Um Menino Jogava Sozinho num Campo de Várzea —De Repente, Pelé Apareceu e Mudou Sua Vida Para Sempre

PARTE 1

O menino que estava sozinho naquele campo de vársia na tarde de sábado não sabia quem ia aparecer. Sabia que estava chovendo miudinho, que a bola de borracha já estava demasiado pesada para chutar direito, que os outros miúdos tinham ido embora quando o céu fechou e que ele tinha ficado porque não tinha para onde ir.

Não, de verdade. Não da forma que um menino de 11 anos precisa de ter para onde ir quando a mãe trabalha até às 7 e o casa está trancada por fora com um cadeado que ele não tem a chave. Então ficou ficou sozinho num campo de terra batida no litoral de São Paulo, pontapeando uma bola contra um muro de bloco sem reboco, repetindo o mesmo movimento que repetia todos os sábados, desde que aprendeu a rematar com o pé esquerdo.

Receber, dominar, bater. Receber, dominar, bater. Como se o muro fosse um adversário. Há como se a bola voltar fosse um passe. Como se alguém estivesse olhando. e alguém estava. O carro que parou na rua de terra batida junto ao campo não era um carro comum, era um Ford Galaxy preto com vidros escuros, com um condutor de camisa branca que ficou dentro do carro e com um passageiro que desceu pela porta de trás e ficou de pé à beira do campo, de braços cruzados, olhando o menino chutar a bola contra o muro. O passageiro ficou ali durante 4

minutos. Quatro minutos em que o menino não se apercebeu que estava a ser observado porque estava de costas para o carro e porque a chuva miudinha fazia um barulho constante no telhado de zinco do barracão junto ao campo que abafava qualquer outro som. 4 minutos em que o homem que tinha descido do Galaxy Preto, viu um rapaz descalço de calções e t-shirt encharcada, adoro repetir o mesmo gesto técnico 31 vezes sem falhar uma única vez.

receber, dominar, bater com o pé esquerdo, sempre com o pé esquerdo, a bola a bater no muro e a voltar com ângulos diferentes de cada vez, e o menino ajustando o corpo, ajustando a posição, ajustando o pé, como se cada repetição fosse uma conversa entre ele e a bola, em que os dois tentavam se entender.

 O homem que estava de pé na beira daquele campo era o Pelé. Aconteceu em Santos. Numa tarde de sábado de junho de 1968, num campo de vársia que ficava no bairro do Macuco, a oito quarteirões do estádio da Vila Belmiro e a todo um mundo de distância de tudo o que a Vila Belmiro representava. E o que aconteceu entre Pelé e aquele menino naquela tarde de chuva não foi uma descoberta de talento, não foi um conto de fadas do futebol, mas foi uma coisa mais complicada e mais verdadeira do que qualquer história que os jornais poderiam ter contado. E não contaram

porque os jornais não estavam lá. Não estava lá ninguém, só o menino, o muro, a bola de borracha e o homem que desceu de um galaxy preto e mudou uma vida inteiro em menos de uma hora. E esta é a história que ninguém contou por inteiro, não a história do encontro, a história do que aconteceu depois, do que o menino fez com o que Pelé lhe deu, do preço que pagou e do dia em que entendeu que o maior presente que recebia na vida era também a coisa que ia custar mais caro.

 Antes de continuar, deixa-me pedir-te uma coisa rápida. Se gosta deste tipo de história que ninguém contou bem, inscreve-se no canal agora. Isso ajuda mais do que parece. Um like e um comentário dizem para o algoritmo que este vídeo importa e é é isso que mantém este tipo de conteúdo vivo. Agora volta comigo. A partir a partir daqui, a história avança lentamente.

 O que aconteceu antes, durante e depois daquela tarde de sábado no Macuco precisa de ser contado com calma. Porque para perceber o que Pelé fez naquele campo de vársia, é preciso primeiro perceber quem era o menino que estava sozinho à chuva a chutar bola contra um muro. E por que razão aquele menino que recebeu de Pelé uma coisa que qualquer miúdo do Brasil teria dado a vida para receber, acabou por pagar por isto de uma maneira que ninguém esperava.

 O que acontece quando o maior jogador do mundo olha para um rapaz de 11 anos e vê algo que o faz parar o carro? Em que momento um gesto de generosidade transforma-se numa dívida que não pode ser paga? Qual é o peso de carregar para o resto da vida a frase que Pelé lhe disse quando tinha 11 anos? E de saber que nunca conseguiu fazer juz a ela? Estamos em Santos, Junho de 1968.

O Brasil está a 2 anos do Mundial de México. O Santos Futebol Clube é o maior equipa do mundo. Pelé tem 27 anos e está no auge absoluto da sua carreira. Não há redes sociais, não existem câmaras de telemóvel, não há registo do que acontece nas ruas, nos campos de vársia, nos encontros que mudam vidas sem que ninguém anote.

 O que acontece entre duas pessoas numa tarde de chuva em Santos fica entre essas duas pessoas. menos que uma delas decida contar. Uma delas decidiu. Ivaldo Corrêa dos Santos nasceu em Santos no dia 3 de fevereiro de 1957, no hospital da Santa Casa e filho de uma lavadeira chamada dona Jurema, que trabalhava nas casas de família do Gonzaga e do Boqueirão, lavando e passando a ferro seis dias por semana, de e de um estivador chamado senhor Agenor, que trabalhava no cais do porto, até ao dia em que uma carga de café caiu de um guindaste e atingiu a perna esquerda

dele. em 1963, quando Nivaldo tinha 6 anos e o seu agenor nunca mais voltou ao porto, nunca mais trabalhou e passou os anos seguintes sentado numa cadeira na varanda da casa do macuo, bebendo cachaça e olhando para o nada enquanto a dona Jurema sustentava a casa sozinha com o dinheiro que ganhava, lavando a roupa dos outros.

 A casa situava-se na rua Luís de Camões, número 214. Passe uma casa de porta e janela com dois quartos no térrio e um vão por baixo do telhado onde Nivaldo dormia num colchão de palha que a dona Jurema tinha ganho de uma das patroas do Gonzaga, quando a patroa trocou os colchões da casa e ia deitar os velhos fora.

 O vão do telhado não tinha janela. Tinha uma brecha entre as telhas de barro, por onde entrava um fio de luz durante o dia e um fio de vento durante a noite, e por onde entrava a água quando chovia intensamente. A mesma chuva que escorria pela parede de cal e formava uma poça no canto do colchão que o Nivaldo empurrava para o lado com um pano de chão antes de se deitar.

