Riram de Pelé Quando Ele Trabalhava num Supermercado — Não Sabiam Quem Ele Se Tornaria

PARTE 1

O dono do armazém na esquina da Ruben Zarruda em Bauru não sabia quem era aquele rapaz que varria o chão da loja todas as manhãs antes das 7. Os clientes que passavam e viam aquele miúdo magro, descalço, empilhando latas de óleo e sacos de feijão atrás do balcão, também não sabiam. Ninguém naquela rua sabia.

Ninguém naquela cidade inteira do interior de São Paulo fazia a menor ideia. O Sr. Geraldo, dono do armazém, homem de bigode ralo e opinião mais larga que a calçada, havia uma frase que repetia todas as semanas, sempre em voz alta, sempre quando havia gente a ouvir. Esse é o filho do Dondinho. Vai terminar igualzinho, a correr atrás de bola sem ter dinheiro nem para o pão.

 Os clientes riam, o entregador de gás ria. O cobrador da Light que passava toda a terça-feira ria. Edson não se ria. Edson baixava a cabeça, passava o pano ao balcão e saía pelos fundos sem dizer uma palavra. O que o senhor Geraldo não podia saber? O que nenhuma pessoa dentro daquele armazém que cheirava a quereroseneão em barra podia sequer imaginar naquele ano de 1954.

Era que em menos de 4 anos aquele menino ia estar de joelhos num relvado gelado da Suécia, chorando nos braços de Gilmar, com 17 anos, dois golos numa final do Mundial e o planeta inteiro, repetindo um nome que ainda não existia naquela calçada de Bauru, Pelé. Não foram palavras que responderam ao riso do senhor Geraldo.

 Foram 1283 golos, três Campeonatos do Mundo e uma vida que mudou o que o mundo entendia por futebol. Mas esta história não começa no estádio Rosunda em Estocolmo, não começa no balneário dos Santos, não começa sequer dentro de um campo de futebol. Ela começa num armazém de uma pequena cidade com chão de cimento frio e prateleiras de madeira torta, onde um rapaz de 13 anos aprendeu que o silêncio, por vezes é a única resposta que um miúdo pobre pode dar quando um homem adulto ri-se da cara dele na frente de todo o mundo. Esta é a história que

ninguém contou bem. Não é a história do génio, é a história do menino que transportava caixa e ouvia calado. e do que aconteceu quando o mundo inteiro parou de rir. Antes de continuar, deixa-me te pedir uma coisa rápida. Se gosta deste tipo de história que ninguém contou direito, subscreve o canal agora. Ajuda mais do que parece.

 Um like e um comentário dizem ao algoritmo que este vídeo importa e é isso que mantém este tipo de conteúdo vivo. Agora volta comigo. A partir daqui, a história avança devagar. O que aconteceu naqueles anos em Bauru precisa de ser contado sem pressas, porque foi sem pressa que a humilhação foi-se instalando. Manhã após manhã, moeda após moeda, riso após riso.

 E foi sem pressas que Edson Arantes do Nascimento aprendeu a guardar dentro de si uma coisa que nenhum treinador do mundo ensina e nenhum livro de tática explica. Quantas vezes um rapaz de 13 anos pode ouvir que não não vale nada antes de começar a acreditar nisso? Em que momento a pobreza deixa de ser circunstância e transforma-se em sentença na boca dos outros? O que acontece dentro de um miúdo que cresce a ver o próprio pai ser chamado de falhado por uma cidade inteira e que jura em silêncio, olhando para o tecto de noite, que com ele

vai ser diferente? E quando o mundo finalmente reconhece quem é, o que resta dizer ao homem que se riu? Estamos em Bauru, o interior de São Paulo, 1954. Não há televisão na maioria das casas. O futebol chega pela rádio Philips do Bar da Esquina e pelos jornais amassados ​​em cima do balcão.

 Não existe qualquer contrato de base, não há empresário, não há escola de futebol. Um menino pobre do interior de São Paulo não tem caminho traçado para lado nenhum. O que ele tem é a rua, a bola de meia, os pés descalços no asfalto quente e a esperança surda de que alguém, em algum momento olhe para ele e veja alguma coisa que os outros não viram.

O armazém do senhor Geraldo ficava na esquina da Ruben Zarruda, com a travessa que descia para o ribeiro, numa região de Bauru, onde as casas tinham um quintal de terra batida e portão de madeira que nunca fechava bem. Era um só quarto, comprido e estreito, com prateleiras dos dois lados que iam do chão até quase ao teto.

PARTE 2

 latas de óleo de algodão, pacotes de farinha de milho, rolos de corda, querosene em garrafas de vidro escuro, sabão em barra embrulhado em papel pardo. O chão era de cimento grosso, sempre com uma camada fina de pó que voltava 10 minutos depois de varrido. Edson chegava antes das 7, quando o senhor Geraldo ainda nem tinha virado a placa na porta.

 entrava pelos fundos, pegava na vassoura que ficava encostada atrás da pilha de caixas de fósforos e começava a varrer sem que ninguém tivesse de mandar. A rotina era sempre a mesma: varrer o chão, limpar o balcão com um pano húmido que estava pendurado num prego ao lado da balança, empilhar as latas novas que o senhor Geraldo deixava numa caixa de madeira perto da porta das traseiras.

