Vendedor Disse a Luiz Gonzaga: “Essa Sanfona de 50 mil é Só para Profissionais”

Em 1957, Luís Gonzaga entrou numa loja de instrumentos no centro do Recife, com dinheiro suficiente para comprar a acordeão, que tinha escolhido três semanas antes, e o vendedor recusou-se a vendê-la. Disse que aquele instrumento era só para profissional. Gonzaga tinha mais de 300 canções gravadas, a rádio nacional inteiro nas costas e o nome mais cantado do Nordeste.

 O que aquele vendedor não sabia e o que Gonzaga decidiu naquele dia mudou os dois para sempre. O homem que entrou pela porta naquela tarde de Agosto não parecia o rei do baião. Calça comum, chapéu de palha, uma camisa de botões que já tinha visto dias melhores. Tinha chegado ao Recife de madrugada num camião de Caruaru, depois de uma noite de espectáculo numa festa de um padroeiro que pagou pouco e prometeu mais.

 Trazia o dinheiro num envelope de papel pardo dobrado no interior do bolso das calças. 50.000 cruzeiros. O preço que o próprio dono da loja tinha escrito num papel semanas antes, quando Gonzaga tinha feito a primeira visita e pedido que guardassem o instrumento. A acordeão estava ali, atrás do balcão,  num suporte de madeira, um honer alemã importada, 80 baixos, folle vermelho escuro com detalhes prateados.

Gonzaga tinha-lhe tocado na primeira visita, sentido o Fle ceder com a facilidade certa e tinha dito numa voz baixa que aquela era a concertina que ele queria gravar o próximo disco. O vendedor que o atendeu nesse dia era diferente do da primeira visita. Mais jovem, fato escuro, cabelo com brilhantina.

 Ar de quem saiu do colégio particular convencido de que o mundo lhe pertence. Olhou para Gonzaga da cabeça aos pés, olhou para o envelope de papel pardo, voltou a olhar para o Gonzaga. Disse que a concertina já não estava disponível para venda simples, que o dono tinha decidido reservá-la para músicos profissionais, pessoas com contrato com uma editora, pessoas com recomendação disse esta palavra com a boca cheia.

 Recomendação conzaga ficou parado. O vendedor continuou. disse que Os instrumentos desta categoria exigiam um comprador à altura, que uma concertina de 50.000 cruzeiros nas mãos erradas era um desperdício que o estabelecimento preferia evitar. Conzaga tirou o chapéu de palha, segurou na aba com as duas mãos, ficou a olhar para o instrumento atrás do balcão, depois olhou para o vendedor com uma calma que o vendedor, anos depois descreveria como a coisa mais assustadora que já viu em cima de um balcão.

 Mas o que Gonzaga disse em seguida? As palavras exatas que saíram da boca dele naquele momento é o que faz esta história ser diferente de qualquer outra que já ouviu falar sobre o rei do baião. Isso vem daqui a pouco. Antes, precisa de perceber o que estava por trás dessa visita, porque Gonzaga tinha uma razão muito específica para querer aquela concertina.

 Uma razão que não tinha nada a ver com o disco que referiu na primeira visita. E essa razão era o coração de toda a história. Três semanas antes de entrar naquela loja pela primeira vez, Gonzaga tinha recebido uma carta. Não de uma editora, não de uma rádio. Uma carta de Exu escrita por um homem chamado Zé Leal, que toda a gente no sertão pernambucano conhecia como o acordeonista cego de Ouricuri, um músico que tinha passado a vida a tocar nas feiras livres da região sem nunca ter chegado perto de um estúdio de rádio.

 A carta dizia uma coisa simples, que o Zé Leal estava a morrer, que tinha um filho de 12 anos e que o único pedido que fazia ao rei do baião era que quando aquele menino quisesse tocar Acordeão, Gonzaga intercedesse de alguma forma. Gonzaga leu esta carta três vezes, dobrou-a, colocou-a no bolso da camisa, no lado do peito.

 Havia algo naquela carta que chegou num momento específico. 1957 era um ano em que Gonzaga estava no meio de uma batalha que ninguém via de fora. O baião tinha aberto uma porta, mas os estúdios do rio continuavam a tratar a música nordestina com o mesmo ar de quem tolera uma visita que tenha ficado mais tempo do que o esperado.

