PARTE 1
O treinador que estava de pé no campo do O Bauru Atlético Clube nessa tarde de Março de 1955 não sabia que acabava de cometer o maior erro de avaliação da história do futebol. Tinha 47 anos, duas décadas de experiência a formar jogadores no interior de São Paulo e uma certeza que repetiu em voz alta perante 11 miúdos suados e descalços.
Aquele rapaz demasiado magro, baixo demais, que chorava quando perdia, nunca seria jogador profissional. disse que olhando nos olhos Edson Arantes do nascimento, que tinha acabado de fazer 14 anos e que 3 anos, 7 meses e 12 dias ergueria depois a Taça Julis Rimet na Suécia, com 17 anos perante um planeta inteiro que não sabia pronunciar o seu nome.
Mas naquela tarde de 1955, no campo de Terra batida de Bauru, o planeta não existia. Existia apenas um menino com fome, a um treinador com certezas e uma frase que ficou cravada em silêncio dentro de um peito que ainda não tinha aprendido a responder com palavras. Antes de continuar, deixe-me pedir-te uma coisa rápida. Se gosta deste tipo de história que ninguém contou bem, inscreve-se no canal agora.
Isso ajuda mais do que parece. Um like e um comentário dizem para o algoritmo que este vídeo importa. E é isso que mantém este tipo de conteúdo vivo. Agora volta comigo. O que aconteceu entre aquela tarde de março de 1955 e a final de 29 de junho de 1958 em Estocolmo, não foi uma linha reta, foi uma sequência de decisões, humilhações, apostas cegas e encontros que podiam ter corrido mal em qualquer curva. E quase deram.
O que faz um rapaz de 14 anos quando o único homem que deveria acreditar nele diz que não vale a pena? A em que momento um jogador que ainda nem sequer é jogador decide que a opinião de quem manda não interessa, que só o campo responde? E o que acontece com o treinador que ficou para trás quando o mundo inteiro descobre que ele estava errado? Estamos em Bauru, interior de São Paulo, 1955.
Não há câmaras, não há empresários de jogadores, não há redes sociais. A distância entre Bauru e Santos é de 340 km. Naquela época podia ser a distância entre existir e desaparecer. O campo do Bauru Atlético Clube não tinha relva, tinha terra vermelha compactado pelo sol de março, que rachava a planta dos pés descalços e que quando chovia transformava-se num lamaçal castanho onde a bola parava a meio do percurso e os miúdos escorregavam de joelhos até rasgar a pele nas pedras enterradas.
As traves eram de madeira em bruto, sem rede, sem pintura. O vestiário era um divisão de alvenaria com um chuveiro que funcionava quando a pressão da água permitia e um banco de cimento onde cabiam seis pessoas apertadas. Cheirava a suor seco, a terra molhada e aquele cheiro a linimento barato que os clubes do interior usavam nos miúdos como remédio para tudo.
Entorce, pancada, dor de crescimento, medo. O cheiro ficava na pele durante horas e Edson chegava a casa à noite, ainda com aquele odor nos braços. E Celeste, a mãe, perguntava se tinha-se machucado. E ele dizia que não, sem olhar para os olhos dela, porque sabia que se olhasse ia ver alguma coisa que ele não queria que ela visse.
O Edson chegava ali de manhã cedo, antes da escola, com um calção emprestado demasiado grande, que atava com barbante na cintura. Não tinha chuteiras, não havia meiões, não havia caneleiras, havia os pés descalços. as canelas marcadas do jogo anterior, um corte no tornozelo esquerdo que nunca fechava completamente porque todos os dias alguém pisava o mesmo sítio e uma vontade que os outros meninos percebiam sem precisar que ninguém explicasse.
Era o primeiro a chegar e o último a sair. Quando o treinador mandava parar, Edson ficava sozinho no campo, fazendo embaixadinhas com uma bola de meia até escurecer. Fazia até a bola começar a desfiar e os fios ficarem presos entre os dedos dos pés e ele ter de parar para enrolar tudo de novo, apertar os nós, dar forma àquela esfera imperfeita que não saltava como uma bola de verdade, mas que obedecia aos seus pés como se tivesse sido feita para eles.
