Tia Val: A MÃE de um TR4FICANTE que ENTREGOU 12 POLICIAIS para o C.V no RIO
Nome: Valéria Nascimento da Silva, mais conhecida por tia Val, nasceu e cresceu na vila Cruzeiro, zona norte do Rio de Janeiro. Foi esposa de um polícia civil nos anos 80 e mãe de um único filho, Fábio, que acabou por se tornar soldado do tráfico local. Durante anos, ela sustentou a casa vendendo marmitas pro monte e até para a viatura.
Nunca se meteu, nunca questionou, mas observava tudo, de quem subia armado até quem saía com envelope no bolso. Em 1991, o marido desapareceu depois de ser acusado de passar informação. Em 1997, foi a vez do filho aparecer morto. A polícia não investigou, a imprensa ignorou, mas ela percebeu a mensagem e decidiu responder.
Só que à maneira dela, em silêncio, um por um. Dizem que a tia Valinou mais de 12 membros da maior fação criminosa do Brasil. Mas antes de continuar com o vídeo, deixe um comentário a dizer de onde estás e que horas são aí. E não se esqueça de subscrever o canal. O sol tinha rachado o céu direito e a aldeia cruzeiro já estava acordada.
Não pelo ruído, mas pelo silêncio. Um silêncio estranho que pesa no ar. A rua principal, que normalmente amanhecia com rádio alto, riso de vapor e gritaria de criança, hoje estava muda. Só se ouvia o arrastar lento do chinelo da tia Valindo à ladeira com o seu esferovite. Quem conhece o monte sabia.
Quando ela subia, sem dizer bom dia, era sinal de luto, mas não um luto qualquer. Era aquele tipo que não se chora em público, que se guarda na carne e que mais cedo ou mais tarde volta. Não como lágrima, mas como sentença. A Tia Val tinha fama de cozinheira, a melhor da região. Alimentava-se desde a boca de fumo até ao berço do morador.
Havia comida para tudo, para acalmar, para fortalecer, para consolar. Mas naquele dia o tempero era outro. Nessa terça-feira, a marmita levava arroz, feijão, frango com quiabos e farofa, mas levava também uma mensagem não escrita, não falada, uma mensagem que ia ser servida quente, directamente no coração da facção. Dois dias antes, encontraram o corpo do Fábio na lixeira da Penha.
Fábio, o seu único filho, cria do monte, respeitado, disciplinado, nunca foi de vacilação, nunca tirou onda em cima de um morador, nunca se meteu em guerra por vaidade, só fazia o corre dele, mas mesmo assim apareceu amarrado, espancado, atirado para o meio do lixo, com uma folha colada no peito. X9 morre como rato.
O Fábio não era dedo duro, era soldado. Sabia a hora de se calar, mas também sabia demais. estava a anotar nome, placa, horário. Sabia quem era polícia de verdade e quem era apenas funcionário do dinheiro. A Tia sabia disso porque foi ela quem o criou para ver as coisas do jeito certo. Antes de ser mãe de bandido, foi mulher de um polícia e conhecia cada olhar torto, cada conversa atravessada, cada silêncio que fala mais do que grito.
Sabia quando a farda escondia bandido. E o Fábio também sabia. Subiu o monte com o esferovite às costas. Não compressa, com propósito. A ladeira parecia mais íngreme naquele dia, mas ela não sentia cansaço, sentia raiva. Uma raiva fria, controlada. O tipo de raiva que não rebenta, ela planeia. Quando chegou à boca, os olheiros deram passagem sem dizer nada.
Um deles tentou soltar um bom dia, mas engoliu o resto da frase quando viu o rosto dela. Não era dor, era decisão. O chefe de área a recebeu na varanda. Jovem, armado, mas respeitoso. Sabia quem era a tia Val. Sabia que ela tinha mais moral no monte do que muito gestor. Tia Val, sinto pelo Fábio. Ele tentou começar. Ela levantou a mão, cansada de ouvir mentira.
Trouxe a tua comida, está tudo aí, mas desta vez há mais. Ela abriu o esferovite, tirou a tampa de uma das quentinhas e por baixo da farofa puxou um papel dobrado. Entregou sem dizer nada. Leu, a expressão endureceu. Isto aqui é verdade? Está escrito com a letra dele. Isso aí é o primeiro nome dos 12. 12 fardados. Gente que vende informação, que protege carga, que ganha dois salários e ainda quer mais.
Gente que matou o meu filho para se calar. O chefe ficou em silêncio. O rádio do lado dele xiava baixinho, mas ninguém teve coragem de interromper. E o resto da lista? Ele perguntou. está comigo, mas só entrego se prometeres-me que vai ser no tempo certo. Nada de desespero. Cada um deles vai cair como o Fábio caiu sozinho.
