Roberto Carlos disse: “Ninguém consegue tocar isso” — então Luiz Gonzaga pegou a sanfona… tc
Roberto Carlos esteve nos bastidores de um programa de televisão no Rio de Janeiro, dizendo que havia uma melodia que nenhum instrumento conseguiria replicar com a qualidade que tinha na voz humana quando Luís Gonzaga entrou pela porta do fundo com a concertina branca no ombro. O que aconteceu nos minutos seguintes naquele corredor? Ninguém que estava presente esqueceu-se. Estávamos em 1971.
Luís tinha 58 anos e estava no início do gradual regresso aos grandes palcos que a década de 70 ia trazer. e tinha sido convidado para uma participação num programa de variedades do Rio de Janeiro, onde Roberto Carlos também estava a gravar naquela tarde. Os dois tinham trajetórias que não se cruzavam com frequência porque pertenciam a universos musicais que o mercado tratava como separados, o baião do sertão de um lado e o I da jovem guarda do outro.
Mas havia entre os dois um respeito mútuo que vinha perante qualquer análise. O respeito de dois músicos que sabem reconhecer no outro algo genuíno independentemente do estilo. Roberto Carlos tinha 29 anos nesse ano e estava no auge de uma popularidade que enchia estádios e dominava as tabelas.
E havia nos bastidores daquele programa a energia específica de um artista que todos quer estar perto, mas que mantém em redor uma leveza que torna o espaço confortável para qualquer pessoa. Roberto estava a conversar com dois músicos da própria banda num corredor dos bastidores, quando o assunto chegou numa melodia específica de uma música que tinha composto, com aquela naturalidade de conversa entre músicos, que começa num lugar e termina noutro, sem que ninguém tenha planeado o caminho. Um dos músicos tinha dito que
havia na melodia do refrão uma curva emocional que era difícil de descrever tecnicamente, mas que chegava ao ouvinte de uma forma que transcendia a letra. E o Roberto tinha concordou, dizendo que aquela curva específica era a razão pela qual a música tinha sido composta daquela forma e que havia nela.
Algo que dependia da voz humana para existir completamente, porque era a voz com os seus matizes de vibrato e de respiração e de fragilidade que tornava aquela melodia o que era. Disse que tinha pensado em arranjos com diferentes instrumentos para aquele refrão e que nenhum chegava no mesmo local porque nenhum instrumento tinha o que a voz tinha.
a imperfeição humana que tornava a melodia verdadeira e que, por isso mesmo, achava que aquela melodia em específico era intraduzível para qualquer instrumento, sem perder o que a tornava especial. A conversa estava linda a acontecer naquele corredor com aquela descontração de músicos que não estão em palco.
Quando a porta do fundo abriu e Luís Gonzaga entrou com a concertina branca no ombro e o chapéu de cabedal na cabeça com aquela calma do costume. Cumprimentando as pessoas no caminho com aquela simples cordialidade que não variava, dependendo de quem estava a cumprimentar. Roberto Carlos virou o rosto quando ouviu a porta.
foi ao encontro de Luís com aquela alegria genuína de quem tem um respeito real pelo que está a ver. E os dois se cumprimentaram com aquela camaradagem de músicos que não precisam de pretexto para se respeitar. Um dos músicos da A banda de Roberto, que tinha ouvido a conversa toda, olhou para o outro com aquela expressão ligeiramente calculada de músico, que quer ver o que vai acontecer.
E depois disse ao Roberto com aquela inocência de quem está acendendo um fósforo perto de algo que pode pegar. Roberto, conta ao Gonzaga o que disseste sobre a melodia. Roberto ficou por um segundo com aquela expressão de quem foi posto numa situação que não tinha planeado, mas que não tem como recuar sem parecer que está a esconder algo.
E depois contou com aquela honestidade direta que era a sua marca, dizendo ao Luís que tinha dito que havia uma melodia numa música sua que achava ser intraduzível para qualquer instrumento, sem perder o que a tornava especial, e que a razão era que dependia da voz humana, com as suas imperfeições específicas para chegar onde chegava.
