VEJA O QUE ESCONDEM DE VOCÊ SOBRE AS CASAS DO RETIRO DOS ARTISTAS: COMO SÃO POR DENTRO, QUEM MORA LÁ
Já parou para pensar no que acontece com um artista famoso quando os os holofotes apagam-se, quando o telefone deixa de tocar, os convites desaparecem e o dinheiro que parecia infinito simplesmente acaba? Na televisão eles eram reis. Novela das 8, Programa de Humor, Filme no domingo à tarde. Ganharam fortunas, compraram mansões, viveram como se o aplauso fosse eterno.
Só que o aplauso parou e quando parou, o dinheiro já tinha ido embora. Alguns torraram tudo, outros perderam para doença, para separação, para golpe. Teve quem ficou sem casa, sem seguro de saúde, sem ter o que comer. Gente que um dia foi capa de revista, apareceu na internet a pedir à Pix para pagar renda.
Estou num momento muito delicado e com muita dor. Então, por favor, pessoal, e quem me puder ajudar, agradeço de todo o meu coração. E muitos deles foram parar ao mesmo lugar, um terreno em Jacarpaguá, no Rio de Janeiro, com mais de 50 casinhas coloridas. Esse lugar chama-se Retiro dos Artistas.
Mas como é viver ali de verdade? As casas são dignas? Eles comem bem? São bem tratados pelos funcionários? ou são explorados, pagam alguma coisa e por cada um foi parar ali? Hoje vai entrar nesse lugar, vai ver tudo por dentro e vai ouvir dos próprios moradores como é a vida lá, as suas histórias, as suas rotinas, o que pensam, o que sentem, cada uma mais emocionante que a outra.
E a gente começa por entrar nesse lugar, porque à primeira vista parece demasiado bom para ser verdade. Muitos artistas, quando a carreira abranda, quando o corpo já não ajuda como antes, quando o dinheiro acaba ou simplesmente quando não tem mais ninguém por perto, acabam no mesmo lugar. Uns por necessidade, outros por opção, todos pelo mesmo portão.
O retiro dos artistas é em Jacar Paguá, no Rio de Janeiro. Um terreno grande, 15.000 m², com mais de 50 casinhas, uma do lado da outra, organizadas em pequenas ruas curtas, cheias de árvores, bancos e sombra. As fachadas são pintadas de cores diferentes, amarela, azul, verde, lilás. A ideia foi da diretora Cida Cabral, que quis dar vida aquilo e tirar qualquer cara de instituição.
De longe, parece uma daquelas vilas do interior que a gente conhece. Ou porque cresceu numa ou porque ia visitar a avó nas férias de julho. O local existe desde 1918, mais de 100 anos a acolher artistas brasileiros. As casas são simples, uns 40 m² cada uma, tudo térreo. Quarto, sala, cozinha americana e casa de banho. Portas largas, rampas, barras de apoio, piso antiderrapante.
Tudo adaptado para quem já não se mexe como antes. Segundo o que mostram, já vêm equipadas. Televisão, frigorífico, enxoval completo. O artista chega e traz o que é seu. Fotos de novela, troféus, instrumentos musicais, pedaços de uma vida inteira. À frente de quase toda a casa existe uma varandinha, cadeira, vaso de plantas, às vezes um porta-retratos ou um santinho.
De tarde, pelo que contam, os moradores sentam-se ali, tomam café, conversam com o vizinho. O retiro diz ainda que oferece refeitório com seis refeições diárias. Teatro, cinema, biblioteca, piscina, salão de beleza, fisioterapia, psicólogo, enfermagem, 24 horas. e plano de saúde e que ninguém paga renda, nada.
Tudo suportado por donativos, olhando assim de fora, é um lugar bonito, bem montado, bem pensado. Todo o vídeo que encontra na internet sobre o retiro mostra exatamente isso, as cores, as casinhas, a estrutura e está tudo certo. Mas precisamos de ir um pouco mais fundo do que o que anda espalhado por aí. Porque uma coisa é o que mostram quando a câmara chega, outra coisa é o dia a dia de quem ali acorda, almoça e dorme.
E para isso precisamos de ouvir de quem lá vive de verdade. Não o que o site diz, não o que a reportagem mostrou, o que o morador sente. E o primeiro é um rapaz que você com certeza conhece, que fez rir o Brasil inteiro durante 14 anos. Só que a parte da história dele que vai ouvir agora não tem graça nenhuma.