Com medo, sem honra. O chefe assentiu, queimou o papel ali mesmo na boca do fogão da cozinha improvisada. O cheiro do fumo misturou-se com o da comida. Na descida, a tia Val passou pelos mesmos meninos. Um deles perguntou: “Está leve hoje, tia?” Ela olhou por cima do ombro e respondeu: “Só estou mais vazia”.
Naquela noite, o cabo Marcelo desapareceu, um dos nomes da lista. Dois dias depois, encontraram o corpo dentro de um carro queimado à entrada da Avenida Brasil, sem rosto, sem impressões digitais, mas com um pedaço da farda ainda em chamas. No morro ninguém comentou, mas quem viu tia Valinte entendeu.
O primeiro já foi, faltam 11. Antes de se tornar número no lixeira da Penha, Fábio era apenas mais um miúdo, atravessando os becos da aldeia cruzeiro com chinelo no pé e fome no olhar. Não fome de comida, que a tia Val sempre deu, mas fome de nome, de espaço, de respeito. Cresceu a ver os irmãos da rua desaparecendo aos poucos, um na fundação, outro na vala, outro fugido.
E ele ali, sempre quieto, sempre observando. Nunca foi de arranjar confusão, mas também nunca baixou a cabeça. A Tia Val tentava segurar do jeito dela. Criou o filho sozinha depois de o pai desapareceu numa história mal contada com o batalhão. Dizem que foi transferido. Outros dizem que foi apagado.
Ela nunca explicou. Só dizia: “Homem que se vende morre duas vezes”. A infância de Fábio foi feita de prato fundo e lição na palma da mão. A Tia Val era linha dura, não deixava faltar comida nem cobranças. Quando os outros meninos ganhavam presente do Dia da Criança, Fábio ganhava dicionário. Palavra também é arma, ela dizia e ele compreendia.
Mas o morro tem uma maneira de engolir até quem sabe nadar. Quando fez 15, Fábio começou a trabalhar como entregador para um mercadinho da favela. Emprego honesto, mas salário curto. Viu o primeiro fuzil de perto quando teve de atravessar um beco durante uma troca de tiros. Não correu nem tremeu, apenas olhou.
Um dos vapores viu aquilo e comentou com o gerente: “O miúdo tem sangue frio. Não demorou. Chamaram-no para fazer contenção. Primeiro dia ganhou R$ 200 em uma noite. Aquilo era mais do que o mercado pagava no mês inteiro. Val desconfiou logo. Sentiu pelo cheiro da roupa, pelo cansaço que não combinava com arroz embalado.
“Você entrou nessa vida?”, perguntou ela sem levantar o tom. “Estou a tentar ajudar, mãe. Só isso. Ela não discutiu, apenas olhou para o olho dele. Portanto, ajuda certo, seja firme e se for para cair, que caia de pé. O Fábio subiu rápido, não porque fosse violento, mas porque era lúcido. Não usava, não ostentava, não se perdia.
Pegava na parte dele e guardava. Ajudava a mãe, comprava material para a escola dos filhos da vizinhança, dava um cesto à viúva do ex-companheiro de guerra. Era respeitado de verdade, mas o respeito também chama a atenção. E foi nesta que começou a ver o que não devia. começou a reparar nos carros que subiam de madrugada com giroflex apagado, nos sorrisos cúmplices, nos avisos antecipados de operação, na proteção seletiva, começou a anotar. A Tia descobriu sem querer.
Um dia, a limpar o quarto, encontrou um caderno escondido dentro do forro do travesseiro. Ali, nomes, horários, alcunhas, tudo com uma letra firme de quem não só viu, de quem sabia o peso do que estava a escrever. Que é isso, Fábio? Seguro. Se um dia me fizerem calar, pelo menos saberá por ela quis rasgar, queimar, deitar fora.
Isso aí é a tua sentença, menino. E o teu escudo. Se eu desaparecer, mostras isso a quem tem que ver. Mas não agora, ainda não. Ela guardou, não disse mais nada. Na semana seguinte, apareceu com o rosto machucado. Disse que tinha escorregado. A Val não perguntou, apenas pegou o gelo, lavou o sangue e serviu sopa, mas no olhar dela já sabia.
A guerra tinha começado. A última vez que se falaram foi num domingo. Ele apareceu mais cedo, trouxe flores e sentou-se na varanda. Ficaram em silêncio um pouco. Depois disse: “Se eu cair, não chores não. Cair como?” “Da maneira que o homem cai, porque viver já não estão deixando”. Ela tentou interromper, ele cortou. “Eu não quero morrer, não, mãe.
