Antónia nasceu em 1949, num sítio chamado Lagoa do Meio, a 20 e poucos quilómetros de Serra Talhada, filha mais nova do senhor Severino Ferreira e a dona Maria do Carmo. Era a sétima de oito filhos e cresceu numa casa de taipa, coberta de telha de barro, com pavimento de chão batido, onde a água provinha de um pequeno açude que o pai tinha aberto sozinho a pico e pá.
O senhor Severino tinha 40 anos quando Antónia nasceu e tinha um conhecimento de planta autóctone que vinha de gerações de cabôclos vaqueiros do Pageú. Gente que sabia atravessar seca utilizando o que a caatinga oferecia sem nunca depender de ração comprada na cidade. O senhor Severino tinha uma frase que repetia desde antes de Antónia compreender direito o que ela queria dizer.
Na catinga não há fome. Na catinga tem gente que não sabe olhar. Antónia ouviu aquilo a vida inteira e foi compreendendo aos poucos. A primeira lição prática surgiu quando ela tinha 7 anos durante uma seca que apertou no final de 1956. O pai chamou-a e aos irmãos para irem até uma zona da mata que só visitava em ano mau.
E lá mostrou-lhes uma série de plantas que serviam para alimentar o gado em ano de fome. Jurema preta nova, mufumbo, marmeleiro, mandacaru sem espinho, palma forrageira e a faveleira. Quando chegou à faveleira, o senhor Severino parou e falou demorado: “Esta aqui é a planta mais importante da catinga. Faveleira é a vaca da árvore.
Tem proteína mais que capim. Tem água dentro da folha. aguenta 5 anos sem chuva. O gado come, a cabra come, ovelha come. O problema é o espinho. E mostrou os espinhos longos que cobriam o tronco e os ramos das faveleiras dali, espinhos finos, duros, que cravavam fundo no dedo de quem tentasse colher sem cuidado. Os mais velhos do Pageu costumavam queimar os ramos com fogo rápido para ressecar o espinho antes de dar ao gado, ou usavam tesouras grandes para cortar e martelar o ramo contra o solo, quebrando os espinhos um a um, num trabalho lento e doloroso. Era por isso
que pouca gente usava realmente faveleira como forragem regular, apesar de saber que servia, dava muito trabalho preparar. Mas pai, e se encontrasse uma faveleira sem espinho? Seu Severino sorriu daquela maneira, de quem ouviu uma pergunta esperta de criança. Aí seria outra coisa, minha fia.
Aí seria ouro no meio do mato. Mas faveleira sem espinho é raríssima. Há gente que diz que existe, mas nunca vi com estes olhos. Diz que de vez em quando nasce uma muda diferente, que vinha sem espinho de nascença, mas é uma em 1000. Se achar uma, marca, cuida, multiplica. É herança boa. Antónia guardou aquilo na cabeça do maneira que se guardam as palavras importantes do pai.
Não saiu à procura faveleira sem espinho, com obsessão, porque ela tinha 7 anos e tinha outras coisas com que se preocupar. Mas guardou e foi crescendo, guardando. O seu severino faleceu em 1965, quando Antónia tinha 16 anos, atropelado por um camião na estrada que ia para Serra Talhada, morte rápida, sem aviso, sem despedida.
Dona Maria do Carmo segurou os filhos como pôde nos anos seguintes, vendendo bordados, costurando vestido por encomenda, alugando uma parte do sítio a um vaqueiro que tratava do gado pequeno que tinham. A Antónia ajudava em tudo e foi assumindo aos poucos o controlo do que restava da propriedade. Os irmãos mais velhos foram embora um a um.
Manuel para o Recife, Joaquim para São Paulo, Maria para Caruaru, onde casou, Severina para Petrolina. Ficou Antónia com a mãe e o O irmão mais novo Damião, que tinha um problema mental desde criança e nunca ia conseguir tocar a vida sozinho. Antónia casou em 1969. com 20 anos, com Geraldo da Silva, vaqueiro que tinha trabalhado no sítio de um primo dela.
