Bola de ouro, penta campeão do mundo. E este mesmo gajo a ver a mulher e a filha destruídas, agonizando numa cama de hospital e descobrindo no telemóvel da própria esposa a mais repugnante traição da vida inteira. Hoje vai saber o que aconteceu de verdade naquela noite em que quase morreu toda a família.
Uma coisa ainda mais sombria, como morreu de verdade o pai do Rivaldo. E a traição assinado pela pessoa que mais amava no mundo. Mas antes, irmão, tens que conhecer o miúdo mais pobre das favelas do Recife. O génio que perdeu o pai exatamente uma semana antes de assinar o primeiro contrato profissional e a ferida que carregou 37 anos em silêncio.
Paulista, uma cidade da área metropolitana do Recife, estado de Pernambuco, 1972, 19 de abril, uma manhã de Quarta-feira, 4 da madrugada, numa casa de madeira com telhado de zinco enferrujado, numa rua de terra batida do bairro do Beberibe, uma mulher chamada Marlúcia Borba deu à luz o terceiro filho.
O parto durou 14 horas sem médico. A parteira do bairro cobrou o equivalente a dois pacotes de farinha de milho e meteram no menino um nome comprido, Vittor Borba Ferreira. A família inteira já eram trava-línguas à hora do almoço, irmão. O pai, que se chamava Romildo, tinha de chamar o Ricardo, o Rinaldo e Vittor para se sentar à mesa.
Quando chegaram as duas irmãs mais novas, alguns anos mais tarde, a lista ficou ainda maior. Mas o pequeno Vittor, desde os primeiros dias, a família começou a chamar por uma alcunha que naquele bairro soava esquisito. Chamaram-lhe Rivaldo sem razão clara, pegou. O Rivaldo, cresceu na pior pobreza que se pode imaginar.
A casa onde viviam não tinha água encanada. A casa de banho era um buraco no quintal. A cozinha era um fogão de barro com lenha que a mãe acendia com um farrapo encharcado em querosene. Comiam arroz com farinha de mandioca de segunda a sexta-feira. No fim de semana, se o pai conseguia horas extra na câmara municipal, tinha frango.
Se não tinha horas extra, não tinha nada. E aqui, irmão, vem o dado que poucos brasileiros se lembram sobre a infância do génio do Recife, não é? Porque o pai Romildo Ferreira, durante 12 anos seguidos, todos os domingos sem falhar um, fez uma coisa com o filho mais novo que nenhum outro pai do bairro do Beberibe fazia com os seus.
E aquele costume marcou o Rivaldo mais do que qualquer outra coisa da vida inteira. Romildo trabalhava como funcionário público da câmara municipal do Recife. Limpava rua, transportava lixo, fazia o que mandassem. Ganhava um salário mínimo da época. Não dava para alimentar cinco filhos e uma mulher.

Mas o Romildo era um tipo que não se entregava. Fazia hora extra, vendia coisa ao fim de semana, caminhava 2 km até ao trabalho todos os dias para não gastar com o autocarro. E aos domingos, sem falhar um, jogava à bola com os vizinhos do bairro num campinho de terra batida chamado Gonzagão.
O Romildo era canhoto, driblava com técnica de profissional, podia ter sido jogador, mas a pobreza não houve tempo, viu? Tinha um filho para alimentar. O único modo de jogar era no domingo com os colegas da autarquia num campo sem rede. O pequeno O Rivaldo ia com o pai todos os domingos, desde os 4 anos.
Sentava-se na beira do campo, olhava em silêncio e quando o jogo acabava, o pai apanhava-o pela mão e os dois voltavam para casa caminhando durante meia hora, a falar sobre o jogo, sobre os golos, sobre os companheiros, sobre os adversários. Aquela caminhada semanal entre pai e filho durante 12 anos seguidos marcou o miúdo mais do que qualquer outra coisa.
Guarda esse dado, irmão. 12 anos de caminhada, todos os domingos, pai e filho sozinhos falando sobre o futebol que o pai nunca pôde jogar profissionalmente. Porque a última caminhada dos dois juntos, sem que ninguém soubesse ainda, aconteceu num domingo de Dezembro de 1988. E o que o pai lhe disse naquela última caminhada, o Rivaldo guardou como segredo durante 37 anos.
Aos 6 anos, o Rivaldo entrou na escola primária do bairro. Era um miúdo magro, mais baixo que os colegas. Tinha os dentes tortos porque a família nunca teve dinheiro para o levar no dentista. A voz não engrossava. Aos 14 anos, ainda falava como uma criança de 10. Os colegas troçavam, afastavam-no.
Os vizinhos do bairro Beberibe falavam que o irmão mais velho, o Rinaldo, é que era o talento de verdade, o que tinha porte, o que tinha cabeça, o que ia ser jogador profissional. O Rivaldo era o magro, o que não servia, o esquisito. A única coisa que o Rivaldo tinha era uma bola, estás a ver? Uma bola de plástico amarela que lhe tinham dado aos 8 anos.
Aquela bola acompanhava ele em todo o lado, levava-o para a escola, punha-o debaixo da carteira na hora do almoço, dormia com ela ao lado do almofada e sempre que podia, depois dos trabalhos de casa, ia para o Gonzagão jogar contra os miúdos mais velhos. Aos 9 anos, passava o dia inteiro a chutar aquela bola.
Aos 12, já driblava miúdo de 17. Aos 14, o Santa O Cruz Futebol Clube, uma das equipas históricos do Recife, chamou-o para base. A família não tinha dinheiro para o autocarro do treino. O pai Romildo tirava do seu próprio bolso para que o miúdo conseguisse ir três vezes por semana, aguentando uma piada dos vizinhos, aguentando que a mãe Marlúcia pedisse para esse dinheiro ser gasto em arroz, aguentando tudo, porque o Romildo, em silêncio durante 12 anos, tinha decidido que aquele projeto era uma sociedade de dois, pai e filho,
mesmo que ninguém no bairro do Beberibe entendesse. Aos 15 anos, o Rivaldo era goleador do juvenil do Santa Cruz, mas os técnicos do clube estavam na dúvida. Era magro, pesava 53 kg aos 16 anos. Falavam que ele não ia aguentar o futebol profissional, diziam que era um projeto demasiado frágil.
deixaram em suspenso, não assinaram contrato profissional com ele. E aí, aos 16 anos, em dezembro de 1988, chegou o convite que mudou tudo. Um convite que chegou exatamente 15 dias antes da pior noite da vida do Rivaldo, a noite do 5 para o 6 de Janeiro de 1989. Uma noite que 30 anos depois, em abril de 2016, no quarto de um hospital de São Paulo, vai voltar a cabeça do Rivaldo com uma clareza que o vai destruir.
Um olheiro do Paulistano Futebol Clube, outra equipa da região de Pernambuco, chamou o Rivaldo para fazer um teste e assinar como profissional. A data de apresentação ficou marcada para o 23 de Janeiro de 1989. A primeira semana de janeiro, 15 dias antes, o Rivaldo deu a notícia pró pai.
O Romildo sentou-se numa cadeira de plástico na cozinha, pegou na mão do filho e desabou em choro durante 15 minutos seguidos. A mulher A Marlúcia, que estava a cozer feijão, deixou a colher. Chegou perto. O pai, sem levantar a cabeça, disse uma frase só que o Rivaldo ia-se lembrar até o fim da vida.
A frase foi: “Filho, a gente conseguiu. A gente conseguiu. A gente conseguiu no plural, estás a ver? Porque para o Romildo, a carreira do Rivaldo era um projeto dos dois, um sonho dividido. Um sonho que o pai tinha trabalhado durante 12 anos em silêncio, sem que ninguém agradecesse, caminhando 2 km para o trabalho para poupar, retirando comida do próprio prato para que o miúdo pudesse treinar, aguentando piada dos vizinhos do bairro do Beberibe, que diziam que o Rivaldo era o menos talentoso dos irmãos. A noite
de 5 de janeiro de 1989, quinta-feira, véspera do dia de Reis no Brasil, o Romildo saiu para trabalhar 5 da manhã. Era um dia que para quase todos os mundo era feriado, mas o Romildo tinha aceitado um turno extra na câmara porque precisava da grana pagar o material desportivo que o Rivaldo ia precisar paraa apresentação do paulistano.
