WANDERLÉA aos 80 anos e como VIVE hoje — a Tragédia que Ela Carregou Calada

A mulher mais amada da televisão brasileira. O sorriso mais doce que este país já viu, escondia atrás daquele sorriso a dor mais pesada que um ser humano pode carregar. Você cresceu vendo ela sorrir nos domingos à tarde. A ternurinha, a menina mais alegre do O Brasil, o símbolo da juventude, a mulher que todas as mulheres brasileiras queriam ser.

E nunca imaginou o que aquele sorriso estava a segurar por dentro. Hoje, aos 80 anos, ela ainda canta, ainda sobe ao palco e sorri para o Brasil. Mas para compreender a força que existe neste sorriso, é preciso saber o que essa mulher enfrentou longe das câmaras. Uma tragédia que lhe partiu a vida a meio. Uma perda tão pesada que muita gente não teria conseguido levantar-se nunca mais.

E ela levantou-se, voltou para o palco e continuou a sorrir para si como se a vida não lhe tivesse arrancado nada. Que dor foi esta que a ternurinha carregou escondida atrás do sorriso por mais de 40 anos? É isso que eu te vou contar. e prepara o coração porque é pesado, mas prepara também para se emocionar com a mulher mais forte que a Jovem Guarda já produziu.

Tem um lugar que guarda toda esta história, o palco, o mesmo microfone que ela subiu para cantar quando era uma menina pobre de Minas, parada num banquinho porque era demasiado pequena para alcançar. o mesmo microfone para onde ela voltou depois de viver a pior perda que uma mãe pode viver. Está tudo escondido naquele sorriso em palco.

E quando você descobrir o que está por trás dele, você já não vai conseguir olhar para Wonderleia da mesma maneira. Mas antes de contar-te como ela se tornou a rainha de tudo isto, preciso que conheça a menina que existiu antes da fama, porque é ela que explica tudo o que vem depois. a menina pobre, de família numerosa e de origem libanesa.

Lá no interior de Minas tinha uma só coisa que a separava do resto do mundo, a voz, uma voz tão fora do comum que aos 10 anos já ganhava concurso de rádio a subir para um banquinho porque era demasiado pequena para alcançar o microfone. Este banquinho guarda-o na memória. Ele vai lá voltar no fim desta história de uma forma que vai apertar o seu peito.

Imagina aquela cena por um instante. Uma família apertada, com pouco de tudo e uma menina pequenina que abre a boca para cantar e faz a vizinhança inteira parar para escutar. Para muita gente pobre desse tempo, a voz de um filho era a única esperança de uma vida diferente. E a Vandeleia tinha esta voz: era o orgulho da casa, a aposta da família, a luz no meio de uma rotina dura e tem um peso escondido nisso que nem sempre vemos.

Quando uma família inteira aposta as fichas de uma criança, essa criança cresce carregando o mundo às costas cedo demais. A pequena Vanderleia não teve a infância comum de brincar na rua sem hora para regressar. Houve concurso, houve rádio, houve gente a olhar para ela, esperando que ela fosse a viragem de chave da vida de cada um.

É muita coisa. para umpar de ombros tão pequenos. E ela carregou. Carregou do mesma forma que ia carregar tudo o que a vida pôs no caminho dela. Depois, de cabeça erguida, fazendo parecer leve uma coisa que pesava. Mas foi mais ou menos nessa idade, parada nesse mesmo comecinho de vida, que a Wanderleia levou o primeiro golpe.

E não foi um pequeno golpe, numa casa cheia de irmãos, com pouco de tudo, tem sempre alguém que vira o porto seguro da criança. Wandeleia. Esse alguém era a irmã mais velha. A que cuidava, a que protegia, a que ela admirava da forma que toda a menina admira uma irmã grande. Era o tipo de laço que faz uma infância pobre ficar mais leve de transportar.

E foi esta irmã que a Wanderlea perdeu. Foi uma bala perdida, uma bala que não era para ninguém, que não tinha alvo, que saiu de algum lado e tirou a vida a uma jovem que nada tinha a ver com aquilo. a irmã dela ali de repente, sem aviso, sem motivo nenhum, para um segundo e pensa no que isso faz a uma criança, uma menina de 10 anos descobrindo cedo demais que a vida pode levar alguém que se ama num instante, sem pedir licença, sem explicação, que a pessoa que ali estava de manhã pode já não estar à noite.