Mas se acontecer, que seja com o nome limpo. Nessa noite, a tia Val dormiu mal. sonhou com o barulho de passos correndo na laje, com sirene, com grito abafado. Dois dias depois, o corpo do Fábio estava no lixo, mas a história dele só estava a começar. Agora, o meu filho, vai haver volta. Palavra de mãe. O caderno não tinha uma capa chamativa, era velho, encardido, daquelas marcas baratas de retrosaria.
Mas o que estava escrito no interior podia derrubar um batalhão inteiro, literalmente. Tia passou a primeira semana depois do funeral do Fábio sem abrir a boca. Não chorou, não gritou, não foi em nenhuma roda de consolação, só ficava sentada na varanda olhando a rua com o olhar de quem estava a costurar alguma coisa por dentro.
Foi só ao oitavo dia que ela entrou no quarto dele e começou a vasculhar. Encontrou o caderno exatamente onde disse que estaria, num fundo falso do armário, atrás de uma tábua solta, o mesmo caderno, a mesma letra, os mesmos nomes, mas agora com mais detalhes. Ali não era só anotação, era investigação. O Fábio tinha feito o que ninguém teve coragem de o fazer.
Colocou o preto no branco, quem era quem na engrenagem suja que fazia a guerra parecer caos. quando na verdade era negócio. Tinha o nome de um soldado no ativo, de oficial do batalhão da área, de investigador da civil, até nome de político local que mandava recado por rádio comunitário. Tudo ali organizado por apelido, função e o mais grave, valor.
A Tia respirou fundo, pegou numa saco, colocou o caderno dentro de um grosso livro de culinária e escondeu no fundo do velho fogão que ela mantinha fora de uso desde os tempos do marido. Ninguém ali mexia, era o esconderijo perfeito. Ela sabia que aquele caderno era mais do que prova, era uma arma. E como toda a arma precisava de munições e direção, a hipótese surgiu numa tarde abafada, quando um dos gerentes da parte alta mandou recado.
Há gente de cima querendo falar contigo. Gente que não aparece, gente que resolve. A Val foi de lenço na cabeça, sandálias no pé e a saco no braço. Subiu a viela como quem vai à missa. Mas por dentro era tribunal. Chegou a uma casa que parecia abandonada, só que por dentro era outro mundo. Ar- condicionado, mesa de vidro, dois telemóveis satélite ligados, três homens. Nenhum armado amostra.
Mas o maneira de falar era de quem não precisava levantar a voz. “A senhora trouxe o que queremos?”, perguntou-lhe do meio, sem olhar diretamente para ela. Ela sentou-se lentamente, tirou o livro de receitas da bolsa, abriu na parte falsa e puxou o caderno. Trouxe, mas não é troca, é pacto.
E o que é que a senhora quer? Devolução. O meu filho morreu porque ameaçou a engrenagem de vocês. Mas quem mandou matar não foram vocês, foram eles de farda. Quero ver cada um deles cair. Um silêncio de chumbo tomou conta do ar. O homem do canto levantou-se, foliou o caderno, parou numa página, leu um nome em voz baixa e riu sem humor.
Esse aqui, este comeu-nos na mão por anos, agora vai pagar. O da frente voltou o olhar para ela. A senhora tem mais cópia disso? Não, mas sei cada nome de cabeça e ainda tenho mais informação. Morada, rotina, quem leva propina no cartão, quem recebe carro, quem desaparece com arma apreendida. O homem fechou o caderno, encostou-se ao peito e falou: “Isto aqui muda o jogo, mas não pode ser agora.
Se for muito rápido, vão desconfiar. Tem de ser na sequência. Um por um, como formiga no açúcar”. Ela assentiu. “Dizem-me só quem vai primeiro e se quiserem a minha ajuda, eu dou. Eu conheço todos. Sei onde comem, onde dormem, quem são as esposas”. À saída, uma das figuras encostou-se a ela. “Dona Val, se a senhora quiser parar, este é o momento. Depois daqui não há volta a dar.
” Ela olhou-o no fundo dos olhos e disse: “Depois de matarem o meu filho daquela maneira, morri junto. O que tá andar aqui é só o que sobrou. Naquela noite, foi enviada uma mensagem para um número reservado. Só dizia: primeira passo validado: confirmar rotina do cabo M. O cabo M era o primeiro da lista. O mesmo que Fábio anotou a vermelho, o mesmo que sorria para Val, fingindo ser amigo.
Agora o jogo estava virando e o caderno era o guião da vingança. A guerra silenciosa tinha começado. Naquela quinta-feira, o céu estava pesado sobre a vila cruzeiro. Nuvinza, calor abafado e um clima de coisa prestes a explodir. A notícia da morte do cabo M já se tinha espalhado pelas favelas vizinhas, mas ninguém falava o nome.