O material custava o equivalente a dois salários. O Romildo tinha um, faltava o outro. 7 da noite desse 5 de janeiro, o Romildo terminou o seu turno, saiu da câmara municipal, caminhou até à paragem do autocarro que ia levá-lo de volta paraa Paulista. Era uma distância de 40 minutos.
O autocarro passava de meia em meia hora. O Romildo sentou-se num banco do ponto para esperar. O que aconteceu nos 10 minutos seguintes, a polícia reconstruiu depois com três testemunhas. O Romildo se levantou-se quando viu o autocarro chegar, caminhou até à beira da calçada. O autocarro da marca Mercedes-Benz, modelo do ano 82 da empresa de transportes públicos local, vinha à velocidade normal.
O motorista do autocarro, um tipo de 46 anos, depois de um dia inteiro de serviço, segundo declarou para polícia, distraiu-se um instante para ajeitar o espelho retrovisor. O ônibus não travou, atropelou o Romildo de frente, atirou-o 4 m de distância. O Romildo morreu no local. A cabeça bateu no lancil.
O corpo ficou atirado para o asfalto. 7:15 da noite, hora de pico. Dezenas de pessoas passaram pela cena nos minutos seguintes. Mas a família do Romildo na casa do Paulista não soube naquela noite, nem de madrugada, nem de manhã seguinte. A polícia não avisou. O hospital para onde levaram o corpo não avisou.
O Romildo não estava com documento nessa tarde. Tinha deixado em casa porque estava a chover e não queria que se molhasse. Na casa de Paulista, naquela noite do 5 pro 6 de janeiro, a família esperou. A mãe Marlúcia preparou o jantar 8 da noite. O Romildo não chegou. 9 horas, a Marlúcia ligou do telefone de um vizinho que tinha linha, pediu para ele ligar para a câmara municipal.
O porteiro confirmou que o Romildo tinha saído 7 da noite. 10 horas, a Marlúcia ligou para o hospital mais perto. O recepcionista disse que não tinha nenhum Romildo registado. O Rivaldo, de 16 anos, recordou daquela noite toda a vida. A mãe sentada na cadeira de plástico da cozinha, os irmãos acordados sem saber o que fazer, a bola amarela do Rivaldo num canto da sala e o rádio.
Um rádio Philips dos anos 70 ligado numa rádio local, dando notícia intercalada com música. 5 da manhã do 6 de janeiro, sexta-feira, dia de Reis, a rádio deu uma notícia local que o Rivaldo escutou de pé na cozinha sem ter dormido. A locutora falou com voz neutra: “Atropelamento na Boa Vista, uma vítima fatal, homem adulto, sem identificação.
Encontrado atirado para a rua 7:15 da noite de ontem, foi levado para o Hospital Mártires da Lima. A polícia pede a colaboração dos familiares paraa identificação. O Rivaldo olhou para mãe, a mãe olhou para o filho. Nenhum dos dois disse nada, mas os dois souberam naquele momento que era o Romildo.
22 horas, estás a ver? 22 horas, demorou para a família saber que o pai estava morto, atropelado numa rua do Recife, dentro de um saco plástico de um necrotério municipal, sem que ninguém soubesse quem era. E aquela noite inteira, de espera silenciosa, marcou o Rivaldo de uma forma que nem o Mundial de 2002, nem o bola de ouro de 99, nem cinco épocas no Barcelona conseguiram apagar.
Mas a dor daquela madrugada, irmão, não foi o mais tenebroso do 5 de Janeiro de 1989. Porque houve mais uma coisa, uma coisa que a família nunca soube, uma coisa que o Rivaldo só ia descobrir 27 anos depois, no verão de 2016. Uma coisa que estava guardada dentro do bolso interior do casaco do pai e que desapareceu entre a rua, o lancil e o necrotério municipal do Recife.
Esta coisa vai voltar para o vídeo, mas antes há outra noite, muito mais recente que tem que conhecer. A família foi para a morgue na manhã do 6 de janeiro. A mãe Marlúcia reconheceu o corpo. O Rivaldo entrou atrás. viu o pai estendido numa maca de metal com um lençol cobrindo até o pescoço, com a cabeça enfaixada porque a batida no passeio tinha sido brutal.
O Rivaldo não chorou naquele momento, não se aproximou. Ficou a 2 m da maca, olhando para o corpo do homem que durante 12 anos seguidos tinha levado ele para o Gonzagão todos os domingos. Saiu do necrotério, andou até à rua e vomitou na sarjeta durante vários minutos.
O enterro foi no dia seguinte, 7 de janeiro, cemitério público de paulista. Foram 30 pessoas. O Romildo tinha sido um homem humilde, sem amigo famoso, sem colega importante. A bola amarela do Rivaldo ficou em casa num canto da sala, onde ela ficou os seis meses seguintes sem ninguém encostar. Duas semanas depois do funeral, 23 de janeiro, chegou a data da apresentação oficial do Rivaldo no Paulistano.
O Rivaldo não foi, disse à mãe que ia deixar o futebol. que ia procurar emprego na câmara municipal para substituir o salário do pai, que a família precisava dele mais do que do futebol. A mãe Marlúcia, uma mulher pequena, calada, religiosa, que toda a vida tinha sido a sombra do marido, pegou no filho pelo braço nessa noite.
Sentou-se ele na mesma cadeira de plástico da cozinha, onde o Romildo tinha desabado em choro três semanas antes, e falou cinco palavras, não é, que marcaram a carreira inteira do Rivaldo. As palavras foram: “O teu pai queria isto”. Vai. O Rivaldo foi três dias depois, 26 de janeiro, apresentou-se no paulistano.
O clube aceitou, assinaram um contrato com ele, mas o clube tinha um problema com a ficha federativa. Depois de três meses, o Rivaldo regressou ao Santa Cruz, onde já tinha jogado nas categorias de base. No Santa Cruz passou as épocas de 90 e 91, treinando arduamente, ganhando peso lentamente, marcando golo no juvenil.
Em Dezembro de 92, aos 20 anos, chegou a oferta que mudou tudo. O Mojimir Esport Clube, uma equipa de São Paulo da segunda divisão, comprou-o por um valor modesto. O Rivaldo mudou-se para Mogimirm, levou consigo apenas duas coisas. A bola amarela do pai, que já estava murcha e ele tinha guardado durante 4 anos.
e uma foto preto e branco do Romildo no Gonzagão, jogando pela câmara municipal, tirada por um colega de trabalho um ano antes. Em Mogimi março de 93, o Rivaldo conheceu uma mulher, certo? Tinha 18 anos. Trabalhava numa loja de roupa do centro da cidade. Era discreta, calada, religiosa, mineira de origem, de uma família católica de Belo Horizonte que se tinha mudado para São Paulo um ano antes.
Se chamava Elisa. Elisa Hilário. Em seis meses de namoro, o Rivaldo apaixonou-se por ela de uma forma que só tinha sentido por uma pessoa na vida até àquele momento. O pai casaram no dia 14 de abril de 1994. O Rivaldo com 22 anos, a Elisa com 19. A cerimónia foi numa igrejinha católica de Mogimi foram 40 pessoas.
A mãe Marlúcia veio do Recife, os irmãos também. A bola amarela do pai Romildo, ainda guardada numa caixa por baixo da cama do Rivaldo, não foi no casamento, mas a foto a preto e branco do Gonzagão foi. O Rivaldo meteu-a na primeira fila da igreja, numa cadeira vazia do lado da mãe. O que veio depois foi meteórico, irmão.
Palmeiras em 94, melhor marcador do Brasileirão 94 e 95. Selecção brasileira em Dezembro de 93. Estreia-se com um golo contra o México. Jogos Olímpicos de Atlanta em 96. Deportivo La Corunha em 96. A filha mais velha Tamires, nascida em La Corunha em abril de 97. O Rivaldinho, primeiro filho homem, nascido em São Paulo em Abril de 95.
