Wilson Simonal: De maior cantor do Brasil à MISÉRIA TOTAL — A injustiça que o Brasil esqueceu

Wilson Simonal: De maior cantor do Brasil à MISÉRIA TOTAL — A injustiça que o Brasil esqueceu

Wilson Simonal, de maior cantor do Brasil, a miséria total, a injustiça que o Brasil esqueceu. O Brasil destruiu o maior cantor que já teve, destruiu a carreira, destruiu [a música] a saúde, destruiu o nome e nunca pediu desculpa. Esse homem chamava-se Wilson Simonau. No finais dos anos 60, era o artista mais poderoso do país. Regia 30.

000 pessoas no Maracananzinho com um simples gesto de mão. Assinou o maior contrato publicitário da história da música brasileira. Rivalizava em popularidade com Roberto Carlos. Era comparado a Frank Sinatra, a Sammy Davis Júnior, a Ray Charles, ao mesmo tempo. Era o primeiro popstar negro da MPB, era intocável e então o Brasil apagou-o.

 Não devagar, não aos poucos, do dia para a noite, com a velocidade de uma manchete e a crueldade de quem já estava à espera de um motivo. No fim da vida, esse mesmo homem cantava em cima de um camião para 15 pessoas numa praça do interior, doente, pobre, esquecido, sem que ninguém que o tinha destruído tivesse dito uma única palavra de arrependimento.

 Hoje vai descobrir o que realmente aconteceu. Você vai saber exatamente o que ocorreu numa única noite de agosto  de 1971. E como essa noite destruiu 30 anos de carreira em menos de 48 horas, vai descobrir quem fabricou a mentira que acabou com ele e por o Brasil a aceitou tão rápido, tão completamente, sem fazer nenhuma pergunta.

 Vai ouvir as próprias palavras de Simona. O desespero de um homem que passou décadas a tentar provar a própria inocência e sendo ignorado o cada tentativa. E vai perceber porque esta história é o maior cancelamento da história do Brasil e porque o Brasil nunca, em momento algum teve coragem de admitir o que fez. E se ainda não subscreveu o canal Doce VIP, faça isso agora.

 Prima o botão de inscrição  e ative o sino. Aqui tem investigação. Todo o dossier que a gente lança, vais ser o primeiro a saber. Fica até ao fim, porque quando este vídeo acabar, vai querer enviar para alguém e vai ficar zangado por não ter conhecido esta história antes. Antes de perceber como ele caiu, precisa sentir exatamente de onde caiu, porque a queda só dói tanto como a altura.

 Wilson Simonal de Castro nasceu no Rio de Janeiro no Carnaval de 1938. Filho de uma família simples, sem dinheiro, sem influência, sem qualquer porta aberta. O tipo de família que o O Brasil de então destinava a um único futuro, a invisibilidade. Mas Simonal não aceitou esse destino. No final dos anos 60, tinha-se tornado algo que o Brasil nunca tinha visto antes.

 O primeiro popstar negro da música popular brasileira. Não era apenas um cantor de sucesso, era um fenómeno. Tinha programas de televisão próprios na TV Record e  na TV Tupi, numa época em que o negro ter programa de TV próprio no Brasil era uma afronta para muita gente. Lançou 11 LPS em apenas uma década, [a música] quase metade de tudo o que produziria em toda a carreira.

 Vendia discos como ninguém, enchia salas de espetáculo, teatros, ginásios. Mas o momento que define melhor do que qualquer número, o tamanho de Wilson Simonal, aconteceu em 1969, num ginásio do Maracananzinho, no Rio de Janeiro. Simona era apenas a atração de abertura. O concerto principal era de Sérgio Mendes.

  Mas quando Simonal subiu ao palco, aconteceu algo que ninguém ali esperava. Com um simples gesto de mão, começou a reger a plateia inteira, 30.000 viram pessoas cantando em unísono afinadas, como se ele era o maestro de uma orquestra humana. Quem lá esteve nunca esqueceu e quem assistiu [à música] através das câmaras compreendeu naquele momento que este homem tinha um poder de palco que poucos artistas no mundo inteiro possuíam.

Simonal chegou tão alto  que se tornou amigo de Pelé, o maior ídolo do Brasil naquele momento. Viajou com a seleção brasileira para o Mundial do México  em 1970. Na campanha do tricampeonato, foi convidado pela CBF para ser o mestre de cerimónias da festa do Milésimo Gold de Pelé.

