Ela não carregava caldeirão nem talismã, transportava folhas, cascas e uma paciência amarga, como quem aprendeu que o mundo não recompensa quem sente demais. Larga essa foice aí no canto”, ordenou ela sem levantar a voz. E Catarina hesitou. Porque no sertão a as pessoas só largam a arma quando confiam ou quando se rende.
Mas a sede ardia e o corpo dela já estava no limite. Ela encostou a foice a uma pedra e a velha se aproximou-se com uma cabaça de água. A Catarina bebeu como quem volta a respirar ao fim de anos, a água fria escorrendo pela garganta e devolvendo um pouco de gente ao corpo. E então Zulmira observou cada movimento como se avaliando não a fome, mas a coragem.
“Não chorou?”, comentou a velha quase com desaprovação e Catarina respondeu com voz rouca: “Choro não apaga o fogo.” Zumira soltou um som curto que podia ser riso ou podia ser a doer-lhe a lembrança, e virou as costas, mostrando o interior da gruta. Havia uma esteira de palha, um giral tosco, feixes de erva pendurados no tecto de pedra, um almofariz com um cheiro forte a raiz e marcas no chão, como se alguém enterasse e desenterrasse coisas ali há muito tempo.
O medo de Catarina não diminuiu, ele só mudou de forma, porque ali dentro não havia demónio, mas havia segredo. E segredo no sertão é mais perigoso do que qualquer assombração inventada. O povo lá fora chama-me velha do dedo torto, a Zulira disse, mexendo num pote de barro com uma colher de madeira, como se um nome feio afastasse doença e afaste-lhes a culpa.
Catarina ouviu e sentiu a raiva misturar-se com um respeito estranho, porque aquela velha parecia ter sido cuspida pela injustiça e mesmo assim continuava de pé. Eu não vim pedir feitiço, Catarina repetiu como se precisasse de afirmar para si mesma e pediu apenas o essencial. Um local para passar a noite e força para voltar e enfrentar Tenório.
Zumira virou-se o rosto, o olho bom a brilhar na penumbra e respondeu com uma frieza que parecia lição. Voltar, voltas. Enfrentar é outra coisa. Homem como Tenório não cai com braveza, cai com prova. Catarina sentiu o sangue subir, porque a prova era coisa que o Coronel enterrava antes de nascer. E ela retorquiu que prova não enchia barriga, que prova não segurava Jagunço.
E Zumira levantou o dedo torto como quem corta a conversa. E a arma segura. Arma só abre cova rasa. Quer morrer valente ou quer viver vingada? A pergunta ficou dentro de Catarina como brasa, porque ela conhecia o destino de quem apanhavam arma contra gente grande. Vira exemplo no meio da estrada. vira recado. Mesmo assim, era difícil aceitar que a saída não fosse lâmina, que a justiça pudesse vir de papel, no sertão, onde o papel costuma servir o poderoso.
Zumira, como se lesse o pensamento, empurrou para ela um pedaço de mandioca assada e um punhado de sal e disse para comer devagar, porque coragem com estômago vazio transforma-se em loucura. Naquela noite, A Catarina dormiu na passadeira com o ouvido atento ao som do mato, e o sertão ali fora parecia conversar com a gruta.
O vento passava assobiando pelos ramos. Um bicho noturno cantava longe e depois perto. E, por vezes, o silêncio ficava tão pesado que ela jurava ouvir passos humanos, mas era apenas a própria mente testando o medo como quem testa uma faca no dedo. Os dias seguintes ensinaram a Catarina um quotidiano que não era paz, era sobrevivência treinada.

Zumira acordava antes do primeiro clarão e saía coxeando para colher coisa no escuro, não por misticismo, mas por cuidado. A velha sabia que o cheiro do fogo e o rasto de passos são convites para a caça. Ela ensinou a Catarina a reconhecer água escondida entre pedras, a raspar casca certa para baixar a febre, a esmagar folha que estanca sangue.
E também ensinou o que nenhuma oração ensina a andar sem quebrar galho, a pisar onde o chão não denuncia, a escutar antes de aparecer. Catarina, que vinha da lavoura, pensava que conhecia mato, mas a mata das almas era diferente. Tinha um jeito de enganar a direção. Nela, as veredas se repetiam, as pedras parecem iguais e a sombra muda de lugar, como se o próprio lugar quisesse fazer-te rodar até desistir.
É por isso que não entram. Zumira explicou certa tarde quando a Catarina comentou que não tinha visto sinal de Jagunço lá dentro. Homem de Tenório conhece caminho de boiada e trilho de feira. Aqui dentro o caminho não obedece. E depois, sem olhar diretamente, a velha soltou uma verdade que assustou mais do que qualquer lenda.
Mas ele manda-nos tentar, estás a ver? Já mandou antes. Só que o mato devolve de outro jeito. A Catarina perguntou o que era de outra maneira. Zumira não respondeu com história de fantasmas. respondeu com um silêncio comprido e um gesto para que Catarina reparasse num monte de pedras empilhadas a um canto, pequenas cruzes de pau espetada entre elas como túmulo sem nome.
