E depois apareceu, o porteiro trocando de turno. Tirou as luvas, ajeitou a gola, pegou numa mochila simples e se dirigiu-se à saída dos fundos. Ronaldinho hesitou por alguns segundos e depois o seguiu. Saiu por outra porta, contornou o edifício e avistou-o do outro lado da rua, entrando num ponto de autocarro quase vazio. Era agora ou nunca.
O Rafael chamou a voz trémula. O homem virou-se devagar, confuso. Desculpa, conheces-me? Perguntou educado, mais visivelmente tenso. Ronaldinho tirou o boné, deixou o rosto completamente visível e disse quase num sussurro: “Sou eu, o Dinho”. Por um segundo, o Rafael gelou, depois deu um passo atrás.
O rosto, que até então era sereno, tremeu. A respiração acelerou e depois as lágrimas começaram a brotar nos olhos dele. “Não pode ser”, murmurou, “mas era, duas décadas a separar os irmãos, duas realidades, dois silêncios, dois mundos. E agora, os dois ali parados numa paragem de autocarro às 23 horas de uma qualquer terça-feira, se encarando como se o tempo tivesse voltado.
Ronaldinho não disse mais nada, apenas estendeu a mão. Rafael hesitou, depois segurou e ali, naquele toque simples, o mundo deles começou a mudar. O aperto de mão entre ambos durou mais tempo do que qualquer palavra poderia sustentar. Rafael ainda segurava os dedos de Ronaldinho, como quem segura algo que passou uma vida inteira a tentar encontrar.
sem saber se era real ou apenas memória. “Quer sentar-se?”, disse Ronaldinho, apontando para o banco de betão no ponto de ônibus. Rafael assentiu sem dizer nada. Sentaram-se lado a lado. Havia posteos iluminando por cima e a rua silenciosa parecia congelada no tempo. Carros passavam ao longe, mas ali naquele canto, o mundo parecia outro.
“Estás bem?”, perguntou Ronaldinho, quase num sussurro. Rafael demorou alguns segundos a responder. Estou vivo. Fez uma pausa. O que já é mais do que pensei que estaria depois de tudo. Ronaldinho olhou-o com o peito apertado. Eu procurei por ti. Não o suficiente, respondeu Rafael, sem raiva, apenas com a dor de quem aceitou algo durante muito tempo.
Silêncio, Ronaldinho engoliu em seco. Eu era uma criança. Não sabia o que tinha acontecido. Um dia estavas lá, no outro desapareceu. Ninguém me explicava nada. O meu pai só dizia que era melhor assim. Rafael baixou a cabeça, os olhos já não brilhavam como antes. Melhor para quem? Não para mim, respondeu Ronaldinho firme. Não por um segundo sequer.
Rafael respirou fundo. Fui parar a um abrigo. Disseram que a minha mãe me deixou lá, mas sei que foi o pai. Ele não me queria mais. Brigava com a minha mãe. Depois que ela morreu, eu tornei-me um problema. Ronaldinho sentiu o estômago embrulhar. Ele dizia que tu tinhas ido viver com a tia em Caxias. O Rafael riu-se.
Um riso seco, amargo. Tia nenhuma. Dormi em beliche de metal com barulho de rato. Lutei para não se tornar mais um dos que se perdiam nas ruas. Quando fiz 16, saí com uma mochila e nada mais além disso. E porque nunca procurou-nos? Perguntou Ronaldinho, a voz a falhar. Porque o mundo já tinha ensinou-me a não esperar por ninguém.
Silêncio de novo. Mas um silêncio cheio das coisas, das memórias, das ausências. Ronaldinho passou as mãos pela cara. O vento da noite começava a soprar mais frio. Rafael, o que precisa agora? Acha que dá para apagar tudo com E aí, irmão? Não vim aqui por desculpas. continuou com voz firme. Eu vim porque por algum motivo que não compreendo, paraste aquele carro hoje e eu estou cansado de fingir que não doeu tudo isso.
Ronaldinho baixou os olhos, as mãos sobre os joelhos, a mesma posição que assumia quando falhava um golo importante. Mas desta vez o erro era outro. Era um golo que nunca tentou pontapear, uma ausência que nunca teve coragem de enfrentar. Eu não sei o que posso fazer para reparar, mas se tiver uma forma, se ainda existir uma porta aberta, deixa-me tentar.
