SOCRATES: A NOJENTA VERDADE QUE VEIO À TONA

SOCRATES: A NOJENTA VERDADE QUE VEIO À TONA

O homem que mudou o Brasil, o capitão da seleção em dois mundiais, três vezes campeão com o Corinthians. E esse mesmo homem atirado para a rua, bêbado, sem dinheiro e com dois filhos sem reconhecer. O que sempre te contaram é que morreu pelo álcool, que ele mesmo se matou bebendo até hoje. Hoje vai saber outra coisa.

 Sócrates não matou-se sozinho. Mataram-no devagar durante anos e a mão que colocava o garrafa na sua boca tinha nome, apelido. E no dia em que morreu, havia alguém naquele hospital que não devia estar ali, alguém que estava há 8 anos sem o ver. E o que lhe disse nos últimos minutos antes de entrar em coma, muda tudo aquilo em que acredita saber desse homem.

 Fica até ao fim, porque hoje vai saber quem tirou a vida dele e quem estava nesse hospital. Mas antes precisa de saber de onde vinha o Sócrates e o que fez pelo Brasil. Belém do Pará, norte do Brasil, ano de 1954, uma cidade de calor pegajoso, perto do Amazonas, onde o ar cheira a rio podre e a fruta madura.

 Numa casa modesta de paredes brancas e teto baixo, nasceu o primeiro de seis irmãos do sexo masculino. botaram o nome de Sócrates. O pai Raimundo, funcionário público e leitor compulsivo, escolheu este nome pelo filósofo grego. Queria que o filho pensasse de forma diferente do resto. 10 anos depois, em abril de 1964, o exército brasileiro deu um golpe de estado.

 Começou uma ditadura militar que ia durar 21 anos. E uma das primeiras noites depois do golpe, o Raimundo fez uma coisa que o Sócrates lembrou até ao último dia da vida. Tirou no quintal de trás toda a biblioteca de esquerda dele, Marx, Lenine, autores brasileiros proibidos, centenas de livros comprados durante anos, livro a livro, em cebos, e queimou tudo numa fogueira em frente dos filhos.

 Não houve um discurso longo, só uma frase. O pai falou: “Prefiro queimar eu próprio a deixar que venham eles queimar-me com eles”. Sócrates tinha 10 anos. Nessa noite aprendeu duas coisas ao mesmo tempo. A primeira que o medo pode mais do que o conhecimento. A segunda, que um homem pode destruir o que mais ama para proteger a família.

 As duas lições iam custar-lhe a vida 47 anos depois. Guarda esse momento, a biblioteca queimada de 1964. Porque 50 anos depois, numa casa do interior de São Paulo, alguém da família Vieira de Oliveira ia fazer exactamente a mesma coisa, mas não com livros. A família mudou-se para o sul, para Ribeirão Preto, no estado de São Paulo.

 O Sócrates cresceu estranho, demasiado alto, demasiado magro, demasiado calado. Aos 15 anos já passava dos 190 m. lia de tudo. O o seu sonho era ser médico, trabalhar em hospitais do interior, onde ninguém queria ir. O futebol chegou por acaso aos 17, quando um amigo o arrastou numa peneira do Botafogo de Ribeirão Preto.

 Aceitaram-no na hora e começou a vida dupla que o ia marcar para sempre. De segunda a sexta-feira, faculdade de medicina na Universidade de São Paulo. De sábado a domingo, primeira divisão do futebol brasileiro. Estudava anatomia nos autocarros da equipa. Estudava farmacologia nos hotéis de concentração. Os companheiros olhavam-no como para um extraterrestre.

 No elenco tinha miúdo que mal sabia assinar o nome. Chegava com livros debaixo do braço e começou a beber cerveja primeiro aos 18 anos. Depois destilados, falava que o álcool organizava a sua cabeça, que era parte do processo intelectual. Uma mentira que demorou 30 anos a ser desmascarada de vez. Porque na família Vieira de Oliveira tinha uma coisa que se transmitia de geração em geração, uma coisa que o pai tinha conseguido escapar queimando livros, uma coisa que não ia conseguir escapar nunca.

 E havia uma pessoa muito próxima dele que já sabia e ficou calada durante décadas. Essa pessoa não era o pai, não era a mãe, era alguém que ainda não tinha nasceu quando começou a beber, mas que ia chegar ao mundo mesmo na hora de acompanhá-lo em cada gole. Em 1974, enquanto o Sócrates jogava já como titular do Botafogo de Ribeirão Preto, a mãe dele teve o mais novo dos seis irmãos, um miúdo a quem puseram o nome de Raí.

Este bebé, 20 anos depois, ia levantar a Mundial de 94 com a camisola do Brasil. E antes disso, muito antes, ia virar a sombra silenciosa do irmão mais velho. A sombra que servia o primeiro gole de cada noite para ele. Mas para para chegar a essa história, primeiro tem que perceber o que o Sócrates fez no Brasil.

Porque sem compreender o quanto ele foi grande, não se consegue compreender o quanto a queda foi brutal. Em 1978, com 24 anos acabados de completar, assinou pelo Corinthians de São Paulo, um dos clubes maiores do país, os adeptos mais fanática. O estádio Pacaembu encheu todo domingo, 40.

 pessoas a cantar sem parar durante 90 minutos. E ali o Sócrates explodiu. 1,92 m de altura, 68 kg, magro como um poste, andava dentro do campo no lugar de correr, levantava a cabeça, olhava o campo inteiro como um enchadrista e passava a bola de calcanhar. De calcanhar. Uma coisa que nenhum futebolista da época dele fazia com aquela naturalidade.

 Inventou um futebol novo, pausado, intelectual, quase insolente com os rivais. aplidaram ela de o doutor pela medicina, pela barba preta cerrada, pelo jeito de falar nas entrevistas, não respondia como jogador, respondia como professor universitário. Citava o Gramschi, o Marx, os filósofos gregos. falava de política em rede nacional, em plena ditadura, quando os outros futebolistas tinham ordem de calar e sorrir.

 O que quase ninguém sabe é que em 1979, com apenas um ano no Corinthians, o Sócrates tomou uma decisão que ia destruir três vidas. A dele, a de uma mulher cujo nome a família apagou para sempre, e a de um moleque que nunca soube quem era o pai. Essa decisão foi assinada na noite do 14 de agosto de 1979 e a única testemunha foi o irmão menor dele. Tinha 5 anos.

 Mas antes de entrar nessa noite tem que contar o que aconteceu nos três anos seguintes. Porque entre 1980 e 1983, o Sócrates virou uma coisa que o futebol mundial não tinha visto nunca. Um jogador que era ao mesmo tempo capitão, ideólogo e revolucionário político dentro do próprio clube. O Brasil estava nos últimos anos da ditadura militar.

 Os militares ainda mandavam, ainda prendiam, ainda torturavam, ainda sumiam com gente. E dentro daquele país de medo silencioso, o Sócrates liderou uma coisa que se chamou democracia corintiana. Não foi um nome publicitário, foi um movimento real dentro do vestiário do Corinthians, onde pela primeira vez na história do futebol, todos os integrantes do clube tinham direito a voto.

 Jogadores, treinadores, massagistas, roupeiros, cozinheiros, todos um homem, um voto. se votava o horário do treino, se votava se concentrava ou não antes dos jogos, se votava a contratação de jogadores novos, se votava se fazia greve. E nas camisas escrito em letras grandes durante as eleições presidenciais brasileiras de 1982, dizia dia 15 vot, um convite direto em plena ditadura para que o povo votasse.

Uma coisa que nenhum outro clube se atreveu a fazer. Sócrates era a cabeça, Vladimir, Casagrande, Zenon eram os aliados dele, Adilson Monteiro Alves, o diretor de futebol, o cérebro político, e os militares nos gabinetes do DOPS, o Departamento de Ordem Política e Social, olhavam com cada vez mais raiva o que estava acontecendo naquele vestiário.