Não havia ali sangue, não havia espetáculo, só a fria confirmação de que o sertão come quem entra sem respeito e que a lenda da bruxa era conveniente para o coronel, porque afastava curiosos, afastava padre, afastava a justiça. A Catarina sentiu um arrepiou-se e pensou na sua própria caça lá fora, em Tenório escolhendo o fim dela, como se escolhe o preço de um boi.
E pela primeira vez, a ideia de desaparecer ganhou contorno. Não era só matar, era apagar, fazer desaparecer para que ninguém tivesse a quem cobrar. Numa dessas tardes, enquanto Zulmira esmagava raízes no almofariz, a Catarina perguntou de onde a velha sabia que era viúva e a resposta veio simples e mais assustadora que feitiço.
Porque ouço: tropeiro fala na feira, mulher fala à beira do rio, um padre fala demais quando acha que ninguém ouve e Tenório fala com jagunço como quem fala com um cão. Mas cão ladra e o ladrar corre. A racionalidade desta rede de murmúrios era pior do que a magia, porque provava que todo o sertão era um ouvido e que segredo só existe até alguém decidir ouvir de verdade.
Zumira, em momentos raros, deixava escapar que um dia já teve um nome grande e uma casa grande e que perdeu tudo, não por seca, nem por peste, mas por traição de homem com fome de mundo. Ela não dizia o nome deste homem, mas quando falava, o dedo torto apertava o ar como se apertasse garganta. E Catarina entendia que aquela amargura não era maldade, era cicatriz.
Na terceira noite, a chuva veio miudinha e insistente, batendo nas pedras e fazendo o ar cheirar a terra lavada. E foi nessa noite que apareceu o primeiro sinal de que o tempo de esconder estava a terminar. Catarina acordou com Zulmira de pé, rígida, o ouvido colado à entrada da caverna.
“Há gente lá fora”, a velha sussurrou. E Catarina sentiu o estômago afundar. porque reconheceu o silêncio de caça. Aquele silêncio em que até um bicho cala-se para não ser confundido com o alvo. Apagaram a chama quase toda, ficando apenas com um fiapo de luz escondido atrás de pedra e ficaram paradas respirando baixo.
O som veio depois, distante, um açubio curto, resposta de outro açubio, e o estalido de ramo quebrado de propósito como marcação. Não era onça, não era caça de mato, era homem. Catarina apertou a pedra com a mão como se fosse uma arma, e o coração dela martelava. Mas Zulmira segurou o pulso dela com uma força que não parecia de 90 anos e murmurou: “Se são eles, não é hoje que se morre, não aqui.
” O assubio afastou-se e depois nada além da chuva, mas o aviso manteve-se. Tenório não tinha desistido e a mata das almas, por mais temida, não era invisível para sempre. Na manhã seguinte, Zulmira olhou Catarina como quem mede o destino e disse que esconder não é viver, que a justiça precisa de palco e que o palco do sertão é a igreja, sobretudo no dia em que todo o mundo se reúne para pretender santidade.
Catarina, com a raiva ainda a pedir sangue, pediu veneno, pediu uma arma, pediu ao menos uma maneira de fazer Tenório sofrer. E Zumira negou com uma dureza quase maternal. Eu não te vou dar faca para que vire manchete de cova rasa. Quer derrubar tenório? Então vai derrubar com o que ele teme mais do que bala.
A velha foi até um canto da gruta onde o chão parecia mexido. Afastou pedras, cavou com a mão e puxou de dentro um embrulho envolto em couro, uma bainha velha ressecada, marcada pelo tempo. Quando ela abriu, não havia lâmina. Havia um documento amarelado dobrado cuidadosamente, com selo e assinatura antiga e junto um anel pesado de ouro com brasão gravado, frio na mão, como se carregasse anos de mentira.
Catarina sentiu o peso do anel e, por um instante, acreditou que aquilo era feitiço, porque o objeto parecia ter vontade própria, como se pedisse para ser mostrado. Isto não é magia, Zulmira disse, encarando Catarina com o olho bom brilhando. Isto é sentença. Catarina tentou compreender, mas a velha não despejou o segredo todo.
Guardou como quem protege prova. “Vai entrar na igreja no dia da festa do padroeiro.” Zulmira continuou. Quando o bispo vier da capital e Tenório estiver na frente do altar exibindo-se, não mostra isto para um padre de aldeia, nem para um juiz comprado. Você mostra ao bispo e você não grita. Você entrega e deixa a vergonha fazer o resto.
Catarina engoliu seco, porque nesse plano havia uma coragem diferente, a coragem de aparecer em público sem arma, com a verdade na mão. E no sertão isso é mais perigoso do que apontar uma espingarda. Ela perguntou por Zulmira confiava nela. Porque dar aquilo precisamente a uma viúva perseguida. E a velha hesitou um segundo antes de responder com uma frase que doeu bonito.
Porque entrou aqui sem pedir milagre? Pediu água e pediu caminho? E porque já perdi demais para deixar mais uma mulher virar fumo de coronel? A Catarina guardou a bainha por dentro do vestido, encostada ao corpo, sentindo o couro duro e o papel esmagado como se fossem costelas novas, e o anel frio. Ela colocou-o num bolso interno como quem transporta pedra preciosa e maldição ao mesmo tempo.