O Rafael olhou para ele e pela primeira vez os seus olhos ficaram cheios de água. Só me diz que lembra-se. Lembro-me, respondeu Ronaldinho com a voz embargada. De si ensinando-me a bater falta com a bola murcha, de ti a proteger-me dos meninos da rua, de quando a gente partilhava um único chinelo. Lembro-me de tudo, Rafael. sempre me lembrei.
Os dois permaneceram novamente em silêncio. O autocarro passou, não pararam. Nenhum dos dois queria que aquele momento terminasse. “Ainda moras por aqui?”, perguntou Ronaldinho. Rafael hesitou. “Há um quartinho atrás do hotel. Eles deixam usar. Faço os dois turnos. Manhã e madrugada. Dá para pagar o básico.” Ronaldinho assentiu o pensativo.
“Quer sair daqui comigo agora? Para onde? Para onde tiver comida quente e tempo para conversar direito. Sem pressas, Rafael riu entre o alívio e a desconfiança. Ainda gosta de feijão com farofa e ainda coloco banana por cima, respondeu Ronaldinho, sorrindo pela primeira vez naquela noite.
Enquanto caminhavam até ao carro, lado a lado, Ronaldinho olhou discretamente para Rafael. O modo como andava, a curvatura dos ombros, o jeito de coçar a nuca. Era ele, era mesmo. E era estranho perceber que mesmo com duas décadas de distância havia coisas que não mudavam nunca. Mas havia uma pergunta que Ronaldinho não conseguia afastar da mente.
Porquê justo hoje? Porquê agora? E o que ele ainda não sabia é que aquele reencontro não tinha sido um acaso, porque dentro da mochila de Rafael havia algo que ele guardava há mais de 20 anos, algo que não pertencia mais ao passado e que mudaria tudo o que viria a seguir. O carro de Ronaldinho cortava a cidade em silêncio.
Os vidros fechados abafavam os sons da rua, mas lá dentro o ar estava carregado de memórias, de perguntas não feitas, de palavras atravessadas na garganta. Rafael observa a cidade passar pela janela como se fosse um lugar desconhecido. A cada esquina, uma recordação misturava-se com uma dúvida. Olhou para o irmão ao volante.
Não era o mesmo menino de antigamente. Era um homem agora, famoso, respeitado, aclamado. Mas havia algo nos olhos dele que ainda era o mesmo, algo que dizia: “Ainda sou aquele miúdo que te esperava voltar.” “Há algum tempo que conduz?”, perguntou o Rafael, tentando quebrar o gelo. Ronaldinho sorriu. Desde que Descobri que correr no campo não era suficiente para fugir a algumas coisas.
Rafael deu um leve riso, mas logo voltou ao silêncio. Chegaram ao apartamento de Ronaldinho numa região alta da cidade. Nada extravagante, embora elegante. Um espaço calmo, bem cuidado, onde ele gostava de estar longe dos holofotes. Entraram. Rafael parou à porta desconfortável. Olhando para os móveis caros, os quadros na parede, os troféus enfileirados numa prateleira de vidro.
Vive sozinho aqui? Sim, sempre tive pessoas por perto, mas sozinho é diferente de estar só. Compreendo murmurou Rafael, pousando a mochila no chão junto ao sofá. Ronaldinho foi até à cozinha e voltou com dois pratos simples: arroz, feijão, farofa e banana cortada por cima. Não acredito que ainda coma isto, riu-se Rafael. Algumas coisas não mudam.
Sentaram-se, comeram em silêncio e ali entre garfadas começou a surgir algo novo. Presença. Uma presença que não exigia conversa nem justificações. apenas estar ali. Após a refeição, O Rafael foi até à mochila, baixou-se, hesitou, olhou para Ronaldinho. Tem algo aqui que carrego há muito tempo. Ronaldinho franziu o senho.
Rafael abriu o fecho devagar, tirou um objeto embrulhado num pano velho, desfez a proteção. Era uma bola pequena, gasta, de borracha desbotada, remendada com fita adesiva. Ronaldinho arregalou os olhos. Não pode ser. É aquela bola, aquela que usávamos para jogar na rua de terra batida, aquela que choraste quando ela furou. Fez uma pausa.
