Imagina que visses ela a lavar roupa para os outros todo dia e que uma noite ela falasse, olhando bem nos seus olhos, que é a única esperança dela. Aos 14 anos, em 1972, aconteceu que ia mudar tudo. Um primo de Aracaju, que vivia em São Paulo, chamado Geraldo, foi para o Nordeste de visita, viu o José Adilson a carregar um saco de 50 kg de farinha ao ombro, como se fosse uma almofada.
os braços, os ombros, as costas e disse à dona Dolores uma frase que a mãe nunca esqueceu. Dona Dolores, este miúdo não é para Aracaju, este miúdo é para São Paulo. Se a senhora o deixar ir comigo, em 5 anos, ele muda a vida da família inteira. A dona Dolores chorou três dias seguidos, depois aceitou. O José Adilson fez uma mala de cartão com duas camisas, duas calças, uma foto da família inteira à porta da casa de tábua e uma imagem de Nossa Senhora Aparecida que a mãe colocou no bolso dele. Antes do autocarro sair, a dona
A Dolores abraçou-o e falou seis palavras. Seis palavras que o José Adilson ia recordar até ao último dia da vida dele. Não me esqueças nunca, meu filho. Existe uma foto desse dia. 4 de março de 1972. O José Adilson, de 14 anos, já com quase 1,90 m, com a única camisa branca que tinha, parado lado da dona Dolores na porta da casa de tábua.
A dona Dolores, 39 anos, ainda jovem, com um vestido florido, que era o único que ela tinha. Esta foto, depois da morte do Maguila, em 2024, apareceu numa gaveta do quarto, juntamente com outra coisa que nós também vamos chegar. O autocarro saiu às 6 da manhã, 32 horas de viagem. Aracaju, Salvador, Vitória da Conquista, Belo Horizonte, São Paulo.
O José Adilson dormiu às primeiras 12 horas. Nas 20 seguintes ficou a olhar pela janela. Viu paisagens que nem sabia que existiam: montanhas, rios grandes, estradas asfaltadas, camiões de 12 rodas. E em cada paragem, em cada estação rodoviária, ele olhava para o povo e pensava na mãe. Pensava que ela nessa mesma hora estava lavar roupa no rio Sergipe.
São Paulo, 6 de março de 1972. Chegou às 7 da noite, a estação rodoviária do Titê. O primo Geraldo estava à espera ele com uma camisa que tinha ficado pequena para o Geraldo e ia ficar grande no José Adilson. Levou-o para uma casa no bairro de Cangíba. Três quartos, 10 pessoas a dormir. O José Adilson dormiu aquela primeira noite no chão da sala num colchão fino com um rádio a tocar samba em volume baixo.
No dia seguinte, o Geraldo levou-o para ginásio, onde treinava box amador no fim de semana, uma a pequena academia no bairro de Vila Maria. O dono, um velho lutador chamado Antônio Maciel, olhou para o José Adilson durante 15 minutos sem dizer nada. pediu-lhe para tirar a camisola, pediu-lhe para soltar uns golpes no ar, pediu-lhe para dar três voltas ao quarteirão a correr e no final disse duas frases, duas frases que o José Adilson nunca esqueceu.
“Você nunca lutou, miúdo, mas o corpo que tem diz-me que nasceu para o ringue.” O António O Maciel ia ser o seu primeiro treinador, mas não o último. O último, o que o ia destruir, ainda não tinha aparecido. “Nós vamos chegar.” Nos qu anos seguintes, o José Adilson treinou todos os dias. De segunda a sábado, 5 horas por dia.
De manhã, descarregava camião no mercado central de São Paulo. Ganhava o suficiente para comer e mandar 20 cruzeiros por mês para Aracaju. De tarde, treinava na Academia do Maciel, sem luva no início, com luva emprestado, depois com luva própria comprada com o dinheiro dele mesmo em 1975. Aos 18 anos, primeiro combate profissional, Académica de São Bernardo, 1976, contra um pugilista chamado Walter Andrade, 22 anos, oito combates no currículo, um favorito local.
O José Adilson nocouteou-o no primeiro round, 47 segundos, um só golpe, direta no queixo. O Andrade caiu como se tivessem cortado os fios do mesmo. O juiz contou até 10, sem o Andrade abrir o olho. Tiveram que o tirar de maca. Aquela noite, no balneário, o Antônio Maciel colocou a mão no ombro do José Adilson e falou uma frase profética.
Vai chegar longe, miúdo. Mas tem cuidado com os que vão rodear-te, porque quando cheiram a dinheiro, vão vir como um tubarão. O Marciel tinha razão e os tubarões já estavam a vir. Em 1983, o José Adilson tinha 25 anos, 12 combates profissionais, 12 vitórias, 11 por nocout. tinha-se tornado uma lenda local de São Paulo, mas ainda ninguém o conhecia no Brasil inteiro.
Nesse ano, numa luta no ginásio do Ibirapuera, um jornalista viu-o nocoutear um pugilista chileno no segundo round e chamou-o pela primeira vez com o alcunha que ia ficar para sempre, Maguila, por causa da personagem da Hana Barbeira, o gorila gigante do desenho animado que tinha a cara de bonzinho e os punhos parecendo marreta. A partir desse dia, o José Adilson Rodrigues dos Santos deixou de existir para o Brasil.
Só existia o Maguila. E o Maguila, em 1985, conheceu o homem que ia mudar a vida dele para melhor e paraa pior. O Ralph Zumbano, 32 anos, empresário de São Paulo, pai proprietário de uma têtil nam muca. Falava inglês, francês e espanhol. Tinha estudou gestão de empresas na Universidade Mackenzie, usava fato italiano, conduzia um Mercedes prateado.