É uma coisa que envelhece uma criança por dentro, que rouba um pedaço da infância e não devolve nunca mais. E talvez seja por isso aquela voz toda a vida houve uma coisa estranha por baixo da alegria. Uma profundidade que ninguém sabia bem de onde vinha. Talvez venha daqui deste primeiro luto que ela carregou ainda de tranças.

Talvez aquele sorriso luminoso tenha aprendido cedo demais a conviver com uma sombra que a maioria das crianças nem sabe que existe. Até hoje, mais de 60 anos depois, quando Wandeleia fala da irmã, a voz dela falha. Há dor que o tempo não fecha. O tempo só nos ensina a carregar. E a vida seguiu, porque com a Vanderleia sempre foi assim.

A vida seguia doce o que doce. Aquela voz foi abrindo portas que ninguém daquela família tinha sonhado. Para seguir o caminho da música, a Vandelé, ainda jovem, teve de deixar o interior para trás e enfrentar a grande cidade, longe de casa, longe do colo da família. Imagina a coragem que era para uma rapariga daquela época sair sozinha pelo mundo atrás de um sonho que ninguém garantia.

Mas ela foi sempre, foi desta maneira, para a frente, dóce o que dose, vieram os primeiros discos no início dos anos 60. Veio o encontro com Roberto Carlos, com Erasmo, e em 1965, o convite que mudou a história da televisão brasileira e a sua vida para sempre, apresentar ao lado dos dois um programa denominado Jovem Guarda.

muito pouco tempo, a menina do banquinho tornou-se a estrela mais amada do país. Por fora era um conto de fadas a começar. A menina pobre que se tornou estrela nacional, o sonho redondo, perfeito. Mas você já sentiu que a vida da Vanderleia nunca foi só conto de fadas? Os golpes vinham e iam continuar a vir.

O mais duro de todos ainda estava a muitos anos de distância, esperando num dia de Fevereiro que ninguém naquela época teria coragem para imaginar. Agora volta comigo para um lugar que conheces bem. Domingo à tarde, ano 60, sentava-se na frente da televisão para ver a família toda à volta daquele aparelho enorme, de imagem tremida a preto e branco.

A casa parava, a rua parava, o Brasil inteiro parava. no mesmo horário para ver três jovens que estavam a inventar uma nova forma de ser jovem neste país. Roberto Carlos, Erasmo Carlos. E no meio dos dois, com aquele sorriso que iluminava até a tela sem cor, Wonderleia tenta lembrar-te como era de verdade. A música começava e toda a casa parava de discutir, deixava de lavar a loiça, parava de tudo.

As meninas sabiam a letra de cor e cantavam junto. Os rapazes ficavam de olho na Vanderleia. E na semana seguinte, na escola, no trabalho, na fila do pão, toda a gente comentava o que tinha passado no programa. Numa época sem internet, sem telemóvel, sem mil ecrãs a lutar pela atenção, era aquilo que juntava o país. Algumas horas de domingo em frente de uma televisão e ninguém saía de perto.

A Jovem Guarda era muito mais do que um programa de televisão. Era o primeiro grande movimento juvenil que o Brasil teve. E i o rock and roll com jeito brasileiro. A música que falava de amor, de carro, de liberdade, de coisas que a miudagem entendia na altura. Tinha grito de fã, havia uma menina a chorar na plateia, havia gente a correr atrás do carro deles na rua.

É, no centro de tudo uma mulher entre dois homens que se viraram lenda. Era para ela que todos os olhos corriam quando a câmara abria. O Brasil coroou-a com esse nome mesmo, a rainha da Jovem Guarda. E a força dela ia muito para além da música. Quando a Wanderleia aparecia de botinha branca, a semana seguinte havia fila na loja para comprar botinha branca.

Quando ela usava o cabelo de uma maneira, as meninas do Brasil inteiro chegavam ao salão pedindo o corte da Vanderleia. Ela ditava a moda, ditava maneira de andar, de falar, de se portar. Numa época em que a televisão tinha acabado de entrar na casa das pessoas, ela foi uma das primeiras mulheres que apareciam na sua sala toda semana, dizendo sem ter de falar em voz alta, pode ser diferente, pode ser livre.

E há uma coisa que talvez você só entenda bem agora com o tempo que passou. Naquela época, ser mulher livre no Brasil era quase um acto proibido. Era um tempo demasiado de regra para mulher. Numa época em que a rapariga tinha de se comportar, baixar a cabeça, esperar casar, Wanderleia apareceu na televisão de cabelo solto de Minissaia, dançando, rindo alto, dona do próprio corpo e da própria voz.

