VEJA O QUE SE ESCONDE NA MANSÃO ABANDONADA DE CLODOVIL HERNANDES: FORTUNA, AMORES E TRISTE FINAL

Se você subir uma estradinha íngreme em Ubatuba, no litoral norte de São Paulo, vai encontrar uma casa escondida no alto de uma colina, uma casa grande no meio da mata atlântica. De longe, ainda dá para imaginar o que ela já foi. Mas quando você chega perto, a história muda.

 O portão tá enferrujado, o jardim virou mato. A piscina, que um dia teve vista para um dos pô do sol mais bonitos do Brasil, hoje é uma poça de água parada, teto caído, parede com mofo, rachadura por todo lado e um banheiro famoso no país inteiro por não ter paredes. Hoje quase desapareceu por baixo da vegetação. Essa casa tá abandonada há 16 anos.

 E há 16 anos ela pertencia a um dos homens mais conhecidos do Brasil, a [ __ ] que nasceu mulher. >> Estilista, apresentador, cantor, político, terceiro deputado federal mais votado do país em 2006. >> Eu não sei o que é decor com barulho desse quando a gente fala. Porque parece o mercado. Isso aqui representa o país. Eu não entendo que tanto barulho quantas pessoas estão falando.

>> Clodovil Hernandes. Só que essa mansão caindo aos pedaços no meio do mato guarda três coisas que quase ninguém contou por inteiro. Guarda a história de um objeto de R$ 40.000. O preço de um carro zero que ficou exatos 15 minutos pendurado na parede antes de ir pro quartinho de despejo. guarda a história de uma mulher do interior que 30 anos depois de um encontro rápido com Clodovil, em 1994, abriu a carteira e gastou uma fortuna para ter um pedaço da casa dele de volta e guarda uma decisão da justiça tomada

em março deste ano, que pode fazer tudo isso desaparecer para sempre. Nos próximos 30 minutos, eu vou te levar por dentro dessa mansão, do jeito que ela era no auge, do jeito que ela é hoje e do jeito que ela pode acabar. Mas antes de entrar na casa, a gente precisa voltar no tempo, porque Clodovil Hernandes não nasceu rico.

 E a história dessa mansão começa muito antes dela existir. Começa num menino adotado no interior paulista, que aprendeu ou a desenhar vestido em cima do tecido do pai. Elisiário, provavelmente você nunca ouviu falar. É uma cidadezinha pequena do interior de São Paulo, daquelas que cabem numa esquina. Foi ali que nasceu, em junho de 1937, um menino que nunca conheceu os pais de sangue.

 Quem o criou foi um casal de espanhóis, Domingos e Isabel Hernandes. E foi essa mulher, Isabel, a mãe espanhola, que o adotou ainda bebê, a figura mais importante da vida inteira dele. Décadas depois, quando Clodoville já era milionário, já era famoso, já tinha a mansão em Ubatuba, ele mandou construir uma capela lá dentro, uma capela em homenagem a essa mulher.

 E quando ele morreu, em 2009, foi enterrado ao lado dela. Para você ter ideia do do tamanho desse vínculo. A infância do menino foi simples. O pai Domingos tinha uma loja de tecidos e foi ali, entre rolo de pano e caixa de botão, que Clodovil começou a se interessar pelo que ia virar a vida dele.

 Enquanto outras crianças brincavam na rua, ele desenhava vestido num canto da loja. desenhava e mostrava para qualquer cliente que quisesse ver. E quem viu na época jura que já dava para anar o talento. Anos depois, ele veio para São Paulo, se formou professor. Isso mesmo, o Clodovil, que o Brasil conheceu como estilista, chegou a ter diploma de professor, mas a moda era mais forte.

 E nos anos 70, ele abriu um atelier nos Jardins, bairro nobre da capital paulista. um atelier pequeno no começo que foi crescendo, crescendo até ele em 1975 fechar as portas para reabrir num casarão ainda maior. Dali em diante, Clodovil virou o nome conhecido da alta sociedade. A elite paulistana fazia fila para ser vestida por ele.

 Só que a grande virada na vida dele não foi na moda, foi na televisão. Em 1980, ele entrou no TV Mulher, programa que a Globo transmitia pra casa de milhares de brasileiras. O quadro de moda do Clodovil virou febre e o motivo é simples. Ele não falava como costureiro de rico. Ele falava com a brasileira comum, comentava carta de telespectadora, ensinava-oa a aproveitar roupa velha, dava bronca em quem se arrumava mal.

