Na década de 80, Clemilda deixou de ser apenas conhecida em algumas regiões e se transformou num verdadeiro fenómeno nacional. E o ponto de viragem tem data marcada. 1985. Foi nesse ano que a música Prenda o Tadeu explodiu nas rádios. Seuegado ele levou a minha mãe. E o Brasil simplesmente não conseguiu ignorar o que estava a acontecer.
De repente, aquela mulher de origem humilde, com um jeito irreverente e espontâneo, começou a invadir festas, programas de TV e, principalmente, o imaginário popular. Mas o que realmente diferenciava Clemilda não era só a voz, era a coragem. Enquanto muitos artistas seguiam padrões mais comportados, ela apostava em letras com duplo sentido, carregadas de humor, malícia e identidade popular.
E isso gerava duas reações imediatas. Ou você se chocava ou se divertia. Na maioria das vezes, o público fazia os dois. Foi exatamente este estilo ousado que lhe valeu um título que ficaria marcado para sempre, a rainha do forró malicioso. E o sucesso não se ficou por aqui. Em pouco tempo, Clemilda conquistou o seu primeiro disco de ouro, algo que poucos Os artistas do género conseguiam naquela época.
E como se não bastasse, em 1987, ela repetiu o feito com o álbum Forró Cheiroso, que ficou imortalizado com o sucesso Talco no Salão. Agora não era mais só música, era presença nacional. Ela passou a frequentar os maiores programas de televisão do Brasil, como o Lendário Clube do Bolinha e o inesquecível Cassino do Chacrinha. É o clube do Bolinha que está à volta, em volta, à sua volta, porque durante 6 horas.
>> E aqui entra um pormenor importante. Clemilda não só aparecia nestes programas, ela chamava a atenção porque em meio de tantos artistas ela tinha algo raro, autenticidade. Era impossível assistir e não recordar. Mas, à medida que o sucesso crescia, algo também começava a surgir nos bastidores, algo que mais cedo ou mais tarde mudaria completamente o rumo da sua história.
Mas nem tudo que brilha permanece intacto por muito tempo. Enquanto Clemilda vivia o auge da fama, também começava a enfrentar um efeito colateral inesperado do próprio sucesso. O mesmo estilo que a tornou famosa passou a ser usado contra ela. As letras com duplo sentido que faziam o público rir e dançar começaram a gerar críticas.
Muita gente passou a enxergar Clemilda apenas por esse lado, como se toda a sua carreira se resumisse à malícia nas músicas. E isso aos poucos foi apagando algo muito maior, porque por trás da irreverência existia uma artista que carregava a cultura nordestina com força e autenticidade. Mas Clemilda nunca recuou.
Ela não mudou seu estilo, não tentou se encaixar e seguiu defendendo aquilo que sempre acreditou. Só que a vida tinha outros planos. Em 1994 aconteceu o golpe mais duro que ela poderia enfrentar. A morte de Gerson Filho não era apenas o parceiro de palco, era o companheiro de vida, a base emocional, a pessoa que esteve ao lado dela desde o começo de tudo.
E quando ele se foi, algo dentro de Clemilda também mudou. Sem fazer alarde, sem grandes anúncios, ela começou a se afastar dos grandes palcos nacionais. E aqui está um ponto que muita gente não entende. Ela não desapareceu. Ela apenas escolheu outro caminho. Enquanto o Brasil achava que Clemilda tinha sumido, ela continuava ativa, firme, só que longe dos holofotes.
Em Sergipe, ela construiu uma nova fase da sua carreira. Durante 35 anos, apresentou o programa Forró no Asfalto na TV Aperipê. Ola aí, meus amigos de todo o Brasil. Estamos voltando com agora com o programa Forró no Asfalto, mais alegre do que nunca. Programa dedicado a você do campo, a você do interior, a você da fazenda, você da cidade grande e da cidade pequena também.
>> Abrindo espaço para novos artistas e mantendo viva a essência do forró raiz. Era uma clemilda diferente, menos exposta, mais conectada com sua origem e talvez mais silenciosa por dentro. Mas o que ninguém imaginava é que o destino ainda reservava um capítulo ainda mais delicado. Com o passar dos anos, a energia dos palcos começou a dar lugar a uma batalha muito mais silenciosa.
Longe do barulho das multidões, Clemilda enfrentava algo que ninguém via. Problemas de saúde começaram a surgir e pouco a pouco foram limitando aquela mulher que um dia dominou o Brasil com sua presença. Hipertensão, o avanço do mal de Parkinson e depois um acidente vascular cerebral. Cada um desses desafios foi deixando marcas profundas.
Mesmo assim, ela resistiu do jeito dela, firme, discreta, sem transformar sua dor em espetáculo. Mas o corpo tem limites e nos últimos dias o quadro se agravou com complicações respiratórias causadas por uma pneumonia. Até que no dia 26 de novembro de 2014, a voz que fez o Brasil inteiro sorrir se calou.
morreu na madrugada de hoje em Aracaju, capital de Sergipe, a cantora e compositora de forró Clemilda Ferreira da Silva, aos 78 anos de idade. >> Com mais de 50 anos de carreira, a alagoana Clemilda era conhecida como a rainha do forró e fez sucesso na década de 1980 com a voz inconfundível que se tornou referência. Água beber.
>> Com hit Prenda o Tadeu, Clemilda se apresentou em palcos de todo o Brasil e popularizou o forró moderno. Clemilda gravou 40 discos. >> Clemilda faleceu aos 78 anos em Aracaju, Sergipe. E naquele momento não era apenas uma cantora que partia, era um pedaço inteiro da cultura nordestina que se despedia dos palcos.
O velório reuniu fãs, amigos e admiradores, pessoas que cresceram ouvindo suas músicas, que dançaram ao som da sua voz e que agora precisavam se despedir. >> Infelizmente, essa madrugada a Clemilda não deixou. Ela para mim deixou tudo como mãe, como pessoa, entendeu? Então é só a gente agradecer primeiramente a Deus e depois agradecer o tempo que ela passou aqui, que fez só coisa boa.
>> Ela deixou a a raiz do forró tradicional, nosso pé de serra, a nossa origem cultural realmente do pé de serra, ela ela foi nossa rainha representante e agora infelizmente tá nos deixando. Mas o pessoal de lá do céu deve estar feliz que já já foi Rogério, já foi muita gente, um pessoal bom que tá indo e a gente fica aqui.
>> Mas existe algo que a morte não consegue apagar. E no caso de Clemilda, isso é muito claro, porque mesmo após sua partida, as músicas continuam tocando nas festas juninas, seu estilo continua influenciando novos artistas e sua história continua sendo contada. Inclusive, em 2016, sua trajetória ganhou ainda mais força com o documentário Morena dos Olhos pretos, mantendo viva a memória dessa mulher que nunca passou despercebida.
Batonheta, batentonheta, batentonheta. >> E talvez seja essa a maior resposta para aquela pergunta que fizemos no início do vídeo. Clemilda não desapareceu, apenas mudou de palco. Hoje ela vive na memória de quem dança, de quem canta e de quem nunca esqueceu a sua voz. E então, já conhecia toda esta história ou também achava que Clemilda simplesmente tinha desaparecido? Conta aqui nos comentários qual a música dela que mais te marcou. Eu quero muito saber.