um e os dois sabiam disso.
A conversa foi curta. Pilar não perdeu tempo, com preâmbulo. Ela queria que Ademir representasse a família Brandão contra Adriana no processo que estava a ser formando-se em redor da partida de Artur. Queria o melhor, queria o mais rápido e queria o mais eficiente. Ademir ouviu, fez uma breve pausa, o tipo de pausa que não é indecisão, é cálculo, e aceitou.
O que Pilar ainda não tinha dito e o que deixou para a conversa seguinte era a parte que não se fala ao telefone. O que ela não tinha calculado ou tinha calculado e decidido que era um pormenor gerível, é que ao contratar Ademir, ela estava a colocar pai e filho em lados opostos da mesma guerra, porque Pedro era filho de Ademir e Pedro estava naquele preciso momento a decidir silenciosamente que ia defender a Adriana.
A colisão era inevitável, só dependia de quando. Do outro lado da cidade, longe da esquadra e longe dos planos de Pilar, Ulisses chegou a casa com o passo rápido de quem quer atravessar a sala sem ser notado. Não deu. Fábia estava na cozinha e quando o ouviu entrar, ela veio ao seu encontro com aquela expressão de esposa que pergunta mesmo antes de abrir a boca.
Não por desconfiança ainda, mas por costume de partilhar os dias com alguém. Onde você tava ontem à noite quando tudo aconteceu? Ela perguntou direta, sem drama, como se fosse uma pergunta óbvia, que precisava de uma resposta óbvia. Ulisses não pestanejou. A mentira saiu com uma naturalidade que assustaria qualquer pessoa que soubesse o que estava a ser escondido atrás dela.
Ele estava com um amigo. Saíram para jantar. O telemóvel ficou sem bateria. Ele não ficou a saber de nada até chegar a casa. A Fábia ouviu, assentiu, mas alguma coisa, um fio fino, quase imperceptível, do tipo que os anos de convivência criam, sem que ninguém repare, ficou a puxar por dentro. A resposta tinha sido demasiado boa, rápida demais, demasiado redonda.
A noite caiu devagar sobre tudo aquilo e a manhã seguinte chegou com o mesmo peso, mas com uma temperatura diferente, porque o que se estava a mover por baixo dos acontecimentos já não era choque, era estratégia, era o medo disfarçado de ataque, era um processo judicial começando a ganhar forma ainda antes de ter nome oficial.
Pilar acordou cedo com objetivo e a primeira coisa que fez foi marcar o encontro presencial com Ademir, que havia prometido no dia anterior. Quando os dois se sentaram frente à frente dentro de um escritório que cheirava a couro caro e a poder exercido sem culpa, Pilar foi além do que tinha dito no telefonema. Ela não queria apenas que Ademir representasse a família.
Ela queria que ele usasse os seus métodos, os métodos que todos no meio jurídico conhecia em sussurro, mas que ninguém tinha coragem de nomear em voz alta. Os métodos que faziam culpados saírem livres e inocentes saírem condenados quando as circunstâncias pediam. Pilar olhou para Ademir com a serenidade perturbadora de quem não está pedindo um favor, está a fazer uma proposta de negócio e disse com precisão de bisturi.
Eu não quero que ela seja investigada, quero que ela seja condenada e sabe como fazer acontecer. Ademir ficou em silêncio durante um momento, não de hesitação, de avaliação. Depois ergueu ligeiramente a sobrancelha, numa expressão que era ao mesmo tempo reconhecimento e concordância, e respondeu com a calma de quem está a aceitar uma equação já resolvida. Deixa comigo.
Do outro lado da cidade, no mesmo apartamento onde o casamento se tornara nesadelo, Adriana não sabia de nada disto. Não sabia que Ademir tinha sido contratado. Não sabia dos métodos que Pilar encomendara. Não sabia que a muralha que estava a ser construída à sua volta era muito maior e muito mais sólida do que qualquer coisa que ela poderia imaginar.
O que ela sabia é que a porta tinha batido mais uma vez nessa manhã. E desta vez não era um pilar, era um oficial da polícia, com um envelope, com uma expressão neutra, com a frieza burocrática de quem está a executar um procedimento. A Adriana abriu o envelope com as mãos que tentavam não tremer e leu o que estava escrito.