Geraldo era um homem bom, calado, que sabia cuidar de gado, mas não tinha terra própria. Os dois compraram com o pouco que a dona Maria do Carmo deixou como herança, e com economias do próprio Geraldo, uma propriedade de quase 20 haares perto de Serra Talhada, no caminho para a aldeia de Caiçara. Era terra de cainga rala com um açude pequeno que secava num ano mau, mas tinha uma vantagem.
Tinha uma densa floresta numa parte da propriedade, mata virgem que ninguém tinha desmatado, cheia de variedades nativas que Antónia reconhecia da infância. Os dois construíram a casa em 1971. Criaram dois filhos, Severino, em homenagem ao avô em 1972, e Maria do Carmo, em homenagem à avó em 1975. E foram tocando a vida da forma que se tocava no sertão.
Plantavam feijão e milho em ano de chuva. Criavam gado pequeno, umas 20 e tal cabeças, contando boi, vaca, vitelo. Tinham umas cabras também. umas 12 que eram da própria Antónia, herdadas da mãe. Foi numa tarde de Janeiro de 1972, quando Antónia tinha 23 anos e estava grávida do primeiro filho que encontrou o pé.
tinha entrado na mata atrás da casa para cortar lenha sozinha, com um pequeno facão na mão, e estava abrindo caminho por um troço mais fechado, quando passou por baixo de uma árvore média, com tronco esbranquiçado e folhas em forma de mão aberta. Era inequivocamente uma faveleira. A folha não deixava dúvidas, mas Antónia tinha encostado o ombro nu ao tronco enquanto baixava-se para passar e não tinha sentido espinho nenhum.
parou, voltou para trás, olhou. A faveleira era adulta, com tronco grosso, com a casca esbranquiçada, característica da espécie. Antónia chegou perto, tocou o tronco com a palma da mão, liso. Apalpou os ramos lisos. Procurou nas axilas das folhas, onde os espinhos normalmente nasciam sob a forma de par. Nada.
A árvore inteiro, do chão até ao topo, não tinha um espinho sequer. Antónia ficou parada em frente daquela faveleira durante um tempo que ela não soube medir, com a barriga de seis meses pesando, com o machete na mão caído ao lado do corpo. Lembrou-se da voz do pai 7 anos antes da sua morte, quase 16 anos atrás.
Faveleira sem espinho é raríssima, uma em 1000. Se encontrar uma, marca, cuida, multiplica. É herança boa. A Antónia não cortou lenha naquele dia. Voltou para casa devagar, levou Geraldo de volta paraa mata na manhã seguinte para mostrar o pé. E os dois confirmaram juntos que era de facto uma faveleira adulta, frutificando e absolutamente sem espinho.
Geraldo, que era um homem prático e não sabia nada de planta autóctone, achou a coisa interessante, mas não percebeu o tamanho do achado. Antónia entendeu e começou imediatamente a planear o que fazer. A primeira coisa que ela fez foi marcar a árvore com um pano vermelho atado num ramo alto para conseguir localizar de longe.
A segunda foi começar a observar o ciclo da planta. visitou aquele pé todas as semanas durante o ano de 1972 inteiro. Anotou em que mês ela flora, em que mês frutificava, quanto fruto produzia quando libertava as sementes. Tomou as primeiras sementes em Maio de 1973, quando os frutos secaram e abriram, e guardou numa lata de goiabada vazia na cozinha.
A segunda coisa que ela fez foi começar a propagar. Aqui a Antónia não sabia muito. Tinha aprendido com o pai a fazer muda de algumas plantas, mas faveleira não era das mais comuns de propagar, porque ninguém costumava plantar de propósito. Faveleira nascia sozinho na cainga, com semente espalhada por pássaro. Mas Antónia tinha visto o pai fazer estaca de outras plantas, cortando ramo saudável, deixando criar raiz à sombra, plantando depois.