O treinador chamava-se Sabará. Não era nome de batismo, era como todos os conheciam no futebol do interior paulista. A Ema tinha formado dois jogadores que chegaram ao profissional dos clubes médios da capital e considerava este o seu maior feito. Julgava os rapazes pela estrutura física antes de qualquer outra coisa, porque acreditava que o futebol profissional era desporto de homens fortes e que os meninos miúdos seriam engolidos no primeiro contacto com a realidade adulta.
Quando olhava para Edson, via exatamente aquilo que a convicção mandava ver. ossos magro, pernas magras, ombros estreitos, um corpo que parecia desenhado para outra coisa. Não via o que os pés faziam com a bola. Ouvia, mas descartava, porque no sistema de valores de Sabará, os pés não importavam se o corpo não aguentasse.
Havia outros meninos naquele campo, rapazes mais velhos, mais fortes, mais altos. Sabará preferia estes. Escalava-os nos jogos que importavam, nos jogos amigáveis contra outros clubes, nos torneios de base, que eram a única janela para que um olheiro de São Paulo percebesse que ali estava alguém que valia a pena levar.
O Edson ficava de fora, ficava atrás da linha lateral, de pé, com os braços cruzados sobre o peito magro, vendo jogadores que sabia serem piores jogarem no seu lugar, não queixava-se, não discutia, apenas ficava ali a olhar, a processar, a guardar. Havia algo na forma como processava a rejeição que não era comum num rapaz de 14 anos.
Não era resignação, era uma espécie de arquivo interno, como se de cada vez que era preterido estivesse a tomar nota de alguma coisa que ainda não sabia para que servia, mas que sabia que um dia ia servir. Bauru, nos anos 1950, era uma cidade ferroviária de 60.000 1 habitantes encravada no Centro Oeste Paulista, longe de tudo o que representava o centro do futebol brasileiro.
PARTE 2
Um menino que jogava bem em Bauru só seria visto se alguém de fora viesse até ali. E ninguém vinha a não ser por acidente. O futebol do interior funcionava como rede de informação orais, indicações de boca em boca, treinadores que conheciam olheiros que às vezes apanhavam um autocarro e iam ver com os próprios olhos. aquilo que lhes tinham descrito.
Era um sistema com falhas, cheio de buracos pelos quais os talentos caíam e desapareciam para sempre. Quantos Pelés morreram desconhecidos em campos de terra batida? Porque nenhum Valdemar de O Brito passou por ali na hora certa? Esta pergunta não tem resposta e não deveria ser feita se a intenção for dormir em paz.
O que os relatos posteriores simplificam numa única frase devastadora foi, na realidade um processo lento e corrosivo que durou meses. Sabará não disse aquilo uma única tarde. Disse de formas diferentes, em momentos diferentes, durante quase um ano. Às vezes era comentário lateral dirigido a outro treinador.
Este tem jeito para a bola, mas não tem corpo para jogo. Às vezes era instrução direta no treino. Sai dessa posição, menino. Deixa o Toninho entrar que ele aguenta o tranco. Às vezes era silêncio. O silêncio de não ser escalado quando todos sabiam que Edson era o melhor jogador daquele campo. A repetição é o que destrói. Não é a frase dita uma vez.
é a frase dita de manhã, repetida à tarde, confirmada no dia seguinte, reforçada na semana seguinte, até que o menino começa a considerar a possibilidade de que seja verdade. A criança não tem instrumentos para contestar, tem apenas a frase do adulto e a sua própria dúvida. E a a dúvida, alimentada pela repetição cresce até ocupar todo o espaço dentro do peito. Edson duvidou.
Isso precisa de ser dito porque a versão mitológica não permite a fraqueza. Mas houve manhãs em que pensou não ir ao campo. Houve tardes em que ficou na esquina a jogar nua em vez de ir ao treino, porque na nua ninguém dizia que ele não era bom suficiente. Houve noites em que se deitou na cama estreita que partilhava com o irmão e ficou olhando para o tecto, pensando se Sabará tinha razão. Essas noites existiram.