Separar os pacotes de arroz por peso, trocar o querosene da lamparina que ficava no canto perto do caderno de fiado. Não tinha horário de entrada escrito em lado nenhum. Não tinha carteira, não tinha registo, não tinha nada que dissesse que aquele miúdo trabalhava ali de verdade. Mas Edson aparecia todos os dias, todos os santos dias, porque a dona Celeste tinha dito uma vez, sem levantar a voz, olhando-o por cima do fogão a lenha, que enquanto não tivesse idade para fazer outra coisa, ia trabalhar no armazém e ajudar a casa. E

quando a dona Celeste dizia uma coisa uma vez, não era preciso dizer de novo. O senhor Geraldo era um homem que gostava de falar, falava com os clientes, falava com os estafetas, falava com o cobrador, falava sozinho quando a loja estava vazia, falava sobre o preço do café, sobre a política de Bauru, sobre o equipa do Noroeste e sobre tudo o que achava errado no mundo.

 Mas o assunto favorito do senhor Geraldo era o fracasso alheio. Ele tinha uma capacidade peculiar para encontrar a fraqueza dos outros e transformar em piada de balcão. O açueiro que tinha falido, o professor que bebia, o vizinho que não pagava o fiado e, sobretudo, Dondinho, o jogador que não o foi. O Geraldo nunca tinha visto o Dondinho jogar, não tinha ido ao estádio em três corações.

 Não sabia diferenciar um avançado-centro de um extremo direito, mas sabia que Dondinho coxeava, que não tinha emprego fixo, que a família vivia apertada e que o sonho do futebol não tinha dado em nada. E isso bastava. Isso era suficiente para que o senhor Geraldo, cada vez que o Edson passava por ali com a vassoura na mão, soltasse um comentário e arrancasse uma riso de quem estivesse por perto.

Edson ouvia, ouvia tudo, ouvia o tom de voz, ouvia a pausa antes da piada, ouvia o riso dos outros, a ouvia o silêncio que vinha depois e não respondia, nunca respondeu. passava o pano no balcão, ajeitava as latas na prateleira, saía pelas traseiras e ia embora. O caminho de regresso a casa era sempre o mesmo, pela travessa do ribeiro, subindo pela rua de paralelepípedo até à esquina onde a mangueira fazia sombra.

 Depois, dobrando à direita até à casa de portão azul, onde a dona Celeste aguardava com o almoço. Edson fazia este caminho em silêncio, com as moedas no bolso e com uma coisa dentro do peito que não sabia nomear. Não era raiva, porque a raiva faz barulho. Não era tristeza, porque a tristeza faz chorar. Era uma outra coisa.

 Uma coisa que estava parada no fundo, quieta, como brasa coberta de cinzento. e que só se revelaria anos mais tarde num campo de futebol do outro lado do mundo. O Dondinho coxeava. Não era uma asneira que toda a gente notasse de cara, mas quem olhasse com atenção via que a perna direita dele arrastava meio centm que a esquerda quando descia a rua de manhã cedo.

João Ramos do Nascimento tinha sido jogador de futebol, avançado-centro, cabeceador de área, um homem que diziam ter marcado cinco golos num só jogo pelo Atlético de Três Corações, antes de o joelho direito ceder de vez numa dividida que já ninguém se lembrava direito. A história mudava consoante quem contava.

 Uns diziam que tinha sido uma falta violenta num clássico contra o Tupi. Outros diziam que foi num treino sem público, sem importância, num lance banal que destruiu o que o talento tinha construído. O Dondinho nunca corrigia ninguém. Quando perguntavam, ele olhava para o chão, dava de ombros e mudava de assunto. Em Bauru, Dondinho era a cena apenas o homem do joelho rebentado, o ex-jogador que não deu em nada, o sujeito que varria à frente de casa de manhã e que por vezes aparecia no campinho do bairro para bater à bola com os mais velhos, coxeando

entre os miúdos que nem sabiam que ele já tinha vestido uma camisola de uma equipa profissional. A cidade inteira tratava Dondinho como exemplo do que acontece quando um homem aposta tudo no futebol e perde. Era uma lição que os pais repetiam aos filhos. Era uma história que os vizinhos usavam para justificar a própria prudência.

 Viu o Dondinho? Podia ter aprendido um ofício, ter-se tornado pedreiro, ter feito qualquer coisa de útil, mas foi atrás de bola. E olha lá, O Edson ouvia isso dentro de casa, na rua, no armazém, na escola. Ouvia dos adultos que não conheciam o pai, a dos miúdos que repetiam o que os pais diziam e dos vizinhos que falavam na calçada com voz suficientemente alta para que chegasse por cima do muro.

 E o que doía mais a Edson não era a frase em si, era ver o Dondinho ouvir aquilo em silêncio, com a mesma mansidão de sempre. sem levantar a voz, sem cerrar o punho, sem olhar para ninguém nos olhos para dizer que a história não era bem assim. Dondinho aceitava, aceitava com o mesmo silêncio com que coxeava pela rua toda manhã, como se o joelho rebentado fosse a prova definitiva de que o mundo tinha razão e ele tinha errado.

 Mas dentro de casa, longe dos olhares da rua, Dondinho era outro homem. Não era o falhado que Bauru descrevia. Era um pai que sentava-se na beira da cama do filho à noite e falava de futebol como quem fala de uma coisa sagrada. Contava sobre dribles que tinha dado e sobre golos de cabeça em jogos que mais ninguém lembrava-se.

