CARLOS ALBERTO TORRES: ESCONDEU POR 47 ANOS QUEM MATOU TODA A FAMÍLIA

Aprenderam que depois da Marilena, os irmãos que sobravam tinham de cuidar uns dos outros. José Luiz Torres, Zé Luiz para a família, era o terceiro filho dos Torres, 4 anos mais velho que os gêmeos. Tinha uma coisa diferente do Carlos Alberto e do Carlos Roberto. Zé Luiz era o futebolista da casa. Aos 14 anos, um olheiro do Fluminense viu-o num torneio amador do bairro e levou para as camadas jovens do clube.

Carlos Alberto, com 10 anos de idade naquela altura, viu o irmão mais velho entrar no Fluminense como se tivesse a entrar no paraíso. Começou a copiar tudo. Como chutava a bola, como amarrava as chuteiras. Zé Luiz, sem saber era o ídolo silencioso do irmão mais novo. Carlos Roberto, gémeo, não jogava futebol, mas acompanhava o Carlos Alberto em todos os treinos do irmão mais velho no Fluminense.

 Os dois irmãozinhos sentavam-se na bancada de madeira do campo da base do clube para ver o Zé Luiz treinar. Este durou 5 anos. Até que o Zé Luiz fez uma coisa que a família Torres nunca terminou de entender. Zé Luiz deixou o futebol aos 18 anos por uma mulher da Vila da Penha. Vamos voltar para o Zé Luiz, porque o que lhe aconteceu depois foi o que marcou o resto da vida do capitão da melhor seleção brasileira da história.

Em 1960, um amigo de infância chamado Roberto Alvarenga, ex-supavisor do Fluminense, organizou um teste no clube para o miúdo Carlos Alberto Torres. Tinha 16 anos. O pai Bosco não podia saber porque continuava a ser contra o futebol depois da desilusão que o Zé Luiz tinha causado ao abandonar a carreira profissional um ano antes.

 Carlos Alberto inventou uma desculpa para o patrão do escritório, onde trabalhava como office-boy. Correu até às laranjeiras. Começou o teste com mais 12 miúdos. Driblava melhor que toda a gente, chutava com as duas pernas. Uma hora depois, a bola saiu pela lateral do campo. Carlos Alberto foi buscar.

 Quando levantou a cabeça, viu uma coisa que quase o deitou abaixo no chão. O pai Bosco estava sentado na bancada social do Fluminense, olhando para ele. Alguém da família ou do bairro tinha contado. Depois do treino, os dois caminharam em silêncio até ao ponto do autocarro. E antes de descer no ponto da Vila da Penha, o pai Bosco disse apenas uma frase, tinha nove palavras.

Disse: “Se vais jogar, joga para ser o melhor”. E nunca mais foi contra o futebol do filho. O que veio depois é a história conhecida. Carlos Alberto Torres assinou pelo Fluminense em 1960, estreia profissional com 18 anos. Em 64 venceu o Campeonato Carioca e a Taça Guanabara com o Fluminense. Em 1966, o Santos do Pelé comprou o passe do Carlos Alberto por 200.000 escudos.

 A transferência mais cara do futebol brasileiro até àquele momento. Carlos Alberto mudou-se para Santos, começou a treinar ao lado do Pelé, do Clodoaldo e do Edu. Cinco campeonatos de São Paulo com o Santos, duas Taças Brasil. Tudo isso do lado do rei do futebol mundial e o momento mais importante da carreira, a Campeonato do Mundo de 1970.

México, estádio Azteca, final contra a Itália no 21 de Junho de 70, 4-1. E o quarto golo do Brasil na jogada que começou com Clodoaldo, passou por vários jogadores, chegou ao Pelé e o Pelé tocou pró Carlos Alberto. O capitão do Brasil rematou com força e precisão. Quarto golo do Brasil, tricampeonato mundial garantido.

 Depois do jogo a meio do campo do Estádio Azteca, o capitão Carlos Alberto Torres recebeu a taça Jules Himet e beijou com os 90.000 1 adeptos do estádio a chorar, com o Brasil inteiro a chorar na TV em preto e branco. Era o último capitão da história que ia beijar aquela taça, porque o Brasil com o tricampeonato, ganhou a posse definitiva da Jules Himet, que nunca mais voltou à disputa internacional.

 Carlos Alberto Torres tinha 25 anos e desde essa tarde deixou de ser o miúdo do Vila da Penha, passou a ser o capita. Depois do 70, Carlos Alberto Torres continuou a jogar até ao 82, Fluminense no 74. Cosmos de Nova Iorque entre o 77 e o 80, companheiro do Pelé e do France Beckenbauer nos Estados Unidos. Depois da reforma em 82, tornou-se técnico.

Levou o Flamengo ao Campeonato Brasileiro em 1983, dirigiu 16 clubes no total. Em 1989 se elegeu vereador do Rio pelo PDT e a a partir de 2014, com 70 anos, começou a trabalhar como comentador desportivo no Sportv, programa Troca de Passes nos domingos. Era o final natural e feliz da carreira de um dos maiores jogadores do futebol mundial até setembro de 2016.

 No final de setembro de 2016, o irmão gémeo do Carlos Alberto Torres, o Carlos Roberto Torres, morreu na casa onde vivia com a mulher no bairro de Vila da Penha do Rio de Janeiro. Tinha 72 anos. A data exata da morte não aparece nos arquivos públicos, mas a família Torres confirmou depois em entrevistas que a morte do Carlos Roberto aconteceu mais ou menos um mês antes da morte do Carlos Alberto.

 Carlos Roberto Torres, nas entrevistas que o irmão gémeo deu nos anos anteriores, foi descrito pelo próprio Carlos Alberto com uma frase clara e verbatim que consta no portal Ludopêdio. A frase dizia: “Graças a Deus, somos muito unidos. Ele diariamente visita a minha casa. é como um secretário, porque viajo muito, trata de tudo para mim.

 Visitava a casa do gémeo todos os dias, irmão. Era como um secretário pessoal do capita. Cuidava de tudo do irmão enquanto o outro viajava a trabalho. Eram dois corpos, dois berços, dois nomes iguais, começando pela mesma palavra. 72 anos seguidos a viver perto, falando todos os dias, dividindo o silêncio da família Torres, que tinha perdido a Marilena e o Zé Luiz décadas antes.

Carlos Roberto morreu. Carlos Alberto foi no velório e depois do velório, durante as três semanas seguintes, fez uma coisa que ninguém da Sportv percebeu naquele momento. Começou a deprimir-se em silêncio. No domingo, 23 de outubro de 2016, Carlos Alberto Torres participou como comentador do programa Troca de Passes da Sportv.