Tentou isto com a faveleira sem espinho em 1973. Cortou três ramos, plantou-os em latas de tinta com terra húmida, deixou na sombra perto do tanque. Dos três ramos, nenhum pegou. Em 1974, tentou de novo, com mais ramos, em época diferente do ano, com cuidado diferente. Dois pegaram, criaram raiz fraca e morreram quando ela tentou transplantar para o chão. Foi aprendendo.
Em 1975, tentou com semente plantando na lata e quatro vingaram. Em 1976 já tinha sete pequenas mudas a crescer perto da casa, todas filhas do pé original da floresta. Todas 20 sem espinho. Antónia tinha confirmado o que o pai tinha dito. A característica era genética, passava paraa descendência. Em 1977, com 28 anos, plantou as primeiras sete mudas em local definitivo, num pedaço de cainga rala, que ela tinha reservado para isso, perto do curral, em terra mais firme que o resto da propriedade. As sete mudas pegaram bem.
Em 1978 plantou mais 12. Em 1979 plantou mais 20. Em 1980 plantou mais 30. Faveleira é planta de crescimento moderado, mas resistente e aos 4 anos as primeiras mudas já tinham mais de 2 m, dando folha em abundância, prontas para ser podadas como forragem. Antónia tinha aprendido também durante estes anos a gerir a poda.
Não cortava a árvore inteira, nunca. tirava só os ramos novos, deixava o tronco e a estrutura principal intactos, fazia rotação entre os pés para ninguém ficar sobrecarregado. Quando podava, a árvore rebrotava em três ou quatro meses, pronta para outra poda. Era um sistema lento, paciente, que só dava resultados para quem tinha esperado anos antes de começar a colher.
Geraldo, durante estes anos, foi vendo o trabalho da mulher sem entender direito. Achava interessante o achado da árvore sem espinho, mas não dava grande atenção porque tinha o gado para cuidar, a lavoura para tocar e considerava aquilo coisa de mulher, passatempo, pequena experiência. Antónia não corrigia.
Ela sabia o que estava fazendo. Sabia principalmente que o teste verdadeiro só ia vir num ano de seca a sério, quando o pasto secasse e o capim acabasse e o gado começasse a passar fome. O ano de 1980 foi um ano de chuva regular. O ano de 1981 começou bem, com boa chuva em janeiro e fevereiro, mas a chuva desapareceu cedo. Em abril choveu pouco, em maio quase nada. Em junho e julho, nada.
Em agosto, o pasto da propriedade tinha-se transformado em pó. Em setembro, as folhas das árvores da caatinga começaram a cair. Em outubro, o que tinha sido pasto verde em janeiro era chão duro rachado, sem uma folha de capinha em pé. Foi nesse mês de outubro de 1981, com os quatro vitelos mais novos da criação magros de tanta fome, com o gado adulto a começar a perder peso visivelmente, com o açude já com mais lama que água, que Antónia desceu pela primeira vez até aos pés de faveleira sem espinho que tinha plantado, com tesoura
grande na mão, cortou ramos folhudos em quantidade e levou-o para o curral. Geraldo, na primeira vez que o viu, perguntou: “Mulher, isto aqui é aquela tua faveleira sem espinho?” “É. E o gado com? Vamos ver. O gado comeu. Comeu com avidez, com aquela fome de quem tinha passado semanas a comer só ramagem seca de plantas com pouco valor nutritivo.
Os vitelos, principalmente atacaram a folhagem com força e em meia hora não tinha ficado uma folha verde no coxo. Antónia voltou para cortar cada vez mais e mais. Nesse dia, o gado da propriedade comeu de verdade pela primeira vez em semanas. Foi nessa mesma manhã que o seu Pedro Olímpio passou, viu, riu e levou a história para fora.