E o facto de terem existido não diminui o que veio depois, engrandece, porque não há coragem sem medo. O Dondinho soube de tudo. Soube porque Bauru era suficientemente pequena para que as coisas do campo chegassem às casas antes do jantar. Dondinho tinha sido jogador, não um grande jogador. Jogador de clubes do interior que nunca passou do amador, que tinha o talento nos pés, mas uma lesão no joelho cortou aos 24 anos, a antes que pudesse descobrir até onde ia.
Carregava essa frustração com a dignidade silenciosa dos homens que não falavam sobre o que sentiam, mas mostravam nos olhos quando pensavam que ninguém estava a olhar. Celeste via. Via quando ficava calado ao jantar. via quando parava na rua para ver um jogo de miúdos na esquina com as mãos nos bolsos e o corpo inclinado para a frente, como se estivesse prestes a entrar ele próprio.
Via quando olhava para Edson e via nele aquilo que tinha perdido em si, a chance. Quando soube que Sabará estava sistematicamente dizendo que Edison não tinha condições, Dondinho não foi para o campo queixar-se. sentou-se com Edson na varanda numa tarde de sábado e falou de futebol, sobre jogadores que enfrentou, dribles que tentou, golos que marcou e que ninguém filmou.
Falou sobre Leônidas da Silva, o diamante negro, e que era magro, baixo, com um corpo que nenhum treinador escolheria numa peneira e que fazia coisas com a bola que desafiavam o que os treinadores diziam ser possível. Edson ouviu sem interromper. Quando Dondinho terminou, ficaram em silêncio vendo o sol descer. Edson não não disse nada, mas no dia seguinte foi ao treino.
Numa noite de Junho de 1955, Dondinho sentou-se à mesa da cozinha depois de Celeste ter dormido. A casa era pequena, dois quartos, uma cozinha que servia de sala, uma casa de banho exterior no quintal. A luz vinha de uma lâmpada amarela que atraía as traças. Dondinho pôs café na mesa, acendeu um cigarro continental sem filtro e ficou sentado durante mais de uma hora sem se mexer.
Estava a processar uma informação que alterava o cálculo inteiro. Valdemar de Brito tinha visto Edson jogar não num jogo oficial, numa pelada de rua, na esquina da Vila Falcão, com bola de meia e traves de chinelos. Valdemar procurou Dondinho nessa tarde e disse uma frase que Dondinho repetiria durante o resto da vida.
O seu filho vai ser o maior jogador de futebol que o mundo já viu. Valdemar de Brito não era um olheiro qualquer. Tinha jogado na seleção brasileira em 1934 na Taça da Itália. Tinha enfrentado europeus, argentinos, uruguaios. sabia o que separava um bom jogador de um jogador diferente e sabia que a diferença não estava no corpo.
Estava numa velocidade de decisão, numa capacidade de antecipar para onde a bola ia estar antes de chegar, numa intimidade com o jogo que não se ensinava porque não se aprendia. Valdemar viu isso em Edson em 5 minutos de pelada. Não precisou demais. Valdemar tinha um problema. Ninguém em Bauru leva a sério as suas opiniões.
Era visto como um homem do passado que exagerava. Quando dizia que tal menino tinha potencial, os dirigentes sorriam com condescendência. Por isso, a frase dita a Dondinho foi ao mesmo tempo tão importante e tão frágil. Importante porque vinha de quem realmente sabia. frágil, porque vinha de alguém que ninguém acreditava que soubesse.
Dondinho não soube se acreditar ou se proteger o filho da desilusão que ele próprio tinha vivido. Porque a pior coisa que se pode fazer a um menino pobre com talento não é dizer que não tem talento, é dizer que tem, criar expectativa e depois vê-lo bater numa porta fechada. O Dondinho conhecia aquela porta. tinha batido nela.
