fazendo face com a praça Cordeiro de Farias, eleva-se como uma préce oferenda a bela igreja, a casa do Senhor que a todos acolhe reconforta. O hospital é o centro de assistência e vigilância Sanitária, uma bem montada farmácia e ainda o laboratório onde são executados os exames e pesquisas. É envolvida numerizada policromia, a colónia Itapuã parece afirmar: “Aqui renasce a esperança”.
Mas o isolamento imposto aos doentes revelava algo para além das políticas de saúde. Era o auge do preconceito, uma limpeza silenciosa da sociedade, perceptível até nos nomes dados às áreas internas. A zona limpa destinada aos funcionários contrastava com a zona suja, onde os doentes viviam confinados. E para reforçar a resignação, um bordão euava pelos corredores.
Se o destino é a colónia, o caminho é a resignação. Aí, cada rotina era planeada para manter os reclusos presos à sua própria dor. Os doentes cozinhavam, limpavam, trabalhavam. E até os casamentos eram incentivados, como se criar raízes no lugar fosse a única forma de sobreviver. Neste mundo fechado, 153 crianças nasceram.
Muitas delas nunca conheceram os seus pais, sendo separadas ao nascer e enviadas para o educandário Amparo Santa Cruz, em Porto Alegre, crescendo como órfã de pais vivos. Cada um destes bebés carregava desde o primeiro dia a marca de um abandono cruel e absoluto. Na década de 1970, uma nova camada de sofrimento somou-se à história do HCI.
Com a redução dos leprosários, doentes psiquiátricos começaram a ser internados no hospital. Homens e mulheres abandonados ou enviados por falta de alternativas passaram a habitar os mesmos corredores que já tinham testemunhado décadas de isolamento, dor e mortes silenciosas. E o resultado foi uma acumulação de histórias interrompidas, medos profundos e uma tristeza quase física impregnada nas paredes.
Muitos acreditam que esta sobreposição de sofrimento, doentes isolados, crianças arrancadas aos pais, reclusos psiquiátricos esquecidos é o que explica os relatos persistentes de vultos, passos noturnos, portas que se abrem sozinhas e lamentos eando pelos corredores vazios, como se o HCI tivesse tornou-se um depósito de memórias demasiado pesadas para desaparecerem.
Hoje, grande parte dos 172 edifícios do complexo está em ruínas, incluindo o antigo centro de diversões. O local ganhou fama de cidade fantasma no sul do Brasil e não é difícil compreender o motivo. Entre os relatos mais persistentes, há o de uma figura solitária, sempre vista ao entardecer, caminhando lentamente pelos pavilhões abandonados.
Um homem magro, alto, com o chapéu escuro. Ele não fala, não olha para ninguém, apenas caminha em direção ao antigo cemitério. Muitos acreditam que é o espírito de Amaro, um zelador solitário e que, segundo contam, recusou-se a abandonar o hospital mesmo após a morte de colegas e doentes.
Terá dito em vida: “Se eu me for embora, eles ficam sozinhos”. Amaro morreu de causas naturais, mas ao que tudo indica, nunca abandonou o local. Dizem que ainda hoje, nas noites silenciosas do antigo hospital colónia de Tapuã, é possível ouvir os passos leves e arrastados de uma criança pelas ruínas do pavilhão 7, um rapaz chamado Carlinhos, que teria nascido e vivido ali, mas separado dos seus pais desde o primeiro dia de vida.
Sem os cuidados paternos, Carlinhos cresceu entre paredes frias e corredores intermináveis, aprendendo desde cedo que o mundo fora da Colónia não existia para ele. Antes de completar 7 anos, uma pneumonia grave levou-o ao mundo dos mortos. Desde então, a história de Carlinhos assombra e comoove via mão. Um espírito inocente que ainda deambula à noite pelas alas abandonadas, com os pés descalços arrastando-se pelo chão frio.
