Riram de ROBERTO CARLOS Quando Ele Cantou Sua Nova Música — Anos Depois, Ninguém Esperava Isso…

Há um tipo de riso que nunca nos esquece. Não o riso de alegria, não o riso de quem está feliz. O riso cruel, aquele que vem do canto da sala quando está no palco a tentar dar o melhor de si. Aquele riso que diz sem palavras que não tem valor, que o que faz não merece respeito. Roberto Carlos conheceu este riso mais de uma vez na vida, não apenas numa noite num bar de bairro, mas em festivais, em jornais, em marchas que saíam à rua para dizer que a música que fazia era inferior, alienada, sem propósito.

E quem poderia imaginar naqueles momentos sombrios que o mesmo rapaz que ouvia as gargalhadas de longe um dia encheria o Maracanã com 70.000 pessoas chorando as suas músicas? Esta é a história de uma vida que quase foi engolida pela dúvida alheia e de como um coração teimoso se tornou o maior coração romântico do Brasil.

Se quer descobrir como é que essa história termina, fica  até ao fim, porque o que aconteceu anos depois daquela noite vai surpreendê-lo de uma forma que não se vai esquecer. Para compreender o peso daquela humilhação, é preciso antes perceber quem era Roberto Carlos naquele tempo. Não o rei, não o ídolo dos especiais de Natal, mas sim o rapaz de cachoeiro de Itapemirim, filho de um relojoeiro chamado Robertino e de uma costureira de nome Laura, que tinha chegado ao Rio de Janeiro com  pouco mais do

que um sonho e uma vontade enorme de cantar.  Tinha chegado ainda muito jovem por volta dos 15 anos. para viver com uma tia em Niterói e depois instalar-se nos subúrbios do rio. A grande cidade não era amável com quem chegava de fora sem dinheiro e sem nome. Roberto trabalhava como dactilógrafo numa repartição do governo à delegacia de seguros do Ministério das Finanças, para ter algum dinheiro no bolso enquanto tentava emplacar na música.

Eram horas batendo teclas numa mesa de escritório durante o dia e noites tentando convencer alguém de que tinha algo a oferecer ao mundo. A sua mãe tinha-lhe ensinado a tocar violão. Tinha costurado à mão as roupas para as suas primeiras apresentações ainda em Cachoeiro. quando tinha 9 anos e cantava na rádio Cachoeiro, imitando o cantor Bob Nelson, aquele que vestia-se de vaqueiro e entrava no auditório como se estivesse a atravessar o velho Oeste americano.

Roberto ganhava 600 cruzeiros velhos por apresentação e achava aquilo uma fortuna e prometera a si mesmo que um dia faria valer todo aquele esforço, toda a aquela atenção e carinho que a mãe depositava nele. Mas o Rio de Janeiro não era cachoeiro. E o caminho entre o sonho e a realidade era comprido, cheio de pedras e de portas que pareciam sempre fechadas.

Os primeiros anos no Rio foram uma sequência de tentativas e fracassos que podiam ter partido qualquer um. Roberto tinha-se encantado com a bossa nova, aquele som novo e sofisticado que João Gilberto tinha trazido para o Brasil com o disco Chega de Saudade. Começou a cantar no estilo, apresentava-se como Kruner na discoteca do Hotel Plaza em Copacabana.

Era um local elegante, frequentado por gente da sociedade carioca. Roberto chegava bem vestido,  cantava com dedicação, tentava conquistar aquele público. Carlos Imperial, o produtor que o tinha descoberto, conseguiu que este gravasse um compacto com duas canções, fora do Tom e João e Maria.

O Roberto estava animado. Acreditava que aquele poderia ser o início de tudo. Mas o lançamento foi um fracasso de vendas. Pior, recebeu críticas negativas num jornal do Rio de Janeiro. Os críticos diziam que imitava João Gilberto sem ter o talento de João Gilberto, que era uma cópia sem graça de algo que já existia.  A editora discográfica rescindiu o contrato e depois veio o golpe mais duro.