 O chão do vão era de tábua, com fendas entre as tábuas, por onde Nivaldo conseguia ver a cozinha por baixo, ver a mãe a cozinhar no fogão a lenha, ver o pai sentado na cadeira com o copo na mão e ver a luz amarela da lâmpada de 40 W, que era a única luz da casa, e que a dona A Jurema desligava às 9 da noite para poupar na conta, que mesmo assim nunca conseguia pagar atempadamente.

Ivaldo era filho único, não por opção. A Dona Jurema tinha perdido dois filhos antes dele. Um nati morto em 1954 e uma menina que viveu três dias em 1955 e que morreu de uma infecção que o médico da Santa Casa disse que poderia ter sido tratada se a dona Jurema tivesse levado a criança mais cedo.

 Como se deve levar antes fosse uma opção para uma mulher que trabalhava 12 horas por dia e que morava a uma hora de autocarro do hospital. Quando Nivaldo nasceu vivo e saudável em 1957, a dona Jurema fez uma promessa na igreja do Valongo que nunca contou a ninguém e que cumpriu em silêncio durante o resto da vida. A promessa tinha a ver com o menino, com o futuro do menino, com a certeza de que aquele menino ia ter uma vida melhor do que a dela, custasse o que custasse.

PARTE 2

O problema era que custar o que custasse na vida da dona Jurema significava trabalhar mais, significava sair de casa às 5 da manhã e regressar às 7 da noite. Significava deixar o Nivaldo sozinho das 7 da manhã quando saía paraa escola. até às 7 da noite, quando ela regressava. 12 horas em que o menino ficava por conta própria num bairro, onde ficar por conta própria aos 6, 7, 8 anos era a norma e não a exceção.

 As crianças do macuco não tinham ama, não tinham creche, não tinham programa social, tinham a rua. E a rua no Macu de 1963 era o campo de vársia da esquina da Luís de Camões com a travessa de São Benedito. O campo de vársia do Macuco ficava num terreno baldio que pertencia à autarquia e que ninguém se queixava porque não valia o suficiente para ninguém querer e não atrapalhava o suficiente para ninguém mandar limpar.

O terreno tinha cerca de 40 m de comprimento por 25 de largura, com o chão de terra batida batida que se transformava em lama quando chovia e transformava-se em pó quando fazia sol, com dois balizas feitas de cano de ferro soldado por um canalizador do bairro chamado seu Valdemar, que cobrou duas garrafas de pinga pelo serviço e com um muro de bloco de betão sem reboco no lado norte que separava o campo do quintal de uma casa abandonada.

O muro tinha cerca de 3 m de altura e cerca de 10 m de comprimento. Os blocos eram cinzentos irregulares e com marcas de cimento seco a escorrer nas juntas e com fissuras que subiam da base até ao topo como veias numa mão velha. O muro não tinha qualquer função, para além de separar o campo do quintal da casa abandonada, onde crescia mato, lixo e uns pés de mamona que ninguém tinha plantado.

 Mas para Nivaldo, o muro era tudo. Era o paredão de treino que não queixava-se, que não se cansava, que não ia embora quando chovia, que estava ali às 7 da manhã e às 7 da noite, que devolvia a bola cada vez que Nivaldo chutava com uma honestidade que nenhum parceiro de jogo tinha, porque o muro não falhava o passe, não devolvia torto por preguiça, não atirava a bola para o lado errado por maldade.

 O muro devolvia a bola com a mesma força e no mesmo ângulo com que recebia. E se a bola voltava torta, a culpa era de quem rematou. A Nivaldo aprendeu que aos 7 anos e nunca mais se esqueceu. Foi no muro que Nivaldo aprendeu a rematar com o pé esquerdo. Não porque alguém tenha ensinado, porque o muro ficava do lado esquerdo do campo.

 E para chutar de frente ao muro da posição onde Nivaldo gostava de estar, no centro do campo, de costas para a baliza sul, o pé natural era o esquerdo. Aldo era destro, rematava com o direito nos jogos de vársia com os outros rapazes, nos rachas de sábado de manhã, nos torneios de rua que os mais velhos organizavam nas férias.

 Mas quando ficava sozinho no campo, quando os outros iam embora e ele ficava porque a casa estava trancada, o pé que usava era o esquerdo. E de tanto usar, o pé esquerdo foi ficando bom. Não tão bom quanto o direito, melhor, porque o pé esquerdo era o pé que tinha sido treinado pela repetição obsessiva de um menino que não tinha outra coisa para fazer para além de chutar uma bola contra o muro.

E a repetição, quando é feita sem pressa, sem interrupção e sem objetivo, além de acertar, produz uma qualidade de gesto que nenhum treino organizado consegue reproduzir. Produz instinto. Foi esse instinto que Pelé viu naquele tarde de sábado de junho de 1968, quando o Galaxy Preto parou na rua de terra e Pelé desceu e ficou a olhar para o menino pontapear bola contra o muro.

 Pelé não viu habilidade. A habilidade era o que os rapazes das camadas jovens dos Santos tinham. Rapazes que faziam dribles bonitos, que davam canetas, que rematavam de longe e acertavam no ângulo de vez em quando. Pelé viu outra coisa, viu a repetição, viu a consistência, viu que o rapaz não estava a treinar um movimento para mostrar a alguém.

Estava a treinar porque treinar era a única coisa que ele tinha. E Pelé reconheceu aquilo porque conhecia aquilo porque tinha sido aquilo. Porque antes de ser Pelé, antes de ser o rei, antes de ser o maior jogador do mundo, tinha sido um rapaz descalço em Bauru, pontapeando bola contra uma parede com a mesma fome silenciosa que via agora naquele miúdo do mauco.

 Pelé não devia estar ali. O percurso normal entre a casa dele no Gonzaga e o estádio da Vila Belmiro não passava pelo Macuco, passava pela Orla, pela Avenida Ana Costa, pelas ruas largas e arborizadas que separavam o bairro nobre do bairro operário. Mas nessa tarde de sábado, a o motorista de Pelé, um homem calado chamado Toninho, que conduzia para Pelé desde 1965 e que conhecia cada rua de Santos como conhecia as linhas da sua própria mão, pegou um desvio porque a rua Conselheiro Nébias estava inundada e o galáxe não passava pela água sem arriscar afogar o

motor. Toninho virou à direita na rua Marquês de São Vicente, desceu pela travessa de São Benedito e quando passou pelo campo de vársia do Macuco, Pelé pediu para parar. O Toninho não perguntou porquê. Não precisava. Toninho trabalhava com Pelé há 3 anos e sabia reconhecer o momento em que Pelé via alguma coisa que lhe prendia a atenção.