Naqueles anos, entre 1981 e 1983, o Arquivo Militar Brasileiro abriu uma pasta com o nome do Sócrates. Essa pasta existiu. Vários jornalistas viram ela nos anos 90, quando foram desclassificados documentos. E o que tinha dentro dessa pasta é parte do que ia explodir contra ele em 1984. O Corinthians com a democracia corintiana ganhou dois campeonatos paulistas seguidos. 82 e 83.

 O Sócrates era o rei. Qual Temuk Blanco e Maradona, nas seleções deles, olhavam para ele com admiração. O Maradona disse numa entrevista, anos depois que o único jogador que ele de verdade respeitava intelectualmente era o Sócrates, que os outros eram moleques com pernas. Sócrates era um homem com cabeça. E aí chegou Espanha 82, a Copa do Mundo na Espanha.

 Junho e julho de 1982, a seleção brasileira mais espetacular desde o Pelé. Zico, Falcão, Cerezo, Éder, Júnior, Leandro e de Capitão carregando a braçadeira o Sócrates. Essa seleção não ganhou a Copa, perdeu pra Itália num dos jogos mais doloridos da história do futebol brasileiro. Três gols do Paolo Rossi. O Brasil ficou eliminado, mas a dor desse jogo foi diferente da de qualquer outra eliminação, porque essa seleção era considerada por quase todos os especialistas como a melhor do torneio.

E o Sócrates, depois do jogo, chorou no vestiário durante uma hora. Não falava, não respondia. O companheiro dele, Falcão, falou anos depois que naquele vestiário sentiu que uma coisa dentro do Sócrates tinha quebrado para sempre. Não era só a derrota, era uma coisa a mais, uma coisa que aconteceu naquela mesma noite no hotel de concentração do Brasil em Barcelona e que o Sócrates não contou para ninguém durante anos, só falou para uma pessoa e essa pessoa estava gravando.

 Aqui entramos em zona escura porque a noite do 5 de julho de 1982 em Barcelona, aconteceu uma coisa que a família Vieira de Oliveira sustentou durante três décadas que era mentira. E só 30 anos depois, quando saíram à luz fragmentos da gravação de 84, foi confirmado que sim, tinha acontecido. Vamos chegar nessa gravação, mas ainda falta.

 Depois da Copa, o Sócrates voltou ao Brasil, virado no mais parecido com um Messias que esse país já teve no futebol. Mais que um futebolista, um líder político informal, falava em universidades. Jornais europeus entrevistavam ele. Pediam que ele se candidatasse a deputado pelo Partido dos Trabalhadores. Lula da Silva, ainda sindicalista metalúrgico, valorizava ele como aliado.

E ao mesmo tempo, em particular, o Sócrates já bebia duas garrafas de cerveja antes do café da manhã e 1 L de whisque durante a noite e fumava três maços de cigarro por dia. e começava a usar cocaína de jeito esporádico, segundo contou anos depois um companheiro do Corinthians. A esposa dele de então, a Regina, já não aguentava.

 Tinham tido quatro filhos, quatro moleques que quase não viam o pai. Sócrates dormia no sofá, chegava às 5 da manhã, ia treinar sem trocar de roupa e apesar de tudo isso, em campo continuava sendo o melhor. O que quase ninguém conta do Sócrates é que naqueles anos, entre 82 e 84, ele não teve quatro filhos.

 Teve seis, mas só reconheceu quatro. Os outros dois cresceram sem sobrenome, sem pensão, sem nome. Uma das mães ainda está viva. A outra apareceu morta em 2013, 2 anos depois da morte do Sócrates. E o caso dela foi fechado em menos de 48 horas. Vamos voltar nisso. Em 1983, o Corinthians voltou a ganhar o paulista.

 A democracia corintiana estava no ponto mais alto. O Sócrates tinha 29 anos, era capitão do Brasil, era o ídolo mais respeitado do país. Convidavam ele para programas de televisão, para debates de medicina, para atos políticos. O irmão dele, o Raí, com 9 anos, ia ver ele treinar no Parque São Jorge e sentava em silêncio do lado do campo, olhando, memorizando, aprendendo.

O Raí falou numa entrevista em 2014, 3 anos depois da morte do Sócrates, uma frase que naquela hora ninguém analisou, falou: “Eu aprendi a ser jogador, olhando meu irmão, e aprendi outras coisas também, coisas que não me serviram tanto. Que coisas, que outras coisas o Raí aprendeu olhando o irmão mais velho? A resposta está no que vamos contar agora e é mais escura do que qualquer torcedor do Corinthians ou do Brasil queria acreditar.

 No final de 1983, a ditadura militar brasileira começava a enfraquecer. O movimento diretas já pedia eleições diretas. Milhões de pessoas nas ruas de São Paulo, Rio, Belo Horizonte. E o Sócrates estava no centro. liderava marchas, falava em cima de caminhões de som, era o rosto visível do futebol comprometido com a democracia.

 Os militares nos gabinetes deles já não aguentavam ele. E aí, em janeiro de 84, aconteceu uma coisa que mudou tudo. O Sócrates deu uma entrevista pra Folha de São Paulo, onde falou, com todas as letras que se as diretas já não fossem aprovadas no Congresso Brasileiro, ele ia embora do país. Se o Brasil não muda, eu vou embora.

 Essa frase publicada no 22 de janeiro de 1984 foi interpretada pelos militares como um desafio direto. O que aconteceu entre janeiro e abril de 1984 é o que a família negou durante três décadas. E aqui é onde a gente tem que parar um momento e voltar à promessa do começo, porque você já está perto de saber duas coisas que mudam toda essa história.

 Quem colocava a garrafa na boca do Sócrates cada noite durante 20 anos e quem estava sentado naquele hospital no dia em que ele morreu depois de 8 anos de silêncio absoluto. As duas respostas são a mesma pessoa e você vai entender o porquê. A pessoa que durante 20 anos serviu o primeiro copo de cada noite pro Sócrates.

 A pessoa que cobria ele perante os jornalistas. A pessoa que tirava ele bêbado de bares em Florença e em São Paulo e em Belém. A pessoa que negou publicamente que o irmão dele fosse alcólatra enquanto em particular servia o ISC para ele com a própria mão, foi o Raí, o irmão menor dele, o futuro capitão do Brasil, campeão do mundo em 1994, o ídolo limpo, o que hoje dirige fundações beneficentes e aparece em campanhas de boa imagem.

O mesmo Raik com 15 anos, em 1989, já estava estreando no São Paulo Futebol Clube e que viajava nos fins de semana para ficar na casa do Sócrates para acompanhar ele depois dos jogos. Ha, que era o único que sabia como cuidar dele quando entrava nos buracos negros. Hai, que tinha a chave do bar particular do Sócrates na casa de Ribeirão Preto e que decidia qual garrafa abrir conforme a noite.

 Uma companheira do futebol feminino brasileiro, a Maria Helena, amiga próxima da família, declarou em 2017, numa entrevista que quase ninguém viu. Raí amava o Sócrates mais que ninguém, por isso servia ele. Se não desse ele, o Sócrates ia procurar na rua e na rua ia morrer mais rápido. O raí achava que em casa estava cuidando dele, mas estava colocando a corda no pescoço dele todas as noites.

 E a segunda revelação, a que você tem que escutar grudada na primeira, sem respirar entre uma e outra, é essa. A pessoa que entrou no Hospital Albert Einstein de São Paulo no dia 2 de dezembro de 2011, dois dias antes da morte do Sócrates, depois de 8 anos sem ver ele, depois de 8 anos de silêncio absoluto entre os dois irmãos, foi o mesmo Raí.