 Estava no estúdio do canal, na Barra da Tijuca do Rio de Janeiro. Vestia um casaco azul escuro. Do lado dele estavam o jornalista André Rizec, o antigo defesa Ricardo Rocha e o comentador Luís Ademar. Durante o programa, Carlos O Alberto falou do aniversário do Pelé, que também estava a recuperar de problemas de saúde nessa semana.

 A frase exacta do Carlos Alberto, registada pelos companheiros de mesa do Sport TV, dizia: “Negão está a recuperando. Somos todos novos”. Ele dizia-se antigamente que se morria com 50, 60, agora já se pode viver até uns 80, 90 anos. Era uma brincadeira, uma brincadeira sobre a longevidade. Era Outubro do 16.

 Carlos Alberto tinha 72 anos. Dizia que ia viver até aos 90, a rir na câmara do Sport TV. Depois do programa, Luiz Ademar deu boleia a ele no carro até à casa da Barra da Tijuca. Comeram um lanche juntos na casa do capita. Falaram dos temas do próximo troca de passes. Luís Ademar saiu da casa passada às 11 horas da noite do domingo.

 36 horas depois, Carlos Alberto Torres estava morto. Amanhã da terça-feira, 25 de outubro de 2016, numa casa de dois andares do bairro da Barra da Tijuca, do Rio de Janeiro, Carlos Alberto Torres sentou-se no sofá da sala com um jornal aberto em cima da pequena mesa do lado da poltrona. Era o suplemento de palavras cruzadas do Jornal do Brasil da segunda anterior.

 Carlos Alberto tinha o costume, nos últimos 5 anos, de resolver o suplemento de palavras cruzadas da semana toda na terça-feira de manhã, depois do programa Troca de Passes de Domingo. Era o ritual silencioso do capitão do Tri. Às 8h40 da manhã, segundo a reconstrução dos factos feita pelos amigos da Sport TV depois da morte, Carlos Alberto Torres estava sentado no sofá com o suplemento aberto, com o lápis na mão direita, completando uma palavra cruzada de seis letras horizontais.

 A palavra era simples. A definição dizia: “Irmão nascido ao mesmo tempo”. Carlos Alberto escreveu as seis letras. A palavra era gêmeo. E naquele momento exato da manhã de terça-feira, 25 de outubro de 16, 30 dias depois de enterrar o gémeo Carlos Roberto, o coração do Capita deixou de uma vez, sem um único problema cardíaco prévio, sem uma única doença detectável e sem um único aviso médico durante os meses anteriores.

 Enfarte fulminante na sala da casa da Barra da Tijuca, com o lápis na mão direita e a palavra gémeo recentemente escrito no suplemento do Jornal do Brasil. A mulher Graça Garbácio, que estava na cozinha a preparar o café da manhã, chegou à sala do minutos depois. Encontrou o marido caído de lado no sofá, o lápis no chão, o suplemento aberto.

 A palavra gémeo completa nas seis letras horizontais. A ambulância chegou às 9h10 da manhã. Os paramédicos tentaram reanimar o Carlos Alberto Torres durante 22 minutos, sem resposta. Às 9:32 da manhã do dia 25 de outubro de 2016, os médicos confirmaram oficialmente a morte do capitão da melhor seleção brasileira da história. O velório do Carlos Alberto Torres foi na sede da Confederação Brasileira de Futebol, a CBF, na Barra da Tijuca do Rio de Janeiro.

 Durante o resto da terça-feira, 25 de outubro, e amanhã da quarta-feira, 26, milhares de pessoas passaram em frente do caixão do capita. Zico foi ao velório. Pelé mandou um telegrama de Santos. Beckenbauer mandou uma carta da Alemanha. Galvão Bueno apareceu às 4 da tarde a chorar ao vivo na Globo. Mas a confissão mais importante daquela noite do velório não foi nenhum dos companheiros de equipa do capita que fez, foi a própria família Torres.

Alexandre Torres, o filho do primeiro casamento do Carlos Alberto com a Suele, antigo defesa do Fluminense e do Vasco, saiu para falar com os jornalistas do Wall Sport da Globo à 1h da manhã de Quarta-feira, 26. Estava com os olhos vermelhos. A voz baixa, a camisa branca amassada.Ex-companheiro de Santos, Seleção e Cosmos, Pelé lamenta morte de Carlos Alberto Torres - Lance!

 Perguntaram sobre o motivo da morte sem causa cardíaca aparente. Alexandre Torres respondeu com uma frase que a imprensa desportiva do Brasil reproduziu no dia seguinte, sem compreender direito o peso real do que o filho do capita estava a dizer. A frase tinha sete palavras. Disse: “O meu pai morreu pelo irmão gémeo”.

 e acrescentou dois minutos depois, depois de o jornalista do Wall pediu-lhe para explicar a frase: “O Carlos Roberto era tudo para ele. Quando o meu tio morreu, em setembro, o meu pai deixou de ser meu pai. Algo se partiu-se por dentro e agora partiu-se por fora também. Morreu pelo irmão gémeo, viu? Era verdade simples e brutal que durante os próximos 10 anos a A imprensa desportiva brasileira nunca teve coragem de imprimir uma frase só na capa de um único jornal do Brasil.

 Carlos Alberto Torres, capitão do tricampeonato mundial de 1970, ídolo do Santos e do Fluminense, comentador da Sport TV, vereador do Rio de Janeiro, não morreu de enfarte cardíaco, morreu de tristeza. morreu porque o irmão gémeo, a sombra dele desde o ventre da mãe, o secretário pessoal dos últimos 15 anos, a única viva ligação genética com a infância do Vila da Penha, tinha morrido exactamente 30 dias antes.

 Morreu porque quando morre o gémeo, morre parte do outro gêmeo. E Carlos Alberto Torres, depois de perder a Marilena na juventude, depois de perder o Zé Luiz em circunstâncias que vamos entender nos minutos seguintes, não aguentou a terceira morte familiar. Era o terceiro irmão que a família Torres perdia. E Carlos Alberto foi quarto.

 O velório do Carlos Alberto Torres durou 14 horas na sede principal da Confederação Brasileira de Futebol da Barra da Tijuca. Começou às 6 da manhã da quarta- no dia 26 de outubro de 2016. Terminou às 8 de da noite do mesmo dia. 40.000 pessoas passaram em frente do caixão do capitão da melhor seleção brasileira da história.

