Sante e Kenny Kimes: A História da Mãe e do Filho que Construíram uma Vida de Fraudes, Manipulação e Crimes

Sante e Kenny Kimes: A História da Mãe e do Filho que Construíram uma Vida de Fraudes, Manipulação e Crimes

Durante décadas, Sante Kimes apresentou-se como uma mulher sofisticada, habituada ao luxo e capaz de circular entre pessoas influentes. Ao seu lado estava Kenny, o filho mais novo, criado sob uma combinação de adoração, controlo e dependência emocional. Juntos, formaram uma das duplas criminosas mais perturbadoras dos Estados Unidos.

A relação entre os dois ultrapassava os limites de uma ligação familiar convencional. Testemunhas, investigadores e pessoas que conviveram com ambos descreviam uma proximidade excessiva, marcada por possessividade, cumplicidade e uma dinâmica que, para muitos, parecia mais próxima de uma parceria amorosa do que de uma relação entre mãe e filho. Embora eles nunca tenham admitido publicamente essa interpretação, a dependência entre os dois tornou-se um dos elementos centrais da história.

Por trás da imagem de riqueza, existiam décadas de furtos, falsificações, incêndios suspeitos, fraudes financeiras, exploração de trabalhadoras domésticas e, por fim, acusações relacionadas com vários desaparecimentos e homicídios.

Uma infância marcada pela pobreza e pelo ressentimento

Sante Kimes nasceu como Sandra Louise Singhrs, em 2 de julho de 1934, no estado norte-americano do Oklahoma. Era filha de Prama Singhrs, um artista indiano que viajava com um circo, e de Mary Van Horn, uma jovem de origem holandesa.

Os pais conheceram-se quando o circo de Prama chegou aos Estados Unidos. A relação enfrentou forte oposição devido às diferenças raciais e religiosas, mas os dois casaram-se e instalaram-se numa propriedade rural.

A família teve quatro filhos: Karan, Prem, Sandra e Rita. A infância das crianças coincidiu com os anos difíceis da Grande Depressão e com uma grave seca que afetou muitas comunidades agrícolas no sul dos Estados Unidos.

Além da pobreza, a família enfrentava preconceito racial. Sante e os irmãos eram frequentemente isolados por outras crianças, sobretudo na escola.

Quando Sante tinha cerca de três anos, o pai morreu após sofrer um problema cardíaco. Mary ficou sozinha com quatro filhos e poucos recursos. Segundo relatos posteriores da irmã mais nova, Rita, a mãe tinha dificuldade em impor limites e em controlar o comportamento dos filhos.

Karan, o filho mais velho, abandonou a casa depois de roubar a aliança da mãe. Prem também acabou por partir. Sante e Rita permaneceram com Mary.

Foi nesse período que, segundo familiares, começaram a surgir comportamentos inquietantes em Sante. Rita afirmou que a irmã mais velha era agressiva, dominadora e imprevisível. Também surgiram relatos de maus-tratos contra animais e de constantes confrontos dentro de casa.

Sante teria desenvolvido muito cedo uma forte obsessão por dinheiro. Ao observar a diferença entre a vida da sua família e o glamour de Hollywood, passou a associar riqueza a segurança, liberdade e poder.

Ela parecia decidida a nunca mais viver na pobreza, independentemente dos métodos necessários para alcançar esse objetivo.

A adoção e a construção de uma nova identidade

Em determinado momento, Sante e Rita foram retiradas da guarda da mãe por suspeitas de negligência e colocadas num orfanato. Mary conseguiu posteriormente fugir com as filhas para Los Angeles.

A mudança não alterou o comportamento de Sante. Aos 13 anos, porém, a sua vida tomou uma direção inesperada.

Um empresário ligado ao teatro conheceu a adolescente e organizou a sua adoção por Mary e Eddie Chambers, um casal com melhores condições financeiras que vivia em Carson City, no Nevada.

Para Sante, a nova família representava tudo aquilo que sempre desejara: estabilidade económica, roupas modernas, acesso a círculos sociais mais elevados e a possibilidade de reconstruir a própria imagem.