Roberto perdeu o emprego na Boate Plaza. simplesmente o dispensaram. E para não deixar de cantar, para não trair o sonho que o tinha trazido até ali,  aceitou apresentar-se onde aparecia a oportunidade. Chegou a cantar em cabarés, chegou a cantar em bares frequentados por prostitutas, locais onde a música era apenas um ruído de fundo para noites que não não tinham nada a ver com arte.

Lugares onde ninguém ouvia, onde ninguém aplaudia com convicção, onde o artista era quase invisível. Há uma cena que poucos conhecem deste período. Numa noite, na Boate Plaza, João Gilberto, o próprio deus maior da boossa nova, o homem que Roberto tanto admirava, foi assistir a uma apresentação do mesmo.

Os críticos todos diziam que o Roberto era uma imitação inferior de João Gilberto, mas o próprio João Gilberto, depois de o ouvir, disse simplesmente: “Achei o Roberto muito musical”. Só que esta palavra de reconhecimento ficou perdida no silêncio. Ninguém a ecoou, ninguém a amplificou. Os críticos continuaram a dizer o que diziam.

A editora continuou fechada e Roberto continuou a tentar noite após noite, em locais que a maioria dos artistas nunca ousaria aceitar. Foi precisamente numa dessas noites que aconteceu o episódio que esta história conta. Era um daqueles bares do Rio de Janeiro que parecem iguais a tantos outros. Cadeiras de madeira um pouco tortas, um cheiro a cigarro no ar, um balcão onde as pessoas pediam doses e mal olhavam para o palco.

O palco era quase uma brincadeira,  uma plataforma baixa, um microfone que te lintava a cada frase mais forte, uma iluminação fraca que mal chegava ao fundo do salão. Roberto Carlos subiu com o seu violão, com a camisa que provavelmente tinha sido passada com cuidado antes de sair de casa.

Porque ele era assim, mesmo nos tempos difíceis, apresentava-se como se fosse a coisa mais importante do mundo. A sua mãe tinha-lhe ensinado isso, que a a dignidade não depende do tamanho do palco. O público naquela noite não era exatamente um público. Era um conjunto de pessoas que estavam ali por outros motivos.

Umas conversando, outras com o olho numa mesa ao fundo, outras simplesmente à espera que o tempo passasse. Quando o Roberto começou a tocar, o maioria nem virou a cara, mas havia um grupo, um grupo de rapazes no canto direito da sala que resolveu prestar atenção. E o que fizeram com essa atenção foi usar para ferir. A canção que o Roberto cantava naquela noite era romântica.

Uma dessas canções carregadas de sentimento que falam de amor com aquela seriedade que só quem já amou de verdade consegue compreender. Para aquele grupo de rapazes, porém, aquela seriedade foi motivo de chacota. Começaram devagar, um comentário em voz baixo, uma risadinha contida, alguém imitando a expressão do cantor, exagerando o rosto como quem faz mímica de algo ridículo.

E depois cresceu. As gargalhadas foram ficando mais abertas, os comentários mais audíveis. Alguém disse auto o suficiente para ser ouvido. Que pirosa, que coisa  melosa. O Roberto ouviu. É impossível não ouvir quando se está no palco e o silêncio indiferente do resto da sala faz os comentários acutilantes chegarem com toda a clareza.

Por dentro, algo doeu. Roberto Carlos não era uma rocha, era um ser humano com a sensibilidade de quem dedica a sua vida à música. E a dúvida, aquela dúvida traiçoeira que vive debaixo de todo o artista, começou a falar mais alto naquele momento. Será que tinham razão? Será que aquele tipo de música, aquela emoção toda, aquele romantismo sem filtro, era mesmo algo que as pessoas não queriam ouvir? Será que ele estava errado sobre si próprio, sobre o que tinha para dar? Terminou a música, não foi aplaudido com convicção,

desceu do palco com o peso de quem transporta mais do que um violão. Se gosta de histórias como esta, contadas com emoção e com respeito, se subscreva o canal. Ainda existem muitos capítulos da vida de Roberto Carlos que continuam a tocar o coração do Brasil, mas aquela noite no bar foi apenas o início das humilhações.