E o som que a porta faz quando se fecha na nossa cara é um som que não se esquece. Levou semanas a decidir. Discutiu com Celeste em conversas sussurradas na cama. Celeste era contra o dizia que o Edson era criança, que precisava da mãe, que o futebol podia esperar. Dondinho sabia algo que Celeste não queria saber. O o futebol não espera.
Tem janelas que abrem e fecham sem avisar. Celeste ouviu, chorou, concordou. Não porque a tenha convencido, mas porque também ela via nos olhos do filho algo que não podia ficar ali. Em setembro de 1956, Valdemar levou Edson para Santos. A viagem de autocarro durou 8 horas por estradas de terra batida que sacudiam o veículo e levantavam poeira que tudo cobria.
Edson levava uma mala de cartão com duas mudas de roupa, um par de chuteiras emprestadas meio número superior a calçava com papel de jornal na ponta e uma certidão de nascimento amarelada dentro de um saco de plástico. Não levava dinheiro, não levava a certeza de que ia dar certo.
levava a certeza de que se não fosse agora, talvez nunca. Celeste não foi à estação rodoviária, não conseguiu, ficou em casa e chorou. Dondinho foi, carregou a mala do filho, apertou-lhe a mão de Valdemar, olhou para Edson e disse algo que Edson nunca revelou. Os dois ficaram de frente durante uns segundos, o pai com as mãos nos ombros do filho.
E depois o Dondinho virou-se e foi-se embora sem olhar para trás. No autocarro, Valdemar ficou em silêncio durante duas horas. Numa paragem, sentou-se com o Edson num banco de cimento junto da bomba de gasolina e falou pela primeira vez sobre o que ia acontecer. falou com sobriedade. Disse que o Santos tinha jogadores profissionais que não iam facilitar nada.
Disse que ia ser difícil e solitário. Disse que ia haver momentos em que Edson ia querer voltar e que estes seriam os momentos mais importantes. Ó, e disse uma última coisa que Edson guardou para sempre. Quando entrares naquele campo, esquece tudo o que te disseram. Joga e deixa a bola falar por ti. A bola não mente. As as pessoas mentem. A bola nunca.
O campo de treino dos Santos não era a Vila Belmiro. Era um campo com relva irregular nos arredores da cidade, vestiário de alvenaria que cheirava a mofo e creolina. Edson entrou atrás de Valdemar e os jogadores profissionais olharam para ele com a expressão de quem olha para uma criança no sítio errado. Tinha 15 anos e aparentava ter 13.
Pesava pouco mais de 50 kg. As chuteiras faziam barulho estranho no chão porque o papel de jornal tinha-se desfeito com a humidade. Lula, o treinador, recebeu Valdemar com respeito, mas sem entusiasmo. Leu a carta onde Valdemar descrevia Edson como o maior talento da história do futebol brasileiro. Olhou para o menino, olhou para Valdemar com uma expressão que dizia que estava fazendo aquilo como favor pessoal.
Mandou Edson aquecer com os reservas. Quando o treino coletivo começou e Lula pôs Edson numa equipa mista contra titulares, algo aconteceu nos primeiros 5 minutos que fizeram Lula parar de falar com o auxiliar e virar todo o corpo na direção do campo. Não foi um golo, foi a forma como Edson se moveu, recebeu a primeira bola, controlou com o direito, olhou em redor num milésimo de segundo, rodou e passou para um companheiro que nem sequer se apercebera de que estava livre, mas que encontrou-se completamente sozinho em
posição de finalizar. Foi a velocidade da decisão, a limpeza do gesto, a capacidade de ver o jogo todo de uma vez. Lula viu e calou-se. No minuto seguinte, Edson recebeu prensado entre dois titulares com o dobro do seu peso. Não fugiu. Encaixou o corpo, protegeu a bola, rodou e saiu a controlar, enquanto os dois ficaram a olhar um para o outro sem perceber como.
Depois fez um drible curto, que tirou o lateral direito do caminho como se não estivesse ali. Lula virou-se para o auxiliar e disse: “O Valdemar não exagerou”. Durante 45 minutos, Edson fez coisas que os profissionais dos Santos nunca tinham visto num rapaz de 15 anos. Passes que abriam defesas como bisturi, movimentações que criavam espaços onde não existiam, finalizações com ambos os pés, com uma precisão que não se coadunava com a idade, nem com as chuteiras largas.