Passou a usar o nome Sandy Chambers, alterou a forma de vestir e começou a utilizar maquilhagem clara para disfarçar os seus traços de origem indiana. O objetivo parecia ser apagar qualquer ligação visível à infância pobre e ao preconceito que enfrentara.

Apesar da melhoria material, o comportamento manipulador continuou. Na escola, era descrita como dominadora e insistente. A sua principal amiga, Ruth, tornou-se alguém emocionalmente dependente dela, cumprindo quase sempre as suas vontades.

Durante a adolescência, Sante começou a furtar lojas, mesmo quando tinha dinheiro para comprar os produtos. O comportamento não parecia nascer apenas da necessidade, mas também da sensação de poder e da certeza de que conseguiria escapar às consequências.

Casamentos, mentiras e ascensão social

Depois de terminar o ensino secundário, Sante e Ruth mudaram-se para a Califórnia e matricularam-se num curso de jornalismo.

Foi nessa fase que Sante começou a demonstrar maior habilidade para fraudes. Utilizando o nome do futuro sogro de Ruth, realizou compras em lojas de departamentos e deixou as contas para que ele pagasse.

Apesar das suspeitas, ela novamente evitou consequências significativas.

Na universidade, envolveu-se com Lee Powers. Quando decidiu que queria casar, afirmou estar grávida. Os dois casaram-se em maio de 1956. Meses depois, tornou-se evidente que nunca existira gravidez.

O casamento durou pouco. Sante considerava que Lee não ganhava o suficiente para lhe proporcionar o estilo de vida que desejava. Ao fim de cerca de um ano, abandonou-o e pediu o divórcio.

Pouco depois, casou-se com Ed Walker, um antigo namorado que se tornara um empreiteiro bem-sucedido. A relação oferecia-lhe maior estabilidade, mas ainda não correspondia às suas ambições.

Sante gastava grandes quantias em roupas, presentes e objetos luxuosos. Queria ser vista como uma mulher rica, mesmo quando as finanças familiares não permitiam sustentar aquela imagem.

Foi nessa altura que começou a utilizar definitivamente o nome Sante. O novo nome fazia parte da personagem sofisticada que construía para si própria.

Em setembro de 1962 nasceu Kent, o seu primeiro filho.

Sante tratava o menino de forma contraditória. Em alguns momentos, fazia-o sentir-se especial e superior. Em outros, tinha explosões de raiva e usava o filho como instrumento para proteger os próprios interesses.

O casamento com Ed deteriorou-se rapidamente. Sante mantinha relações com parceiros comerciais do marido e, segundo investigadores, começou a envolver-se em fraudes de seguros relacionadas com incêndios em propriedades construídas por ele.

Vários imóveis ligados ao casal foram destruídos por incêndios em circunstâncias suspeitas. O padrão atraiu a atenção das autoridades locais, que passaram a referir-se a Sante pelo apelido de “Dragon Lady”.

Quando as suspeitas aumentaram, ela convenceu Ed a mudar-se com a família para Sacramento.

Furtos, cartões falsos e manipulação do próprio filho

Durante a década de 1960, Sante continuou a furtar lojas e a criar cartões de crédito com identidades falsas.

Em 1966, foi detida várias vezes num intervalo de poucos dias. Quando a polícia revistou a sua residência, encontrou diversos cartões de crédito associados a nomes fictícios.

Mesmo diante de várias acusações, conseguiu receber apenas uma punição limitada, beneficiando da ajuda jurídica de um dos homens com quem mantinha um relacionamento.

A relação com Ed terminou em 1967. Antes da separação, Sante chegou a atirar uma faca contra ele durante uma discussão, causando-lhe um ferimento no braço.

Depois do divórcio, mudou-se com Kent para Palm Springs. Continuou a praticar furtos e, numa ocasião, envolveu diretamente o filho numa tentativa de manipular as autoridades.

Ao sair de uma loja enquanto era perseguida por uma funcionária, Sante agrediu Kent e alegou que a funcionária tinha sido responsável pelo ferimento. Testemunhas impediram que a mentira fosse aceite.