O que viria a seguir seria ainda mais duro, porque desta vez não seriam rapazes desconhecidos num canto de uma sala, seria o próprio establishment da música brasileira. Quando Roberto Carlos finalmente encontrou o seu caminho não na bossa nova, não nas tentativas de imitar João Gilberto, mas sim no rock jovem, nesse som elétrico e animado que chegava da América e da Inglaterra, o Brasil dividiu-se em dois campos.

De um lado, a jovem guarda, Roberto, Erasmo, Carlos, Vanderleia, jovens que tocavam guitarras elétricas, que cantavam de amor com simplicidade, que falavam a língua de uma geração inteira que se queria ver representada nas canções. Em 1 de Setembro de 1965, quando estreou o programa Jovem Guarda na TV Record de São Paulo, uma explosão aconteceu.

As famílias reuniam-se ao redor da televisão aos domingos à tarde. A audiência não parava de crescer. Roberto Carlos tornava-se um fenómeno. Do outro lado, estava o programa O Fino da Bossa, apresentado por Elise Regina e Jair Rodrigues, na mesma estação. Conforme a audiência da Jovem Guarda subia, a Dfino descia.

E Elise Regina, que era uma artista de enorme talento e temperamento forte, não gostou nada daquilo. O que ela fez foi declarar guerra. Em entrevistas, ela chamava Roberto Carlos e Erasmo Carlos de alienados. Dizia que só faziam disparates descartáveis, que a sua música não tinha valor, não tinha raiz, não tinha propósito, que era uma cópia barata da cultura americana e inglesa, que invadia o Brasil como se não houvesse música brasileira de verdade para tocar.

E depois  veio a marcha. No dia 17 de julho de 1967, um grupo de artistas consagrados saiu às ruas de São Paulo numa manifestação que ficou conhecida como a marcha contra a guitarra elétrica. Saíram do Largo São Francisco, transportando uma enorme faixa com os dizeres, frente única da música popular brasileira, e caminharam pelas avenidas da cidade.

Na frente da marcha estava Elis Regina. Juntamente com  ela, Geraldo Vandré, Jair Rodrigues, Zéquete, Edu Lobo e até Gilberto Gil, que mais tarde admitiria ter entrou de Gaiato porque estava apaixonado por Eliz na altura. A mensagem era clara. A guitarra elétrica era o inimigo e a jovem guarda com a sua música jovem e apaixonada era o símbolo desse inimigo.

Pense no que significa uma coisa destas. Artistas que admira, que  o país inteiro respeita, saindo à rua para dizer publicamente que o que V. faz não tem valor, que a sua guitarra, o seu música, a sua voz não merecem um lugar na história da música brasileira. Roberto Carlos e Erasmo Carlos não responderam, não saíram a correr para se defender, não atacaram de volta, continuaram a compor, continuaram tocando.

Mas Erasmo Carlos, anos mais tarde confessou quanto aquilo tinha doído. Eli também maltratou o nosso coração quando começou a disparar contra os alienados da guitarra elétrica”, disse numa entrevista. O Roberto e eu tornámo-nos inimigos públicos de artistas de enorme prestígio, louvados pela crítica, pelos intelectuais, pelos universitários  e isto sem que tivéssemos dito um a contra ninguém.

E havia algo ainda mais doloroso por trás de tudo aquilo. No mesmo período em que eram chamados de alienados e comerciais, Roberto e Erasmo estavam escrevendo algumas das mais belas canções da história da música popular brasileira. Canções que falavam de amor de uma forma que tocava o coração simples das pessoas comuns, das donas de casa, dos trabalhadores, daquelas mulheres que não tinham um diploma universitário, mas que sabiam reconhecer quando uma letra falava verdade.