Se assistiu televisão no Brasil entre 2001 e 2014, conhece esse rosto. Marcos Oliveira, o Beiçola, o pasteleiro mais famoso da televisão brasileira. A grande família esteve 14 anos no ar. 14.º E durante todo este tempo, o Beiçola entrou na casa de milhões de brasileiros toda a semana. Era o tipo de personagem que imitava no almoço de domingo, que se tornava piada no trabalho na segunda-feira, um património afetivo do país.
Só que a série acabou e quando acabou a vida do Marcos Oliveira tornou-se outra história, só que desta vez sem graça nenhuma. Em 2020, teve um enfarte. Depois vieram os internamentos, problemas de saúde que não paravam e juntamente com a saúde foi-se o dinheiro. As dívidas foram crescendo até chegar num número que assusta qualquer um.
R$ 350.000. R0,000. Veio ordem de despejo. E depois o Marcos fez uma coisa que dói só de imaginar. gravou um vídeo a pedir ajuda com chave Pix. O tipo que fez milhões de brasileiros rirem estava ali em frente de uma câmara de telemóvel a pedir dinheiro para não ir para a rua. Quando o retiro dos artistas ofereceu-lhe uma vaga, o Marcos recusou. Motivo? Os cães.
Ele tinha mais de um. E o retiro aceita apenas um animal por residente. E ele não queria deixar nenhum para trás. preferiu continuar na luta. Até que em 2025 ele mudou de ideias. E depois vem a parte dessa história que muda tudo, porque quem preparou a sua casa no retiro não foi um desconhecido, foi Marieta Severo, a dona Nenê, a mesma mulher que fez a mulher do Beiçola durante 14 anos na ficção, cuidando dele de verdade quando a vida real tornou-se mais dura do que qualquer guião. A casa é a número seis.
quarto, sala, casa de banho, cozinha, sofá, televisão, frigorífico, tudo arrumado, tudo pronto. E quando o Marcos entrou naquela casa pela primeira vez e pegou no chave na mão, chorou, disse: “Nunca imaginei um cantinho assim, tão bonito, tão delicado, saboroso. Hoje vive ali com a cadela Lolita e diz que quer voltar a trabalhar, quer cantar, preparar os seus concertos, voltar ao palco.
O Beiçola não desistiu, só precisava de um chão firme para pisar. Mas a história do Marcos tem um pormenor que vale a pena prestar atenção. Chegou ao retiro com ajuda, com a Marieta ao lado, com a casa montada com carinho. E isso faz com que toda a diferença, porque o próximo artista que vai conhecer nada disso.
Fez mais de 40 novelas na Globo e chegou àquele portão completamente sozinho, sem um tostão no bolso e sem dinheiro nem para comprar os próprios medicamentos. A maioria das pessoas olha para um ator com mais de 40 novelas no currículo e pensa: “Este está feito na vida”. E faz sentido pensar assim: “40 novelas é muita coisa.
São décadas de trabalho, de o salário cair todos os meses, de rosto estampado na televisão do país inteiro. Cláudio Corrêa e Castro era esse ator. Trabalho atrás de trabalho, salário elevado, mansão em Niterói, casamento de décadas, o tipo de carreira que qualquer ator brasileiro sonharia em ter.
Só que a realidade do Cláudio era outra. Veio uma separação traumática. E no meio da confusão, envolveu-se com a giotagem. Para quem não sabe o que isto significa na prática, é pegar dinheiro emprestado com juros que engolem tudo. E foi exatamente o que aconteceu. A mansão foi-se embora, o dinheiro desapareceu, as poupanças de uma carreira inteira viraram pó.
Em 2003, o O Brasil ficou em choque. O homem, que era sinónimo de televisão brasileira, se mudou para uma casinha simples no retiro dos artistas. Chegou diabético, hipertenso e sem dinheiro nem para comprar os próprios medicamentos. Na altura, o próprio admitiu: “Ganhei muito, mas gastei tudo. As dívidas atormentam-me”.
E depois vem a parte desta história que ninguém esperava. Porque o Cláudio não parou. Vivendo no retiro, continuou atuando. Gravou Chocolate com Pimenta. Gravou Senhora do Destino, duas novelas. De dentro dali, o ator que chegou sem nada encontrou naquele lugar a única coisa que precisava para continuar: dignidade.