E um dia, em setembro de 1985, apareceu no ginásio do Antônio Maciel com uma proposta. Eu quero ser o empresário do Maguila. Eu consigo lutar internacional para ele, consigo patrocínio, consigo televisão, consigo tudo. Só preciso que ele assine um contrato comigo. O António Maciel, o treinador velho, foi contra desde o primeiro dia.
Falou para o Maguila, em particular uma frase que o Maguila não ouviu. Este gajo tem o olhar de quem vai roubar, não assina. Mas o Maguila Siung assinou porque o Half Zumbano falava igual irmão. Convidava-o para almoçar em restaurante que o Maguila nunca tinha pisado. Comprava-lhe roupa, apresentava empresário, chamava-lhe irmão a cada frase.
E o Maguila, que tinha saído do Nordeste sem saber ler um contrato, sem nunca ter visto um advogado na vida, assinou. O contrato tinha seis páginas. O Maguila assinou a seis sem ler. A cláusula quatro daquele contrato ia destruí-lo 35 anos depois, mas ainda não. A partir de 1986, a carreira do Maguila arrancou. O Zumbano cumpriu, conseguiu luta atrás de luta, conseguiu um contrato com o SBT do Silvio Santos, dono da televisão mais popular do Brasil.
Toda a luta do Maguila passava em horário nobre. Sábado à noiteado a 40 milhões de brasileiros assistindo. Patrocínio de Brama, Banco Real, Ipiranga, Bombril. O Maguila virou um fenómeno nacional, tão grande quanto o Poló, o Pelé, tão grande como o Garrincha, tão grande como o Sena. E entre 1986 e 1989, o Maguila ganhou 22 combates seguidos, 20 por nocout.
Cumpriu a promessa que tinha feito para dona Dolores. Comprou-lhe uma casa com piso em cimento em Aracaju. Comprou um ferro elétrico. Comprou uma televisão colorida, comprou sapatos fechados. Comprou um frigorífico, comprou tudo o que a mãe nunca tinha tido. E a dona Dolores, em 1988, apanhou o avião pela primeira vez na vida para ver o filho lutar no Maracanãzinho do Rio de Janeiro.
Naquela noite depois da luta, a dona Dolores entregou uma coisa para o Maguila, uma coisa pequena. Uma coisa que ele guardou até ao último dia da vida. Nós vamos chegar. Em 1989, aconteceu uma coisa que ninguém no Brasil soube explicar na altura. O Maguila ganhou o combate contra o argentino Walter Armando Maceroni no ginásio do Ibirapuera vitória limpa, nocout técnico no quarto round.
E duas semanas depois, o Luciano do Vale, o locutor estrela do SBT, anunciou no seu programa que a sociedade pública entre ele e o Zumbano tinha acabado. Sem explicação, sem detalhe, apenas o anúncio. A sociedade termina aqui. A imprensa especulou. Uns disseram que o Luciano tinha brigado com o Zumbano por dinheiro.
Outros disseram que o Luciano tinha descoberto alguma coisa de que não gostou. Outros disseram que o Silvio Santos tinha entrado no meio. A verdade nunca veio ao de cima. Até agora o que o Luciano do Vale descobriu nesse mês de setembro de 1989 foi o seguinte: três documentos. Três documentos que estavam no arquivo do Ralph Zumbano e que o Luciano viu por acaso quando entrou para levantar um contrato pessoal dele.
O primeiro documento era um exame neurológico do Maguila, feito em Março de 1989 no Hospital Sírio Libanês de São Paulo. Quem assinou foi o Dr. Roberto Casteluche. O exame mostrava microemorragias cerebrais em três zonas diferentes do cerebral: lesão acumulada, danos irreversível e uma recomendação clara escrita com todas as letras no final do relatório.
O doente deve abandonar imediatamente o desporto de contacto. Qualquer golpe adicional no crânio pode causar danos cerebral permanente ou morte súbita. O segundo documento era uma carta do Dr. Casteluc Ralf Zumbano, uma carta de três páginas. Mandada também em março de 1989. A carta explicava o exame em linguagem não técnica.
Dizia o seguinte: “Senhor Zumbano, estou a enviar-lhe em mão os resultados do Senr. Rodrigues dos Santos. Peço-te encarecidamente que você tirar o boxer do ringue. Se ele continuar a lutar, não garanto a vida dele por mais 5 anos. A carta tinha assinatura original, tinha carimbo do hospital.
Tinha data e tinha mais uma coisa, uma anotação à mão na margem escrita pelo zumbano com tinta azul. Três palavras. Só três palavras. Ainda não. Continua. Ainda não continua. O terceiro documento era o mais escuro, um contrato secreto paralelo assinado entre o Ralf Zumbano e um executivo do SBT, cujo nome o Luciano reconheceu na hora./i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_da025474c0c44edd99332dddb09cabe8/internal_photos/bs/2024/j/r/EHbVAnSb2LfZlItHjwhg/32749791-sao-paulo-sp-10-08-1988-adilson-rodrigues-maguila-pugilista-maguila-treinandofoto.jpg)
Este contrato secreto pagava ao zumbano uma comissão extra fora dos livros oficiais por cada luta de uma guila televisada. 30.000 por luta, pagos numa conta no Uruguai. E a cláusula central desse contrato falava o seguinte: “As comissões se mantém enquanto o pugilista José Adilson Rodrigues dos Santos continuar competindo ativamente. Em caso de reforma voluntária, lesão permanente ou falecimento, as comissões cessam imediatamente.