O grande paradoxo era este: quanto mais o establishment da música rejeitava-os, mais o povo os amava. Mas algo naquele rapaz não cedeu. Nunca cedeu. Talvez fosse a herança da mãe que costurava a mão sem se queixar, que o acompanhava as apresentações sem nunca deixar de acreditar nele. Talvez fosse a memória dos 6 anos de idade,  quando um comboio tinha passado pela sua perna numa festa de São Pedro em Cachoeiro e este tinha sobrevivido.

Quando alguém sobreviveu a uma dor física assim, quando um rapaz perdeu uma perna e ainda assim voltou a correr pela praia com uma prótese artesanal que um médico alemão tinha fabricado com uma bola de ténis  como amortiguador. As humilhações do palco têm um peso diferente, não  mais pequeno, mas diferente.

Roberto Carlos não desistiu. Continuou a atuar onde havia oportunidade. continuou a compor com Erasmo, aquele amigo que encontrara por acaso em 1958, quando precisava da letra de Hound Dog de Elvis Presley para uma apresentação. Os dois tinham uma coisa em comum para além da amizade. Acreditavam que a música brasileira precisava de algo que ainda não existia.

um som jovem, um coração verdadeiro, uma energia que falasse diretamente ao peito das pessoas, sem necessitar de intermediários intelectuais para explicar o que aquela letra queria dizer. E enquanto alguns marchavam contra ele, compunha. Enquanto alguns duvidavam, ele ensaiava. Enquanto o mundo lá fora classificava a sua música de brega, de melosa, de menor,  ele continuava a colocar naquelas canções tudo o que tinha de mais verdadeiro dentro de si.

Havia uma outra coisa que o Roberto sabia, mesmo sem dizer em voz alta, que a A crítica musical da época tinha um preconceito que ia para além da estética. Como revelaria anos mais tarde o investigador Paulo César de Araújo, no seu famoso livro, havia por detrás da palavra brega muito mais preconceito de classe do que apreciação artística da verdade.

A música de Roberto Carlos ouvia-se pelos trabalhadores, pelas empregadas domésticas, pelas costureiras como a sua mãe. E que, para certos críticos, bastava para a considerar inferior. como se a emoção de uma pessoa simples valesse menos do que a emoção de alguém com diploma na parede. Roberto Carlos nunca aceitou esta lógica e a vida deu-lhe razão de uma forma que ninguém poderia ter previsto.

Os anos foram passando e o Brasil foi mudando de ideias. Em 1963, Splish Splash tinha chamado a atenção. Em 1964, com É proibido fumar e o Calanc, Roberto Carlos era já um fenómeno nacional. Em 1 de Setembro de 1965, a Jovem Guarda estreou e o Brasil inteiro  parou para ouvir. Em 1966, com quero que vá tudo para o inferno, a A histeria em torno de Roberto Carlos era comparável à Beatelmania.

Fãs lotavam as casas de espectáculos, os fãs esperavam horas na porta de hotéis. E depois veio o momento mais inesperado de todos. No mesmo ano da marcha contra a guitarra elétrica, a mesma Elis Regina, que tinha liderado a marcha, foi convidada para cantar As curvas da estrada de Santos, uma composição de Roberto e Erasmo.

E ela cantou com toda a a energia e intensidade que a tornavam uma das maiores vozes do Brasil. Erasmo Carlos estava na plateia naquela noite. Sentado entre o público, ouviu o cantora que tanto o tinha achincalhado, interpretar a sua canção com uma energia incontrolável. E aconteceu algo que ele nunca esqueceu até ao fim da vida. Erasmo chorou.

disse depois que foi só nessa noite que entendeu que tinha feito algo que poderia ficar para sempre na história, que as canções que ele e Roberto tinham escrito enquanto eram chamados de alienados tinham uma beleza que transcendia qualquer preconceito. A vida tinha uma forma muito particular de fazer justiça, mas a maior reviravolta ainda estava para vir.