Era uma nova intimação para depor. A segunda. Ela fechou o papel lentamente, respirou fundo e a voz que lhe saiu quando chamou Elisa tinha aquela qualidade de quem está a segurar muita coisa ao mesmo tempo. Eles querem que eu lá volte. A Elisa veio rápido, leu por cima do ombro da filha e o que ela sentiu atravessou o rosto antes de ela pudesse controlar. Era medo.
O tipo de medo que as mães sentem quando se apercebem que não conseguem proteger. Foi nesse momento queel chegou. O avô da Adriana, homem de poucas palavras e muito peso moral, entrou no apartamento com aquele jeito pausado que era a sua marca, como se cada passo tivesse sido pensado antes de ser dado.
Ele olhou paraa neta, olhou à filha Elisa e fez o diagnóstico da situação sem necessitar de relatório. Depois falou com voz firme de quem acredita no que está a dizer. Esse apartamento não é o vosso lugar. Nunca foi. A família de Artur vai fazer de tudo para transformar isto aqui num campo de minado para Adriana. E ficar dentro do campo minado não é coragem, é imprudência. A Adriana olhou para o avô.
Havia amor naquele olhar, mas também tinha resistência. A resistência de quem não quer dar o passo que parece rendição. Vou sair daqui agora é como dizer que tenho algo a esconder. É o que Pilar quer. Otoniel ficou em silêncio por um momento, os olhos dela nos olhos dele e depois respondeu com a paciência de quem já viveu o tempo suficiente para saber quando o terreno por baixo dos pés não é fiável.
Ter a família junta não é esconder nada, é sobreviver. A conversa ficou ali suspensa, sem conclusão, porque a Adriana ainda não tinha decidido e Elisa estava a assistir as duas pessoas que mais amava no mundo, tentando encontrar o equilíbrio num chão que se tinha transformado em areia. O que não sabiam é que, do outro lado desta história, alguém que deveria ser aliado de Adriana estava prestes a mudar de lado.
Não por maldade, ou não só por isto, por amor, por ciúme, por uma confissão que precisava de fazer em voz alta para conseguir respirar. E era Pedro quem carregava aquilo. Pedro encontrou André numa tarde que parecia neutra por fora e era tudo menos isso por dentro. O primo tinha chegado ao Brasil vindo de um longo período no exterior.
Estudos que se estenderam por anos, uma vida construída longe, um distanciamento da família que tinha mais de escolha do que de circunstância. O André era daquele tipo de pessoa que ocupa o espaço com leveza, o que faz questões com um genuíno interesse e que ouve verdadeiramente o tipo de presença que faz com que acabemos por dizer coisas que não planeava dizer.
E foi exatamente isso que aconteceu. Eles estavam sentados, os dois numa varanda com a cidade ao fundo, fazendo com que aquele ruído constante que São Paulo utiliza como fundo sonoro para tudo quando André perguntou pela Adriana. Não com malícia, com legítima curiosidade. A curiosidade de quem chegou ao meio do filme e está a tentar entender os personagens.
Pedro ficou em silêncio durante um momento. O tipo de silêncio que não é hesitação, é decisão. E então começou a falar com uma voz que saiu diferente do habitual, mais baixa, mais despida de defesa. A voz de quem finalmente está dizendo em voz alta algo que ficou de mais tempo guardado no interior. Conhecemo-nos num abrigo depois da enchente.
Eu tinha ido lá voluntariamente. Ela estava lá a ajudar as pessoas que tinham perdido tudo. Era completo caos em redor, água, lama, gente a chorar, gente à procura de gente. E no meio de tudo aquilo, ela a cuidar de um senhor idoso que não parava de chorar, com uma paciência que nunca tinha visto de perto assim.
O André ouviu sem interromper. Pedro continuou e a voz foi ficando mais pesada à medida que as palavras saíam. Eu apaixonei-me naquele dia, não sentido bonito de filme, me apaixonei-me no sentido real, que é quando alguém te mostra quem queres ser e apercebe-se que ainda não chegou lá. Fez uma pausa.