Se o Maguila se retirasse, o Zumbano perdia 30.000 por mês. Se o Maguila morresse, também. Mas se o Maguila continuasse a lutar, mesmo com o cérebro destruído, o Zumbano cobrava. E foi por isso que o Maguila continuou lutando. Mas isso não é o mais escuro da história, porque tem um papel ainda, um papel de seis páginas, assinado em 1989.
E na cláusula quatro desse papel está escrito: “Com todas as letras, exatamente como uma águila ia morrer, vamos chegar. Em setembro de 1989, o Luciano do Vale não denunciou o que tinha visto. Não foi à polícia, não foi para a imprensa, não avisou o Maguila, só rompeu a sociedade com o Zumbano e desapareceu do entorno do pugilista.
Anos mais tarde, numa entrevista em 1997, perguntaram-lhe por tinha rompido com o Zumbano. O Luciano respondeu sete palavras: “Tem coisa que não podemos contar.” E mudou de assunto. O Luciano do Vale faleceu em maio de 2014, de enfarte na sua casa em São Paulo. Tinha 67 anos. A verdade morreu com ele até que um investigador independente, em 2022, encontrou os três documentos no arquivo fechado da SBT e fez chegarem à família do Maguila.
Mas nessa altura o Maguila já não conseguia perceber o que estava lendo. Mas tudo isto, a injeção antes da luta com o Foreman, o exame neurológico escondido, o contrato secreto com a SBT, os 30.000 por luta que o Zumbano cobrava no Uruguai, tudo isto não é o mais escuro da história do Maguila, porque tem um papel, um papel de seis páginas, assinado em 1989 num escritório do 14º andar da Avenida Paulista número 912.
Um papel que o Maguila assinou sem ler. Um papel que a A sua esposa, a Irane, encontrou por acaso numa gaveta em 2018. E na cláusula quatro desse papel está escrito com todas as letras, exatamente como o Maguila ia morrer. Nós vamos chegar. Mas antes do papel é necessário contar o que aconteceu em Las Vegas.
Porque a luta com o George Forman no dia 16 de junho de 1990 foi o momento exato em que a vida do Maguila partiu em duas. Caesar Palace, Las Vegas, Estados Unidos, uma das arenas mais lendárias do box mundial. Nessa noite, o evento principal era o Mike Tyson contra o Henry Tilman, mas o preliminar mais importante era o Maguila contra o Forman.
O Forman, de 41 anos, antigo campeão mundial, regressando ao ring depois de 10 anos aposentado. O Maguila, 32 anos, na melhor forma física aparente, invicto nos últimos 22 combates no Brasil. A imprensa americana chamou-lhe luta Davi contra Golias, mas nenhum dos dois era o David. 30 segundos antes de subir para o ring, no balneário do César’s Palace, aconteceu uma coisa que só três pessoas viram e duas delas já estão mortas.
O jornalista brasileiro Sandro Macedo cobria o combate para a revista Placar. Tava no balneário do Maguila para uma entrevista exclusiva pós-combate. Chegou 30 minutos antes do combate. Viu o Maguila enfaixado, pronto, aquecendo. Viu o Ralf Zumbano a falar ao telefone num canto do balneário e viu às 9:40 da noite, no horário de Las Vegas, um homem de bata branca entrar no balneário, chegar perto do Maguila, pedir-lhe para estender o braço esquerdo e injectar uma coisa na veia.
O Maguila não perguntou o que era, não assinou nenhum consentimento, não falou com o médico, apenas deixou injetar. Depois, quando o homem da bata branca saiu do balneário, o Maguila perguntou ao Zumbano o que lhe tinham dado. O Zumbano respondeu com quatro palavras: “A tua vitamina, irmão, tem calma. O Sandro Macedo escreveu na sua agenda naquela mesma noite as palavras exactas: injecção sem documentação.
Homem de bata branco. 3 minutos. Maguila não pergunta. Zumbano pagou. Esta agenda, 34 anos depois, ainda está guardada no ficheiro da família Macedo, em São Paulo. O Sandro Macedo morreu em 2018 vítima de cancro de pulmão. Estava a escrever um livro sobre o Maguila. O manuscrito ficou sem publicar.
A família guarda à espera do momento. Esperando. Nós vamos chegar nesse manuscrito. Às 22h16, no horário de Las Vegas, o Maguila subiu no ringue do Palácio de Keizar. O sinal tocou. O primeiro round começou e nos primeiros 60 segundos do primeiro assalto, os espectadores viram uma coisa que nunca tinham visto no Maguila. O Maguila não mexia-se corretamente, as pernas pareciam pesadas, os reflexos lentos.
O Foreman, o velho Foreman, encaixou três Jebs limpos no rosto dele em menos de um minuto. O Maguila não se esquivou de nenhum. No segundo assalto aconteceu. Aos 2 minutos e 13 segundos, o Forman soltou um gancho de direita em cima da orelha esquerda do Maguila. Um só golpe, mas um golpe que apanhou com todo o peso do antigo campeão do mundo.
O Maguila caiu, levantou-se na contagem de oito. O Forman atingiu-o mais três vezes. O juiz parou a luta. Nocout técnico no segundo round. Mas o que a transmissão da SBT não mostrou foi o que aconteceu depois. O Maguila ficou sentado no seu banco durante 6 minutos sem reagir, olhando para o chão sem pestanejar.
Quando o Zumbano se aproximou-se para o tirar do ringue, o Maguila não o reconheceu durante 10 segundos. Depois reagiu, levantou-se, caminhou para o balneário com ajuda de dois assistentes. E quando chegou ao balneário, a primeira coisa que falou foi uma pergunta, uma pergunta estranha, uma questão que o Sandro Macedo escreveu palavra por palavra na agenda.