Ainda assim, o episódio não resultou numa intervenção duradoura dos serviços de proteção à criança.

Sem recursos financeiros, mas determinada a aparentar riqueza, Sante investiu na própria aparência. Fez uma cirurgia estética, usava perucas e procurava imitar a imagem de Elizabeth Taylor.

Na realidade, vivia com dificuldades económicas. Apesar da casa elegante e das roupas sofisticadas, muitas vezes havia pouca comida disponível.

Mesmo nessas condições, ensinava Kent que a melhor forma de escapar à pobreza era casar com alguém rico.

O milionário Kenneth Kimes

No final da década de 1960, Sante conheceu Kenneth Kimes, um empresário do setor imobiliário que tinha construído uma fortuna com motéis e propriedades.

Kenneth era cerca de 17 anos mais velho. Tinha dois filhos de um casamento anterior e uma fortuna estimada, naquela época, em dezenas de milhões de dólares.

Sante estudou cuidadosamente os seus gostos e vulnerabilidades. Ao descobrir que ele apreciava gardénias, passou a usar um perfume com essa fragrância.

O empresário inicialmente resistiu às investidas, mas Sante permaneceu próxima até conseguir estabelecer uma relação.

Ela fazia questão de aparecer com Kenneth em eventos sociais, inclusive em festas para as quais não tinham sido convidados. O objetivo era consolidar a imagem de um casal rico e influente.

Kenneth, porém, hesitava em casar. Sante sabia que os filhos do primeiro casamento teriam direitos sobre a herança e que a sua posição financeira seria mais segura se tivesse um filho com ele.

Em março de 1975 nasceu Kenneth Karam Kimes, conhecido como Kenny.

Depois do nascimento do menino, a família viveu durante vários anos no Havai e, posteriormente, em Las Vegas. Sante tinha empregadas domésticas, propriedades e o estilo de vida que procurara desde a infância.

Kent, já mais velho, acabou por permanecer no Havai, afirmando que estava cansado do comportamento da mãe.

Kenny, por outro lado, tornou-se o centro da vida de Sante.

A criação de Kenny e o início da dependência

Kenny foi criado de forma isolada. Recebia educação em casa, tinha pouco contacto com outras crianças e era constantemente protegido pela mãe.

Sante dizia-lhe que ele era especial e defendia-o de qualquer crítica. Quando uma tutora mencionou que o menino tinha o hábito de mentir, Sante reagiu agressivamente e afirmou que apenas ela tinha autoridade para decidir como o filho deveria comportar-se.

Essa educação ajudou a criar uma relação de profunda dependência.

Kenny era carismático, persuasivo e inteligente, mas também cresceu sem limites claros. Aos poucos, aprendeu que a mentira e a manipulação eram ferramentas aceitáveis.

Em julho de 1985, essa vida aparentemente luxuosa foi interrompida.

Uma antiga empregada denunciou a família. O FBI realizou uma operação na casa dos Kimes, em Las Vegas, e encontrou evidências de que jovens mexicanas eram levadas para os Estados Unidos e obrigadas a trabalhar sem remuneração.

As mulheres viviam sob controlo, não tinham liberdade para sair e relataram maus-tratos.

Kenneth admitiu que sabia da situação e que não tinha feito nada para impedir. Recebeu tratamento relacionado com alcoolismo e evitou cumprir uma pena prolongada.

Sante foi condenada a cinco anos de prisão.

Foi a primeira vez que Kenny ficou separado da mãe.

Um breve período de liberdade

Durante a prisão de Sante, Kenny foi colocado numa escola regular. Pela primeira vez, conviveu diariamente com pessoas da mesma idade.

Tornou-se popular e aproximou-se do pai. Kenneth era permissivo e também o tratava de forma indulgente, mas permitia-lhe maior liberdade do que Sante.

Kenny parecia adaptar-se a uma vida mais normal.

Depois de cumprir cerca de três anos, Sante recebeu liberdade condicional. Ao sair, afirmou que nunca mais seria presa. A frase não significava necessariamente que deixaria de cometer crimes, mas que pretendia evitar ser novamente descoberta.