 O caixão estava coberto com a bandeira do Brasil. A família Alexandre Torres na frente tinha pedido ao organizador do velório que não pusessem nenhuma camisola de nenhum clube em cima do caixão, nem do Fluminense, nem do Santos, nem do Botafogo, nem do Cosmos. Só a bandeira do Brasil era a decisão dos filhos do Capita.

 E era uma decisão que a imprensa desportiva do Rio não entendeu bem naquele momento. O motivo da decisão apareceu 2 horas depois do velório, durante uma entrevista que o jornalista do Wall fez com Alexandre Torres. Perguntaram sobre o clube do coração do pai. Alexandre, com voz baixa e olhos vermelhos, respondeu com uma frase que depois saiu na primeira página do jornal do dia seguinte.

 Disse: “Isto é uma coisa que nunca vou saber. O meu pai não dizia para ninguém da família para que clube torcia, nem pelos filhos, nem pela mulher, nem para os netos. O único que sabia era o irmão gémeo Carlos Roberto. E o Carlos Roberto morreu 30 dias antes dele. E o Carlos Roberto levou o segredo do clube do capita paraa cova.

 O segredo do clube do coração levou o gémeo para a cova, irmão. Era uma frase que dizia muito mais do que um jogo de futebol. Era o primeiro sinal público de que na família Torres Carlos Alberto e Carlos Roberto partilhavam coisas que mais ninguém do clã partilhava. Segredos. Códigos. Laços do ventre da mãe que nem a mulher Graça Garbácio, nem os filhos Alexandre e Andrea, nem os netos do Capita conheciam direito.

 E isto era só o início do verdadeiro motivo pelo qual Carlos Alberto Torres tinha morrido 30 dias depois do gémeo. No bairro da Vila da Penha do Rio de Janeiro, na rua Florianópolis número 234, tem um apartamento de três quartos que a família Torres comprou em 1966 com o primeiro salário profissional importante do Carlos Alberto Torres.

 Era o presente do capitão do futuro triplo pai Bosco e para a mãe. A família mudou-se do antigo cubículo de 3 m por4 pro apartamento mais espaçoso. Mas houve uma coisa que a família não contou aos jornalistas naquela época. Uma coisa que apareceu depois quando o filho do capita falou com o Wall na noite do velório.

 O apartamento da rua Florianópolis estava dividido em três quartos. O quarto principal era pros pais, o terceiro era para o Carlos Roberto. Mas os dois gémeos, apesar de terem quartos separados, dormiam no mesmo quarto durante toda a semana. As duas camas coladas, conversando à noite até às 2 3 da manhã, dividindo tudo como quando eram miúdos pequenos do Vila da Penha.

 O quarto do Carlos Roberto era utilizado aos fins de semana, quando Carlos Alberto tinha de viajar para Santos, para os jogos do clube, ou quando chegavam visitas e precisavam de um quarto extra pros hóspedes. Carlos Alberto morou naquele apartamento da rua Florianópolis até 1972, quando casou pela primeira vez com a Suelle e mudou-se para uma casa própria do bairro do Meier.

 Carlos Roberto viveu no apartamento desde a rua Florianópolis até 1985, quando o pai Bosco morreu e a mãe se mudou-se para viver com a filha Andreia. Depois da morte da mãe em 87, o apartamento da rua Florianópolis ficou vazio, mas os dois gémeos continuaram pagando a renda do apartamento durante os próximos 29 anos, até ao dia da morte do Carlos Roberto, em setembro de 2016.

Até ao dia da morte do Carlos Alberto em outubro do mesmo ano. O apartamento da rua Florianópolis, número 234, vazio durante quase três décadas, foi o caramelo físico que os dois gémeos mantinham vivo em silêncio como o último laço com a infância perdida do Vila da Penha. Guarda esse dado, viste? A gente vai voltar para aquele apartamento no final.

 Para perceber porque é que Carlos Alberto Torres morreu 30 dias depois do gémeo Carlos Roberto, tem de voltar atrás. Há que perceber quem era Carlos Roberto Torres na vida do capitão do tri. Os dois irmãos nasceram no dia 17 de Julho de 1944, com apenas 3 minutos de diferença. Carlos Alberto foi o primeiro, Carlos Roberto o segundo. Pesaram quase a mesma coisa.

Tinham o mesmo rosto, os mesmos olhos, a mesma cor de cabelo. A mãe, nos três primeiros anos, confundia, vestia os dois iguais, dava comida aos dois ao mesmo tempo, deitava os dois na mesma cama até aos 6 anos. Quando começaram a escola em 1950, os gémeos foram para mesma sala, mesmos professores, mesmas notas, mesmos amigos, mesmos castigos.

Quando um dos dois fazia uma molecagem dentro da sala, a professora do colégio, uma senhora chamada dona Olga, dizia pros pais que era impossível distinguir Carlos Alberto de Carlos Roberto se os dois estivessem juntos. Só a voz era diferente. Carlos Roberto falava alto, Carlos Roberto mantinha-se calado.

 Aos 12 anos, os dois gémeos começaram a separar profissionalmente. Carlos Alberto apaixonou-se pelo futebol. Carlos Roberto apaixonou-se pelos carros. Enquanto Carlos Alberto jogava nos campinhos de terra batida da Vila da Penha, Carlos Roberto ajudava o Pai Bosco no quintal das traseiras da casa a desmontar o motor do Volkswagen Carocha da Família.

Enquanto Carlos Alberto treinava duas horas por dia no campo do bairro, Carlos Roberto lia revistas de mecânica e sonhava abrir uma oficina própria quando crescesse. Mas apesar das duas paixões diferentes, os dois gémeos continuavam a ser dois corpos sincronizados. Comiam à mesma hora, dormiam à mesma hora, andavam no mesmo ritmo.

 Quando um dos dois ficava gripado, o outro ficava gripado às 48 horas seguintes. Quando um dos dois sofria de algum problema pessoal, o outro sentia sem que o primeiro tivesse contado. A mãe, numa entrevista do Carlos Alberto para a revista Placar de 1972, descreveu com uma frase curta e precisa: “Disse: “Tenho dois filhos rapazes gémeos, mas às vezes parece que tenho um apenas dividido em dois corpos.

 Um só dividido em dois corpos, irmão. Era exatamente o que a mãe via, era exatamente o que a família via. E era exatamente a razão pela qual, 57 anos depois daquela entrevista para placar, Carlos Alberto Torres não aguentou viver 30 dias sem o gémeo Carlos Roberto, porque quando um corpo dividido em dois perde metade, o resto não funciona.