No dia em que fui embora, levei-a comigo, como se fosse a única coisa que me lembrava-me de quem eu era. Ronaldinho pegou na bola com as mãos, passou os dedos pelas fissuras, formou-se um nó em sua garganta. Você guardou isso por todo o esse tempo? Sim. Ela ficou comigo nos abrigos, nos quartos alugados, nos cantos onde dormi no chão.
Nunca joguei ela fora, nunca quis. Ronaldinho não conseguiu conter as lágrimas. Eu pensei que nunca mais ia ver aquela bola. Achei que tinha desaparecido junto com você. Ela desapareceu mesmo, mas voltou agora. ficaram ali a olhar para o objeto como se fosse uma cápsula do tempo. O Rafael se levantou-se, foi até à janela, olhou para a cidade lá fora.
Dinho, queria-te contar uma coisa, algo que nunca falei para ninguém. Ronaldinho aproximou-se devagar. Pode falar. Depois do abrigo, perdi-me de vez. Fiquei um tempo na rua. Fui envolvido com umas coisas erradas. Sobrevivi como pude. Até que um dia entrei num autocarro. sem rumo e fui parar em Minas. E depois conheci uma mulher, ajudou-me, pôs-me para trabalhar num restaurante.
Anos depois, morreu de cancro. Desde então, sou só eu. Tem filhos? Não. Tive medo de repetir o que me fizeram. Nunca achei-me digno de construir algo. Ronaldinho ficou em silêncio. O peso da história do irmão esmagava-o por dentro. tanta dor, tanta luta. E ele ali vivendo rodeado de troféus e contratos, sem saber da existência daquela guerra invisível do outro lado da cidade.
“Rafael, se quiseres, podes ficar aqui comigo.” Rafael virou o rosto. “E ser o irmão famoso e o irmão carente a viver juntos num apartamento de novela?” “Não, Dinho, não quero pena.” Não é pena, é reparação. A vida não dá reparação, irmão. Ela dá encontros. Ronaldinho o olhou surpreendido com a sabedoria. silenciosa que aquele homem transportava.
A verdade é que Rafael não queria luxo, não queria fama, queria dignidade, queria um lugar onde pudesse existir sem ser invisível. E Ronaldinho entendeu isso. Na manhã seguinte, os dois tomaram café na varanda. O Rafael comia devagar. Ronaldinho, pensativo, olhava para o cidade a acordar.
“Sabe o que eu quero fazer hoje?”, disse Ronaldinho. “O quê? Quero visitar a nossa antiga rua ali em Porto Alegre, ver se ainda existe, se a trave de pau ainda está no mesmo sítio. O Rafael riu-se. Duvido. Já devem ter asfaltado tudo. Mas talvez ainda nos encontrar alguma coisa, nem que seja só no chão ou na memória. Rafael assentiu.
Se for contigo, eu topo. Mas o que nenhum dos dois sabia era que aquele regresso às origens colocá-los-ia frente à frente com algo que nem o tempo conseguiu enterrar. Porque a rua onde tudo começou ainda guardava segredos. segredos que não estavam prontos para serem esquecidos. O avião aterrou no final da tarde.
O céu de Porto Alegre estava tingido de tons alaranjados e uma brisa leve soprava pela pista enquanto Ronaldinho e Rafael desciam a escada da aeronave. Não falaram muito durante o voo. Ambos transportavam no peito o peso do que significava aquela viagem. Não era turismo, era retorno. Um regresso sem garantias, sem guião, sem proteção.
Um motorista do clube esperava-os, mas Ronaldinho recusou o carro oficial. Queria caminhar, sentir o chão da cidade que lhe moldou os pés descalços. Pegaram um simples táxi e deram um endereço que até àquele dia Ronaldinho só repetia para si em recordações. Rua Joaquim Albano, Vila Nova.
Ainda se lembra do número da casa? Perguntou o Rafael. Não precisava de número. Era a única com o portão azul e a trave desenhada no muro com carvão. O Rafael sorriu. Será que ainda está lá? Se estiver, será como abrir uma caixa de segredos enterrada. O carro deixou-os a duas quadras. Preferiram ir a pé. A rua estava agora asfaltada, mas o traçado era o mesmo.