 Havia produtores que gravavam as músicas e depois engavetavam. Havia rádios do sul que tocavam asa branca como curiosidade folclórica, não como música de gente. Gonzaga sabia de tudo isto. Sabia e tocava-se a si próprio,  com a teimosia quieta de quem não pede licença existir, mas também não se vai embora. A carta do Zé Leal chegou nessa altura e havia nela uma coisa que Gonzaga reconheceu.

 Era a voz do músico invisível, o acordeonista, que tocou a vida inteira sem que o Brasil soubesse o seu nome, pedindo que o filho não repetisse o mesmo caminho. foi ao Recife na semana seguinte, entrou na loja, tocou na honer de folle vermelho escuro e disse que queria comprar aquela acordeão, mas não para ele, era para guardar.

 Para quando o menino do Zé Leal crescesse o suficiente para segurar um folle de 80 baixos, o dono da loja tinha acordado, escrito o preço no papel, prometido guardar. Três semanas depois, um novo funcionário desfez o acordo sem saber que tinha um acordo. E foi esse funcionário que disse ao rei do baião, olhos nos olhos, que aquela concertina era só para profissional.

 Gonzaga ficou com o chapéu nas mãos durante talvez 30 segundos. O que vem agora é onde tudo o que parece simples começa a pesar de outra forma. Gonzaga falou, falou baixo, no sotaque fechado do sertão que nunca tinha saído da sua boca, nem depois de 20 anos no Rio de Janeiro. Disse: “Moço, eu sou Luiz Gonzaga, filho de Januário Gonzaga de Exu.

 Toco acordeão desde que tenho 8 anos. Tenho mais de 300 músicas gravadas. Já toquei em todo o canto deste Brasil e vim aqui buscar uma concertina que o seu patrão prometeu guardar-me. com este dinheiro aqui que eu ganhei a tocar para o povo deste nordeste. Se o Sr. acha que eu não sou profissional, eu aceito, mas mande chamar o seu patrão.

 O vendedor ficou quieto. Ficou quieto porque o nome Luiz Gonzaga tinha chegado antes de qualquer explicação. Ficou quieto porque o homem à sua frente tinha uma calma que não era a calma de quem se vai embora, era a calma de quem tem tempo. Havia duas ou  três pessoas na loja naquele momento. um homem perto da montra que fingiu continuar a olhar para um acorde, mas deixou de se mover.

 Uma mulher mais ao fundo que baixou a cabeça. O silêncio que caiu naquele balcão não era o silêncio de uma situação que terminou, foi o silêncio de uma situação que acaba de começar de verdade. O vendedor abriu a boca uma vez, fechou. A brilhantina no cabelo brilhava sob a lâmpada do teto. Tinha chegado ali naquela manhã convencido de que sabia como o mundo funcionava.

 Agora havia um homem do outro lado do balcão segurando um chapéu de palha com as duas mãos e olhando para ele com a paciência de quem já esperou coisa muito mais difícil do que isso. O dono apareceu da parte de trás depois de 2 minutos, reconheceu Gonzaga na mesma hora. Ficou branco, pediu desculpa com uma voz que saiu torta.

 O vendedor jovem ficou parado ao lado, sem compreender o tamanho do que tinha feito. Gonzaga comprou a concertina, pagou os 50.000 cruzeiros do envelope de papel pardo. Saiu pela porta sem olhar para trás. Mas é aqui que a história muda de rumo, porque é que o Gonzaga não levou aquela concertina para casa, não levou para o Rio, não levou para o próximo concerto, entregou-a naquela mesma tarde.

 Ainda não sabe para quem. Isso vem logo antes. Deixa entrar o que estava a acontecer naquele mesmo dia a 40 km do Recife, numa feira livre em Caruaru, porque é a partir daí que a história vai buscar a peça que faltava. Caruaru, agosto de 1957, a feira desde as 5 da manhã. Barracas de lona, ​​ cheiro a couro curtido, carnes de sol penduradas, o barulho de pessoas que compram e vendem e discutem o preço de tudo.

 Numa das extremidades, onde o movimento é mais fraco e o sol bate mais forte, um rapaz de 12 anos tocava uma concertina partida, mais remendo do que folle original, um baixo preso que não soltava nunca a correia esquerda segura por um arame. Mas o menino tocava, tocava um baião simples de quatro compassos, que repetia de olho fechado, com a concentração de quem está a tocar no teatro municipal.