 Aquela fala afiada que cortava igual tesoura foi ali que nasceu. Quem acompanhou o TV Mulher sabe do que eu tô falando. Aquilo foi diferente de tudo que passava na TV brasileira na época. >> Mas as mulheres que falam mans são danadas. Você tem o tipo de mulher que fala mans é danada, né? Cozinha bem light. >> Muitíssimo bem. >> Tudo você faz bem? Não sei.

>> A partir dali, Clodovil nunca mais saiu da vida pública. Virou jurado, virou apresentador, virou figura do sábado à noite, do domingo à tarde, falou o que quis para quem quis, sem freio. E em 2006 resolveu entrar na política. Disputou uma vaga para deputado federal e fez o que ninguém esperava, quase 500.000 1 votos.

 Terceiro mais votado do estado de São Paulo. Um homem que a vida inteira tinha sido só estilista e apresentador, chegou em Brasília carregando quase meio milhão de brasileiros nas costas. Nesse ponto da vida, o Clodovil que o Brasil via na televisão não era o mesmo menino que desenhava vestido na loja do pai. Era outro homem.

 Era um homem rico, famoso, polêmico, poderoso, um homem que tinha transformado lápis de desenho em dinheiro de verdade. E esse dinheiro precisava ir para algum lugar. Ele foi, foi parar num terreno de quase 5.000 m², escondido numa colina de Ubatuba, no meio da Mata Atlântica, longe das câmeras, longe de São Paulo, longe da política.

 Era ali nesse pedaço de mata virgem de frente pro mar, que o clodovil, que o Brasil conhecia deixava de existir e outro clodovil aparecia. E o que ele construiu naquele lugar, quem viu de perto nunca esqueceu. Quem chegava na casa pela primeira vez chegava impressionado. Não era o tipo de mansão que você vê em condomínio de luxo alinhada com outras 10 iguais.

 Era diferente. Era uma casa que parecia ter sido construída para esconder o dono do resto do mundo. Para entrar, você subia uma estradinha estreita no meio da mata atlântica até chegar num portão no alto da colina. E dali, quando o portão abria, você via aquilo. Quase 5.000 m² de terreno, 20 cômodos, nove dormitórios, 12 banheiros, piscina com vista pro mar, abastecida por uma mina da própria mata, jardim de inverno, sauna, lago, hidromassagem, uma casa que tinha mais quarto do que muito hotel, cinco estrelas de São Paulo. E no meio

de tudo isso, uma capela. A capela foi Clodovil que mandou fazer em homenagem à mãe adotiva, a dona Isabel, aquela espanhola que o criou em Elisiário. Quem conhecia a ele sabia. Mãe, para Clodovil era assunto sagrado. Num homem que não tinha filho, não tinha esposa, não tinha marido, a mãe era o centro afetivo de tudo.

 E a capela no meio da mata era o jeito dele deixar isso construído em pedra. Mas se você acha que essa mansão era séria, elegante, discreta, esquece, porque tinha um detalhe naquela casa que nenhum arquiteto no Brasil tinha coragem de colocar no próprio projeto. Do lado da jacuzzi, ao ar livre, no meio do jardim, bem à vista, Clodovil mandou instalar um vaso sanitário.

 Isso mesmo, um banheiro sem paredes, sem parede, sem porta, sem nada. Quem tava na festa, na piscina, na mata, se quisesse, usava e ria. E a gente olhando de fora entende o que aquilo significava. Era o clodovil inteiro ali, resumido num detalhe, excentricidade, humor, provocação. Ele fez aquela casa do jeito que ele era.

Por dentro, a mansão não era de descrição. Reportagens da época descrevem salas chamadas de exóticas por quem visitava. Uma suí marcante que quem dormiu lá nunca esqueceu. Objetos de decoração espalhados que pareciam peças de museu e tem ex-funcionária que conta até a existência de passagens secretas dentro da casa, corredores escondidos que só ele conhecia.

 E Clodovil não morava ali sozinho, não. No auge, a casa tinha seis funcionários fixos. Seis. Só em Ubatuba, motorista, segurança, babá. Ele dizia que gostava de ter gente ao redor, gostava de gente bajulando, gostava de ser servido e dividia esse palácio com mais 14 moradores, 14 cachorros da raça Pug, que andavam soltos pela casa e pelos jardins.

Imagina a cena. Uma casa com 20 cômodos, capela no quintal, banheiro ao ar livre, seis funcionários, 14 cachorros pug, piscina com vista pro mar. E no centro disso tudo, Clodo ouviu de chinelo, bermuda, chapéu de palha, catando fruta no quintal. Quem via em fotos achava um homem do interior.