Imagina o escândalo. Imagina os pais conservadores resmungando na sala e imagina do outro lado as filhas coladas ao ecrã, pensando uma coisa que não tinham coragem de dizer em voz alta. Eu também quero ser assim. E é capaz que você tenha sido uma dessas meninas. É capaz que num domingo lá atrás tenha olhado para aquela mulher na televisão e sentido pela primeira vez que a vida podia ser maior do que tinham te ensinado, que dava para sonhar com mais.

A Wanderleia fê-lo por milhões de brasileiras, sem nem saber. Para uma geração inteira de mulheres, ela foi a porta que se abriu e que depois mais ninguém conseguiu fechar. Mas ser a primeira tem um preço alto. A cada menina que olhava para ela com admiração, tinha um adulto a torcer o nariz, achando aquela liberdade toda um escândalo, uma má influência para as raparigas de família.

A Wanderleia ouviu crítica, ouviu julgamento, ouviu pessoas dizer que uma mulher direita não se comportava-se daquele jeito na frente das câmaras. Ela abriu caminho apanhando, como abre quem vai à frente de todo o mundo. E seguiu-se, de minissaia e de cabeça erguida, porque já tinha aprendeu lá atrás na perda da irmã que a vida é demasiado curta para viver pequena, com medo do que os outros vão dizer.

É aqui que precisa de sentir o tamanho do que esta mulher era. Naquele tempo, todas as mulheres queriam ser a Wonderlea. Estas palavras são dela. Ela era a inveja luminosa de uma geração inteira. Tinha a fama, a liberdade, o carro importado, a juventude, o sorriso mais famoso do Brasil quando passava na rua. As pessoas apontavam: “Olha, lá vai a Wonderleia.

Aos olhos de todos, ela tinha absolutamente tudo para o momento com isso. Respira e pensa nisso de verdade. Porque esta mulher que todas queriam ser já tinha enterrado uma irmã morta por uma bala perdida quando ainda era criança. E no meio de todo este brilho, num futuro que ela ainda nem via chegando, ela ia ter de enterrar o próprio filho de 2 anos.

A inveja via o sorriso, o preço, esse ninguém via. A mulher mais invejada do Brasil, jovem era lá no fundo uma das que mais carregavam por dentro. E a música ficou. Esta é a parte que mais traz recordação para si. Agora pareu o apelido que ela carregou a vida inteira. Prova de fogo que o Erasmo escreveu para ela. Amo-te.

Que tocou em novela e embalou uma geração de namoro. Músicas que tocaram em todo o rádio do Brasil. Que talvez tenha cantado no ouvido de alguém que dançaste numa festa, num salão, na sala da sua casa com a luz baixa. Tenta lembrar-te onde te estava, com quem estava. quando ouvi uma destas pela primeira vez, é capaz que a lembrança venha junto com um cheiro, com um rosto, com uma idade que tinha e que não volta mais.

Pensa em quanta coisa da sua vida tem uma música da Vandelé por trás. O primeiro namorado, a primeira briga de amor, a festa em que dançaste a noite inteira. O rádio ligado na cozinha enquanto a sua mãe fazia o almoço de domingo. Aquelas canções foram a trilha sonoro de uma época inteira do Brasil e de uma época inteira da sua vida.

Por que elas mexem tanto consigo até hoje, porque junto da melodia vem tudo o resto. O rosto de quem amava, a idade que tinha, o cheiro daquele tempo, tudo o que estava guardado lá no fundo da memória. E a Wanderlea sabia o tamanho do que ela representava, mas transportava isto com leveza, sem se levar a sério demais.

Numa época em que outras estrelas se fechavam atrás da fama, ela continuava a ser aquela mineira de origem simples, que nunca esqueceu de onde tinha vindo. Talvez por isso, o Brasil a tenha amado de um jeito tão particular. A gente amava nela mais do que artista. Adorávamos a sensação de que se aquela pobre menina de Minas conseguiu, talvez também pudéssemos conseguir alguma coisa na vida.

E não era só na rádio e na televisão. A Wanderlet também foi ao cinema ao lado de Roberto e Erasmo, naqueles filmes que enchiam as sessões de jovem que queria ver os ídolos no grande ecrã. Muito casal teve o primeiro encontro ao ver um filme da Jovem Guarda. Talvez o seu tenha sido. Era esse o tamanho dela. para onde quer que se olhasse naquela época, lá estava o sorriso da Vandeleia e a relação dela com os fãs era de uma intimidade que hoje quase não existe mais.

