Roberto Carlos Cantou Uma Música Que Não Estava no Roteiro do Programa Silvio Santos

PARTE 1 

Em 1987, Roberto Carlos chegou ao estúdio do programa Silvio Santos com um repertório fechado, aprovado pela produção semana e meia antes. O Sílvio sabia de cada música, de cada acorde, de cada segundo dessa apresentação. E, ainda assim, naquela noite, o Roberto cantou uma música que não estava em lado nenhum do guião, e o auditório inteiro levantou-se por 4 minutos sem parar.

 Ninguém da produção conseguiu explicar o que aconteceu nessa noite, porque o que começou por ser um erro de comunicação virou o momento mais falado nos bastidores do SPT por anos. E o que Roberto Carlos fez não foi um impulso, foi uma escolha. uma escolha que colocou em risco algo muito maior do que uma apresentação televisiva.

Mas antes de lá chegar, precisa perceber o que estava em causa naquela semana. Porque a música não foi o início da história. O início da história foi um telefonema que Silvio Santos recebeu três dias antes, numa quinta-feira à noite, que mudou completamente o rumor de todo o terceiro piso da emissora. O que estava naquele telefonema ninguém de fora da sala soube na altura.

 Isso vai mudar tudo quando chegar a altura. Sílvio Santos, em 1987, já não era um apresentador, era uma força. O SBT tinha 6 anos de existência e já tinha derrubado a Globo em alguns mercados regionais em horários específicos. Não eram vitórias sistemáticas, mas eram reais. E Sílvio sabia usar cada uma delas como munições internas.

 Ele andava pelos corredores da estação como quem inspeciona uma obra que nunca está pronta. Parava, olhava, perguntava e quando não gostava de uma resposta não levantava a voz. Abaixava. Quem trabalhava com ele nessa altura descreve sempre a mesma coisa. O silêncio de Sílvio era mais pesado do que qualquer discussão.

 Nesse ano, o programa Silvio Santos, o Centro Gravitacional da SBT. Domingo era sagrado. Cada atração confirmada na A grelha do domingo valia mais do que qualquer acerto contratual da semana inteira. E Roberto Carlos era nesse contexto o nome que mais movia o auditório de São Paulo desde que o Progr tinha mudado de endereço.

 Pessoas próximas da produção contam que a presença de Roberto Carlos no programa nesse domingo tinha sido negociada com uma antecedência invulgar, quase um mês e meio. Isso não era o padrão. O padrão era de duas semanas, às vezes 10 dias. Um mês e meio significava que havia algo sendo construído com cuidado. O repertório tinha sido entregue pela equipa de Roberto com 12 dias de antecedência. Três canções.

 O Sílvio leu os títulos, aprovou sem comentários e mandou de volta. A produção confirmou. O diretor de cena confirmou. A banda confirmou. E depois chegou a quinta-feira. Segundo pessoas que estavam no terceiro andar nessa noite, Sílvio estava no escritório quando o telefone tocou perto das 9:30. Não era um horário invulgar para ele receber chamadas de trabalho, mas quem estava do lado de fora da sala conta que a conversa durou menos de 4 minutos e que quando a porta se abriu, o Sílvio estava de pé com os óculos na mão e foi direito

até à sala de produção, sem dizer uma palavra sequer. O diretor de produção dessa época, um homem chamado Armando, que tinha chegado à SBT, vindo de uma emissora do Rio Grande do Sul e que conhecia o Sílvio há quase 8 anos, percebeu logo que algo havia mudado. Descreveu depois para colegas próximos que a expressão de Sílvio naquele momento era a expressão que ele reservava para problemas que não tinham solução fácil.

 Não era raiva, era cálculo. Sílvio sentou-se na cadeira de frente para Armando e disse uma frase que ninguém naquela sala esperava ouvir. Preciso que o domingo feche diferente. Armando não entendeu de imediato. Fecho diferente podia significar troca de atração, corte de segmento, mudança de horário. Ele perguntou qual seria a alteração.