 Sobre a sensação de entrar num campo e ouvir os adeptos gritarem o nome dele. Edson ficava deitado, com os olhos abertos no escuro, ouvindo cada palavra. Não perguntava nada, apenas ouvia. E quando Dondinho levantava-se e saía do quarto coxeando, Edson ficava ali sozinho, olhando para o teto, pensando naquela coisa que não sabia nomear.

 A mesma brasa coberta de cinza, que ardia baixo e constante e que ninguém via. Não era um plano, não era uma promessa, era apenas a certeza surda de que a história do pai não podia ser a sua história, de que o O joelho de Dondinho não tinha a última palavra, de que em algum lugar tinha de existir uma hipótese de provar que aquele apelido valia mais do que a calçada de Bauru achava.

A primeira bola que Edson rematou com alguma intenção não era uma bola. Era uma meia velha de Dondinho, enrolada com outras três meias, atadas com cordel e socada com papel de jornal, até ficar redonda o suficiente para fazer ressaltar duas vezes no chão antes de perder a forma. Na rua 7 de Setembro, todas as tardes depois das 4, quando o sol começava a descer e o asfalto arrefecia o bastante para aguentar os pés descalços, juntava um grupo de 8, 10, às vezes 15 miúdos que dividiam duas equipas e jogavam usando

chinelos de borracha como trave. O Edson era o mais pequeno do grupo, tinha pernas finas e ombros estreitos, mas fazia uma coisa que os outros não faziam. Quando a bola de meia chegava ao pé esquerdo dele, ela parava, não escorregava, não saltava para o lado, parava ali, colada no peito do pé, como se tivesse encontrado um lugar onde cabia.

 Os outros meninos não entendiam como. O Edson também não. A mais fazia uma e outra vez. E cada vez que fazia, a brincadeira de rua, parava por um segundo, porque alguém tinha percebeu que aquilo não era normal. Dondinho via. Ficava sentado no meio-fio do outro lado da rua, por vezes com uma caneca de café na mão, por vezes sem nada, e observava o filho sem dizer uma palavra.

 Não corrigia, não aplaudia, não ensinava jogada nenhuma, só olhava. E quando Edson regressava a casa com os pés pretos de asfalto e a meia desfeita na mão, o Dondinho dizia apenas uma coisa, sempre a mesma, quase num sussurro. tá melhorando. Duas palavras, duas palavras que pesavam mais do que qualquer instrução técnica, porque vinham de um homem que sabia o que era dominar uma bola e que compreendia, melhor do que qualquer treinador do interior de São Paulo, que o que o filho fazia ali no meio da rua, descalço, a com uma meia amarrada, não era coisa de miúdos

comum. A pelada da rua 7 de Setembro não tinha juiz, não tinha farda, não tinha placar. Começava quando o primeiro miúdo aparecia e terminava quando a mãe de alguém gritava da janela. Mas para o Edson aquilo era outra coisa. Era o único momento do dia em que o mundo se organizava de uma forma que fazia sentido.

 No armazém, era o miúdo que varria chão e ouvia piadas. Em casa, era o filho do jogador que não deu certo. Na escola era o menino calado que sentava-se no fundo e não falava. Mas ali no meio da rua, com a meia nos pés, ele era outra coisa. Não precisava de explicar, não tinha de responder, não tinha provar nada com palavras. A bola falava.

E o que dizia a bola toda a tarde na rua 7 de setembro era tão claro que até os rapazes mais velhos e que normalmente empurravam os mais novos para fora do jogo começaram a querer Edson na equipa deles. Não por caridade, por necessidade, porque com ele na equipa ganhava. O Sr.

 Geraldo pagava ao Edson duas moedas e meia de cruzeiro por dia de trabalho, às vezes três, quando o miúdo ficava até depois do meio-dia descarregando a entrega que vinha de camião toda quarta-feira. Não era salário, não era combinado formal, era o que o senhor Geraldo decidia que valia o serviço de um rapaz de 13 anos que não tinha escolha.

 Dona Celeste sabia quanto recebia o filho. Sabia que não era justo. Mas justo era uma palavra que não cabia na mesa de uma casa onde o arroz do jantar dependia daquelas moedas. Edson levava o dinheiro para casa todo dia. Se colocava em cima da mesa, sem contar à frente da mãe, e ia para o quintal chutar a bola de meia contra o muro até escurecer.

Naquela casa da esquina do portão azul, o dinheiro era contado centavo por cêntimo. A Dona Celeste conhecia o preço de cada coisa no armazém do senhor Geraldo melhor do que ele próprio, porque ela é que ia lá comprar o feijão, o arroz, o óleo, o sabão e, por vezes, voltava sem metade das coisas porque não dava.

O Dondinho fazia biscates, consertava cerca quando alguém chamava, ajudava na horta do vizinho, transportava caixa na feira quando o joelho deixava, mas não era todos os dias e não era todos os meses que dava para juntar o suficiente. Havia semanas que o jantar era arroz com ovo e uma chávena de café com leite.

 Tinha semana que nem o leite tinha. Edson entendia. Entendia sem que ninguém precisasse de explicar. Aí entendia quando a dona Celeste olhava para o prato vazio e não dizia nada. Compreendia quando Dondinho saía de manhã cedo e regressava ao fim do dia com as mãos sujas e os bolsos mais vazios do que quando saiu. Entendia que as duas moedas e meia que que ganhava no armazém não eram pouco porque o senhor Geraldo era mau.