 O Raí entrou no quarto às 9:30 da noite. O médico de serviço, o O Dr. Eduardo Bisacioni, declarou anos depois que viu um homem alto, com barba grisalha, vestido de paletó escuro, se aproximar da cama do Sócrates moribundo, sentar-se na cadeira do lado e sussurrar uma coisa no ouvido dele durante quase 40 minutos.

 O médico, por respeito, não aproximou-se, mas passou duas vezes na frente da porta entreaberta e na segunda vez escutou claramente uma frase que o Raí disse ao irmão, uma frase que o dr. Bisacxioni nunca esqueceu. O Rai falou pro Sócrates, “Irmão, já posso contar. A mamã já não está aqui para sofrer com isso.

 O Sócrates, que estava há 24 horas sem abrir os olhos, sem reagir a estímulos, abriu-os, olhou para o irmão, chorou sem fazer barulho durante vários minutos e voltou a fechá-los. Dois dias depois, no dia 4 de dezembro de 2011, às 4:01 da madrugada, o Sócrates morreu. Mas esta frase, já a posso contar, mamã já não está aqui para sofrer com isso.

O que significa? O que era que o Raí podia contar agora que a mãe, a dona Guomar, tinha morrido em fevereiro de 2011, 10 meses antes do Sócrates? Que segredo o irmão menor estava a guardar durante tantos anos? O que foi que aconteceu na noite de 14 de agosto de 1979 em Ribeirão Preto, quando o Raí tinha 5 anos e era a única testemunha de uma coisa que ia definir toda a vida do Sócrates? A resposta está numa gravação, uma cassete das antigas gravada no 18 de setembro de 1984 num apartamento do centro de São Paulo,

na rua Augusta. Essa fita existiu. A família Vieira de Oliveira sustentou durante 32 anos que esta gravação foi uma invenção da imprensa castanha que nunca tinha existido, que era uma falsificação. Falaram em entrevistas, falaram em livros oficiais sobre o Sócrates, falaram mesmo perante a justiça quando um jornalista quis publicar excertos em 2002.

Essa fita existiu mesmo. E o que o Sócrates fala nestes minutos, semanas antes de assinar com a Fiorentina da Itália, muda toda a biografia oficial dele. Explica porque é que de verdade ele foi embora do país. Explica o que os militares fizeram com ele. Explica que pacto assinou com o irmão de 5 anos em 79.

 e explica porque falou textual nessa fita. Uma frase que arrepia escutar ainda hoje. O Sócrates fala na fita: “Já estou morto. Só falta o corpo descobrir.” Vamos voltar nessa gravação. Vai saber o que ela diz exatamente. Vai saber que nomes ela menciona. Vai saber que ameaça recebeu. E vai saber o que a família fez depois com esta fita quando morreu.

 Porque o que fizeram com esta fita 30 anos depois é uma réplica exata do que o pai Raimundo tinha feito em 64 com os livros dele, mas desta vez não foi queimado por medo dos militares, foi queimado por medo de uma coisa pior. Março de 1984, São Paulo. O Congresso brasileiro votava a emenda Dante de Oliveira, que ia permitir eleições diretas para presidente.

 Depois de 20 anos de ditadura. A alteração não passou. Faltaram 22 votos. O Brasil ia ter de esperar. Nessa noite, o Sócrates estava na varanda do seu apartamento emópolis, em São Paulo, com uma garrafa de whisky vazia nos pés e outra a meio na mão. Estávamos a 25 de abril de 1984. A sua mulher, a Regina, dormia dentro com os quatro filhos.

 O Sócrates olhava a avenida vazia e, segundo contou anos depois, um amigo jornalista, chorava sem fazer barulho. Às 3 da manhã, o telefone tocou. Um número desconhecido, uma voz de homem, calma, sem se apresentar, disse-lhe uma frase curta, depois desligou. O Sócrates não contou para ninguém naquela noite o que tinham falado para ele.

 Demorou 5co meses a confessar. confessou em frente de um microfone ligado num gravador de fita cassete em setembro desse mesmo ano. Esta ligação da madrugada do 25 de Abril de 1984 foi o princípio do fim. O que esta voz falou com o Sócrates naquela noite é exatamente o que vai escutar na fita quando chegarmos a ela. E a razão pela qual assinou com a Fiorentina em julho desse mesmo ano não foi o dinheiro italiano, foi o medo.

 Nas semanas seguintes, o Sócrates foi-se apagando em silêncio, continuava a jogar no Corinthians, continuava a ser capitão. Mas os companheiros notavam uma coisa. O Casagrande declarou num documentário, anos depois que naqueles meses o Sócrates já não estava ali, que entrava no balneário, trocava-se, jogava, tomava banho e embora, sem discursos, sem política, sem democracia corintiana, sem nada.

 Em junho de 1984, chegou a São Paulo uma proposta da Fiorentina de Itália. 3 milhões de dólares pela transferência, um contrato de 4 anos, casa em Florença, carro, escola italiana para os filhos. Era uma proposta enorme paraa época, mas não era a maior que tinha recebido. O Sócrates tinha recusado propostas maiores antes.

 Desta vez aceitou em menos de uma semana. anunciou no 12 de Julho de 1984 numa conferência de imprensa no Parque São Jorge. Falou frases vazias sobre novos desafios profissionais. Os companheiros do Corinthians estavam em choque. O Vladimir, o seu sócio político, perguntou em particular porque ia embora bem na altura que o Brasil mais precisava dele.

 O Sócrates não respondeu, deu um abraço longo nele e falou: “Um dia eu vou contar-lhe”. Nunca contou, mas contou sim a outra pessoa, a um jornalista seu amigo, de nome Jacfuri, num apartamento do centro de São Paulo, na rua Augusta, no dia 18 de setembro de 1984. Esta conversa durou 3 horas e foi gravada inteira. O Sócrates sabia. aceitou que fosse gravada com uma única condição, que essa fita não fosse publicado enquanto a mãe dele estivesse viva.

 A Dona Guiomar morreu no dia 9 de Fevereiro de 2011. O Sócrates morreu 10 meses depois e mesmo assim a fita não foi publicada. Vamos ver porquê. Em Agosto de 1984, antes de ir paraa Itália, o Sócrates fez uma coisa estranha. regressou a Belém do Pará, a cidade natal, pela primeira vez em se anos. Ficou três dias. Visitou a casa onde tinha crescido, já vazia, porque a família se tinha mudado pro sul.

 Andou pelo quintal das traseiras, o mesmo onde o pai tinha queimado os livros em 64. Ficou ali parado sozinho durante quase uma hora. Um vizinho que o viu da janela declarou anos mais tarde que pensava que o Sócrates estava a rezar, apesar do Sócrates ser ateu declarado. Depois, no último dia, foi para o cemitério municipal de Belém.

 Procurou uma sepultura específico, uma cova pequena, sem lápis de caras, com uma placa simples que dizia um nome de mulher e duas datas. A data de morte era de 1979. O Sócrates deixou flores, chorou e foi embora. De quem era esta sepultura? Quem era esta mulher que morreu em 1979 em Belém do Pará e a quem o Sócrates foi despedir-se antes de ir paraa Itália 5 anos depois? A resposta tem a ver com a noite de 14 de agosto de 1979 em Ribeirão, com o rai de 5 anos e com um dos dois filhos que o Sócrates nunca reconheceu. No dia 28 de agosto de

1984, o Sócrates voou de São Paulo para Florença com a mulher Regina e os quatro filhos. A Fiorentina recebeu-o no aeroporto com uma grande cobertura da mídia. Tifos e violetas com bandeiras, câmaras da RI. O presidente do clube, Ranieri Pontelo, abraçou-o na frente dos flashes. O Sócrates sorriu como deu. Nessa noite, no hotel onde ficaram hospedados as primeiras semanas, bebeu até cair a dormir na casa de banho.