Quando se preparou-se para sair, Zumira segurou o braço dela e, num tom baixo, quase íntimo, soltou o último aviso. Tenório não tem medo de bruxas. Ele tem medo de gente que prova. E quando ele sentir o cheiro disso em ti, ele vem com tudo. A Catarina saiu da gruta com o sol duro do sertão, batendo na cara e o vento quente trazendo poeira.
E cada passo de volta ao mundo dos homens parecia puxá-la para uma arena onde a voz do espingarda ainda mandava. Só que agora ela transportava algo que podia fazer até ao altar tremer. Atrás dela, à entrada da gruta, a dona Zumira ficou parada como sombra antiga e Catarina não viu, mas o sertão viu. No alto de um lagedo distante, uma silhueta de homem observava imóvel, como quem marca o caminho por onde a caça vai passar.
Catarina desceu da mata das almas como quem transporta um segredo vivo colado ao peito, sentindo a bainha de couro roçar a pele por dentro do vestido a cada passo. E aquele atrito era quase um cruel lembrete de que não bastava ter coragem, era preciso ter tempo, porque o sertão, quando decide caçar-te, não corre, ele espera.
O sol ainda nem tinha queimado o céu por inteiro quando ela apercebeu-se dos primeiros sinais de que Tenório já farejava o caminho no barro seco. perto de uma vereda, pegadas de bota recente, o capim amassado em linha reta, um pedaço de fumo mascado cuspido no chão e o tipo de silêncio que não pertence ao mato, aquele silêncio armado que acontece quando as pessoas se espalham para cercar.
Catarina parou atrás de um mandacaru, o corpo inteiro em alerta, e, pela primeira vez, desde que entrou na mata, sentiu o medo tornar-se uma faca, porque ali fora o sertão era de Tenório, e Tenório sabia fazer o mundo parecer pequeno. Ela lembrou as lições de Zulmira como se fossem oração. Respirou pelo nariz para não denunciar a presença e mudou de rumo, seguindo por pedras, onde a sola não marca, descendo por um lajedo inclinado até um troço de chão duro, e o coração batia tão alto que ela tinha a impressão de que os jagunços ouviriam.
Ao longe, no meio da claridade tremida do calor, ela viu dois homens parados, separados um do outro, fingindo que apenas descansavam, mas com o corpo voltado para onde ela estaria se tivesse seguiu o caminho óbvio, e isso fez com que compreender a astúcia do coronel. Ele não mandava procurar a viúva como quem procura alguém perdido.
Mandava como quem arma cerca para bicho, fazendo a presa se entregar ao cansaço. Catarina seguiu com sede, mordendo-lhe a garganta, mas sem desesperar, porque desespero é barulho. Ela atravessou um troço de catinga baixa, onde os ramos arranhavam os braços como mãos. sentiu sangue fino escorrer e mesmo assim continuou engolindo a dor como se fosse sal, até encontrar uma pedra grande, o suficiente, para esconder o corpo e permitir olhar ao redor.
Foi então que viu, no cimo da um espigão a silhueta daquele homem que tinha observado a entrada da gruta no dia anterior, agora mais nítida, chapéu baixo e postura de quem vigia há horas. E Catarina percebeu que o ataque não era só na estrada, era no tempo. Tenório queria saber para onde ia e se ela transportava algo, ele queria arrancar antes que se tornasse palavra.
Ela segurou a bainha com mais força, como se segurasse uma criança, e seguiu por dentro de uma linha de arbustos espinhos que fazia com que o corpo sofrer, mas apagava o rasto, sentindo a pele a arder e o cheiro a poeira quente entrar no nariz com gosto de ferrugem. Quando o dia avançou, o vento trouxe longe um som que gelou.
Ladrar de cão de caça. Não o ladrar solto de bicho do mato, mas o ladrar treinado, aquele que vem em rajadas obedecendo ao comando. E Catarina compreendeu que a perseguição tinha ganho boca e nariz, o tipo de arma que não cansa. Ela correu durante alguns minutos, mas correu com cabeça, e não com pânico, desviando-se por um troço de pedras soltas, onde o cheiro dela se espalharia com o vento, e mergulhou numa vereda estreita.
enfiando os pés na água pouco profunda escondida entre erva para quebrar a pista, sentindo o alívio frio por um instante e logo depois o medo da cobra. Ainda assim, ela preferiu arriscar veneno de bicho do que bala de homem. O ladrar aproximou e depois afastou-se, como se os cães tivessem perdido o fio.
E a Catarina ficou agachada entre os buritis, respirando tão baixo que mal parecia viva, até ao sertão voltar a cantar com um inseto e um pássaro. E quando finalmente se levantou, a roupa colada no corpo, ela não sentiu vitória, sentiu urgência, porque cada minuto ali passado era um minuto que Tenório usaria para preparar o palco da festa do padroeiro, como se fosse um altar de mentira.
No fim da tarde, ela avistou ao longe a linha da mata das almas de novo, não porque quisesse voltar, mas porque viu no céu um fumo fino, torto, subindo de um ponto que só podia ser próximo da gruta, e o coração dela afundou-se como pedra em poço. Catarina ficou parada, olhando aquele fumo como quem olha presságio, e os sons do sertão pareceram desaparecer por um instante, porque a mente dela viu o óbvio.