Havia na forma como o Roberto contou um respeito que não estava a pedir desculpa pelo que tinha dito, mas que estava entregando a informação com o transparência de quem não tem nada a esconder. E o Luís ouviu aquilo com aquela expressão tranquila de sempre, olhando para o Roberto com aquela atenção directa que dava a qualquer pessoa.
Quando Roberto terminou, Luiz ficou em silêncio por um momento e depois disse com aquela voz calma que não tinha desafio nem provocação, tinha apenas curiosidade direta. Canta para mim. Roberto cantarolou a melodia com a voz, mostrando a curva do refrão, com aquela precisão de compositor que conhece cada pormenor do que criou.
E o Luiz ficou ouvindo com os olhos fechados e a cabeça ligeiramente inclinada, com aquela postura de escuta real que os músicos que com ele trabalhavam reconheciam como o momento em que estava a processar algo antes de qualquer resposta. Quando Roberto terminou, Luiz abriu os olhos, ficou em silêncio durante um segundo, olhou paraa concertina branca no próprio ombro e depois disparou com aquela naturalidade de quem está a fazer o que é óbvio fazer.
Encaixou nos braços e disse com aquela calma de sempre: “Deixa eu ver, Pin”. E havia naquelas três palavras a mesma tranquilidade que Luís tinha em qualquer palco do Brasil. A tranquilidade de quem não precisa anunciar o que vai fazer, porque o que vai fazer vai anunciar por si quando chegar a altura. O Luís ficou um momento em silêncio com a concertina nos braços e os olhos fechados, como alguém que está a ouvir por dentro o que vai tocar antes de tocar.
E então começou devagar, com aquela precisão de quem está a chegar numa melodia pela primeira vez, mas que tem dentro de si décadas de instrumento que tornam a primeira vez diferente do que seria para qualquer outro. Os primeiros compassos saíram com aquela qualidade específica da concertina branca de Luí, que não era sobre o volume, nem sobre a técnica demonstrativa, era sobre uma intimidade com o instrumento que tornava cada nota uma extensão de quem estava a tocar e não uma execução do que estava a ser tocado. Roberto Carlos ficou parado
ouvindo com aquela atenção de compositor que está a ouvir a própria melodia, sendo tocada num instrumento que tinha dito que não conseguiria replicá-la. E havia no rosto de Roberto nos primeiros 30 segundos, uma expressão de avaliação que foi mudando progressivamente, a convicção do que tinha dito, dando lugar a uma dúvida que foi crescendo à medida que Luís foi chegando à curva do refrão que o Roberto tinha identificado como o ponto intraduzível.
Os dois músicos da banda ficaram parados com aquela atenção de músico que está estudar algo que importa. Os olhos nos dedos de Luiz, no movimento do fle, naquela forma específica que a concertina respirava quando o Luiz tocava, com uma irregularidade controlada, que não era erro, mas que era exatamente a imperfeição humana que Roberto tinha dito, que só a voz tinha.
Luiz chegou à curva do refrão e não contornou, nem simplificou. Chegou de frente com aquela naturalidade de quem não encontrou um obstáculo, mas encontrou um caminho que o obstáculo não sabia que tinha. E havia na forma que a concertina branca atravessou aquela passagem algo que Roberto reconheceu imediatamente como a mesma emoção que o voz produzia.
Não porque fosse idêntico, mas porque chegava ao mesmo local por um caminho diferente, com aquela qualidade de imperfeição controlada que o Fol dava a melodia quando se movia com o respiração de quem estava a tocar. O Roberto ficou parado com aquela expressão de compositor que está a aprender algo sobre a própria música que não conhecia antes de ouvir naquele instrumento, a expressão de quem criou algo e está a descobrir que o que criou tem dentro dimensões que não tinha mapeado completamente.
Os Os músicos da banda tinham parado completamente de fazer qualquer coisa que não fosse ouvir. E havia no corredor dos bastidores daquele programa de televisão um silêncio que não era o silêncio de público num teatro, mas o silêncio de músicos a ouvir algo que lhes importa de dentro para fora, porque compreendem o que estão ouvindo, de uma forma que o público geral não entende.