 Eram pouco porque o mundo era assim. Porque menino pobre de Bauru, em 1954 não tinha opção, não tinha margem, não tinha alternativa, tinha o armazém, a vassoura, o balcão e a voz do seu Geraldo, dizendo que ia acabar igualzinho ao pai. E era precisamente nessa altura que a brasa acendia, não de forma visível, não de forma que alguém pudesse reparar.

 Edson não batia na mesa, não chorava. não fazia discurso, mas alguma coisa dentro dele, cada vez que o senhor Geraldo soltava aquela frase, se apertava um pouco mais, de como um nó que vai ficando mais firme a cada puxada. Não sabia para que servia aquele nó. Não sabia onde ia dar. Só sabia que não ia soltar, que ia segurar ali, quieto, calado, varrendo chão, empilhando lata, levando moeda para casa, até que o mundo desse uma resposta diferente, ou até que ele arrancasse essa resposta à força.

 Na tarde de um sábado de 1954, um homem que ninguém do bairro conhecia apareceu na lateral do campinho do BAC, o Bauru Atlético Clube, onde os miúdos da categoria de juvenis treinavam três vezes por semana num relvado cheio de falhas e com uma baliza que só tinha rede de um lado. O homem usava chapéu de feltro, camisa social com as mangas arregaçadas e sapatos que não eram de Bauru.

 ficou ali parado durante 40 minutos, de braços cruzados, sem falar com ninguém. Ninguém sabia quem era, ninguém perguntou. Valdemar de Brito tinha sido jogador da selecção brasileira em 1934. Tinha corrido o mundo, tinha jogado na Europa numa altura em que um jogador brasileiro ir paraa Europa era coisa de outro planeta.

 tinha visto coisa que a maioria dos treinadores do interior de São Paulo não ia ver na vida. E naquela tarde viu um rapaz de 13 anos fazer três coisas com a bola que ele só tinha visto um jogador fazer antes. E esse jogador era ele próprio. O campinho do BAC não era grande coisa. Um retângulo de erva irregular com marcas de cal que já tinham desaparecido em vários pontos.

 O golo do lado norte tinha uma trave de madeira rachada. O do lado sul não tinha rede. Os miúdos que ali treinavam eram filhos de operário, de lavadeira, de pedreiro. Os rapazes que jogavam de chinelo ou descalços, que não tinham farda, o que por vezes dividiam chuteira entre dois, porque só havia um par para todo o mundo.

 Valdemar não disse nada durante aqueles 40 minutos, ficou parado na lateral com os braços cruzados e o chapéu fazendo sombra nos olhos. Observou cada um dos miúdos, observou como recebiam, como passavam, como se movimentavam. E depois fixou o olhar num deles, o mais pequeno, o mais magro, o que jogava com uma naturalidade que não se ensina.

 Edson não sabia que estava a ser observado. Não sabia que aquele homem de bom sapato e chapéu de feltro tinha vindo de Santos especificamente para o ver. Porque alguém em Bauru, um conhecido de Dondinho, que tinha vagas ligações com o futebol paulista, tinha enviado um recado a dizer que estava ali um menino que precisava de ser visto.

 O Edson jogava como jogava todos os sábados. Driblava, passava, pontapeava, errava, acertava. caía, levantava-a sem pensar em quem estava a olhar, sem pensar em mais nada para além da bola e do golo. E foi exatamente isso que convenceu Valdemar. Não foi um lance específico, não foi um golo bonito, foi a forma, a maneira como aquele miúdo magro de 13 anos tratava a bola como se fosse uma extensão do corpo, como se ela obedecesse antes de ele pedir.

 Valdemar tinha visto isso em si próprio quando era jovem e não tinha visto em mais ninguém desde então até àquela tarde. Quando o treino terminou e os miúdos começaram a sair do campo, Valdemar caminhou até ao treinador da formação do BAC, um homem chamado Seu Nestor, que usava um apito de metal pendurado ao pescoço e que treinava aqueles rapazes mais por amor do que pelo salário.

 Valdemar apertou-lhe a mão, apresentou-a e disse uma frase que o senhor Nestor repetiria para o resto da vida para quem quisesse ouvir. Quem é aquele rapaz de camisa rasgada que joga na ala esquerda? O seu Nestor respondeu: “É o Edson, filho do Dondinho.” Valdemar tirou o chapéu, passou a mão pela testa, olhou para o campinho vazio e disse apenas: “Eu preciso de falar com o pai dele”.

A conversa decorreu numa noite de quinta-feira com a porta da cozinha fechada e uma lâmpada fraca pendurada no teto por um fio entrançado. A Dona Celeste estava de pé, encostada ao fogão a lenha. O Dondinho estava sentado na ponta da mesa, com as mãos cruzadas e o olhar fixo na toalha de plástico. Valdemar de Brito tinha ido a casa deles naquela tarde.

 Tinha-se sentado naquela mesma cadeira, tomado um café sem açúcar e dito uma frase que ficou no ar da cozinha como um cheiro que não sai. Ah, Quero levar o menino para Santos. A Dona Celeste não respondeu de imediato. O Dondinho também não. Valdemar saiu e o silêncio que se manteve entre marido e mulher era o silêncio de quem sabe que a resposta vai mudar tudo.