E depois, semanas depois, eu descubro que ela vai casar com o meu padrinho. O André não disse nada por um tempo, deixou aquilo assentar. Depois perguntou logo: “E agora?” O Pedro olhou paraa cidade. Agora ela tá a ser acusada de um crime que não cometeu. E o único maneira que encontrei de olhar para mim mesmo no espelho é defendê-la.
André ficou em silêncio mais um pouco, depois assentiu lentamente, com a expressão de quem compreendeu tudo o que estava a ser dito e tudo o que não estava. O que O Pedro não sabia e o que o André não disse é que aquela conversa estava a ser processada em camadas que iam para além do que as palavras cobriam, porque André tinha chegado ao Brasil com histórias próprias, com um coração que tinha passado anos longe de tudo o que era familiar e com uma capacidade de se envolver com o que estava à sua volta, que ninguém tinha ainda previsto as
consequências. Do outro lado da tarde, Dora estava com Fábia numa sala que tinha todo o conforto material que a vida burguesa oferece e uma tensão por baixo de tudo que o conforto não conseguia esconder. Dora era daquele tipo de mulher que transporta muita coisa com elegância. A escola de dança que herdara e que estava a tentar reerguer o casamento com Ademir, que tinha mais convenção do que paixão há muito tempo, e a consciência de que era madrasta de Pedro, sem nunca ter Conseguiu ser presença suficiente na
vida do enteiado. Fábia ouvia-a com a atenção de quem também tem as suas próprias cargas e reconhece o peso nas costas de outra pessoa. Quando a Dora falou de André, o tom mudou. ficou mais cuidadoso, mais contido, como alguém que está a escolher as palavras com muito mais atenção do que a conversa aparentemente pede. Fico preocupada com o regresso dele.
Não é nada de concreto, é uma coisa que a gente sente. A Fábia olhou para ela com aquela expressão de mulher que sabe mais do que pergunta e não disse nada. Às vezes, o silêncio da outra pessoa é o espelho mais preciso que existe. Dora desviou o olhar. A preocupação que ela sentia com a chegada de André era real, mas a natureza desta preocupação era algo que ela ainda não estava preparada para nomear, nem paraa Fábia, nem para si mesma.
Entretanto, num outro ponto da cidade, em torno de uma mesa que tinha toda a aparência de um almoço de família e toda a substância de uma negociação velada, Thago estava com Silvana, mãe e filho. Ela que circulava no universo Brandão pelo casamento com Belmiro. Ele que tinha construído o seu espaço dentro da ourivesaria de Artur com anos de trabalho ambicioso e de paciência estratégica.
O Tiago olhava para a mãe com aquela expressão de quem está a carregar um pensamento demasiado pesado para ficar calado. E quando a palavra saiu, saiu com o cuidado de quem abre uma janela em dia de temporal, com receio do que pode entrar, mas sem poder mais ficar no abafado. Thago, não consigo acreditar que foi a Adriana.
Eu estava lá aquela noite. Vi-a o tempo todo. Não bate. Silvana franziu o senho, o garfo parado no ar. O que é que você tá a dizer? Thago respirou fundo. Estou a dizer que se alguém da família Brandão foi responsável pelo sucedido com Artur, essa pessoa não é a Adriana. O silêncio que se abateu sobre a mesa era do tipo que pesa.
A Silvana colocou o garfo para baixo com uma calma forçada. Você não pode andar por aí a dizer isso. Tiago olhou paraa mãe. Eu não vou por aí dizendo nada. Estou a dizer para você. Mas as palavras tinham saído e palavras ditas não voltam mais. O que Thago tinha deixado escapar naquela mesa foi uma faísca numa sala que já estava cheia de material inflamável.
Porque se alguém da família Brandão tinha feito aquilo e Thago dissera-o em voz alta, então o discurso que Pilar tinha alinhado com tanto cuidado tinha uma fenda. Uma fenda pequena, talvez. Mas rachadura numa muralha começa assim, pequena. E enquanto essa fenda começava a existir do lado de Thago, do outro lado do mesmo universo, a Fábia estava em casa, quieta, com aquela coisa que não ia embora, puxando-te por dentro.