Um tecto, comida, medicamentos e a hipótese de fazer o que sempre soube fazer. Cláudio morreu em 2005. Tinha 77 anos, complicações de uma cirurgia cardíaca. Os últimos anos da vida dele foram ali, naquela casinha, entre colegas que viviam histórias parecidas. O retiro não devolveu a mansão nem o dinheiro, mas devolveu algo que já não tinha, um lugar no mundo.
E sabe o que impressiona? O Cláudio perdeu o dinheiro, a casa, a saúde, perdeu quase tudo. Mas pelo menos todo o mundo ainda sabia quem ele era. O nome dele ainda abria portas, as pessoas ainda reconheciam aquele rosto. Agora imagina perder até isso, perder o reconhecimento. Porque o próximo artista que vai conhecer famoso, era querido, fez o Brasil rir.
E se se cruzar com ele hoje na rua, não reconhece. Se tem mais de 35 anos e assistia à escolinha do professor Raimundo, conhece este cara, Fernando Wellington. Ele era o António Zorra, a sátira do Zorro. Capa, espada, bigode e aquele humor de bancada que só o Chico Anísio sabia montar. Era presença fixa no programa. Depois fez o motorista Mendonça em História de Amor em 1995, novela de horário nobre.
O rosto dele estava na televisão do Brasil inteiro e depois desapareceu. O Fernando mora no Retiro dos Artistas desde 2022. Leva uma vida tão reservada que a maioria das pessoas nem sabe que ele está ali. Até que um vídeo apareceu na internet. Ele estava a tocar guitarra e a cantar num restaurante do rio como fonte de rendimento.
Barba comprida e branca, cabelo grisalho, rosto completamente diferente. Os comentários eram todos iguais. Esse não pode ser o mesmo cara, mas é. Este é o Fernando Wellington hoje, com 66 anos. E tem uma parte desta história que quase ninguém conhece. Em 2014, Fernando foi detido por injúria racial, um episódio que pegou pesado.
Há quem diga que ele pagou demasiado por um erro. Tem quem Argumente que as consequências foram justas. O facto é que aquilo fechou portas. As que ainda estavam abertas foram fechando uma a uma, sem trabalho, sem convites, sem rendimentos. Ele acabou no retiro. O Fernando é talvez o caso que mais entrega o que o título deste vídeo promete: Um famoso esquecido, um rosto que todo o país conhecia e que hoje passa despercebido num qualquer restaurante do Rio de Janeiro.
O Cláudio perdeu o dinheiro, o Fernando perdeu até a identidade. Duas histórias pesadas, umas atrás das outras. Mas seria injusto para este lugar se a gente parasse por aqui, porque dentro do retiro também há pessoas que não foram para lá em desespero, houve quem fosse para sobreviver e foi exatamente isso que o próximo morador disse quando atravessou aquele portão pela primeira vez.
Paulo César Pereio era o tipo de ator que não pedia licença para entrar em cena. chegava, tomava conta e pronto. O bad boy do cinema brasileiro. Mais de 60 filmes no currículo, irreverente, brigão, intenso, daqueles que amavas ou estranhava, mas ignorar não ignorava. E olhem que curioso, ao contrário do Cláudio que perdeu tudo, ao contrário do Fernando que foi esquecido, o Pereio tinha apartamento, vivia em São Paulo, tinha um teto, só que vivia sozinho.
E quando a pandemia chegou em 2020, a idade pesou, a saúde complicou-se e viver sozinho tornou-se demasiado perigoso. um tropeção, uma queda, uma febre a meio da madrugada e não estava lá ninguém. Foi aí que ele tomou a decisão. E a frase que ele disse quando chegou ao retiro ficou marcada em toda a gente que ouviu.
Pensei que vir para cá seria uma forma de me salvar. Vim para sobreviver. O pereio detestava a palavra asilo. Detestava a reforma. Para ele, o retiro não era nenhuma das duas coisas, era o local onde conseguia viver sem depender da sorte. E montou a casa à maneira dele, livros por todo o lado, cartazes de filmes na parede. Passava o dia a conversar, a passear, sendo ele próprio.
De vez em quando recebia a visita de Cissa Guimarães, a ex-mulher. O retiro deu-lhe o que a vida sozinho em São Paulo já não dava. segurança e companhia. Pereio morreu em 2024. Tinha 83 anos, doença hepática avançada. Foi levado para o hospital de madrugada. Não morreu abandonado num apartamento vazio. Não morreu esquecido.