A sua figura magra e translúcida aparece e desaparece entre sombras, e o seu choro distante, quase um lamento, ecoa pelos corredores vazios. Procura algo que nunca encontrou. os pais que lhe foram arrancados, os rostos familiares que só existiram na sua imaginação infantil. Uns dizem que enquanto a dor e a injustiça cometida durante décadas não forem reparadas, o Carlinhos continuará a deambular, lembrando a todos que ali na escuridão, o abandono deixou marcas que a morte nunca apagou.
Para nós, a resposta parece óbvia. O que habita os porões dos antigos manicómios é muito mais do que a memória do luto e da dor. É uma energia pulsante, um grito de socorro, o peso da injustiça e da completa ausência de humanidade. Casa de saúde da Anchieta. A casa de saúde Anchieta em Santos, São Paulo, não era um hospício qualquer.
As pessoas tomavam banho de mangueira, não é, abandonadas, seminuas, uma sujidade horrível. Tem sas perlotadas, pessoas amarradas das camas, pessoas ficavam a caminhar no pátio do hospital o tempo todo. Não tinha qualquer conforto. A violência era a regra geral. Fundada em 1951, ela tornou-se tristemente famosa como a casa dos horrores.
Durante décadas, operou sob uma fachada de tratamento psiquiátrico, mas o que acontecia em os seus corredores era, na verdade, uma rotina de tortura institucionalizada. A história é precisa. Os eletrochoques eram utilizados como punição, não como terapia. A enfermeira disse: “Se quiser sair que tomou medicação.
” Ela atirou uma guaigro porta. Engoli a guimba de cigarro. Ela abriu a porta e deu uma gestão leão dormir. O horror atingiu o seu auge em 1989, quando uma intervenção municipal expôs a verdade brutal, marcando um ponto de viragem na luta antimanicomial brasileira. Isto é pior que docó de 70. Vocês conheceram do 70? Se a pessoa não se cuidar aqui, morre.
Mas eu não gosto de de ficar aqui. Eu queria ir embora. E aqui não não é não é ser humano, aqui é para animal. Reserva para as que não obedecem mais ficar de castigo, depois mais tarde soltam de novo. E se ficar quietinho não é machucada. E se não ficar quieta é gente. Mas se a intervenção fechou as portas da instituição, tudo indica que não foi capaz de apagar a memória acumulada em suas estruturas.
Os primeiros relatos de assombração iniciaram-se logo após a desativação da casa de saúde Anchieta. Os funcionários, encarregados da remoção de objetos e equipamentos hospitalares eram surpreendidos por sons estranhos nos corredores. Alguns falavam em orbes e vultos atravessando paredes, mas o fenómeno mais persistente era ainda mais aterrorizante.

Precisamente às 7 horas da noite, o som inconfundível de gritos, brados femininos, invadiam os antigos leitos. Uma clara expressão de horror podia ser notada no rosto de todos os presentes. Muitos acreditavam que os gritos eram uma manifestação de dor ou talvez um pedido de ajuda. Agora, quando toma contacto direto, quando o vê concretizar-se na sua frente, inclusive com possibilidades de mudar esta situação, o facto toma outra perspectiva.
O desrespeito em relação ao ser humano, a falta de carinho, a falta de amor, a impessoalidade, enfim. o desrespeito total pela dignidade humana. Isto é inconcebível da gente ser cúmplice. Independentemente de sermos autoridades ou não neste processo social, a questão da loucura é uma questão do dia a dia de todos nós.
Nós não podemos permitir que estas coisas aconteçam. Anos depois, desocupado e em completo abandono, o manicómio foi invadido por sem-abrigo e tornou-se lar para dezenas de famílias sem abrigo. Mostrámos ontem aqui no Jornal da Tribuna que 72 famílias que ocupam o imóvel da antiga casa de saúde Ancheta tinham até hoje para sair do local por conta de uma ação em tribunal que determinava a desocupação.
O advogado das famílias que vivem no edifício conseguiu uma providência cautelar na justiça do trabalho que suspende essa ordem. O imóvel já está ocupado há 20 anos. E foram eles que presenciaram uma das histórias mais assustadoras já registadas em manicómios e sanatórios desativados. A prova de que o verdadeiro horror já estava em curso há décadas.