 Quem via nas festas via outra coisa completamente diferente. Porque um homem não constrói uma casa dessas só para morar, ele constrói para mostrar. E o que acontecia dentro dessas paredes, nos verões de Ubatuba, era algo que aquele pedaço do litoral nunca tinha visto antes. As festas começavam quando o sol se punha.

 Quem trabalhou na casa conta que Clodovil mandava acender tochas de fogo pela mata inteira. Tochas de verdade, de chama aberta, dessas que só tinha em festa de cinema. A mansão vista de longe parecia um castelo iluminado no meio do mato. Os convidados iam chegando aos poucos, subindo à estradinha de carro e o que encontravam lá em cima era outra realidade.

 Garções uniformizados em todo canto, todos escolhidos a dedo, todos bem apresentados, bebida rolando sem parar. convidados que a gente via na televisão durante a semana ali de chinelo, relaxados, conversando nos cantos da casa e festas que não acabavam em uma noite, festas que duravam dois, tr dias. O pessoal dormia na casa, acordava, almoçava, voltava pra piscina e continuava.

 Todo mundo queria ser convidado pras festas do Clodovil em Ubatuba, mas só entrava quem ele escolhia. Era a vida que ele levava. E para levar essa vida precisava de muito dinheiro. O Clodovil tinha e o Clodovil gastava. Mas o jeito que ele gastava é que é a parte que deixa qualquer um de queixo caído. Quem conviveu com ele conta uma história que resume tudo.

Clodovil estava passando por uma loja qualquer dia desses e viu um espelho na vitrine. Não foi amor à primeira vista, não foi obsessão. Ele entrou na loja, perguntou as medidas, perguntou aí o material, perguntou se a moldura era cravejada com cristal Suarovski. era. Perguntou se o espelho era blindado, perguntou tudo e comprou R$ 40.000.

Para você ter ideia do que era R$ 40.000 na época, dava para comprar um carro zero saindo da concessionária. Dava para comprar uma casa simples no interior, dava para pagar escola particular de um filho por anos. Era dinheiro de verdade. O espelho foi entregue na mansão, foi pendurado na parede e Clodovil parou na frente, deu cinco, seis passos para trás, cruzou os braços e ficou olhando.

15 minutos, 15 minutos olhando o espelho e virou pro funcionário que estava ali do lado e falou assim com aquela voz dele: “Tira essa porcaria daí, guarda no quartinho de despejo”. Uma hora eu encontro um destino para isso. R$ 40.000, 15 minutos na parede, quartinho de despejo e o espelho não foi nem o pior.

Quem conviveu com ele jura que esse tipo de coisa acontecia toda semana, quase todo dia. Clodovil comprava, olhava, não gostava, mandava guardar. Comprava, usava, uma vez esquecia. A casa em Ubatuba ia engolindo dinheiro, os seis funcionários fixos também, as festas também. Mas tinha um detalhe sobre o dinheiro do Clodovil, que ele mesmo fazia questão de deixar claro e que a gente precisa escutar com a voz dele.

Numa entrevista que ficou famosa, Clodovil falou o seguinte: >> “O meu dinheiro jogo fora, eu não tenho, eu sou, eu sou perdulário mesmo. Eu nunca guardei nada, porque eu não vou levar nada pro cemitério, nem nem o corpo a gente leva. Meu dinheiro jogo fora. Eu sou perdulário mesmo. Eu nunca guardei nada, porque eu não vou levar nada pro cemitério, nem nem corpo a gente leva.

Essa frase diz mais sobre ele do que qualquer biografia. Perdulário. Ele mesmo usava a palavra. Não é que ele não sabia o que estava fazendo. Ele sabia. Ele escolhia. Para Clodovil, dinheiro era para gastar, era para viver, era para queimar enquanto tivesse vida. Ele dizia que não ia levar nada pro cemitério e fez questão em vida de provar isso.

 Só que essa filosofia tem consequência. Um homem que gasta assim, sem parar, sem guardar, sem pensar no amanhã. Uma hora o amanhã chega e quando chegou o Brasil inteiro foi testemunha do que aconteceu com a fortuna do Clodovil Hernandes. Mas antes de chegar nesse ponto da história, tem outra parte que ninguém espera de um homem que comprava espelho de 40.