Quando Luiz terminou e o corredor ficou em silêncio durante alguns segundos, Roberto Carlos ficou parou por um momento e depois disse com aquela honestidade direta que era a marca dele. Eu estava enganado. Luiz olhou para o Roberto com aquele sorriso tranquilo de sempre e respondeu com aquela direteza simples que não tinha vitória nem condescendência.
Você não estava errado. Estava a ouvir a melodia como se a voz fosse o único lugar onde ela podia existir. A concertina tem imperfeição também. Só é diferente. O Roberto ficou ouvindo aquilo com aquela atenção de quem recebeu algo que vai continuar a chegar em camadas depois de a conversa terminar. E havia nessa frase uma observação sobre instrumentos e sobre voz e sobre o que é humano na música, que era mais do que uma resposta sobre aquela melodia específica.
Era uma forma de ver o que a música é que o Roberto levou para o resto da carreira. Os dois músicos da banda olharam um para o outro com aquela comunicação de músico que dispensa a palavra e havia naquele olhar a confirmação de que estavam presentes em algo que não acontecia em todos os corredores de todos os programas de televisão.
O Roberto ficou em silêncio por um momento e depois perguntou com aquela curiosidade genuína de músico que não tem vaidade suficiente para não aprender quando está perante algo que ensina. Onde está a imperfeição na concertina? O Luís ficou parou por um momento e depois abriu o folle devagar, muito devagar, e deixou a acordeão respirar com aquela respiração que o folle tem quando não está a tentar ser preciso, mas quando está a ser natural.
E havia naquele som de acordeão simplesmente respirando sem tocar nenhuma nota. Algo que chegou em Roberto de uma forma que nenhuma explicação técnica teria chegado. A resposta estava no próprio som antes de qualquer palavra. Luí então disse com aquela voz tranquila: “O fle pulmão quando o deixa respirar do forma como ele quer respirar e não do forma como quer que ele respire, ele faz [pigarreia] o que a voz faz, fica humano.
” Roberto ficou parado ouvindo aquilo e havia no seu rosto nesse momento uma expressão que os Os músicos da banda em redor reconheceram como a expressão que Roberto tinha quando estava a aprender algo que ia tornar-se música mais tarde. aquela abertura específica de compositor que recebeu um material novo e que sabe que vai utilizar antes de saber como.
O produtor do programa que passou pelo corredor naquele momento parou com aquela expressão de quem está a ver algo que não estava no roteiro do dia, mas que compreende imediatamente que é maior do que qualquer coisa que estivesse no guião. ficou parado sem interromper durante alguns minutos, ouvindo a conversa entre Roberto e Luí, que tinha continuado depois da melodia.
Uma conversa sobre o que [a música] torna o música humana, sobre o que os instrumentos têm de voz e o que a voz tem de instrumento, sobre como as as imperfeições são as partes que chegam primeiro quando a música é verdadeira. Quando o produtor finalmente disse que precisava que os dois fossem paraa gravação, o Roberto e o Luís foram pelo corredor lado a lado, com aquele conversa que não tinha terminado, mas que tinha chegado a um lugar que não precisava de mais palavras para ser completa. E havia entre os dois naquele
corredor uma qualidade de relação que não tinha existido antes daquela tarde e que não precisava de nome para ser real. Roberto Carlos levou algo dessa tarde nos bastidores que apareceu no trabalho dos anos seguintes de formas que ele mesmo descreveu em entrevistas sem nomear a origem, falando sobre a importância da imperfeição na música, sobre como os instrumentos têm respiração própria que precisa de ser respeitada, sobre como a voz e os instrumentos chegam ao mesmo lugar por caminhos diferentes, quando ambos estão
sendo usados com verdade. Havia nessas observações uma linguagem que era claramente posterior a alguma conversa que tinha mudado alguma coisa. E os músicos que tinham estado presentes no corredor daquele programa de televisão reconheciam quando ouviam de onde tinha vindo aquela linguagem, sem que fosse necessário dizer, porque a origem estava visível para quem lá tinha estado.