 As pessoas passavam e às vezes atiravam uns trocos na lata de bolachas no chão. Às vezes ninguém jogava nada. O menino tocava do mesma forma nas duas situações. Esse menino chamava-se João. João Leal, filho de Zé Leal, o acordeonista cego deuri,  que tinha morrido dois meses antes da carta chegar às mãos de Gonzaga.

 Gonzaga soube do menino por um radialista de Caruaru que conhecia a família do Zé Leal e tinha enviado uma nota curta para Rádio Nacional no Rio, que foi parar às mãos de um produtor que sabia que Gonzaga e Zé Leal tinham-se cruzado anos antes numa vaquejada em Salgueiro. A rede de informação do interior do Nordeste dos anos 50 funcionava assim, lenta, tortuosa, passando de boca em boca e de rádio em rádio.

 Mas chegava, chegava sempre. Gonzaga já sabia que o menino estava em Caruaru quando foi ao Recife comprar a concertina. O problema é que tinha descoberto na véspera um pormenor que complicava tudo, um pormenor que quase fez com que desistisse de fazer o que tinha decidido fazer. E aqui é onde tudo o que pensava que estava compreender muda completamente.

 A tia do menino tinha vendido a concertina partida, vendido numa tarde da semana anterior por uns poucos cruzeiros, porque precisava de dinheiro para medicamentos. Quando Gonzaga chegou a Caruaru com a honner de folle vermelho escuro no estojo, o menino estava na feira sem sanfona. estava sentado no chão ao lado da tenda da tia, olhando para o espaço com uma expressão que qualquer pai que já viu um filho perder, a única coisa que lhe importava reconhece na mesma hora.

 Gonzaga foi até à barraca da tia primeiro, explicou quem era. A tia não acreditou de imediato. Levou um minuto até que o nome Luís Gonzaga encaixasse com o homem que estava à sua frente. Quando encaixou, ficou sem fala. Gonzaga perguntou onde estava o menino. A tia apontou para o fim da feira. Gonzaga foi, caminhou entre bancas de queijo, de farinha, de carne seca, de chapéu de couro, pelo barulho e pelo cheiro que faz uma feira do nordeste num dia de sol alto.

 Chegou ao canto onde o menino estava sentado no chão. Parou à frente dele. João Leal olhou para cima, viu um homem de chapéu de palha com um estojo de instrumento no braço. Ficou a olhar para aquele estojo com uma atenção que criança só põe em coisa que reconhece e quer. Gonzaga baixou-se na altura do menino, abriu o estojo.

 A Honner estava lá com o folle vermelho escuro e os detalhes prateados, nova, a cheirar a instrumento que nunca tinha sido utilizado com suor e pó de feira. João Leal ficou a olhar sem piscar. Gonzaga disse: “O seu pai enviou-me uma carta. Pediu que eu cuidasse de ti. Esta sanfona é sua. O menino não disse nada. Gonzaga continuou. Mas tem uma condição.

 Você vai aprender a tocar corretamente. Não do maneira que dá, da maneira que tem de ser. Combinado? João Leal ficou um momento em silêncio, depois estendeu a mão para instrumento com um cuidado que a maioria das pessoas adultas não coloca em nada. Pegou na concertina, colocou-a no colo e começou a tocar.

 O que saiu daquelas mãos num bom fole pela primeira vez não é fácil de descrever sem parecer exagerado. Mas há pessoas que estavam naquela feira de Caruaru nesse dia e que anos  depois, quando este menino virou o que virou, contava que já dava para saber naquele momento que a nota que saiu quando João Leal abriu o fle da Honer alemã suou limpa e forte e certa, como se o instrumento tivesse à espera por aquelas mãos.

 Gonzaga ficou de cócoras à frente do menino, ouvindo. Ficou assim durante um tempo que ninguém mediu num canto da feira de Caruaru, com o barulho de tudo à volta e aquele melodia simples sendo tocada agora por um instrumento que respondia de verdade. Ainda não sabe o que Gonzaga fez depois de sair de Caruaru. Mas isto aqui era apenas o início do que esta história tem para contar.