Chegavam cartas e mais cartas escritas à mão de meninas que contavam a própria vida para ela, como se contassem para uma amiga. Gente que guardava foto dela na carteira, que colava recorte de revista na parede do quarto, que sonhava num dia, quem sabe ser um pouco parecida com ela. A Wanderleia não era uma artista distante na televisão.

Ela era quase da família em milhões de casas brasileiras. A rapariga que entrava na sua sala todo domingo ia-se embora, deixando tudo mais alegre. E havia uma coisa naquele trio que o Brasil amava de uma forma especial. A Wandeleia, o Roberto e o Erasmo, foram virando com os anos mais do que colegas de programa, tornaram-se uma família escolhido daqueles que a vida monta e que dura décadas.

Guarda esse trio na cabeça porque ele vai voltar mais para a frente quando o tempo tiver cobrado o preço dele também. E mesmo no auge, a Vanderlea nunca deixou de arriscar. Quando podia ter ficado a repetir a mesma fórmula que funcionava, ela se reinventou. foi atrás de coisa nova, ousada, que confundiu quem só queria a ternurinha de sempre, como que por dentro ela seguisse procurando alguma coisa que aplauso nenhum conseguia preencher.

Eu, que vinha pela frente ia cobrar ainda mais caro. Logo no início da carreira, apaixonou-se. ficou noiva de um rapaz chamado Zé Renato, filho de um dos maiores nomes da televisão da época, o velho Chacrinha, era para ser o grande amor da sua juventude. E então veio um acidente que deixou este rapaz paralisado.

relação com o tempo não resistiu ao peso de tudo aquilo e a Wandeleia afundou-se numa tristeza funda daqueles que ela escondia do público e chorava sozinha. Mais um golpe que a plateia nunca viu. E ela ainda nem tinha vivido pior. A rainha da Jovem Gua, o símbolo de uma geração, a mulher que todas queriam ser. E então, num dia de Fevereiro de 1984, a vida da Wonderleia partiu-se em duas, num antes e num depois, do qual ela nunca mais ia ser a mesma por dentro.

Agora prepara o coração, porque nós chegou à parte mais pesada de toda esta história. Se precisar de parar um instante para respirar, tudo bem. Mas fica comigo, porque é aqui que tu descobre quem é esta mulher de verdade. Volta ao comecinho dos anos 80. Depois de tudo o que ela já tinha passado, a irmã, o noivo, a tristeza funda, parecia que a vida ia finalmente ser boa com a Vanderleia.

Em 1981, casou com um guitarrista chileno, o Lalo, Califórnia, um homem da música que entendia o mundo dela por dentro. É, em 1982 veio a maior alegria que pode entrar no vida de alguém. Nasceu o primeiro filho dela, Leonardo. Imagina a cena. A casa nova que a família tinha acabado de comprar ainda com cheiro a tinta.

O marido, o bebé, a carreira firme. Depois de tantos golpes, parecia que o destino tinha finalmente decidido ser gentil com ela. A Wanderla era uma mãe feliz numa casa nova, com a vida inteira pela frente. aquela menina que tinha conhecido a perda demasiado cedo quealmente tinha construído um local seguro só dela e da família dela.

Pela primeira vez em muito tempo, ela podia respirar. Guarda essa imagem com carinho. A mãe feliz, o rapazinho de 2 anos, a casa nova. Porque é a última vez nesta história que tudo está inteiro. No no dia 1eo de Fevereiro de 1984, aconteceu o impensável. Foi um acidente em casa, numa questão de segundos, daquele forma como a tragédia tende a acontecer.

demasiado rápido para qualquer um conseguir impedir. O pequeno Leonardo foi socorrido. Fizeram tudo o que era humanamente possível, mas ele, com apenas dois aninhos, não resistiu. Eu Vou parar aqui por um instante, porque não tem detalhe para dar e nem deve ter. Eu não vou transformar a pior dor desta mulher em espetáculo e não veio aqui para isso.

O que importa de verdade é o que caiu sobre ela naquele dia. Não existe nenhuma palavra em nenhuma língua do mundo para nomear uma mãe que perde um filho. A gente vira órfão quando perde os pais. A gente vira viúvo quando perde o companheiro. Mas para uma mãe que enterra um filho de dois anos não há palavra.

Os idiomas do mundo inteiro deixaram este espaço em branco, porque é uma coisa que não devia caber na ordem natural do mundo. E foi exatamente isso que desabou sobre a Vanderleia na casa nova, mesmo no meio do que devia ser o capítulo mais feliz da vida dela. E agora preciso de te pedir uma coisa, porque acho que estás sentindo isso comigo.