 Estava no centro de tudo o que era grande no Brasil daquela época. No mundo dos negócios, assinou o que foi considerado na época o maior contrato publicitário da história da música brasileira, com a empresa anglo-holandês Shell, um negro filho de família simples, assinando o maior contrato publicitário  do país.

 Numa época em que o Brasil tentava ainda, com todas as forças manter as pessoas negras em papéis subalternos, Simona estava no topo e não fingia que não estava. Ele rivalizava em popularidade  com Roberto Carlos, dois reis a dividir o Brasil. E enquanto Roberto Carlos representava o romantismo, a suavidade, a canção de amor, Simonal representava o swing, a jinga, a alegria física, a música que entrava pelo corpo antes de chegar à cabeça, era o maior e o Brasil o esqueceu como se nunca tivesse existido.

Se nunca tinha ouvido falar de Wilson Simonal antes deste vídeo, comenta aqui em baixo agora, porque isto, por si só, já diz tudo sobre o que o Brasil fez com este homem.  Mas perceber quem era realmente Simona e por a queda dele foi tão fácil  de aceitar, é preciso voltar ao começo.

 A um menino pobre que aprendeu a cantar hinos dentro de um quartel. Na idade escolar, Simonal foi colocado num internato, longe da família, longe do casa, num ambiente rígido e fechado. Foi lá que  ele descobriu a voz cantando no couro do colégio, encontrando-se num domia  completamente livre. Quando cresceu, entrou para o exército.

 Sua principal função era  ensinar os outros soldados a cantar os hinos, o Nacional, o da bandeira. Não demorou muito para que o talento fosse percebido nas festas internas do regimento. Aquele rapaz cantava diferente. Havia algo que os outros não tinham. Quando saiu do exército, em 1958, Simonal tomou uma decisão que muita gente à sua volta considerou loucura.

 ia tentar a vida como cantor, sem rede, sem padrinho, sem dinheiro. Começou por cantar nas discotecas do Rio de Janeiro, rocks, calipsos, músicas em inglês, qualquer coisa que pagasse a conta. Foi o caminho mais difícil que existia para um jovem negro no Brasil daquele tempo.

 Mas o destino colocou no o seu caminho Carlos Imperial, produtor, compositor, um dos grandes talentos da música popular brasileira. Imperial ouviu Simonal. e compreendeu imediatamente o que estava diante dele. Juntos, eles criaram algo que não existia antes, o movimento da pilantragem, uma fusão de samba com sou americano, funk, ritmos internacionais, tudo amarrado pela malemolência brasileira e pela presença de palco irresistível de Simonau.

 Era música que entrava pelo corpo, era música que fazia as pessoas mexer antes de pensarem. era completamente nova e completamente brasileira ao mesmo tempo.  A voz de Simonal era um instrumento à parte. Os críticos da época a comparavam simultaneamente a Frank Sinatra, a Samy Davis Júnior, a Ray Charles e a Agostinho dos Santos.

 Não porque ele copiasse algum deles, mas porque tinha a mesma categoria, a mesma dimensão, o mesmo controlo absoluto sobre a emoção que cada nota transportava. E juntamente com a voz vinha a personalidade. Simonal era autoconfiante de uma forma que o Brasil dos anos 60 não sabia bem como processar.

 Utilizava carros de luxo, vestia roupas de marca, ostentava o sucesso de forma deliberada, alegre, sem pedir licença. Para qualquer artista branco da época, este seria simplesmente estilo. Para um negro, o Brasil tinha outro nome: arrogância. Já antes de qualquer escândalo, já antes de qualquer episódio policial, Simonal era chamado de preto arrogante nos bastidores e nas rodas de conversa da classe artística.

Tinha chegado onde não era esperado que chegasse, que tinha chegado com swing, com orgulho, sem pedir desculpa por isso. Este detalhe é fundamental para compreender tudo o que vem a seguir, porque quando a tempestade chegou, o Brasil já estava com as paz de cal na mão. Era agosto de 1971. Simonal estava no auge absoluto e numa única noite, por causa de um contador despedido, ele pôs em movimento algo que não teria mais como parar.