 A Regina encontrou-o às 6 da manhã com a cabeça apoiada no vaso e a calça suja. O futebol italiano de 84 era brutal. Defesas duríssimas, marcadores homem a homem que não largavam um segundo. Campo lento, pesado. E o Sócrates, que no O Brasil flutuava sobre a erva como se fosse um palco próprio, em Itália bateu numa parede.

 Marcavam ele três jogadores ao mesmo tempo. Davam pontapés no tornozelo dele cada vez que tentava passar a bola de calcanhar. Provocavam-no em cada lateral com frases em italiano que compreendia cada vez mais. e bebia. Bebia antes dos jogos. Bebia no intervalo, no balneário escondido dos companheiros, numa pequena garrafa de plástico que trazia no bolso da calça. O médico da equipa descobriu o dr.

Mauro Brog, em fevereiro de 1985, fez exames. O fígado de Sócrates, aos 31 anos, já tinha o dano de um homem de 55. O Brog falou a sério com ele, disse que se continuasse assim não chegava aos 40. O Sócrates respondeu-lhe, segundo contou o Brog numa entrevista ao Corrier de Lacera em 2012, uma semana depois da morte dele.

 Doutor, já sei que não chego, não é novidade. Sei que há anos. Esta frase não era uma metáfora, era literal. O Sócrates sabia desde 1979 que ia morrer jovem. sabia disso por uma coisa concreta, uma coisa que tinha acontecido naquela noite de 14 de agosto, uma coisa que só ele, o irmão Raí de 5 anos e uma mulher que depois morreu conheciam.

 Vamos contar tudo, mas ainda falta para perceber o porquê. Em Florença, o Sócrates jogou uma única época, 25 jogos, seis golos, uma estação cinzenta, sem brilho, sem a mágico que ele tinha no Brasil. A Fentina em particular já procurava o maneira de o devolver. O público italiano respeitava-o, mas não amava ele.

 Era um jogador estranho, demasiado intelectual, demasiado político e demasiado bêbado para os padrões rigorosos do futebol italiano dos anos 80. Em maio de 1985, ligaram-lhe do Brasil. O Telê Santana, o selecionador nacional, perguntou-lhe se queria voltar para jogar a Copa América e começar a preparar o Mundial do México em 86. O Sócrates falou que sim, no mesmo momento, sem pensar, sem consultar a Fiorentina, como se esta questão tivesse sido a autorização que ele esperava para escapar de Itália.

 Voltou pro Brasil em Julho de 1985, assinou com o Flamengo do Rio de Janeiro, uma época irregular. Pesava Mais 10 kg que no Mundial de 82. O rendimento físico já não era o mesmo, mas em campo continuava a ser tecnicamente um dos melhores do Brasil. A Telesantana levou-o pra Copa do México em 86 como capitão.

 A Taça do México em 86 é o segundo Mundial do Sócrates e é o jogo onde aconteceu uma coisa que a imprensa da época não contou. Um momento de 4 segundos em campo no estádio Jalisco em Guadalajara durante o jogo contra a França, que só se entende quando ouve a gravação de 84. Brasil contra França, 21 de junho de 1986, quartos de final, um dos jogos mais bonitos da história das copas.

 Empate 1 a 1 depois dos 90 minutos. Tempo suplementar sem golos. Decisão por penaltis. Sócrates bateu o primeiro penálti do Brasil, tomou um impulso curto, parou um segundo antes de pontapear como fazia sempre, esperou que o Joel Bats, o guarda-redes francês, se mexesse e chutou. Bates adivinhou, defendeu. O O Brasil acabou por perder nos penaltis 4 a tr.

 O que as câmaras captaram, mas os comentadores não analisaram, foi o que o Sócrates fez depois de errar. caminhou pro círculo central, sentou-se na relva, tapou o rosto com as duas mãos e ficou assim durante quase 4 minutos. Os companheiros deixaram-no sozinho. O Telantana fazia-lhe sinal do banco para que se levantasse. O Sócrates não se mexeu.

 Uma câmara da televisão mexicana focou-o bem de perto e vê-se nesta imagem que o Sócrates está a falar sozinho. Murmura uma coisa, mexe os lábios. Se ler com atenção, o que ele fala repete-se três vezes. Ele fala: “É justo, é justo, é justo”. Porque o Sócrates achava que falhar esse penálti era justo porque achava que merecia essa eliminação.

 A resposta está na fita de 84 e está numa coisa que ele disse para -se depois do Mundial de 82, depois dessa noite em Barcelona, sobre a qual a família mentiu durante três décadas. Depois do Mundial de 86, o Sócrates voltou para o Brasil sabendo que a carreira internacional dele tinha acabado. Tinha 32 anos.

 O seu corpo já era o de um homem velho. Jogou mais duas épocas, uma no Flamengo e outra no Santos, sem brilho. Aposentou-se oficialmente do futebol profissional em 1989, aos 35 anos, no clube da sua cidade, o Botafogo de Ribeirão Preto, o mesmo clube onde se tinha estreado 18 anos antes. O dia da sua reforma, no estádio Santa Cruz, lotado até acima, chorou no centro do campo, abraçado ao roupeiro do clube, um senhor de 70 anos que tinha visto ele estrear-se adolescente.

 O irmão dele, o Raí, estava na tribuna VIP, tinha 15 anos, já treinava nas divisões de base do São Paulo, ia ser 2 anos depois profissional e 10 anos depois capitão do Brasil, campeão do mundo. Mas naquela tribuna VIP do estádio Santa Cruz, nesse domingo de 89, o rei não aplaudia com o sorriso de irmão orgulhoso, aplaudia com o rosto desencaixado, porque sabia, melhor do que ninguém, que o que vinha pro Sócrates nos 20 anos seguintes não era a reforma digna de um ídolo, era a descida ao inferno.

 E ele ia estar do lado o tempo todo, segurando a garrafa para ele. Entre 1989 e 1995, o Sócrates tentou fazer muitas coisas e falhou em quase todas. Tentou completar a especialização em medicina desportiva. abandonou no segundo ano, tentou abrir uma clínica privada em Ribeirão Preto. Faliu em 18 meses. Tentou ser comentador de televisão.

Despediram-no por chegar bêbado duas vezes seguidas na transmissão. Tentou dirigir uma equipa de futebol amador. Lutou com os dirigentes, tentou escrever um livro, largou-o pela metade. O casamento dele com a Regina, a mãe dos quatro filhos reconhecidos, acabou em 1990. Divórcio doloroso, com luta pela pensão. A Regina ficou com os miúdos.

O Sócrates via-os de 15 em 15 dias quando se lembrava. A filha mais velha, a Bárbara, numa entrevista de 2014 falou: “O meu pai gostava de nós, mas o álcool era mais forte do que o carinho. Sempre foi assim, desde que me lembro. Em 1993, o Sócrates casou pela segunda vez com uma mulher de nome Cristina Caro, com quem teve mais dois filhos.

 Esse casamento durou 4 anos. Acabou noutro divórcio com denúncias cruzadas de violência doméstica. Segundo consta nos arquivos do Tribunal de Família de Ribeirão Preto, o Sócrates negou todas as as acusações. A Cristina retirou-as antes do julgamento. O processo foi fechado sem condenação. O que poucos sabem é que entre estes dois casamentos oficiais, o Sócrates teve relações com pelo menos sete mulheres diferentes.

 E de duas dessas relações nasceram os dois filhos que nunca reconheceu. Um em 1985 em Florença durante a temporada italiana dele. Outro em 1991 em Ribeirão Preto. Vamos chegar a esses dois miúdos porque um deles hoje é um homem adulto que ainda tenta que os Os tribunais brasileiros reconheçam o apelido do pai para ele.