Quem é aquele homem que está no canto? Por que é que ele não vai embora? Não tinha ninguém no canto. O vestiário estava vazio. Naquela noite, naquele balneário, o cérebro do Maguila já estava lesionado de forma permanente, mas a sua carreira estava apenas a começar, porque a cláusula quatro obrigava-o a continuar.
Depois de Las Vegas, o Maguila voltou a pro Brasil, esteve 30 dias em silêncio. Sem treinar, sem falar com a imprensa, a mãe dele, a dona Dolores, viajou de Aracaju para cuidar dele. Fazia sopa, colocava pano frio na testa. falava-lhe descansar e todas as noites, antes dele dormir, a dona Dolores pedia a mesma coisa: “Meu filho, deixa isso.
Já cumpriu? Já tirou a sua mãe da miséria? Larga”. O Maguila não respondia, apenas fechava o olho. 45 dias depois da luta com o Foreman, o zumbano apareceu em casa do Maguila com um calendário novo. Próxima luta, Buenos Aires, Argentina, 12 de setembro de 1990. O Maguila disse-lhe que queria parar, que se estava a sentir mal.
que alguma coisa não estava bem na cabeça dele. O Zumbano respondeu com uma frase só. Assinou um contrato, irmão. Não pode parar. Não pode parar. O Maguila combateu em Buenos Aires, ganhou por nocout no quarto assalto. Lutou em Madrid em Outubro, ganhou por nocout no quinto assalto. Combateu em Tóquio em dezembro, ganhou por nocout.
Cada combate, o Zumbano levava 30.000 da conta do Uruguai. Cada luta, o Maguila perdia mais um pouco da capacidade de falar direito, de se lembrar do nome, de terminar uma frase e a dona Dolores em Aracaju chorava. Porque tinha começado a anotar uma coisa no filho, uma coisa que nenhum médico ainda tinha nomeado.
No início de 1991, o Maguila foi visitar a mãe a Aracaju. A dona Dolores fez arroz com feijão e carne seca para ele, a comida preferida dele. O Maguila sentou-se à mesa, pegou na colher e ficou 30 segundos a olhar para o prato sem saber o que fazer. A dona Dolores perguntou se ele estava bem. O Maguila levantou o olho e respondeu com cinco palavras.
Como é que come isso, mãe? A dona Dolores levantou-se da mesa, foi para cozinha, fechou a porta e chorou durante duas horas. Quando regressou, o Maguila já estava comendo normal, como se nada tivesse acontecido. Mas a dona Dolores soube naquele momento que alguma coisa dentro do filho dela estava a apagar-se.
Nessa mesma noite, a dona Dolores pediu ao Maguila se aposentar, pediu-lhe para devolver o dinheiro, pediu-lhe para vender a casa com chão de cimento, se fosse necessário. O Maguila respondeu com uma só frase, uma frase que ia marcar tudo o que vinha depois. Não posso, mãe. Se eu parar, a gente perde tudo.
Se eu parar, a gente perde tudo. Era isso que dizia a cláusula 4. Mas ainda não. Entre 1990 e 1 e 1995, o Maguila lutou 38 vezes. 32 vitórias por nocout, cinco vitórias por pontos, uma derrota. Cada luta, o Zumbano tirava-lhe os 30.000. Cada luta, o cérebro do Maguila perdia neurónio, que não ia voltar nunca mais. Em agosto de 1995, o Maguila ganhou o título mundial dos pesos pesados da WBF, uma federação mais pequena, derrotando o inglês Johnny Nelson por pontos num combate em Osasco. Primeiro brasileiro campeão
mundial, peso pesado da história. O O Brasil enlouqueceu. O Sílvio Santos recebeu-o no programa, deram a Mercedes nova de oferta, patrocínio, comercial. A dona Dolores viajou de novo para São Paulo para ver o filho levantar-se o cinturão. E nessa noite, depois da comemoração no hotel onde o Maguila estava hospedado, a dona Dolores fez uma pergunta, uma pergunta que mais ninguém fazia.
Meu filho, és feliz? O Maguila olhou para ela durante 10 segundos sem pestanejar e respondeu três palavras. Não sei, mãe. Não sei, mãe. Foi a última conversa lúcida que o Maguila teve com a mãe? Porque em 1999 tudo mudou, mas antes de 1999 é preciso voltar ao papel, ao contrato de seis páginas, porque agora já tem todos os dados para perceber o que falava a cláusula 4.
1989, agosto. Um escritório no 14º andar da Avenida Paulista, número 912, edifício do Conjunto Nacional. Terceira porta Ascuna, escritório do advogado Marcos Bitar, de 39 anos. Especialista em contrato desportivo. Era o advogado de confiança do Ralf Zumbano. Tinha redigido o contrato de quatro outros pugilistas brasileiros menores antes do Maguila.
Todos eles terminaram a carreira com lesão cerebral irreversível. Todos eles terminaram sem 1€ na conta e todos eles assinaram o contrato quase idêntico. O contrato do Maguila tinha seis páginas. Seis. A cláusula quatro falava exatamente o seguinte: “E vou ler palavra por palavra porque quero que ouça igual a esposa do Maguila, a Iraneu em 2018, sentada no chão do quarto, depois de encontrar o papel guardado durante 20 nó e 9 anos no fundo de uma gaveta.
” Cláusula 4. ª O pugilista José Adilson Rodrigues dos Santos, doravante denominado o pugilista, se compromete a realizar um mínimo de oito combates oficiais por ano natural durante os próximos 10 anos a partir da assinatura do presente contrato, sem importar lesão física, diagnóstico médico, condição pessoal ou circunstância familiar.