 Sílvio olhou para ele por um segundo e disse: “Ainda não sei, mas vai mudar. Vais saber no sábado. E saiu. Isso era o Sílvio Santos. A ordem vinha incompleta, mas vinha com uma certeza tão absoluta que ninguém questionava. A produção passou quinta-feira à noite e sexta-feira inteira trabalhando sobre uma interrogação.

 O domingo estava armado, tudo confirmado. Roberto Carlos confirmado. E de repente havia uma variável a flutuar no ar que ninguém conseguia nomear, o que ninguém sabia ainda. E isso vai ficar claro mais paraa frente, é que aquele telefonema de quinta-feira não tinha vindo de um parceiro comerci, tinha vindo de alguém que Sílvio não esperava. ouvir.

 E o que que essa pessoa disse mudou a forma como Sílvio queria que aquele domingo terminasse. Mas isso vem daqui a pouco, porque antes é preciso entender o que que estava a acontecer com Roberto Carlos nessa mesma semana, porque ele também não estava a chegar naquele domingo de mãos a abanar. Roberto Carlos em 1987 estava num momento estranho da sua carreira, estranheza que só quem acompanhava de perto conseguia perceber, porque por fora tudo continuava igual, o sorriso, o fato, o charme de palco que ele carregava desde os anos 60.

Mas quem trabalhava com ele na altura conta de uma tensão interna que se tinha instalado depois de um evento específico no início desse mesmo ano. Em março de 1987, Roberto tinha gravado um especial para outra estação que não tinha ido para o ar. O motivo oficial foi técnico, mas quem esteve presente nas conversas que aconteceram nas semanas seguintes diz que o motivo real era mais complicado.

Envolvia um desentendimento sobre o formato final do programa e sobre quem teria a última palavra na edição. O Roberto saiu daquela experiência com uma conclusão que não verbalizava diretamente, mas que transparecia nas decisões que tomou nos meses seguintes. Ele queria controlo, não controlo de produção, não logística, controlo do momento, controlo do que o público sentia quando ele estava em palco.

PARTE 2 

 E é aí que o domingo da SBT entra de verdade, porque Roberto Carlos não foi aquele programa de domingo como mais uma apresentação. Ele foi com uma intenção que não estava no guião, literalmente. Segundo quem esteve presente nos bastidores nesse dia, Roberto chegou ao XBT ao final da tarde, antes do horário habitual dos apresentadores convidados.

 Chegou cedo o suficiente para andar pelo palco vazio para sentir o tamanho do auditório com as luzes de ensaio ainda ligadas, aquela luz amarelada e fria que deixa tudo parecendo maior e mais quieto do que realmente é. Um dos assistentes de palco que trabalhou nessa gravação descreveu muitos anos depois de Roberto ter ficado parado no centro do palco durante quase dois minutos, olhando para as cadeiras vazias, sem falar com ninguém.

 Depois, chamou o músico, que estava a afinar o guitarra de apoio, e disse uma coisa em voz baixa. O músico ouviu, assentiu e não falou a ninguém o que tinha sido dito. Isso ficou sem resposta durante anos. O que aquele músico ouviu naquele momento foi a coisa que mudou tudo no domingo, mas ainda não sabe o que foi e quando souber vai perceber por O Roberto chegou cedo.

 A gravação daquele domingo começou com quase 20 minutos de atraso, o que não era em comum no programa Silvio Santos. O Sílvio tinha uma particular relação com o horário. Ele respeitava o horário de início porque era um contrato com a estação e com o público, mas o ritmo interno do programa dele. Ele acelerava, ele abrandava, ele parava para falar com alguém da plateia durante 8 minutos, se sentisse que aquilo estava a render.

 Aquela noite, Silvio entrou em palco com uma energia que as câmaras captaram e que quem estava no auditório descreveu como diferente do habitual. Não mais alto, não expansivo, diferente no sentido oposto, mais concentrado, como se estivesse carregando algo internamente e ainda decidir onde colocar o programa foi atrações, jogos, a interação com o público, que era o nervo central da tudo o que Sílvio construía.