Morreu num sítio onde havia gente que sabia o seu nome, que conhecia a história dele, que cuidou dele até ao fim. E talvez isso diga mais sobre o retiro do que qualquer número. Mas agora mudamos um pouco o tom desta conversa, porque a próxima moradora não chegou ao retiro sozinha, nem desesperada.
Ela chegou com o filho do lado, com a casa renovada e até a cor da parede ela escolheu. Se a gente passou os últimos capítulos a falar de gente que chegou ao retiro sem nada, a história da Iris é diferente. Ela chegou com amor, Íris, Brudzi, Musa, Vedete, bailarina, uma das figuras mais marcantes que a televisão brasileira já teve.
Se viveu os anos 80 e 90 na frente da TV, viu esta mulher brilhar. Vale tudo, belíssima, pecado capital, selva de pedra. Novelas que ficaram na memória de uma geração inteira. Depois de décadas de carreira, a Iris foi viver para a Flórida com o filho, Marcelo Caruzo. Ficou lá anos, até que perdeu o green card e teve de regressar ao Brasil.
Só que não voltou como foi, voltou com um diagnóstico de princípio de Alzheimer. Em 2024 foi acolhimento no Retiro dos Artistas, na casa que era do compositor Betinho, que já tinha falecido. E o filho não deixou por menos. Gastou R$ 30.000 a remodelar tudo. Trocou os móveis, adaptou o espaço, arranjou cada detalhe.
Mas o pormenor mais bonito desta história inteira está numa simples lata de tinta. O filho perguntou para ela de que cor queria a parede e ela escolheu o lilás. Aos 90 anos com Alzheimer, a Iris ainda sabia a cor que queria na parede da casa dela. Ele pintou lilás da forma que ela pediu. E quando o Marcelo lhe perguntou se ela estava gostar de viver ali, a resposta dela calou toda a gente. Eu gostar não.
Só vou daqui se me põem. 90 anos. Alzheimer. E esta firmeza? Essa é a Íris. A Iris teve sorte. Teve o filho do lado, a reforma, o carinho, a cor na parede. Mas sabe o que é bonito? Dentro do retiro, ela não é exceção. Tem mais gente ali que encontrou vida nova. E o próximo morador é a prova disso. Ele perdeu o filho, ficou sozinho no mundo e dentro daquelas casinhas coloridas encontrou algo que não esperava, uma família.
A Íris teve o filho ao lado. O Jaime perdeu o seu, Jaime Leibovit. Se você assistiu ao América, lembra-se do Bill, um dos personagens mais perturbadoras do que a A Globo já o colocou no ar. Depois veio fina Estampa, Malhação e mais recentemente Família é tudo, ator a sério. Daqueles que entram na personagem e você esquece que é ficção.
Só que a vida real do Jaime foi mais dura do que qualquer novela. O seu único filho morreu num acidente de viação. Assim, de uma só vez, sem aviso, sem despedida. E de repente o Jaime viu-se sozinho no mundo, sem família por perto, sem ninguém em casa, sem aquela pessoa que dava sentido a tudo.
Foi para o retiro no meio da pandemia e o que aconteceu lá dentro é o contrário do que a maioria das pessoas espera. Não parou, não se fechou, não desistiu, continua a trabalhar na Globo, esteve em família é tudo e em Etamundo Melhor, dá workshops gratuitos de representação dentro do retiro para os outros moradores e brinca com aquele humor de quem já passou por tudo, nunca foi tão procurado.
Dizem que os agentes de casting vão lá buscar atores. O retiro tornou-se uma espécie de montra às avessas. E tem um pormenor na casa dele que diz tudo sobre quem é este homem. A estante do quarto está cheia de livros, obras completas do Freud. Define-se como exriip, o tipo desde logo que sempre procurou viver em comunidade, partilhando o espaço com pessoas parecida.
E foi exatamente isso que o retiro lhe deu. Vizinhos que se conhecem pelo nome, conversas no corredor, atividades todos os dias, a sensação de pertencer a algum lugar. O Jaime perdeu o filho e encontrou uma família, mas não é o único que encontrou vida nova ali dentro. O próximo morador chegou ao retiro com a mesma desconfiança que muita gente tem, pensando que era um asilo, que era um fim de linha.
e descobriu que estava completamente errado. Se assistiu televisão em 1985, sabe quem é este homem. Mesmo que não se lembre do nome, lembra-se do personagem professor Astromar Junqueira, o lobisomem de Roque Santeiro. Aquela telenovela que parava o Brasil. Rua vazia na hora do capítulo, bar cheio com a televisão ligada, o país inteiro colado no sofá e o Rui Rezende estava ali no meio de tudo aquilo.