Em caso de incumprimento desta obrigação, o pugilista deverá devolver integralmente o investimento inicial entregue pelo empresário, equivalente a 2.300.000 americanos, acrescidos dos juros acumulados a uma taxa de 15% ao ano. A rescisão unilateral por parte do pugilista, por qualquer causa que não seja o falecimento medicamente comprovado, ativa a obrigação de devolução integral.
Esta cláusula é de cumprimento obrigatório e não admite exceção, nem mesmo por motivo de saúde. Lê de novo. A recisão, por qualquer causa que não seja o falecimento, medicamente comprovado ativa a devolução. A única forma legal de sair do contrato era morrer. A única forma não se aposentar, não se lesionar, não ter um AVC, não estar numa cadeira de rodas, morrer.
Medicamente comprovado. O Maguila assinou esse contrato sem ler em agosto de 1989, confiando no Ralf Zumbano, chamando-o de irmão. E a partir daquele dia o Maguila ficou preso num papel que dizia em linguagem jurídica que a única saída dele era morrer. Foi por isso que ele continuou a lutar com microemorragia cerebral.
Foi por isso que continuou lutando depois de Las Vegas. Foi por isso que continuou a lutar quando já não conseguia lembrar-se do nome da mãe durante segundos inteiros. Foi por isso que continuou a lutar quando os médicos falaram em 1997 que tinha sinais de demência traumática avançada. Foi por isso que continuou a lutar até 2000.
11 anos depois de assinar a cláusula 4 e nem ali, quando finalmente se reformou conseguiu descansar porque o zumbano já tinha esvaziado as contas. A Mercedes tinha sido vendida. A casa deópolis estava em nome do zumbano, não do Maguila. E o investimento de 2.300.000, segundo os livros, continuava sem ser devolvido.
Mas há uma coisa ainda, uma coisa que só apareceu nos últimos meses de vida do Maguila, uma coisa que a esposa, a Irane, guardava numa gaveta. Uma coisa a que vamos chegar. O Marcos Bitar, o advogado, morreu em 2009 num acidente de viação na auto-estrada dos Bandeirantes. O arquivo pessoal dele foi comprado três meses depois por uma empresa de consultoria com sede no Panamá.
Os contratos que tinha redigido pro Zumbano e pros outros quatro pugilistas nunca vai apareceram. Até 2018, quando a Irane encontrou o dela, o do Maguila. Mas antes de chegar na Irane, é preciso contar a queda. 1999, o Maguila tinha 41 anos, tinha combatido 82 vezes, 75 vitórias, cinco derrotas, um empate.
Lutava há 11 anos com o cérebro lesado. E nesse ano, numa luta em Belo Horizonte contra um pugilista desconhecido chamado Ribamar Oliveira, aconteceu uma coisa que a transmissão do SBT cortou no ar. O Maguila ganhou por nocout no terceiro round, mas depois docout, enquanto o juiz erguia-lhe o braço em vitória, o Maguila não libertou o juiz, não festejou, ficou parado no centro do ring durante 40 segundos, olhando para as bancadas sem reagir.
A transmissão cortou no ar. A SBT colocou um anúncio publicitário de detergente. Quando voltou à transmissão, o Maguila já estava no balneário. Aquela noite, no balneário, o Maguila chorou durante uma hora. Não sabia onde estava. não reconhecia o Z umbano. Quando perguntaram o que tinha acontecido, ele respondeu seis palavras: “Não me lembro onde está a minha mãe.
Não me lembro onde a minha mãe tá. Guarda essa frase, nós vamos chegar. Em 2000, o Maguila lutou pela última vez um combate no Paraná contra Mikut, um pugilista uruguaio perdeu por nocout técnico no quarto round. Era a sexta derrota da sua carreira. Depois desta luta, o Zumbano aposentou-o oficialmente, não porque ligava para saúde do Maguila, mas porque o Maguila já não atraía patrocinador.
O nome dele já começava a aparecer-se em coluna de mexericos, com palavras como confuso, desorientado, ausente. O SBT cancelou o contrato secreto. As comissões do Zbano cessaram. E aqui aconteceu uma coisa que pouca gente sabe. Quando as comissões cessaram, o Zumbano desapareceu em 15 dias, vendeu a casa de Igenópolis, onde o Maguila vivia, com a primeira mulher, esvaziou as contas, encerrou o escritório da Avenida Paulista, mudou-se para os Estados Unidos para Miami e nunca mais atendeu um telefone brasileiro. O Maguila ficou sozinho, sem
dinheiro, sem empresário, sem equipa médico, com um cérebro que cada mês funcionava pior. Em 2002, a dona Dolores viajou de Aracaju para viver com ele para cuidar. O Maguila tinha 44 anos, a dona Dolores 69. E todas as manhãs a dona Dolores preparava o pequeno-almoço para ele, vestia a roupa, dizia o nome de cada coisa.
Isso é uma colher, José. Isto é uma chávena, José. Isto é um pão, José. Em 1999, o Maguila tinha-se esquecido onde a mãe tava. Em 2003, a mãe morreu e tudo mudou para sempre. Mas antes de chegar a 2003, é preciso falar da Irane, porque em 2005 o Maguila conheceu a Irane Pinheiro, uma enfermeira de 40 anos, divorciada, dois filhos, que trabalhava numa clínica de reabilitação em São Paulo, onde o Maguila ia fazer fisioterapia.
A Irane viu o Maguila quatro vezes antes de falar com ele. Viu-o entrar caminhando com dificuldade. Viu-o olhar para a parede durante minutos. Viu-o confundir a casa de banho com a sala de espera e à quinta visita, a Irane falou com ele, ofereceu-lhe um café. O Maguila aceitou. Três meses depois, o A Maguila e a Irani mudaram-se juntos para uma pequena casa, no bairro de Itaquera, periferia de São Paulo.