 Em 1996, o Raí regressou de França, tinha jogado três temporadas no Paris Saint-Germain. era já um herói nacional, capitão do Brasil, campeão do mundo nos Estados Unidos em 94. O Pelé tinha-o abençoado publicamente como o herdeiro natural dele e voltou para o São Paulo para terminar a carreira onde tinha começado. E depois os dois irmãos, pela primeira vez desde 84, viviam na mesma cidade.

 O Raí, num apartamento moderno nos Jardins, um bairro rico de São Paulo. O Sócrates, numa casa modesta em Ribeirão Preto, a 3 horas de carro. Mas o raíjava todas as sextas-feiras à noite, chegava na casa do Sócrates às 11 e ficava até segunda-feira de madrugada. Toda a semana sem falta durante seis anos seguidos, entre 96 e 2002.

 Estas visitas não eram reuniões familiares, eram rituais. O raí levava uma bolsa de couro preta com as garrafas que sabia que o Sócrates ia beber nessa noite. Sabia que o whisky, que cachaça, que vinho. Sabia quando cortar o álcool e quando o deixar se servir mais. Conhecia-o como conhecia o próprio corpo. E enquanto o Sócrates bebia, o rai falava com ele, falava durante horas, fazia-lhe promessas e fazia-o lembrar do pacto que tinham assinado em 1979, quando o Raí tinha 5 anos.

 Em 2001, o Sócrates teve o primeiro colapso físico importante. Num sábado à noite, na casa dele em Ribeirão Preto, vomitou sangue, muito sangue, quase meio litro, segundo declarou o médico que o atendeu na urgência, Dr. Roberto Falabela. Era hemorragia digestiva alta, uma varizofágica rompida pela cirrose hepática avançada.

 O Sócrates tinha 47 anos, o fígado de um homem de 70 anos. internaram-no 10 dias, fizeram transfusões, ligaram varizes com endoscopia, pediram-lhe que deixasse de beber imediatamente ou ia morrer antes dos 50. Sócrates assinou a alta voluntária no dia 11. Saiu do hospital, pediu ao Raí, que o tinha acompanhado o tempo todo, que o levasse a um bar conhecido na Avenida Independência.

 Aí pediu a primeira caipirinha lentamente, sem pressa, e bebeu enquanto Raí olhava sem falar nada. Uma enfermeira do Hospital Santa Lídia de Ribeirão Preto, a Marta de Souza, declarou em 2014 para um jornalista do estado de São Paulo que naqueles 10 dias de internamento de 2001, o RAI entrava no quarto do Sócrates cada noite depois das 11 e que nas duas últimas noites levou uma coisa no casaco que tirou quando achou que ninguém estava a ver.

 A Marta viu pela fresta da porta. Era uma garrafa de bolso de metal. O Sócrates bebeu dessa garrafa na frente do irmão mais novo na cama do hospital, ligado no soro duas noites antes da alta. Entre 2001 e 2003, todos os acelerou. O Sócrates já não conseguia andar mais de três quarteirões sem se cansar. A barriga dele estava inchada pela aite, líquido acumulado no abdómen, com sequência direta da cirrose.

 A pele ficou amarela por momentos, os olhos ficavam com manchas vermelhas e mesmo assim, todas as noites às 9 da noite pegava na garrafa. E depois chegou março de 2003, o mês em que os dois irmãos se romperam. O que aconteceu na noite de 22 de março de 2003 em casa da dona Guomar, a mãe dos dois, em Ribeirão Preto, é um episódio que a família nunca contou em público.

 O Sócrates gritou para o Raí na frente de mais três irmãos e da mãe, uma frase que naquele momento ninguém entendeu. Falou: “Deve-me a minha vida inteira e vai pagar”. O raiz saiu da casa nessa mesma noite, dirigiu para São Paulo e não voltou a falar com o irmão durante 8 anos. O que foi exactamente que o Sócrates cobrou ao raí nessa noite? Porque o irmão mais novo devia-lhe a vida inteira? A resposta começa numa gravação que ficou guardada durante décadas num cofre de segurança de um banco de São Paulo.

 E aqui agora vai saber o que tem dentro dessa fita. A gravação do 18 de Setembro de 1984 existiu. Fez ela o jornalista Jacfuri, num apartamento da rua Augusta em São Paulo. A fita tem 3:20 de duração. O Sócrates fala: “O quefuri pergunta pouco. Em alguns momentos ouve-se um isqueiro, copos batendo, gelo.

 O Sócrates bebe isque durante toda a gravação. Nos primeiros 40 minutos, o Sócrates conta a chamada que recebeu na madrugada do dia 25 de de abril de 1984, depois de o Congresso ter rejeitado as eleições diretas. A voz ao telefone, segundo declara na fita, era de um coronel do exército brasileiro. Um nome que o Sócrates pronuncia na gravação, mas que o jornalista, por razões legais, riscou das transcrições que circularam anos depois.

 Esta voz falou para o Sócrates uma frase de três linhas. O Sócrates repete textual na fita. A voz falou para ele: “Doutor, já chega. A política acabou para você. Se não for embora do país antes de setembro, alguém da sua família vai aparecer no rio Tietê. Tenho três nomes preparados. Escolha você qual chora primeiro.

 O Sócrates, na fita, fala quais eram os três nomes que o coronel mencionou depois pelo telefone. O primeiro, a esposa Regina. O segundo, o pai Raimundo, que naquela hora tinha 64 anos e morava em Ribeirão Preto. O terceiro, o irmão menor Raí, que tinha 10 anos. O Sócrates na gravação chora quando chega nesse ponto.

 Se escuta que ele tapa a boca, que acende outro cigarro. Depois fala uma frase que arrepia: “Se tivessem nomeado a Regina, eu ficava para brigar. Se tivessem nomeado meu pai, também, mas nomearam o Raí. E o Raí eu não ia perder. O Raí não. Depois do que aconteceu em 1979, eu devia a vida pro Raí. Por que o Sócrates devia a vida pro irmão menor? O que tinha acontecido entre os dois em 1979, quando o Raí tinha 5 anos e o Sócrates tinha 25. A fita continua.

 O Sócrates conta. E aqui é onde a família durante 30 anos jurou que isso era mentira. Em agosto de 1979, em Ribeirão Preto, o Sócrates dirigia bêbado numa madrugada de domingo. Levava o Raí no banco do carona. O moleque tinha 5 anos. O Sócrates tinha tirado ele da casa dos pais sem avisar depois de uma briga com a Regina.

 estava indo para casa de uma mulher com quem ele tinha uma relação paralela, uma mulher chamada LDs, que morava num bairro do sul da cidade. Às 3:10 da madrugada do 14 de agosto, o Sócrates atropelou alguém com o carro dele, uma mulher de 32 anos que atravessava a avenida independência. A mulher morreu no lugar. O Raí, no banco do carona viu tudo.

Estava acordado, não chorou, ficou em choque. O Sócrates freou, desceu, viu o corpo, comprovou que estava morta e aí fez uma coisa que ia marcar ele para sempre. Voltou pro carro, dirigiu três quadras, ligou de um telefone público para um amigo da família, um advogado ligado ao Partido Democrata Cristão, e pediu ajuda. O advogado mexeu contatos.

A polícia chegou no lugar. O caso foi fechado como atropelamento com fuga, autor desconhecido. A família da mulher atropelada, gente pobre do norte do Brasil, gente de Belém precisamente, não tinha recursos para brigar. A mulher foi enterrada no cemitério municipal de Belém uma semana depois.

 Essa era a cova que o Sócrates foi se despedir em agosto de 1984, antes de ir paraa Itália, a cova da mulher que ele tinha matado 5 anos antes com o carro. Uma mulher cujo nome a gente não pode pronunciar ainda porque tem um filho que hoje é adulto e que nunca soube como a mãe morreu. O Raí, com 5 anos foi a única testemunha.