Tenório não tinha mandado só cercar caminho, tinha mandado atacar a fonte. Ela correu até um alto de pedra que dava melhor vista, e entre as árvores e o relevo viu movimento, pontos a mexer, homens, e o clarão de algo a arder baixo, não uma fogueira grande, mas fogo de quem tenta forçar alguém a sair.
E depois ouviu um grito curto, sufocado, e um estampido, que podia ser tiro, ou pode ser pedra a quebrar, e o instinto dela quis voltar, entrar no meio, arrancar zira dali com as mãos. Mas a recordação da velha, o olho bom a brilhar na penumbra, a frase ” Não gritas, entregas”, puxou Catarina de volta para a realidade com violência maior do que qualquer tapa.
Se ela fosse agora, seria exatamente o que Tenório pretendia: corpo a mais para enterrar e menos uma prova para aparecer. Ela ajoelhou-se atrás do laedo, mordeu o próprio punho até lhe doer e sentiu uma raiva tão grande que se tornou calma, uma calma perigosa, porque era a calma de quem opta por não morrer no impulso.
O fumo continuava subindo e Catarina jurou por dentro que se Zulmira estivesse a pagar o preço por ter ajudado, então ela faria tenório pagar em público, sem sangue, mas com vergonha, que é a ferida que não cicatriza no poder. Quando o sol começou a cair, pintando o sertão de cobre, Catarina seguiu para o arraial, mantendo-se pelas bermas, evitando trilhos abertos, atravessando pedras e capim.
E de cada vez que o vento trazia cheiro a fumo, ela sentia o estômago embrulhar, mas também sentia a bainha no peito como se fosse bússola. Lembrando que aquela já não era a história de uma viúva a correr, era a história de uma sentença à procura de juiz. O arraial estava em festa ainda antes de a noite cair por completo, porque festa de padroeiro no sertão é a única hora em que a pobreza finge a alegria sem pedir desculpa.
Havia bandeirolas de pano atravessando a rua, cheiro a milho assado, de carne na brasa, de aguardente derramado no chão e o som da zabumba e viola misturando-se ao burburinho. A Catarina chegou por trás das casas, suja, magra, com o rosto marcado de sol e espinho, e ao atravessar a primeira esquina, sentiu dezenas de olhos colarem-se nela como carraça.
Alguém sussurrou: “É ela! Outro fez o sinal da cruz e uma criança escondeu-se na saia da mãe como se tivesse visto assombração. Porque viúva que desaparece na mata das almas e regressa viva torna-se a lenda em menos de um dia. A Catarina não respondeu a ninguém, não parou para explicar, porque explicar no sertão vira fofoca e a fofoca vira arma na mão do coronel.
Ela seguiu diretamente para a igreja, sentindo o couro da bainha húmido de suor, e cada passo era um martelo batendo dentro do peito. A igreja, pequena e branca, estava iluminada com velas e candeeiros, e a porta aberta deixava escapar um cheiro a incenso e gente, e lá dentro ouvia-se a voz grave do bispo vindo da capital, a autoridade religiosa que Tenório fazia questão de trazer para se vestir de santo diante do povo.
O coronel estava lá à frente, de chapéu na mão e crucifixo no peito, doando dinheiro como quem compra céu. E ao lado dele, a filha do poder local, a noiva prometida, parecia uma boneca enfeitada, sorrindo sem compreender o abismo que pisava. Catarina viu também os jagunços espalhados como manchas pela igreja e pelo adro, fingindo que pareciam fiéis, mas com o olhar a varrer o lugar.
E naquele instante ela soube que Tenório já a esperava. Ele não precisava de saber que ela transportava a sentença. Bastava saber que ela carregava ousadia. Ela entrou mesmo assim, empurrada por uma força que não vinha do corpo, vinha da injustiça acumulada. E o burburinho morreu porque o povo reconheceu a viúva. E a viúva viva é sempre um tipo de acusação.
Catarina caminhou pelo corredor central com o passo firme, mesmo sentindo a fraqueza do corpo. E o chão da igreja pareceu alongar-se, como se cada tábua fosse uma pergunta. Tenório virou o rosto e quando viu Catarina, um sorriso lento apareceu, mas não era alegria, era deboche de quem pensa que já venceu.
Ele inclinou-se para um jagunço e disse algo que Catarina não ouviu, mas viu o homem mexer, deslizando para fechar a porta discretamente. E que foi o ataque no meio do sagrado, trancar a saída para transformar a igreja numa armadilha. A Catarina não correu, não gritou, porque Zumira tinha sido clara.
Quem grita dá desculpa para estar calado. Ela continuou caminhando até ao altar e quando chegou perto, Tenório abriu os braços como quem recebe penitente e soltou alto o bastante para o povo ouvir e rir nervoso. Olhem só, a viúva louca voltou para morrer. O bispo franziu o senho, sem compreender a encenação. E Catarina, com o olhar parado e a voz baixa, respondeu apenas: “Voltei para mostrar”.
Tenório riu-se e o seu riso ecoou como profanação. E então deu um passo em frente, colocando-se entre Catarina e o bispo, como se o próprio corpo pudesse impedir papel de falar. Dois jagunços aproximaram-se pelo lado, não apontando arma, mas prontos para agarrar. E o povo prendeu a respiração, porque toda a gente sabia que ali dentro da igreja o coronel ainda mandava mais do que o santo.
