Em dezembro de 2018, duas jovens escandinavas partiram para aquela que seria a viagem dos seus sonhos. Apaixonadas pela natureza, pelas montanhas e pela aventura, queriam apenas explorar um dos destinos mais famosos do Norte de África. No entanto, poucos dias depois de chegarem a Marrocos, as suas vidas terminariam de forma trágica num crime que chocou o mundo inteiro. O caso ganhou repercussão internacional não apenas pela violência do ataque, mas também porque os responsáveis gravaram parte do crime e divulgaram as imagens nas redes sociais como propaganda extremista.
Louisa Vesterager Jespersen nasceu em 1994, na cidade de Ikast, na Dinamarca. Desde muito jovem demonstrava uma enorme paixão por viagens e desafios. Antes mesmo dos 25 anos já tinha visitado países como Argentina, Noruega e Peru, procurando sempre experiências ligadas ao contacto com a natureza. Em 2017 chegou a candidatar-se a uma expedição polar no Ártico, mas, após não ser selecionada, começou imediatamente a planear uma nova aventura.
A sua melhor amiga era Maren Ueland, nascida em 1990, na Noruega. Quando era criança, era bastante tímida, mas com o passar dos anos tornou-se uma mulher aventureira, idealista e profundamente ligada ao meio ambiente. A família recordava-a como alguém que valorizava muito mais as experiências do que bens materiais. Sonhava trabalhar com terapia ao ar livre, combinando o gosto pela natureza com a sua formação na área da saúde.
As duas conheceram-se enquanto estudavam na Universidade do Sudeste da Noruega, num curso relacionado com recreação ao ar livre e orientação na natureza. A amizade cresceu rapidamente. Além de partilharem a paixão pelas viagens, tinham objetivos semelhantes para o futuro. Louisa pretendia tornar-se guia turística, enquanto Maren desejava ajudar pessoas através de atividades realizadas em ambientes naturais.
Pouco tempo antes da viagem, decidiram dividir apartamento. Nas redes sociais, publicavam frequentemente fotografias das suas aventuras e mantinham amigos e familiares informados sobre cada novo destino. Assim que regressavam de uma viagem, já começavam a planear a seguinte.
Depois de analisarem várias opções, decidiram passar um mês em Marrocos. O país chamava-lhes a atenção pela riqueza cultural, pelas cidades históricas e pelas paisagens das montanhas do Atlas. Apesar do entusiasmo, a mãe de Louisa mostrou-se preocupada. Naquela altura existiam alertas relacionados com atividades de grupos extremistas em algumas regiões do Norte de África, e receava que a filha pudesse correr riscos. Louisa, porém, tranquilizou a família, garantindo que tomaria todas as precauções necessárias durante a viagem.
No dia 8 de dezembro de 2018, as duas partiram de Oslo e chegaram a Marraquexe no dia seguinte. Durante cerca de uma semana visitaram os mercados tradicionais, os monumentos históricos e conheceram melhor a cultura marroquina. Também contrataram informações para realizar a subida ao Monte Toubkal, o ponto mais alto do Norte de África, com mais de quatro mil metros de altitude.
Enquanto Louisa e Maren aproveitavam cada momento da viagem, um grupo de quatro homens preparava um plano completamente diferente. Influenciados pela propaganda do autoproclamado Estado Islâmico, gravaram um vídeo jurando fidelidade à organização e manifestando a intenção de realizar um ataque contra turistas estrangeiros. As investigações posteriores demonstrariam que aquele grupo já procurava uma oportunidade para cometer um crime que chamasse a atenção dos movimentos extremistas.
Dias depois, as duas amigas seguiram para a pequena aldeia de Imlil, principal ponto de partida para quem pretende subir ao Monte Toubkal. A região recebe milhares de visitantes todos os anos e dispõe de alojamentos destinados aos montanhistas. No entanto, Louisa e Maren decidiram fazer aquilo que já tinham feito noutras viagens: montar uma pequena tenda numa zona próxima do trilho para passarem ali a noite.