No final, Lula mandou Valdemar esperar no balneário. Conversaram 15 minutos a portas fechadas. Quando saíram, a Valdemar tinha nos olhos aquela humidade que os homens daquela geração disfarçavam olhando para o lado. Edson ficou no Santos, não regressou a Bauru, mas antes dos golos e da fama, houve meses de solidão que a história oficial não conta, porque a solidão não dá manchete.
Nos primeiros meses, o Edson chorava. chorava de noite na pensão perto do porto. Uma casa de dois andares com quartos apertados que cheiravam amarezia e roupa húmida. Chorava de saudades de Celeste, de Dondinho, de Bauru. Chorava em silêncio, com o rosto virado para a parede, mordendo a almofada.
O menino na cama ao lado percebia pelo tremor do colchão e não dizia nada, porque também tinha chorado nas primeiras semanas e sabia que não há nada que se possa dizer a outro menino que chora de saudades da mãe. Os jogadores veteranos souberam, ah, não havia psicólogo nem departamento de bem-estar. Havia o balneário.
Houve quem gozasse, quem chamasse chorão. Houve quem o fizesse uma vez e nunca mais depois de ver Edson no treino seguinte e perceber que o menino que chorava à noite era o mesmo que humilhava os profissionais de manhã. Houve quem protegesse. Vasconcelos, guarda-redes reserva de 28 anos, foi o primeiro a tratá-lo como pessoa.
Sentou-se ao lado dele no refeitório e perguntou-lhe de onde era. Contou que já tinha jogado em Bauru e que a claque atirara garrafa para a sua cabeça. Edson riu-se. Foi a primeira vez que se riu em Santos. A partir daí, Vasconcelos tornou-se guardião informal. protegia-o do isolamento, que destrói mais jogadores jovens do que as lesões.
Houve uma noite em que Edson fez a mala, pôs as duas mudas de roupa na mala de cartão, pôs as chuteiras gastas por cima, fechou-a e sentou-se na cama com a mala ao lado dos pés, pronto para voltar. O menino da cama ao lado acordou e perguntou: “Vais embora?” Edson não respondeu. Ficou sentado durante muito tempo com o som do porto ao longe e a luz da lua através da janela.
Depois deitou-se outra vez. Não abriu a mala, deixou-a ali três dias. Depois tirou a roupa para trás, pôs a mala debaixo da cama e nunca mais a abriu para aquele efeito. Em 7 de setembro de 1956, o Santos disputou um particular contra o Corinthians de Santo André. Edson, que já adotaram o nome Pelé, entrou no segundo tempo e marcou um golo.
Não foi espetacular. Uma bola que sobrou na área depois de um canto, empurrada para dentro com o pé esquerdo, mas foi um golo registado. O nome apareceu nos jornais de São Paulo em letra pequena, na secção de amigáveis que quase ninguém lia. Em Bauru, uma pessoa leu. Sabará estava no bar do Sr.
Osvaldo a tomar café com pão na chapa, como fazia todas as manhãs. Percorreu as convocatórias com o dedo indicador, como sempre. Quando viu o nome, o dedo parou. Pelé. Santos 4-2. Corinthians de Santo André. Golo aos 32 minutos. Ficou a olhar durante um tempo que o dono do bar reparou. Depois dobrou o jornal, acabou o café, pôs moedas no balcão e saiu sem dizer uma palavra.
O dono do bar disse depois que nunca tinha visto Sabará com aquela expressão. Não era raiva nem surpresa. Era o reconhecimento mudo de algo que não podia desfazer. A partir daí, Sabará acompanhou a carreira de Pelé com uma atenção obsessiva. Lia cada menção, ouvia cada transmissão de rádio que chegava a Bauru, nunca comentava.