Catarina sentiu o couro da bainha no peito, puxou-a lentamente para fora do vestido e este pequeno, cuidadoso, movimento pareceu acender uma nova tensão no rosto de Tenório, porque o seu olhar mudou, ficou afiado, como se reconhecesse alguma coisa sem querer reconhecer. Catarina levantou a bainha como quem levanta uma prova, não uma arma, e deu o último passo, o passo que decide a vida ou morte no sertão, estendendo o embrulho para o bispo antes de qualquer mão assegurasse.
E no instante em que o bispo tocou no couro velho e viu o brilho pesado de um anel surgindo entre os dedos de Catarina, o seu rosto perdeu a cor, como se a luz das velas tivesse sido apagada por dentro. O silêncio que caiu na igreja não foi silêncio de oração, foi silêncio de bicho quando sente o predador por perto. E de repente até o cheiro a incenso pareceu mais pesado, como se o fumo quisesse esconder o que estava prestes a acontecer.
O bispo segurou o anel entre os dedos, como quem segura uma coisa sagrada e perigosa ao mesmo tempo. E Catarina viu no rosto dele a reação de quem reconhece um símbolo mesmo antes de compreender a história. Porque brasão não é enfeite. Brzão é assinatura de sangue e de título. E título naquele sertão era como uma faca pendurada no alto.
Pouca gente via, mas toda a gente obedecia. Tenório ainda tentou rir, esticando o sorriso como quem estica uma lona para cobrir cadáver, e deu um passo em frente, querendo tirar o objeto da mão do bispo com uma falsa intimidade, chamando-lhe Vossa Excelência, com voz melosa, dizendo que era uma coisa de loucos, de superstição, de viúva enlouquecida, e que ali era dia de festa, não de escândalo.
Só que o bispo recuou um palmo, e este pequeno recuo foi maior do que um grito, porque mostrou a Tenório que havia um tipo de autoridade que não compra-se com boi, nem com promessa. O bispo abriu o documento amarelado com cuidado, como se ele pudesse rasgar o tempo, e toda a igreja pareceu se inclinar para ver, mesmo sem enxergar.
Porque quando um poderoso perde a cor do rosto, o povo sente antes de compreender. O bispo leu em silêncio por alguns segundos, a testa franzida, os olhos a correr por linhas antigas, e levantou então o olhar para Tenório, como quem olha para um homem sem roupa, e perguntou em voz baixa, mas clara o é suficiente para a primeira fila ouvir.
De onde veio isto? De Tenório respondeu demasiado rápido, dizendo que era falsificação, que era uma peça de bruxaria, que aquela viúva tinha sido enfeitiçada pela velha da mata. E ao pronunciar velha da mata, tentou atirar as culpas no sobrenatural para o povo se benzer e esquecer o resto.
Só que o bispo, em vez de se benzer, apertou o anel na palma e disse algo que ninguém esperava ouvir ali. Este brzão pertence à casa de, e citou um nome comprido, de nobreza antiga, que poucos entenderam por inteiro, mas todos compreenderam o sentido, porque o tom dele mudou, deixou de ser o tom de padre, virou o tom de tribunal.
Catarina sentiu o couro da bainha colado nos dedos de suor e percebeu que Tenório, pela primeira vez, não controlava o chão, porque o homem do altar não estava com medo da espingarda, estava com medo do papel. E quando o bispo leu em voz alta um excerto da Escritura, falando de terras, limites, veredas, lajedos e do direito legítimo de uma proprietária desaparecido há 50 anos, a expressão de Tenório rachou, não como arrependimento, mas como susto de ladrão quando alguém acende a luz.
O povo murmurou porque a palavra desaparecida carregava lenda. E Catarina viu as mulheres olharem-se como quem se lembra de histórias de uma baronesa que desapareceu, de uma senhora rica que morreu subitamente e foi enterrada longe. Histórias que os mais velhos contavam para assustar criança, mas que agora voltavam com um sabor novo de verdade.
Tenório tentou interrompê-lo, dizendo que aquilo era coisa de cidade grande, que ali quem mandava era ele, que a igreja devia cuidar de alma e não de terra. E quando levantou a voz, os jagunços dele se mexeram, fechando mais a porta, apertando o cerco, como se fossem transformar o altar num curral. Catarina sentiu o ar a mudar, aquele ar de violência prestes a nascer, e a mão dela quase procurou a foice, que já não estava ali, mas ela manteve-se firme, porque o plano de Zumira não era matar, era expor. E expor exige um tipo de
coragem que não treme. O bispo olhou para os jagunços e, sem gritar, fez um gesto com dois homens que estavam perto do couro. Homens de roupas mais simples, mas com postura de guarda. Porque bispo vindo da capital não viaja sozinho no sertão. Os homens avançaram um passo e o recado ficou no ar.
Ali também havia braço armado, só que agora do lado da lei. Coronel Tenório. O bispo disse com uma calma que cortava: “O Senhor está dentro da casa de Deus diante do povo e diante de mim. Se insistir em ameaça, o Senhor confessa-se sozinho. Tenório engoliu em seco e Catarina viu naquele segundo a verdade mais feia. Ele não tinha medo do pecado, tinha medo de perder o palco.