Se em algum momento da sua vida já teve que segurar a barra e seguir em frente carregando uma dor que ninguém via, escreve aqui em baixo, nem que seja uma palavra, porque é exatamente disso que a história da Vanderleia fala. E saber que há alguém do outro lado que percebe já ajuda a carregar. tem uma crueldade a mais nesta história.

E ela está justamente naquela casa, a casa nova comprada com tanto sonho, com tanto futuro pela frente. Tornou-se de um dia por outro o lugar mais difícil do mundo. para ela. Tá. Cada divisão guardava uma lembrança pequena, um brinquedo num canto, um silêncio onde antes tinha o barulho de uma criança de 2 anos a correr. O lugar que era para ser o início de uma vida nova passou a doer só de respirar dentro dele.

E a Wanderleia ruiu como qualquer ser humano ruiria. caiu numa tristeza tão funda que mal conseguia levantar-se da cama. Daquele tipo de tristeza que vai muito para além de sentir saudades. É olhar para o dia que começa e não ter forças para atravessá-lo. Ela precisou de medicação fortes só para passar de um dia para outro.

O casamento abanou, porque uma dor deste tamanho balança tudo à volta. como é que não balançaria? E aí vem a parte mais difícil de compreender de toda a esta história e também a mais bonita. Em algum momento, a Vandeleia voltou, voltou sabendo que a dor não ia passar nunca, porque uma dor destas não passa. Não se supera a perda de um filho.

Aprende-se com muito custo a viver carregando-a junto todo dia. E foi assim que ela voltou a carregar. Voltou para o palco, voltou ao microfone, voltou a arranjar-se, a subir àquele lugar e a cantar para um Brasil que continuava querendo a alegria dela. A primeira vez que ela subiu novamente àquele palco. Depois de tudo, deve ter sido a coisa mais difícil que ela já fez na vida.

Imagina a cena, as luzes a acenderem, a público gritando o seu nome, feliz esperando a alegria de sempre. E ela ali atrás da cortina com o coração em mil pedaços, tendo de respirar fundo e entrar mesmo assim, tendo de encontrar, sabe se lá onde? Dentro de um vazio enorme, um sorriso para dar. A gente nunca saberá o que lhe passou pela cabeça dela nesse primeiro concerto, mas ela entrou e cantou e de alguma forma sorriu.

Poucos atos de coragem na vida são tão grandes como aquele, e quase ninguém ali percebeu o que estava a acontecer. E o caminho de regresso foi longo. Levou anos, anos de subir ao palco com o coração ainda em frangalhos, de chegar a casa e desabar, de se levantar no dia seguinte e fazer tudo de novo.

O casamento com o Lalo quase não resistiu àquele peso, porque a dor de um casal que perde um filho às vezes empurra os dois para cantos opostos da mesma casa, cada um afundado no seu próprio luto, sem conseguir socorrer o outro. Mas eles seguraram lentamente, com muito custo, foram encontrando de novo um chão para pisar. E a música que tinha sido o seu refúgio desde menina, foi virando gradualmente a ponte que a ligava de volta à vida.

E há um pormenor que quando se percebe aperta ainda mais o peito. O maior sucesso da Vanderleia, a música que deu o seu apelido, aquela que o Brasil inteiro pedia em todos os concertos, chamava ternura. Pensa nisso. Noite após noite, ela subia ao palco e cantava sobre carinho, sobre doçura para plateias que cantavam juntos de mãos dadas.

E ninguém ali imaginava que a mulher que repetia aquela palavra tão doce tinha recebido da vida quase tudo o que existe de mais duro. Cada vez que ela cantava ternura, depois de fevereiro de 1984, tinha por trás um ato de coragem que a plateia não conseguia sequer medir. E é esse o sentido daquela palavra do título, calada.

Porque calada não é bem a palavra exata. A Wanderleia falou das perdas dela. Sim, em entrevista no livro que escreveu: “O que acontecia era mais subtil e, por isso mais triste”. O país olhava para ela, via aquela luz toda e nunca ligava aquele sorriso à escuridão que ela tinha atravessado. A dor estava ali quase à vista de todos e ninguém enxergava.