 Ele tinha uma capacidade que os realizadores de televisão da época tentavam analisar e nunca conseguiam replicar. Ele olhava para uma câmara e o espectador em casa sentia que estava a ser visto de volta. Era um negócio físico, uma presença que atravessava o sinal analógico e chegava na sala de todos. E depois chegou o bloco de Roberto Carlos.

 O diretor de palco deu o sinal. As luzes mudaram. A banda entrou e o Silvio foi até aos coques buscar Roberto pessoalmente, o que não era o procedimento padrão. O procedimento padrão era o assistente de palco conduzir o convidado até à marca no chão. O Sílvio foi ele mesmo. Pessoas que estavam nas coxias nessa noite contam que os dois trocaram poucas palavras.

 O Sílvio disse algo que o Roberto respondeu com um pequeno sorriso, quase de lado. E depois entraram juntos no palco. O auditório reagiu como sempre reagia para Roberto Carlos, de pé, imediato, barulento, aquele calor específico que uma plateia brasileira tem quando reconhece alguém que faz parte da própria história de vida. Não era fã, era memória afetiva.

 Eram as pessoas do auditório a ver alguém que estava nas suas casas desde que eram crianças, que passava no rádio da cozinha da mãe, que estava no vinil gasto da sala de estar. Roberto começou pela primeira música do guião aprovado. Tudo dentro do esperado. A banda executou com precisão. O auditório cantou junto nos refrões.

 As câmaras fecharam nos rostos emocionados da plateia, como sempre faziam. A produção estava relaxada. Armando, o diretor de produção, estava acompanhando pelo monitor com a cronometragem à mão tudo dentro do prazo. Segunda música ainda dentro do guião. E então aconteceu entre a segunda e a terceira música, há um momento de transição que em qualquer apresentação normal dura 30, 40 segundos.

 Roberto agradece, o público aplaude. Ele conversa com o Sílvio ou com o público e a banda prepara a próxima. 30 segundos de respiração que fazem parte do ritmo. Naquele domingo, esse intervalo foi diferente. Roberto Carlos ficou em silêncio por um momento. Olhou para o Sílvio, que estava de pé a 2 m dele, e depois olhou para o auditório.

 Quem estava lá descreve que foi uma dessas pausas que todos sentem, mas ninguém consegue explicar por sente. Algo parou no ar. E então Roberto virou-se para o músico de apoio, o mesmo que havia estado com ele no palco vazio da tarde. Disse uma palavra, apenas uma. O músico assentiu, pegou na guitarra e começou a tocar uma introdução que a produção não reconheceu.

 Armando olhou para o cronómetro, olhou para o monitor, pegou o headset e perguntou ao diretor de câmara o que estava a acontecer. O diretor de câmara disse que não sabia. A música não estava no guião. Se você cresceu a ver Silvio Santos nos domingos e sabe o que era aquela televisão, comenta aqui em baixo, porque o que tu está prestes a ouvir é exatamente o tipo de coisa que nunca foi para o ar, mas que quem lá estava aguarda até hoje.

 A primeira reação da produção foi de paralisia. Não, pânico, paralisia, porque ninguém sabia o que fazer com um situação que tecnicamente não deveria estar a acontecer. Roteiros no SBT tinham um peso quase litúrgico. Não eram sugestões, eram documentos. Quando um convidado se desviava, a produção tinha protocolo para intervir discretamente, mandar um sinal pelas coxias, ajustar.

Mas nenhum protocolo tinha previsto Roberto Carlos a desviar-se do guião na frente de um auditório de 2300 pessoas e de Sílvio Santos. E Sílvio não estava nas coxias. Sílvio estava em palco a 2 m ouvindo quem estava na posição de câmara lateral nessa noite descreve que filmou a expressão de Sílvio nos segundos seguintes ao início da música não programada.