Barcelona em 97, cinco épocas no Campinou, Bola de Ouro em 1999. Melhor jogador do mundo no ano 2000. Mundial de 2002, campeão com o O Brasil, juntamente com o Ronaldo e o Ronaldinho. Três golos no torneio. Uma semifinal onde marcou o golo da vitória contra a Turquia. Uma final onde deu a assistência para o segundo golo do Ronaldo contra a Alemanha.
25 anos de carreira profissional, 265 golos em clubes, 35 golos pela seleção, uma família de cinco filhos, uma mulher fiel, calada, católica e uma casa em Mogimi onde guardava numa caixa de madeira debaixo da cama, a bola amarela do pai Romildo e a foto preto e branco do Gonzagão.
Mas há uma coisa que o público não sabe, irmão, uma coisa que a comunicação social brasileira nunca contou. Naquela mesma caixa, por baixo da bola amarela, tinha um terceiro objeto, um invólucro fechado com quatro folhas de papel no interior, uma carta manuscrita pelo pai Romildo, datada de 20 de dezembro de 1988, 16 dias antes da morte.
Uma carta que o Romildo tinha escrito ao filho Rivaldo e nunca tinha entregue. Uma carta que a família encontrou debaixo do colchão do pai, três dias depois do enterro, e entregou-a ao filho. Fechada, selada, sem abrir. O Rivaldo nunca abriu aquela carta. Durante 37 anos, guardou-a selada.
Mudou de casa em casa, de país em país, de continente em continente. Esteve em La Corunha, em Barcelona, em Milão, em Atenas, em Tashkent, em Mogimirim. sempre selada, sempre debaixo da cama, sempre à espera. A carta foi aberta pela primeira vez em abril de 2016, uma semana depois de uma noite que quase acabou com a família inteira do Rivaldo.
Uma noite numa auto-estrada do rodo anel de São Paulo, quando 11 veículos bateram ao mesmo tempo e a mulher Elisa e a filha As Tamires ficaram internadas num hospital à beira da morte. E naquela mesma noite, na cama do hospital, o O Rivaldo descobriu uma coisa no telemóvel da Elisa, que mudou o casamento para sempre.
7 de abril de 2016, quinta-feira, 20h35 da noite, rodo anel Mário Covas, uma auto-estrada periférica de São Paulo, no troço que atravessa o concelho de Itapevi, sentido norte, chuva intensa, fraca visibilidade, trânsito intenso, porque era quinta-feira de véspera de feriado prolongado. Na faixa central, um Honda Civic branco modelo 2014 da autoria de Elisa Borba Ferreira, mulher do Rivaldo, andava a 90 por hora.
No interior estavam duas pessoas, a Elisa ao volante, de 41 anos, e a Tamires Borba Ferreira, filha mais velha, 18 anos, no lugar do pendura. Mãe e filha tinham saído de casa, em Mogi Infantil, 6:45 da tarde. O Rivaldo nessa noite estava na sede do Mogi Mirim Esport Clube, onde era presidente desde o ano anterior.
Tinha uma reunião com a direção do clube, uma reunião tensa, porque as finanças do Mogimi estavam em crise. A dívida acumulada do clube rondava os R$ 4 milhões deais. Os salários dos jogadores estavam dois meses atrasados e a comunicação social local começava a falar de falência. A Elisa tinha saído de casa falando para o Rivaldo por telefone meia hora antes que ia para São Paulo com a Tamires fazer compra.
Era uma versão que o Rivaldo não questionou. Mãe e filha saíam duas, três vezes por mês para São Paulo para comer e fazer compras. Era rotina. O que o Rivaldo não sabia. O que ele ia saber 7 horas depois numa cama do Hospital Albert Einstein de São Paulo. Era que a Elisa e a Tamires não iam às compras nessa noite. Iam para um apartamento do bairro Higienópolis, no centro de São Paulo, para uma reunião que durava em cerca de 1 hora30.
uma reunião com duas pessoas, um advogado fiscalista de 52 anos e outro homem que a Elisa tinha contactado três semanas antes, sem avisar o marido por recomendação de uma amiga. 20h34, no qum 27 do Rodo Anel, um camião de carga marca Volvo levando barra de aço perdeu o controlo numa curva descendente por causa da chuva.
O camião derrapou, atravessou três faixas, atravessou o canteiro central e atrás do camião, em questão de segundos, 11 veículos chocaram em sequência. O Honda O Civic da Elisa foi o sexto. Bateu num Renault Sandeiro que ia na frente e foi batido atrás por uma pick-up Toyota Hilux que vinha na faixa central a alta velocidade.
O Civic ficou esmagado. A Elisa bateu a cabeça no volante, a Tamires bateu no airbag do Carona. As duas ficaram inconscientes durante vários minutos. Os bombeiros chegaram 9 e 10. Demoraram 40 minutos a tirar a Elisa do carro com a tesoura hidráulica. A Tamires tiraram antes.
Levaram as duas em ambulâncias diferentes para o hospital Albert Einstein. O Rivaldo recebeu a chamada 9:15. Ainda estava na sede do Mogi Mirim. Um médico do hospital explicou em 30 segundos o que tinha acontecido. O Rivaldo saiu a correr, pediu a um assessor do clube levá-lo para São Paulo. 70 km, 1 horas e 10 de viagem.
O Rivaldo chegou ao hospital 10:35 da noite. Encontrou a Elisa entubada numa sala de UCI. Estava viva, mas os médicos explicaram que as 6 horas seguintes eram críticas: traumatismo craniano moderado, costela fraturada, hemorragia interna. A Tamira estava no quarto ao lado, consciente, magoada no rosto, com o braço esquerdo quebrado, mas estável, ia sobreviver sem sequelas graves.
O Rivaldo sentou-se numa cadeira ao lado da cama da Elisa, pegou-lhe na mão e chorou durante quase uma hora, sem falar, sem se mexer, só chorando. 23h30 da noite, uma enfermeira entrou no quarto com uma saco transparente. Dentro tinham os objetos pessoais da Elisa que tinham resgatado do carro, uma bolsa, um par de óculos, um telemóvel Samsung Galaxy e uma agenda em pele preta pequena.
A enfermeira deixou a saco em cima da mesa do lado da cama e foi-se embora. O Rivaldo, à meia hora seguinte, enquanto a Elisa dormia entubada, fez uma coisa que durante anos tinha prometido para si mesmo que não ia fazer nunca. Abriu o telemóvel da mulher, sabia a palavra-passe. A Elisa nunca tinha escondido.
Era o aniversário da Tamires escrito ao contrário. Desbloqueou com a mão a tremer, sentado na cadeira de plástico do lado da cama da UCI. Começou pelo WhatsApp. Tinha uma conversa fixada em cima, no primeiro lugar da lista, um contacto guardado com o nome Carlos H, sem apelido, sem foto de perfil.
O Rivaldo nunca tinha ouvido esse nome, mas a conversa tinha 423 mensagens. tinha começado seis meses antes, em setembro de 2015. O Rivaldo abriu a conversa, leu ela toda, em ordem, durante 3 horas seguidas, não levantou a cabeça uma única vez, não tomou água, não se mexeu da cadeira. O que estava a Elisa a fazer com aquele Carlos H escondido do marido durante seis meses seguidos era preparar uma operação financeira, uma operação para vender o apartamento do Passeegue de Grácia de Barcelona, que o
Rivaldo tinha comprado no ano da bola de ouro e mantinha-se até hoje. Um apartamento que valia 4 milhões de euros, um apartamento que estava no nome dos dois. A Elisa tinha assinado três vezes uma autorização falsificada com a assinatura do Rivaldo datada de Janeiro de 2016 para iniciar a venda sem o avisar.
O comprador era um fundo imobiliário de Andorra. A operação estava pronta para fechar em maio. O Rivaldo não sabia nada, mas o motivo que a própria Elisa explicava naquelas mensagens, irmão, era ainda mais estranho do que a venda em si. Porque numa das mensagens datada de 28 de de março, exatamente 10 dias antes do acidente do Rodo Anel, a Elisa tinha escrito ao Carlos H uma frase de três linhas que o Rivaldo leu três vezes seguidas.