O tom de voz alterava-se. Não ficava mais alto, nem mais baixo, tornava-se mais lento, como se Pelé estivesse a processar uma informação que ainda não tinha nome. O Toninho encostou o galáxi à beira da rua de terra batida, desligou o motor e esperou. Pelé ficou de pé, à beira do campo durante 4 minutos sem que o menino percebesse.

A chuva miudinha molhava o rosto de Pelé, escorria pelo cabelo curto, pingava no colarinho da camisa de botão azul marinho que usava por baixo de uma blusão de cabedal que a esposa tinha comprado numa viagem a Buenos Aires. Pelé estava de sapatos sociais, de calças de tergal cinzento, de relógio no pulso esquerdo.

 o relógio Omega que a CBD tinha dado aos jogadores campeões do mundo em 1962. Estava vestido para um compromisso, não para um campo de vársia, mas não se mexeu. Ficou ali de braços cruzados, olhando o menino com uma atenção que O Toninho lá dentro do carro reconheceu imediatamente. Toninho contou depois, muitos anos depois, há numa conversa informal com um jornalista santista que estava escrevendo uma matéria sobre os motoristas particulares dos jogadores do Santos nos anos 60, que naqueles 4 minutos Pelé não pestanejou.

 Não é que O Toninho estivesse a contar as piscadelas, é que a intensidade com que Pelé olhava o menino era visível mesmo de dentro do automóvel, através do pára-brisas molhado de chuva. A cerca de 15 m de distância. Era o olhar de alguém que tinha encontrou uma coisa que não estava procurando.

 O que Pelé viu naqueles 4 minutos foi o seguinte. Um menino descalço, magro, com cerca de 10 ou 11 anos, com as pernas finas e os joelhos sujos de terra, pontapeando uma bola de borracha contra um muro de bloco com o pé esquerdo. O menino recebia a bola de volta, dominava com a planta do pé esquerdo, ajustava a posição do corpo e chutava de novo. 31 vezes.

 Pelé contou 31 vezes sem falhar o domínio, sem falhar o ajuste, sem falhar o remate. A bola regressava do muro com ângulos diferentes, porque a superfície irregular dos blocos fazia ressaltar a bola de formas imprevisíveis e o menino se adaptava-se a cada variação com uma naturalidade que não era ensinada. Era construída.

Construída pela repetição de centenas, talvez milhares de tardes iguais àquela, sozinho à chuva ou ao sol, com a mesma bola e o mesmo muro. O Pelé chamou o menino, não gritou, não assobiou, disse apenas uma palavra que a chuva quase engoliu. Disse miúdo. O menino virou e o mundo de Nivaldo Correia dos Santos deixou de rodar durante 3 segundos.

 3 segundos em que o menino de 11 anos, que chutava a bola contra um muro de bloco no macuo, ficou de pé na chuva, olhando para o rosto do homem que via nos jornais que a dona Jurema trazia das casas onde lavava a roupa, o rosto que estava nos cartazes colados nos postes da aldeia Belmiro, o rosto que desenhava com lápis de cor nos cadernos da escola quando a professora não estava a olhar.

 Pelé de pé na beira do campo. olhando para ele, molhado de chuva, de braços cruzados, com um meio sorriso que não era de diversão, era de reconhecimento. Nivaldo não se mexeu, ficou parado com a bola debaixo do pé esquerdo, com a boca entreaberta, com os olhos arregalados de um menino que está a ver uma coisa que não deveria existir no mundo dele.

 Pelé deu dois passos para dentro do campo. Os sapatos sociais afundaram-se na terra molhada. A Pelé não olhou para baixo, não se importou com os sapatos, andou até ao menino, parou a cerca de 2 m de distância e disse uma coisa que o Nivaldo só conseguiu repetir palavra por palavra, 30 anos depois, numa entrevista para uma rádio comunitária de Santos que ninguém ouviu, Pelé disse: “Tu és canhoto?” Nivaldo disse que não.

 Disse que chutava com o direito, mas que treinava com o esquerdo no muro. Pelé ficou em silêncio por um momento. Depois perguntou por treinava com o esquerdo. Nivaldo disse que era porque estava de frente para o muro com o esquerdo. Pelé assentiu lentamente. Depois perguntou há quanto tempo ele fazia aquilo.

 Nivaldo disse que desde os 7 anos. 4 anos. Pelé olhou para o muro, olhou para o menino, olhou para o muro outra vez e disse uma frase que Nivaldo carregou para o resto da vida, como se carrega uma cicatriz visível para quem olha de perto, dorida quando o tempo muda, impossível de apagar. Pelé disse: “Tens uma coisa que não se ensina.

 Vai procurar os santos diz que eu mandei.” E depois fez uma coisa que transformou aquela frase numa passagem. Uma passagem que abria uma porta que Nivaldo nunca teria aberto sozinho. Pelé tirou do bolso do blusão de cabedal um cartão de visita que não era exatamente um cartão de visita. Era um pedaço de cartolina branca cortado à mão, com o nome Edson Arantes do Nascimento, escrito a tinta azul por uma gráfica do centro de Santos que fazia os cartões para o Santos Futebol Clube.

 No verso do cartão, Pelé escreveu com uma caneta que pediu emprestada a Toninho, que trazia sempre uma bique no bolso da camisa. E quatro linhas em letra miúda e inclinada para a direita que Nivaldo leu-o depois em casa. Debaixo da candeeiro da cozinha, com a mãe ao lado, as duas mãos a tremer. As quatro linhas diziam que o portador do cartão deveria ser recebido pelo departamento de camadas jovens do Santos Futebol Clube para um teste.

 Embaixo a assinatura de Pelé, assinatura essa que em 1968 era provavelmente a assinatura mais reconhecível do Brasil. Uma letra E, grande, seguida de um traço longo que cortava o papel como um risco de giz num quadro negro. Pelé entregou o cartão ao menino. Nivaldo pegou com as duas mãos, como quem apanha uma coisa que pode quebrar.

 Pelé colocou a mão no ombro do miúdo, a mão esquerda, a mão que usava para se apoiar quando caía no campo, a mão que tinha levantado três copas do mundo. E disse mais uma coisa antes de voltar para o carro. a disse: “Não pares de treinar o esquerdo”. Depois virou, caminhou de volta para o galáxi com os sapatos encharcados de lama, entrou pela porta de trás e o Toninho ligou o motor e saiu pela rua de terra batida em direção à Vila Belmiro.