Lembra-se do palco do início, do banquinho? Aquele mesmo microfone onde uma menina de mina subiu cheia de sonho, tornou-se também o lugar para onde uma mãe destruída voltou para continuar de pé e a vida ainda ia cobrar mais. O pai que para ela era raiz, um irmão, anos depois, numa dor que ela guarda com descrição, uma doença grave.

séria que exigiu cirurgia, como se a vida quisesse testar até que ponto aquela mulher aguentava ficar de pé. E cada vez que ela caía, sabe o que ela fazia. Voltava ao palco caindo e levantando-se. E há uma coisa nesta mulher que merece ser dita com todas as letras. Em momento algum, a Vanderleia transformou a sua própria dor em moeda.

Nunca usou a tragédia para dar pena, para vender um disco, para aparecer. Carregou tudo aquilo com uma dignidade silenciosa, do tipo que quase não se vê mais. Quando falava das perdas, falava para ajudar quem estava a passar pela mesma coisa. nunca para chamar a atenção para si própria. E talvez seja por isso que a história dela demorou tanto tempo a ser contada por inteiro.

Porque ela nunca fez questão de transformar a própria ferida em espectáculo pros outros. Quando junta-se tudo, a irmã, o noivo, o filho, o pai, o irmão, a doença e percebe que esta mulher seguiu de pé na frente de todo o Brasil, uma palavra começa a ficar pequena para explicar a Wonderleia, tragédia, porque a história dela vista de longe, com tudo junto é uma história de força, de uma força que pouca gente neste mundo carrega.

E é por isto que o que ela é hoje vai-te emocionar de uma forma que talvez não esteja à espera. E agora, depois de carregar todo este peso comigo, tu merece saber como é que esta história continua. Porque a Wonderleia está bem viva e a vida dela hoje vai-lhe surpreender da forma mais bonita que existe.

Começa pelo palco, porque é onde tudo começou e é onde contra tudo, ela ainda está. Aos 80 anos, a Vandeleia ainda canta. E não é uma aparição de vez em quando matar saudades. Ela ainda faz espectáculo pelo Brasil inteiro, ainda apanha estrada, ainda enche teatro de gente de todas as idades, ainda sobe naquele microfone com a mesma entrega da menina do banquinho.

70 anos depois daquela primeira vez numa rádiozinho de Minas, ela continua lá em cima e tem nela uma energia que desmente a idade. Quem encontra hoje a Wanderleia descreve sempre a mesma coisa. Uma mulher de bom humor, de riso solto, que fala da vida sem amargura, que continua curiosa, vaidosa, viva. Ela mesma se define de uma forma que diz tudo.

Uma adolescente que se juntou com a alma de uma cigana de 100 anos. E é mais ou menos isso. Tem a leveza de uma menina e a profundidade de quem já atravessou tudo o que dá para atravessar nesta vida. E há uma coisa bonita no palco dela hoje. Quem faz os arranjos novos das músicas, quem reinventa aqueles êxitos para soarem atuais é o Lalo, o mesmo Lalo, o marido, o pai do Leonardo, o homem que atravessou a tempestade juntamente com ela.

Dois que viveram a maior dor que um casal pode viver, hoje fazem música juntos. E se se for hoje a um concerto da Vanderé, vai ver uma coisa que emociona. Vai ver pessoas da sua idade que cresceram com ela no domingo à tarde cantando cada palavra de olho marejado e vai ver ao lado os netos desta gente, miúdos de 20 anos que a descobriu na internet a cantar as mesmas músicas com a mesma vontade.

Três gerações no mesmo teatro pela mesma mulher, avó, filha e neto, juntos pela ternurinha. Pouquíssimos artistas no Brasil conseguem uma coisa destas. Ei, esta redescoberta não veio por acaso. Aqueles discos mais ousados ​​que ela gravou lá atrás, que confundiram o público na época, tornaram-se objeto de culto para uma nova geração de músicos e de fãs.

Os jovens artistas citam a Wanderleia como referência. A internet trouxe de volta vídeos antigos dela e uma miudagem que nem sabia bem quem ela era, apaixonou-se por aquela presença, por aquela liberdade, por aquela voz. É raro o artista atravessar tantas décadas e ainda só atual. A Wanderleia atravessou e hoje colhe aos 80 anos um reconhecimento que mistura a saudade de quem viveu aquele tempo com a descoberta de quem nem sequer era nascido quando ela já era rainha.

E tem uma imagem que resume bem quem ela é hoje. A Wandeleia, da forma que ela sempre quis ser, subindo a um palco, pegando no microfone, ainda fazendo um teatro inteiro cantar junto. A mesma menina do banquinho, agora com 80 anos de vida em cima dos ombros, cada um deles ganho a duras penas. E o sorriso, aquele sorriso ainda ali mais bonito agora, porque agora já sabemos o que tem por trás dele.