 E esta descrição circulou durante anos nos bastidores da SBT como uma das coisas mais reveladoras que alguém tinha visto no rosto de Sílvio Santos em décadas de televisão. Sílvio não ficou zangado, ficou quieto, com os olhos fixos em Roberto. Uma tensão total do tipo que ele normalmente reservava para situações que ainda estava a decidir como resolver.

 A música começou, era uma balada, lenta, harmónico, com aquela estrutura melódica que Roberto Carlos dominava como ninguém, uma progressão que subia devagar e deixava o silêncio entre as frases tão carregado como as notas. A letra falava de algo que qualquer pessoa de 40 ou mais anos reconhece sem precisar do título.

 Era uma canção sobre tempo, sobre o que passa e não volta, sobre alguém que se recorda com uma claridade que dói. O auditório levou uns 20 segundos para perceber o que estava ouvindo e depois o silêncio mudou de natureza. Já não era o silêncio de quem está à espera, era o silêncio de quem está a ser atingido por algo que não esperava.

 As câmaras que varriam a plateia captavam rostos que a produção raramente via naquele programa. Rostos fechados para dentro, sem a abertura expansiva de quem se está a divertir, mas com algo mais fundo do que a diversão nunca chega. Uma mulher com cerca de 50 anos na quinta fila tinha colocado a mão na boca.

 O homem ao lado dela olhava para o palco sem pestanejar. Uma jovem rapariga devia ter uns 20in e tal anos. estava chorando sem se aperceber que estava chorando. E Roberto Carlos cantava com os olhos abertos, olhando para o plateia, como se estivesse a ter uma conversa individual com cada pessoa ao mesmo tempo. Essa era a coisa que ninguém conseguia ensinar e que ele tinha desde sempre, a capacidade de cantar para 2.

000 pessoas e fazer com que cada uma sentir que a música era para ela. produção nos bastidores. Havia parado de funcionar como produção e tinha começado a funcionar como público. Armando soltou o headset na mesa, ficou a olhar para o monitor e então o Roberto chegou ao ponto mais alto da música, a nota que ficava suspensa.

 Aquele segurava por tr 4 segundos enquanto a banda baixava quase ao silêncio. a que chegava com a força de uma frase que ouviu antes, mas nunca da forma que precisava de ouvir. O auditório não aguentou. Começou com as primeiras filas, uma pessoa de pé, depois outra, depois uma fila inteira. Em menos de 15 segundos, todo o auditório estava de pé, de pé e em silêncio, que é a combinação mais rara e mais poderosa que um artista pode provocar numa plateia grande.

 A música acabou e depois vieram os 4 minutos. 4 minutos de palmas, de gritos, de choro misturado com alegria, daquele tipo de ovação que já não é sobre a música, mas sobre o que a música tocou em cada um. A produção tinha cronometrado porque este era o trabalho deles, cronometrar. 4 minutos e 11 segundos para sermos exatos. Roberto Carlos ficou em palco, não saiu para as coxias, não fez gesto de devolução ao público, ficou parado na marca, com as mãos à frente do corpo, deixando acontecer.

 E Sílvio Santos? Sílvio ficou onde estava, também de pé, porque todos estavam de pé. Mas quem estava na câmara lateral descreve que Silvio não estava a aplaudir no ritmo automático de apresentador. Estava com as palmas juntas e paradas à frente do peito, olhando para Roberto de uma forma que necessitaria de mais do que palavras para descrever com forte precisão.

 Quando a ovação finalmente baixou, quando as pessoas começaram a sentar e o auditório voltou a um ruído de fundo gerenciável, Sílvio se aproximou-se de Roberto Carlos e disse uma coisa em voz suficientemente baixa para que os microfones abertos não captassem com clareza. O técnico de áudio que estava a monitorizar o sinal naquela noite conseguiu compreender apenas um fragmento da frase.

 O que o Sílvio disse naquele momento ficou guardado durante anos. E quando veio a público, mudou completamente a forma como as pessoas que trabalharam nessa noite compreenderam o que havia acontecido. Mas antes de chegar a isso, precisa voltar ao telefonema de quinta-feira, porque o que foi dito nesse telefonema e o que o Sílvio disse ao Roberto no palco são a mesma coisa.