Hoje o Rui tem 87 anos e vive no Retiro dos Artistas desde 2019. A história dele é assim. A companheira mudou-se para Miami para ficar perto da família. Ele foi junto, tentou acompanhar, mas percebeu que não tinha mais condições para trabalhar para ajudar no sustento. Voltou para o Brasil. Só que o apartamento em Belo Horizonte era demasiado grande e demasiado caro para manter sozinho.
Sem ter para onde ir, pediu ajuda ao sindicato dos artistas e conseguiu uma vaga no retiro. Mas o Rui não chegou feliz, não. Chegou desconfiado. Nas palavras dele, vim meio ressabiado. Pensei que era um asilo. E é exatamente é isso que a maioria das pessoas pensa quando ouve falar deste lugar. Asilo de famoso, depósito de gente que não serve mais. Fim de linha.
Só que o Rui mudou de ideia. Não é um asilo. Aqui estou rodeado de atenção. Tenho a minha casinha, os meus livros, o cinema. A minha estadia tem sido boa. Não tenho nada a reclamar. Transformou a sua casa num cantinho de paz. livros, silêncio, rotina ao ritmo dele, sem preocupação com a renda, com médico, com comida pela primeira vez em muito tempo.
Pode focar-se apenas no que gosta, ler, escrever, viver em paz. E disse uma coisa que é válida para qualquer um dos nós. Até os milionários um dia irão precisar de ajuda. O Rui chegou, achando que era o fim, e descobriu que era apenas um capítulo diferente. Mas se o Rui te surpreendeu, espera até conhecer o próximo casal.
Eles são conhecidos no mundo inteiro, tem mais de 80 anos. E o que estão a fazer lá dentro é de deixar qualquer pessoa de boca aberta. Essa história é diferente de todas as outras, porque não é de um artista que ficou famoso no Brasil, é de dois artistas que tornaram-se famosos no mundo, Flora Purin, uma das maiores vozes do jazz que o O Brasil já produziu, não Brasil, no planeta.
Airto Moreira, percussionista lendário, o tipo de músico que qualquer jazista de Nova Iorque ou Londres conhece pelo nome. Casados, companheiros de vida. e de palco. Em 1967, em plenos anos de Chumbo, os dois saíram do Brasil e foram para os Estados Unidos. E aí rebentaram Jazz Fusion, palcos internacionais, gravações com gente que o mundo inteiro reverencia, décadas de carreira lá fora, o tipo de trajetória que vira a documentário e virou. Mas antes disso, a vida apertou.
Eles voltaram para o Brasil. E o regresso não foi fácil. Dificuldades financeiras, uma pneumonia grave que o Airto enfrentou e que deixou toda a gente preocupada. E em 2023, os dois foram para o retiro dos artistas juntos, marido e mulher, no mesmo lugar que acolhe quem já não tem para onde ir.
Mas espera, porque esta história não é triste, é o contrário. A A Flora está a gravar um novo álbum aos 83 anos, a viver no Retiro. Os dois participam num documentário sobre a vida deles. Dentro daquelas casinhas coloridas de jacaré paguá, eles continuam a fazer o que sempre fizeram, música. Participam nas atividades, tocam para quem quiser ouvir, vivem rodeados de arte e de pessoas que compreendem o que a arte significa.
O retiro paraa Flora e O Airto não é um fim de linha, é a base de onde continuam a criar aos 83 e 84 anos juntos. E se a Flora e o Airto provam que dá para recomeçar com 83 anos, a próxima história fecha esta conversa de uma forma que não se espera, porque é de uma artista que foi para o retiro sem estar falida, sem estar doente, sem estar sozinha.
Ela foi porque quiso vai te apanhar. Todas as histórias que lhe ouviu até agora tem uma coisa em comum. A saúde, o dinheiro, a solidão, sempre tinha um motivo pesado por trás. Mas a Solange Couto é diferente. Ela não foi pro retiro porque precisava, ela foi porque quis. Solange Couto, a dona Jura de A Grande Família. Não é um brinquedo, não.