Kenny reagiu com ansiedade ao regresso da mãe. Já estava habituado a uma rotina independente e sabia que ela tentaria recuperar o controlo.

Foi exatamente isso que aconteceu.

Sante retirou-o da escola, afastou-o dos amigos e colocou-o noutra instituição. O jovem extrovertido começou a tornar-se mais fechado, ressentido e instável.

Aos 16 anos, Kenny fugiu de casa.

Sante enviou Kent para encontrá-lo. O irmão mais velho conseguiu convencê-lo a regressar, uma decisão que mais tarde lamentaria profundamente.

Kent afirmou que Kenny chegou a falar sobre a possibilidade de se voltar contra a mãe. Apesar da revolta, permaneceu emocionalmente preso a ela.

A morte de Kenneth e o acesso à fortuna

Kenneth Kimes morreu em março de 1994, aos 77 anos, após sofrer um aneurisma cerebral.

A forma como Sante tratou a morte levantou suspeitas. Ela evitou informar rapidamente os filhos do primeiro casamento, recusou uma autópsia e organizou a cremação do corpo.

Kenny soube da morte do pai apenas meses depois.

Depois de receber a notícia, abandonou a universidade e regressou para junto da mãe. Foi nesse momento que a parceria entre os dois se consolidou de forma definitiva.

Sante continuou a utilizar os cartões de crédito do marido e tentou movimentar contas bancárias em seu nome.

Um executivo bancário chamado Syed Ahmad começou a desconfiar das operações. As assinaturas pareciam falsificadas e os pedidos de transferência eram incompatíveis com as informações disponíveis sobre Kenneth.

Syed decidiu investigar pessoalmente as contas nas Bahamas.

Para Sante, ele tornou-se um obstáculo.

O desaparecimento de Syed Ahmad

Em setembro de 1996, Sante e Kenny convidaram Syed para jantar num restaurante nas Bahamas. Depois, levaram-no para uma residência, onde teria sido colocada uma substância sedativa na sua bebida.

Segundo a acusação posterior, Syed foi morto e o corpo lançado ao mar.

O corpo nunca foi recuperado.

As autoridades sabiam que Sante e Kenny estavam entre as últimas pessoas que o tinham visto, mas não existiam provas físicas suficientes para apresentar uma acusação formal naquele momento.

Depois do desaparecimento, mãe e filho deixaram as Bahamas e regressaram aos Estados Unidos.

Kenny, então com 21 anos, já não era apenas alguém controlado pela mãe. Tornara-se participante ativo dos seus crimes.

Uma relação cada vez mais inquietante

Durante esse período, pessoas que conviveram com os dois começaram a comentar a natureza da relação.

Sante e Kenny viajavam juntos, dormiam frequentemente no mesmo quarto, demonstravam ciúmes e tratavam-se com uma intimidade considerada incomum.

Algumas testemunhas chegaram a afirmar que se comportavam como amantes.

Não existe uma confirmação definitiva sobre a existência de uma relação física, mas a dependência emocional entre ambos era evidente.

Kenny procurava constantemente a aprovação da mãe. Sante, por sua vez, tratava-o como parceiro, protetor e instrumento para executar os seus planos.

A fraude contra David Kazdin

Em 1992, Sante e Kenneth tinham transferido formalmente uma propriedade em Las Vegas para o nome de David Kazdin, um amigo de longa data, com o objetivo de protegê-la durante uma disputa legal.

David concordou em ajudá-los e assinou documentos que permitiam a devolução da propriedade no futuro.

Anos depois, em janeiro de 1998, Sante utilizou a casa como garantia para obter um empréstimo de cerca de 280 mil dólares em nome de David, sem autorização dele.

David descobriu a fraude ao receber documentos relativos à nova hipoteca.

Pouco tempo depois, a propriedade foi destruída por um incêndio suspeito. A seguradora recusou-se a pagar, acreditando que o incêndio poderia ter sido provocado.

David denunciou Sante ao banco e às autoridades.

Mais uma vez, ela decidiu que o problema precisava de ser eliminado.