 E quando você compreender esta ligação, o domingo inteiro vai parecer diferente. Na quinta-feira à noite, quando Sílvio atendeu o telefone e esteve menos de 4 minutos em silêncio enquanto ouvida, a voz do outro lado não era de um executivo, era de alguém que tinha trabalhado com Sílvio nos primeiros anos do baú da felicidade, nos tempos das ruas, quando Silvio Santos ainda era senor a Bravanel e vendia bilhetes a pé por São Paulo antes de existir estúdio, antes de existir câmara, antes de existir qualquer qualquer coisa que pudesse ser chamada

de emissora. Esta pessoa, segundo relatos de quem soube depois, tinha passado por um período muito difícil nesse ano. Algo no âmbito pessoal que Sílvio conhecia com alguma profundidade. Não era pedido de dinheiro, não era um pedido de emprego, era uma ligação que as pessoas que partilharam uma origem comum por vezes fazem quando chegam a um momento em que precisam de ouvir a voz de alguém que esteve lá desde o início.

 Sílvio atendeu, ouviu e esteve 4 minutos sem dizer quase nada, quando desligou e foi até à sala de produção e disse que o domingo precisava de fechar diferente. O que ele queria não era uma mudança de guião. Era um domingo que tivesse algo que a televisão normalmente não tinha, algo que tocasse de verdade, que chegasse onde os formatos e os esquemas e as atrações planeadas não conseguiam chegar.

 Ele não sabia como produzir isso. Ninguém sabe, não se produz. Mas Silvio Santos, em 40 anos de televisão, tinha aprendido uma coisa que os manuais de comunicação nunca vão ensinar. Às vezes não precisa de produzir o momento, precisa de criar as condições para que ele aconteça e depois ter a inteligência de deixar acontecer o que disse a Roberto Carlos nas cóchaias antes de entrarem juntos no palco.

 Segundo quem estava perto o suficiente para ouvir um fragmento, foi isso. Esta noite pode ser o que você quiser que seja. Sete palavras que para Roberto Carlos, que tinha passado a tarde inteira parado no centro de um palco vazio, decidindo alguma coisa, soaram como uma libertação. E aqui é onde tudo o que achou que estava compreender muda.

 Porque a hipótese que todos tinham que Roberto Carlos havia agulo, que tinha sido uma decisão espontânea tomada no calor do momento, esta hipótese estava errada. Roberto Carlos não tinha agido por impulso. Ele havia planeou aquilo desde o momento em que Sílvio disse sete palavras nas coxias e tinha planeado especificamente aquela música porque sabia o que ela representava para aquele auditório, para aquela geração, para aquele domingo específico.

 O músico de apoio, que tinha estado com ele no palco vazio da tarde tinha sido orientado para ter a música pronta. Roberto tinha chegado se exatamente para isso, para que não houvesse dúvida, para que quando chegasse a hora, o músico soubesse o que fazer com uma só palavra. O que Roberto Carlos disse ao músico no palco vazio foi o título da canção e o músico que tinha acompanhado Roberto em digressões e sabia o que aquela música significava para ele.

 Entendeu na altura o peso do que estava a ser pedido. Mas há uma dimensão deste que ainda não foi dita e é a dimensão que faz com que a história inteira ficar de pé de outra forma. A música que Roberto Carlos cantou naquela noite sem estar no roteiro, tinha sido escrita originalmente para uma pessoa específica. Não era segredo.