Foi então que Catarina, sem elevar a voz, completou o que o bispo precisava de ouvir, entregando a peça final com a frieza de quem segura o Choro há dias. A dona do anel está viva e ela mandou-me trazer. A igreja inteira pareceu parar. Alguém soltou um credo tão baixo que foi mais respiração do que palavra.
Tenório riu-se de novo, mas desta vez o riso saiu fino, nervoso e ele cuspiu a mentira mais útil. viva na mata. Aquela velha é bruxa, é bicho, é assombração. O bispo encarou Catarina e perguntou onde estava a portadora do brzão. E Catarina, lembrando o fumo que viu e do cheiro a queimadura, sentiu a culpa subir como ácido, mas respondeu com a verdade possível: “Na mata das almas, numa gruta, e os homens dele foram atrás.
Ao ouvir isto, Tenório não conseguiu esconder o clarão de alívio que lhe atravessou o rosto, aquele alívio de quem acha que o problema já foi resolvido com fogo e bala. E Catarina entendeu que o ataque que viu não era só perseguição, era tentativa de apagar a prova viva. O bispo fechou o documento com força e essa força fez o som do papel parecer sentença batida na mesa.
Ordenou que a porta da igreja fosse aberta e que ninguém impedisse a saída de ninguém. E quando um jagunço tentou fazer menção de voltar a fechar, um dos homens do bispo mostraram a arma discretamente, sem espetáculo, e o Jagunço recuou como o cão que reconhece dono maior. Tenório, percebendo que o chão estava a mudar sobre os pés, tentou outra estratégia.
aproximou-se do bispo com voz mais baixa, oferecendo donativos, promessas, acordos, como se tudo no mundo tivesse preço. E o bispo respondeu de uma forma que fez até o mais descrente sentir arrepio. Há coisas que não se compram, e uma delas é a prova de que um homem viveu como usurpador. O termo usurpador foi como deitar brasa na palha.
O povo murmurou alto. Alguns homens baixaram a cabeça como se se lembrassem de vizinhos expulsos, de cercas movidas, de água tomada. E a Catarina viu que naquele instante a dor dela juntava-se à dor de muitos, virando maré. O bispo então chamou o juiz da aldeia pelo nome, obrigando-o a levantar-se na frente de todos, e exigiu que fosse registada uma diligência imediata até à mata das almas, com testemunhas para trazer a portadora do brasão e verificar os factos.
E foi esse o golpe que Tenório não esperava. Transformar lenda em procedimento, assombração em papel timbrado, bruxa em titularidade. Catarina, vendo o juiz hesitar, entendeu que o homem tinha medo do coronel e o bispo, apercebendo-se do mesmo, disse que se o juiz se recusasse, responderia também, porque encobrir um crime de terra era pecado e era crime.
E naquele sertão, poucas coisas assustavam mais do que a ameaça de uma autoridade exterior, que não devia favor ao coronel. Tenório tentou escapar pela lateral e este movimento foi instinto, não plano. Ele quis desaparecer antes que o seu nome se tornasse prova escrita, mas o povo abriu o caminho com falso respeito.
E à porta encontrou o olhar de Catarina e naquele olhar estava a coisa mais perigosa do sertão, alguém que não tem mais medo. “És viúva e louca”, ele rosnou baixinho, como se ainda pudesse enfeitiçar com palavra. E Catarina respondeu com a mesma secura. com que tinha sobrevivido na floresta. Eu sou testemunha.
Essa palavra testemunha doe eu em Tenório como bala invisível, porque o seu poder dependia do contrário. Ninguém ver, ninguém falar, ninguém se lembrar. A saída da igreja tornou-se cortejo ao inverso, não de festa, mas de caçada pela verdade. O bispo manteve o documento e o anel guardado sob proteção, como se fossem relíquia, e ordenou que dois homens seguissem com ele até à casa paroquial, enquanto o outro grupo preparava-se para ir para a mata com Catarina à frente, porque ninguém conhecia o caminho como quem tinha saído de lá viva. O povo dividiu-se entre
pavor e curiosidade. Alguns queriam ir juntos, outros recuavam, lembrando-se das histórias da velha do dedo torto. E Catarina percebeu com amargura que a lenda tinha sido plantada para que mesmo, para que o povo não ousasse pisar onde o coronel escondia o pecado antigo. Quando a tarde começou a cair, tingindo o sertão de cobre, Catarina viu-se na beira do arraial outra vez, só que agora acompanhada por homens que transportavam autoridade e o medo.
E essa mistura era instável, porque o medo pode tornar-se traição. Ela sentiu o peso da bainha agora vazia no peito e pensou em Zumira, sozinha, ferida, talvez rodeada, talvez, e a culpa apertou-a. Mas, juntamente com a culpa veio a certeza de que a velha tinha escolhido esse risco. Ela tinha escondido o brasão durante 50 anos, como quem esconde facas sobre a almofada, esperando a noite certa para usar sem sangue.
E agora a noite certa tinha chegado. O grupo pôs-se a caminho e à medida que se afastavam do arraial, o som da festa ficava para trás como recordação de mundo normal. E o sertão retomava o seu silêncio de sempre, interrompido por grilo, por vento, por passos na pedra. A Catarina guiou pelo troço onde as pegadas somiam, pelo lajedo onde o rasto não fica.