 Antes de partir, Gonzaga voltou até à barraca de bordados, tirou do bolso um papel com um nome e um morada no Recife, um músico chamado Raimundo Barreiros,  que dava aulas de acordeão num sobrado na Boa Vista e tinha estudado teoria musical em Fortaleza. O Gonzaga disse à tia que se João aparecesse com a concertina e mencionasse o nome Luís Gonzaga, Raimundo daria aulas sem cobrar.

 A tia ficou a olhar para o papel. Gonzaga disse: “Não é a caridade, é uma dívida que eu tenho com o Nordeste. Se o menino tiver talento, ele vai pagar essa dívida tocando. A tia dobrou o papel, colocou no bolso do avental e aqui vem o que ainda não sabe. João Leal nunca chegou à aula de Raimundo Barreiros. Não nesse ano, não no ano seguinte.

 A razão pela qual o menino desapareceu do mapa há quase três anos liga o vendedor da loja do Recife com o que aconteceu depois de uma forma que ninguém previu. O jovem vendedor tinha um nome, Neto Figueiredo, 24 anos, filho de comerciante, criado no bairro da Boa Vista, sem qualquer necessidade de perceber de onde vinha o dinheiro da família.

 Depois de Gonzaga ter saído e o dono chamou o Neto a um canto  e explicou quem era o homem que tinha mandado embora, Neto ficou em silêncio por um momento. Depois disse que não sabia. O proprietário disse que exatamente por que ele precisava de aprender a perguntar antes de falar. Neto foi-se embora naquela noite com o peso de quem fez uma coisa que não tem como desfazer.

 Mas o peso não era só vergonha, era outra coisa mais difícil de nomear. Era o peso do ter olhado para um homem e ter visto um retirante antes de ver um músico, ter visto a camisa surrada antes de ver o rosto, dormiu mal. Nos dias seguintes,  alguma coisa tinha mudado dentro do funcionamento interno daquele rapaz e essa mudança ia aparecer de uma forma que a própria história de João Leal dependia.

 Três semanas depois do episódio da concertina, Neto foi a Caruaru num sábado de manhã. Tinha um primo que vendia lá tecido. Chegou cedo, foi à feira, caminhou pelo mesmo caminho que Gonzaga tinha caminhado semanas antes, sem o saber, e encontrou João Leal. O menino estava sentado ao lado da tenda da tia. Sem tocar, a tia tinha pedido que não tocasse nesse dia porque a feira estava fraca.

  O Neto viu o menino, viu a sua expressão, continuou a andar, mas voltou. comprou um bordado que não precisava, ficou conversando. Com o tempo, a tia relaxou e contou da morte do pai, da concertina nova, da visita de Luís Gonzaga, que ela ainda não tinha bem a certeza se tinha acontecido de verdade.

 Neto ficou calado quando ouviu o nome Gonzaga e aí, por razões que ele próprio não saberia explicar direito mais tarde, tomou uma decisão que custou dinheiro real ao próprio bolso. regressou a Caruaru na semana seguinte e na semana seguinte, até que após um mês de visitas tinha convencido a tia a deixar o João ir ao Recife uma vez por semana para a aula com Raimundo Barreiros.

 E tinha combinado com o Raimundo que para além das aulas sem custo que Gonzaga tinha arranjado, ele próprio pagaria o autocarro de ida e volta todas as semana. A tia perguntou por ele fazia aquilo. Neto disse que tinha uma dívida para pagar. Não explicou mais. O menino João Leal passou três anos a ir ao Recife todas as sextas-feiras num autocarro de linha com a Honor num pano grosso no colo.

 Aprendeu teoria, harmonia, leitura de partitura,  independência de mãos que demora anos a construir. Raimundo Barreiros disse mais do que uma vez que em 20 anos de aulas tinha visto talento assim  umas três vezes. E Gonzaga não sabia de nada disto. tinha voltado para o Rio de Janeiro, gravado o disco que precisava de gravar, fez os espectáculos, pensava no menino às vezes.

Mandou um recado pelo radialista de Caruaru depois de seis  meses perguntando se João Leal tinha ido procurar Raimundo Barreiros. O radialista enviou resposta dizendo que não sabia de nada. Gonzaga ficou com aquela preocupação do tipo que não grita, que fica quieta no fundo, mas não vai-se embora.