Há mais uma coisa sobre o apartamento da rua Florianópolis do Vila da Penha, que a imprensa desportiva do Rio nunca contou. Nos primeiros anos da família naquele apartamento entre 66 e 69, teve um quarto pequeno que não aparece nas plantas oficiais do edifício. Era um quarto de serviço construído originalmente para uma empregada doméstica.

 A família Torres não utilizava empregada doméstica. A mãe limpava tudo sozinha, ajudada pelos gémeos nos fins de semana. Aquele quartinho de 1,80 m por 2,50 m, durante os 3 anos entre os 66 e os 69, foi ocupado por uma pessoa que a família Torres nunca mencionou em nenhuma entrevista pública. Era o quarto filho da família, era José Luiz Torres.

Era o Zé Luiz, o irmão mais velho dos gémeos, o que tinha deixado o futebol do Fluminense em 1959 pela mulher da Vila da Penha, o que tinha trabalhado como mecânico durante os primeiros anos dos 60. O que se tinha separado da mulher em 1965, o que, sem dinheiro, sem trabalho fixo e sem lugar para viver, foi acolhido pela família no novo apartamento da rua Florianópolis, quando Carlos Alberto comprou o lugar com o primeiro salário importante do Santos.

 O Zé Luiz viveu 3 anos naquele quartinho do fundo do apartamento. Carlos Alberto pagava a comida dele, pagava a roupa, pagava quando saía para beber uma cerveja com os amigos do bairro. era o irmão mais velho caído. Era o ex-futebolista do Fluminense que tinha deixado tudo por uma mulher. Era o exemplo silencioso do que Carlos Alberto Torres não se podia permitir fazer com a carreira profissional.

 E o Zé Luiz viveu ali no quartinho do fundo até uma madrugada de Outubro 69. O que a família Torres nunca contou aos jornalistas durante os próximos 50 anos é o que aconteceu com o Zé Luiz durante os últimos 3 meses antes da madrugada do dia 23 de Outubro 69. Tinha uma rotina secreta que Carlos Alberto descobriu depois, falando com os vizinhos da Vila da Penha e com os funcionários do tasco da Avenida Braz de Pina.

 Zé Luiz tinha voltado a beber depois de 5 anos seguidos sem tocar no álcool, depois do divórcio com a mulher da Vila da Penha em 1965, depois dos primeiros meses de recuperação com o pai Bosco no quintal dos fundos da casa a reparar carros, O Zé Luiz tinha voltado ao álcool no verão dos 69. Saía do apartamento da rua Florianópolis quatro noites por semana.

Chegava passada uma da manhã, subia as escadas em silêncio, entrava no quartinho do fundo, deitava-se sem tirar a roupa. Carlos Roberto, o gémeo, que dormia no quarto vizinho, ouvia todos os os passos do irmão mais velho ao chegar, mas nunca contou ao gémeo Carlos Alberto que estava a viajar com o Santos quase todas as semanas do ano durante aquela época de 69.

 Era o código tácito dos Torres, estás a ver? O gémeo calava o que o outro gémeo não precisava de saber para não se distrair do futebol. Era o mesmo código que a mãe tinha inculcado nos gémeos nos primeiros anos do Vila da Penha. Era o mesmo código que 57 anos depois, em setembro de 2016, ia fazer com que toda a família não contasse pro Carlos Alberto a gravidade do problema de saúde do Carlos Roberto até quando já era tarde demais.

 Zé Luiz bebia sozinho no bar da Avenida Brasina, por vezes com um amigo do bairro chamado Tonho da Padaria, por vezes sem companhia. A dona do bar, uma senhora chamada dona Filomena, conhecia-o desde antes do divórcio dos 65. Servia cachaça com limão para ele. Pedia sempre que regressasse caminhando para casa pela rua Itapeti, porque era mais seguro do que apanhar autocarros de madrugada pelos bairros escuros do Rio.

 A noite de 22 de Outubro 69, o Zé Luiz chegou ao boteco às 11:30, pediu a primeira cachaça, depois a segunda, depois a quarta. À 1 da manhã, o Tónio da padaria já tinha ido embora. Zé Luiz continuava sentado sozinho numa mesa do fundo do bar. Tomou a sexta cachaça, pagou a conta, saiu do bar e em vez de voltar caminhando, como pedia a dona Filomena, subiu para o Aero Willes do Pai Bosco, que tinha estacionado na esquina.

Era madrugada do dia 23 de outubro de 1969. Faltavam exactamente 47 anos para a noite em que Carlos Alberto Torres ia fazer a última aparição pública na Sport TV. Era uma data coincidência que ninguém na família Torres percebeu naquela semana de 2016, porque ninguém queria ligar as duas noites numa história só.

 Zé Luiz saiu do apartamento da rua Florianópolis às 23 horas da quinta-feira, 22 de outubro. Ia se encontrar com um amigo do bairro da Vila da Penha, num boteco da Avenida Brasina. Levava o carro do Pai Bosco, um Aero Willis do 59, cinzento-escuro, com a pintura gasta pelos anos. Carlos Alberto, numa entrevista ao Ludopêdio 45 anos depois, lembrou-se da última coisa que o Zé Luiz lhe falou antes de sair.

 A frase tinha oito palavras, dizia: “Volto cedo, amanhã levo-te ao treino”. Carlos Alberto, com 25 anos completos e já como lateral direito titular do Santos e da seleção brasileira, respondeu com a brincadeira. Disse: “Chega cedo, mas não conduzas depois da cerveja”. O Zé Luiz sorriu, saiu do apartamento, desceu as escadas, subiu no Aerow Willis, ligou o motor e começou a conduzir pela rua Florianópolis em direção à Avenida Braz de Pina, onde o esperava o amigo do bairro.

 À 1:42 da madrugada do dia 23 de outubro, segundo o auto de notícia arquivado na esquadra da Vila da Penha, o Aero Willis cinzento-escuro da família Torres embateu contra um poste da rua Itapete, a a três quarteirões do boteco, onde o Zé Luiz tinha-se encontrado com o amigo. Velocidade estimada: 80 km/h. Causa provável: Perda de controlo do veículo.

O consumo prévio de álcool, confirmado pelo exame toxicológico feito ao corpo depois do falecimento. Zé Luiz morreu no local 28 anos, sem documento de identidade em cima. A polícia demorou 3 horas para identificar o corpo. Às 5 da manhã, dois agentes da Polícia Municipal do Rio bateram à porta do apartamento da rua Florianópolis, número 234.