Uma casa de dois quartos, uma pequena cozinha, um quintal com um pé de manga. O Maguila viveu ali os 19 anos seguintes até morrer. E nestes 19 anos, a Irani foi a única pessoa que ficou do lado dele todos os dias. deu banho, vestiu, deu comida à boca, conversou, cuidou, sem receber o R da família, sem receber R do Zbano, sem receber R$ 1 da SBT, só com o dinheiro que ela ganhava de enfermeira e com uma miserável pensão que o estado de S.
O Paulo dava ao Maguila como ex-atleta. Mas há uma coisa mais, uma coisa que só apareceu depois da morte do Maguila em outubro de 2024. Uma coisa que a Irane tinha guardado durante 4 anos seguidos. Um caderno, um caderno escolar de capa azul. Marca Tilibra, sem folhas, comprado numa papelaria de Itaquera no no dia 12 de março de 2020.
Neste caderno, a Irane anotou toda a noite, durante 4 anos, uma só palavra. A palavra que o Maguila repetia bem antes de dormir, a mesma palavra, toda a noite. E essa palavra revela quem destruiu verdadeiramente o gigante de Aracaju. Fica aí. Nós vamos chegar, mas antes do caderno é necessário voltar em 2003, porque foi nesse ano que o Maguila perdeu a única coisa que ainda restava para ele.
14 de fevereiro de 2003, Aracaju. A senhora Dolores Rodrigues, de 70 anos, estava há 3 meses com um problema para respirar. Cancro do pulmão avançado, inoperável. A família tinha avisado o Maguila em dezembro. O Maguila tinha prometido viajar para Aracaju em janeiro, não foi. Tinha prometido viajar em fevereiro também não foi.
Porque o Zumbano nessa época ainda mexia com parte da sua agenda residual. E o Zumbano tinha conseguido uma luta, uma luta de exibição, uma luta sem importância. Em Las Vegas, a mesma cidade onde 13 anos antes o seu cérebro tinha começado a apagar-se. A luta era no dia 14 de Fevereiro de 2003. Bolsa 80.
000, um combate de quatro assaltos contra um pugilista aposentado. Exibição para um evento corporativo. O Maguila não queria lutar, não estava em condições. Mas o Z umbano disse que precisavam do dinheiro, disse que era a última. Falou que depois podia ir para Aracaju. Disse que a mãe ia estar bem. Uma águila viajou para Las Vegas no dia 12 de Fevereiro, às 8 da noite do dia 14 de fevereiro, no horário de Aracaju, a dona Dolores morreu na sua cama, na casa com piso de cimento que o Maguila tinha comprado para ela 18 anos antes.
As últimas palavras dela foram três. Três palavras que o irmão mais novo do Maguila, o António Rodrigues, anotou numa caderneta: “Cuidem do José”. Mas antes de morrer, a dona Dolores tinha feito uma coisa. Nos últimos dias de vida, tinha pedido para o António tirar de uma gaveta da mesinha de cabeceira uma bolsinha pequena de pano.
No interior tinha um objeto, um objeto que a dona Dolores tinha guardado durante 15 anos. Desde essa noite do Maracananzinho, em 1988, quando ela tinha viajado de avião pela primeira vez na vida, para ver o filho lutar. Nessa noite, depois da luta, a dona A Dolores tinha entregue ao Maguila um objeto, um objeto pequeno. E o Maguila tinha-lhe devolvido no fim de semana, pedindo-lhe para guardar até ao dia que ele realmente precisasse.
Era uma medalha, uma medalha de bronze de Nossa Senhora Aparecida. A mesma medalha que a dona Dolores tinha colocado no seu bolso no dia em que ele partiu para São Paulo em 1972. A medalha que o Maguila tinha usado nos primeiros anos em São Paulo. Aqu ele tinha deixado em Aracaju numa visita em 1988, pedindo à mãe para guardar para ele.
E a A dona Dolores, antes de morrer, pediu ao António devolver a medalha ao Maguila quando ele chegasse ao velório. O Maguila não chegou ao velório, mas quando chegou a casa, dois dias depois, o António entregou-lhe a medalha e o Maguila guardou-o no bolso do casaco. O mesmo casaco. até ao último dia da vida dele. Cuidem do José.
Foi isso que a dona Dolores falou. Às 11 da noite do no dia 14 de fevereiro, no horário de Las Vegas, o Maguila estava a subir no ring do Mandalei Bay Resort. Duas horas antes, o irmão António tinha ligado para o hotel, tinha pedido para falar com o Maguila, disseram-lhe que o Maguila já estava no balneário, pediu para recepcionista dar o recado.
Falou para recepcionista que era urgente, disse que a mãe do Maguila tinha morrido. A recepcionista anotou o recado num papel amarelo. Esse papel amarelo nunca chegou no Maguila. O Zumbano intercetou na recepção, guardou-o no bolso e deixou o Maguila subir para o ringue sem saber que a mãe tinha morrido.
O Maguila ganhou a luta por nocout, a última vitória da sua carreira. E enquanto lhe erguiam o braço no centro do ringue do Mandalei Bayi, a mãe dele já fazia 3 horas que tinha morrido em Aracaju e ele não sabia. O Maguila soube da morte da dona Dolores no dia seguinte, 15 de fevereiro, às 10 horas da manhã, no café da manhã do hotel, quando o irmão António finalmente conseguiu falar com ele por telefone.