Nas semanas seguintes, mais vizinhos passaram a ver. Dona Severina, da propriedade do outro lado da serra, veio confirmar com os próprios olhos. O Sr. Joaquim Bento, que criava cabra no caminho para Caiara, veio também. Todos olhavam, alguns mexiam nos ramos, alguns balançavam a cabeça e quase todos saíam dali a rir ou desconfiados.
Antónia, isto aqui não é faveleira de verdade, não. Faveleira tem espinho. Está a dar outra coisa ao gado. É faveleira, sim, dona Severina. Olha a folha, olha para o tronco. É faveleira pura. Mas faveleira tem espinho. Essa não tem. Então não é faveleira. Antónia não discutia mais a partir de um certo ponto.
Cortava o ramo, mostrava a folha, mostrava o tronco, deixava o vizinho ir embora com a opinião que entendesse e voltava a alimentar o gado. O gado de Antónia atravessou a seca de 1981 sem perder um vitelo. Perdeu peso, claro, como todo o gado perdeu peso nessa seca, mas não morreu nenhum. E os animais entraram em 1982, ainda em condição de prenhar e parir.
Os vizinhos da região perderam em média entre 20 e 40% da criação nessa seca. O senhor Pedro Olímpio perdeu oito bezerros e duas vacas adultas. A Dona Severina perdeu metade das cabras. Seu Joaquim Bento vendeu metade do rebanho ao preço de banana para um intermediário que veio comprar gado fraco a preço de fome no fim da seca.
Em fevereiro de 1982, voltou a chover. A vida do sertão começou a retomar o ritmo e em março de 1982, no meio da replantação e da recuperação dos pastos, apareceu na propriedade de Antónia um homem que ela não conhecia, a conduzir um gipe da Emater com uniforme bege, chapéu de abas largas e prancheta debaixo do braço.
era o engenheiro agrónomo Augusto Bezerra, designado pela Emater de Serra Talhada, para fazer o levantamento das propriedades da região após a seca, identificar perdas, recomendar técnicas de recuperação. tinha 30 e poucos anos, era licenciado pela Universidade Federal Rural de Pernambuco e tinha sido informado pelo escritório local sobre um bairro onde corria uma história estranha, uma mulher a dizer que tinha faveleira sem espinho.
Augusto chegou educado, cumprimentou Antónia, explicou o motivo da visita e logo perguntou se conseguia ver os pés da faveleira sem espinho de que tinha ouvido falar. Antónia levou. Augusto andou pelos pés plantados, examinou tronco, examinou folha, examinou o tronco original na mata atrás da casa. tirou amostra de folha, guardou-a num envelope, tirou uma fotografia com uma pequena máquina que tinha trazido e no fim, sentado na varanda da casa de Antónia, tomando café que ela tinha oferecido, falou calmamente: “Dona Antónia, queria ser honesto com a
senhora. Isto aqui pode ser uma variedade de faveleira com espinho reduzido, que existe na literatura, sim, mas ausência total de espinho em todos os os pés, sendo eles propagados a partir de um único exemplar nativo, é uma coisa muito incomum. Eu preciso de levar estas amostras para análise no centro de pesquisa no Recife, porque pode ser que o que a senhora tem aqui seja apenas uma variação fenotípica passageira, não genética.
Pode ser que daqui a uns anos os pés mais novos começam a desenvolver espinhos. Eu não quero criar expectativa paraa senhora. O senhor acha que estas árvores vão criar espinho com o tempo? Não sei. Pode ser. A literatura indica que a ausência completa de espinho em faveleira é descrita, mas é rara e nem sempre se mantém em propagação vegetativa.
Eu sinceramente fico na dúvida. Antónia ouviu o agrónomo educadamente, ofereceu mais café e quando ele se foi embora não disse nada para Geraldo. Geraldo, que tinha ficado parte da conversa, comentou: “O engenheiro agrónomo pensou que talvez estas faveleiras aí vão criar espinho. Eu ouvi, Geraldo, tu acha? Eu acho que o meu pai sabia mais de faveleira do que este homem aprendeu na universidade. Vamos esperar para ver.