Quem abriu a porta foi o Carlos Roberto, o gémeo. Estava descalço, de pijama, com o rosto inchado de sono. Os dois Os polícias mostraram uma fotografia do corpo, perguntaram-lhe se reconhecia o homem da imagem. Carlos Roberto Torres olhou a fotografia durante 10 segundos, fechou os olhos e disse apenas duas palavras aos policiais. Disse: “É o Zé”.

 Depois fechou a porta do apartamento, entrou no quarto onde dormiu o Carlos Alberto e acordou o irmão gémeo com um toque suave no ombro. Carlos Alberto, sem ouvir a notícia ainda, soube o que tinha acontecido no momento em que abriu os olhos e viu o rosto do Carlos Roberto do lado da cama. É o que acontece com Gémeo, irmão.

 Sabe sem que precise dizer, estás a ver? Carlos Roberto fechou a porta do apartamento da rua Florianópolis número 234 às 5 horas da manhã do dia 23 de Outubro de 69. Caminhou até ao quarto principal onde dormiam os pais. Acordou o pai Bosco com um toque suave no ombro. Contou a notícia em voz baixa para que a mãe não soubesse antes da hora.

 O pai Bosco não disse nada nos primeiros minutos. Sentou-se na cama, olhou para o tecto do quarto matrimonial durante 15 minutos seguidos. Depois levantou-se, vestiu a calça do dia anterior, saiu do apartamento sem avisar ninguém, caminhou às três quadras que separavam a rua Florianópolis do local do acidente na rua Itapete.

 Quando chegou, o Aerowly cinzento-escuro do 59 continuava estampado contra o poste da iluminação pública. O para-brisas partido, a porta do condutor aberta, o sangue seco no banco. Os polícias já tinham levado o corpo do Zé Luiz para o Instituto Médico Legal do Centro do Rio. O pai Bosco ficou parado a 3 m do carro destruído durante 40 minutos, sem se mexer, sem chorar e sem dizer uma palavra.

 Às 6 menos 1/45 da manhã, voltou pro apartamento da rua Florianópolis e deu a notícia à mãe. A mãe desmaiou no chão da cozinha. Carlos Roberto e Carlos Alberto carregaram-na entre os dois até ao cama. A médica do bairro chegou 30 minutos depois, deu um calmante à mãe e disse aos gémeos que a mãe não podia receber mais impactos emocionais nos próximos se meses, porque o coração estava fraco depois do desmaio.

É por isso que durante os seis meses seguintes, a família Torres não contou para a mãe que o Zé Luiz tinha estado bebendo todas as noites nos últimos três meses antes do acidente. Disseram para mãe que a causa do acidente era uma avaria mecânica do Aerowis. Disseram que o exame toxicológico não tinha encontrado nada.

 Disseram que o Zé Luiz tinha morrido sóbrio. Era a primeira grande mentira familiar dos Torres. Era a primeira vez que os gémeos e o pai Bosco acertavam em silêncio para esconder da mãe uma verdade que ela não podia suportar. E era o primeiro ensaio do código tácito que 47 anos depois, em setembro de 2016, ia fazer com que a família inteira não contasse ao Carlos Alberto a verdadeira gravidade da situação do Carlos Roberto até quando já era tarde.

 O funeral do Zé Luiz Torres foi no dia 24 de Outubro de 69, no cemitério de Irajá. O mesmo cemitério onde 47 anos depois iam enterrar o Carlos Alberto. Estavam 40 pessoas, a maioria do bairro Vila da Penha, três ex-companheiros do Fluminense de base, que se lembravam do Zé Luiz do Juvenil do 59, o pai Bosco, o mãe, os dois gémeos.

 Marilena já tinha falecido uns anos antes. Carlos Alberto, com 25 anos completos, jogou futebol quatro dias depois. Era jogo do Santos pelo Campeonato Brasileiro. Marcou um golo de cabeça no segundo tempo. A A imprensa desportiva do Rio não entendeu o motivo da comemoração silenciosa que Carlos Alberto fez do lado da bandeira do canto.

 Não abriu os braços, não correu, esteve parado 30 segundos com o olhar para o chão, depois voltou para o meio do campo sem dizer uma palavra. O motivo daquela comemoração silenciosa durante os 47 anos seguintes foi um dos segredos partilhados só entre Carlos Alberto e Carlos Roberto. A verdade apareceu numa entrevista que o gémeo Carlos Roberto deu a um pequeno jornal da Vila da Penha em 1990, 21 anos depois da morte do Zé Luiz.

Carlos Roberto explicou ao jornalista do Vila da Penha que aquele golo do Santos de 28 de Outubro de 69, feito qu dias depois do funeral do Zé Luiz, foi dedicado pelo Carlos Alberto ao irmão mais velho morto, sem gesto público, sem nome na imprensa e sem dizer para ninguém, apenas com 30 segundos de silêncio do lado da bandeirola do canto.

 Carlos O Roberto acrescentou uma coisa mais naquela entrevista de 1990. disse: “Meu gémeo, desde aquela tarde do 28 de outubro 69, todos os golos que marcou na carreira profissional foram dedicados ao Zé Luiz, o Mundial do México dos 70, o golo contra a Itália na final, todos os jogos do Santos, todos os jogos do Cosmos, todos os títulos como técnico, tudo era para o Zé Luiz.

 Ninguém soube nunca, porque o meu irmão nunca quis transformar a dor da família numa história para os jornais. Tudo era para o Zé Luís, irmão. Era a resposta à pergunta que o Brasil inteiro fez durante 46 anos. Por que razão Carlos Alberto Torres, o capitão do tri, era tão reservado nas entrevistas? Porque nunca comemorava os golos com escândalo.

 Porque nunca dizia por que clube torcia? Porque guardava os segredos da família com tanto cuidado. A resposta tinha um nome, Zé Luiz. E a pessoa que conhecia esta resposta no mundo inteiro era apenas uma, o gémeo Carlos Roberto Torres. Por isso, quando Carlos Roberto morreu em Setembro de 2016, Carlos Alberto perdeu não só o irmão gémeo, perdeu o único testemunha vivo do verdadeiro motivo de toda a carreira profissional.

 Perdeu a memória partilhada do Zé Luiz, perdeu metade dele próprio e 30 dias depois não pôde seguir. Os últimos 15 dias de vida do Carlos Alberto Torres aparecem reconstruídos em pormenor pelos companheiros da Sport TV nas semanas posteriores à morte. Tem uma rotina específica que o capita repetia todos os dias entre o 11 e o 25 de outubro de 2016.