Só diziam: “O primeiro já foi e quem entendia, entendia”. A tia Val acordou antes do galo, fez café, colocou mais duas colheradas de açúcar, do maneira que o Fábio gostava, e ficou parada à janela, olhando o horizonte. Sabia que o que vinha agora já não era só dor, era consequência. Por volta das 10, o recado chegou.
Hoje às 3, no ponto cego. O ângulo morto era uma casa antiga, no meio do mato, atrás da pedreira, onde nem helicóptero passava e o sinal de rádio morria. Só ia quem tinha nome e Val tinha agora. Ela foi sozinha, sem saco, sem caderno, só ela e o que carregava por dentro. Lá não tinha trincheira, não tinha espingarda de amostra, mas o ar era espesso, um cheiro a cimento húmido e cigarro queimado.
Na sala, três cadeiras, uma ocupada, as outras duas esperando. O homem sentado não era gerente, nem olheiro, nem chefe de ponto. Era outro tipo. Usava camisa polo, relógio caro e falava baixo, mas o peso da sua presença dava para sentir no osso. “Dona Val”, acenou com a cabeça. “Senta-te, por favor.” Ela sentou-se. Não lhe perguntou o nome, nem ele o dela. Não precisava.
A senhora sabe com quem é que está a lidar, né? Se eu tivesse medo de nome, não estava aqui. Ele sorriu frio. O primeiro foi entregue, como prometido, mas a senhora agora faz parte. E quem faz parte já não sai. A Val não desviou o olhar. Eu não entrei por vingança, Entrei por justiça. À minha maneira, ele fez um gesto com a mão.
Outro homem entrou mais novo. Tatuagem no pescoço. Entregou um envelope. Aqui tem a próxima rotina. Nome, morada, trajeto de trabalho, horários. É o número dois da a sua lista. Tá certo. Val abriu, leu, confirmou com um gesto. Esse jantou em minha casa quando o Fábio nasceu. Levei bolo no aniversário da filha dele. Agora vai haver bolo de luto.
O homem da Polo fez sinal ao rapaz para sair. Quando ficaram sozinhos, disse: “A senhora entende que a partir daqui tudo o que for feito tem de parecer um acidente? Nada escancarado, nada que suscite suspeita de guerra interna. Já sei como fazer. Este tem amante em Cordovil. Fábio tinha anotado. Vai cair no percurso.
Mas não agora. Espera arrefecer. Duas semanas. Ele sentiu-a satisfeito. A senhora tem cabeça e sangue frio. Por isso, vamos-te dar acesso. Acesso a quê? Rádio nosso. Frequência limpa. Se precisar de mandar recado, só dizer. A Madrinha chegou. A partir daí vão ouvir-te. Val respirou fundo. A ficha estava a cair.
Agora ela era mais do que uma mãe em luto. Era peça no jogo e não das pequenas. E se correr mal? Ela perguntou. O que a senhora acha? Silêncio. A senhora morre, mas o seu nome vive igual ao do Fábio. Ela levantou-se, ajeitou o lenço e disse: “Não estou preocupada com o meu nome. Estou preocupada com os nomes que ainda estão respirando e não deviam”.
À saída, o rapaz da tatuagem abriu o portão. Antes dela passar, disse: “O respeito é pouco para o que a senhora tá a fazer. Só não esquece. O diabo também paga caro aos manter o silêncio. A Tia Val não respondeu, só desceu o monte de cabeça erguida. Agora, ela não era apenas a mãe de um soldado morto, era a madrinha da retalhação.
E o próximo da lista já estava marcado. O corpo apareceu de manhã cedo, antes do sol rasgar o céu dentro de um carro queimado à entrada da Avenida Brasil. Tudo irreconhecível, menos o crachá derretido, colado no bolso da camisa chamuscada. Cabo M. A perícia tentou dizer que era um assalto, que o carro foi furtado e incendiado logo depois. Mas quem estava atento sabia.
Aquilo não era um assalto, era um recado. Recado limpo, preciso, com assinatura invisível. Na penha, os rádios silenciaram, o movimento diminuiu. Nem as motos desciam à encosta como antes. Estava no ar, o cheiro da retalhação e ela vinha quente. Na cozinha da tia Val, a panela de pressão chiava alto, arroz no lume, carne no tempero.
A rotina seguia como se nada tivesse acontecido. Mas quem olhava para ela via outra coisa, um olhar vazio, mas firme, como quem sabia que aquele era apenas o primeiro de uma sequência. Um miúdo bateu no portão com um envelope nas mãos, sem uniforme, sem olhar diretamente. Disseram para entregar à senhora. Ela abriu no interior uma foto do corpo do cabo M.