Leu-a de pé ao lado da cama da UCI, leu outra vez sentado, leu uma terceira vez em voz baixa, quase em sussurro. A frase exata da Elisa falava: “O meu marido não entende. Acha que o problema é o dinheiro do clube, o problema é o nosso filho e a conversa que tivemos em fevereiro. Essa é a ferida verdadeira. Essa é a ferida a sério.
” Três palavras que o Rivaldo, lendo-as naquela madrugada do dia 8 de abril de 2016, ainda não sabia ligar, não sabia a que ferida a Elisa estava se referindo. Não sabia que conversa de fevereiro ela estava a mencionar. Não sabia porque estava metido nisso o filho Rivaldinho, que naquele momento se encontrava a 10.
000 km de distância a jogar numa liga europeia. Mas alguma coisa já começava a doer dentro do peito do Rivaldo, estás a ver? Alguma coisa distinta da dor pela Elisa magoada na cama. Uma suspeita que ainda não tinha forma, não é? O motivo oficial da venda, segundo as mensagens que o Rivaldo leu naquela madrugada, era direto.
A Elisa queria salvar o património da família antes que o Mogimir Esport Clube falisse e arrastasse o Rivaldo numa crise pessoal. Sabia que o Rivaldo tinha usado dinheiro pessoal para pagar dívida do clube. Sabia que ele ia perder mais de 1 milhão se não fizesse alguma coisa e tinha decidido, sem o consultar, tirar o imóvel de Barcelona do risco, vender para um comprador em segredo e guardar a dinheiro numa conta em nome dos filhos.
Era uma operação que tecnicamente protegia a família, mas o Rivaldo, sentado naquele quarto de hospital, ficou a pensar numa coisa, a assinatura falsificada. As assinaturas falsificadas no plural, três autorizações diferentes. Três vezes que a Elisa tinha imitado a mão do marido para movimentar 4 milhões de euros sem avisar.
E que, viu, ligou com alguma coisa que o Rivaldo nunca tinha pensado em 22 anos de casamento. Uma coisa que o pai Romildo tinha escrito sem ninguém saber numa carta selada de 1988, uma carta sobre as assinaturas. Mas o Rivaldo ainda não tinha aberto aquela carta. Faltavam s dias para ele ter coragem para abrir.
4h10 da madrugada do dia 8 de abril, o Rivaldo fechou o telemóvel da Elisa, guardou-o no saco transparente, saiu do quarto da UCI, caminhou pelo corredor do Hospital Alberto Einstein até uma salinha reservada para familiares, sentou-se num sofá de pele preto e pela primeira vez desde a noite do dia 6 de janeiro de 1989, fez uma coisa que não tinha feito em 27 anos. Chorou em voz alta, sem se conter.
sem se importar com quem escutasse. Uma enfermeira que passava pelo corredor escutou o choro. Chegou perto, ofereceu um copo de água. O Rivaldo não respondeu. Só seguia chorando com a cabeça entre as mãos, repetindo em voz baixa uma palavra. Uma palavra apenas: “Pai, pai, pai”. A enfermeira não compreendeu.
A mulher estava na UCI, a filha estava no quarto ao lado e o rapaz de 44 anos, ex-jogador de futebol, ex-bola de ouro, exppentacampeão do mundo, tava chamando um pai que levava 27 anos morto, atropelado numa rua do Recife, atirado para o asfalto durante 22 horas, sem que ninguém soubesse quem era.
O Rivaldo voltou para Mogimi na segunda 11 de abril, quatro dias depois do acidente. A Elisa já estava consciente. Os médicos tinham tirado o tubo, ia ficar internada duas semanas mais em observação. A Tamires já estava em casa com o braço na tipoia. O Rivaldo dirigiu ele próprio aquele domingo à noite, desde São Paulo até Mogimi 70 km, 1 hora e 10 de viagem.
Não ligou o rádio, não parou nas portagens. Quando chegou a casa, eram 11:30 da noite de domingo. Subiu para o andar de cima, abriu o quarto que tinha livre, onde guardava documentos do clube, sentou-se na cama e durante uma hora inteira simplesmente olhou para a parede pensando, lembrando, conectando. E à meiaite 32 da madrugada de segunda- 11 de Abril, o Rivaldo levantou-se da cama, desceu à cave da casa, moveu uma caixa de madeira velha que estava debaixo de um cobertor, tirou a bola amarela do pai, já murcha
de vez, e pôs-na no chão. Tirou a foto a preto e branco do Gonzagão e por baixo da foto, selado durante 27 anos exatos, o envelope, quatro folhas de papel no interior, uma letra conhecida, a do pai Romildo. A data no envelope escrita com tinta azul que o tempo se tinha tornado roxo. 20 de dezembro de 1988.
O Rivaldo subiu para o escritório, sentou-se na secretária, acendeu a luminária e abriu o invólucro pela primeira vez em 37 anos. O que o pai O Romildo tinha escrito naquelas quatro folhas 16 dias antes de morrer atropelado, era uma carta dirigida pro filho Rivaldo, com um assunto que a família inteira nunca tinha conhecido.
Uma história que o pai tinha carregado em silêncio durante 25 anos. A carta começava com três palavras na primeira linha: letra firme, palavras pequenas, tinta azul. As três palavras do pai Romildo eram: “Filho, se algo me acontecer”. E a partir daí, durante quatro folhas escritas de ambos os lados, o O Romildo contava ao filho de 16 anos uma coisa que a família nunca tinha conhecido.
Em 1964, quando Romildo tinha 22 anos, tinha tido um primeiro filho do sexo masculino fora do casamento com a Marlúcia, um menino nascido numa favela de Olinda, vizinha do Recife, de um curto relacionamento com uma mulher jovem, mineira de origem, que trabalhava como ajudante de cozinha num restaurante do centro.
O menino se chamou o Roberto e o Romildo, durante os 25 anos seguintes, mandava dinheiro para a mãe todos os meses em segredo, sem que o Marlúcia saber. Quantia pequena o equivalente a 1 kg de arroz por mês, mas sem falhar uma única vez. A mulher e o menino Roberto viviam a 30 km de Paulista, numa casa ainda mais pobre que a dos Borba Ferreira.
O Romildo nunca tinha ido visitar, nunca tinha escrito carta, nunca tinha feito uma chamada, só dinheiro todos os meses durante 25 anos seguidos. Em dezembro de 1988, quando o Romildo escreveu a carta, o Roberto tinha 24 anos. trabalhava como motorista de autocarros na empresa de transporte público do Recife. O Romildo não sabia, não conhecia a profissão do filho perdido, não o tinha visto nunca, mas o dinheiro, todos os meses sem falhar chegava a casa de Olinda.
O que o pai falava com o filho Rivaldo na carta era um aviso direto. Avisava sobre três coisas. Primeiro, que o Roberto existia e que no dia em que o Romildo morresse, alguém da família devia saber, segundo que se acontecesse alguma coisa com o Romildo, o Rivaldo devia procurar o Roberto e a mãe em Olinda e apoiá-los financeiramente quando pudesse.
E terceiro, o mais estranho de todos, uma previsão que o Romildo tinha escrito na última folha, com letra mais tremida, quase no fim, uma previsão sobre os filhos do sexo masculino da família Borba Ferreira. E aqui, irmão, tem de parar por um momento. Porque a frase que o pai Romildo escreveu nessa última folha, em Dezembro de 1988, 16 dias antes de morrer, ligava com alguma coisa que o Rivaldo ia fazer sem saber, exatamente 9 anos depois, em Dezembro de 1997, durante uma viagem de três semanas com uma equipa europeia numa cidade pequena do
sul da Holanda, onde durante três noites o Rivaldo desapareceu do hotel sem que ninguém da equipa soubesse. Mas essa parte da história, irmão, ainda não é a hora. Falta, falta muito. Aguenta, aguenta e lê o que o pai escreveu. A frase exata do pai na última folha, escrita com letra tremida, falava o seguinte: “Os homens desta família, filho, herdámos uma ferida.