 Para perceber o que aconteceu, é preciso conhecer Rafael Viviani. Viviane era o contabilista da Simonal Produções Artísticas, a empresa que Simona tinha criado para gerir a sua carreira. Em junho de 1971,  Viviane foi despedido. Simonal acreditava que o contabilista estava desviando dinheiro da empresa, dando um desfalque no caixa.

 Viviane negou e foi mais longe. Entrou com uma ação laboral contra  o antigo patrão. Simonal ficou furioso. Para ele, aquilo era uma afronta. Um funcionário que, segundo ele, tinha roubado à empresa,  agora ainda processava o patrão. E foi aí que Simonal cometeu o erro mais grave da sua vida.  Um erro que nasceu não de maldade calculada, mas de uma combinação perigosa de raiva, ingenuidade e o tipo de confiança errada que o sucesso às vezes cria nas pessoas.

 Simonal mantinha a amizade pessoal com agentes da DOPS, o Departamento de Ordem Política e Social, o órgão de repressão mais temido da ditadura militar brasileira, responsável por prender, torturar e fazer desaparecer opositores do regime. Para Simonal, que não era politizado, que nunca se tinha interessado por política, estes eram simplesmente amigos poderosos, como o sargento da esquina que todo o brasileiro  de periferia conhece, pessoas com poder que poderiam resolver um problema.

 E foi exatamente isso que tentou fazer. Simonal foi ao DOPS apresentar queixa. Alegou estar a receber ameaças anónimas por telefone  e suspeitava que fosse obra de Viviane. Assinou um documento onde se declarava antigo colaborador da DOPS  e divulgador do programa democrático do governo da República.

 pediu que os agentes dessem uma lição ao ex-contabilista, que o fizessem confessar o desfalque e, para facilitar a operação, ofereceu e emprestou o próprio Opala com motorista para que os agentes fizessem as diligências.  No dia 24 de agosto de 1971, dois polícias do DOPS saíram no carro de Simonal em direção à casa de Rafael Viviane.

 Chegaram lá, pediram-lhe que fosse com eles. Viviane foi levado primeiro ao seu escritório em Vila Isabel, depois para a sede da DOPS. E lá, durante horas foi torturado. Eletrochoques, espancamentos, pressão para assinar uma confissão falsa de que tinha desviado dinheiro da empresa de Simonau. Viviane  negou, resistiu e foi torturado até não aguentar mais. assinou a confissão.

 Mas Viviane não desapareceu em silêncio.  A sua esposa apresentou queixa do desaparecimento. O delegado que investigou o caso chegou ao nome de Simonau. A imprensa foi acionada e o que tinha começado por ser uma luta entre patrão e empregado tornou-se uma bomba nacional.  Em 1972, Wilson Simonal foi processado e condenado por extorção mediante sequestro. A condenação foi real.

 O erro foi real. Simonal tinha usado o braço armado da ditadura para resolver uma disputa pessoal e um homem inocente tinha sido torturado por causa disso. Mas o processo judicial, por mais grave  que fosse, não foi o que destruiu Simonal. O que destruiu Simonal  foi o que veio a seguir. Antes de continuar e antes de formar o seu opinião definitiva, quero fazer-te uma pergunta.

 O que teria feito no lugar de Simonal? Falhou feio, mas o que veio depois foi proporcional ao erro. Comenta aqui embaixo. O processo estava em curso. Mas enquanto a justiça seguia o seu curso, uma segunda história começou a circular. E esta não precisava de tribunal para condenar, precisava apenas de uma manchete. Logo depois veio o caso do contador à tona, o inspetor Mário Borges, agente  do próprio DOPS, declarou publicamente que Wilson Simona era informador da polícia política, que ele havia delatado colegas artistas ao

regime, que por detrás do cantor sorridente e carismático estava um espião ao serviço da ditadura. Essa acusação nunca foi comprovada em qualquer processo. Nunca houve qualquer documento oficial que a sustentasse. Era a palavra de um agente do regime, o mesmo regime que torturava pessoas contra a palavra de Simonal.

 Mas foi o suficiente. O jornal alternativo O Pasquim, símbolo da resistência  intelectual à ditadura, uma das publicações mais conceituadas da esquerda brasileira de então, publicou a acusação como verdade absoluta, sem investigação, sem contraditório, sem ouvir Simonal. Os grandes jornais se seguiram, as manchetes foram devastadoras. Simonal Delator.