 Em 1960, de passagem pelo Recife para um concerto no Teatro Santa Isabel, Gonzaga foi até ao sobrado de Raimundo Barreiros na Boa Vista, sem aviso prévio. Bateu à porta, Raimundo abriu. Gonzaga perguntou se ele conhecia um rapaz chamado João Leal, filho de Zé Leal de Oricuri. Raimundo ficou um segundo com a expressão de quem está a processar uma coincidência grande.

 Depois disse que sim, que o João Leal tinha aulas todas as sextas-feiras, que amanhã era sexta-feira. Gonzaga ficou. No dia seguinte, às 2as da tarde, João Leal chegou ao sobrado com a Honer no pano Grosso e encontrou Luís Gonzaga sentado numa cadeira da sala de aula. O rapaz, agora com 15 anos, parou na porta.

 Gonzaga disse: “Disseram-me que não tinha ido aprender. Vim ver se era verdade. João Leal ficou um momento sem responder,  depois disse: “Estou aqui há três anos, senhor Luiz”. Gonzaga olhou para Raimundo. Raimundo confirmou com a cabeça. Gonzaga ficou em silêncio durante um tempo que toda a sala sentiu. Depois disse: “Toca.

 João Leal abriu o pano grosso, tirou a Honorer, encaixou as correias nos ombros, fechou os olhos da mesma forma que o pai fechava os olhos antes de perder a visão, aquele gesto que o menino tinha guardado como se fosse uma herança. E tocou, tocou um shot que Raimundo tinha composto para exercício de aluno avançado, uma peça que exigia controlo de folle e independência de mãos que a maioria dos acordeonistas demorava 5 anos para dominar.

 João Leal tocou do início ao fim, sem parar, sem erro, sem olhar para baixo. Gonzaga viu-o com as mãos pousadas nos joelhos e uma expressão que Raimundo Barreiros descreveu anos mais tarde numa rádio do Recife, como a expressão de alguém que acaba de receber uma notícia que esperava, mas que dói do mesmo modo quando chega.

 Quando o João Leal terminou, Gonzaga ficou em silêncio. Depois disse em voz baixa: “Mais para si próprio do que para alguém, Januário, velho. Januário, o nome do pai de Gonzaga. O acordeonista de Exu, que tinha ensinado o filho a tocar olhando. Ninguém na sala perguntou o que ele queria dizer. Não era o momento para perguntar.

Ainda não sabe o que Gonzaga disse para o menino antes de sair daquela sala? E é isso que fecha o círculo do que iniciou-se naquela loja do Recife em 1957. Gonzaga ficou mais uns 40 minutos. Ouviu João Leal tocar mais duas peças. Fez duas questões  técnicas sobre posição de folle, o tipo de pergunta que só o faz quem entende profundo.

 O menino respondeu às duas com segurança. Na hora de ir embora, Gonzaga levantou-se, colocou o chapéu, ficou parado à porta, virou-se para o menino e disse: “O teu pai me escreveu que queria que tivesse uma chance. Você tinha, você usou, isto é dele para si, mas o que faz com isto daqui para a frente é só seu. Pausa.

E mais uma coisa, se algum dia alguém olhar para si e disser que não é profissional o suficiente, pega-se este instrumento, toca e deixa a música responder, porque a música não mente. Quem olha para o músico antes de ouvir a música é que está enganado. saiu pela porta, desceu a escada do sobrado da Boa Vista, com o barulho da rua do Recife chegando pela janela aberta, o cheiro a frevo e manga e pó quente que é o cheiro do Recife, quando o Verão aperta, foi ao Teatro Santa Isabel na noite seguinte, tocou Aa Branca, tocou o

baião, tocou o shot das meninas, tocou o lamento de canindé. Neto Figueiredo estava na plateia nessa noite. Tinha comprou bilhete com o próprio dinheiro. Ficou numa poltrona do meio e ouviu Gonzaga do princípio ao fim. No intervalo, não foi ao bar, não foi ao banheiro. Ficou sentado a olhar para o palco vazio com uma expressão que quem estava ao lado poderia confundir com tristeza, mas que era outra coisa.