Ainda no banco do carro junto, um papel com uma frase escrita à mão. Pagamento recebido, próximo em preparação. Val guardou o envelope no fundo do armário e voltou para o fogão. Não sorriu, não chorou, só falou baixinho. Faltam 11. A notícia espalhou-se rápido. No batalhão, o clima era de tensão.
Uns falavam em guerra de facções, outros em acerto interno. Mas os mais velhos sabiam que aquilo era diferente. O cabo M tinha muitos podres e muita proteção. Para cair daquela maneira, era preciso alguém com acesso, alguém que sabia onde, quando e como. Um dos tenentes puxou um dossiê. Nele, anotações do Fábio feitas meses antes.
Um colega de serviço viu e comentou: “Este miúdo sabia demais. Sabia. E agora parece que alguém está usando o que sabia. Acha que eu não acho nada? Mas se for quem eu estou pensar, é melhor rezar para não estar na lista. Na comunidade, a movimentação mudou. Menos rondas da polícia, mais cuidado nos becos. Os mais antigos diziam que era como nos anos 80, quando tudo se resolvia às escuras e ninguém falava nada.
Mas entre os que sabiam, um nome começou a rodar baixinho, a tia Val. Ela não pediu isso. Nunca foi de querer palco, mas nessa semana tornou-se um ponto de silêncio. Quando passava, os miúdos baixavam a cabeça, as mulheres paravam de conversar, até os vapores davam passagem. Numa noite abafada, enquanto arrumava a cozinha, o rádio a pilhas chiou. Uma voz conhecida veio.
Madrinha chegou, confirma mensagem recebida, aguardando validação do próximo nome. Ela pegou no rádio com calma, premiu o botão e disse: “O próximo é aquele que levou o meu filho para o primeiro turno, aquele que jurou que ia cuidar dele. Quero-o. Silêncio na linha. Depois uma resposta seca. Entendido? Monitorização iniciada.
Na madrugada seguinte, a casa do segundo nome da lista foi cercada por homens desconhecidos. Não eram da zona, não eram do monte, mas sabiam onde pisar. Ele não morreu nessa noite. Ainda não, mas percebeu o recado. O tempo dele estava contado. E no coração da aldeia Cruzeiro, sem alarido, sem Sirene, tia Val riscava mais um nome na memória.
O primeiro caiu, o segundo já treme. Faltam 10. O nome dela começou a circular devagar. Primeiro como boato, depois como suspeita e por fim como alvo. Nos bastidores do batalhão, entre um turno e outro, surgia uma questão sussurrada. Quem está por trás das quedas? Três nomes do ativo já tinham caído em menos de dois meses.
Um queimado, outro desaparecido, o terceiro abandonado com um bilhete dentro da farda. Os três tinham uma coisa em comum. estavam na lista do Fábio, só que isso ninguém sabia ainda. No 16º BPM, um sargento puxou uma cópia antiga da queixa arquivada que o Fábio tentou fazer anonimamente, meses antes da morte. As anotações batiam certo com os nomes dos que estavam a cair.
O sargento murmurou: “Há aqui dedo de sangue nisto e tem mais nome para riscar”. Foi aí que apareceu o nome dela. Primeiro num relatório interno, depois num áudio interceptado. O recado era curto, seco. A Madrinha chegou. Confirmado o próximo nome. Um analista da inteligência escutou e reconheceu a voz. Começaram a puxar histórico.
Procuraram CPF, RG, auto de notícia, mas não acharam nada demais. Oficialmente, a tia Val era uma senhora de 58 anos, viúva, cozinheira comunitária. Nenhuma passagem, nenhuma denúncia. Um fantasma, mas um fantasma perigoso. Na favela começaram a notar que ela já não era apenas respeitada, era temida. Os vapores já não a cumprimentavam com um sorriso.
Os gerentes já não mandavam buscar marmita, iam buscar pessoalmente. E quando ela passava, ninguém mexia. O silêncio era reverência e medo. Só que do outro lado do muro, a máquina também se mexia. Um capitão da Corregedoria pediu acesso a arquivos antigos do Batalhão da Penha. Achou algo curioso. Uma ocorrência de 1991 sobre um polícia civil que desapareceu após ser acusado de passar informação paraa facção.
Nome do agente Roberto Vieira, marido de Valéria Nascimento. Tia Val. O sangue do capitão gelou. Puxa tudo a esta mulher, família, contactos, histórico. E atenção, se ela reapareceu agora, tem razão. Na aldeia ela sentiu a mudança. Sentiu quando passaram duas vezes de viatura na rua dela, coisa que não acontecia havia anos.