” O ano de 1982 foi de chuva regular. A propriedade recuperou, o gado engordou. As faveleiras sem espinho rebrotaram, mais vigorosas que nunca, e Antónia continuou a podar, a colher semente, a plantar mais. Em finais de 1982, já tinha quase 90 pés plantados em diferentes pontos da propriedade e nenhum tinha desenvolvido espinho.
O ano de 1983 começou seco, janeiro, chuva fraca. Fevereiro, chuva quase nenhuma. Março, nada. Os mais velhos do Pageu começaram a dizer baixinho que aquilo ia ser pior que 1981. Eles acertaram. A seca de 1983 foi uma das piores do século na região e estendeu-se por quase dois anos completos, indo de 1983 ao fim de 1984.
Foi o que ficou conhecido como a grande seca dos anos 80, que matou rebanho inteiro em todo o sertão nordestino, que esvaziou propriedade, que mandou gente em massa para o Recife e para São Paulo. Foi nesta seca, em Maio de 1983, que a faveleira sem espinho de Antónia virou o que virou.
Naquele momento, ela já tinha quase 100 pés produtivos. Os pés mais velhos, plantados em 1977, já tinham 6 anos. Eram árvores médias com bom volume de folha. O gado da propriedade, 22 cabeças nesse ano, dependia inteiramente da faveleira como forragem principal a partir de abril. A Antónia tinha aprendido a fazer rotação dos pés para não esgotar nenhum, podando um grupo por semana, deixando os outros rebrotar.
Em junho, com a seca já apertando toda a região, apareceu na cerca da propriedade senhor Pedro Olímpio. Mas já não era o seu Pedro de Outubro de 1981, rindo-se da vizinha que estava a dar mato esquisito para o gado. Era um senhor Pedro com chapéu na mão, com cara de quem não dormiu descansado, com a magreza de quem estava a passar aperto sério.
Antónia, vim aqui pedir-te uma coisa. Pois fala, senhor Pedro. Estou a perder o gado. Já perdi quatro vitelos. Vou perder mais se esta seca continuar. Tem como me arranjar uma muda dessa tua faveleira sem espinho? Antónia olhou para ele um instante. Lembrou-se da gargalhada de outubro de 1981. Não disse nada sobre isso.
Tenho, o seu Pedro. Posso dar-te três mudas para começar. Mas a senhora sabe que muda nova demora pelo menos uns três anos para começar a render forragem a sério. Eu sei. Eu só quero plantar agora para ter daqui para a frente. Esta seca eu não Escapo-lhe com a tua faveleira, mas a próxima quero escapar. Eu dou-te.
O senhor Pedro levou três mudas nessa tarde e plantou no seu terreiro com especial cuidado, como quem trata de filho doente. Não foi o único. Nas semanas seguintes apareceram outros vizinhos e nos meses seguintes a notícia alastrou para fora da vizinhança imediata. Em setembro de 1983, com a seca a apertar mais, Antónia já tinha distribuído mais de 40 mudas para criadores da região. Não cobrava nada.
Pedia apenas uma promessa, que o vizinho cuidasse do pé, propagasse e desse muda para os outros vizinhos quando os pés dele estivessem a produzir. Quase todos prometeram. Uns cumpriram, outros não. Em outubro de 1983, o agrónomo Augusto voltou. Tinha o relatório da análise feita no Recife, sentou-se na varanda, tomou café e falou com Antónia com um tom diferente do que tinha usado um ano antes.
Dona Antónia, Vim pedir desculpa. Porquê, doutor? Pelo que disse no ano passado, sobre os espinhos poderem voltar. A análise do centro de investigação confirmou que a sua faveleira é uma variedade sem espinho de característica genética estável. Não vai criar espinho. Pode propagar a vontade que a descendência saia igual.