Em março de 1998, Kenny e um cúmplice chamado Sean Littleton viajaram para Los Angeles.

Kenny entrou na casa de David, em Granada Hills. Enquanto o homem se afastava para preparar café, Kenny disparou contra ele.

O corpo foi colocado no porta-bagagens do automóvel de David e abandonado numa zona de contentores de lixo.

Pouco depois, foi encontrado pelas autoridades.

Sante e Kenny tornaram-se os principais suspeitos.

Depois da morte de David, Kenny enviou flores para a mãe. Para os investigadores, o gesto demonstrava a necessidade de receber aprovação, como se o crime tivesse sido cometido como uma prova de lealdade.

A mudança para Nova Iorque

Duas semanas antes do homicídio de David, Sante e Kenny tinham tentado comprar um automóvel com um cheque falso. A fraude foi descoberta e foram emitidos mandados de prisão.

A dupla atravessou o país até chegar a Nova Iorque, onde esperava desaparecer no anonimato de Manhattan.

Foi então que Sante identificou um novo alvo: Irene Silverman.

Irene era uma viúva de 82 anos, proprietária de uma elegante residência em Manhattan, dividida em apartamentos de luxo.

O edifício valia vários milhões de dólares.

Sante criou uma nova identidade e apresentou-se como “Manny Guerrin”. Kenny alugou um dos apartamentos, pagando vários milhares de dólares antecipadamente em dinheiro.

O pagamento convenceu Irene a aceitar o inquilino sem realizar uma investigação aprofundada.

Pouco depois, Kenny instalou equipamentos para ouvir as conversas telefónicas da proprietária.

O plano consistia em obter documentos pessoais, falsificar a assinatura de Irene e transferir a propriedade do edifício para uma empresa controlada por Sante.

Irene percebe o perigo

Irene Silverman era observadora e começou rapidamente a desconfiar do novo inquilino.

Kenny evitava câmaras de segurança, espiava pelo olho mágico da porta e comportava-se como alguém que temia ser reconhecido.

Irene registou as suas suspeitas num caderno. Em determinado momento, escreveu que Kenny parecia uma pessoa que deveria estar na prisão.

Sante conseguiu obter uma cópia da escritura do edifício e iniciou a falsificação dos documentos.

Usando perucas, roupas e maquilhagem, tentou fazer-se passar por Irene perante um funcionário responsável pela autenticação.

A escritura foi transferida para uma empresa criada por ela.

Faltava apenas retirar a verdadeira proprietária do caminho.

O desaparecimento de Irene Silverman

Em 5 de julho de 1998, Irene desapareceu do edifício.

De acordo com as acusações, Sante utilizou um dispositivo elétrico para a imobilizar. Kenny teria então causado a sua morte.

O corpo foi colocado numa grande bolsa e levado para Nova Jérsia, onde teria sido abandonado numa zona de resíduos.

Nunca foi encontrado.

Depois do desaparecimento, Sante e Kenny foram à Trump Tower, onde beberam café e comeram doces. Segundo uma testemunha, Kenny fez um comentário perturbador sobre as próprias mãos e a morte de Irene.

A ausência da proprietária foi percebida rapidamente pelos funcionários do edifício.

Irene tinha hábitos regulares e não costumava desaparecer sem avisar. A polícia foi chamada e encontrou o caderno com as anotações sobre Kenny.

Ao mesmo tempo, uma força conjunta do FBI e da polícia de Los Angeles já procurava mãe e filho devido às fraudes, ao homicídio de David Kazdin e ao desaparecimento de Syed Ahmad.

A armadilha no hotel

Um antigo associado chamado Stanley Patterson concordou em colaborar com as autoridades.

O plano era marcar um encontro com Sante e Kenny num hotel de Nova Iorque. Quando os dois chegassem, Stanley deveria retirar o chapéu, sinalizando aos agentes que poderiam avançar.

A dupla demorou várias horas a aparecer.

Os investigadores acreditam que esse intervalo pode ter sido utilizado para ocultar o corpo de Irene.

Quando chegaram ao hotel, Stanley fez o sinal combinado e a polícia avançou.