 O cantor Wilson Simonal é informante do DOPS. Simonal entrega amigos ao regime. Do dia para a noite, o maior cantor do Brasil tornou-se o maior vilão da música brasileira e a classe artística inteira virou costas.  À esquerda, à direita, colegas de palco, amigos de anos, todos desapareceram.

Ninguém  questionou, ninguém investigou, ninguém pediu provas. A narrativa estava pronta, era conveniente, que o Brasil a aceitou com uma velocidade que diz muito sobre quem era Wilson Simonal aos olhos de muita gente. Para aqui um momento. Imagina isso na sua vida. Você construiu tudo sozinho.

 Saiu da pobreza pelo talento, sem padrinho,  sem herança, sem rede de proteção. Quebrou barreiras que ninguém tinha quebrado antes de si. chegou ao topo, ao topo de verdade.  E do dia para a noite, todo o Brasil decide que é um traidor, sem julgamento, sem provas, sem direito de resposta. Os os amigos desaparecem, as portas fecham-se, o telefone deixa de tocar  e você acorda todos os dias sabendo que a sua reputação está a ser destruída por uma história que não é completamente verdadeira  e ninguém quer ouvir

a sua versão. O que faria? Simonal tentou defender-se, em desespero, declarou publicamente: “E fui eu o delator?” Não cultivo frases feitas, mas Por vezes são verdadeiramente insubstituíveis. Era um homem que passou décadas a tentar provar a sua própria inocência e sendo ignorado a cada tentativa.

 Cada vez que abria a boca, a narrativa já estava demasiado consolidada para ser abalada por palavras. E aqui  é preciso dizer algo que muita gente prefere não encarar diretamente.  A rapidez com que esta acusação colou e a completude com que o Brasil o abandonou não foi um acidente, não foi só política, não foi só o episódio do contabilista, havia algo mais profundo alimentando aquela fogueira.

 Wilson Simonal era negro, era rico,  era autoconfiante, era bem-sucedido. E num país racista como o Brasil dos anos 70,  um homem assim já acumulava inimigos que esperavam um motivo. O episódio do contador foi esse motivo. A acusação de denunciante foi o combustível de que necessitavam.

 Outros artistas que tiveram alguma relação com o regime militar sobreviveram politicamente e continuaram as suas carreiras. Simonal não teve a mesma hipótese e a diferença não era apenas o tamanho do erro. O resultado foi uma sentença sem recurso, banida das rádios, banido da televisão, banido dos grandes palcos, em menos de 2 anos de ídolo nacional a nome proibido,  um artista que o Brasil decidira coletivamente apagar.

 Com a carreira destruído, a reputação em frangalhos e o Brasil de costas para ele, Simonal entrou numa espiral que nenhum sucesso passado conseguia mais segurar. Os contratos desapareceram um a um. As gravadoras fecharam portas, os patrocinadores cancelaram tudo. O dinheiro que havia chegado rápido foi-se embora na mesma velocidade.

 E sem as receitas dos concertos, dos discos e dos contratos publicitários, o castelo que Simona tinha construído começou a ruir. O homem que tinha assinou o maior contrato publicitário  da história da música brasileira agora não conseguia qualquer cachê para cantar num clube  de bairro. E quando o dinheiro se foi embora, veio o vazio.

 E no vazio veio  o álcool. O alcoolismo entrou na vida dos Simonal como um refúgio. A única coisa que abafava durante algumas horas a consciência do que estava a acontecer. Mas os refúgios viram prisões e o que começou por ser uma forma de suportar  a dor foi destruindo lentamente tudo o que ainda restava: a saúde, a disciplina, a capacidade de reagir, a energia para lutar.

A trajetória dos concertos conta essa história melhor do que qualquer palavra. De estádios com dezenas de milhares de pessoas para pequenos clubes, de pequenos clubes para bares, de bares para eventos ainda mais pequenos, até chegar aquele camião no interior, a cantar para 15 pessoas que mal paravam para olhar.

 Não por falta de voz, não por falta de talento, mas porque o Brasil tinha decidido que não merecia mais existir como artista. Num dos momentos mais dolorosos de toda esta história, Simonal chegou a gravar anúncios para um supermercado  no interior do Rio Grande do Norte. Um dos maiores nomes da música brasileira, anunciando promoção de mercadoria para sobreviver.