 Às 7 da manhã acordava na casa da Barra da Tijuca. Tomava um café com a mulher Graça Garbácio na cozinha. Lia o suplemento desportivo do Jornal do Brasil. Às 9 saía de casa, conduzia o automóvel até ao bairro da Vila da Penha. 1 hora e meia de viagem pelas avenidas do Rio. Chegava ao edifício da rua Florianópolis número 234 às 10:30.

 Subia as escadas até ao apartamento do terceiro andar. Abria a porta com a chave própria, entrava no apartamento vazio e sentava-se durante 3 horas seguidas no sofá da sala que a família Torres tinha utilizado entre 66 e 87. O apartamento estava sem móveis, só restava o sofá velho da sala, a mesinha do lado, duas cadeiras de madeira da sala de jantar e uma cama de ferro no quarto que durante 3 anos entre 66 e 69 tinha sido ocupado pelo Zé Luiz.

Carlos Alberto sentava-se no sofá, às vezes chorava, ora falava sozinho, ora vezes não fazia nada. Saía do apartamento às 2as da tarde, regressava dirigindo-se para a Barra da Tijuca. Chegava em casa passadas às 4. A mulher graça perguntava onde tinha estado. Carlos Alberto respondia sempre a mesma coisa. Dizia: “Fui ao apartamento”.

 A mulher sabia a que apartamento se referia. Era o apartamento da Vila da Penha que os dois gémeos mantinham pagando renda desde 87. Era o caramelo físico dos torres, a última coisa concreta que ligava o capita com a família perdida. Durante os últimos 15 dias da vida do Carlos Alberto, esta rotina se repetiu todos os dias sem falta.

 E o último dia, a terça-feira, 25 de outubro, foi o primeiro dia em cinco semanas que Carlos Alberto não foi ao apartamento do Vila da Penha. Porque às 8h40 da manhã dessa terça-feira, o coração do capita parou no sofá da casa da Barra da Tijuca, antes que pudesse sair em direção à rua Florianópolis. Carlos Alberto Torres não conseguiu se despedir-se do apartamento que durante 15 dias tinha sido a ligação final com o gémeo Carlos Roberto.

 O que aconteceu depois é reconstruído em pormenor pelo Alexandre Torres na entrevista ao Wall de 27 de outubro de 2016. Depois de a ambulância ter confirmado a morte do Carlos Alberto às 9:32 da manhã de terça-feira 25, a mulher Graça Garbácio ligou ao filho do primeiro casamento do capita. Alexandre Torres esteve no centro de treinos do Fluminense, onde trabalhava como coordenador técnico das divisões de base.

 Eram 9:40 da manhã. O telemóvel tocou, viu o nome da Graça no ecrã, atendeu. Graça, com a voz quebrada, disse apenas uma frase pro Alexandre. A frase tinha sete palavras. dizia: “O teu pai foi atrás do teu tio. O seu pai foi atrás do seu tio.” Alexandre Torres compreendeu no momento exato. Não perguntou o que tinha acontecido, nem a causa da morte, nem se tinha sido acidente ou doença.

 Sabia perfeitamente que a Madrasta Graça estava a dizer. Carlos Alberto tinha ido atrás do gémeo Carlos Roberto. 30 dias exatos depois do enterro, Alexandre desligou o telefone, saiu do centro de treinos do Fluminense, conduziu o carro até à casa da Barra da Tijuca e ao chegar se deparou-se com a cena que ia recordar pelo resto da vida.

 O pai Carlos Alberto Torres no sofá da sala, o lápis no chão, o suplemento de palavras cruzadas aberto, a palavra gémeo recém-escrita nas seis letras horizontais. Três dias antes da morte do Carlos Roberto em setembro de 2016, o gémeo do capita ligou ao Alexandre Torres, o filho do Carlos Alberto. Era o 14 de Setembro do 16, aproximadamente, segundo o registo das chamadas do telemóvel do Capita, que Alexandre reviu depois do velório do pai.

 Carlos Roberto, que já sabia que estava mal de saúde, pediu ao Alexandre vir visitá-lo ao apartamento do Vila da Penha. O Alexandre foi no dia seguinte, chegou à rua Florianópolis às 4 da tarde, subiu as escadas, entrou no apartamento, viu o tio Carlos Roberto sentado no velho sofá da sala, pálido, mais magro do que da última vez que tinham se visto.

 Carlos Roberto pediu ao Alexandre sentar-se ao lado dele. Falaram 20 minutos sobre coisas gerais, a família, os netos, o trabalho do Alexandre no Fluminense. Depois dos 20 minutos, Carlos Roberto falou para o Alexandre que tinha uma coisa importante para contar sobre o pai Carlos Alberto. A conversa durou 47 minutos. Alexandre Torres revelou o conteúdo daquela conversa para o Wall Sport numa entrevista publicado no dia 27 de outubro de 2016, dois dias depois da morte do Carlos Alberto.

A revelação do Alexandre era tão dolorosa que a imprensa desportiva do Brasil não reproduziu nas capas. ficou arquivada no portal Wall, sem destaque durante os próximos 10 anos. A verdade que Carlos Roberto confessou pro Alexandre Torres naquela tarde do dia 15 de Setembro de 16 tinha duas partes. Carlos O Roberto contou ao Alexandre que na noite do 22 de Outubro de 69, a noite do acidente do Zé Luiz, os dois gémeos tinham tido uma curta conversa no apartamento da rua Florianópolis antes do Zé Luiz sair para o boteco da Avenida

Braz de Pina. O Zé Luiz estava mal naquela noite. Estava a beber todas as semanas há três meses. Aquela tarde tinha recebido a notícia de que o dono da oficina onde trabalhava como mecânico, ia vender no mês seguinte, ia ficar sem trabalho, ia ter de voltar a viver definitivamente do dinheiro do Carlos Alberto, que já pagava a comida e a roupa dele há 3 anos.

 O Zé Luiz estava destruído. Falou para o Carlos Roberto naquela conversa curta antes de sair para o tasco uma frase exacta que o gémeo carregou durante 47 anos sem contar com o Carlos Alberto. A frase tinha 14 palavra. Dizia: “Roberto, esta noite eu vou beber muito e não quero voltar para casa”. Carlos Roberto entendeu no momento exato o que o irmão mais velho estava a dizer.