A resposta de Uliss sobre onde tinha estado na noite da partida de Artur era demasiado perfeita, demasiado rápida. E Fábia conhecia o marido há tempo suficiente saber que Ulisses não era o tipo de pessoa que tinha respostas perfeitas para nada. A desconfiança era ainda vaga, ainda não tinha forma concreta, mas estava ali a crescer devagar, como água que encontra o caminho por baixo de uma porta fechada.
O que ela ainda não sabia é que em poucas horas este vago ia tornar-se betão e o betão ia mudar tudo. Fábia não era o tipo de mulher que faz cena. Nunca foi. Ela tinha aprendido muito cedo pela criação, pelo casamento, pelo tipo de vida que escolheu ou que a escolheu, que a contenção era uma forma de poder, que a mulher que não grita é a mulher que observa.
E ela estava observando Ulisses fazia dias com uma atenção que não tinha percebido, porque quando a atenção da Fábia era total, ela ficava invisível por fora. Era assim que ela funcionava. A tarde estava a passar com aquela lentidão que os dias pesados tá a 1000. E a Fábia estava a mexer em papéis na sala, as contas, os compromissos, a administração doméstica de uma vida que insistia em continuar a organizar-se, mesmo quando tudo à volta estava desmoronando quando o detalhe apareceu.
Não era um pormenor dramático, era do tipo pequeno, quase imperceptível, que só alguém que conhece muito bem o outro consegue perceber. Era uma incoerência na história que Ulisses tinha contado, um horário que não fechava, um nome que ele tinha referiu de passagem que quando ela tentou confirmar mentalmente não se encaixava em lado nenhum do que ela sabia sobre aquela noite.
A Fábia ficou parada com o papel na mão. Não levantou, não foi confrontar, ficou ali processando com aquela calma de quem está na fase anterior ao furacão, a fase em que o ar se torna pesado e parado e o céu muda de cor antes de qualquer vento. Ela foi buscar o que precisava junto da descrição de quem não quer alertar ninguém.
verificou, cruzou e quando a a confirmação chegou, a fria certeza de que Ulisses tinha mentido sobre onde estava na noite em que Artur tinha partido deste mundo, Fábia colocou o papel de volta para a mesa com uma precisão quase cirúrgica. Não amassou, não jogou, colocou com cuidado, como se a própria contenção física fosse a única coisa que estava a impedir o que ela sentia por dentro de transbordar, de tal forma que ela ainda não sabia controlar.
Ulisses havia mentido. Não tinha errado um pormenor, não se tinha esquecido de uma informação. Tinha construído uma versão inteira do início ao fim, sobre onde estava naquela noite. E isto não era lapso de memória. Lápso de memória a gente não ensaia. O lápis de memória não tem aquela velocidade de resposta que tinha tido quando ela perguntou.
A Fábia ficou sozinha com aquilo e o que fazia com que quando confrontava, se confrontava, o que a resposta dela poderia desencadear, era uma questão que ela ainda não conseguia responder. Porque dentro do coração de quem ama alguém, descobrir que esse alguém mentiu sobre algo tão grave não é simples. É uma fissura que parte em várias direções ao mesmo tempo, para o medo do que pode ser verdade, para a raiva de ter sido enganada e para o medo ainda maior do que acontece quando a verdade aparece toda. Do outro lado da cidade, naquele
apartamento que ainda carregava o peso de tudo o que tinha acontecido, Pedro bateu à porta com a firmeza de quem já decidiu o que vai dizer e só precisa encontrar as palavras certas para dizer. A Adriana atendeu. Ela estava com a aparência de alguém que não tinha dormido direito, os olhos com aquele brilho específico de cansaço profundo, os ombros ligeiramente curvados por baixo de um peso que não desaparece quando o pessoa se senta ou quando a pessoa se levanta.
Pedro entrou, ficou de pé por um segundo e depois disse sem rodeios, com a voz firme, que era o resultado de horas de decisão que já tinham passado por dentro dele. “Eu vou ser o seu advogado.” Assumi a sua defesa. Adriana ficou a olhar para ele. Havia gratidão naquele olhar, mas havia também algo mais complexo, mais pesado, a consciência de que aceitar aquilo tinha um custo que não era só dela.