E quanto mais se aproximavam da mata das almas, mais os os homens engoliam em seco, porque ali o medo não era de bruxa, era de entrar num local onde o coronel talvez já tivesse deixado o cadáver para ensinar lição. Quando o fumo voltou a aparecer ao longe, fina e torta, Catarina sentiu o estômago embrulhar e acelerou o passo, ouvindo atrás de si um dos homens murmurar uma oração que não era fé, era proteção contra a culpa.
A mata na entrada parecia mais escura do que antes e o ar ficou frio de repente, como se o próprio lugar soubesse que estava a ser invadido por gente que nunca teve coragem. Catarina atravessou a linha de sombra com o coração na garganta e, no fundo, uma cruel certeza. A revelação na igreja tinha aberto a porta da justiça, mas a justiça, para se completar precisava de encontrar a dona Zulmira viva.
E Catarina não sabia se Tenório tinha deixado essa hipótese existir. A mata das almas recebeu o grupo com aquele mesmo ar de garganta fechada, um frio húmido que não se coadunava com o calor do sertão, e a luz do fim de tarde entrou cortada pelas folhas, como se o céu estivesse peneirando a verdade, para não deixar ninguém ver tudo de uma vez.
Os homens do bispo pisavam com cuidado, o medo fazendo cada ramo parecer gente. E Catarina ia à frente com o peito apertado, porque o trilho que ela seguia agora não era só caminho de fuga, era caminho de prova. E toda a prova no sertão tem inimigo. O cheiro a fumo tornou-se mais forte à medida que avançavam junto de um odor a folha queimada e couro velho.
E isso fez com que o estômago de Catarina embrulhar, porque trouxe, como um golpe de recordação, o rancho dela creptando, a casa a tornar-se cinzenta, a voz de Tenório soprando some. acelerou, ignorando os espinhos que rasgavam a barra da saia e os arranhões que abriam riscos finos na pele, até que as pedras conhecidas apareceram, a fenda escondida entre se pós e o sopro frio da gruta saiu como um último suspiro.
Catarina chamou por Zulmira ainda antes de entrar, não com um grito de pânico, mas com aquela firmeza de quem precisa que a velha responda para o mundo não fechar de novo. E por um instante só o eco devolveu o nome, fazendo com que o coração dela cair como pedra. Os homens atrás se entreolharam.
Um deles fez o sinal da cruz. Outro apertou o cabo da arma com medo de assombração, mas Catarina não tinha mais espaço para a superstição. Ela empurrou o Cipó, entrou na penumbra e a primeira coisa que viu foi o chão revirado, as ervas espalhadas, o giral tombado, como se alguém tivesse procurado algo com fúria. E a segunda coisa foi uma mancha escura na pedra, não sangue derramado em excesso, mas o suficiente para ser astro de ferida.
E este pormenor cortou o ar. Um dos homens murmurou que era tarde demais, que Tenório tinha chegado primeiro e Catarina sentiu a culpa subir tão forte que quase a fez ajoelhar. Mas foi então que um som vinha do fundo da gruta, um arrastar leve, uma tosse presa, e a voz de Zumira apareceu como brasa que se recusa a apagar.
Não pisem aí que tem armadilha. A Catarina parou logo, o corpo congelado, porque aquela frase não era fantasia, era aviso de quem vive escondida há 50 anos e aprendeu a plantar defesa onde ninguém espera. A velha surgiu apoiada numa pedra, o rosto mais pálido, o lenço manchado, o olho bom ainda aceso e no braço tinha um corte profundo, mal enfaixado, sinal de que alguém tentou arrancar-lhe o que ela não entregou.
Catarina correu para ela, segurou a mão torta, sentindo o frio da pele. Zulmira, mesmo fraca, apertou os dedos com força de ferro, como se dissesse sem palavras que ainda mandava no próprio fim. Vieram, Catarina sussurrou. Zumira respondeu com um meio sorriso amargo. Vieram apagar nome, igual sempre. O bispo não entrou muito, ficou na boca da gruta, porque a A autoridade dele dependia de se manter inteiro, mas mandou trazer luz e chamar testemunhas.
E quando viu Zulmira viva, quando viu o rosto dela e o dedo torto e a marca antiga no queixo que coincidia com um retrato que tinha visto nos arquivos, o bispo empalideceu de vez, como quem encontra um fantasma que não é fantasma. É documento a andar. Zumira ergueu o queixo com a dignidade que nenhum coronel consegue comprar e disse com voz baixa, mas firme, o nome que tinha sido engolido pela lenda durante meio século, um nome de matriarca e de título.
E os homens atrás engasgaram-se, porque perceberam que a bruxa era, na verdade, a dona que o sertão tinha sido ensinado a esquecer. O bispo ordenou que ela fosse trazida em segurança, que ninguém tocasse em nada na gruta sem registar. E Catarina viu no olhar dos homens a mudança mais rara. Não era compaixão, era respeito. Porque respeito no sertão nasce quando a verdade vem com selo e rosto ao mesmo tempo.
Mas Tenório não era homem de aceitar a perda como se aceita seca. Ele apareceu no caminho antes mesmo de a comitiva conseguir se organizar para sair, não sozinho, mas com jagunços espalhados entre as árvores, fazendo com que o mato parecesse ter arma. E a voz dele veio de fora, grossa. mandando como se ainda estivesse na igreja. Entreguem a velha e a viúva.