000 para jogar no quartinho. Porque esse mesmo Clodovil, perdulário, ostentador, excêntrico, um dia fez um gesto tão simples e tão generoso por uma menina desconhecida do interior de São Paulo, que ela guarda a lembrança até hoje. E o que ela fez em 24, 30 anos depois daquele encontro mostra quem Clodovil era de verdade quando ninguém estava olhando. A história começa em 1994.

Uma menina de 19 anos do interior estava noiva e ia casar. E como toda noiva brasileira tinha um sonho, queria um vestido bonito. Mas não era qualquer vestido. Ela queria um vestido do Clodovil, daqueles que saíam na revista, daqueles que as atrizes da Globo usavam. Só que a família dela era simples, não tinha condição.

 A mãe dela falou com carinho: “Filha, não dá. Vestido do Clodovil é para alta sociedade, a gente não tem como.” Só que a menina não desistiu. Ela convenceu a mãe a fazer uma coisa meio maluca, ir até o atelier do Clodovil em São Paulo, fingir que estavam só olhando os vestidos e tirar foto disfarçada. A ideia era mostrar a foto depois.

 para uma costureira do bairro que ia tentar copiar o modelo em casa, com tecido mais simples, por um preço que coubesse no bolso delas. Era o jeito que o Brasil inteiro fazia na época. Quem nunca teve mãe ou tia que olhou o vestido em loja cara, tirou foto e mandou a costureira fazer parecido. Mãe e filha entraram no atelier, começaram a passear entre os manequins, fingindo interesse.

 A menina tirou foto de disfarce, com o coração batendo forte, torcendo para ninguém notar. E no meio daquele movimento, sentado num canto, tava o próprio Clodovil. Ele percebeu e, em vez de ignorar, ele chamou a menina, perguntou se ela ia casar ou se era a dama de honra. A menina, com vergonha confessou: “Ia casar”.

 Clodovil perguntou qual vestido ela tinha gostado mais. Ela olhou pros manequins, olhou para ele e falou: “Ah, são todos lindos, mas eu só tô olhando”. Foi aí que Clodovil pegou um papel e começou a desenhar. A menina olhava e não entendia. Perguntou: “O que é isso?” e ele respondeu sem parar de desenhar seu vestido.

 Ela ficou sem reação, falou que não tinha como pagar e Clodovil, sem tirar os olhos do papel respondeu: “Eu tô te cobrando. Toma agora, manda a sua costureira fazer de graça.” O Clodovil que a gente estava vendo aqui, o homem do espelho de 40.000, O ostentador das festas com Tocha sentou e desenhou um vestido de noiva completo de graça para uma menina desconhecida que ele tinha acabado de conhecer.

 Ela casou com esse vestido em 1994 e a história podia terminar aí, já seria bonita, mas ela continua porque passaram os anos. Clodovil morreu em 2009. A mansão em Ubatuba foi sendo esvaziada. Os objetos pessoais dele foram para leilão para pagar as dívidas do espólio. Joias, roupas, bagagem da Luiv Vitton, pratarias, peças com o monograma dele bordado.

 E essa menina, que agora era uma mulher adulta, com filhos, viu no noticiário que as coisas do Clodovil iam ser leiloadas. Ela foi, ela levantou a plaqueta e ela arrematou. Arrematou 80 peças com o monograma dele, o jogo completo. Pagou uma fortuna em torno de R$ 12, R$ 15.000 só nesse lote. Comprou bolsas, comprou um baú, comprou até o roupão que ele usava em casa.

 Quando ela mostrou o roupão pra câmera de uma reportagem, ela falou uma coisa que arrepia. Eu nunca usei, mas tá guardado, porque isso é dele e eu gosto das coisas dele. Ela gastou esse dinheiro todo para ter um pedaço dele de volta, não para revender, não para ostentar, para guardar em casa com respeito, a memória de um homem que fez um gesto por ela sem pedir nada em troca 30 anos antes.

 frase que ela usou para resumir tudo foi essa: “Ele foi tão humano comigo.” E é aí que a gente entende uma coisa importante sobre Clodovil. Porque esse mesmo homem que era capaz desse tipo de gesto, desenhar vestido de graça para uma desconhecida, sentar e escutar uma menina tímida, fazer alguém sentir especial sem cobrar nada.

 Esse mesmo homem, numa entrevista de televisão em vida, disse uma frase que a gente precisa escutar com cuidado. Ele falou com aquela clareza dele: “Não tenho herdeiros, não tenho filho, não tenho mulher, não tenho marido, não tenho nada. Vou deixar para aqui um homem com uma casa de 20 cômodos, seis funcionários, 14 cachorros, amigos famosos, convidados que ficavam três dias em festa.