Se o Beiçola era o pasteleiro mais famoso do Brasil, a dona Jura era a vizinha mais temida. Outro património afetivo da televisão brasileira, a mãe da Solange já vivia no retiro quando a pandemia chegou em 2020 e os trabalhos pararam. A Solange viu-se sozinha e tomou uma decisão que surpreendeu toda a gente. Pediu autorização para lá viver temporariamente para estar perto da mãe e cuidar dela de perto.
Decorou a casa à maneira dela, mostrou a rotina nas redes sociais, abriu aquele lugar para Brasil ver e não teve meias palavras. É um local de puro conforto, seguro, muito bem cuidado, bonito. Tem teatro, cinema, piscina. Quando a vacinação avançou e os trabalhos voltaram, a Solange saiu, voltou paraa casa própria.
A mãe faleceu em 2022, aos 89 anos, de causas naturais. Hoje a Solange tem 68 anos e no ar em menina do momento na Globo. O caso dela mostra uma coisa que nenhum dos outros capítulos mostrou. O retiro não é lugar de gente derrotada, é lugar de gente que merece cuidados e às vezes é lugar de quem escolhe estar-me ali por amor.
Mas desde o início deste vídeo tem uma pergunta no ar. A gente prometeu e chegou a hora de cumprir. Seis refeições, plano de saúde, enfermagem, cinema, piscina e ninguém paga nada. Então, quem é que paga tudo isto? Lá no início deste vídeo a gente mostrou o retiro por dentro. As casinhas, a estrutura, o teatro, o cinema, a piscina, seis refeições por dia, plano de saúde, enfermagem 24 horas.
e disse que ninguém paga renda. Deve ter ficado com esta pergunta na cabeça este tempo todo. Então vamos lá. A conta de luz do retiro dos artistas chega aos R$ 25.000 por mês. 25.000 só de luz. A de água não fica abaixo dos 10.000. Agora soma com alimentação para mais de 50 pessoas. Medicamentos, salários dos funcionários, manutenção de mais de 50 habitações.
É um número que assusta e não é o governo que paga. Não é um patrocínio de uma empresa, não é fundos públicos, são os próprios colegas de profissão. Marieta Severo, a mesma que montou a casa do Beiçola, já doou sete casas inteiras para o retiro. Não só o dinheiro, material de construção, mão-de- obra, mobiliário, tudo.
O artista recebe a chave e entra morando. Sete vezes ela fez isso. Glória Pires e Fernanda Montenegro doam com frequência na Surdina, sem holofotes, sem post em rede social. Ana Beatriz Nogueira organiza bazares e concertos de beneficência para levantar dinheiro. Bonnie, o homem que comandou a Globo durante décadas, doou toda a a renda de um dos seus livros e bancou a renovação do refeitório e da lavandaria.
E o Neila Torraca, antes de falecer, fez uma promessa que deixou a direcção sem palavras. Disse que ia deixar o apartamento dele de herança para o retiro. Na presidência tal o ator Stepano Ercian, há 23 anos a segurar aquilo de pé, na vice Zezé Mota, que utiliza as redes sociais todas as semanas pedindo doação, pedindo ajuda, pedindo que as pessoas não se esqueçam daquele lugar.
Sem essa rede, o retiro encerra. Simples assim. E é aqui que toda esta história faz sentido. Vimos neste vídeo gente que fez o O Brasil riu chorar, torcer e sonhar. Gente que entrou em nossa casa pela televisão durante anos e anos, que um dia foi estrela e que num momento difícil encontrou naquelas casinhas coloridas de Jacaré Paguá o respeito que merecia desde o início.
Rui Rezende, o lobisomem de Roque Santiro, disse um frase que me ficou na cabeça. Até os milionários um dia vão precisar de ajuda. Todos nós vamos envelhecer. A questão não é se vamos precisar de ajuda um dia, é se vai estar lá alguém quando precisamos. O retiro dos artistas é a prova de que, pelo para estes artistas alguém estava.
Agora diga-me nos comentários qual destas histórias mais te marcou. a do Beiçola, a do Cláudio que fez 40 novelas e perdeu tudo, ou a da Flora, que está a gravar disco aos 83 anos. Deixa o like, se subscreve o canal e partilha esse vídeo com alguém que precisa de conhecer essas histórias. E no próximo vídeo a gente vai mostrar-lhe artistas que eram milionários e que hoje vivem como se não tivessem um cêntimo.