Ela conhecia o Ademir, sabia o que ele representava dentro do campo jurídico, conhecia a reputação que transportava e sabia, pela forma como as peças estavam a encaixar, que Ademir tinha sido contratado pelo lado oposto, que Pedro estaria a enfrentar o próprio pai e que este era um preço demasiado alto para alguém a pagar. A voz saiu baixa, quase em recusa.
Pedro, sabe o que significa? O seu pai está do outro lado. Pedro não desviou o olhar, ficou-lhe nos olhos com uma serenidade que tinha custado muito a construir. Sei exatamente o que significa e já decidi. Adriana ficou em silêncio. havia tentado convencer-se naquelas horas de solidão que a manhã tinha trazido que ela ia conseguir passar por aquilo sozinha ou com algum advogado que não não conhecesse ninguém envolvido, que seria mais simples, mais limpo, menos dispendioso para os outros.
Mas a verdade é que não não havia nada de simples em nenhuma parte daquilo. E o homem que estava parado na frente dela tinha dito uma coisa tão direta e tão carregada que a resistência dela começou a perder a sustentação. Ela sentiu-a devagar, com o peso de quem está a aceitar não só uma defesa jurídica, mas um ato de lealdade que ela sabe que vai cobrar um preço a alguém que não deveria ter de pagar por ela.
Quando o Pedro saiu do apartamento, a noite começava a cair em São Paulo com aquela velocidade que as t noites de inverno na cidade, rápida, definitiva, como se o sol tivesse outro compromisso e não podia esperar. Pedro desceu as escadas com a cabeça cheia e o peito num estado que era ao mesmo tempo resolução e antecipação.
Resolução porque a decisão estava tomada e ele não voltaria atrás. antecipação, porque ele sabia o que vinha a seguir, o momento em que o seu pai descubra que o filho tinha escolhido o lado oposto, que Ademir entendesse que a guerra que havia aceitado travar para Pilar teria Pedro do outro lado da trincheira.
E Ademir já estava a par, porque o Ademir tinha os seus canais, as suas fontes e a informação sobre o que Pedro decidira chegou até ele pelo tipo de caminho discreto que as pessoas de poder constroem ao longo dos anos. Quando a notícia chegou, Ademir estava no escritório a altas horas da noite e a sua reação não foi de raiva imediata.
Foi algo mais frio, mais calculado. A expressão de quem olha para um obstáculo que não tinha previsto com essa exacta forma, mas que já tem recursos para lidar com obstáculos, mesmo quando este obstáculo tem o mesmo apelido que ele. O que o Pedro ainda não sabia é que o pai já estava a pensar em como afastá-lo do caso.
E o instrumento que Ademir tinha escolhido para tal era alguém que Pedro jamais esperaria. A manhã do terceiro dia chegou diferente. Não no tempo, não na luz, não nos sons da cidade que continuava a existir com a indiferença que as grandes cidades têm pela dor particular de cada um. Chegou diferente no peso de quem acordou, já sabendo que hoje era o dia em que as coisas se iam mover de forma a que já não dava para desfazer.
O Pedro tinha dormido pouco, não pelo tipo de insónia que provém do arrependimento, pelo tipo que advém da clareza. Quando sabemos exatamente o que vai fazer e sabe exatamente o que isso vai custar, o corpo não consegue fingir que é uma noite comum. Ele foi até Adriana cedo. Ela ainda estava com o café entocado na mesa quando ele chegou. E havia um silêncio entre os dois que era diferente do silêncio de dias anteriores.
Era um silêncio de véspera, de quem está prestes a atravessar algo sem saber exatamente como vai sair do outro lado. O Pedro ficou de pé na sala, olhou para ela com uma seriedade que não tinha drama, só verdade, e disse com a voz que tinha ensaiado sem querer durante a noite. Precisa de saber que quando eu digo que o vou defender, isso inclui enfrentar o meu pai.