O galáxe desapareceu na curva da travessa de São Benedito. Ivaldo ficou de pé no campo, novamente sozinho, com a bola debaixo do pé e o cartão na mão, olhando para o local onde o carro tinha estado, como quem olha para o lugar onde um raio acabou de cair. Nivaldo não rematou mais bola nessa tarde, foi para casa.

esperou pela mãe à porta, sentado no chão, com as costas encostadas ao cadeado, com o cartão guardado dentro da t-shirt para não molhar. Quando a dona Jurema chegou às 7:10, cansada, com as mãos vermelhas de tanto torcer roupa e o cabelo apanhado num lenço húmido, Nivaldo mostrou o cartão sem dizer nada.

 A dona A Jurema pegou no cartão, leu o nome na frente, virou-se, leu as quatro linhas no verso, leu a assinatura e olhou para o filho com uma expressão que Nivaldo não soube interpretar na hora. Não era alegria, não era incredulidade, era medo. O medo de uma mãe que fez uma promessa na igreja de Valongo de que o filho ia ter uma vida melhor e que de subitamente percebeu que a vida melhor talvez tivesse acabado de bater na porta.

 E que portas que se abrem assim de repente, sem aviso, podem ser as mais perigosas de todas. A Dona Jurema não dormiu nessa noite. O Nivaldo ouviu-a a mexer na cama lá por baixo, através das fendas do piso de tábua até às 3 da madrugada. O teste decorreu numa terça-feira de manhã, duas semanas depois do encontro no campo do Macuco.

 A Dona Jurema acordou Nivaldo às 5h30 da manhã. A A preparou um café com leite e um pão com manteiga na cozinha escura da casa e os dois saíram a pé em direção à Vila Belmiro porque não tinham dinheiro para o autocarro e porque a dona Jurema não quis pedir emprestado a ninguém para não dever favor. A caminhada demorou 45 minutos.

 Nivaldo foi de calções, t-shirt branca lavada e passado pela mãe na véspera e o único par de ténis que tinha, um conga azul desbotado com a sola gasta que a dona Jurema tinha comprado no Natal anterior com o dinheiro que juntou lavando roupa durante 3s meses. Chegaram à Vila Belmiro às 6:45. O estádio ainda estava fechado.

A Dona Jurema e o Nivaldo ficaram sentados num banco de jardim do outro lado da rua, em frente ao portão principal, esperando. A Dona Jurema segurava o cartão de Pelé dentro da bolsa de couro sintético que levava para o trabalho todo dia com os documentos de Nivaldo, a certidão de nascimento e o boletim da escola dobrados num envelope castanho.

Nivaldo estava em silêncio. O silêncio de um menino que sabe que as próximas horas vão decidir alguma coisa que ele não consegue nomear, mas que sente no estômago como uma pedra. O portão abriu a sete. Um funcionário do clube, um homem de meia-idade chamado senhor Geraldo, que trabalhava na portaria da Vila Belmiro desde os anos 50 e que conhecia cada jogador, cada dirigente e cada funcionário pelo nome.

 Olhou para dona Jurema e ao menino e perguntou o que queriam. A Dona Jurema tirou o cartão da bolsa e entregou-a sem dizer nada. O seu Geraldo leu o nome à frente, virou-o, leu o verso, leu a assinatura, levantou os olhos do cartão e olhou paraa dona Jurema com uma expressão que fazia parte surpresa e parte respeito. O respeito que qualquer funcionário dos Santos em 1968 tinha por qualquer coisa que viesse assinado por Pelé. O Sr.

 Geraldo disse para esperarem e desapareceu dentro do estádio com o cartão na mão. Voltou 15 minutos depois com um homem mais novo de calças de abrigo e t-shirt dos Santos, que se apresentou como Zé Carlos, coordenador das categorias de base. O Zé Carlos olhou para o cartão, olhou para o menino, perguntou a idade, perguntou a posição e disse que o teste ia ser às 9 no campo de treinos atrás do estádio, juntamente com outros 12 rapazes que estavam inscritos para seleção.

 Disse que o Nivaldo precisava de chuteira e caneleira. Dona Jurema disse que não tinham chuteiras. Zé Carlos olhou para o Conga desbotado nos pés do Nivaldo e disse que ia arranjar uma chuteira emprestada. saiu e voltou 10 minutos depois com um par de chuteiras de couro preto, número 36, que eram um maior número do que o pé de Nivaldo e que tinham o couro gasto e os fechos já quase lisas.

Nivaldo calçou as chuteiras, atou com força para compensar o tamanho extra e não reclamou. Não tinha o direito de queixar-se, não tinha o hábito de reclamar, não tinha ninguém a quem reclamar. O teste teve a duração de 1 hora e meia. 13 rapazes no campo divididos em dois equipas de seis com um sobrando que rodava.

Zé Carlos e dois treinadores adjuntos ficaram na lateral a observar, anotando em pranchetas com folhas de papel pautado. A Dona Jurema ficou na bancada de cimento atrás do Gol Norte sozinha. Ah, com a mala no colo e as mãos cruzadas em cima da mala, como quem reza. sem mexer os lábios. Nivaldo jogou os primeiros 20 minutos com medo.

 Medo de errar, medo de desiludir, medo de não ser suficientemente bom para justificar o cartão que Pelé tinha escrito. O medo travou-lhe as pernas. O medo fez ele jogar com o pé direito, o pé seguro, o pé que não tinha nada de especial. Nos primeiros 20 minutos, Nivaldo foi mais um. Um rapaz entre os 13. Nada que chamasse a atenção, nada que justificasse um cartão assinado por Pelé.

 Aconteceu aos 25 minutos. Uma bola espirrou de uma dividido a meio campo e sobrou para Nivaldo na intermediária esquerda, numa posição que era quase idêntica à posição em que ficava no campo do macu pontapeava contra o muro. A bola veio saltando irregular. Há com um efeito estranho que a fazia desviar paraa direita no último instante.

 Nivaldo não pensou. O corpo pensou por ele. O pé esquerdo foi ao chão. Dominou a bola na sola com o toque exato que 4 anos de muro tinham ensinado. Ajustou a posição e pontapeou com o peito do pé esquerdo em direção à baliza. A bola saiu rasteira, forte, com um efeito para dentro que fez ela curvar-se no ar como se tivesse decidido sozinha. onde ia entrar.

 Passou entre dois defesas, passou pela mão do guarda-redes, entrou no canto esquerdo da baliza com um barulho seco de uma bola a bater na rede que fez Zé Carlos deixar de escrever na prancheta e olhar para o campo com a caneta suspensa no ar. Foi o único golo de Nivaldo no teste, mas foi o golo que bastou, não pelo golo em si, pelo pé esquerdo, pela naturalidade do gesto.