A ferida do pai ausente. O meu pai foi embora quando tinha 4 anos. Eu tenho te, mas se algo acontecer comigo, Rivaldo, lembra-se disso. O filho homem que tiver um dia vai sentir essa mesma ferida se não fizer alguma coisa diferente do que fizeram os homens antes de si. A ferida, quando se herda, volta sempre, mais cedo ou mais tarde, vai procurar-te.
Não a ignores quando chegar. A ferida do pai ausente, quatro folhas, um nome novo, Roberto, e uma frase final que o Rivaldo leu três vezes em silêncio no escritório de Mojimirim, a 1:15 da madrugada do dia 11 de abril de 2016. Se me acontecer alguma coisa, filho, olha no bolso interior do Paletó.
O que eu levo ali guardado vai explicar tudo. O Rivaldo acabou de ler a carta à 1:21 da madrugada, dobrou as quatro folhas, guardou na gaveta da secretária do escritório, apagou o candeeiro e desceu para o quarto onde a Elisa dormia sozinha, ainda com a cabeça enfaixada pelo acidente do rodo anel.
Nessa mesma noite, pela primeira vez em 22 anos de casamento, o Rivaldo contou à mulher que a carta existia, mostrou as quatro folhas para ela. A Elisa leu em silêncio e quando terminou, olhou para o marido e disse cinco palavras que se ligavam com tudo o que tinha acontecido nos últimos seis meses.
As palavras da Elisa foram: “Por isso o O Rivaldinho foi-se embora! Por isso o O Rivaldinho foi-se embora. O Rivaldo não percebeu, pediu à Elisa para explicar. A Elisa não quis falar nessa noite. Falou só uma coisa, que esperasse dois dias, que descansasse, que quando os dois estivessem inteiros, iam sentar na cozinha e ter uma conversa que levava dois anos adiada.
O Rivaldo aceitou, apagou a luz e nessa noite viu, chorou de uma forma que nenhum dos dois tinha escutado nunca. Na terça-feira, 12 de Abril, 8 da manhã, o Rivaldo desceu para cozinha, preparou café, ligou por telefone a uma pessoa que demorava anos sem contactar, um ex-polícia civil de São Paulo chamava Eduardo Brito, que agora trabalhava como investigador particular, tinha sido recomendado por um companheiro do Palmeiras 15 anos antes, quando o Rivaldo precisou verificar antecedentes de um
empresário que oferecia um investimento para ele. Pediu uma reunião urgente. O Eduardo Brito veio a Mogirim no dia seguinte. Conversaram durante 4 horas na sala de jantar da casa. O Rivaldo entregou-lhe dois encargos. O primeiro, encontrar o irmão Roberto Borba em Olinda. Saber se ainda vivia, saber se tinha família, saber onde o encontrar.
O segundo, investigar de raiz as circunstâncias exatas do atropelamento do pai Romildo no dia 5 de janeiro de 1989. rever o processo policial, falar com as testemunhas, procurar o condutor do autocarro, procurar colegas da câmara municipal do Recife que tivessem trabalhado com o Romildo naqueles meses e encontrar o que faltava no inventário do corpo.
Os documentos do bolso interior do Paletó, o Eduardo Brito aceitou, deu um prazo de 2 meses, cobrou o equivalente a R$ 25.000 adiantado e foi-se embora para o Recife naquela mesma semana. O que o Eduardo Brito encontrou naqueles dois meses? o que descobriu nos arquivos do Hospital Mártires da Lima, no processo policial do 5 de Janeiro, arquivado numa filial do centro do Recife, nos registos internos da empresa de transporte público daquela época, nas recordações de três ex-funcionários da câmara municipal que já estavam
reformados em 2016, é o que durante 27 anos ninguém da família Borba Ferreira tinha sabido. E é o que mudou completamente a visão do Rivaldo sobre a morte do pai. Antes do informe de Eduardo Brito, em Maio de 2016, o Rivaldo viajou paraa Olinda para encontrar o irmão. O investigador já o tinha localizado, 52 anos de idade, casado, três filhos, trabalhava como mecânico numa oficina do centro e ainda vivia na mesma casa onde a mãe Aparecida tinha-o criado antes de morrer de um
enfarte em 2003. encontraram-se numa cafetaria do centro histórico de Olinda numa manhã de terça-feira. O Rivaldo chegou sozinho, sem assessor nem segurança, sem avisar a imprensa. O O Roberto entrou pela porta da cafetaria 10 minutos depois. Tinha a mesma testa que o pai Romildo, os mesmos olhos, o mesmo jeito pausado de falar.
O Rivaldo reconheceu ele antes do outro dizer uma palavra. Conversaram 5 horas seguidas. O Roberto sabia quem era o pai biológico desde os 20 anos. A mãe tinha contado, mas nunca tinha procurado, nunca tinha aparecido em casa de Paulista por respeito à família legítima do pai, por orgulho, por medo. O Rivaldo ofereceu no final do encontro o equivalente a 25 anos de carinho que o pai nunca tinha podido entregar.
Um apartamento no Recife, um fundo para os filhos do Roberto. Uma vida diferente. O Roberto aceitou apenas uma coisa, uma visita para Mogi Mirim, para conhecer a cunhada Elisa e os sobrinhos. O resto recusou com educação e disse ao Rivaldo uma frase que o ex-jogador recordou depois com carinho. Falou: “Irmão, o dinheiro não me serve, o que falta é tempo e esse já não dá para devolver”.
Mas a conversa com o Roberto naquela cafetaria de Olinda em maio de 2016 foi a parte fácil daquele verão. O difícil chegou dois meses depois, quando o Eduardo Brito pediu ao Rivaldo uma reunião urgente em São Paulo, quando entregou para ele uma pasta castanha com 42 páginas e quando explicou, com palavras diretas, num escritório do bairro Pinheiros, o que tinha encontrado sobre a morte do pai Romildo, o que o Rivaldo ouviu naquela tarde do dia 29 de julho de 2016. irmão.
Ele nunca falou numa entrevista, não contou para A mãe Marlúcia, que naquele momento tinha 72 anos e vivia sozinha no Recife. Não contou aos irmãos, só escreveu numa caderneta que guarda até hoje na primeira gaveta do escritório de Mogimirim. Mas a gente vai contar para você agora.
29 de julho de 2016, sexta-feira, 14h20, escritório do Eduardo Brito, no bairro Pinheiros de São Paulo. O Rivaldo entrou sozinho, fechou a porta, sentou-se numa cadeira de couro preto na frente de uma secretária de madeira escura. O Eduardo Brito pôs à sua frente uma pasta castanha com 42 páginas e disse uma frase que o Rivaldo lembrou depois, palavra por palavra.
A frase foi: “Mataram o teu pai, Rivaldo, e a pessoa que arranjou para parecer atropelamento depois foi promovida para um cargo público no Recife. O Rivaldo não respondeu, abriu a pasta, começou a ler. O que o Eduardo Brito tinha reconstruído naqueles dois meses, com arquivos da câmara municipal, com registos internos da empresa de transporte público, com três depoimentos anónimos de ex-funcionários aposentados, era uma história completamente diferente da que a família tinha acreditado
durante 27 anos. Ponto 1. O condutor do autocarro, aquele homem de 46 anos, não tinha-se distraído ajeitando o espelho retrovisor. Esta foi a versão oficial, mas os arquivos internos da empresa que o Eduardo Brito conseguiu via um ex-contabilista aposentado mostravam outra coisa.
O autocarro tinha um problema mecânico conhecido desde há três semanas antes. O travão dianteiro tava gasto, tinha sido reportado duas vezes pelo próprio condutor. A empresa não tinha feito o arranjo e ao motorista tinham dado instrução para continuar dirigindo igual até novas ordens. Ponto dois.
O pai Romildo, nessa tarde do dia 5 de janeiro, não estava parado no paragem do autocarro por acaso. Estava à espera de alguém. E aquele alguém era um colega da câmara municipal do Recife, um supervisor de nível médio que demorava 4 anos a trabalhar com o Romildo no mesmo setor. E aqui, irmão, vem a parte mais repugnante de toda esta história, o que o Eduardo Brito reconstruiu com três testemunhos anónimos de ex-funcionários.