Nos anos 1970, Roberto Carlos abandonou o rock jovem e mergulhou de cabeça na música romântica. Era uma aposta arriscada. Os mesmos que chamavam-lhe alienado agora chamar-lhe-iam de brega, de brega, de cantor de orquestras grande eloquentes para público sem sofisticação. O rótulo mudava, mas a rejeição da crítica continuava a ser a mesma.

Mas em 1971 aconteceu algo que marcou para sempre a história da música brasileira. Roberto Carlos gravou pormenores. Uma canção simples, uma melodia que entrava fácil, uma letra sobre o amor e sobre a saudade que não precisava de nenhuma explicação para ser sentida. Quando aquela música entrou nas rádios, o Brasil parou.

As mulheres choravam ouvindo, os homens ficavam em silêncio, as donas de casa colocavam o volume no máximo. Detalhe tornar-se-ia, com os anos, uma das músicas mais tocadas na história do rádio brasileiro. Uma das canções que mais vezes foi dedicada por alguém que amava alguém, que tinha saudades de alguém, que sofria por alguém.

E os críticos que lhe chamavam brega tiveram de assistir a tudo aquilo em silêncio. E então chegou aquela noite do grande show. Era um daqueles espetáculos que não se esquece o tipo de espectáculo que Roberto Carlos aprendera a fazer ao longo de anos de estrada, de ensaios, de amor pela música e pelo público que o amava de volta.

A plateia era enorme. Milhares de pessoas, luzes que varrem o público de uma ponta à outra, revelando rostos emocionados, mãos levantadas, vozes que cantam em conjunto desde o primeiro verso. O tipo de cena que faz até quem está no palco sentir que o mundo está bem. Roberto Carlos estava ali de branco, como sempre.

aquela roupa clara que se tornara a sua marca, o seu sinal de presença, e cantava,  cantava com tudo o que tinha. A meio do concerto, num momento de pausa entre uma música e outra, o seu olhar percorreu a plateia. Era um hábito antigo, algo que os artistas fazem sem perceber esta procura por conexão com os rostos que estão ali à frente.

E foi então que viu num canto da plateia, cantando em conjunto, com o olho a brilhar, estava alguém que ele reconheceu, um dos rapazes que há anos naquele pequeno bar tinha rido, tinha imitado, chamara de brega, de meloso,  de coisa menor. Ali estava ele a pagar o bilhete, cantando cada palavra, com aquela expressão de quem está num lugar sagrado e sabe disso.

O que Roberto Carlos sentiu naquele momento, só ele poderia dizer: “Haveria razão para o rancor, para aquela pequena e humana satisfação de apontar e dizer:  “Duvidaste e olha onde estou agora”. Não, Roberto Carlos não era esse homem, nunca o havia sido. A música que ele fazia não tinha espaço para rancor, tinha espaço para o amor, para a saudade, para a dor que se transforma em beleza.

E foi isso que ele escolheu naquele momento. Quando o microfone voltou à sua boca, quando a música seguinte começou a ser anunciado, Roberto Carlos fez algo que ficou na memória de todos os que estavam ali. Antes de cantar, olhou para o público com aquele olhar que vai longe e disse palavras simples que tinham o peso de toda uma vida. é menor que Cardinal.

Cinco. Cardinal é maior que Eu sei que há aqui muita gente que um dia duvidou. E não guardo mágoa de ninguém, porque é para vós, todos vós, que eu  canto. E então escolheu uma música, uma daquelas músicas românticas que anos antes tinham sido motivo de riso, uma daquelas canções carregadas de sentimento que alguém num bar mal iluminado chamara de brega.