Sentiu quando viram o rádio comunitário a chiar com frequência estranha. Sentiu quando o mototáxi que levava sempre marmita desapareceu sem dar explicação. Ela sabia o que aquilo significava. O ciclo estava a voltar e desta vez ela estava no centro. Foi nessa noite que um barulho seco na janela acordou-a. Um envelope atirado, sem remetente. No interior uma foto antiga.
Ela e Roberto, o ex-marido, sorrindo num churrasco com o Fábio ainda criança no colo e uma frase no verso. Alguns mortos sabem demais. Val pegou na foto, rasgou-a com calma e queimou no lava-loiça da cozinha. Depois ligou o rádio e disse: “Madrinha, aqui estão a farejar? Mas eu já estou habituada a enterrar passado.
Do outro lado da linha. A resposta veio com voz firme. Se precisar de desaparecer por uns dias, a gente dá o abrigo. Não, fico. Eles querem a minha cabeça. Vão ter de subir aqui. E subir aqui tem um preço. Ela desligou, sentou-se na cadeira da varanda, deu um gole no café e sussurrou. Agora, caçador também sangra.
Na manhã seguinte, três agentes dos serviços de informação bateram à porta de uma ex-colega de escola do Fábio. Queriam saber mais sobre a mãe dele. A rapariga hesitou, depois respondeu: “A dona Val, ela é só uma cozinheira, mas o seu olhar dizia outra coisa. O nome da tia Val corria agora em rádios, viaturas e relatórios confidenciais, mas quem tentava encostar-se a ela ou desaparecia ou voltava mudo.
A caçada começou, mas desta vez o alvo já estava à espera de espingard da carregada e com o dedo no rádio, o boato começou como todos os outros, coxicho entre dois vapores na berma da laje. Dizem que o tipo que desapareceu em 91 voltou. A Tia Valingiu que não ouviu, mas a frase ficou no ouvido como alarme. Ela sabia que não era qualquer um, era ele, o Roberto, o marido que desapareceu sem deixar rasto, o pai do Fábio, o primeiro a trair e o primeiro a ser esquecido.
Naquela época, era polícia civil. Tinha um bom posto, salário certo e um lado obscuro que ninguém via. Passava informação, desviava apreensão, negociava rota segura, tudo por baixo dos panos. Quando A Val descobriu, tentou segurar, não por ele, mas pelo filho. Se continuar com isso, vai morrer de uma forma que nem foto vai ter no funeral. Ele riu.
Disse que estava protegido, que tinha acordo com quem mandava. Duas semanas depois, sumiu. Corpo nunca apareceu. Só acharam a sua arma atirada para o rio Acari. Val engoliu o luto em silêncio, criou Fábio sozinha e jurou que nunca mais falaria o nome dele até agora. Na semana em que o segundo nome da lista foi cercado, Val recebeu o recado de dentro.
Tem um homem no turno da UPP, está a usar nome falso, mas alguém reconheceu. Diz que quer falar contigo. Ela não foi na altura, esperou pelo anoitecer, colocou o lenço mais velho, o casaco do Fábio, e desceu à favela pela antiga trilha, onde só quem é cria sabe andar sem ser visto. Chegou na portaria, pediu para falar com o tal Carlos Mendes.
O PM olhou de forma estranha, mas liberou. Na sala fria. Ele estava lá, mais magro, mais velho, mas com o mesmo olhar. O olhar de quem mede tudo antes de dizer qualquer coisa. Valéria. Ele sussurrou como se o nome ainda tivesse sabor na boca. Ela ficou de pé. Achei que tu estavas morto. Tava. Só que tem morto que respira com cuidado. Silêncio.
Por que razão reapareceu agora? Ele suspirou. tirou do bolso um velho disquete enrolado num pano. Isto aqui é tudo o que guardei-o antes de desaparecer. Registo de rádio, pagamento cruzado, lista de polícias vendido. Estava à espera do momento certo, mas quando soube do Fábio, soube que era agora.
Ela pegou a disquete como quem segura o próprio coração. Porquê agora? Para limpar a tua barra. para limpar o nome dele. Fábio não morreu em vão. Ele viu antes do tempo. Eu vi, mas fui cobarde. Ela ficou quieta. O silêncio era mais forte que qualquer grito. Dá-me esse disquete e desaparece outra vez, só que desta vez não volta mais. Ele tentou aproximar-se.
Ela recuou. Tu mataste o pai do meu filho quando vendeu a tua honra. Agora deixa-me enterrar o que sobrou. No regresso, ela guardou a disquete dentro da panela de pressão antiga, a mesma que utilizava para cozinhar para o batalhão. Quis chorar. Não chorou, quis gritar, não gritou. No dia seguinte, enviou uma mensagem no rádio.