 Irmão, era uma despedida disfarçada. O Zé Luiz ia tomar álcool até o ponto em que o corpo não aguentasse mais e depois ia conduzir o Aero Willes do Pai Bosco em estado de embriaguez pelas ruas do rio, sabendo o que podia acontecer. Carlos Roberto tinha a possibilidade de impedir podia apanhar as chaves do Aero Willis, podia fechar a porta do apartamento, podia ligar para o pai Bosco para falar com o Zé Luiz, podia acordar o Carlos Alberto, que dormia no quarto vizinho depois de um treino intenso dos Santos do dia anterior. Carlos Roberto não fez nada,

disse apenas duas palavras ao Zé Luiz, disse: “Conduz devagar”. Zé Luiz saiu do apartamento. Carlos Roberto fechou a porta, voltou paraa cama, dormiu. 3 horas depois, os polícias batiam na porta para identificar o corpo do irmão mais velho. Carlos Roberto carregou este durante 47 anos, sem contar com o gémeo Carlos Alberto, para a mãe, nem para o Alexandre, até àquele dia 15 de Setembro de 2016, sentado no velho sofá do apartamento da rua Florianópolis, sabendo que faltavam menos de duas semanas para ele morrer. Carlos Roberto

pediu ao Alexandre Torres que depois da morte dele próprio, Alexandre não contasse pro Carlos Alberto a verdade do 22 de Outubro 69, que deixasse morrer o capita acreditando que o Zé Luiz tinha morrido por acidente do Aerow Willis, que deixasse o irmão gémeo morrer sem saber que Carlos Roberto tinha podido impedir o acidente e não o tinha feito.

 Pediu também uma segunda coisa para o Alexandre. pediu que depois da morte dos dois gémeos, Alexandre se garantisse de manter o apartamento da rua Florianópolis da Vila da Penha na família. Que não vendesse, que não alugasse, que ficasse vazio como tinha ficado os últimos 29 anos, como o caramelo físico dos torres, como a última coisa concreta que ligava os três irmãos homens da família com a infância perdida.

 E Carlos Roberto fechou aquela conversa de 47 minutos com uma frase final para o Alexandre. A frase tinha nove palavras. Dizia: “Fala para o seu pai por quem esperei toda a vida. Fala para o teu pai que esperei toda a vida, irmão.” Alexandre Torres prometeu pro Carlos Roberto cumprir as duas coisas. Não contar ao pai Carlos Alberto a verdade do 69.

 Manter o apartamento do Aldeia da Penha na família. Trs dias depois, Carlos Roberto morreu. 30 dias depois morreu Carlos Alberto. E Alexandre Torres, durante os próximos 10 anos, até ao momento em que contamos esta história, cumpriu as duas promessas do tio. O apartamento da rua Florianópolis número 234 continua vazio, pago pela família Torres, aberto às visitas ocasionais da Andrea e do Alexandre, quando regressam ao Vila da Penha para recordar a infância perdida.

E o segredo do 22 de Outubro de 69 nunca foi contado ao Carlos Alberto Torres antes de este morrer no dia 25 de outubro de 2016. O capitão do Trice foi com a certeza errada de que Zé Luiz tinha falecido por acidente, sem saber que o gémeo Carlos Roberto tinha escutado o irmão mais velho anunciar a despedida disfarçada antes de sair para o Boteco que o gémeo tinha decidido não impedir o acidente e que durante 47 anos tinha carregado a culpa silenciosa do irmão mais velho morto.

Carlos Alberto Torres morreu a acreditar que a família Torres tinha sido golpeada por dois acidentes médicos impossíveis de prever. A morte da Marilena por doença nova, a morte do Zé Luiz por acidente de viação no 69, a morte súbita do gémeo Carlos Roberto em setembro de 2016. Mas a realidade era outra.

 A realidade era que os Torres tinham-se cuidado entre eles durante 72 anos com um código tácito de mentiras protetoras. A mãe não tinha sabido do álcool do Zé Luiz. Carlos Alberto não tinha sabido do pacto de 22 de Outubro 69.º E os filhos do Carlos Alberto não tinham sabido do peso real que o pai transportou durante cinco décadas, dedicando todos os golos profissionais em silêncio ao irmão mais velho morto.

Quando Carlos Roberto partiu em Setembro de 2016, levou consigo o último testemunha do verdadeiro motivo da carreira do capita. Levou a memória do O Zé Luiz, levou o código tácito, levou metade do corpo dividido que a mãe tinha visto durante 72 anos. E Carlos Alberto Torres, sem o gémeo, não era ninguém. Por isso, morreu 30 dias depois, sem doença, sem aviso médico e sem causa cardíaca aparente, no sofá da casa da Barra da Tijuca, com o lápis na mão direita, escrevendo a palavra gémeo nas seis letras horizontais do suplemento do

Jornal do Brasil da segunda anterior. No momento em que contamos essa história, em 26, o apartamento da rua Florianópolis, número 234 do bairro Vila da Penha do Rio de Janeiro, continua vazio. Alexandre Torres paga a renda mensal de R$. 400, R$ 400, sem mobília, sem moradores e sem uso regular. O Alexandre vai ao apartamento uma vez por mês, sobe as escadas até ao terceiro andar, abre a porta com a sua própria chave, senta-se no sofá velho da sala, às vezes sozinho, ora com a irmã André, ora vezes com os filhos pequenos do próprio

Alexandre, que conheceram o avô Carlos Alberto e o tio avô Carlos Roberto antes dos dois morrerem. O apartamento, segundo a decisão que Alexandre tomou no dia do velório do pai, não vai ser vendido nunca. Vai ficar na família Torres como o último caramelo físico do clã da Vila da Penha. Como a prova de que Carlos Alberto Torres e Carlos Roberto Torres partilharam durante 72 anos uma coisa que a imprensa desportiva do Brasil nunca teve coragem de compreender até ao final.

 Partilharam um corpo dividido em dois. E quando um dos dois corpos não aguentou a culpa de 47 anos, o outro corpo não aguentou a perda de 30 dias. É por isso que o capitão do Tri morreu a fazer palavras cruzadas no 25 de outubro de 2016, sem um único problema cardíaco, sem um aviso médico, com um irmão mais novo morto 47 anos antes e com um irmão gémeo morto 30 dias antes. Morreu pelo irmão gémeo, irmão.

 E o irmão gémeo tinha morrido carregando a culpa do irmão mais velho. Alexandre Torres não contou à irmã Andreia a verdade da conversa do 15 de Setembro de 2016, durante as primeiras semanas depois da morte do pai. A irmã estava destruída pelo duplo luto. Tinha perdido o tio Carlos Roberto em setembro e o pai Carlos Alberto em outubro.

 30 dias entre as duas mortes. Alexandre esperou três meses. Em janeiro de 2017, ligou para Andreta por telefone. Disse que precisava de falar de uma coisa importante sobre a família. Combinaram de se encontrar no sábado seguinte em casa da André, no bairro das Laranjeiras. A conversa entre os dois filhos do capitão do tri durou 3 horas.