 Naquela noite, ninguém dormiu descansado na casa do portão azul. Dondinho ficou sentado à beira da cama até tarde, com as mãos apoiadas nos joelhos, a olhar para a parede. Dona Celeste deitou-se, mas ficou com os olhos abertos escutando os barulhos da rua. O cão do vizinho, o vento nas telhas.

 O Edson dormiu, mas acordou duas vezes. Uma porque ouviu a voz da mãe sussurrando qualquer coisa no quarto ao lado e outra porque sonhou com um campo de futebol que não conhecia. Um campo verde, enorme, com bancadas em volta e uma luz branca que vinha de cima. Não sabia que campo era aquele, não sabia que cidade era aquela. Ah, mas no sonho ele estava lá dentro.

 e o campo era dele. A Dona Celeste não queria que o filho fosse. Isso ficou claro nos dias seguintes, não pelo que ela disse, mas pelo que fez. Passou a cozinhar mais devagar, como quem quer esticar o tempo. Passou a olhar para o filho de um jeito diferente quando saía de manhã para o armazém.

 Passou a arrumar o quarto dele com um cuidado que antes não tinha. Dondinho percebia. Percebia e não dizia nada porque sabia que a dona Celeste tinha razão de ter medo. Santos era longe, Edson tinha 13 anos. E a história de menino pobre que vai tentar a vida no futebol profissional em 1954 era uma história que quase sempre acabava mal.

 Terminava com o menino regressando seis meses depois, sem dinheiro, sem estudo e com mais uma prova de que os pobres não têm direito de sonhar alto. Mas Dondinho também sabia outra coisa. Sabia que o filho tinha o que ele próprio tinha tido. E mais, sabia que o que ele viu naquele campinho do BAC e o que Valdemar de Brito viu não era talento comum, era a coisa real.

 A coisa que aparece uma vez em cada geração e que, se não for cuidada, se perde no meio da poeira de cidades como Bauru, sem que nunca ninguém fique a saber. Dondinho carregava dentro de si o peso de ser a prova viva do que acontece quando o talento se perde e não ia deixar o filho carregar o mesmo peso. A conversa final entre marido e mulher aconteceu três dias depois da visita de Valdemar.

A Dona Celeste chorou. O Dondinho chorou também, mas para dentro, da forma que choram os homens que aprenderam a não mostrar. No fim, a dona Celeste disse apenas: “Se ele quiser ir, eu não vou impedir, mas que Deus tome conta, a porque não vou poder.” Na segunda-feira, o senhor Geraldo abriu o armazém às 6:40, como fazia todos os dias.

Pendurou o avental, acendeu a luz do fundo, verificou o caixa e esperou. Às 7:05, o miúdo não tinha aparecido. Às 7:20, ainda não. O Sr. Geraldo foi até à porta, olhou para a rua vazia e voltou para o balcão, resmungando que o miúdo de hoje não tem palavra. Não sabia que o Edson naquele momento estava dentro de um autocarro a abanar na estrada para São Paulo, sentado ao lado de Valdemar de Brito, com uma mala de cartão no colo, um par de chuteiras emprestadas dentro da mala.

 e uma vontade de chorar que ele segurou, apertando os dentes até à mandíbula doer. O autocarro era um daqueles modelos velhos que faziam a linha do interior até à capital, com bancos de couro rachado e janelas que não fechavam direito. A, o motor roncava alto nas subidas e o cheiro a gasóleo entrava pela fresta da janela do fundo.

Valdemar ia no banco ao lado, de pernas cruzadas, lendo um jornal dobrado que tinha comprado na estação rodoviária de Bauru antes de embarcar. Não falou muito durante a viagem. Disse apenas, logo no início, que iam diretamente para Santos, que ali tinha um local para Edson ficar e que no dia seguinte ia treinar com os miúdos da formação.

 Edson assentiu com a cabeça, não perguntou nada. Não porque não tivesse perguntas, mas porque havia tantas que não sabia por qual. A estrada entre Bauru e Santos era longa, mais de 400 km de asfalto irregular, curvas na serra e paragens em pequenas cidades que Edson nunca tinha ouvido falar. Olhava pela janela e via o interior de São Paulo passar devagar.

 Fazendas de café, pastagens com gado magro, as pequenas cidades com igreja no centro e praça com coreto. Tudo aquilo era novo, tudo aquilo era demasiado grande. E a cada quilómetro que o autocarro avançava, Bauru ficava mais longe. O armazém, o balcão, a vassoura, o senhor Geraldo, as moedas, o riso dos clientes, a meia de Dondinho, a rua 7 de setembro, o campinho do BAC.

Tudo ficava para trás e à frente só tinha o desconhecido. Edson não chorou durante a viagem. Segurou. Segurou como segurava no armazém. Como segurava quando ouvia a piada do senhor Geraldo. Como segurava quando via o Dondinho coxear pela rua sem reclamar. Segurou porque era a única coisa que sabia fazer com o que sentia.

 Mas quando o autocarro começou a descer a serra em direção ao litoral, e viu o mar pela primeira vez na vida, uma faixa azul no horizonte, larga, quieta, a maior do que qualquer coisa que ele tinha imaginado. Alguma coisa dentro dele soltou-se por um segundo. Não foi choro, não foi sorriso, foi uma espécie de susto calmo, de percepção muda, de que o mundo era muito maior do que a esquina da Rubensuda e que ia para dentro dele.