 Não era humilhação,  era desespero. Era um homem a fazer o que fosse necessário para pagar as contas. Mas por baixo de tudo isto havia algo que Simonal não abandonou nunca, a luta para limpar o seu próprio nome. Em 1991, 20 anos depois do episódio que destruiu sua carreira, Simonal começou a escrever cartas ao governo, pedindo um documento oficial, uma prova concreta  de que nunca havia sido delator registado do regime militar, que a acusação que lhe tinha destruído a vida era falsa.

 lutou durante anos sozinho, sem advogados famosos do seu lado, sem campanhas na imprensa, sem que ninguém levantando a bandeira por ele. Era um homem a lutar contra o próprio fantasma que o Brasil tinha criado com o seu nome. Quando finalmente conseguiu provas de que a acusação principal era falsa, já estava doente, já estava fraco e já ninguém estava a prestar atenção.

 A verdade chegou, mas chegou tarde demais para salvar o homem. Se essa história está a impactar-te tanto quanto me impactou ao pesquisar sobre a mesma,  deixa já o like. Isso ajuda muito o canal a continuar a trazer histórias como esta. E se ainda não está inscrito, inscreve-se para não perder o  que aí vem.

Simonal morreu a 25 de junho do ano 2000. E aqui o narrador precisa de dizer em voz alta o que ninguém disse na altura. A imprensa falhou, os colegas falharam e o O Brasil falhou.  falência múltipla dos órgãos, provocada por doença hepática crónica  agravada pelo alcoolismo. Tinha 62 anos.

 Morreu no hospital libanês sírio em São Paulo. O mesmo hospital que serve os ricos e poderosos do país numa ironia cruel que a vida, por vezes, insiste em criar. Morreu pobre.  morreu com a fama de traidor ainda colada ao nome. Morreu sem que ninguém que o tinha destruído tivesse dito uma única palavra de arrependimento. A imprensa falhou.

 O Pasquim e os grandes jornais publicaram acusações sem provas, como se fossem verdades absolutas. Construíram uma narrativa em cima de uma declaração não provada de um agente do mesmo regime que torturava pessoas e nunca mais voltaram atrás. Nunca publicaram uma retratação, nunca pediram desculpa. A mesma imprensa que se vangloriava de resistir à ditadura foi neste caso, o instrumento mais eficiente de destruição de um homem que nunca foi julgado pela acusação mais grave que carregou. Os colegas falharam.

Artistas que subiram aos mesmos palcos que Simonal, que partilharam camarins com ele,  que conheciam o homem de perto, viraram costas em silêncio. Nenhum  teve coragem de questionar publicamente a narrativa. Nenhum levantou a mão e disse: “Espera, vamos investigar antes de condenar.” O silêncio dos amigos foi tão destruidor quanto as manchetes dos jornais.

 O regime falhou de ambos os lados. O próprio DOPS utilizou Simonal, aceitou a sua colaboração, utilizou o seu carro, os seus contactos e depois deixou-o para trás sem nenhuma proteção quando o escândalo veio à tona. E os opositores do regime usaram o nome de Simonal como símbolo de traição,  sem investigar os factos com o mesmo rigor que exigiam para si mesmos.

 Ele foi prensado entre os dois lados e esmagado por ambos. E o O Brasil falhou. O país que o tinha colocado no topo com tanto entusiasmo,  derrubou-o com a mesma velocidade e sem que nenhuma das mesmas condições. Quando Simona estava no auge, o Brasil aplaudia-o.  Quando precisou de alguém que levantasse a voz por ele, o Brasil olhou para o outro lado.

 Morreu pobre, morreu esquecido, morreu abandonado. E nenhum artista, nenhum jornal, nenhuma estação de rádio ou televisão veio [a música] a público dizer: “Eramos. Quem é que achas que teve mais culpa  na destruição de Wilson Simonal? A imprensa, os colegas artistas, o racismo estrutural ou o próprio erro dele? comenta aqui em baixo.

Quero muito saber o que pensa.  A história de Simonal tem um capítulo final, mas é um capítulo que nunca pôde ler. 9 anos depois da falecimento, em 2009, três diretores,  Cláudio Manuel, Micael Langer e Calvito Lealçaram o documentário Simonal, ninguém sabe o duro que dei. O título era uma frase que Simonal costumava  dizer quando alguém tentava resumir a sua trajetória com facilidade demais.