 Um homem que desenhava vestido para estranho de graça e que no fim da vida olhou pra câmera e falou que não tinha ninguém, ninguém para deixar nada. Essa é a parte da história do Clodovil que quase ninguém para para pensar, porque é mais fácil lembrar do estilista polêmico, do deputado da língua fiada, do homem do banheiro sem paredes.

 Mas existia um outro clodovil, um clodovil que entendia de gente, que sabia ser generoso, que tinha afeto para dar e que, por algum motivo, chegou no fim da vida, sem ter com quem dividir tudo aquilo que construiu. E em 17 de março de 2009, esse homem fechou os olhos numa cama de hospital em Brasília e a mansão em Ubatuba começou a virar o que ela é hoje.

17 de março de 2009, uma terça-feira. Clodoville tava em Brasília, onde morava desde que tinha virado deputado federal do anos antes. Era o primeiro mandato dele e ele estava no auge da exposição política. Polêmico como sempre, falando o que queria, discutindo no plenário. E naquela terça-feira o corpo dele não aguentou. Um AVC fulminante. 71 anos.

 O Brasil soube pela televisão. Quem tinha idade para acompanhar lembra de onde estava quando deu a notícia. Foi choque. Foi aquela sensação estranha de perder alguém que não era da família, mas que tinha entrado na sala de casa durante décadas. Clodovil foi enterrado em São Paulo ao lado da mãe Isabel, a espanhola que o criou em Elisiário.

 Aquele vínculo que começou na infância, ele fez questão de levar pra eternidade. Mas aí começou a parte mais complicada dessa história, porque Clodovil morreu sem deixar plano para nada do que ele tinha construído. Ele tinha um sonho. Quem era próximo conta. Clodoville sempre falou que quando morresse queria que a mansão em Ubatuba virasse uma instituição ou um museu, alguma coisa que lembrasse o trabalho dele, a obra dele ou que ajudasse as pessoas.

 Chegou a mencionar uma fundação para meninas carentes em homenagem à mãe. Era o jeito que ele tinha pensado para que a casa continuasse viva depois dele. Esse sonho nunca se realizou. Na prática, o que aconteceu foi outra coisa completamente diferente. Clodovil não deixou herdeiros diretos. Não tinha filho, não tinha esposa, não tinha companheiro oficial.

 O espó dele, todo o patrimônio construído em 40 anos de carreira caiu sob administração judicial comandada pela advogada dele de confiança. E daí paraa frente começou uma novela jurídica que dura até hoje. Em 2013, 4 anos depois da morte, a herança estava avaliada em R$ 4.200.000. Parecia muito dinheiro.Justiça nega pedido para demolição de mansão de Clodovil abandonada

 Em 2023, 10 anos depois, essa mesma herança tinha caído para pouco mais de 1 milhão. Mais de R$ 3 milhões de reais foram consumidos, não por herdeiro gastando, por dívida, por imposto, por manutenção dos bens, por honorários. A fortuna que ia virar instituição, virou fundo de pagar conta. E teve outra complicação no meio disso tudo.

 Um ex-colaborador do Clodovil entrou na justiça alegando união estável. Essa ação travou ainda mais o inventário, porque quando se discute união estável num espólio, tudo para até a justiça decidir. Ainda não há decisão final pública sobre esse ponto, mas a ação existiu e ela ajudou a fazer com que a herança do Clodovil ficasse congelada por anos.

 Enquanto isso, a mansão em Ubatuba começou a desaparecer. Em 2008, um ano antes de Clodovil morrer, ele já tinha sido condenado na justiça por degradação ambiental. A mansão tinha sido construída em área do Parque estadual da Serra do Mar e parte da construção avançava sobre vegetação nativa protegida. Clodovil teve que demolir parte da casa para regularizar e demoliu.

 A própria justiça deu quitação na época, mas o problema não acabou ali. Em 2018, com o espóo sendo corroído por dívidas, a mansão foi a leilão. Foi avaliada inicialmente em quase R 2 milhões deais. O lance vencedor foi de R50.000, Bem abaixo do valor, uma mulher arrematou, mas quando ela foi tomar posse, descobriu que o imóvel carregava restrições ambientais que não tinham sido resolvidas.