Eu fui demasiado cauteloso no ano passado. Eu não devia ter dito aquilo. Está tudo bem, doutor. O senhor disse o que sabia? Eu sabia o que sabia. A árvore deu razão para um de nós. E está tudo bem. A senhora sabe o que isto aqui pode significar paraa zotecnia do semiárido? Mais ou menos, doutor? Significa que o gado tem alimento na seca sem dar trabalho de tirar espinho.
Significa que faveleira pode tornar-se coisa séria de plantação, não só de cata na floresta? Exatamente. É exatamente isso. Augusto pediu autorização para continuar acompanhando a propriedade. Antónia deu. Nos meses seguintes, voltou várias vezes, sempre com mais pessoas. Investigadores da Embrapa, professores da universidade, técnicos de outras ematers do Nordeste.
Antónia recebeu todo mundo com café e paciência, mostrou os pés, explicou a propagação, contou a história do pé original da mata, contou a frase do pai em 1956. A propriedade de Antónia atravessou a seca de 1983 e 1984, sem perder um único animal, num período em que propriedade vizinha perdia metade do rebanho.
O gado dela emagreceu? Sim, todo o gado emagreceu nessa seca, mas não morreu. E quando voltou a chover, em Janeiro de 1985, O rebanho dela estava pronto para retomar a produção, enquanto os vizinhos necessitaram de comprar gado novo a preço alto para repor o que tinha morrido. Nos anos seguintes, a história foi-se firmando. Em 1986, a Embrapa Semiárido iniciou um programa formal de propagação da variedade, batizada informalmente de faveleira sem espinho do Pageu, que mais tarde ganhou o nome científico próprio em publicação técnica. Antónia foi entrevistada por
revista de extensão rural. Veio reportagem televisiva do Recife. Antónia recebeu todos com a mesma simplicidade, contando a história sempre do mesmo modo. Em 1987, foi convidada para falar num seminário em Petrolina, organizado pela Embrapa Semiárido. Era a primeira vez que ela ia sair do estado, apanhar um avião, falar para plateia de investigadores.
Geraldo achou que ela não devia ir. Achou que era muito longe, que ela ia ficar nervosa, que não precisava daquilo. Antónia foi, subiu ao palco com um vestido simples comprado na feira de serra talhada, sapato fechado que ela usava só paraa missa de domingo e cabelo apanhado num coque. Olhou para a plateia de investigadores, com diploma na parede, com livro publicado, com pesquisa de doutorado, e falou sem leitura, sem anotação.
O meu pai disse-me uma vez em 1956 que se eu encontrasse uma faveleira sem espinho era para cuidar dela. Disse que era ouro no meio do mato. Em 1972 eu achei. Levei 15 anos para mostrar aos senhores o que o meu pai sabia em 1956. Fez uma pausa. Os meus vizinhos riram-se em 1981, quando comecei a dar a folha sem espinho para o gado.
Ram porque acharam que estava a confundir planta. Em 1983, na seca, os mesmos vizinhos vieram pedir muda. Eu dei, não guardei o riso do passado contra eles. Vizinho de sertão, não pode guardar mágoa, porque na próxima seca vamos precisar um do outro. fez outra pausa. O doutor engenheiro agrónomo, quando veio em 1982, disse que talvez estas faveleiras fossem desenvolver espinho com o tempo.
Disse com educação, disse com respeito, mas disse: “Não discuti, esperei. A árvore deu-me razão a mim, não a ele.” Mas o médico voltou em 1983 e pediu desculpa. Isso é raro. Homem de tudo o que volta para pedir desculpa à mulher de roça. É raro. Eu respeito. A plateia aplaudiu e Antónia desceu do palco sem perceber bem porque estava a ser aplaudida tanto.