Não é uma possibilidade, é uma certeza. E eu já assumi isso. Adriana ficou em silêncio por um momento. Depois, com os olhos marejando de uma forma que ela tentou conter, mas não conseguiu completamente, ela respondeu com a voz de quem está agradecida e assustada ao mesmo tempo. Eu não quero que pague um preço desse por mim, Pedro.
Ele sacudiu ligeiramente a cabeça. Você não me tá pedindo nada. Sou eu que estou a escolher. E havia uma finitude naquelas palavras que fez com que o ar da sala se alterasse. Enquanto que, do outro lado da cidade, Fábia estava com a Dora. As duas tinham esse tipo de convívio que os anos constróem entre as mulheres que circulam no mesmo universo sem terem necessariamente escolhido umas às outras.
Não era amizade de profunda intimidade, mas era uma relação de reconhecimento múo de quem reconhece, na outra as camadas que existem por baixo do que é mostrado. Fábia chegara tensa, com aquele jeito de quem carrega uma coisa grande e está tentando decidir quanto vai deixar sair. Ficaram um tempo a falar de nada importante e, de seguida, Fábia baixou o tom da voz, não por segredo, mas por gravidade, e disse o que tinha trazido.
Dora, o Ulisses está a esconder algo sobre aquela noite. Não sei o que é ainda, mas está a esconder. Dora ficou em silêncio. Não de surpresa, de reconhecimento. Era o tipo de informação que quando chega a gente percebe que parte de si já estava à espera sem saber. Ela olhou paraa Fábia com uma seriedade que dizia que estava a ouvir de verdade.
O que vai fazer com isso? Fábia ficou em silêncio. Era exatamente a pergunta que ela ainda não conseguia responder. Do outro lado da tarde, numa banca de flores queel cuidava com o mesmo capricho que colocava em tudo o que decidia fazer na vida, uma presença diferente havia aparecido. Francesca chegou com aquele jeito que era só dela, enigmático, pausado, com uma delicadeza que não se explicava, mas que se sentia.
Ela havia cruzado com Otoniel ali outras vezes naquele espaço de flores e de silêncio partilhado. E havia algo entre os dois que nenhum dos dois tinha nomeado ainda, mas que estava ali a tomar forma devagar. Naquela tarde, depois de tudo que tinha sacudido a vida da família de Adriana, Otoniel estava mais calado do que de costume.
O tipo de quietude que não é paz, é peso. Francesca ficou, não foi-se embora com as flores na mão, como de costume, ficou. e ficou em silêncio juntamente com ele, que é a forma mais rara e mais honesta de consolar alguém, sem tentar arranjar o que não tem conserto, sem oferecer palavras que não cabem, só ficando.
Toniel olhou-a de lado, com aquele jeito de homem que não sabe receber carinho sem ficar um pouco sem saber o que fazer, e disse baixinho: “Nem me conhece direito?”, Francesca respondeu sem teubar. Conheço o suficiente para saber que não está bem e que não ia querer estar sozinho. Otoniel não respondeu, mas algo nele se afrouchou 1 mil.
E às vezes 1 mm é tudo que a dor necessita para respirar. Num canto diferente da cidade, Elenice estava com Rosa numa conversa que começou como um desabafo e terminou como revelação. Elenice carregava há tempos as dificuldades do casamento com Tom, um homem que oscilava entre momentos de brutalidade e momentos de reconhecimento, que a magoava com palavras e depois voltava com gestos que confundiam tudo.
Rosa ouvia-a com a seriedade de quem já viu esta história de perto e sabe onde ela costuma terminar. Mas Elenice, no fim dobrou sobre si própria e disse o que dizia sempre. No fundo, ele não é mau. Ele só tem muito lá dentro. A Rosa ficou com aquilo, não concordou, mas ficou. E depois veio o que ninguém esperava.
A Bruna havia passado dias furiosa. A raiva que ela sentia não era simples, era composta por ciúme, de humilhação e de amor mal resolvido por um homem que tinha optou por ficar do lado de outra mulher no momento mais complicado possível. Pedro tinha tomado uma decisão e essa decisão tinha afastado Bruna do centro de uma história onde ela acreditava ter lugar garantido.