 A pela forma como o corpo de um rapaz de 11 anos posicionou-se e executou um pontapé que a maioria dos adultos treinados não conseguiria executar com aquela precisão. O Zé Carlos viu e compreendeu o que Pelé tinha visto no campo do macuo. Não era habilidade, era instinto treinado, era a repetição transformada em natureza.

Nivaldo entrou nas camadas jovens dos Santos em julho de 1968 e durante os dois primeiros anos foi o melhor jogador de cada equipa em que jogou. Não o mais hábil, não o mais rápido, o mais dedicado. Nivaldo treinava com uma intensidade que os treinadores das camadas jovens estranhavam num rapaz de 11, 12 anos.

chegava antes de todos, saía depois de todos, ficava no campo sozinho depois do treino, repetindo o mesmo exercício que fazia no muro do macuo, receber, dominar, abater, até que o funcionário que trancava o estádio mandava-o ir embora. Os outros meninos das camadas jovens iam embora depois do treino para jogar videojogos, para ir à praia, para fazer as coisas que meninos de 11 e 12 anos fazem em Santos quando não estão a treinar.

 Nivaldo ficava, não porque fosse mais disciplinado, porque não tinha para onde ir. A casa do Macuco continuava trancada até às 7. A Dona Jurema continuava trabalhando. O seu agenor continuava na cadeira da varanda e o campo de treino dos santos era melhor do que o campo de terra do Macuo, da mesma forma que o muro do Macuco era melhor do que não ter muro nenhum.

 A fama de Nivaldo nas categorias de base cresceu lentamente nos primeiros dois anos e explodiu no terceiro. Em 1970, quando Nivaldo tinha 13 anos, Anul Santos sub-15 disputou um torneio regional em Campinas e Nivaldo marcou sete golos em cinco jogos, todos com o pé esquerdo. O jornal A Tribuna de Santos publicou uma nota na sessão de desportiva que dizia que o Santos tinha um miúdo canhoto nas categorias de base que lembrava Pelé pela precisão do chute. A nota era exagerada.

Nivaldo não lembrava Pelé em nada além do pé esquerdo, mas a comparação, uma vez feita, colou. e colou de um jeito que Nivaldo não podia controlar e que ninguém à volta parecia perceber como perigoso. A comparação com Pelé era o pior que podia acontecer a um rapaz de 13 anos nas camadas jovens dos santos. Não porque fosse injusta, era, mas porque criava uma expectativa que nenhum ser humano de 13 anos poderia cumprir.

Cada vez que Nivaldo entrava em campo, os olheiros, os treinadores, a nos jornalistas que apareciam de vez em quando para ver os jogos das categorias de base, todos olhavam para ele à espera de ver Pelé, esperando o golo impossível, à espera do drible que ninguém esperava, esperando a genialidade.

 Nivaldo não era um génio, era um menino dedicado, com um pé esquerdo treinado no muro e com uma dívida emocional com o homem que tinha parado um galaxy preto à beira de um campo de vársia e tinha dito que ele tinha uma coisa que não se ensina. A dívida era invisível, mas pesava. Pesava porque Nivaldo sabia que estava ali por causa de Pelé.

 Sabia que a porta que se abriu foi aberta por Pelé. Sabia que o cartão de cartolina branca com a assinatura de Pelé era a única razão pela qual o seu Geraldo abriu o portão da Vila Belmiro para ele e para a dona Jurema naquela manhã de terça-feira. Sem Pelé, Anivaldo seria mais um menino do macuo, chutando uma bola contra um muro até que o muro caísse ou o menino crescesse e fosse trabalhar para o porto ou na ferrovia ou em qualquer lugar que aceitasse um corpo jovem e uma escolaridade incompleta.

Pelé tinha dado a Nivaldo a hipótese que milhões de meninos brasileiros sonhavam. E a gratidão por esta hipótese se transformou com o tempo numa coisa que já não era gratidão, era obrigação. Era a sensação de que cada treino, cada jogo, cada golo e cada erro estavam a ser medidos não contra o que Nivaldo podia ser, mas contra o que Pelé tinha dito que ele era.

 Tem uma coisa que não se ensina. A frase era um elogio quando foi dita. Tornou-se um peso quando foi lembrada todos os dias e virou uma sentença quando Nivaldo percebeu que talvez a coisa que não se ensina também não fosse suficiente. Aconteceu em 1972, depois quando o Nivaldo tinha 15 anos e estava na equipa juvenil do Santos.

 O Santos disputava a Taça São Paulo de Futebol Júnior, o torneio mais importante das camadas jovens do Brasil. In Nivaldo era titular no meio-campo. O time do O Santos era favorito porque era o Santos, porque tinha a estrutura, porque tinha os treinadores, porque tinha o nome. E dentro da equipa, Nivaldo carregava um peso adicional que nenhum outro jogador carregava.

 Era o menino que Pelé tinha descoberto. Não oficialmente, não nos documentos do clube, mas nos bastidores, nos corredores, nos campos de treino. Todo o mundo sabia. O miúdo que o Pelé encontrou no Macuco, o canhoto que o Pelé mandou para o clube, o miúdo do cartão. As frases variavam, mas o sentido era o mesmo. Nivaldo não era apenas um jogador das categorias de base, era um projeto de Pelé.

 e projetos de Pelé não podiam falhar. A Taça São Paulo de 1972 correu bem nos primeiros jogos. O Santos passou da fase de grupos com três vitórias. Nivaldo jogou bem, marcou dois golos, fez assistências, mostrou o pé esquerdo que tinha virado a marca registada dele. Mas, nas quartas de final contra o Guarani de Campinas aconteceu a coisa que Nivaldo temia desde os 13 anos, sem saber que temia.

O jogo foi no estádio do Canindé, numa noite de quarta-feira, com cerca de 3.000 adeptos na bancada. O Guarani jogava fechado com dois defesas marcando Nivaldo, porque o Guarani sabia que o pé esquerdo de Nivaldo era a principal arma dos Santos. Nivaldo passou os primeiros 60 minutos sendo marcado de perto, sem espaço, sem conseguir receber a bola de frente, sem conseguir armar o remate com o esquerdo.

A estava frustrado, a estava nervoso. E quando um jogador de 15 anos fica frustrado e nervoso, o organismo reage antes da cabeça. Aos 62 minutos, Nivaldo recebeu a bola na zona intermédia esquerda, a mesma posição de sempre. a posição do muro e tentou o remate com o esquerdo. O defesa do Guarani chegou antes, não na bola, na perna.