Quando alguém mencionava o rapaz que dispensara, mudava de assunto, mas enfrentava-o em silêncio, em casa, de noite. A Dona Aparecida sabia, via o marido na varanda com o do olhar perdido e não perguntava porque sabia que forçar uma conversa era fechar uma porta que talvez abrisse sozinho. Quando o Brasil embarcou para a Suécia em maio de 1958, Pelé tinha 17 anos e era o mais novo da delegação. Não era titular.
Feola, o treinador, era cauteloso. Pelé era uma espécie de seguro que os veteranos protegiam com carinho e superstição. Garrincha fazia piadas com ele. Didi tratava-o com seriedade respeitosa. Newton Santos sentava-se ao lado nas refeições e falava sobre tudo o que um rapaz de 17 anos precisa de ouvir de um homem adulto.
Pelé não jogou os dois primeiros jogos. No terceiro, frente à União Soviética, Feola escalou-o, não por convicção, por necessidade. A decisão que mudou o futebol para sempre não foi um génio, foi um desespero suave de treinador sem mais letras no alfabeto. Frente ao RSS, Pelé não marcou, mas participou em tudo.
Moveu-se como se o campo fosse extensão do sistema nervoso. Os defesas soviéticos não sabiam o que fazer com aquele menino que aparecia onde não devia estar. O Brasil venceu 2 a0. Pelé não mais saiu da equipa. Contra país de Gales nos quartos marcou o único golo. Recebeu de costas, dominou com o peito, levantou a bola por cima do defesa, rodou e rematou antes do segundo pontapé.
O estádio fez silêncio de meio segundo contra a França na meia-final fez três com 17 anos. Todo o estádio, incluindo os franceses, aplaudiu não porque quisessem que o Brasil ganhasse, porque o que viam transcendia a lealdade e entrava no território da beleza. E depois, afinal, 29 de junho de 1958, Rossunda, Suécia contra Brasil. A Suécia marcou primeiro, 4 minutos, mas os brasileiros não perderam a cabeça.
Garrincha pegou na bola, levou-a calmamente ao centro com expressão de quem está ligeiramente aborrecido. 5 minutos depois, Vavá empatou. No segundo tempo, Pelé. Aos 55 minutos, recebeu dentro da área, dominou com o peito, levantou por cima do defesa sueco, que saltou para o lado errado, rodou e rematou antes que tocasse no chão uma segunda vez.
O Rossunda ficou em silêncio. Depois aplausos, aplausos suecos do público adversário, porque aquilo estava acima do futebol, acima da nacionalidade. Pertencia à espécie humana inteira. O Brasil venceu por 5-2. Pelé marcou dois. O segundo de cabeça aos 90, quando o jogo já estava decidido, mas Pelé decidiu que o último golo seria dele, porque era assim que a história devia terminar.
é com o menino do campo de terra batida marcando o último golo da final com a inevitabilidade de algo decidido muito antes. Talvez nessa tarde de 1955, talvez nessa noite na cozinha de Dondinho, talvez naquela pelada na Vila Falcão, talvez nessa noite na pensão quando fez a mala e depois não foi. No apito Pelé chorou.
Chorou nos braços de Didi, como se segura um filho. Chorou como chorava na pensão, com o rosto escondido. Mas desta vez o mundo inteiro via. E chorar não era fraqueza. Era todos os nos que ouviu. Todas as noites longe de casa, o rosto do pai na rodoviária, o cheiro da cozinha da mãe Sabará. Tudo comprimido numa lágrima que caiu no relvado de Sona e que existiu com mais verdade do que qualquer fotografia poderia captar.
E em Bauru, Sabará fechou-se em casa e não saiu durante dois dias. Ficou sentado na cadeira da cozinha, ouvindo o rádio com um caderno aberto no colo e um lápis na mão. O mesmo caderno onde anotava os nomes dos meninos que escalava e dos que ficavam de fora. Ouviu o golo da Suécia. O empate, os golos de Pelé, tudo sem dizer uma palavra.