Madrinha à escuta, documento novo em mãos. Tem um nome pesado envolvido, mas a ordem é a mesma. Um de cada vez, sem pressas, com dor. Do outro lado, a resposta foi firme. Nome confirmado. Ele sempre foi o mais difícil. Ela respondeu com uma frase só. Depois queime por dentro. E desligou.
O passado voltou, mas agora ela que tinha a última palavra. O rádio chiou às 3h12 da manhã. Madrinha autorizada. Três nomes libertado. Começa hoje. Val apenas respondeu: Que não vejam a noite amanhecer. Naquela semana a favela acordou três vezes com cheiro de borracha queimada e helicóptero ao longe.
A comunicação social dizia que eram operações pontuais contra o tráfico, mas quem era da área sabia. Não era guerra de facções, era limpeza interna. Um a um, os nomes da lista do Fábio estavam a desaparecer. O primeiro caiu em frente ao próprio edifício, na ilha. Dois tiros certeiros no vidro do automóvel. Nenhuma testemunha. A esposa encontrou o corpo antes do café.
O segundo foi encontrado no fundo de uma cisterna desativada, perto de Cordovil, desaparecido há dias, sem bilhete, sem sinal, apenas o distintivo atado ao pescoço com um fio de cobre. O terceiro, o terceiro foi o mais estranho, um incêndio num hotel. barato em Olaria, corpo parcialmente carbonizado, mas com uma tatuagem que confirmava a identidade.
O relatório dizia acidente elétrico, mas a perícia sabia. Aquilo foi execução. No total, cinco já tinham descido e o número crescia. Na penha, o medo calava até os mais ousados. Quem antes pensava que a A tia Val era apenas lenda, agora desviava o olhar quando ela passava. Ninguém sabia exatamente o que ela fazia, mas todo o mundo sabia o que acontecia depois de ela falava na rádio.
Foi aí que apareceu o repórter Daniel Ventura, jovem, ambicioso, criado na Tijuca, mas com faro de favela, tinha ouvido falar das mortes em sequência e começou a ligar os pontos. Nomes que estavam sob suspeita, gente que já foi investigada por corrupção, tudo a cair sem alarido. Ele desceu à comunidade com a câmara na mochila e a arrogância no peito.
Perguntou pela tia Val, quis entrevistá-la. Disseram que era melhor não. Ele insistiu. Disse que ia contar a verdade, que ela era uma personagem incrível. Dois dias depois, apareceu morto dentro do próprio carro, na subida do Alto da Boa Vista. Nenhum ferimento visível, apenas uma cassete na mochila com uma etiqueta escrita à mão.
Não é ficção. A fita caiu na mão errada. Um funcionário do IML ouviu. Era uma gravação. Voz feminina pausada, fria. Mataram o meu filho e agora estão aprender o que significa perder sem aviso. Não quero palco, quero silêncio. E que cada um deles sinta o sabor do próprio veneno. A fita foi apagada, mas não sem antes ser copiada.
Naquela noite, o rádio voltou a chiar. Madrinha, o nome final da primeira etapa está confirmado. Vai ser grande. Quer continuar? Val respondeu: Só paro quando sobrar o eco. O nome era pesado, maior do que os outros. Figura pública, com acesso à TV, a fórum, a câmara. Um dos 12, um que o O Fábio tinha circulado duas vezes com caneta vermelha.
No fogão da tia Val, o café fervia. Na panela de pressão, o disquete do ex-marido aguardava o momento certo. E no coração da vila cruzeiro, ninguém dormia descansado, porque quando até o repórter desaparece, é sinal de que a verdade virou sentença. E o último nome da lista está mais perto do que imagina. A fita não devia existir, mas existia.
Era uma cassete velha daquelas de gravador antigo, com um rótulo colado de lado. Canal A, Dezembro 94. Foi encontrada no fundo da mochila do Daniel Ventura. O repórter: Quase ninguém viu, quase ninguém ouviu, mas quem escutou compreendeu tudo. A gravação começava com ruído. Depois uma conversa abafada, como se tivesse sido feita com o microfone escondido. Não pode vazar esse nome.
Se esta mulher abre a boca, derruba meio mundo. E o miúdo já foi, mas o erro foi deixar a mãe viva. Pausa. Barulho de papel a ser mexido. Ela tem o caderno e agora tem a disquete. Então resolve antes que ela resolva por nós. O nome não era dito, mas a voz era conhecida muito. Era de um delegado famoso que já tinha dado uma entrevista na TV, liderado operação em rede nacional e se sentado ao lado de governador em conferência de imprensa.