O balneário da Vila Belmiro, em junho de 1956, era um local que não tinha sido feito para meninos. Cheirava alinimento, suor velho e cigarro. As chuteiras de couro pesado ficavam penduradas pelos atacadores em pregos espetados na parede. Os armários de madeira não tinham porta. A luz fluorescente do tecto piscava de vez em quando e ninguém se incomodava.

Quando Edson ali entrou pela primeira vez, com 15 anos acabados de fazer, uma mala de cartão na mão e os olhos arregalados de quem nunca tinha visto um balneário profissional, tinha três jogadores do equipa titular do Santos levantaram a cabeça, olharam para ele durante 2 segundos e voltaram a conversar entre si como se nada tivesse acontecido.

 Tinham passado quase do anos desde que Valdemar de Brito tinha trazido Edson para Santos. Dois anos de treino na base, de adaptação a uma cidade que não era a dele, de saudade que apertava toda a noite quando a pensão estava quieta e ele ficava sozinho no quarto a olhar para o teto. A pensão ficava a quatro quarteirões da aldeia Belmiro, numa rua estreita com casas geminadas e varais cruzando de um lado ao outro.

O quarto era pequeno, uma cama de solteiro, um armário de contraplacado e uma janela que dava para um muro. Edson partilhava a casa de banho com outros três pensionistas, homens mais velhos que trabalhavam no porto e que chegavam tarde a cheirar a sal e a óleo de máquina. Não era confortável, não era bonito, mas era o que havia.

 Nos treinos da base, Edson fez o que fazia na rua 7 de setembro, só que agora com uma bola de cabedal, chuteira nos pés e campo de verdade. Os treinadores da base dos Santos perceberam rapidamente o que Valdemar de Brito tinha percebido no campinho do BAC. Aquele menino não era comum, não era apenas habilidoso, era inteligente de bola.

 Sabia onde o espaço ia abrir antes de abrir, sabia quando acelerar e quando esperar. sabia coisas que ninguém tinha ensinado e que ninguém ia conseguir ensinar, porque vinham de um lugar que não tem nome. Talvez da rua 7 de Setembro, talvez do quintal da dona Celeste, talvez de alguma coisa que O Dondinho tinha-lhe passado naquelas noites em que se sentava à beira da cama e falava de futebol como quem fala de religião.

 O Santos, de 1956, era uma equipa em construção. Ah, tinha jogadores experientes. Zito, que em breve se tornariam referências, mas não eram ainda os santos que o mundo conheceria. A vila Belmiro era um modesto estádio de betão e madeira, com capacidade para pouco mais de 20.000 pessoas quando lotava. O relvado era bom, bem cuidado, mas tudo à volta tinha uma simplicidade que contrastava com o que o clube viria a representar nos anos seguintes.

Quando Edson foi promovido à equipa profissional, ninguém fez um discurso, ninguém parou o treino para apresentar. Lúcio de Mendonça, o técnico, chamou-o num canto, disse que ia ficar no banco no jogo seguinte e mandou-o ir trocar de roupa no vestiário dos profissionais. O Edson foi, entrou naquele balneário que cheirava alinimento e cigarro, procurou um canto vazio, colocou a mala de cartão no chão e ficou ali parado, sem saber o que fazer.

 A ninguém veio falar com ele, ninguém veio dar as boas-vindas, ninguém veio perguntar como se chamava, era apenas mais um miúdo da base que tinha subido à equipa de cima. E miúdo da formação na aldeia Belmiro de 1956 era menos do que invisível, era tolerado. Foi Zito quem primeiro olhou para ele verdadeiramente, não naquele dia, mas uns dias depois, num treino em que Edson fez um drible de corpo que deixou dois titulares no chão.

 Zito parou, olhou para o miúdo, olhou para o Pep e disse uma coisa que Pep guardou na memória. Presta atenção a este miúdo. Ninguém faz isso aos 15 anos. Pep olhou, deu de ombros e voltou a treinar. Mas a partir desse dia, os dois passaram a observar Edson com uma atenção diferente. Não era proteção, não era amizade, era ainda reconhecimento.

O tipo de reconhecimento que só um jogador de verdade sabe dar a outro jogador de verdade. No dia 29 de junho de 1958, o estádio Rossunda, em Sona arredores de Estocolmo, estava lotado com 51.800 18 pessoas que tinham ido ver a Suécia erguer a taça do Campeonato do Mundo dentro de casa.

 O relvado estava molhado de uma chuva miudinha que tinha caído durante a madrugada. O céu era cinzento claro, daquele cinzento nórdico que não aquece e não abre. O Brasil entrou em campo com uma camisa azul, porque o branco do uniforme titular conflituava com o amarelo da Suécia e com um miúdo de 17 anos no ataque que 4 anos antes transportava caixa de sabão num armazém do interior de São Paulo.

Quando o juiz apitou para o início do jogo, Edson Ar antes do nascimento tinha o estômago embrulhado e as pernas tremendo. Ninguém viu. Ah, ninguém podia ver. A Suécia inaugurou o marcador aos 4 minutos. Lidholm recebeu dentro da área e rematou rasteiro no canto esquerdo de Guilmar. O estádio explodiu. 51.