Conta-se que nos anos 70 Elisa, uma jovem atormentada pela depressão, acabara internada na casa de saúde Anchieta. Elisa não era uma criminosa, nem uma louca no sentido clássico. Era apenas mais uma mulher abandonada no momento em que descobriu a gravidez. Pobre e desamparada, a jovem mãe lutava contra uma profunda depressão pós-parto.
Nessa altura, a fragilidade emocional feminina era frequentemente rotulada como histeria e tratada com brutalidade. Afastada do convívio familiar e separada da própria filha recém-nascida, Elisa, que apenas precisava de apoio, viu a sua vida ruir no momento em que pôs os pés naquela instituição. Durante o alegado tratamento, Elisa foi submetida a sessões de eletrochoques por recusar-se a comer.
A cada descarga, ela não só sentia a dor física, como via a sua sanidade mental se desvanece lentamente, substituída por um terror paralisante. Rigorosamente, às 7 horas da noite, Elisa era fechada num cubículo quase vazio, onde passava as noites a chorar e a implorando para reencontrar a sua filha. Dizem que após uma sessão particularmente violenta, Elisa perdeu a capacidade de chorar.
Testando-lhe apenas um grito. Um grito que não era de dor, mas de puro terror, saudade e injustiça. Sem forças para lutar, Elisa faleceu ali sozinha. O seu corpo exausto pela negligência e o seu espírito quebrado pela crueldade. Reza a lenda, contada pelos próprios moradores do antigo manicómio, que o espírito de Elisa é o responsável pelo grito agudo que, segundo os relatos, ainda ecoa nos corredores vazios.
Não é um som que se ouve com os ouvidos, mas com a alma. É um som que paralisa, que faz o ar gelar e a pele arrepiar. Fica no quarto. Fica no quarto. No quarto ali. Ali no onde chama de reserva. Aí ontes de ontem faz hoje dois dias eu estava aqui, não é? Depois fui eles puseram-me para dormir. Era de noite, puseram-nos lá a dormir ali dentro. Depois fui dormir.

Como eu estava muito suada, deu-me vontade de tomar banho. Eu fui tomar inocentes banho, como uma criança qualquer, que eu não estava com intenção nenhuma de fazer confusão. Liguei o chuveiro, tomei um banho, quando estava a sair do chuveiro, ela apanhou-me. Outra história sussurrada há décadas é ainda mais antiga e remete para os primeiros anos de funcionamento da casa de saúde da Anchieta.
Segundo a lenda, uma jovem chamada Clarice terá sido internada ainda na adolescência, tomada por uma crise emocional intensa após a morte do seu irmão Leopoldo, atropelado por um carro eléctrico na linha 42, que partia da antiga praça Mauá. Leopoldo não era apenas seu irmão mais velho.
Desde a morte dos pais, quando Clarice tinha apenas 5 anos, ele tornara-se também seu tutor e único porto seguro. A perda súbita mergulhou Clarice num abismo de dor e solidão, abrindo caminho para um destino sombrio que a levaria às portas do hospital. Ainda em negação com a perda brutal e sobríveis métodos de cura.
Clarice vivia noite após noite, repetindo que o irmão vinha buscá-la. Os médicos acreditavam tratar-se de alucinações, mas Clarissa insistia: “Ele está aqui e veio-me procurar”. Com o tempo, o seu estado agravou-se e a jovem acabou por ficar isolada. Em questão de meses, o seu frágil corpo sucumbiu aos maus tratos e a irreparável dor da perda.
E este foi o primeiro sinal de que os manicómios são invariavelmente assombrados. Durante décadas, os doentes, enfermeiros e até os médicos relatavam estranhos eventos na ala onde Clarice passou os seus últimos dias. Vozes e risos abafados, lamentos que não vinham mais das salas de electro-choque ou dos leitos de isolamento. Eles vinham das paredes, do teto e de cada tijolo da antiga casa de saúde da Anchieta.
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