Então ela fez o que fazem as pessoas que não sabem transformar a dor em silêncio, procurar alguém que lhe pudesse dar o que ela precisava e foi ter com Ademir. Ela chegou ao seu escritório com aquela mistura de determinação e fragilidade que tornava difícil saber exatamente o que ela estava a pedir antes de ela abrir a boca.
disse que precisava de ajuda para reaproximar-se de Pedro, que havia algo que não estava a funcionar entre eles desde essa noite e que ela não sabia como reconstituir o espaço que havia perdido. Ademir ouviu com toda a atenção que um homem como ele oferece quando reconhece que a pessoa que está à sua frente é ao mesmo tempo, alguém vulnerável e alguém inútil.
Ele recostou-se na cadeira, juntou as pontas dos dedos e quando falou foi com a calma daquele que está a propor um negócio e não está com pressa de fechar. Eu posso ajudá-lo com o Pedro, mas toda a ajuda tem uma contrapartida. Bruna franziu ligeiramente o senho. O quê? Ademir não sorriu. Ficou grave que era mais assustador do que sorri e disse com a voz que tinha ensaiado sem querer durante a noite.
Vai convencer o Pedro a abandonar a defesa de Adriana. Ele ouve-o. Use isso. Bruna ficou parada. Havia um conflito a passar por dentro dela que ela tentou não deixar aparecer no rosto. O conflito de quem quer o que está a ser oferecido, mas reconhece o preço. Então Ademir levantou-se, sinalizando que a conversa tinha terminado da forma que lhe convinha, e Bruna saiu do escritório com uma decisão a tomar e um peso que ela não tinha previsto carregar quando entrou.
Naquela mesma tarde, Ademir procurou Pedro, não em casa, não escritório, mas num encontro que parecia casual e não era nada disso. Os dois ficaram frente à frente, pai e filho, cada um sabendo o que o outro sabia, cada um escolhendo quanto ia mostrar que sabia. Ademir não ameaçou, não explodiu, fez algo mais eficiente, foi direto com a serenidade fria de quem tem mais recursos do que o outro.
Você está a cometer um erro que vai custar caro, não para mim, para si. Pedro olhou para o pai sem pestanejar. Já considerei o custo. Ademir estudou o filho durante um segundo, depois assentiu levemente com aquela expressão de quem regista uma informação e arquiva para uso futuro, e foi-se embora, sem barulho, o que era mais perturbador do que qualquer confronto.
Mas enquanto Ademira armava o seu próximo movimento em silêncio, algo do outro lado daquela história foi em contramão de tudo o que era calculado. A Adriana havia ligado ao avô, não com argumento, não com lista de razões, só com a verdade que estava dentro dela a tentar sair faz dias. Vou, preciso de ti perto.
Não consigo fazer isso sozinha. Toniel ficou em silêncio do outro lado da linha por um momento. Aquele tipo de silêncio de quem estava à espera desta frase sem saber que estava à espera. E então disse com a voz que só fica com aquela textura depois de muita vida vivida. Tô indo. Quando Toniel chegou ao apartamento de Artur, com uma mala pequena e aquele jeito pausado de entrar nos lugares como se tivesse a chegar para ficar, a Adriana foi ter com ele e ficou parada à sua frente, sem conseguir falar nada. Ele abriu os braços, ela
foi. E o abraço de avô que ela recebeu ali, firme, sem pressas, do tipo que não tem um prazo para acabar, era a coisa mais semelhante ao chão sólido que ela tinha sentido em dias. Elisa, que estava na sala observando, limpou o olho com o pulso sem tentar esconder, porque naquele apartamento que se tornara símbolo de tudo o que tinha corrido mal, uma coisa pequena e real tinha dado certo. A família estava novamente junta.
E Pilar, que monitorizava cada movimento de Adriana através dos seus canais, ainda não sabia que uma família unida é muito mais difícil de destruir do que uma pessoa sozinha. Achou certo, Pilar contratar a Demir para utilizar métodos sujos contra a Adriana? Que nota de zero a 10 ela merece por esta frieza toda? Coloca a tua resposta nos comentários.
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