 O Sócrates fez ele prometer naquela mesma madrugada dentro do carro, antes de chegar em casa, que não ia contar para ninguém nunca. O moleque concordou >> e cumpriu. Cumpriu durante 32 anos, mas a gravação de 84 não acabou. Aí o Sócrates contou mais uma coisa nessa fita, uma coisa ainda mais escura, uma coisa que tem a ver com o que a família Vieira de Oliveira fez depois da morte dele em 2011, porque a família teve a fita, soube o que ela dizia, escutou cada palavra e o que decidiram fazer nos meses seguintes à morte do Sócrates é

uma réplica exata do que o pai Raimundo tinha feito em 1964 com os livros. Mas dessa vez não foi por medo dos militares, foi por uma coisa pior. Você vai saber o que a família fez com a fita. Você vai saber o que fizeram com os dois filhos não reconhecidos. Você vai saber o que aconteceu com a outra mãe, a do segundo filho, em 2013.

Você vai saber porque o Raí hoje, 8 anos depois da morte do irmão, continua aparecendo sorrindo nas fotos junto à cova do Sócrates, no cemitério de Ribeirão Preto. E você vai saber o que ele sussurrou exatamente naquela noite no hospital, porque a frase já posso contar, mamãe não está mais aqui para sofrer com isso.

 Não era o segredo completo, era apenas metade. Março de 2003, a noite em que os dois irmãos se romperam. tem que voltar nessa casa de dona Guomar em Ribeirão Preto e entender o que aconteceu exatamente, porque o que detonou essa briga não foi uma discussão qualquer entre irmãos, foi uma conta que o Sócrates tinha guardado durante 24 anos.

 Naquela noite, os seis irmãos Vieira de Oliveira estavam reunidos pelo aniversário de 78 anos da mãe. Comeram em silêncio. O Sócrates estava há 2 horas bebendo cachaça. O Raí, sentado no outro extremo da mesa, não tinha tocado em álcool. Estava há do anos sem provar uma gota. A carreira dele como executivo do futebol estava crescendo.

 Trabalhava em projetos sociais com a Fundação Gold Letra. que ele tinha criado com o Leonardo anos antes. Falava de educação, de moleques, de oportunidades. Às 11 da noite, o Sócrates se levantou, cambaleou, apoiou as duas mãos na mesa e olhou para o raí do outro lado e disse: “Na frente da senhora Guiomar, de 78 anos, na frente dos outros quatro irmãos.

 Você me deve a minha vida toda e vai pagar. Sabe o que fez. Sabe o que deixou acontecer e vai pagar por isso. O Raí ficou pálido, não respondeu. Dona Guiomar começou a chorar e pediu ao Sócrates que se sentasse. O Sócrates não sentou-se, dirigiu-se para a porta. Antes de sair, olhou outra vez para o Raí e acrescentou uma frase curta.

 Falou: “Carreguei o seu desde os seus 5 anos. Agora vai carregar-me até eu morrer.” Saiu, conduziu embriagado de volta para casa. E a a partir dessa noite, os dois irmãos não voltaram a falar. Mas o que o Sócrates quis dizer com eu carreguei o seu? Se a noite do atroplamento em 1979 foi o Sócrates que estava a dirigir Bêbado, foi o Sócrates que matou a mulher, foi o Sócrates que ligou para o advogado para abafar o caso.

 O que o Raí fez nessa noite com 5 anos, que pesava tanto na consciência do Sócrates 24 anos depois. A resposta é o que a gravação de 84 contém nos últimos 40 minutos e é o que vamos perceber agora. O Sócrates, na fita, depois de contar a ameaça do coronel e o atropelamento de 79, fala pro jornalista Jukakfuri uma frase que aparece transcrita nos apontamentos particulares do jornalista.

 Fala: Eu conduzia, atropelei, mas a decisão de não parar para ajudar ela foi do Raí. O meu irmão de 5 anos disse-me que eu seguisse o papá. Disse que eu seguisse e eu segui porque ele pediu. E desde então eu vivo com isso. A frase soa impossível. Um miúdo de 5 anos não decide uma coisa assim. Mas o Sócrates explica na fita.

 Conta que quando travou depois de atropelar a mulher, olhou para o raí e perguntou o que fazer. O Raí estava em choque. Não falava. O Sócrates repetiu a pergunta três vezes e na terceira o miúdo apontou com o dedo paraa frente e disse duas palavras: “Segue, papá”. Chamava o irmão maior de papá quando estavam sozinhos, porque a diferença de idades era tão grande que pro raí o Sócrates funcionava mais como figura paterna do que como irmão.

 O Sócrates obedeceu, dirigiu, não voltou. E esta decisão, a de não parar para socorrer a mulher atropelada, que ainda podia estar viva no chão da Avenida Independência, foi o que, durante o resto da sua vida destruiu-o. Porque os médicos-legistas, segundo consta no processo original do caso, determinaram que a mulher morreu por hemorragia, não pelo impacto, pela perda de sangue.

 Se o Sócrates tivesse ligado para uma ambulância da cabine pública, no lugar de ligar ao advogado, a mulher podia ter sido salva. O Sócrates carregou essa culpa durante 32 anos e durante todos os estes anos, em particular, repetiu pro Raí uma versão que ele próprio tinha construído para sobreviver. falou para ele que a decisão tinha sido do miúdo, que o miúdo lhe tinha falado seguir.

 E o Raik, com 5 anos, não lembrava-se bem se tinha dito isso ou não, acabou por acreditar e acabou carregando uma culpa que não era sua, uma culpa que o irmão maior tinha atirado em cima dele para não morrer ele primeiro. Essa foi a dívida da qual o Sócrates falava na quezília de 2003. Falava para o Raí, carreguei a sua decisão durante 24 anos. Agora carregas-me.

E o rei, durante os ito anos seguintes, cumpriu a pena em silêncio. Não falava com ele, não o via, mas pagava todas as contas médicas do Sócrates escondido através de um contador da família. pagava o hospital, os medicamentos, os exames, os internamentos cada vez mais frequentes, sem avisar, sem que o irmão soubesse.

 A Dona Guomar, a mãe dos seis irmãos, faleceu no dia 9 de fevereiro de 2011, aos 86 anos. No velório, o Sócrates e o Raí viram-se pela primeira vez em oito anos. Não se falaram, se cruzaram-se olhando para o chão. Dona Guomar foi sepultada no cemitério de Ribeirão Preto, na mesma sessão onde o Sócrates ia ser enterrado 10 meses depois.

 Esses 10 meses entre a morte da mãe e a morte do Sócrates foram os mais escuros da vida dele. Vivia numa casa alugada num pequeno povoado perto de Ribeirão Preto, com uma mulher 20 anos mais nova com quem tinha uma relação que a família desaprovava. Bebia duas garrafas de whisky por dia. Pesava 60 kg. A pele dele estava amarela permanente.

 A barriga inchada pela custava sentar. Em setembro de 2011, dois meses antes de morrer, o Sócrates foi visto pela última vez atirado para a rua. Foi no centro de Ribeirão, na esquina da Avenida São Sebastião, com a rua Álvares Cabral, às 14 horas de uma terça-feira, bêbado, mijado em cima, sem um tostão no bolso, sem ninguém que levantasse ele, um vendedor ambulante de mate reconheceu-o, ligou para a polícia.

 A polícia ligou para um irmão. O irmão que chegou para o ir buscar não foi o Raí, foi outro dos irmãos mais novos, o Sóstenis, que morava perto. O Sóstenes pôs-lhe dentro do carro. O Sócrates, no banco do boleia, disse uma única frase durante a viagem inteira. falou, “Chama o Raí, diz-lhe que eu já estou quase a terminar, que ele se prepare.

” O O Sóstenes ligou ao Raí naquela mesma noite de São Paulo, contou-lhe. O Raí não disse nada por um silêncio longo. Depois respondeu: “Quando ele entrar no hospital pela última vez, me avisem. Eu vou.” No dia 25 de novembro de 2011, o Sócrates deu entrada no Hospital Albert Einstein de São Paulo com uma hemorragia digestiva maciça.