Porque para ela aquilo era só história simples de árvore que tinha aparecido na mata atrás da casa. Os anos foram passando. A faveleira sem espinho espalhou-se pelo Nordeste todo. Em 1990 já tinha propagação em todos os estados nordestinos. Em 1995 já era uma recomendação oficial da Embrapa, paraa criação de pequena e média dimensão no semiárido.
Em 2000, já tinha entrado em livro didático de zotecnia. Antónia continuou na sua propriedade na Serra Talhada, cuidando dos pés originais, sem nunca ter cobrado uma muda, sem nunca ter pedido royalty, sem nunca ter virado figura pública, para além das entrevistas que aceitava com paciência. Os filhos cresceram.
Severino tornou-se agrónomo, formado em Garanhuns, e regressou a trabalhar na propriedade da mãe. Maria do Carmo casou e foi viver para o Salgueiro. Geraldo morreu em 2003, vítima de um problema de coração e foi sepultado em Serra Talhada com Antónia ao lado. Hoje, a propriedade de Antónia Ferreira da Silva, perto de Serra Talhada, no sertão do Pajeú, tem mais de 400 pés de faveleira sem espinho.
Todos descendentes do pé original encontrado em 1972 na mata atrás da casa. O pé original com mais de 50 anos agora ainda está lá, ainda dá fruto. Ainda é marcado com um pano vermelho atado num galho alto do jeito que Antónia tinha amarrado da primeira vez. Antónia tem 75 anos, ainda corta galho de faveleira, ainda dá para o gado, ainda recebe a visita de um investigador que venha a compreender a história, continua contando a mesma história, do mesmo jeito, sem floreado, sem dramatização.
Em 2018, uma equipa de uma universidade do estrangeiro, que estava a fazer pesquisa sobre forrageiras de regiões semiáridas em vários países, foi mesmo à propriedade para a entrevistar. O investigador, no final da entrevista, perguntou se ela tinha consciência do impacto que a A descoberta dela tinha tido na agricultura do semiári do nordestino.
Antónia pensou um instante e respondeu: “Não descobri nada, moço. A árvore estava lá desde antes de eu nascer. Meu pai sabia que faveleira sem espinho podia existir desde antes de eu nascer também. Eu só encontrei a árvore e tive paciência para plantar mais. Não há descoberta nisso. Tem paciência. Tem ouvido para escutar o que o pai falou quando a gente era menina.
Tem olho para olhar para o mato sem pressa. O investigador anotou, agradeceu, foi embora. Antónia voltou pra cozinha terminar de fazer o jantar. Lá fora, no curral, 26 cabeças de gado mastigavam a folhagem que Severino tinha cortado naquela tarde. Folha grande em forma de mão aberta, verde clara, sem um espinho sequer.
O sol descia por detrás da serra, pintando o céu de laranja. Os bezerros mais novos atacavam a forragem com a fome de vitelo novo, sem saber que a folha que estavam a comer tinha mudado a forma de criar gado num semiárido inteiro. Antónia ainda mantinha a lata de goiabada, onde tinha guardado as primeiras sementes em Maio de 1973. estava na prateleira da cozinha, junto do pote de açúcar, com algumas sementes secas dentro, guardadas mais por memória do que por necessidade.
Quando alguém perguntava por ela guardava aquilo, A Antónia respondia sempre a mesma coisa. É só para lembrar que tudo em grande começa com uma coisa pequena que cabe numa lata. E voltava a cuidar do que precisava de cuidar, que era muito, no sertão do Pageú, onde a vida não parava nunca. E onde a árvore que ela tinha encontrado por acaso numa tarde de janeiro de 1972, com a barriga de 6 meses, tinha virado o que tinha virado.
Alimento de gado em ano seco, herança de vizinho para vizinho, ouro no meio do mato, da maneira que o seu Severino Ferreira tinha previsto, sentado debaixo de uma árvore com espinho, 16 anos antes da filha encontrar a que não tinha. M.