 O que Neto sentiu nessa noite, ouvindo aquela música que conhecia, mas que nunca tinha ouvido verdadeiramente, é difícil de nomear com precisão. Havia nas músicas de Gonzaga uma camada que só aparece quando já se sabe alguma coisa sobre quem as fez e de onde vieram. Não é apenas melodia, é o peso de alguém que saiu de Exu sem nada e chegou àquele palco carregando tudo.

 É a voz de um homem que foi invisível durante anos e que tinha agora o Teatro Santa Isabel em silêncio. Neto não tinha procurado perceber nada disto quando mandou embora o homem de camisa surrada. naquela noite entendeu não de golpe, devagar, música pela música, como quem abre uma janela que estava fechada há tempo.

 Era o jeito que certos homens ficam quando se apercebem que estavam errados sobre uma coisa importante e que o erro ensinou mais do que teriam aprendido se estivessem certos. No final do concerto, Neto saiu pela porta lateral, atravessou a rua e foi embora a pé pelo centro do Recife no calor da noite.

 Nunca procurou Gonzaga para se desculpar. Nunca contou para ninguém, nem para o dono da loja, que era ele quem pagava o autocarro de João Leal todas as sextas-feiras. Ficou sendo o homem que ninguém sabe que estava no meio dessa história. João Leal Saiu do Recife no início dos anos 60, foi para Fortaleza primeiro, depois para o Rio, carregando a Honorer de folle vermelho escuro num estojo que tinha comprado com os primeiros cruzeiros que ganhou tocando em baile.

 Em 1963, entrou em estúdio pela primeira vez. gravou um compacto simples, de dois lados, pequena distribuição, que chegou a algumas rádios do interior do Nordeste. Uma dessas rádios tocou o compacto numa tarde de segunda-feira. A rádio era de Caruaru. Gonzaga soube da música dias depois por recado de um amigo que ouviu na rádio e reconheceu algo na forma de tocar. O amigo descreveu-o num bilhete.

Há um acordeonista novo que toca igual si, mas diferente. Um negócio esquisito. Gonzaga pediu o nome. Quando o nome João Leal chegou, ficou quieto durante algum tempo numa cadeira de hotel em São Paulo com o bilhete na mão. Depois dobrou o papel. Colocou no bolso da camisa, do lado do peito, o mesmo lugar onde tinha guardado a carta do Zé Leal em 1957.

A canção que João Leal tinha gravado chamava Sertão de Dentro, composição própria, letra e melodia, que falava de seca e de volta,  e de uma saudade que não tem morada certa, porque a morada é um lugar que não há mais  da maneira que tu lembra-se. Tinha um trecho que soava quase como asa branca, mas diferente, como se tivesse saído do mesmo lugar sem ser a mesma coisa.

 Gonzaga ouviu aquela música três anos depois num rádio de pilhas no camarim antes de um concerto no Rio. A começou a música e Gonzaga ficou parado. Ouviu do princípio ao fim. Quando o locutor anunciou o nome do artista, o contrregra que estava ao canto olhou para o Gonzaga por acaso e viu uma coisa que nunca tinha visto em anos a trabalhar com ele.

O Gonzaga estava a sorrir, sorrindo com os olhos, do tipo que não avisa que vai acontecer. Anos mais tarde, quando essa história foi contada numa roda de conversa num botequim do Rio, depois de um espectáculo de João Leal que Gonzaga tinha ido assistir na plateia sem avisar ninguém, o Contrarregra disse que naquele momento no camarim tinha entendido que havia algo entre aquela música na rádio e aquele sorriso que era de outra ordem.

 Havia um fio entre as duas coisas que ele não conseguia nomear, mas que sentia. Era o peso do uma conta quefecha. Januário tinha ensinou Gonzaga olhando. Gonzaga tinha comprado uma concertina para um menino que nunca tinha posto os pés num estúdio. O menino tinha crescido e gravado uma canção que chegou num rádio de pilhas num camarim do Rio de Janeiro.

 E o fio que ligava estes três gerações passava por uma carta escrita à mão num papel de feira, por um envelope de papel pardo com 50.000 mil cruzeiros e por um jovem vendedor de fato escuro, que disse uma coisa errada e passou anos a tentar, a seu modo torto e silencioso, desfazer o que tinha dito. O sertão tem esta forma de guardar as coisas.