 Ela entrou com ação tentando anular o leilão. A justiça disse que não podia. Ela recorreu, o caso se arrastou e aí veio o golpe mais duro. Em março deste ano, 2025, o Ministério Público entrou com um novo pedido. Exigiu que tudo que restou da mansão viesse abaixo, que fosse totalmente demolida, porque segundo de Ministério Público, a casa inteira está em área de proteção ambiental e não deveria existir do jeito que existe.

 Em março de 2024, o Tribunal de Justiça de São Paulo tinha negado um pedido anterior de demolição total, mas o caso continua aberto. Em linguagem direta, a mansão do Clodovil hoje tá num limbo jurídico. Tem compradora que não consegue tomar posse. Tem Ministério Público querendo demolir. tem espolho administrando o que sobrou e ninguém sabe de fato o que vai acontecer com aquela estrutura no meio da mata atlântica.

 Enquanto a justiça decide, a casa segue caindo aos pedaços. Quem passa por lá hoje vê uma cena que parece ficção. Piscina entupida, teto desabado em vários cômodos, paredes com infiltração, mofo, rachadura. O paisagismo que um dia foi cuidado com tanto carinho, virou mato alto, engolindo a arquitetura. O famoso banheiro sem paredes, a jacuzzi ao ar livre, a capela da mãe, tudo corroído pelo tempo.

 E tem um detalhe que resume o tamanho do abandono. A casa ainda tem um funcionário, um caseiro pago pelo espolo, contratado para evitar que o lugar seja invadido. Só que esse caseiro não consegue mais dormir dentro da mansão. A estrutura é insegura, o mato tá alto demais, tem bicho. Ele dorme num quartinho cedido por um vizinho do outro lado da rua e de lá ele vigia o que restou da casa do estilista mais famoso do Brasil. É isso que sobrou.

 A fortuna de 4 milhões virou dívida. A mansão, que ia ser museu, virou processo judicial. O sonho da instituição, em homenagem à mãe, nunca saiu do papel. E a casa onde Clodovil dava festas de três dias, onde comprou o espelho de 40.000, onde recebeu os nomes mais famosos da televisão brasileira. Essa casa hoje tem de morador oficial um caseiro que dorme no quarto do vizinho.

 16 anos depois da morte dele, nada acabou, nada foi resolvido, nada seguiu em frente. A mansão do Clodovil ficou parada no tempo, caindo devagar, esperando a próxima decisão da justiça para saber qual é o próximo capítulo. E aí fica uma pergunta que no fundo não tem resposta fácil. No fim das contas, a mansão em Ubatuba virou ruína.

 Mas o Clodovil não, porque o que sobra de uma pessoa quando ela vai embora quase nunca é o que ela construiu em pedra. É o que ela deixou na cabeça de quem conviveu com ela. É a fã que guarda o roupão dele dobrado em casa, sem nunca ter usado, porque aquilo é dele. É a entrevista antiga que a gente reencontra no YouTube numa madrugada qualquer.

 É a lembrança do vestido desenhado num guardanapo em 1994. É o jeito de falar. atesourada na palavra certa, o silêncio antes da frase afiada. É isso que fica. A casa de Ubatuba, pode ser demolida amanhã, pode ser engolida pela mata nos próximos anos, pode virar um terreno vazio, sem placa, sem memória. Mas o Clodovil, que entrou na sala dos brasileiros durante décadas, esse a justiça não demole, esse o tempo não apaga.

 E tem uma coisa que ele mesmo disse em vida que talvez resuma tudo. Enquanto alguém falar o seu nome, vivo você estará. Ele tava certo. Agora eu queria fazer uma pergunta para você que chegou até aqui comigo. Depois de ouvir essa história toda, como você lembra do Clodovil? Como aquele estilista da TV Mulher que entrava na sua casa toda a tarde como o apresentador polêmico do sábado à noite? Como o deputado que chegou em Brasília carregando meio milhão de votos nas costas, ou como o homem que morreu sozinho com uma casa grande demais para

uma só pessoa, escreve aí nos comentários. Eu leio todos. E fico curioso para saber qual Clodovil ficou mais forte na sua memória. Se essa história te tocou, deixa o like e se inscreve no canal. Aqui a gente conta as histórias que o Brasil viveu de verdade, daquelas que a gente lembra no almoço de domingo, no churrasco com a família, na conversa com o vizinho.

 E na próxima semana eu volto com uma história que ninguém no Brasil esqueceu de outro nome que entrou na casa da gente durante décadas pela televisão, que viveu o auge e que teve um fim que a gente nunca imaginou. Se inscreve para não perder. Um abraço e até o próximo vídeo.

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