 A entrada foi por baixo com a sola da chuteira, atingindo o tornozelo esquerdo de Nivaldo, num ângulo que fez virar o pé para dentro de uma forma que os pés não viram. Nivaldo caiu. Caiu aos berros. Caiu segurando o tornozelo com as duas mãos enquanto o campo do canindé girava ao redor dele e o barulho da multidão desaparecia e tudo se transformava num zumbido branco de dor.

A lesão foi uma torção de grau dois no tornozelo esquerdo com rotura parcial do ligamento talofibular anterior. Em 1972. A, o diagnóstico foi feito por um médico dos Santos que apalpou o tornozelo inchado no balneário do Canindé e disse que era uma torção feia, mas que ia cicatrizar em quatro a seis semanas.

Não havia ressonância magnética, não havia exame de imagem detalhado, havia um médico, duas mãos, e a experiência de quem já tinha visto centenas de torcidos tornozelos em 30 anos de medicina desportiva. O médico enfaixou o tornozelo, deu a Nivaldo um par de muletas de madeira que o Santos mantinha no departamento médico e disse para ficar de repouso.

 Nivaldo ficou de repouso durante três semanas. Na quarta semana voltou a treinar. Na quinta semana voltou a jogar. O tornozelo doía. Não a dor aguda da torção, uma dor diferente, surda, contínua, a que aparecia quando Nivaldo plantava o pé esquerdo no chão para pontapear e que fazia o cérebro enviar um sinal de alerta que interferia no gesto.

 O remate com o esquerdo, que antes era instintivo, automático, fluido, passou a ter uma fracção de segundo de hesitação. uma fracção de segundo em que o cérebro de Nivaldo dizia cuidado antes de o pé chegar à bola e essa fracção de segundo mudou tudo. Porque no futebol uma fracção de segundo é a diferença entre um golo e um remate para fora, entre um lance genial e um lance comum, entre o rapaz que Pelé viu no muro e o jogador que o Santos esperava, Nivaldo nunca recuperou o pé esquerdo por inteiro.

 Não fisicamente. Fisicamente, o tornozelo cicatrizou, o ligamento cicatrizou. A dor desapareceu passados ​​uns 6 meses, mas o medo não desapareceu. O medo ficou instalado no circuito neurológico entre o cérebro e o pé esquerdo, como um disjuntor que desarmava cada vez que a carga era alta demais. Nos treinos, quando a pressão era mais baixa, Nivaldo rematava quase como antes.

 Nos jogos, quando a pressão era real, quando os defesas chegavam perto, quando o corpo lembrava-se da sola da chuteira no tornozelo, o disjuntor desarmava e o pontapé saía um pouco mais fraco, um pouco mais impreciso, um pouco mais tarde do que precisava de sair. Os treinadores notaram, Zé Carlos, que tinha visto o golo do teste e que tinha acompanhado Nivaldo durante 4 anos, chamou o miúdo para uma conversa no escritório do departamento de escalões de formação.

Um pequeno quarto no subsolo da Vila Belmiro, com uma mesa de fórmica, foi duas cadeiras de plástico e um quadro na parede com a foto da equipa dos Santos, campeão do mundo, em 1963. Zé Carlos perguntou se o tornozelo ainda doía. Nivaldo disse que não. Zé Carlos perguntou se tinha medo de magoar de novo. Nivaldo disse que não.

 As duas respostas eram mentira. O tornozelo doía de vez em quando. Uma dor fantasma que aparecia nos dias frios e húmidos de inverno em Santos. E o medo existia vivo, presente, permanente. Mas Nivaldo não podia dizer a verdade, porque dizer a verdade era admitir fraqueza. E admitir fraqueza era perder a vaga.

 E perder a vaga era perder a única coisa que Pelé tinha dado para ele. Era devolver o cartão. Nivaldo continuou nas camadas jovens dos Santos até 1975, quando fez 18 anos. Nesse ano, o Santos decidiu quais Os jogadores juvenis seriam promovidos à equipa profissional. Nivaldo não foi promovido. A justificação oficial comunicada por Zé Carlos numa reunião breve no mesmo escritório do subsolo foi que o Santos tinha muitos médios no plantel profissional e que não havia vaga.

A verdadeira justificação que Zé Carlos não disse, mas que Nivaldo compreendeu sem precisar de ouvir, era que o pé esquerdo do Nivaldo já não era o pé esquerdo que Pelé tinha visto no muro do Macuco. Era um pé competente, um pé razoável, um pé que fazia o básico e que de vez em quando mostrava um lampejo do que tinha sido.

 Mas não era o pé que justificava um cartão assinado por Pelé. Não era o pé que tinha uma coisa que não se ensina. Era um pé que tinha aprendido a ter medo. E medo no o futebol é a doença que não tem cura. Nivaldo saiu dos Santos em Dezembro de 1975. Não houve despedida, não houve discurso. A, não houve reconhecimento dos s anos que tinha passado nas categorias de base, dos golos que tinha marcado, dos treinos que tinha feito depois de todo o mundo ia embora, das tardes que tinha passado sozinho no campo, repetindo o gesto do muro, até que o funcionário

mandava-o ir embora. Houve uma reunião de 5 minutos, um aperto de mão do Zé Carlos e uma porta que se fechou atrás dele quando saiu da Vila Belmiro pela última vez como jogador do Santos Futebol Clube. O Nivaldo voltou para o Macuco, voltou para casa da rua Luís de Camões. O seu agenor tinha morrido em 1973″, disse Rose, na mesma cadeira da varanda onde tinha passado os últimos 10 anos.

A Dona Jurema continuava a lavar roupa. A casa continuava com os mesmos dois divisões, o mesmo vão no telhado, o mesmo colchão de palha, que agora já não era de palha. A era um colchão de espuma que a dona Jurema tinha comprado a prestação numa loja do centro. O campo de vársia na esquina da Luiz de Camões com a travessa de São Benedito, continuava ali com a mesma terra batida, os mesmos golos de cano de ferro, o mesmo muro de bloco sem reboco.

 O muro tinha mais fissuras do que em 1968. As crianças do bairro continuavam jogando ali aos fins de semana, mas Nivaldo não voltou ao muro, não voltou a pontapear bola contra os blocos de concreto, não voltou a fazer o gesto que Pelé tinha visto e que tinha mudado a vida dele. Passou pelo campo de vársia todos os dias, na ida e no regresso do trabalho, e não olhava.