Transportaram-no de ambulância de Ribeirão Preto. Estava inconsciente. Chegou ao hospital às 6 da manhã do dia 26.º Estabilizaram-no, internaram-no em terapia intensiva. Os médicos falaram com a família e foram diretos. Faltavam poucos dias para ele, semanas no máximo. O fígado estava colapsado, os rins começavam a falhar.

 Não tinha transplante possível. O Sócrates já não era candidato a nada. Naquela mesma tarde, alguém ligou ao Raí. O Raí saiu da sua casa, nos jardins, dirigiu-se até ao hospital e entrou por uma porta lateral, porque a imprensa já estava à entrada principal. Subiu para o andar da terapia intensiva, pediu autorização para entrar para ver o irmão.

 As enfermeiras deixaram-no passar. e sentou-se do lado da cama, mas não falou com ele não naquela primeira noite. Só olhou para ele durante duas horas e foi-se embora. Voltou no dia seguinte e no dia seguinte. Durante uma semana, o rei entrou cada noite no hospital Albert Einstein e sentou-se do lado do irmão moribundo, sem falar, só olhava para ele.

 Até à noite de dezembro de 2011. Esta noite foi diferente. Nessa noite, o Rai entrou com um envelope, um envelope grosso de papel pardo, que tinha guardado durante 10 meses desde a morte da mãe. E dentro desse envelope havia uma coisa que só dona Guomar tinha visto antes. Uma coisa que a mãe tinha entregue ao raí no leito de morte em fevereiro com uma instrução precisa.

 Não lhe mostre enquanto eu for viva, mas quando ele estiver para partir, dê-lhe isso. Ele tem direito a saber antes de morrer. Dentro do envelope que o Raí levou para o hospital naquela noite tinha três coisas. E as três são o que a família Vieira de Oliveira escondeu durante toda a vida do Sócrates e o que fez desaparecer depois da sua morte.

 A primeira coisa era uma carta manuscrita, quatro páginas escritas pela dona Guomar em 1980, um ano depois do atropelamento de Ribeirão Preto. A Dona Guiomar tinha sabido do atropelamento desde o início. O advogado que abafou o caso era primo dela. A mãe soube, calou-se e guardou a carta.

 Nestas quatro páginas, contava pro Sócrates a verdade do que tinha acontecido nessa noite, segundo a versão real, não segundo a versão que tinha metido na cabeça do Raí. Dona O Guiar tinha falado com o Raí quando o miúdo tinha 9 anos, tinha-lhe tirado com paciência de mãe, o que se lembrava realmente do atropelamento. E o Raí, com 9 anos, contou outra versão.

 Não tinha falado segue o papá. O que ele tinha falado, segundo a memória do próprio miúdo, quando começou a falar sobre isso, eram três palavras diferentes. Tinha dito: “Mamã, quero a mamã”. O miúdo não tinha pedido para seguir, tinha pedido pela mãe. Estava em choque, assustado, e a única coisa que repetia era que queria ver a mãe.

 E o Sócrates, no próprio pânico da madrugada, tinha escutado o que precisava de escutar para justificar a decisão que já tinha tomado. Tinha escutado uma autorização que o miúdo nunca deu. O Sócrates carregou durante 32 anos a ideia de que o Raí tinha-lhe dito para seguir. E o Raí carregou durante 24 anos. Desde a luta de 2003, quando o Sócrates jogou a dívida na cara dele, a ideia de que com 5 anos tinha sido capaz de enviar uma coisa daquelas, os dois irmãos viveram com culpas que não eram deles.

 O Sócrates com a culpa de ter obedecido a um miúdo. O Raí com a culpa de ter dado uma ordem que nunca deu. E Dona Guomar soube sempre e calou durante 31 anos, porque se falasse antes, dizia a carta, perdia os dois filhos ao mesmo tempo. O Sócrates ia morrer da culpa real. O raí ia morrer de saber que o irmão tinha mentido-lhe a vida toda.

 Enquanto a mãe estivesse viva, os dois se sustentavam na mentira que os unia. A segunda coisa que tinha no envelope era uma gravação. A fita original do Jukakfuri de Setembro de 1984. A fita que a família tinha dito durante 30 anos que não existia. A mãe tinha-a tinha tirado ao jornalista em 1985 depois de pagar uma grande quantia para -lo em troca do original e das cópias.

Dona Guiomar protegia o filho mais velho de longe. A terceira coisa eram fotografias. 10 fotografias. Uma mulher jovem, morena, com um bebé ao colo, tiradas em 1985 em Florença. E outra mulher diferente, com um miúdo de três ou 4 anos, tiradas em Ribeirão Preto em 1995. As duas mães, os dois filhos, os dois filhos que o Sócrates nunca reconheceu.

O rai abriu o envelope em frente ao irmão moribundo, tirou as três coisas, mostrou-lhe primeiro a carta. O Sócrates, que estava há 24 horas sem reagir, abriu os olhos, leu as duas primeiras linhas, fechou os olhos de novo, as lágrimas saindo em silêncio. O Raí leu-lhe o resto em voz baixa, debruçado sobre a cama, as quatro páginas completas.

 Depois aproximou a fita do ouvido dele e sussurrou: “Isto é a gravação. A mamã teve ela. Eu vou ter ela agora.” E mostrou-lhe as fotografias dos dois filhos. O Sócrates chorava sem abrir os olhos. Mexia os lábios sem som. E depois o Raí falou para ele a frase completa, a que o médico Bisacxion escutou pela frincha da porta. A frase inteira era esta: “Irmão, já posso contar.

 A mamã já não está aqui para sofrer com isso. E eu prometo para lhe que isso não vai vazar. Te prometo que vou queimar tudo quando partires. Como fez o papá com os livros, igual ao papá. Não te preocupes, vai tranquilo. O Sócrates abriu os olhos uma última vez, concordou com a cabeça muito lentamente e fechou-os de novo.

 Dois dias depois, às 4:1 da madrugada do dia 4 de dezembro de 2011, faleceu. O Raí cumpriu a promessa e cumpriu ela com uma precisão arrepiante. Em janeiro de 2012, um mês depois do enterro, os seis irmãos Vieira de Oliveira reuniram-se na casa que tinha sido da mãe em Ribeirão Preto. O raívou o envelope, tirou a carta à dona Guiomar, leu-a em frente dos irmãos, depois dobrou-a, levou-a para o quintal de trás, no mesmo quintal onde o pai Raimundo tinha queimado os livros em 64, e ateou fogo.

 A fita do Jukakfuri foi a segunda. Tirou-a da caixa, desenrolou-a inteira e queimou. As fotografias, uma por uma, as últimas. 50 anos depois do incêndio do pai, os filhos faziam o mesmo ritual. Mas desta vez não era por medo dos militares, era para proteger o apelido. Os irmãos choraram, nenhum se opôs. O Rai dirigiu tudo.

 Era o mais conhecido, o mais rico, o mais respeitado, o ídolo limpo do futebol brasileiro. Tinha a autoridade moral dentro da família para tomar essa decisão. Mas a queima da fita e da carta não foi a única coisa que a família fez. houve coisas piores, coisas que têm nomes, datas e consequências até aos dias de hoje.

 A primeira, os dois filhos não reconhecidos. O primeiro, nascido em Florença em 1985, filho de uma mulher italiana chamada Guia, que tinha trabalhado na equipa de imprensa da Fiorentina. Esse filho, hoje um homem de 40 anos que vive em Roma, tentou em 2014 que a justiça brasileira reconhecesse a sua paternidade.