As casas reformadas, umas demolidas, outras mantinham vestígios do passado. Tijolos escascando, paredes remendadas, crianças gritando ao fundo. Chegaram à curva final e então ali estava. A casa não era mais a mesma. Tinha sido pintada de bege claro, o portão era novo, mas o formato, a forma como o sol batia na parede lateral, tudo dizia: “É aqui”.
Ronaldinho parou, com o coração disparado. “Queres bater?”, perguntou Rafael. Ronaldinho respirou fundo. “Quero.” Foi até ao portão, premiu a campainha. Segundos depois, uma senhora idosa apareceu. Tinha os cabelos apanhados, olhos atentos e uma expressão de quem já viu muito da vida. “Pois não!” “Boa tarde.
Desculpa incomodar. Eu vivi aqui quando era criança. O meu nome é Ronaldo. Ela semicerrou os olhos. Tu és o Ronaldinho Gaúcho. Sim, sou, senhora. Ela sorriu. O meu neto vai desmaiar quando souber disso. Mas entre, por favor. Eles entraram. O terreno tinha sido dividido, mas o fundo Ah, o fundo ainda guardava o velho pátio de terra batida.
A trave desenhada com carvão já não estava lá, mas a marca, a marca invisível ainda existia, como uma cicatriz curada, mas presente. Ronaldinho ajoelhou-se e passou a mão no chão. Fechou os olhos. Foi aqui que dei um pontapé na minha primeira bola. Foi aqui que descobri que o mundo podia ser maior.
Rafael observava em silêncio, até que se aproximou e tirou do bolso a bola velha remendada. Colocou-a no chão. Vamos jogar. Ronaldinho sorriu. Claro que vamos. Descalços como antigamente, os dois começaram a passar a bola de um lado para o outro, rindo como crianças. A idosa observava pela janela, emocionada. Aquela cena não era comum, era sagrada.
Mas o momento foi interrompido por uma voz. Você é o filho do senhor João, não é? Ambos viraram. Um senhor alto, magro, de barrete e bengala se aproximava da vedação lateral. Sou sim”, respondeu Ronaldinho, surpreendido. “O senhor o conhecia?” “Conhecia e muito. Fui vizinho dele durante 20 anos. Tenho algo que acho que vos pertence.
” Ele entrou devagar em casa e regressou minutos depois com uma caixa de madeira. Entregou-o a Ronaldinho. “Ele pediu-me para guardar isso quando se mudaram.” Disse que um dia alguém voltaria. Ronaldinho abriu a caixa. No interior havia papéis antigos, fotos, uma carta. pegou na carta, estava amarelada, era do pai, começou a ler.
Filhos, sei que talvez nunca leiam isto, mas escrevo porque um pai precisa de dizer certas verdades. A mão de Ronaldinho tremia. Eu errei muito. Perdi-me na bebida. Afastei quem mais amava. Rafael, fui fraco e pagou por isso. Se algum dia essa carta chegar às suas mãos, quero que saiba que me arrependi todos os dias, que o portão esteve aberto durante muito tempo, só que ninguém voltou.
Os olhos do Rafael marejaram. Ele esperou por mim. Ronaldinho segurou-lhe o ombro. E agora você voltou. Nessa noite dormiram na casa da infância. A senhora preparou um jantar simples. O Rafael olhou para a bola encostada ao canto e murmurou. Você sabia que ele deixou tudo isso para mim e agora tudo isto é nosso outra vez.
Mas havia uma coisa que ainda doía. No fundo da caixa, um envelope fechado com o nome de Rafael escrito à mão. Ele hesitou, abriu lá dentro uma foto antiga dele e Ronaldinho, ainda pequenos, com o pai ao fundo. E no verso, uma frase curta: “Nunca deixaste de ser meu filho”. O silêncio voltou a envolver os dois irmãos, mas agora era um silêncio leve, de cura, de recomeço.
O que ainda não sabiam é que aquela visita traria mais do que recordações. O que estava ali enterrado ainda tinha algo a ensinar. Porque às vezes o lugar onde tudo começou é também onde a alma renasce. O sol da manhã atravessava a cortina fina do quarto antigo. Ronaldinho acordou antes do despertador, como fazia quando era menino, ainda sem perceber se o que tinha vivido nas últimas 24 horas era real ou apenas um sonho embrulhado em saudade.