Quando o apito final suou e o locutor gritou que Pelé era o maior jogador que o futebol já viu, Sabará desligou o rádio. O gesto teve uma finalidade que a dona Aparecida sentiu sem perceber porquê. Era como se estivesse a desligar a versão de si mesmo que disse aquelas coisas três anos antes. Na madrugada de 30 de junho, enquanto o O Brasil celebrava e os foguetes rebentavam sobre Bauru, Sabará sentou-se à mesa e escreveu uma carta dirigida a Edson Arantes do Nascimento, aos cuidados do Santos Futebol Clube.
Escreveu durante mais de uma hora. Dona A Aparecida viu a luz da cozinha às 3 da manhã e viu o marido curvado sobre o papel com uma expressão que não reconheceu em 30 anos de casamento. Não interrompeu. Voltou para a cama. De manhã, a carta estava dobrada num envelope sem selo. Sabará estava na varanda, olhando para a rua vazia.
A Dona Aparecida perguntou se ia enviar. Sabará ficou a olhar para a rua mais uns segundos. olhou para um cão que atravessava com a indiferença dos cães que não sabem que o mundo mudou. Depois disse que não, uma palavra só. Guardou a carta numa gaveta do guarda-roupa entre camisas dobradas e nunca mais falou sobre ela.
Nunca se soube o que dizia. A Dona Aparecida nunca a leu. Disse que há coisas que pertencem a quem escreveu e a quem deveria receber. Quando Sabará morreu, esta casa foi esvaziada e ninguém sabe se a carta estava lá ou se a destruiu ou se alguém encontrou-a e deitou-a fora com os papéis velhos que se acumulam nas casas dos mortos.
A carta não importa pelo que dizia, importa por ter sido escrita. Um homem que disse não durante meses, sentou-se numa madrugada e escreveu algo. Talvez, desculpe, talvez estivesse errado. Talvez vi e não quis ver. Nunca saberemos. E talvez seja melhor assim. Uma carta enviada fecha o assunto. Uma carta guardada mantém-no aberto para sempre, vibrando em silêncio dentro de uma gaveta que ninguém abre.
Houve um campo de terra batida, um rapaz descalço, um treinador com certezas, uma frase repetida durante meses, um pai acordado numa cozinha com café e cigarros, um ex-jogador que deixou de numa rua e viu o futuro. Uma viagem de 8 horas. Um primeiro treino em que um treinador deixou de falar: Noites de choro numa pensão, uma mala feita e não utilizada, um golo num amigável, um nome num jornal, um dedo parado sobre o nome, uma Mundial, dois golos numa final, um rádio numa cozinha, uma carta na madrugada, uma gaveta. Silêncio, e houve
Pelé. Apesar de tudo e por causa de tudo. Não porque o caminho fosse fácil, mas porque o caminho foi aquele e nenhum outro. Cada não, cada noite de choro com o rosto na parede, cada manhã em que voltou ao campo quando tudo dizia para não voltar, cada frase de Sabará que entrou no peito como far, em vez de infectar tornou-se combustível.
Tudo isto não foi o preço que Pelé pagou para ser Pelé, foi o material de que Pelé foi feito. Tira o campo de terra batida e não a pés que aprendem a sentir a bola antes de a ver. Atira Sabará e não há a fúria silenciosa que transforma talento em destino. Tira a noite na cozinha de Dondinho e não há a decisão que abriu a porta.
Tira Valdemar na esquina da Vila Falcão e não há ninguém para dizer ao mundo que ali estava algo que o mundo precisava ver. Tira a pensão, tira o choro, tira a mala feita e não usada. E não há o menino que escolheu ficar quando ficar. Era a coisa mais difícil que já tinha feito na vida. Ninguém nasce Pelé.
Pelé foi construído por todas as mãos que tentaram derrubá-lo, e por todas as mãos que o seguraram de pé, e por duas mãos que escreveram uma carta numa madrugada de junho, e que depois guardaram essa carta numa gaveta e fecharam a gaveta e ficaram em silêncio. E o silêncio às vezes diz mais de 1000 palavras alguma vez conseguiram dizer.
E às vezes o silêncio é tudo o que resta. E às vezes o absilêncio é suficiente.