Sem que soubessem, os quatro homens tinham reparado na presença das jovens e passaram a segui-las discretamente.
Na madrugada de 17 de dezembro de 2018, o grupo aproximou-se da tenda onde as duas dormiam. Segundo a investigação, o ataque aconteceu durante a noite, quando não havia praticamente ninguém por perto que pudesse ouvir os pedidos de socorro ou prestar auxílio. As autoridades concluíram que ambas foram mortas no local, e que os agressores registaram parte do crime em vídeo, divulgando posteriormente as imagens na internet como forma de propaganda extremista.
Na manhã seguinte, dois montanhistas franceses iniciaram a subida ao Monte Toubkal e depararam-se com uma cena devastadora junto à tenda. Imediatamente correram para pedir ajuda, enquanto as autoridades marroquinas iniciavam uma grande operação policial.
A investigação avançou rapidamente. Um dos suspeitos deixou cair um documento de identificação nas proximidades do local do crime, fornecendo uma pista decisiva para os investigadores. Poucas horas depois, quatro homens foram localizados e detidos quando tentavam regressar a Marraquexe. Com eles foram apreendidos diversos objetos que reforçavam a ligação ao ataque.
Nos dias seguintes, as autoridades descobriram também o vídeo gravado antes do crime, no qual os suspeitos juravam fidelidade ao Estado Islâmico. Esse material tornou-se uma das principais provas apresentadas durante o processo judicial. Apesar da ligação ideológica com a organização extremista, os investigadores concluíram que o grupo agiu por iniciativa própria, inspirado pela propaganda divulgada na internet, sem ter recebido ordens diretas do Estado Islâmico.
Ao todo, vinte e quatro pessoas foram levadas a julgamento por diferentes níveis de envolvimento com a célula extremista. Quatro responderam diretamente pela participação no homicídio, enquanto os restantes foram acusados de colaboração ou apoio ao grupo.
Em julho de 2019, três dos principais responsáveis foram condenados à pena de morte. Um quarto participante recebeu prisão perpétua, enquanto os restantes arguidos foram condenados a penas que variavam entre cinco e trinta anos de prisão. O tribunal determinou ainda o pagamento de uma indemnização às famílias das vítimas, embora os condenados não possuíssem condições financeiras para cumprir essa obrigação.
As investigações revelaram que Abdessamad Ejjoud, apontado como líder do grupo, já tinha tentado viajar para a Síria anos antes para se juntar ao Estado Islâmico. Depois de cumprir pena de prisão por atividades relacionadas com o extremismo, radicalizou-se ainda mais e passou a recrutar outros simpatizantes, formando uma pequena célula inspirada pela organização.
O homicídio de Louisa e Maren provocou uma enorme onda de comoção na Dinamarca, na Noruega e em vários outros países. Os funerais contaram com a presença de representantes dos governos, enquanto milhares de pessoas prestaram homenagens às duas jovens, recordando-as como mulheres curiosas, generosas e apaixonadas pela aventura.
O caso também levantou um intenso debate sobre a rapidez com que conteúdos produzidos por grupos extremistas podem ser disseminados nas redes sociais e sobre os desafios enfrentados pelas plataformas digitais para impedir a divulgação desse tipo de material.
Em Marrocos, as autoridades reforçaram as medidas de segurança em regiões turísticas e intensificaram as operações de combate ao extremismo. Guias locais voltaram a recomendar que visitantes realizassem percursos nas montanhas sempre acompanhados por profissionais experientes, sobretudo em áreas isoladas.
Passados vários anos, o caso de Louisa Vesterager Jespersen e Maren Ueland continua a ser lembrado como uma das tragédias mais marcantes envolvendo turistas na história recente de Marrocos. O que deveria ter sido uma viagem inesquecível transformou-se num crime que abalou o mundo inteiro e deixou um alerta permanente sobre os perigos da radicalização violenta e da propaganda extremista, bem como sobre a importância da cooperação internacional na prevenção de ataques dessa natureza.