800 pessoas gritaram ao mesmo tempo, convencidas de que estavam a ver a confirmação do que esperavam, que o futebol brasileiro, belo, mas frágil, ia desmoronar sob pressão, como sempre desmoronava. Naqueles primeiros minutos, com o barulho ensurdecedor da claque sueca e o frio cortando a pele por baixo da camisola azul, Edson sentiu pela primeira vez na vida o peso real de estar onde estava.

 Não era o campinho do BAC, não era a rua 7 de Setembro, não era a Vila Belmiro num particular de quarta-feira, era a final do Campeonato do Mundo e ele tinha 17 anos. Vavá empatou 5 minutos depois. E depois, no início do segundo tempo, com o jogo em 2-1 para o Brasil, decorreu o lance que mudaria tudo. Edson recebeu de costas dentro da área sueca.

 A bola veio alta, meio atabalhoada, numa meia altura difícil. Ele dominou no peito, levantou-se por cima do defesa com um toque de coxa que desafiava a física, deixou a bola ressaltar uma vez no chão e rematou de voleio. A bola entrou na baliza como se tivesse sido desenhada por alguém que sabia exatamente onde precisava de terminar.

 O estádio esteve em silêncio durante 2 segundos. 2 segundos em que 51.000 as pessoas tentaram perceber o que tinham acabado de ver. Um rapaz de 17 anos num campo gelado do outro lado do mundo, tinha acabado de marcar um golo que não pertencia àquela época, àquele lugar, aquela lógica.

 Era um golo de outro tempo e ao mesmo tempo era o golo mais presente, mais real e mais inevitável que o futebol já tinha produzido. Edson fez outro no fim, de cabeça, com a autoridade tranquila de quem já tinha entendido que aquele campo era dele, que aquele jogo era dele, que naquele dia inteiro, com o céu cinzento e o relvado molhado e as 51.

000 pessoas que tinham vindo torcer contra era dele. O Brasil venceu por 5-2. Quando o juiz apitou o final, Edson caiu de joelhos no relvado e chorou. Chorou como não tinha chorado no autocarro para Santos. Chorou como não tinha chorado nas noites sozinho na pensão. Chorou como não tinha chorado nenhuma das vezes que o senhor Geraldo disse que ia acabar igualzinho ao pai.

chorou tudo de uma vez ali no meio do campo com Gilmar a abraçá-lo e a dizer coisas que ele não conseguia ouvir por causa do ruído dentro da própria cabeça. Nesse momento, Edson Ar antes do nascimento deixou de existir para quase toda a gente. A partir dali, existia apenas Pelé, o nome que um menino de rua tinha inventado sem querer, que não não significava nada em nenhuma língua e que, a partir daquela tarde significaria tudo em todas elas.

 A transmissão da final chegou a Bauru pela rádio, não por um rádio qualquer, mas por vários ao mesmo tempo. O do bar do Toninho, o da barbearia do senhor Osvaldo, o da padaria do Zé Maria e o que estava em cima do balcão do armazém do senhor Geraldo. Um Philips de caixa de madeira com o botão do volume meio solto.

 Naquela tarde de domingo, Bauru parou, como toda a cidade pequena do Brasil parou. As ruas ficaram vazias. Os cães ficaram sozinhos nas calçadas. O silêncio só era quebrado pela voz do locutor, que entrava por cada janela aberta e cada porta entreaberta da cidade. E ao senhor Geraldo estava atrás do balcão de avental, com os braços apoiados na madeira gasta, ouvindo: Não havia clientes na loja, não não tinha ninguém para ouvir a opinião dele.

Era só ele, o rádio e a voz do locutor dizendo um nome que conhecia muito bem, Pelé. O locutor dizia Pelé a cada 30 segundos. Pelé dominou, Pelé passou, Pelé rematou, Pelé marcou. De cada vez que o nome saía do rádio e preenchia o armazém vazio, alguma coisa mudava naquele quarto estreito de prateleiras tortas.

 Não era uma mudança visível. Não era o óleo que se movia na prateleira, nem o pó que levantava do chão. Era outra coisa. Era o peso de uma frase que tinha sido dita ali dentro centenas de vezes. Este é o filho do Dondinho, vai terminar igualzinho. E que agora naquela tarde de domingo, com a voz do locutor a ecoar entre as paredes e perdia o sentido como uma moeda que perde o seu valor.

 A frase continuava a existir, ainda estava no ar, colada na memória de quem tinha ido juntos, mas já não significava nada. Porque o menino que varria aquele chão todas as manhãs tinha acabado de fazer dois golos numa final de um Campeonato do Mundo e não tinha sido no campinho do BAC, nem na rua 7 de Setembro, nem num qualquer jogo do interior de São Paulo.

 Tinha sido em Estocolmo, na Suécia, em frente ao planeta inteiro. Ninguém sabe ao certo o que o senhor Geraldo fez quando ouviu o apito final. Não existe qualquer relato, não existe testemunho, não existe nenhuma crónica de jornal que registe a reação de um dono de armazém de Bauru, quando o miúdo que humilhava por duas moedas e meia de cruzeiro sagrou-se campeão do mundo aos 17 anos.

 O mais provável é que ele não não tenha feito nada, que tenha ficado ali a aparado atrás do balcão, ouvindo o rádio sem se mexer, processando sozinho o que aquilo significava. Não para o Edson. Não para Bauru, não pro Brasil, para ele, para um homem que tinha passado anos a rir do sonho de um miúdo pobre e que agora ouvia este sonho tornar-se real pelo mesmo rádio que estava em cima do seu balcão.

