A história de René Sena é um lembrete contundente de como a sorte, quando encontra a ganância desmedida, pode pavimentar o caminho para uma tragédia. Em 2005, a vida de René, um homem simples e trabalhador do interior do Rio de Janeiro, sofreu uma guinada vertiginosa. Ele acertou sozinho as seis dezenas da Mega-Sena, levando para casa um prêmio de R$ 52 milhões de reais, uma quantia astronômica para a época. O lavrador, que havia perdido as duas pernas devido ao diabetes e se locomovia em um quadriciclo adaptado, viu-se subitamente no centro das atenções, com o mundo a seus pés. No entanto, a fortuna que deveria ser a garantia de uma vida tranquila acabou se tornando, paradoxalmente, a sentença de morte do novo milionário.
René era um homem de hábitos simples. Mesmo após se tornar um dos homens mais ricos da região, ele não abandonou suas raízes. Continuou frequentando os mesmos bares e conversando com os velhos amigos, mantendo a bondade e a confiança que sempre o caracterizaram. Foi nesse cenário de adaptação à nova realidade que ele reencontrou Adriana Ferreira de Almeida. Eles se conheciam de tempos anteriores à fama e à riqueza, quando ambos viviam em condições modestas. Esse reencontro, visto por muitos como um romance genuíno, acabou se revelando o ponto de partida de uma trama sombria.

O casamento, oficializado em 2006, trouxe mudanças rápidas e drásticas na rotina de Adriana. O que antes era uma vida simples transformou-se em uma rotina de luxo, com seguranças, transporte em carros de alta gama, procedimentos estéticos e a substituição de funcionários antigos da fazenda por parentes dela. Paralelamente, o comportamento de René começou a ser monitorado e, talvez sem que ele percebesse, sua autonomia começou a ser cerceada.
O prenúncio do que estava por vir surgiu meses antes do crime. O segurança de maior confiança de René, David Vilena, foi assassinado enquanto investigava o passado de Anderson Silva Souza, um ex-policial militar que era funcionário da fazenda e mantinha um relacionamento secreto com Adriana. Na época, a morte de Vilena foi tratada como um crime isolado, mas, em retrospecto, tornou-se claro que aquela era a primeira peça de um plano muito maior e mais perigoso. A relação entre René e Adriana também começou a se deteriorar quando ele descobriu que ela mantinha um caso extraconjugal com um motorista de van. O milionário, percebendo a traição, tomou a decisão de encerrar o relacionamento e remover o nome de Adriana de seu testamento. Foi o estopim necessário para acelerar a execução do plano.
O dia 7 de janeiro de 2007 marcou o fim da trajetória de René Sena. Naquela manhã de domingo, em Rio Bonito, o milionário estava sem seus seguranças, pois pedira à esposa que comprasse cigarros. Enquanto Adriana se demorava em um supermercado – em uma manobra que, posteriormente, a polícia identificou como a criação de um álibi –, René foi sozinho ao bar que frequentava. Ali, foi abordado por dois homens encapuzados em uma moto, que dispararam quatro vezes contra ele.
O que, a princípio, parecia ser um assalto comum, rapidamente revelou-se uma execução planejada. Os criminosos levaram apenas uma pochete, deixando para trás pertences valiosos como o relógio e o anel de ouro de René. A polícia não demorou a ligar os pontos: a morte de Vilena meses antes, a traição descoberta e a ameaça de exclusão do testamento formavam o mosaico de um crime encomendado pela própria viúva.
A batalha judicial que se seguiu foi longa e extenuante. Adriana chegou a ser absolvida em 2011, uma decisão que gerou revolta e choque. No entanto, a justiça, embora lenta, encontrou brechas fundamentais. O julgamento foi anulado por irregularidades e, em 2016, um novo Tribunal do Júri condenou Adriana a 20 anos de prisão por homicídio duplamente qualificado. A mulher que havia tentado se esconder por anos foi finalmente capturada em 2018.

O aspecto talvez mais chocante de todo esse desenrolar foi a tentativa incessante de Adriana em validar o testamento que lhe garantia metade da fortuna de René. Mesmo após sua condenação, ela recorreu, tentando reivindicar o patrimônio do homem que mandou assassinar. O Superior Tribunal de Justiça, ao analisar o caso, negou o recurso, reconhecendo a manipulação a que René fora submetido. Hoje, a disputa pelos milhões de reais, que já superam a marca de 100 milhões, continua entre a filha de René e seus irmãos, mantendo viva a sombra de um crime que mudou para sempre a história da família e da pequena cidade fluminense.
A trajetória de René Sena não é apenas o relato de um homicídio, mas um estudo sobre a natureza humana, a fragilidade dos laços construídos sobre o interesse e a persistência da justiça frente à manipulação. A bondade de René, sua característica mais marcante, foi, infelizmente, também sua maior vulnerabilidade. A história encerra-se com uma pergunta que ecoa na mente de muitos: até onde a riqueza é capaz de alterar não apenas a vida de quem a ganha, mas a essência daqueles que a rodeiam? Em Rio Bonito, a resposta infelizmente foi escrita com sangue.