Luiz Gonzaga, por sua vez, não mencionava o episódio publicamente com frequência, não porque não guardasse, mas porque havia nele aquela forma específica de guardar as coisas que importavam, sem transformá-las em história para contar. E os momentos que mais o tinham tocado ao longo da carreira eram muitas vezes os que menos apareciam nas entrevistas, porque a proporção entre o tamanho do momento e a necessidade de o contar era inversamente proporcional em Luís.
Os maiores momentos ficavam mais dentro e os mais pequenos saíam mais facilmente. Os dois músicos da banda de Roberto, que tinham assistido a tudo contaram a história ao longo dos anos com aquela consistência de quem guarda algo porque sabe que tem valor. E havia nas versões que contavam uma precisão de pormenor que só existe quando a memória guarda algo porque foi atingida de verdade.
O corredor dos bastidores, a melodia trauteada por Roberto, os olhos fechados de Luís antes de começar, o folle respirando sozinho. A frase sobre o pulmão da concertina. Esta frase em particular O fol tem pulmão, circulou entre músicos do Rio e de São Paulo com aquela velocidade das frases que chegam a um lugar que as as pessoas reconhecem como verdadeiro antes de analisar.
E havia nela uma filosofia de instrumento que os músicos de estilos completamente diferentes reconheciam como válida, porque descrevia algo que tinham sentido, mas que não tinham encontrado palavras para dizer. A frase chegou aos professores de música, nos alunos, em músicos populares e eruditos. Não porque o Luís tinha planeado que chegasse, mas porque havia nela uma verdade que viajava sozinha, sem necessitar de nenhum veículo além de si mesma.
O que aquele corredor de bastidores revelava era algo que a trajetória de Luís Gonzaga inteira confirmava, que as fronteiras que outros vêem, entre o que um instrumento pode e não pode fazer, são muitas vezes fronteiras do ângulo de quem está olhando de para fora e não fronteiras reais do instrumento. Roberto Carlos tinha ouvido aquela melodia pela voz que a tinha criado e tinha concluído que nenhum instrumento chegaria no mesmo lugar e estava certo dentro do que conhecia e completamente errado sobre o que a concertina podia fazer nas mãos de
alguém que tinha passado a vida inteira dentro dela com aquela cumplicidade específica que transforma o instrumento numa extensão de quem toca e não numa ferramenta que quem toca utiliza. Luiz não tinha provado que o Roberto estava errado para ganhar uma discussão. tinha pegado na concertina porque havia uma melodia que queria ouvir a ser tocada e o que tinha saído era a consequência natural de décadas de cumlicidade entre um músico e o instrumento que escolheu uma clicidade que não tem atalho e que
não se explica de fora porque só existe de dentro. Esta história ensina-nos que as fronteiras que os outros vêem no caminho que escolheu muitas vezes são fronteiras do ponto de vista de quem está a olhar e não fronteiras reais do caminho. Roberto Carlos não estava a ser desonesto quando disse que a melodia era intraduzível para qualquer instrumento.
Estava a ser preciso dentro do que sabia. E o que sabia não incluía o que O Luiz sabia. Porque ninguém que não passou décadas dentro de um instrumento pode saber o que este instrumento tem disponível para quem está dentro. Você também vai ouvir pessoas a dizer que o caminho que escolheu tem limitações que não tem como ultrapassar, que o instrumento que utiliza não chega onde quer chegar, que a tradição de onde provém não tem espaço no mundo que está a tentar entrar.
E nesses momentos a história daquele corredor de bastidores tem uma instrução simples. Pegue no instrumento, feche os olhos e deixe-o respirar do forma como ele quer respirar. Porque o caminho que os outros não conseguem ver de fora é muitas vezes exatamente o caminho que só você consegue encontrar a partir de dentro.
E a única forma de mostrar esse caminho é percorrê-lo enquanto alguém está a olhar. Se esta história tocou você de alguma forma, deixa o seu like aqui em baixo e subscreva o canal para não perder os próximos vídeos. São histórias como esta que a gente faz questão de lhe trazer com cuidado e respeito por quem viveu cada uma delas.
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