Olhou para o outro colchão. O Rafael ainda dormia. Respirava profundamente. Pela primeira vez com paz. Levantou-se lentamente. Caminhou até ao quintal. O chão de terra batida batida estava ligeiramente húmido do sereno da madrugada. Agachou-se, pegou um punhado da terra e fechou a mão. “Obrigado, pai”, murmurou.
Naquela manhã, decidiram visitar o cemitério, a carta, a caixa, a fotografia. Tudo apontava para um último passo, o adeus ou talvez o perdão. Chegaram a pé. Era um lugar simples, afastado. O túmulo estava coberto de mato, sem flores, sem visitas, sem sinais de recordação, apenas uma pequena placa metálica com o nome João Mendes de Assis.
O Rafael parou diante da lápide, ficou em silêncio, depois ajoelhou. Demorei, não é? Disse ele, os olhos cheios. Ronaldinho permaneceu de pé, respeitando o momento. O senhor fez muita coisa mal, mas também me deu algo que ninguém tirou, meu irmão. Ficaram ali minutos que pareceram horas. Nenhum dos dois chorou. Já não era preciso.
As lágrimas tinham seco e o que restava era a aceitação. Na volta, pararam em frente ao antigo campo de terra, onde costumavam jogar. Estava vazio. O muro ao fundo ainda tinha marcas de bolas antigas. Um grupo de crianças brincava com uma bola improvisada de meias. “Você ainda jogas?”, perguntou Rafael, sorrindo. “Hoje em dia, só com o coração”.
As crianças reconheceram Ronaldinho, mas pôs o dedo nos lábios, pedindo silêncio. Tirou o boné, aproximou-se e disse: “Posso jogar convosco?” A resposta veio com gritos e sorrisos. Rafael ficou de fora, a assistir de longe, mas não por vergonha, por orgulho. Ali, vendo o irmão correr descalço, rindo como um menino, ele entendeu.
A fama nunca apagou a essência. Ronaldinho caiu na gargalhada ao falhar um remate. Estou enferrujado! gritou. Rafael respondeu de longe. Nunca foi sobre o golo, irmão. Sempre foi sobre o jogo. Mais tarde, já no aeroporto, sentaram-se lado a lado na sala de embarque. Havia um bom silêncio entre eles.
Silêncio de quem já não precisa dizer tudo. Rafael, oi. Eu pensei em algo. Quero abrir um espaço em Belo Horizonte. Um lugar para miúdos como nós fomos um dia, um centro de apoio, treino, estudo, dignidade. Rafael olhou surpreendido. Quer que eu trabalhe lá? Ronaldinho sorriu. Quero que conduza, que seja o espelho, porque se sobreviveu a tudo isto, pode ensinar outros a sobreviver também. Rafael assentiu.
Os olhos marejaram de novo. A gente pode chamar de projeto Trave de Terra, Ronaldinho Rio. Melhor nome impossível. Semanas depois, o projeto foi inaugurado discretamente, sem imprensa, sem fotógrafos, sem flashes, só crianças, bolas remendadas e irmãos a reconstruir algo que o tempo quase tinha destruído. O Rafael tratava de tudo, desde os horários até às refeições.
Ronaldinho aparecia por vezes, sempre sem alarido, e, quando lhe perguntavam porque estava ajudando aquele lugar, ele respondia sempre a mesma coisa. Porque um dia alguém se esqueceu de parar e eu nunca mais quis esquecer-se de olhar para o lado. No fundo do campo havia ali um muro. Rafael pintou algo com as suas próprias mãos.
Um desenho de dois meninos descalços a jogar à bola e abaixo da pintura uma frase: “Nem toda a família nasce completa. Algumas reencontram-se no meio do caminho.” Na última cena que o mundo nunca viu, Ronaldinho aparece a limpar uma bola velha de borracha, coloca-a com cuidado numa prateleira da sede do projeto, não como um troféu, mas como um lembrete de onde tudo começou e de que por vezes os maiores golos da vida são aqueles que a gente marca fora do campo. Uh.