Aquele era o último da lista. A Val ouviu a gravação num rádio antigo sozinha de madrugada. Quando reconheceu a voz, não não teve raiva nem surpresa. Só uma confirmação. O Fábio sabia. O pai dele também sabia. Agora ela tinha a certeza. pegou na disquete, no caderno e escreveu numa folha em branco.
Se eu desaparecer, esses documentos vão para o jornal, paraa OAB, para o mundo. Colocou tudo dentro de um saco de mercado, entregou a uma antiga vizinha e disse: “Só entrega se eu desaparecer”. A mulher quis perguntar, não teve coragem. Enquanto isso, o rádio interno da segurança pública disparava mensagens em frequência reservada.
Um dossier com o nome dela foi reativado. Agora ela era considerada potencial ameaça à integridade institucional e um mandado de captura saiu sem alarido, assinado por um juiz da confiança do delegado. Na favela, Vale. Antes que o oficial de justiça descesse o túnel. Alguém do fórum ligou, alguém de dentro. Ela não correu, apenas preparou a casa, guardou as fotografias do filho, fechou a panela de pressão com a disquete dentro e trancou a porta.
O rádio chiou, madrinha. A gente extrai se quiser. Não, termino o que comecei nessa noite. A notícia correu pela Penha. O delegado Moreira tinha sofrido um acidente na saída do clube de oficiais. Carro capotado, incêndio misterioso, nenhuma câmara funcionando. Corpo reconhecido pelos anéis. O monte não festejou, mas entendeu. O último da lista caiu.
Horas depois, uma viatura tentou entrar na comunidade. Foi barrada por um grupo de moradores. Diziam que estavam em manutenção de esgotos, mas ninguém viu concerto nenhum. E Tiaval não foi mais vista. Uns dizem que fugiu para a Bahia, outros que foi levada para um sítio no interior. Uns juram que ela morreu naquela noite silenciosa e que o corpo foi enterrado no sopé do monte, onde o filho costumava brincar.
Mas ninguém confirma. Apenas se sabe que nos dias seguintes o rádio deixou de chiar e que na laje onde ela vivia apareceu uma pichação. Fábio vingado. A Val fez justiça. Era o fim da lista ou só o início de outra. Na última madrugada antes do desaparecimento, a tia Val fez algo que nunca tinha feito.
Gravou a sua própria voz, não telemóvel, nem em vídeo, mas numa fita. Utilizou o mesmo gravador antigo do Fábio, guardado desde o tempo da escola. colocou a fita no aparelho, apertou o rec e disse: “Se esta fita tá a ser ouvida, é porque já não estou lá.” Mas ouve com atenção, porque eu não deixei confusão, deixei ordem. Cada nome que caiu caiu por opção própria.
Escolheram vender farda, vender honra, vender sangue. Eu só devolvi com calma, sem pressas. Pausa. O barulho do vento no fundo. O meu filho morreu sem defesa, amarrado, humilhado, deitado fora como bicho. Só que deixou o nome, deixou prova e deixou-me missão. Eu cumpri mais uma pausa.
Se alguém ouvir isto e tiver um nome para proteger, proteger de verdade, porque o sistema não tem coração, só máquina. E máquina queima. A gravação termina aí. A fita foi entregue semanas depois à mãe de um menino que também tinha sido morto pela PM num caso abafado. Ninguém sabe como a fita chegou, mas a mulher ouviu, chorou e gravou por cima com uma mensagem própria. Obrigada, dona Val.
O que a senhora fez? Ninguém mais teve coragem. Enquanto isso, no monte, o nome dela tornou-se sussurro. Uns diziam que ela foi executada pela própria facção, outros que fugiu para o norte do país e vive hoje como benzedeira. Um ou outro dizia que ela nunca existiu, que era só lenda de guerra.
Mas depois, numa tarde quente, 5 anos depois, um menino apareceu na laje da antiga casa da Val. tinha uns 9, 10 anos. Olhar quieto, rosto semelhante ao do Fábio. Sentou-se na beira da laje, abriu uma mochila escolar e tirou um caderno. Não era um brinquedo, não era trabalho de casa, era um caderno de verdade, com anotações firmes, nomes, placas, horário.
“Quem é o teu pai, miúdo?”, perguntou um morador. Ele não respondeu. “E a tua mãe?” O menino só olhou para cima e apontou para o céu. Depois voltou a escrever. Ali ninguém mexeu mais com ele, porque quando um a história é feita com sangue, ela não termina com um ponto final, termina com herança. E nessa laje, a próxima lista já estava a ser escrita. Yeah.