Sante tentou afastar-se de uma bolsa preta que transportava, alegando que não lhe pertencia.

Dentro da bolsa, os agentes encontraram vários passaportes, cadernetas bancárias e cheques relacionados com Irene Silverman.

Kenny tinha consigo um cartão de Segurança Social falso com o nome da idosa.

Pela primeira vez, os dois foram separados.

Sem a presença da mãe, Kenny parecia desorientado.

As provas encontradas

Inicialmente, os investigadores não perceberam imediatamente a ligação entre os documentos de Irene e o seu desaparecimento.

Quando a polícia de Nova Iorque divulgou publicamente o caso, um detetive reconheceu o nome de Kenny como sendo o inquilino suspeito mencionado por Irene.

Foi emitido um mandado de busca para o apartamento.

No local, foram encontradas perucas, sedativos, documentos com tentativas de falsificação da assinatura de Irene e materiais que poderiam ter sido utilizados para transportar ou ocultar objetos.

Também foi localizada uma lista escrita por Sante com itens como fita adesiva, cordas e sacos.

A prova mais importante surgiu numa bolsa que a dupla tinha deixado no Plaza Hotel.

Dentro dela estava a escritura falsificada que transferia o edifício de Irene para uma empresa ligada a Sante.

Durante o interrogatório, um detetive tentou convencer Kenny a colaborar. Por alguns instantes, ele pareceu emocionalmente abalado e próximo de confessar.

Depois recuperou o controlo e limitou-se a responder que não faria comentários.

O julgamento

Em dezembro de 1998, Sante e Kenny enfrentaram dezenas de acusações relacionadas com fraudes, falsificação de documentos, conspiração e o desaparecimento de Irene Silverman.

Mesmo sem o corpo da vítima, os promotores construíram o caso através de documentos, testemunhos, objetos encontrados e do padrão de comportamento da dupla.

O julgamento recebeu enorme atenção da imprensa.

Sante aproveitou a exposição para proclamar a própria inocência. Deu entrevistas e apresentou-se como vítima de uma conspiração.

Afirmava que nunca faria mal a uma mulher idosa e tentava convencer o público de que as acusações eram absurdas.

A estratégia não foi suficiente.

As provas financeiras, as identidades falsas, as escrituras forjadas, os objetos encontrados e as anotações de Irene formavam uma narrativa consistente.

Sante foi condenada a uma pena que ultrapassava um século de prisão.

Kenny recebeu uma condenação igualmente longa.

Mais tarde, ele também foi condenado pelo homicídio de David Kazdin.

O fim da dupla

A prisão encerrou décadas de manipulação e impunidade.

Sante passou grande parte da vida a acreditar que poderia controlar qualquer pessoa, alterar qualquer documento e escapar a qualquer investigação.

Criou identidades, seduziu homens ricos, explorou trabalhadores, fraudou bancos, utilizou os próprios filhos e transformou Kenny num parceiro totalmente dependente.

Kenny cresceu dentro de um ambiente em que a mentira era normalizada e a lealdade à mãe estava acima de qualquer regra moral.

Ele teve oportunidades de construir uma vida diferente, sobretudo durante os anos em que Sante esteve presa. No entanto, regressou à esfera de controlo dela e acabou por participar nos seus crimes mais graves.

Sante Kimes morreu na prisão em 2014, aos 79 anos.

Kenny permaneceu encarcerado, cumprindo uma pena que praticamente elimina qualquer possibilidade de liberdade.

A história dos dois tornou-se um exemplo extremo de manipulação familiar, dependência emocional e criminalidade construída ao longo de várias gerações.

Mais do que uma sequência de fraudes e crimes, o caso mostra como uma relação baseada em controlo absoluto pode destruir a identidade de uma pessoa e transformar um vínculo familiar numa parceria perigosa.

Durante anos, Sante e Kenny acreditaram que poderiam reinventar a realidade sempre que fossem confrontados.

No final, porém, os documentos falsos, as identidades inventadas e as histórias cuidadosamente construídas não conseguiram apagar os vestígios deixados pelo caminho.

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