 Guarda o que achamos que perdeu, devolve quando a gente menos espera, na forma que nós menos imagina. Em 1968, Gonzaga estava na plateia de uma festa junina em Campina Grande, enquanto João Leal tocava em palco. Depois do concerto, os dois encontraram-se  num corredor de bastidores. O João estava com a concertina ainda encaixada nas correias, suado, com o cabelo colado à testa.

Gonzaga disse: “Lembras-te de mim?” O João disse que sim. Gonzaga  disse: “A concertina ainda está boa?” O João abriu um pouco o fle. A nota que saiu ainda suava limpa. Gonzaga disse: “O teu pai teria gostado”.  O João ficou quieto por um momento, depois disse: “Ele teria ficado com inveja. Conzaga riu-se.

 Rio de verdade, com o corpo inteiro, o tipo de riso que não aparece em foto. Saíram juntos, foram comer carne de sol com farinha numa mesa de botiquim perto da festa junina. ficaram até tarde. Falaram de música, de sertão, de estrada, de gente que cada um tinha encontrado pelo caminho.

 Gonzaga perguntou pelo professor Raimundo Barreiros. O João disse que tinha morrido dois anos antes, de coração, num domingo de manhã. Gonzaga ficou um momento em silêncio. Depois disse que Raimundo era um bom homem. O João concordou com a cabeça. Em algum momento da conversa, numa das pausas em que os dois ficaram a olhar para a mesa com os pensamentos noutro lugar, João perguntou como é que Gonzaga tinha sabido da carta do pai.

 Gonzaga explicou o caminho. O radialista de Caruaru, o produtor do rio, o recado que chegou. O João ouviu e ficou quieto durante um momento. Depois disse: “O meu pai nunca me contou que tinha enviado uma carta”. Gonzaga olhou para ele. O João continuou. Morreu antes de me contar. Eu só soube quando a senhora chegou com a concertina nova.

 Gonzaga ficou a olhar para mesa. Havia algo naquilo que fechava uma coisa que ele não sabia que estava aberta. O pai que pediu sem dizer ao filho que tinha pedido. O filho que recebeu sem saber que vinha de um pedido e os dois vivendo o que veio depois, sem que a origem fosse nomeada entre eles. Gonzaga disse devagar.

 Ele sabia o que estava a fazer. O João não respondeu, mas ficou com aquilo. Neto Figueiredo não estava naquele botequim. Tinha saído do Recife anos antes, tentado a vida em São Paulo, perdido o contacto com tudo o que tinha a ver com aquele Agosto de 1957. Mas era o tipo de pessoa que aparece nas histórias dos outros de uma forma que só torna-se visível quando se vê a história inteira de fora.

 E a concertina de folle vermelho escuro, comprada com 50.000 1 cruzeiros num envelope de papel pardo, tocada nas mãos de um rapaz de 12 anos numa feira de Caruaru, levada ao Recife todas as sextas-feiras no colo de um autocarro de linha, estava agora encostada a uma parede de botiquinha em Campina Grande, quieta como um instrumento que trabalhou muito e merece descanso.

 Gonzaga olhou para ela num determinado momento da noite, ficou a olhar e não disse nada, que às vezes é a coisa mais pesada que um homem pode fazer. Se cresceu ouvindo Gonzaga na rádio, se carregar no peito o belo peso de uma saudade que tem sotaque e cheiro a sertão, escreve aqui em baixo de onde estás a assistir. E se houve alguém na sua vida que foi o seu Zé Leal que lhe ensinou alguma coisa importante sem saber que estava ensinando.

 Inscreva-se se carrega o sertão no peito. E nunca esqueceu o que Gonzaga representou. O que acabou de ouvir não é o fim desta história. É o início de uma que é ainda mais pesada. Porque há uma noite perdida nos anos 60 em que Pelé entrou num bar no interior do Nordeste depois de uma viagem de estrada, sem saber que o acordeonista que tocava no canto era Luís Gonzaga.

Gonzaga estava sem chapéu de couro, sem nenhuma produção, tocando para si e para uns poucos que estavam à mesa. E o que disse Pelé quando percebeu quem era? E o que Gonzaga respondeu é uma troca que nenhum dos dois comentou  publicamente em vida. A história completa está neste vídeo aqui. E se já assistiu, há mais histórias como esta esperando por você aqui no canal.

 

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