O Maguila viu-o, não reagiu durante 10 segundos, depois largou o telefone, caminhou até à casa de banho do hotel, fechou a porta e chorou durante 4 horas seguidas. O velório da dona Dolores foi no dia 16 de fevereiro em Aracaju. O Maguila não chegou. Os voos de Las Vegas para São Paulo, para Aracaju demoravam 27 horas.
Quando o Maguila aterrou em Aracaju, no dia 17 à 1 da tarde, a sua mãe já estava enterrada. O irmão António levou-o para o cemitério. O Maguila sentou-se do lado da sepultura durante 3 horas, sem falar, sem chorar, sem se mexer. Depois levantou-se, voltou para casa com chão de cimento e começou a recolher as coisas da mãe.
Achou os sapatos fechados dela, os que tinha comprado. Achou o ferro elétrico dela, o que ele tinha dado de presente. Encontrou a foto do dia 4 de março de 1972. A foto dos dois à porta da casa de tábua antes do Maguila ir para São Paulo. O Maguila guardou esta foto no bolso do Palitó e nunca durante os 20 ou anos seguintes até ao dia em que morreu deixou de carregar.
A foto apareceu na mesa de cabeceira dele no dia em que o A Maguila morreu juntamente com o caderno da Irane. O caderno Nós vamos chegar. A a partir de Fevereiro de 2003, o Maguila mudou. A degeneração cerebral dele acelerou. Em 2005 já não conseguia ler um jornal. Em 2007 já não se lembrava do nome da rua onde morava.
Em 2010 deram para ele um diagnóstico errado, mal de Alzheimer. O diagnóstico correto encefalopatia traumática crónica, demência pugilística, chegou 5 anos depois. Em 2015, o Maguila já não conseguia vestir-se sozinho. Em 2018, a Irani encontrou o contrato de seis páginas na gaveta. leu, chorou a noite inteiro e no dia seguinte, quando o A Maguila acordou, a Irani não disse nada.
Para quê? Em 2020, o Maguila começou a repetir a mesma palavra antes de dormir, toda a noite. A mesma. A Irane, em março de 2020, comprou o caderno de capa azul na papelaria de Itaquera e começou a anotar. A palavra era dolores. Dolores todas as noites durante 4 anos. 100 noites. 100 apontamentos no caderno azul.
Uma palavra apenas repetida, o nome da mãe. Uma guila, que nos últimos anos não se lembrava o nome da esposa Irane, não se recordava do nome do bairro onde vivia. Não se lembrava que tinha sido pugilista, não se lembrava que tinha combatido o Foreman, não não lembrava nada de Las Vegas, não se lembrava do contrato, não se lembrava do Zumbano, não se lembrava que tinha sido campeão do mundo, lembrava-se do nome da mãe.
Só isso. E todas as noites, antes de dormir, dizia à Irane a mesma frase. Uma frase que a Irane anotava do lado da palavra Dolores no caderno. Uma frase que o Maguila repetia igual oração: “Mãe, perdoa-me por não ter ido ao teu velório. Mãe, perdoa-me por não ter ido no seu velório. Mãe, perdoa-me por não ter ido ao seu velório 100 vezes toda a noite durante 4 anos.
Foi isso que destruiu o Maguila. Não foram os golpes do Forman, não foi a cláusula 4, não foi o zumbano, foi uma culpa. Uma culpa que nenhum cérebro lesado conseguiu apagar. A culpa de não ter ido ao velório da mãe. O Hugo Baldinha identificado a brecha emocional do Maradona e por ali tinha enfiado tudo. O Ralf Zumbano tinha identificado a brecha emocional do Maguila e por ali tinha enfiado tudo.
O Maguila assinou o contrato sem ler porque confiava no zumbano igual irmão. E confiou no Zumbano igual irmão porque o Zumbano sabia que o Maguila tinha saído do Nordeste por uma obsessão só, uma só promessa, uma só mãe. Tirar a dona Dolores da miséria. E o zumbano usou essa promessa, dava dinheiro ao Maguila enviar para Aracaju.
Comprava presente à dona Dolores em nome do Maguila, construiu a imagem do empresário irmão que cuidava de toda a família. E por essa porta, a porta do amor materno, entrou tudo o resto. A injecção, o contrato, a cláusula 4, as microhemorragias, o forman, as contas vazias, a casa de higienópolis vendida e no final a pior traição de todas, o papel amarelo da recepcionista do Mandalei Bay, o recado que falava que a dona Dolores tinha morrido e que o Zumbano intercetou.
Se o Maguila soubesse naquela noite do dia 14 de Fevereiro de 2003 que a mãe tinha morrido, não teria subido para o ringue, teria apanhado o primeiro avião para Aracaju, teria chegado ao velório, teria enterrado a mãe, teria fechado o ciclo da promessa que tinha feito aos 14 anos. E a culpa, a culpa que destruiu ele durante os 21 anos seguintes, não teria existido nunca.
Mas o zumbano precisava que o Maguila lutasse aquela noite. Precisava dos 80.000 da bolsa. precisava da última comissão da SBT. Por isso, intercetou o papel. Por isso, deixou o Maguila subir para o ringue sem saber. Por isso, durante os 21 anos seguintes, toda a noite antes de dormir, o Maguila pediu perdão por não ter ido a um velório que ele não poôde ir, porque esconderam dele a notícia.
O Maguila morreu a pedir perdão à mãe por uma coisa que não tinha sido culpa dele. Esta é a história que a imprensa brasileira nunca contou. Mas falta uma coisa ainda. As últimas 12 horas. Vamos. 23 de outubro de 2024. São Paulo. Hospital das clínicas, faculdade de medicina, Universidade de São Paulo. O Maguila estava há 17 dias internado. Pneumonia severa.