Hoje a Wonderleia é uma espécie de monumento vivo de um Brasil que já não existe. É uma das últimas a segurar de pé sozinha a memória daquele domingo à tarde em que o todo o país era mais jovem. Cada espetáculo dela acaba por se tornar uma viagem no tempo paraa plateia. As pessoas não vão só ouvir música, vão reencontrar quem elas eram quando aquelas canções tocavam pela primeira vez.

E ela, generosa, devolve que para cada um, noite após noite, como quem devolve um pedaço de juventude para quem já tinha dado a juventude por perdida. E agora, deixa-me contar-te uma coisa da vida pessoal dela que talvez te surpreenda. A Wandelei contínua casada com o Lalo, o mesmo de mais de 40 anos atrás.

Mas por escolha dos dois, eles vivem em casas separadas, cada um em sua casa. E ela diz com todas as as letras que é feliz exatamente assim, que percebeu, com a sabedoria de quem já viveu muito e já perdeu muito, que separados os dois respeitam-se mais, se amam mais, que têm amor que para durar a vida inteira precisa de espaço para respirar.

Aos 80 anos, depois de uma vida em que o mundo inteiro lhe dizia como uma mulher devia viver, a Wanderl vive exatamente da forma que ela quer, dona de si, como sempre foi, desde a menina que ensinou uma geração inteira a ser livre. E ela continua rodeada de quem importa. é mãe de duas filhas, a Yasmim e a Jade, que vieram depois de toda a tempestade, que encheram de vida de novo uma casa que tinha conhecido o silêncio, é avó.

e fala dos netos com aquele brilho de quem sabe o valor de cada coisa boa, porque já conheceu o tamanho das coisas más. A família que ela tem hoje à volta lembra um pouco aquela casa cheia de irmãos lá das Minas, no comecinho de tudo, só que agora cheia de afeto e sem a falta. E faltou um. Em novembro de 2022, o Erasmo Carlos partiu o terceiro daquele trio que mudou a face do Brasil, Eia Wanderleia, que tinha aprendido cedo demais o que é dizer a Deus.

Teve de dizer adeus mais uma vez agora a um irmão de estrada de quase 60 anos. Quando ela canta hoje uma música que o Erasmo escreveu para ela, há um pedaço dele ali no palco junto, de três que começaram juntos sorrindo para um país inteiro num domingo de sol, hoje sobraram dois. Eu, o Roberto, e ela cuidam como quem guarda o pouco que restou de um tempo que já não volta.

Eu, o Leonardo nunca saiu de perto. Uma mãe não esquece um filho em idade nenhuma, em ano nenhum. Mas a Vanderleia aprendeu a carregar essa saudade de um maneira que já não a derruba. Ele vive nela, vive em cada vez que ela sobe para um palco e continua a cantar, porque foi o palco que a segurava quando nada mais segurava.

E a Wanderleia fala da própria idade e até a morte, com uma paz que só há quem já tenha olhado para a escuridão de perto e conseguiu voltar. Ela não tem medo de envelhecer. Já se despediu de pessoas demais para ter um medo tonto da passagem do tempo. O que ela quer é viver o que ainda tem pela frente com gosto, cantando, rindo perto de quem ama.

Quem já perdeu um filho de 2 anos sabe melhor do que qualquer outro, o valor de cada manhã que ainda chega. E talvez esse seja o presente escondido no meio de toda aquela dor. A Wanderleia aprendeu, na pior das escolas, a não desperdiçar um único dia. E quando perguntam para ela como é que se segue em frente depois de perder um filho, a Wanderleia foge das frases feitas.

Nada de o tempo cura tudo. Nada de tudo acontece por um motivo. O que ela conta é mais simples e mais verdadeiro. Que a gente não segue em frente deixando a dor para trás. A gente segue junto com ela. Aprende a viver carregando-a todos os dias num canto do peito que nunca esvazia. E foi o palco, foi a música, foi o amor dos filhas que vieram depois, que deram para ela o motivo para se levantar de novo.

Manhã após manhã, ela não venceu a dor e nem finge que ganhou. O que ela aprendeu foi a caminhar com a dor ao lado, sem deixá-la andar à frente. E no meio de toda esta grandeza, a Vandelé segue sendo na vida comum uma mulher simples, daquelas que gostam de um alimento caseira, de uma boa conversa, de uma tarde tranquila em casa.