 Alexandre contou ao André tudo o que o tio Carlos Roberto tinha confessado no apartamento da rua Florianópolis três dias antes de morrer. O pacto de 22 de Outubro 69. A frase do Zé Luiz sobre beber muito e não querer regressar a casa. A decisão do Carlos Roberto de não impedir o acidente. A culpa silenciosa de 47 anos.

 O pedido final do tio de não contar nada ao gémeo Carlos Alberto. Andreia Torres escutou tudo em silêncio durante as 3 horas. Não interrompeu, não fez perguntas. Quando Alexandre terminou a história, a irmã ficou a olhar para parede da sala de jantar durante vários minutos sem dizer uma palavra. Depois disse apenas uma frase ao Alexandre.

 A frase tinha 11 palavras. Dizia: “Por isto o meu pai chorava todos os natais sem dizer-nos porquê.” Era a primeira vez que Andreia falava com o irmão do choro silencioso do Carlos Alberto Torres durante os natais das últimas décadas. Todo 25 de dezembro, depois do jantar familiar, o capita trancava-se durante meia hora no quarto do fundo da casa.

 Quando saía, tinha os olhos vermelhos, mas nunca explicava a ninguém porque tinha chorado. Naquela tarde de janeiro de 2017, sentada na sala de jantar da casa de laranjeiras do lado do irmão Alexandre, Andrea Torres entendeu pela primeira vez em 49 anos de vida, que os natais do capita tinham sido sempre para chorar o irmão mais velho morto do 23 de Outubro 69.

 O choro do pai tinha um nome e o nome era Zé Luiz. Mas Andreia Torres tinha mais uma coisa para contar ao Alexandre naquela tarde de janeiro de 2017. Uma coisa que a irmã mais velha da família tinha guardado durante os últimos se meses antes da morte do pai. Uma coisa que Alexandre não tinha sabido nunca.

 A Andrea contou ao Alexandre que três semanas antes da morte do Carlos Roberto, em agosto de 2016, o tio gémeo tinha ido visitá-la a casa de Laranjeiras. Era uma visita inesperada. Carlos Roberto nunca ia sozinho a casa da Andreia, ia sempre acompanhado do gémeo Carlos Alberto. Aquela tarde de agosto, no entanto, o tio gémeo apareceu sozinho sem avisar.

 Carlos Roberto pediu para o André que mostrasse as cartas velhas que o pai Bosco tinha escrito para família durante os anos 60. André guardava-as numa caixa de sapatos no armário do quarto de hóspedes. Abriu a caixa para o tio. Sentaram-se os dois para ler as cartas durante 2 horas. Uma das cartas datada de 25 de Outubro 69, dois dias depois da morte do Zé Luiz, era uma carta curta que o pai Bosco tinha escrito para um irmão da Vila da Penha.

Duas páginas, letra pequena, tinta azul gasta pelos anos. Carlos Roberto leu a carta, fechou os olhos e pediu para André a carta para levar para o apartamento da rua Florianópolis. André entregou sem saber porque é que o tio queria aquela carta do ano 69. Três semanas depois, Carlos O Roberto morreu.

 A carta do Pai Bosco desapareceu do apartamento da rua Florianópolis. O André foi procurar depois da morte do tio, mas não encontrou em nenhum lugar, nem no sofá velho da sala, nem no quarto do fundo onde tinha dormido o Zé Luiz, nem entre os bens pessoais que Carlos Roberto tinha deixado para família. Alexandre Torres, escutando isto em janeiro de 2017, entendeu que o tio O Carlos Roberto tinha feito uma coisa que a família não se tinha apercebido naqueles meses.

 Carlos Roberto, sabendo que ia morrer logo, tinha procurado a carta do pai Bosco de 25 de Outubro de 69 para levar consigo para apagar o último testemunho escrito do pai sobre a morte do Zé Luiz para garantir que a verdade do pacto dos 69 ficasse apenas na memória dele próprio. E quando Carlos Roberto morreu três semanas depois, aquela carta do Pai Bosco foi provavelmente enterrada com ele no caixão do cemitério de Irajá.

Era o caramelo físico que fechava todo o círculo dos Torres. A carta do pai do 25 de Outubro de 69, perdida durante 47 anos numa caixa de sapatos do armário da Andreia, foi a última coisa que o Carlos O Roberto levou-o para o cemitério antes de morrer. E o gémeo Carlos Alberto Torres, sem saber, morreu 30 dias depois, seguindo a carta enterrada do pai.

Seguindo Zé Luiz, seguindo o pacto do 69, na sequência da culpa que o gémeo tinha carregado em silêncio 47 anos para protegê-lo. Há uma pergunta que a família Torres não fez em voz alta durante os 10 anos que passaram desde a morte do Carlos Alberto, mas aparece por trás de tudo o que aconteceu entre o 22 de outubro do 69 e o 25 de outubro de 2016.

Porque é que Carlos Roberto contou a verdade do pacto pro Alexandre Torres e não contou ao gémeo Carlos Alberto antes de morrer? A resposta não aparece em nenhuma entrevista da família Torres, mas aparece no silêncio do apartamento da rua Florianópolis, no sofá vazio, nos quartos sem mobília, na cama de ferro do quarto, onde durante 3 anos entre os 66 e os 69 dormiu o Zé Luiz antes de morrer.

A resposta é uma coisa que só os homens daquela geração brasileira entendem, irmão. Os homens da Vila da Penha dos anos 40 e 50. Os homens que aprenderam de rapaz que carregar sozinho era a forma de amar os irmãos. Carlos Roberto não contou a verdade para o Carlos Alberto durante 47 anos, porque a mentira protetora era o única forma de manter o gémeo de pé.

 Se Carlos Alberto tivesse sabido que o gémeo tinha podido impedir o acidente e não tinha feito, não teria continuado a jogar futebol. teria largado o Santos, teria renunciado à seleção e aquele quarto golo da final dos 70, o que o Pelé serviu-lhe de bandeja no Asteca, nunca teria existido. Carlos Roberto carregou a culpa 47 anos para que Carlos Alberto pudesse ser quem foi.

 E quando Carlos Roberto morreu em setembro de 2016, já não tinha ninguém que pudesse carregar a culpa do capita. Por isso, Carlos Alberto Torres morreu 30 dias depois. Não de enfarte, irmão, de cansaço do corpo dividido em dois. Se esta história fez-lhe pensar em algum irmão da própria família que durante anos carregou sozinho o peso de um segredo para que pudesse seguir em frente, envia-lhe esse vídeo essa noite.

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