O Romildo tinha descoberto dois meses antes de morrer que este supervisor estava a ficar com salários de funcionários fantasmas registados na folha da câmara municipal. Uma operação de corrupção menor que movimentava o equivalente a 10 salários mínimos por mês.
O Romildo tinha visto os papéis sem querer enquanto arrumava o Arquivo Central em dezembro. Tinha decidido denunciar. Tinha os documentos guardados num envelope castanho. envelope castanho que ia apresentar no dia 6 de janeiro, às 9 da manhã na procuradoria pública do Recife. Aqueles documentos o Romildo levava no bolso interior do Paletó.
Na tarde do dia 5 de janeiro, tinha levado para o trabalho para mostrar uma última vez a um colega de confiança chamado Pedro Maciel, colega que ia acompanhar o Romildo na denúncia no dia seguinte. O supervisor soube naquela mesma tarde. Uma secretária da câmara municipal, pressionada por ele dias antes para informar sobre qualquer movimento suspeito do Romildo, avisou as 4 da tarde que o Romildo tinha mostrado os documentos para o Pedro Maciel no Arquivo Central. O que o supervisor
fez nas 3 horas seguintes, segundo reconstrução de Eduardo Brito, com depoimentos anónimos, foi uma chamada telefónica para um amigo de infância que trabalhava na empresa de transporte público. Um amigo que era o supervisor de manutenção da frota de autocarros pediu um favor específico.
Pediu-lhe no plantão das 7 da noite, no percurso do bairro do Recife para Paulista não parar o autocarro com problema de travões no ponto da Avenida dos Mártires. que se visse um homem com um casaco cinzento esperando, seguisse em frente, mas que se o homem subisse para o passeio não freasse.
O amigo aceitou, ligou para o motorista do autocarro naquela noite. O rapaz de 46 anos deu uma instrução que o condutor nunca questionou porque vinha do chefe direto. O condutor já tinha aviso prévio do problema de travagem. E 7:15 da noite, na Avenida dos Mártires, o motorista viu um homem com casaco cinzento parar na calçada e dar um passo no asfalto.

O motorista não freou. Mataram o Romildo, irmão, por permitir que um colega corrupto seguisse roubando dinheiro público por querer fazer o que está certo. E o supervisor que arrumou tudo naquela tarde, três meses depois do enterro, foi promovido a diretor de recursos humanos do mesmo setor da câmara municipal do Recife.
ocupou aquele cargo durante 18 anos, reformou-se com honra em 2007 e vive hoje, com 81 anos, num apartamento do bairro da Boa Viagem do Recife, sem que ninguém tenha ligado nunca os dois eventos. O motorista do autocarro, aquele homem de 46 anos, morreu de cancro em 1997. antes de morrer num internamento final no hospital do Recife, confessou toda a história para um padre católico que cuidava dos doentes terminais.
O padre, pelo segredo da confissão, nunca falou, mas o Eduardo Brito encontrou-o 41 anos depois, reformado numa paróquia rural do interior de Pernambuco. O padre, com 79 anos, decidiu falar, não por vingança, por descanso. contou ao Eduardo Brito o que o motorista tinha confessado em 1997 e os documentos que o Romildo ia apresentar no dia seguinte na acusação, aquele envelope castanho com a evidência da corrupção.
Os documentos que levava no bolso interior do Paletó nessa noite nunca apareceram na lista de objetos pessoais recuperados do corpo. A polícia não registou, a morgue não entregou ao família. Desapareceram entre a rua, o lancil e o necrotério municipal. O supervisor, segundo reconstrução do Eduardo Brito, mandou alguém procurar eles nessa mesma noite entre os pertences do Romildo, antes da família chegar ao necrotério na manhã seguinte.
O pai do Rivaldo morreu por ser honesto, por querer denunciar um chefe ladrão. Durante 27 anos, toda a família e o Rivaldo inteiro acreditaram que tinha sido um acidente de viação, até que o acidente do rodo anel da mulher e da filha abriu a caixa que ele tinha debaixo da cama. a carta, a bola amarela, a foto e a busca que o Rivaldo finalmente, aos 44 anos, teve a coragem de começar.
Para perceber porque é que a Elisa falou aquela frase, por isso o O Rivaldinho foi-se embora. Na noite do 11 de abril, temos que voltar dois meses para trás, para fevereiro de 2016, para uma madrugada em casa de Mogimirm, onde pai e filho tiveram uma conversa de 3 horas que terminou com o Rivaldinho a pôr roupa numa mala e subindo para um avião em direcção a Bucareste, Roménia, no primeiro voo da manhã, sem despedir-se, sem avisar ninguém, sem voltar nunca mais.
Aquela conversa de fevereiro, o que pai e filho falaram nessa madrugada, o que o pai confessou e o que o filho respondeu é a parte mais nojenta de toda esta história. Mas antes de saber o que conversaram pai e filho, há uma coisa mais urgente, uma coisa que o Rivaldinho descobriu três meses antes dessa conversa.
Por acaso numa tarde de sábado no escritório da casa de Mogimi quando o pai não estava. Novembro de 2015. O Rivaldinho tinha 20 anos, tinha assinado em agosto com uma equipa do Rio de Janeiro. Vivia sozinho num apartamento do Botafogo, mas aos fins de semana voltava para Mogimirim para ver a família. Numa tarde de sábado, sem avisar, o Rivaldinho chegou à casa 3 da tarde.
O Rivaldo não estava. A Elisa tinha saído com a Tamires para São Paulo. Só estavam em casa os gémeos Rebeca e João Víor, de 12 anos, e o mais novo Isaac, de nove. O Rivaldinho subiu ao escritório do pai no andar de cima para deixar uns papéis do Mogimi que o pai tinha-lhe pedido para rever. Em cima da secretária do escritório, aberto, ligado, ligado, estava o portátil do pai.
O O Rivaldinho sentou-se, mexeu no rato para apagar o ecrã e no canto direito viu uma notificação de e-mail que tinha acabado de chegar. Uma mensagem de um banco com sede em Andorra. Assunto: confirmação de transferência mensal. O Rivaldinho abriu o e-mail por curiosidade. Era uma transferência mensal programada de um valor fixo feita a partir de uma conta em nome de Rivaldo Víor Borba Ferreira numa instituição bancária de Andorra para uma conta no sul dos Países Baixos.
Em nome de uma mulher, a transferência era feita automaticamente todos os meses, sem falhar nenhuma, desde fevereiro de 1998, quase 18 anos seguidos, o O Rivaldinho ficou a olhar pra tela durante vários minutos. Depois abriu a pasta do e-mail, desceu pelas mensagens anteriores, encontrou 219 mensagens, todas do mesmo banco, todas confirmações, todas pelo mesmo valor, todas para o mesmo destinatário.
Uma mulher do sul da Holanda que o Rivaldinho não conhecia, que a família não conhecia e que durante 18 anos seguidos tinha recebido dinheiro do pai todos os meses sem que a mãe Elisa, os irmãos, ninguém soubesse. O Rivaldinho abriu o browser do pai, fez pesquisas, encontrou um perfil público da mulher numa rede social.
Uma mulher holandesa com cerca de 42 anos, loira, olhos azuis, trabalhava como professora de yoga numa academia de uma pequena cidade do sul da Holanda. Nas fotos públicas aparecia sorridente com um cão labrador num parque perto de um estádio de futebol. E numa das fotos mais antigas que o algoritmo deixava ver, datada do ano 2008, aparecia a mulher com um rapaz loiro deuns 10 anos.
A legenda em holandês, traduzida pelo navegador, dizia: “Com o meu pequeno, cada ano se parece mais com o pai”. O Rivaldinho procurou o menino na mesma rede social. Encontrou o perfil de um miúdo de 18 anos, loiro, mas com olhos escuros, que não combinavam com os da mãe, com 1,85 m de altura. Jogador juvenil de um clube regional da região.