 Olhar era recordar e recordar era sentir a dor que não era do tornozelo. Nivaldo conseguiu emprego no porto de Santos como assistente administrativo num escritório de despacho aduaneiro que ficava na rua do comércio a perto do CAIS. O emprego pagava um salário mínimo e meio e exigia que Nivaldo ficasse sentado numa cadeira de escritório 8 horas por dia, preenchendo formulários de importação e exportação com uma esferográfica e uma caligrafia que tinha aprendido na escola do mauco.

 O escritório cheirava a papel velho, tinta de carimbo e café requentado. A janela dava para os guindastes do Cais, os mesmos guindastes que tinham derrubado a carga na perna do seu agenor 15 anos antes. Nivaldo olhava para os guindastes de vez em quando, durante as pausas, e pensava em coisas que não dizia a ninguém.

 Os anos passaram com a velocidade silenciosa com que os anos passam quando nada de extraordinário acontece. Nivaldo trabalhou no escritório de despacho aduaneiro de 1976 a 1990. A casou em 1980 com uma mulher chamada Marlene, que trabalhava numa loja de tecidos no Gonzaga e que nunca soube da história do cartão de Pelé até 1985, quando aconteceu a coisa que fez o Nivaldo contar.

Em 1985, 17 anos depois daquela tarde de chuva no Macuco, Nivaldo Correia dos Santos estava de pé na fila de um banco na rua João Pessoa, no centro de Santos, à espera para pagar uma conta de luz atrasada quando viu Pelé entrar pela porta da frente. Pelé não entrou pela fila, entrou por uma porta lateral que o gerente abriu-lhe, porque em 1985, Pelé já não era apenas o maior jogador do mundo, era uma instituição, um marca, um nome que abria portas laterais em bancos, restaurantes, aeroportos e em qualquer lugar do planeta onde alguém

soubesse o que era o futebol. E Pelé entrou acompanhado por dois homens de fato que pareciam assessores ou advogados. Cumprimentou o gerente com um aperto de mão e seguiu para uma sala reservada no fundo da agência. Nivaldo ficou parado na fila, não saiu da fila, não foi atrás de Pelé, não tentou falar. ficou parado com o recibo da conta de luz na mão, olhando para o corredor por onde Pelé tinha desaparecido, com o coração a bater num ritmo que não batia desde o dia do teste na Vila Belmiro.

À sua frente, na fila, uma senhora idosa queixava-se do calor e da demora. Atrás dele, um homem de meia-idade lia o jornal. Ninguém na fila reparou que o homem de 28 anos de camisa social e calças de tergal que estava ali a pagar uma conta de eletricidade em atraso tinha acabado de ver o homem que tinha mudado a vida dele aos 11 anos e que não sabia se devia ir até lá a se devia falar, se devia dizer quem era, se devia mostrar que existia.

Nivaldo ficou na fila, pagou a conta, saiu do banco, parou no passeio da rua João Pessoa, debaixo do sol de Março, que batia no asfalto e fazia com que o ar tremer, e ficou a olhar para a porta do banco durante uns 5 minutos, aguardando Pelé sair. Pelé saiu. Saiu pela mesma porta lateral, acompanhado dos mesmos dois homens de fato.

 Caminhou em direção a um carro preto estacionado na frente. Não mais um Galaxy, um carro mais novo, mais moderno, com um motorista que não era o Toninho. Pelé caminhou a menos de 3 m de Nivaldo, a menos de 3 m. A distância entre o meio de um passeio e a beira da calçada. A distância entre dois homens que poderiam se tocar se esticassem o braço.

 Nivaldo abriu a boca. Ia falar, ia dizer o seu nome, ia dizer que era o menino do mauco. Depois ia dizer que tinha o cartão guardado em casa dentro de uma caixa de sapato, no fundo do guarda-roupa, junto com a certidão de nascimento e a certidão de casamento. E as fotos do equipa juvenil dos Santos. ia dizer tudo isso, mas não disse.

 Não disse porque no momento em que abriu a boca, Pelé olhou para ele, olhou diretamente para ele. Os olhos de Pelé passaram pelo rosto de Nivaldo, como passam os olhos de qualquer pessoa pelo rosto de qualquer desconhecido numa calçada de santos numa tarde de março, sem reconhecimento, sem pausa, sem o menor sinal de que aquele rosto significava alguma coisa.

Os olhos passaram e foram-se embora. Pelé entrou no carro. O carro arrancou. Inivaldo ficou na calçada com a boca entreaberta e o recibo da fatura da luz na mão. A olhar para o carro desaparecer na rua João Pessoa, como tinha olhado o Galaxy a desaparecer na travessa São Bento 17 anos antes. Naquela noite, Nivaldo contou tudo a Marlene.

 contou sobre o campo do mauco, sobre o muro, sobre a chuva, sobre o galaxy preto, sobre pelé de pé à beira do campo, sobre o cartão, sobre o teste, sobre os 7 anos nas camadas jovens, sobre o tornozelo, sobre o medo, sobre a porta que se fechou, sobre a fila do banco, sobre os olhos de Pelé passando pelo rosto dele sem parar.

 contou tudo de uma vez, sentado na cozinha da casa, que ele e Marlene alugavam no embaré com um copo de café frio na mão e a voz de um homem que está a tirar de dentro do peito uma coisa que guardou demasiado tempo. Marlene ouviu em silêncio. Quando Nivaldo terminou, ela fez uma pergunta, uma única questão.

 perguntou se o Nivaldo achava que o Pelé o ia ter reconhecido se ele tivesse falado. O Nivaldo ficou calado por um tempo, depois disse que não. Disse que o Pelé tinha visto um rapaz de 11 anos num campo de vársia durante 4 minutos numa tarde de chuva em 1968. Tinha visto um gesto técnico, uma repetição, uma coisa que reconheceu. Tinha escrito um cartão, tinha dado uma chance. e tinha ido embora para Pelé.

Aquilo foi um gesto, um gesto entre milhares, um momento de generosidade entre centenas de momentos de generosidade que Pelé distribuía pelo mundo, porque era quem era e porque via nos outros o que os outros não viam nos si mesmos. Para Nivaldo, aquele momento foi a vida inteiro e essa era a crueldade. Não uma crueldade intencional, uma crueldade de escala.

 A crueldade que existe quando o momento mais importante da vida de uma pessoa é, lutar por outra pessoa, um gesto que não mereceu ser lembrado. Nivaldo disse a Marlene nessa noite uma coisa que ela repetiu muitos anos depois, em 2003, a um repórter de um jornal de bairro de Santos que estava fazendo uma reportagem sobre histórias esquecidas do futebol santista.