O mão cheio de líquido. O corpo dele já não respondia mais a antibiótico. Os médicos tinham dito à Irani que era questão de horas. Às 8 da noite, a Irania entrou no quarto. O Maguila estava com oxigénio, os olhos fechados, a respiração pesada. A Irane sentou-se do lado da cama, pegou-lhe na mão e o Maguila, que estava há três dias sem reagir, abriu o olho, olhou para ela, mexeu os lábios e falou com uma voz que mal dava para ouvir, uma só palavra. Dolores.
A Irane respondeu três palavras. A sua mãe espera por ti, José. O Maguila fechou o olho, sorriu, um pequeno sorriso, o primeiro sorriso que a Irane tinha visto nele em 4 anos. E às 4:30 da madrugada do dia 24 de outubro de 2024, o José Adilson Rodrigues dos Santos, conhecido por Maguila, o pugilista de peso pesado mais famoso da história do Brasil, as 77 vitórias e 61 nocouts, o primeiro brasileiro campeão mundial de peso pesado, deixou de respirar.
tinha 66 anos, morreu sem R no banco, morreu sem saber o seu próprio nome, morreu pedindo perdão à mãe e morreu finalmente livre do contrato. O Ralf Zumbano continua vivo, vive em Miami, tem 71 anos, é proprietário de uma empresa de consultoria desportiva. Tem três apartamentos em higienópolis no nome dele. Uma casa em boca ratom, um iate de 14 m.
Nunca foi investigado pelas autoridades brasileiras, nunca devolveu um real, nunca falou publicamente do Maguila depois de 2024. Quando a imprensa pediu uma declaração pro funeral, o seu assistente respondeu três palavras: “O senhor Zumbano não comenta. O senhor Zumbano não comenta. Tem milhões de homens assim neste momento.
Homens que saíram do Nordeste, do interior, do bairro pobre. com uma promessa só feita paraa mãe. Tirar ela da miséria, comprar uma casa com o chão de cimento, comprar calçado fechado. E muitos conseguiram, mas perderam no caminho, o que já não se devolve. O tempo com ela, o jantar com ela, a conversa na cozinha, os domingos, os natais, o abraço de despedida e no final, quando a mãe morre, chegam tarde ou nem sequer chegam, porque alguém em algum lugar lhes escondeu o papel amarelo do recado. Estes homens carregam
depois uma culpa que não se apaga com dinheiro, não se apaga com sucesso, não apaga-se com nada, porque a culpa de não ter ido ao velório da mãe não é uma culpa lógica, é uma culpa da alma. E ela fica 30 anos, 40 anos, até ao último dia. O Maguila assinou um contrato sem ler. O Maguila lutou com o cérebro destruído.
O Maguila perdeu a fortuna toda. Mas o que o matou de verdade, o que destruiu ele por dentro durante 21 anos, foi uma culpa por uma coisa que não tinha sido culpa dele, a culpa de um filho que não foi ao velório da mãe. E por essa culpa, toda a noite, antes de dormir, durante 4 anos seguidos, numa pequena casa de Taquera, o Maguila pediu perdão 100 vezes.
100 vezes por uma coisa que ele não tinha feito. Se essa história fez-te pensar na tua mãe, liga hoje. Não amanhã. Hoje, mesmo que ela já já não esteja aí, mesmo que só consiga falar com o teto, com o céu, com uma foto, fala com ela, porque tem culpa que dá para evitar. E a culpa do Maguila, essa culpa que o acompanhou até ao último segundo, é a culpa que nenhum filho devia carregar nunca.
Se conhece um homem que carrega uma culpa assim, diz-lhe hoje que aceite, que descanse, que entenda que mãe não cobra, mãe pede lembrança. E uma boa lembrança, uma noite só juntos, uma conversa só lúcida, uma só foto guardada no bolso do casaco durante 20 ou a1 anos, isso é suficiente. O Maguila guardou a foto até ao último dia.
Foi isso que sempre foi o suficiente. O manuscrito de Sandro Macedo, o jornalista do Kissers Palace, finalmente veio à tona. Em julho de 2025. A família Macedo entregou paraa procuradoria de São Paulo 78 páginas escritas à mão com fotografia, com cópia da agenda original, onde o Macedo tinha anotado nessa noite do dia 16 de junho de 1990 a injecção sem documentação, o homem de bata branca, os 3 minutos do vestiário.
Mas o manuscrito tinha mais uma coisa. Na página 64, o Macedo tinha transcrito uma conversa que ouviu por acaso nessa mesma noite no corredor do Keers Palace. Uma conversa entre o Ralph Zumbano e outro homem. Esta conversa no manuscrito do Macedo está transcrita palavra a palavra. O zumbano fala para o outro homem seis palavras. Se ele perder, melhor.
A gente apanha o seguro. A gente apanha o seguro. O Maguila tinha um seguro de vida e de incapacidade permanente contratado, sem ele saber beneficiário o Ralf Zumbano. Se o Maguila morresse no ringue ou ficasse em estado vegetativo, o Zumbano recebia 1.200.000. A acusação em agosto de 2025 abriu investigação.
O zumbano de Miami continua sem responder. O processo continua e se esta história te tocou, se subscreve o canal porque a próxima vai doer ainda mais. Um piloto brasileiro que prometeu antes de subir para um Williams em 1994 que ia ganhar aquela corrida pelo país. Prometeu à irmã duas noites antes e cumpriu, mas não da forma que ninguém esperava. O seu nome era Airton Sena.
E a verdade sobre Tamburelo nunca te foi contada. Aleluia.