No perfil tinha uma foto do miúdo num campo de futebol e na postura do corpo, na posição dos ombros, no jeito do rosto, o Rivaldinho reconheceu uma coisa que não precisava de exame de ADN para confirmar. reconheceu o pai, 20 anos mais novo. Mas a mesma cara, o Rivaldinho fechou o ecrã do portátil, saiu do escritório, desceu a escada, subiu para o carro, conduziu 45 minutos sem falar, chegou a um parque de São Paulo, sentou-se num banco e chorou durante 3 horas seguidas.
Aquela noite de sábado de novembro, o Rivaldinho não voltou paraa casa de Mojimirim, dirigiu-se até ao apartamento dele no Rio. Chegou à 1 da madrugada de domingo e durante os três meses seguintes não disse nada, nem para a mãe, nem para as irmãs, nem para o pai, nada. O que fez o Rivaldinho naqueles três meses, entre novembro de 2015 e fevereiro de 2016, foi investigar por conta própria.
Contactou por mensagem privada, em inglês, um amigo holandês do futebol juvenil, que tinha conhecido anos antes quando o pai ainda fazia jogos amigáveis na Europa. Pediu informações sobre a mulher, sobre o filho, sobre quando ela tinha chegado àquela cidade, sobre quem figurava legalmente como pai do miúdo.
O amigo, ao fim de três semanas investigando, mandou a informação. A mulher tinha sido empregada de mesa de um restaurante daquela cidade nos anos 90. Em Dezembro de 1997, durante uma pré-época do Deportivo La Corunha, no sul da Holanda, tinha trabalhado no restaurante onde o plantel do clube jantava duas vezes por semana. Tinha 24 anos nessa altura.
Era discreta, falava inglês e tinha tido um relacionamento curto com um jogador brasileiro da equipa durante três semanas. O nome do jogador não estava nos registos públicos, mas o filho tinha nascido em 28 de setembro de 1998 e no registo civil holandês constava como filho de pai desconhecido. O Rivaldinho fez as contas.
O seu pai tinha estado na Holanda em Dezembro de 97 com o elenco do Deportivo durante uma pré-época. Um cálculo de gestação de 9 meses dava exactamente Setembro do 98, a data de nascimento do miúdo. O Rivaldinho tinha nascido no dia 29 de Abril de 1995. Tinha 20 anos nessa altura e tinha acabado de descobrir que tinha um irmão holandês de 18 anos, 8 meses mais novo do que a própria irmã Tamires, que o pai tinha sustentado economicamente durante 18 anos seguidos, sem a família toda saber. No
12 de fevereiro de 2016, sexta-feira, o Rivaldinho viajou do Rio para São Paulo, de São Paulo para Mogi Mirimco. Chegou a casa da família 7 da noite, cumprimentou a mãe, jantou com os irmãos, esperou que toda a família fosse dormir e a 1 da madrugada do dia 13 de fevereiro, sábado, bateu à porta do escritório do pai, onde o Rivaldo estava a rever os papéis do Mogi Mirim.
A conversa entre o Rivaldo e o Rivaldinho naquela madrugada do dia 13 de fevereiro de 2016 durou 3:20. Começou à 1 da madrugada, terminou às 4:20. Mais ninguém na casa de Mogimirin escutou nada. As paredes do escritório estavam isoladas com painéis acústicos que o Rivaldo tinha instalado um ano antes e mãe e irmãos dormiam noutro piso.
O Rivaldinho entrou no escritório, fechou a porta, sentou-se na cadeira da frente da secretária e pôs o pai em cima da mesa duas folhas impressas. A primeira era uma captura de ecrã do e-mail do banco de Andorra. A segunda uma foto pública do irmão holandês a jogar à bola num campo de futebol.
Sem falar uma palavra, o Rivaldo olhou para as duas folhas, olhou para o filho e ficou em silêncio durante vários minutos. Depois levantou-se, andou até à janela do escritório, virou costas ao Rivaldinho e começou a falar. contou ao filho naquela madrugada o que durante 18 anos seguidos tinha-se calado para a Elisa, para a família, para os companheiros do Barcelona, pros companheiros da seleção brasileira, para todo mundo.
Contou que em Dezembro de 1997, durante uma pré-época do Deportivo La Corunha, no sul da Holanda, tinha voltado num restaurante onde tinha jantado durante um particular anterior. Tinha encontrado aquela mulher jovem, tinham passado três noites juntos. E quando o Rivaldo regressou a La Corunha, deu a história por terminada, mas a mulher escreveu-lhe três meses depois uma carta.
Tava grávida. Pedi uma coisa só, que ele apoiasse financeiramente, que ela não ia aparecer nunca, que o menino ia nascer como filho de pai desconhecido, que ela ia criar sozinha, mas que precisava de ajuda. O Rivaldo aceitou, começou a transferir dinheiro todos os meses de uma conta pessoal em Andorra que tinha aberto um ano antes a Elisa saber.
500€ no início, depois subiu. Um valor fixo a a partir dos 15 anos do miúdo e nunca em 18 anos tinha deixado de enviar o dinheiro. Em 18 anos teve apenas dinheiro, mais nada, sem uma viagem à Holanda para vê-lo, sem cartas, sem telefonemas, sem presentes nos aniversários do miúdo, sem uma única questão sobre como ia na escola.
O dia em que o miúdo debutou no Clube Regional de Futebol, o O Rivaldo estava noutro continente sem saber, só dinheiro. Todos os meses sem falhar uma única vez, mas nunca um cumprimento, nem contacto humano, nem presença. O Rivaldinho escutou a confissão toda sem interromper. Quando o pai terminou, o Rivaldinho levantou-se, andou até ao meio do escritório e disse ao pai dele cinco palavras que durante os 10 anos seguintes, o Rivaldo não foi capaz de repetir em nenhuma entrevista.
As cinco palavras do Rivaldinho foram: “És igual ao teu pai”. E foi embora: “És igual ao teu pai”. Cinco palavras que recortaram 30 anos de história familiar numa única frase. Porque a ferida do pai ausente sobre a qual o avô Romildo tinha escrito nessa carta de 1988, não tinha saltado uma geração.
Tinha se repetido idêntica, com os mesmos passos, a mesma cobardia, o mesmo silêncio, a mesma carteira aberta no lugar de um pai presente. O Romildo tinha tido um filho perdido em Olinda e sustentou-o durante 25 anos sem que a família legítima soubesse. O Rivaldo tinha tido um filho perdido na Holanda e sustentou ele durante 18 anos sem que a família legítima soubesse a mesma operação, a mesma fuga, o mesmo dinheiro no lugar da mão, a mesma transferência bancária no lugar de um abraço, o mesmo silêncio repugnante transmitido de pai para
filho, de geração em geração, como se fosse um apelido. O Rivaldinho subiu para o quarto, fez uma mochila. 6 da manhã de sábado, saiu da casa de Mogimi dirigiu-se para Guarulhos, comprou o primeiro bilhete que encontrou paraa Europa, pousou em Frankfurt 8 da noite e no dia seguinte assinou por um modesto clube de Bucareste, Roménia, um contrato que o agente tinha oferecido três semanas antes e que o Rivaldinho estava a pensar em recusar.
Pro Rivaldinho não importava o clube, não importava a liga, não importava o futebol naquele momento. A única coisa que importava era meter 10.000 km entre ele e o pai. o mais rápido possível, tal como o pai tinha feito 18 anos antes com um filho recém-nascido numa cidade do sul da Holanda.
Mas a história não acaba aí, irmão, porque na noite de 13 de fevereiro de 2016, depois do Rivaldinho ir embora batendo com a porta com força, o Rivaldo desceu para a cave da casa pela primeira vez num ano. Moveu a velha caixa de madeira, onde guardava as coisas do pai Romildo, tirou a bola amarela, a foto do Gonzagão e o envelope fechado com a carta.
sentou-se no chão da cave durante 4 horas, chorando sozinho, olhando para o envelope sem abrir. Nessa madrugada, o Rivaldo tentou abrir a carta do pai pela primeira vez em 27 anos. Pegou nas mãos, ficou paralisado, guardou de novo, não teve coragem e subiu para o escritório a continuar a rever os papéis do Mogimi até amanhecer.