 Nivaldo disse que não tinha raiva de Pelé, disse que nunca teve. disse que o que sentia era uma coisa que não tinha nome em português, um misto de gratidão e luto. Gratidão pela porta que se abriu, luto pela porta que se fechou e a certeza de que as duas portas eram a mesma porta, a porta que Pelé abriu com um cartão de cartolina branca numa tarde de chuva e que se fechou sozinha quando o pé esquerdo de Nivaldo deixou de ser o pé esquerdo que Pelé tinha visto.

O Ivaldo disse mais uma coisa naquela noite, ó. Disse que a frase que Pelé disse-lhe no campo do macuo, você há uma coisa que não se ensina. Era verdade quando foi dita. O problema era que a coisa que não se ensinava também não se protegia. Não tinha armadura, não tinha garantia, não tinha seguro contra uma sola de chuteira num tornozelo de 15 anos numa noite de quarta-feira no Canindé.

 A coisa que não se ensinava era frágil. E ninguém tinha avisado o Nivaldo disso. Nem o Pelé, nem o Zé Carlos, nem a dona Jurema, ninguém, porque ninguém sabia. Porque a fragilidade do talento é a coisa que o futebol não ensina a ninguém, nem pros que t, nem pros que não t. Nivaldo morreu em 2011, aos 54 anos, de um enfarte fulminante.

 A na sala da casa que tinha comprado no embaré com o dinheiro de 35 anos de trabalho no gabinete de despacho aduaneiro do porto de Santos. Marlene encontrou-o sentado no sofá com a televisão ligada num jogo dos Santos para a Libertadores. O controle remoto estava no chão junto ao sofá. O chávena de café estava em cima da mesinha.

 A expressão no rosto de Nivaldo, segundo Marlene, era de calma, como se tivesse dormido, como se tivesse finalmente deixou de ouvir a frase que carregou por 43 anos. A Dona Jurema morreu antes dele em 1998 aos 72 anos, na mesma casa da rua Luís de Camões, no Macuco. No velório, Nivaldo encontrou o cartão de Pelé dentro de uma gaveta da cómoda da mãe, enrolado num pedaço de papel de seda, juntamente com a certidão de nascimento dele, o boletim da escola, e uma estampa de Nossa Senhora que a dona Jurema levava para

igreja de Valongo, cada vez que ia cumprir a promessa que nunca contou para ninguém. O cartão estava amarelado, mas legível. A assinatura de Pelé ainda visível. As quatro linhas no verso, ainda legíveis. Nivaldo segurou o cartão durante algum tempo no velório, enquanto as pessoas em redor conversavam em voz baixa e o cheiro a velas acesas misturava-se com o cheiro de café que alguém tinha feito na cozinha.

 Depois guardou o cartão no bolso da camisa e não mostrou a ninguém. Marlene guardou o cartão depois da morte de Nivaldo. Guardou na mesma caixa de sapato onde Nivaldo guardava, no fundo do roupeiro do quarto do embaré. O cartão continua lá numa caixa de sapatos, no fundo de um guarda-roupa, numa casa no embaré em Santos.

 Há a oito quarteirões da aldeia Belmiro e há todo um mundo de distância de tudo o que a aldeia Belmiro representa. O campo de vársia do Macuco não existe mais. O terreno foi vendido pela municipal nos anos 90 e hoje tem um estacionamento no lugar. O muro de bloco sem reboco foi derrubado quando o terreno foi pavimentado. Os golos de cano de ferro que o seu Valdemar soldou por duas garrafas de pinga foram arrancados e vendidos como sucata.

 Não sobrou nada do campo onde Pelé parou o Galaxy e viu um menino de 11 anos chutar uma bola contra um muro na chuva. Não sobrou nada além do cartão amarelado na caixa de sapatos e da história que Nivaldo contou a Marlene numa noite de 1985 e que Marlene contou a um repórter de jornal de bairro em 2003 e que o repórter publicou numa notícia de meia página que quase ninguém leu.

 M Pelé nunca soube o que aconteceu ao Nivaldo. Não porque fosse indiferente, porque não tinha como saber. Porque em 1968, Pelé parava o carro para olhar para rapazes em campos de vársia com uma frequência que as pessoas que o rodeiam não registavam, porque Pelé via talento em todo o lado, nos campos de terra batida, nas praias, nas ruas, e quando via, fazia o que podia.

Dava um conselho, escrevia um bilhete, mandava procurar o clube e depois seguia. seguia porque tinha de seguir, porque havia um jogo no sábado, outro no quarta-feira, outro no sábado seguinte, porque o Santos jogava 100 jogos por ano e Pelé estava em todos. Porque o mundo de Pelé era demasiado grande para caber a história de cada menino com quem se cruzou numa tarde de chuva.

 E essa é talvez a parte mais difícil de contar. Não a lesão, não a desilusão, não o banco, não a fila. A a parte mais difícil é que o momento que definiu a vida de Nivaldo Correia dos Santos, os 4 minutos à chuva, o cartão, a frase, a mão no ombro, este momento para Pelé não teve peso, não teve nome, não teve rosto.

 Foi mais uma tarde, mais um campo, mais um menino. Gesto de generosidade que abriu uma porta e mudou uma vida inteira foi, para quem fez o gesto tão natural e tão esquecível quanto respirar. E é isso que significa cruzar o caminho do maior jogador da história. Não é ser visto, é ser visto por um instante e depois esquecido.

 Não por crueldade, mas por escala. Porque o homem que te viu vê mil outros. Porque a mão que tocou o teu ombro toca mil outros ombros. Porque a frase que mudou a tua vida é uma frase que disse mil vezes em milos para mil rapazes que chutavam a bola na chuva com a mesma fome que você. Manivaldo foi um deles.

 O cartão amarelado é a prova, a caixa de sapatos é o túmulo e o muro que já não existe é o único lugar do mundo que conhece a verdade inteira. que numa tarde de sábado de junho de 1968, um rapaz de 11 anos estava sozinho na chuva, chutando a bola com o pé esquerdo e que o maior jogador de todos os tempos parou para olhar.

 Parou, olhou e viu um coisa que não se ensina. Deu um cartão, disse uma frase e foi-se embora. E o menino ficou ficou com o cartão, com a frase, com o pé esquerdo, com o muro, com a chuva e com o peso de ter recebido do vento uma promessa que a pedra não conseguiu segurar. O campo virou estacionamento, o muro virou pó, mas o cartão continua lá, na caixa de sapatos, no fundo do guarda-roupa, em Santos, a à espera que alguém abra e leia as quatro linhas que Pelé escreveu com uma bica emprestada do motorista numa tarde de chuva para um menino que nunca

mais se lembrou e que nunca conseguiu esquecer. M.

 

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