 Roberto tinha falado sobre a inspiração da música em entrevistas ao longo dos anos, com aquela labertura controlada que ele sempre teve, revelando o suficiente para ser humano, sem revelar o suficiente para ser exposto. Mas o que não era amplamente sabido, o que ficou nos bastidores e nas conversas de corredor da SBT durante muito tempo, era que a pessoa para quem a música tinha sido escrita tinha uma ligação com o universo de Silvio Santos, uma ligação que vinha dos primeiros anos da televisão brasileira, quando os artistas e os apresentadores

faziam todos parte de um mesmo circuito pequeno, quando todos se conheciam de espectáculos, de programas, de editoras discográficas. que ainda funcionavam com aperto de mão. E aquela pessoa, segundo quem soube depois, era a mesma que tinha ligado para o Sílvio na quinta-feira à noite. Quando esta informação chegou pr as pessoas que estavam nos bastidores nesse domingo e chegou de forma fragmentada, aos poucos, ao longo de dias e semanas após a gravação, o noite inteira ganhou uma profundidade que a produção não se tinha apercebido

enquanto estava a acontecer. Roberto Carlos não tinha cantado aquela música para o auditório, tinha cantado para alguém que provavelmente estava a ver em casa. E Sílvio Santos, com sete palavras nas coxias, tinha aberto a porta para que isso acontecesse, porque O Sílvio tinha recebido aquele telefonema na quinta-feira e tinha entendido, com o instinto que ninguém conseguia ensinar, que aquele domingo precisava de algo que chegasse a essa pessoa de uma forma que nenhuma ligação e nenhuma palavra direta chegaria. A televisão como canal,

o palco como mensagem. Isso era uma coisa que Silvio Santos fazia sem que ninguém se apercebesse que o estava a fazer. Mas eis o que complica tudo, porque há quem diga, e esta versão circulou nos bastidores da SBT durante anos, com mais consistência do que os rumores costumam ter, que Silvio Santos não tinha combinado aquilo com o Roberto Carlos de forma explícita, que as sete palavras nas sestas não eram uma instrução, eram apenas sete palavras.

 e que Roberto Carlos, que conhecia a história por caminhos próprios, havia chegado àquela conclusão sozinho, que os dois tinham chegado ao mesmo lugar por estradas separadas. Se esta versão for verdadeira, então o que aconteceu nesse domingo não foi um plano, foi uma coincidência da magnitude que só ocorre quando as pessoas certas estão no sítio certo, com o peso certo acumulado.

 E aqui está a incógnita que ficou sem resposta definitiva durante muito tempo. Os dois sabiam o que o outro sabia. Há uma fita de uma conversa que aconteceu nos bastidores da SBT depois da gravação desse domingo. Uma fita que as pessoas próximas da produção mencionam com uma consistência estranha, sempre em voz baixa, sempre com a ressalva de que não sabem onde está ou se ainda existe.

 Uma gravação de pouco mais de 6 minutos de áudio apenas feita por um técnico de som que tinha deixado o equipamento ligado por esquecimento enquanto Sílvio e Roberto conversavam numa sala ceta pequena depois de o auditório tinha esvaziado. Ninguém que menciona essa fita afirma ter ouvido. Dizem apenas que ela existiu e que o technical de Somques nunca quis falar sobre o que tinha gravado.

 Isso ficou guardado há mais de 20 anos, sem que ninguém pudesse confirmar ou desmentir. O que havia naqueles seis minutos é a última coisa que esta história tem para revelar. E chega agora, segundo uma única pessoa, alguém que trabalhou no SBT durante quase 15 anos e que conheceu o técnico de som em causa numa situação completamente alheia ao ambiente televisivo.

 Anos mais tarde, a gravação existiu e o que continha não era uma revelação dramática. Era uma conversa curta, cansada, do tipo que duas pessoas têm quando o barulho acabou e ficam sozinhas com o peso do que aconteceu. Roberto Carlos terá dito que tinha ficado nervoso, que a nota mais alta tinha saído melhor do que ele esperava, mas que as mãos estavam tremendo desde o momento em que o músico começou a tocar.

 E Sílvio, segundo esta mesma fonte, tinha respondido com uma frase que o técnico de som nunca esqueceu, porque era exatamente o tipo de frase que o Sílvio dizia quando estava sendo completamente honesto, sem televisão, sem palco, sem a personagem. Quando o auditório ficou de pé, senti que a televisão serviu para alguma coisa hoje.