A plateia explodiu. Aquela mesma música, aquelas mesmas palavras, eram agora cantadas por milhares de vozes ao mesmo tempo. O que antes tinha sido alvo de chacota, agora movia corações, agora arrancava lágrimas, agora unia gente de todas as idades num só sentimento. E o rapaz no canto da plateia cantou junto com lágrimas no rosto, com aquele expressão de quem está a sentir algo que nem consegue nomear.

Talvez nem soubesse que estava cantando a mesma canção da qual tinha ido há anos. ou talvez soubesse. Talvez aquele momento fosse exatamente o que precisava ser, o encontro entre quem tinha duvidado e a prova viva de que havia estado errado. É impossível não pensar, ao ouvir esta história, em quantas vezes o destino de Roberto Carlos poderia ter sido diferente.

Se nessa noite no bar tivesse cedido a dúvida, se tivesse guardado o guitarra e desistido, se tivesse acreditado naquelas gargalhadas mais do que acreditava em si próprio? Se na altura da marcha contra a guitarra elétrica ele tivesse dobrado os joelhos diante de Elis Regina e de Geraldo Vandré e tivesse abandonado o seu estilo para agradar aos críticos, o Brasil não teria ouvido pormenores, não teria ouvido emoções, amigo  Lady Laura, aquela canção linda que ele dedicou à sua mãe costureira, que tinha

acreditado nele desde o início. não teria aqueles especiais de Natal que há mais de 50 anos que reuniram famílias inteiras diante da televisão em dezembro. E talvez a própria Eliz Regina nunca tivesse cantado as curvas da estrada de Santos com aquela energia que fez Erasmo Carlos chorar na plateia. Porque se o Roberto tivesse desistido, essa música também nunca teria existido.

A história de Roberto Carlos é a história de muitos artistas que quase foram engolidos pela dúvida alheia. Mas é também a história de alguém que entendeu cedo ou tarde que o julgamento dos outros não define o que tem dentro de si. Quem viveu essa época? Quem acompanhou a ascensão da Jovem Guarda? Quem colocou os discos de Roberto Carlos no gira-discos e sentiu aquelas letras a falar diretamente ao coração, sabe o que está em causa quando se fala em acreditar.

Acreditar quando mais ninguém acredita. Continuar quando tudo parece dizer para parar. Compor quando o mundo se ri do que escreve. Há algo que Roberto Carlos nunca disse publicamente sobre todas aquelas noites de humilhação, mas que disse em cada música que compôs depois, disse em cada apresentação, em cada vez que subiu a um palco e cantou com tudo que tinha.

A mensagem era simples. Eu ainda estou aqui. E estava durante décadas. é inferior ao Cardinal Zero. Cinco Cardinal é maior que Enchendo estádios, fazendo o Brasil chorar de emoção, sendo o rei. Não porque nunca tivesse sido humilhado, mas, apesar disso, por causa disso, porque, por vezes, as maiores histórias de grandeza começam com uma gargalhada cruel num bar de bairro e com uma marcha nas ruas de São Paulo dizendo que se é alienado, e com jornais que escrevem que és uma imitação menor de alguém maior.

e com um rapaz que decide noite após noite que nada disto vai ser o fim da A sua história, apenas o início. E assim termina esta história, como Roberto Carlos diria mesmo, com toda a delicadeza que o caracteriza. Nunca guarde mágoa de quem duvidou de você. Guarde o  amor por tudo o aquilo que você é. E cante.

Cante sempre. E por falar em histórias que revelam um lado surpreendente da Roberto Carlos, existe aqui no canal um episódio que te vai deixar com o coração na mão. É a história de uma noite em que o nosso rei foi a um concerto sem que ninguém soubesse quem ele era. E o que aconteceu naquele palco com aquele artista que sem querer o colocou no centro das atenções é uma das histórias mais inesquecíveis da vida de Roberto Carlos.

O vídeo chama-se Ele não sabia que era Roberto Carlos. O showman desafiou uma pessoa aleatória da plateia. Clique agora e descubra o que aconteceu nessa noite.

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