 A família Vieira de Oliveira contratou o escritório de advogados mais caro de São Paulo. Bloquearam a solicitação durante 4 anos. O moço ficou sem recursos para seguir o processo. Hoje carrega o apelido da mãe. Nunca recebeu um real da herança de Sócrates. O segundo nasceu em Ribeirão Preto em 1991, filho de uma mulher chamada Cláudia, cabeleireira do bairro onde o Sócrates morava.

 A Cláudia manteve durante 20 anos a relação em segredo. Cobrava uma pequena mesada que o Sócrates passava para ela em dinheiro. O miúdo cresceu sabendo quem era o seu pai, mas sem nunca poder usar o apelido. Em 2013, 2 anos depois da morte de Sócrates, a Cláudia apareceu morta em sua casa. A polícia determinou suicídio em menos de 48 horas. fecharam o caso.

 O filho, que nessa altura tinha 22 anos, denunciou que a mãe estava a ser ameaçada por um intermédio da família Vieira de Oliveira, que lhe pedia para assinar um documento renunciando a qualquer futura reivindicação de paternidade. Essa queixa foi arquivada. O moço hoje vive em Goiás, não quer falar com a imprensa e a terceira, o Raí, o irmão, o campeão do mundo, o ídolo, o que hoje preside à Fundação Gold Letra, recebe medalhas de honra, da conferência sobre parentalidade responsável e educação para miúdos pobres. O mesmo Raí, que todo o

ano, no dia 4 de dezembro, aniversário da morte de Sócrates, vai ao cemitério de Ribeirão, deposita flores na cova do irmão, tira fotografias com os jornalistas e diz frases bonitas sobre o legado familiar. Essas fotos estão publicadas, qualquer um as pode ver. O Raío rindo, bem vestido, bem barbeado, junto à sepultura do homem a quem serviu a garrafa durante 20 anos para que não contasse o que sabia.

 A história oficial do Sócrates diz que morreu pelo álcool. E é verdade, morreu pelo álcool, mas o álcool foi a arma, não o algóz. O Algóz foi uma mentira que o Sócrates contou para si próprio na madrugada do 14 de agosto de 1979, quando interpretou as duas palavras de um miúdo de 5 anos como uma autorização.

 Uma mentira que depois ele meteu na cabeça do próprio miúdo quando ele cresceu. Uma mentira que os dois irmãos partilharam sem saber, cada um carregando uma culpa que não era dele durante três décadas. e uma mãe que soube de tudo e levou a verdade para cova para que os dois filhos não se destruíssem ao mesmo tempo. O Sócrates podia ter parado de beber muitas vezes.

Podia ter salvado o fígado em 2001, podia ter salvado o casamento. Podia ter reconhecido os dois filhos antes de morrer. podia ter escrito aquela carta que nunca escreveu e não fez porque em algum lugar profundo ele sabia que no dia que parasse de beber, no dia que a cabeça clareasse, ele ia ter que se confrontar com o que aconteceu naquela madrugada de agosto de 1979, sem a anestesia do whisky, e isso ele não suportava.

 O raí servia ele e o raí, na versão dele, estava ajudando o irmão, porque achava que o irmão precisava beber para não se confrontar com o monstro que carregava dentro. Achava que em casa estava cuidando dele, que se não fosse ele, alguém pior ia pegar ele na rua. achava que o álcool era a única forma do Sócrates conseguir continuar vivendo.

 E ao mesmo tempo, enquanto servia ele, enquanto cobria ele, enquanto tirava ele dos bares, enquanto pagava os hospitais escondido, ia matando ele devagar, cumpria um encargo silencioso, um encargo que os dois irmãos assinaram sem palavras naquela madrugada de 1979. O Sócrates se sacrificava para que o Raí pudesse ser limpo.

 O Raí acompanhava ele no sacrifício e a mãe olhava pros dois sem nunca poder falar para eles que a culpa que carregavam era dos dois, era de nenhum e era dela por calar. Isso não é uma história de futebol, é uma história de família. Uma dessas histórias que existem em cada casa do Brasil, do México, da Argentina, da Colômbia, da Venezuela.

 Histórias de irmãos que carregam segredos, de mães que calam para que a família não se quebre, de pais que preferem queimar o que amam a ver isso destruído. E de filhos que crescem sem sobrenome, sem nome, sem saber o porquê. Sócrates foi um gênio, foi capitão do Brasil, foi médico, foi intelectual, foi um dos homens mais respeitados do futebol mundial dos anos 80 e morreu aos 57 anos numa cama de hospital, com o irmão menor sussurrando no ouvido a promessa de queimar a verdade para proteger um sobrenome. Morreu acreditando que

merecia aquela morte. morreu carregando uma culpa que um moleque de 5 anos jamais pôde botar nos ombros dele. Uma culpa que ele mesmo se botou para conseguir viver com o que tinha feito. 20 anos de álcool, dois filhos sem sobrenome. Uma mãe morta em Belém em 1979, cujo nome pode ser pronunciado porque tem um filho adulto que ainda não sabe como ela morreu.

 Um irmão campeão do mundo que carrega uma mentira alheia. Uma mulher enterrada em 2013 com um caso fechado em 48 horas. Uma gravação queimada, uma carta queimada. 10 fotografias queimadas. Uma biblioteca de 1964 que voltou 50 anos depois em forma de fogueira familiar. Essa é a história que a imprensa nunca contou, a história que os biógrafos não quiseram escrever.

 A história que os amigos do Sócrates, os companheiros do Corinthians, as testemunhas da Copa de 82, preferem não lembrar quando aparecem nos documentários. Porque contar isso é quebrar a imagem do intelectual rebelde, do médico filósofo, do capitão que mudou o futebol. E ninguém quer quebrar isso. Convém mais o ídolo limpo do que o homem real. Mas hoje você sabe.

 Hoje você sabe quem colocava a garrafa na boca dele. Hoje você sabe quem estava naquele hospital. Hoje você sabe o que a família fez com os papéis, com a fita, com os filhos, com as mães. Hoje você sabe que a história do Sócrates não é a história de um homem que se matou bebendo. É a história de uma família que se sustentou numa mentira durante 32 anos e que quando já não conseguia mais sustentar botou fogo nas provas.

 Pensa na sua própria família essa noite. Pensa nos segredos que se guardam na sua casa, na casa dos seus pais, na casa dos seus irmãos. Pensa nas coisas que nunca se falam na mesa do Natal, nas coisas que sua mãe levou pra cova ou vai levar logo, nas coisas que você mesmo carrega e nunca contou para ninguém. Pensa nos filhos que em alguma casa de algum bairro crescem sem saber quem é o pai, porque para alguém convinha calar.

 Pensa nos irmãos que se sustentam, que se cobrem, que se destróem sem perceber. Pensa no que seu pai queimou alguma vez no quintal de trás para te proteger e no que você vai queimar no dia que ele já não estiver. O Sócrates morreu, acreditando que merecia a morte que teve. Essa foi a maior tragédia. Mais que o álcool, mais que os filhos não reconhecidos, mais que a mulher atropelada, mais que a gravação queimada, morreu convencido de que era justo, como naquele pênalti contra a França em 86, quando sentou no círculo

central do estádio Jalisco e repetiu três vezes sem que ninguém escutasse. É justo, é justo, é justo. Não era justo, nunca foi. Mas já não há ninguém vivo que lhe possa dizer isso. Se essa história tocou-te alguma fibra, se fez você pensar em alguém do seu próprio sangue, em algum silêncio que lhe carrega, em alguma mentira que ficou guardada demasiado tempo na sua família, se subscreve o canal, segue Estrelas Caídas, porque as histórias que ninguém têm coragem de contar são as que mais precisamos de escutar para perceber de que

maneira somos feitos. E partilha esse vídeo com aquela pessoa em quem se pensou enquanto escutava. Aquela pessoa que sabe quem é. Liga-lhe essa noite, antes que seja tarde, como foi tarde para o Sócrates. Iso.

 

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