 Seis palavras que não eram de apresentador, eram de um homem que tinha passado a vida inteira a construir uma enorme máquina e que, por momentos, numa noite de domingo de 1987, tinha visto esta máquina fazer algo que máquina nenhuma consegue fazer sozinha. E depois de dizer isto, segundo a fonte, Sílvio tinha batido levemente com a mão no ombro de Roberto Carlos e saído da sala.

Como quem sabe que quando a coisa foi dita não necessita de complemento? Isso era Silvio Santos fora do palco, a versão que a câmara não apanhava, a que a maioria das pessoas que cresceu a ver aqueles domingos nunca soube que existia. O programa foi para o ar naquele domingo com a música não programada incluída. A edição não cortou.

 Armando tinha tomado a decisão de manter sem consultar ninguém, assumindo o risco pessoalmente. Na segunda-feira de manhã, quando chegou a emissora à espera de algum tipo de questionamento, Sílvio passou por ele no corredor, parou por um segundo, fez um gesto mínimo com a cabeça, o tipo de gesto que entre eles significava aprovação. Continuou a andar.

 Não houve reunião, não houve discussão, não houve análise de audiência daquele bloco. A fita de 6 minutos desapareceu na mudança de sede que a SBT fez alguns anos depois. O técnico de som saiu da emissora em 1991 e ninguém da produção soube para onde foi. A história sobreviveu em fragmentos, em conversas de bastidor, em memórias que as pessoas guardaram, porque sentiam que era o tipo de coisa que merecia ser guardada.

 mesmo sem saber muito bem porquê. Aquele auditório de domingo em 1987 envelheceu. As pessoas que estavam nas cadeiras t hoje 60, 70 anos. Alguns já não estão mais, mas o que sentiram naqueles 4 minutos e 11 segundos ficou. Fica sempre esse tipo de coisas. Fica porque não foi fabricado. Foi verdade num grau que a a televisão raramente alcança, mesmo quando tenta com tudo o que tem.

 E Sílvio Santos sabia-o melhor do que qualquer um. Sabia que a televisão tem um tecto para o que pode fabricar e que acima desse tecto só se chega quando se cria as condições, recua e deixa a vida entrar. Aquele domingo foi uma dessas noites em que a vida entrou e o auditório ficou de pé porque reconheceu isto antes que o cérebro pudesse processar qualquer coisa.

 O corpo sabe quando alguma coisa é real. sempre soube. E 2300 pessoas de pé ao mesmo tempo durante 4 minutos é o barómetro mais honesto que a televisão já teve. Esta televisão não volta mais. O Brasil que cabia num domingo com o Sílvio e Roberto Carlos e uma canção que não estava no guião, é um Brasil que foi, mas ele foi real, aconteceu.

 E a prova está em cada pessoa que cresceu naqueles domingos e que até hoje, quando houve uma balada específica numa tarde de domingo, sente alguma coisa que não consegue nomear direito, mas que reconhece na hora. Comenta aqui em baixo se cresceu a ver o Silvio nas tardes de domingo e sabe que esta televisão não volta mais.

Agora há uma história guardada aqui no canal que tem o mesmo peso que esta. É sobre a noite em que Silvio Santos chegou ao estúdio e encontrou um envelope sobre a mesa com um nome escrito na frente. O nome era de alguém que tinha dispensado 15 anos antes. E o que estava dentro desse envelope fez Sílvio sair do estúdio a meio de uma gravação pela única vez documentada em toda a história da SBT.

 Tem um pormenor nesta história sobre o que estava escrito no verso do envelope à mão que ninguém que ouve consegue esquecer. A história completa está neste vídeo aqui. Se já assistiu, tem mais histórias como esta à sua espera aqui no canal. Este vídeo contém uma história com elementos fictícios, narrada com fins reflexivos e como homenagem à era clássica da televisão brasileira e a figura de Silvio Santos.

 Os diálogos, personagens secundárias e eventos específicos são reconstituições imaginárias baseadas no contexto histórico televisivo da época. M.

 

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