Isto aqui é terra minha. O bispo respondeu com autoridade e com calma, dizendo que a terra não era dele, que havia escritura, anel, reconhecimento, que qualquer ato ali seria crime face da coroa e da igreja. E por um instante fez-se um silêncio tenso. Aquele silêncio em que todos calculam quantas mortes cabem num minuto.
Tenório fez então o que os homens assim fazem quando sentem o poder escorrer. Tentou transformar o fim em espetáculo, gritando que tudo era mentira, que Zumira era assombração, que Catarina era cúmplice, que o bispo estava a ser enganado por feitiço. E essa palavra feitiço saiu-lhe da boca como último recurso de controlo, porque sabia que o medo é mais fácil de comandar do que a razão.
Só que o sertão naquele momento estava cansado de medo. Um dos homens do bispo levantou a arma e ordenou aos jagunços que baixassem as deles. E a situação ficou à beira do desastre, até que uma voz fraca, mas cortante, saiu de dentro da gruta e atravessou a mata como sentença final. Foi Zulmira, sustentada por Catarina, dizendo o nome de Tenório e o nome do pai, citando com exactidão o roubo antigo, o dia, o lugar, o documento falsificado, como quem lê uma confissão de memória.
Aquilo desarmou mais do que pólvora, porque expôs o que Tenório sempre escondeu, a vergonha de ser filho de ladrão de títulos usurpador por herança. O bispo, com a prova viva diante de si, mandou prender Tenório ali mesmo. E os jagunços, percebendo que a maré tinha virado, hesitaram, porque Jagunço é fiel enquanto o poder parece invencível.
Quando o poder racha, a a fidelidade transforma-se em medo de cair junto. Tenório ainda tentou fugir pela mata, mas os homens do bispo e alguns moradores, que tinham seguido de longe, atraídos pelo rumor, fecharam caminho e foi ao chão, não com humilhação cinematográfica, mas com a humilhação real de quem percebe que pela primeira vez já ninguém está com medo.
Catarina viu o coronel ser amarrado e, em vez de sentir alegria pura, sentiu um cansaço profundo, como se toda a vida tivesse sido uma corda esticada e agora finalmente a frouxse. Ela lembrou-se do marido morto, do rancho queimado, do cheiro a fumo e entendeu que a a justiça não ressuscita ninguém, mas impede que o crime se torne costume.
Zumira foi levada numa liteira improvisada, coberta para o vento não ferir o corte. E ao descer da mata das almas, o povo do arraial juntou-se na estrada como se estivesse a ver um milagre, que era, no fundo, apenas uma dívida histórica sendo cobrada. Uns benzeram-se, outros choraram de vergonha por terem chamado aquela mulher de bruxa durante tanto tempo.
Esumira, com a dignidade intacta, não pediu desculpa nem vingança, apenas encarou cada rosto como quem devolve ao povo a responsabilidade do seu próprio medo. A casa grande de Tenório, que parecia maior do que era porque tinha sido alimentada pela injustiça, o bispo mandou abrir gavetas, recolher documentos, registar as posses e as marcas de usurpação.
E quando as escrituras verdadeiras apareceram, quando os limites das terras foram lidos, muita gente percebeu que tinha vivido décadas trabalhando em chão, que nunca pertenceu ao homem que mandava. Zumira reassumiu não como senhora de chicote, mas como matriarca de reparação. Ela ordenou que as cercas fossem revistas, que as famílias expulsas tivessem retorno, que a água da vereda fosse livre e escolheu Catarina como braço direito, não por pena, mas por reconhecimento.
Você não pediu feitiço? Ela disse numa noite já instalada na casa grande, com penso novo e o olho bom ainda a brilhar. Você pediu caminho e caminho é coisa de gente justa. Catarina, que chegou ao mundo de novo pela porta da mata, agora atravessava a varanda de madeira daquela casa, como se atravessasse um passado roubado, sentindo o peso da responsabilidade mais pesado do que qualquer arma.
O povo, que sempre viveu sob a lei do mais forte, começou a experimentar algo que parecia sobrenatural, precisamente por ser raro, um tipo de justiça que não dependia de favor. E quando Tenório, algemado, foi levado diante do povo e tentou cuspir palavras de ódio para Catarina, chamando-a de viúva louca, ela não respondeu com um grito, nem com uma bofetada, nem com perdão fácil.
Ela respondeu com a frase mais difícil do sertão. Eu te perdoo como pessoa para eu não carregar o teu veneno dentro de mim, mas tu pagas pelo que fez, porque o sertão não pode continuar a viver do medo. Tenório baixou o olhar pela primeira vez, não por arrependimento, mas por derrota. E Catarina sentiu que este era o verdadeiro fim da história.
Não o homem preso, mas o medo quebrado em público. A mata das almas continuou ali, escura e silenciosa. E o povo ainda contou lendas, porque o povo precisa de história para dormir. Só que agora, quando alguém falava da bruxa, dizia com mais respeito, lembrando que o monstro mais perigoso nunca foi Zulmira, mas sim o coronel que usava a superstição como cerca.
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