Quem convive com ela conta que é fácil esquecer que aquela senhora de riso fácil é a mesma rainha que parou o Brasil nos anos 60. Ela não faz questão de lembrar ninguém disso. Carrega a própria lenda com a mesma leveza com que sempre carregou tudo. E há uma coisa que emociona em quem a conhece de perto. Depois de tudo que ela viveu, a Wandelea continua a ser lá no fundo aquela menina pequenina de Minas que só queria cantar.

A fama passou por cima dela e não levou isso. A dor passou por cima dela e não levou isso embora. Ela continua ali inteira dela mesma. E é por isso que preciso de te pedir uma coisa. Não sinta a pena da Vandeleia. A pena é a última coisa que esta mulher precisa. O que ela merece é admiração. Do tamanho do mundo, ela foi machucada.

foi dobrada, foi atirada para o chão mais vezes do que seria justo para uma só pessoa. Mas quebrada, ela nunca foi. Ela está aqui aos 80 anos a cantar, rindo, viajando, amando, vivendo do jeito dela inteira. Lembra-se do palco do comecinho do microfone que aquela menininha subiu para um banquinho porque era demasiado pequena para alcançar.

70 anos depois, ela ainda lá está. O mesmo microfone, o mesmo sorriso. Só que agora este sorriso carrega tudo. A irmã que uma bala perdida levou, o noivo, o filho de 2 anos, o pai, o irmão, a doença, as noites às escuras. Carrega tudo isto de uma vez e mesmo assim continua a sorrir de verdade. Gente, às vezes confunde, olha para uma pessoa que sorri muito e pensa que é porque a vida foi mansa com ela.

O sorriso da Wonderleia é a prova de que pode ser bem o contrário. Qualquer pessoa sorri quando o caminho está limpo. Sorrir depois de enterrar um filho e ainda voltar ao palco no dia seguinte para dar alegria pros outros. Isso é a coisa mais corajosa que existe. E talvez seja por isso que dá um aperto bom no peito ver a Wanderleia ainda de pé, porque ela faz parte da sua história também daquele domingo à tarde em frente da televisão, daquela época em que o O Brasil era outro, em que se era mais nova, em que toda a vida ainda estava

pela frente. Quando olhamos para ela hoje, aos 80 anos a cantar, nós não está a olhar só para ela, está olhando para um pedaço de nós mesmo que ficou lá atrás naqueles anos que não voltam e há uma coisa triste e bonita ao mesmo tempo nisso, porque a vida levou muito da Wonderley e levou muito da gente também.

Levou pessoas que a gente adorava, demorou tempo, levou aquela versão mais nova de nós, que achava que tinha o mundo todo pela frente. Mesmo assim, a Vandeleia continua ali cantando como uma prova viva de que dá perder tudo isso e ainda assim não perder a si mesma, de que dá para ser magoado pela vida sem se tornar uma pessoa amarga.

Ela é de certa forma o melhor que aquele tempo deixou-nos. Por isso, quando a luz baixa e ela apanha o microfone, o que sobe ao palco é mais do que uma cantora de 80 anos. É uma sobrevivente, uma mulher que a vida tentou derrubar de todas as formas possíveis e não derrubou. Há prova viva de que algumas pessoas atravessam o impossível e do outro lado ainda guardam um sorriso para oferecer a quem precisa.

E ela ficou, atravessou tudo que a vida tinha de mais pesado para dar terror gente que amava. caiu no fundo do poço mais que uma vez e ainda assim está aqui inteira a cantar as mesmas músicas que embalaram a sua juventude. Quantas pessoas que conhece que aguentariam o que ela aguentou e ainda teria um sorriso para te dar no fim? Se a história da Wonderleia mexeu consigo.

Se em algum momento se lembrou da sua própria juventude ou de alguém que lhe amou e perdeu pelo caminho, conta-me aqui em baixo. Eu faço estes vídeos pensando em ti que assiste à noite com o coração cheio de história. E a wonderlea com aquele sorriso teimoso deixa-nos um lembrete bonito. A as pessoas perdem muito pela vida, mas o que a gente amou de verdade não vai embora nunca.

Fica do mesmo jeito que ela ficou. E se gosta de reencontrar os ídolos que o Brasil amou, de saber o que a vida fez com eles, longe das câmaras, já tenho a próxima história te esperando. Alguém da mesma época da Vandeleia, um rosto que todo o país conhecia da televisão e o que estava escondido atrás daquele rosto vai mexer consigo do mesmo jeito.

É só clicar logo ali.

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