Dois meses depois aconteceu o acidente do rodo anel. E tudo o que aconteceu depois, irmão, fazia parte de uma corrente. Uma corrente que se iniciou no dia 5 de janeiro de 1989 com um pai morto numa rua do Recife que continuou no 12 de Dezembro de 1997 com um pai brasileiro a fugir de um filho recém-nascido na Holanda que se atravessou no dia 13 de fevereiro de 2016 com um filho brasileiro a fugir do pai e que acabou de explodir no 8 de Abril do mesmo ano numa auto-estrada do Rodo Anel, onde mãe e filha quase
morreram e onde pela primeira vez. Em 44 anos de vida, o Rivaldo foi obrigado a abrir todas as caixas que tinha mantido fechadas. A conversa entre o Rivaldo e a Elisa sobre a mulher holandesa e o miúdo aconteceu três meses depois do acidente do Rodo Anel, em julho de 2016, na mesma cozinha de Mogimi onde o Rivaldo tinha aberto a carta do pai.
A Elisa escutou em silêncio durante uma hora e meia, não interrompeu, não chorou à frente do marido, não perguntou pormenores, apenas escutou. Quando o Rivaldo terminou, a Elisa levantou-se, subiu para o quarto, não desceu até no dia seguinte e quando voltou disse ao Rivaldo uma coisa só.
Falou: “Eu fico, mas o miúdo a gente precisa conhecer”. E isto não é opcional. O Rivaldo deslocou-se à cidade do sul da Holanda em setembro de 2016. conheceu o miúdo. Conversaram 3 horas numa cafetaria do centro. O miúdo, 18 anos, falou com o Rivaldo em inglês uma frase que se assemelhava à frase do irmão Roberto em Olinda meses antes.
O miúdo disse: “Eu não preciso de ti como pai, isso já passou, mas a partir de agora, se você quiser, podemos ser dois homens que conhecem-se”. Dois homens que se conhecem. O miúdo segue jogando numa liga regional dos Países Baixos, sem grandes ambições, contente com a vida simples da sua cidade. Fala com o Rivaldo por vídeochamada uma vez por mês.
Visitou o Mogi Mirim uma vez em 2019, onde até ao dia de hoje não o quis conhecer. O Rivaldinho tem hoje 31 anos, joga numa liga asiática, mudou de equipa sete vezes daqui a 10 anos, sempre longe. Polónia, Roménia, Bulgária, China, Tailândia. Fala com a mãe Elisa por telefone de 15 em 15 dias. Visita Mogi Mirim apenas uma vez por ano no Natal.
E nestas visitas anuais, pai e filho cumprimentam-se com um aperto de mão e um abraço curto. Não conversam, não almoçam juntos sozinhos, não falam do miúdo holandês, não falam da conversa de fevereiro de 2016, não não falam de nada. O Rivaldo numa entrevista à Folha de São Paulo, em março de 2023, foi questionado por o Rivaldinho tinha ido tão longe para tocar depois de 2016.
A resposta do Rivaldo, gravada em áudio, palavra por palavra, foi esta: “O meu filho está no caminho dele. Tomou uma decisão que respeito. Um dia os dois vão poder falar sobre as coisas importantes até esse dia chegar, a única coisa que posso fazer é esperar que ele sem pressionar, sem cobrar, esperar.
Tal como o meu pai, sem saber, esperou por mim durante 27 anos até ter coragem de abrir a carta dele. Quando o jornalista perguntou o que a carta dizia, o Rivaldo respondeu com uma frase só, uma frase que fechou a entrevista. O Rivaldo falou, dizia que a ferida do pai ausente volta sempre e que quando volta precisamos ter coragem de não continuar a repeti-la.
Eu já repeti uma vez, vou tentar não repetir de novo. Hoje, em 2026, o Rivaldo tem 54 anos. Vive numa casa mais pequeno, num bairro menos conhecido do interior de São Paulo. Vendeu a propriedade de Mogimi em 2018. Vendeu o apartamento do Passegue de Grácia de Barcelona em 2019. desta vez com a autorização legítima da Elisa e usou parte da grana para liquidar definitivamente as dívidas do Mogimi Esport Clube antes de se afastar da diretoria. A Elisa segue do lado dele.
Isto vai muito além da história de um jogador que ganhou uma bola de ouro e um Campeonato do Mundo, irmão. É a história de três gerações de homens da mesma família que transportaram a mesma ferida em silêncio. Um avô que morreu por querer denunciar um chefe corrupto. Um pai que saiu às 5 da manhã de casa para nunca mais voltar.
Um filho de 16 anos que perdeu o pai mesmo na altura em que precisava dele para iniciar a sua carreira. Esse mesmo filho, 30 anos depois, deixando um filho próprio sem pai, no sul da Holanda, sustentando-o apenas com um depósito bancário mensal de Andorra. e um neto, o Rivaldinho, a descobrir tudo isto aos 20 anos, levantando da mesa e subindo para um avião para o outro lado do mundo para não repetir o ciclo.
Três gerações, uma mesma ferida, diferentes formas de fugir. E uma única questão que atravessa toda a história. A pergunta que o pai Romildo deixou escrita em 1988. A pergunta que o Rivaldinho fez em fevereiro de 2016. A questão que se irmão, que está a ver este vídeo na sala da tua casa, talvez se tenha feito alguma vez sobre o teu próprio pai ou sobre si como pai.
A questão é esta: quanto do que sofremos vem do que calaram os homens que vieram antes da gente? Quanto do que fazemos com nossos filhos advém do que fizeram com a pessoas, sem que ninguém tivesse coragem de falar. Quantos filhos crescem acreditando que um depósito bancário mensal é a mesma coisa que ter um pai? Quantos pais morrem acreditando que sustentar o filho com dinheiro compensa 20 anos de ausência emocional? Tem milhões de rivaldos no mundo, irmão.
Os homens que tiveram um pai ausente, que passaram a vida a desejá-lo sem receber nada em troca e que terminaram repetindo exatamente o mesmo silêncio com os próprios filhos, sem querer, sem pensar, por inércia, por medo, pela ferida que se herda e ninguém se atreve a curar. Se essa história fez-te pensar no teu pai, telefona-lhe hoje antes do jantar, nem que seja para não dizer nada importante, só para escutar a voz.
Se te fez pensar no teu filho, abraça-o essa noite. Mesmo que já seja grande, mesmo que já não vive contigo, se te fez pensar num irmão de quem se afastou-se sem motivo claro, escreve para ele este fim de semana, antes que seja tarde. Igual foi tarde para o Romildo, igual foi quase tarde para o Rivaldo, igual pode ser tarde para todos os mundo.
Porque a ferida que se herda só quebra-se no dia em que um homem uma única vez decide fazer alguma coisa diferente do que fizeram os homens antes dele. O Rivaldo fê-lo aos 44 anos, tarde, mas fez. O Romildo, o pai, tinha tentado aos 46 anos, denunciando uma corrupção que lhe custou a vida. O Rivaldinho, o filho, tentou aos 20 anos, a subir para o avião para não seguir o padrão.
Três gerações a quebrar a ferida de três formas diferentes. Nenhum perfeito, mas os três a tentar. Esta é a história verídica do génio das favelas do Recife. Aqui nenhum biógrafo, nenhum jornalista desportivo, nenhum ex-companheiro do Barcelona ou da seleção brasileira contou nunca. Porque era mais fácil falar da bola de ouro, do golo contra a Bélgica em 2002, da bicicleta contra o Olimpiacos.
Era mais fácil falar do campo do que da mesa da casa, do público do que do privado. Subscreve o canal Estrelas Caídas para conhecer as histórias reais dos ídolos que se viu jogar, as verdades que os media nunca contou, as cicatrizes que os grandes heróis do desporto carregaram em silêncio enquanto se aplaudia.
E partilha este vídeo com alguém da tua família, com um pai, com um filho, com um irmão, de quem te afastou antes que seja tarde. Igual foi tarde para o Romildo, igual foi quase tarde para o Rivaldo, igual pode ser tarde para todos os que estamos vendo este vídeo. Se a gente não tiver coragem de fazer a ligação que anda a adiar há anos,