 E o documentário fez o que a imprensa se recusara a fazer décadas antes. Investigou, ouviu todos os os lados, mostrou a complexidade real do episódio do contador e devolveu ao nome de Wilson Simonal uma dignidade que tinha sido arrancada sem julgamento. O documentário ganhou o prémio de melhor documentário pelo juris popular e oficial no primeiro festival de cinema de Paulíia.

 O Brasil prestava finalmente atenção, mas Simonal já não estava aqui para ver. Em 2015, o musical Simbora, a história de Wilson Simonal levou a sua trajetória para os palcos com Ícaro Silva no papel principal. Em 2019, uma cinebiografia protagonizada por Fabrício Oliveira chegou aos cinemas, focando o talento do músico e na complexidade de tudo o que aconteceu.

 O O Brasil foi reconhecendo peça a peça o que tinha feito. Nesse mesmo período, Rafael Viviani, o contabilista que tinha sido torturado naquela noite de Agosto de 1971, recebeu uma indemnização oficial do governo federal como anistado político. O Estado reconheceu formalmente que  Viviane tinha sido perseguido e torturado durante a ditadura.

 Era a prova mais concreta e oficial de que o episódio tinha sido muito mais complexo do que a imprensa pintou na época, que havia um sistema de repressão envolvido, que Simona tinha cometido um erro grave ao acionar este sistema, mas que o que aconteceu depois fugiu completamente do seu controlo.

 Em outubro de 2012, a revista Rolling Stone Brasil  elegeu Wilson Simonal, o quarto maior cantor da história da música brasileira. 12 anos após a morte, o Brasil finalmente reconhecia o génio. Tarde demais para que ele soubesse. Os filhos Wilson Simoninha e Max de Castro, ambos músicos, continuam hoje a obra do pai. Dedicaram discos e espetáculos à memória dele.

 Carregam  o legado com orgulho e com a consciência de que o nome Simonal merece  ocupar o lugar de destaque que a história tentou roubar. A música de Simonal toca até hoje. A pilantragem influenciou o samba rock, o sou brasileiro, o funk nacional. A voz está nos discos, [a música] o swing está na cultura.

 O homem passou, mas o que ele criou ficou. Wilson Simonal saiu da pobreza pelo talento puro. Quebrou barreiras raciais que ninguém tinha partido antes dele. Chegou ao topo com swing,  com orgulho, sem pedir licença a ninguém. cometeu um erro grave, real,  indefensável, que causou sofrimento a um homem inocente e foi punido por esse erro de uma forma que nenhuma justiça do mundo reconheceria como proporcional.

  Foi punido com o apagamento total, com a destruição da identidade, com décadas de silêncio forçado, com a morte na pobreza e no esquecimento,  carregando uma acusação que nunca foi completamente provada. Wilson Simonal foi o primeiro grande cancelamento do Brasil. Décadas antes das redes sociais existirem, muito antes da palavra cancelamento entrar no vocabulário popular, o Brasil já sabia como destruir alguém completamente e como fazer  com a velocidade de uma manchete e a permanência de uma sentença

sem recurso. E o Brasil  nunca admitiu o que fez, nunca processou esta história com a honestidade  que ela merece. Nos seus últimos anos de vida, Simonal já não lutava para voltar [a música] ao estrelato. Não queria os holofotes de volta. Já não sonhava com multidões.  Queria apenas uma coisa: morrer com o nome limpo.

 Provar para o Brasil, para os filhos, para si próprio que não era o que disseram que era. Não conseguiu em vida. E isto diz mais sobre o Brasil do que sobre ele. Deixo-te com uma pergunta para carregar daqui para a frente. Se existiam redes sociais na época de Wilson Simonal, o que teria acontecido? A velocidade da internet terá espalhado a mentira ainda mais rápido? Ou alguém em algum canto do Brasil teria investigado, teria levantado a voz, teria chegado a tempo de salvar este homem? comenta aqui em baixo.

 Quero muito ler o que pensa. E se esse vídeo te fez sentir algo, raiva, tristeza,  admiração ou tudo isto ao mesmo tempo, partilha com alguém agora. Manda para um amigo, para um familiar, para qualquer pessoa que ache que precisa de conhecer essa história. Porque a melhor forma de fazer alguma justiça aos Wilson Simona é garantir  que o Brasil não se esqueça mais.

 Wilson Simonal, o rei do swing, a voz que o Brasil tentou apagar [a música] e a história que este país nunca teve coragem de contar direito até hoje. Ne.

 

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