história de Susana Vieira não é apenas a crônica de uma das atrizes mais longevas e talentosas da televisão brasileira; é um manifesto vivo sobre a recusa em se submeter às expectativas que a sociedade impõe às mulheres, especialmente àquelas que avançam em direção à maturidade. Com uma carreira que teve início oficial em 1962, Susana atravessou décadas, viu a televisão brasileira se transformar em múltiplas frentes, desde a tecnologia de transmissão até os formatos de dramaturgia, e permaneceu, de forma quase ininterrupta, no centro das atenções.
Nascida Sônia Maria Vieira Gonçalves, em 1942, a trajetória de Susana começou muito antes de suas aparições triunfais na tela da Globo. Filha de um diplomata, sua infância e adolescência foram marcadas por mudanças constantes de país — vivendo em lugares como Buenos Aires, Montevidéu e Londres. Esse cenário cosmopolita e multilíngue formou uma jovem adaptável, alguém que, precocemente, aprendeu que a identidade é algo que se constrói e que a “persona” pública é uma ferramenta poderosa. O próprio nome artístico, emprestado de sua irmã, a atriz argentina Susana Gonçalves, ilustra essa consciência de construção de imagem que sempre a acompanhou.
No entanto, o que torna a biografia de Susana tão intrigante não são apenas seus números monumentais — mais de 60 anos de carreira —, mas o que existe nos bastidores desse sucesso. Ao olhar para trás, aos seus 83 anos, ela não se furta de tocar em pontos delicados com uma honestidade que beira o desconcertante. Sua relação com a maternidade, por exemplo, é um desses temas. Em entrevistas, ela admitiu, com uma clareza que raramente vemos em celebridades de seu calibre, que viveu intensamente em função de seu trabalho, pagando um preço alto: o tempo ausente no crescimento de seu único filho, Rodrigo. Não há desculpas ou justificativas baratas; há o reconhecimento de uma escolha feita, uma entrega quase total à profissão que a tornou um nome indissociável da cultura popular brasileira.
Essa entrega ao trabalho reflete uma ética que Susana nunca tentou mascarar. Ela sempre defendeu a importância de estar ativa, de não recusar papéis e de entender a atuação como uma profissão constante, não uma busca intermitente por glória. “Eu quero ser empregada, quero ter meu peru no Natal”, afirmou em diversas ocasiões, desmistificando o glamour de ser uma estrela e colocando a própria profissão em um patamar de dignidade prática.

No campo afetivo, a vida de Susana é um mapa de experimentações e, muitas vezes, de tempestades públicas. Com quatro casamentos no currículo, ela viveu de tudo: desde uma união longa de quase duas décadas com o empresário Kon Gardeazabal, até relacionamentos marcados por turbulência e uma tragédia que, até hoje, ela prefere manter sob o manto do silêncio. Em 2008, o falecimento de seu ex-marido, o policial militar Marcelo Silva, foi um evento traumático exposto pela mídia, mas sobre o qual a atriz escolheu não oferecer detalhes. Esse silêncio é, paradoxalmente, uma de suas declarações mais contundentes. Em um mundo que exige exposição constante, Susana reivindica o direito de guardar para si aquilo que não deseja partilhar, e essa escolha, longe de ser evasiva, é um sinal de autonomia.
A capacidade de Susana de seguir em frente é, talvez, o traço mais admirável de sua personalidade. Em 2009, apenas um ano após o fim de um casamento conturbado, ela estava novamente disposta a novos capítulos. Essa atitude diante da vida amorosa, que gerou manchetes e julgamentos sociais, nunca foi contida por ela. O episódio em 2015, quando beijou um advogado de 26 anos, ou a história de que beijou um juiz no dia do casamento do próprio filho, mostram uma mulher que não se deixa confinar aos papéis sociais que determinam como uma mulher com mais de 70 ou 80 anos deve se portar. Mais impressionante ainda é o apoio público que recebeu de seu filho, Rodrigo, que vê nessa liberdade da mãe não algo de que se envergonhar, mas um direito legítimo de alguém que deseja aproveitar a vida.

Além dos palcos e das polêmicas, a vida de Susana também foi atravessada por desafios biológicos profundos. Em 2015, no auge de sua visibilidade, recebeu o diagnóstico de leucemia linfocítica crônica, uma doença incurável que afeta o sistema imunológico. Pouco tempo depois, descobriu também uma anemia hemolítica autoimune. Enfrentar essas doenças, somadas à pandemia de Covid-19, exigiu anos de quimioterapia e uma resiliência que deixou até mesmo seus médicos intrigados. Sua resposta ao diagnóstico — perguntar, com uma curiosidade quase pragmática, como algo não poderia ter cura — reflete sua visão de mundo: Susana nunca se viu como uma paciente passiva. Ela seguiu trabalhando, mantendo sua rotina, cuidando da saúde com a disciplina necessária, mas recusando-se a permitir que o diagnóstico definisse sua identidade.
Atualmente em remissão, ela encara a vida com uma paz que, segundo ela, parece ser uma dádiva divina após tantas batalhas. Sua rotina inclui cuidados simples, exercícios e uma dieta sem restrições radicais, reforçando que sua longevidade e vigor não vêm de fórmulas milagrosas, mas de uma aceitação serena e uma vontade inabalável de permanecer presente.
Susana Vieira, portanto, ocupa um lugar único na cultura brasileira. Ela é uma testemunha viva da evolução da nossa televisão, mas é, acima de tudo, uma mulher que, ao longo de seis décadas, decidiu ser o roteirista de sua própria vida. Quando a sociedade tentou empurrá-la para o silêncio, para o papel de “avó invisível” ou para a resignação, ela respondeu com trabalho, paixão e uma autenticidade que, mesmo quando incompreendida, jamais passou despercebida. Ela é um lembrete constante de que a vida, em todas as suas fases, merece ser vivida sem pedidos de desculpas, com coragem, falhas, aprendizados e, sobretudo, com a liberdade de ser, a cada dia, quem ela realmente deseja ser.
Ao lançar sua biografia, Susana não apenas revisita momentos icônicos, mas reafirma sua relevância. Ela não é um ícone da nostalgia; ela é uma figura contemporânea, alguém que entende as novas formas de comunicação e que continua a ser notícia porque, ao contrário da maioria, ela nunca parou de viver verdadeiramente. Susana Vieira nos ensina que o segredo de uma vida longa não está na ausência de problemas, mas na forma como decidimos enfrentá-los: com a cabeça erguida, o sorriso no rosto e o desejo inesgotável de começar, mais uma vez, um novo capítulo.