A frase nunca mais foi repetida. Não porque o senhor Geraldo se tivesse arrependido, não porque tivesse aprendido alguma lição, mas porque não havia mais espaço para aquela frase no mundo. O mundo tinha mudado. Bauru tinha mudado. O nome que saía da rádio não era mais o nome do filho do Dondinho que varria chão de armazém.

 era o nome do maior jogador que o futebol já tinha visto. E esse nome tinha sido construído em silêncio, devagar, moeda a moeda, humilhação por humilhação, manhã após manhã, a no chão de cimento grosso de um armazém que cheirava a quereroseneão em barra. Dondinho ouviu a transmissão em casa, sentado na mesma cadeira da cozinha, onde Valdemar de Brito tinha tomado café sem açúcar, com a dona Celeste de pé, junto do fogão, as mãos tremendo, os olhos molhados.

 Quando o locutor narrou o segundo golo de Pelé, a dona Celeste não conseguiu mais segurar e chorou em silêncio, encostada à parede, com as mãos a tapar a boca. O Dondinho não chorou, ficou sentado, com as mãos cruzadas sobre a mesa, olhando para a rádio como se pudesse ver o filho através dele.

 E quando o jogo acabou e o locutor disse: “Brasil, campeão do mundo, Dondinho fechou os olhos, respirou fundo e disse uma coisa tão baixa que a dona Celeste quase não ouviu. Eu sabia. Duas palavras, as mesmas duas palavras de sempre, as mesmas que ele dizia quando Edson regressava da pelada na rua 7 de setembro, com os pés pretos e a meia desfeita. Está melhorando? Eu sabia.

O vocabulário do Dondinho era curto, mas cada palavra pesava como chumbo, porque vinha de um homem que sabia o que era ter talento e ver o talento ser desperdiçado, que sabia o que era coxear pela vida, carregando o peso de um joelho que não sarou e de um mundo que não perdoou, e que nessa tarde, ouvindo a voz do locutor pelo rádio da cozinha, soube que o filho tinha feito o que não conseguiu.

Não por falta de vontade, não por falta de talento, mas por falta de um Valdemar de Brito que aparecesse na lateral do campo e visse alguma coisa que os outros não viram. Nos dias que se seguiram, Bauru tornou-se outra cidade. Não fisicamente. As ruas continuavam as mesmas, a as casas continuavam as mesmas, o ribeiro continuava a descer pela travessa com o mesmo barulho de sempre.

 Mas o nome Pelé tinha mudado a geografia emocional daquele lugar. De repente, toda a gente conhecia, toda a se lembrava, toda a gente tinha uma história. O dono do bar dizia que sempre soube que o menino ia dar certo. O barbeiro dizia que lhe cortou o cabelo uma vez e já viu que era diferente. O professor da escola dizia que o Edson era calado, mas inteligente.

 Todos tinham uma versão da história que os colocava do lado certo. Do lado de quem sempre acreditou, do lado de quem nunca duvidou. O senhor Geraldo nunca contou a dele. Passaram-se os anos. O armazém da esquina da Ruben Zarruda continuou a funcionar por mais algum tempo. O seu Geraldo continuou atrás do balcão com o avental, o bigode ralo e as opiniões.

Mas a frase sobre o filho do Dondinho nunca mais lhe saiu da boca. Não porque tivesse sido proibido, não porque alguém tivesse ido lá cobrar, mas porque a frase tinha-se virado contra ele de um forma que não precisava de explicação. Cada golo que Pelé marcava e foram 1283. Era uma resposta.

 Cada título, cada manchete, cada vez que o nome Pelé aparecia num jornal, numa rádio, numa conversa de bar, era um lembrete silencioso de que um homem adulto tinha ido de um rapaz de 13 anos que varria o chão da sua loja por duas moedas e meia. Pelé nunca mais voltou ao armazém. Não existe registo de que tenha falado do senhor Geraldo publicamente.

Não existe nenhuma entrevista em que tenha mencionado aquele quarto estreito, aquele balcão de madeira gasta, aquele cheiro a querosene. Mas em mais do que uma ocasião, quando questionado sobre o que o motivava, Pelé disse coisas que cabiam perfeitamente naquela esquina de Bauru. Disse que aprendeu cedo que as pessoas rimem do que não compreendem.

 disse que o o silêncio foi a maior arma que teve na vida. Disse que tudo o que fez em campo fez por pessoas que ninguém conhece e que nunca vão aparecer em nenhuma foto. A Dona Celeste morreu sabendo que o filho tinha cumprido a promessa silenciosa que fez olhando para o teto naquelas noites de Bauru.

 Dondinho morreu, sabendo que o joelho que não sarou não teve a última palavra. E o senhor Geraldo, o homem do bigode ralo e das opiniões mais largas que a calçada, morreu sem nunca ter dito uma palavra sobre aquele menino que varria o chão da sua loja e que se tornou o maior jogador de futebol da história da humanidade. Essa é a história que ninguém contou bem.

 Não é a história de como Pelé se tornou Pelé, mas é a história do que acontece quando o mundo se ri de alguém que ainda não sabe quem é. E desse alguém que, em vez de gritar, em vez de reclamar, em vez de desistir, baixa a cabeça, passa o pano no balcão e guarda dentro de si uma brasa que o mundo inteiro vai sentir arder. M.

 

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