EDMUNDO ANIMAL: A VERDADE QUE ELE NUNCA CONTOU

Bicampeão brasileiro, goleador histórico do Brasileirão, final do Campeonato do Mundo com a seleção. E esse mesmo tipo, tirando a vida a três jovem numa madrugada, um casal de namorados de 20 23 anos e uma de 16 anos que estava no próprio carro dele, destroçando a cara do próprio pai com uma corrente e negando o próprio filho.

Todo mundo contou que o Edmundo era um animal pela violência no campo, mas é mentira, estás a ver? O animal verdadeiro vivia dentro da casa dele e pôs-lhe esse apelido quando tinha 8 anos. Hoje vai saber como morreram os três jovens, irmão, e por o Edmundo só pisou a cadeia 37 horas na vida inteira. Porque ele destroçou a cara do pai nojento com a corrente e porque renegou o próprio filho.

Mas antes tem que conhecer o miúdo de Niterói antes da fúria. Niterói, Brasil. 2 de abril de 1971, numa casa de madeira do bairro de Fonseca, zona pobre do lado poente da cidade, nasceu um miúdo que durante os 26 anos seguintes ia viver aterrorizado dentro da própria casa onde veio ao mundo. Edmundo Alves de Sousa Neto, terceiro de quatro filho.

Filho do Ednaldo Alves de Souza, estivador do porto de Niterói, alcoólico desde os 16 anos, e da Maria do Carmo, lavadeira de casa rica do bairro Icaraí. Essa família, no dia do nascimento do Edmundo, tinha um segredo que os Os vizinhos do bairro da Fonseca conheciam fazia 5 anos, não é? O Ednaldo batia na mulher dele toda a noite, que voltava bêbado do porto.

E a partir de 1970 irmão, começou também a bater nas duas filh que nasceu naquela manhã de abril ainda não sabia nada disto. Dormia nos braços da mãe enquanto o pai na cozinha abria a primeira cerveja do dia às 7 da manhã, depois de uma noite inteira a beber no bar do Porto. Esta primeira cerveja do pai no dia do nascimento do filho ia marcar exatamente o ritmo dos 26 anos seguintes da vida do Edmundo.

Uma cerveja ao amanhecer, mais três durante o dia, seis durante o jantar e duas garrafas de cachaça barata depois da meia-noite. A Maria do Carmo pôs o nome dele de Edmundo por causa de um primo dela que tinha falecido em 1969 num acidente de pesca em Cabo Frio. um primo jovem, alegre, trabalhador, que nunca tinha bebido um gole de álcool na vida.

À Maria do Carmo, em silêncio, pediu a Deus que aquele miúdo herdasse a alma do primo e não a do pai. Deus escutou e respondeu outra coisa, porque desde os primeiros mês o Edmundo mostrou uma característica que os outros filhos do Edinaldo não tinham mostrado. Chorava o tempo todo, chorava com fome, chorava de medo, chorava sem razão aparente.

E quando o Ednaldo, embriagado às 2as da madrugada, ouvia o choro do bebé, levantava-se da cama e entrava no quarto do miúdo gritando: “Guarda essa palavra, pá. chorar, porque daqui a 40 minutos vai perceber porque o Edmundo, durante a sua carreira profissional inteira, nunca chorou em público. O Edmundo aprendeu a não chorar antes de completar um ano de vida.

Apanhou tanto por isso que o choro congelou dentro dele para sempre. As primeira lembrança do Edmundo, segundo uma entrevista privada que deu para placar em 1997, eram três. O cheiro a aguardente no hálito do pai quando se aproximava do berço, os gritos da mãe na cozinha quando o Ednaldo batia-lhe de cinto e o silêncio absoluto da casa ao amanhecer, quando o pai dormia finalmente no sofá da sala e a Maria do Carmo, com os olhos roxos, saía para vender ovo na rua para conseguir o almoço do dia.

Aos 3 anos, irmão, o Edmundo começou a aperceber-se de uma coisa que a mãe dele não tinha conseguido esconder. As duas irmã mais velha tinham marca no braço, marca redonda, escura, alinhada, marca de queimadura de cigarro. O Ednaldo, quando se irritava com as filha, apagava o cigarro no braço das raparigas. À Mariana, a mais velha, tinha 14 marca aos 9 anos.

A Renata, a do meio, tinha sete aos 7 anos. As duas escondiam os braços debaixo de manga comprida, mesmo no verão carioca de 40 gra de calor. E quando Edmundo, com três anos, perguntou à Mariana o que eram aquelas marcas, a A Mariana respondeu: “Vacina, irmãozinho, é vacina para não ficar doente.” O Edmundo acreditou na explicação durante dois anos.

Até que um dia, brincando com a irmã no quintal, viu como o Ednaldo, embriagado às 4 da tarde, agarrou a Mariana pelo pulso e apagou um cigarro no braço dela. A Mariana não gritou nem chorou, cerrou os dentes, aguentou e quando o Ednaldo soltou-lhe o pulso e voltou a cozinha, olhou para o Edmundo, que tinha 5 anos, e falou em voz baixa: “Não fales, não chora, não é nada”.

Esta frase, estas sete palavras o Edmundo aprendeu aos 5 anos da própria irmã. e ia repetir para si próprio durante os 50 anos seguintes da sua vida. Aos 4 anos, a Maria do Carmo tentou matricular o Edmundo na escola primária do bairro Fonseca. O Ednaldo foi contra. Falou para mulher dele uma frase que em 1975 ninguém em Niterói questionava.

O miúdo não precisa de escola, precisa de trabalho, como eu, como o meu pai, como o pai do meu pai. A Maria do Carmo não insistiu, mas escondida, todas as noites depois do Edinaldo dormir embriagado no sofá, ensinava o Edmundo a ler com um livro velho de catecismo que ela tinha utilizado na escola primária do interior de Minas Gerais.

O Edmundo aprendeu as letra aos 4 anos e meio. Aprendeu a juntar sílaba aos cinco e aos seis já lia sozinho, em silêncio, debaixo da coberta, com uma pequena lanterna que a Maria do Carmo tinha-lhe comprado com dinheiro guardado da venda de ovo. Quando o Ednaldo descobriu a lanterna e o livro de catecismo, uma noite de 1977, bateu na Maria do Carmo durante uma hora seguida na cozinha, queimou o livro no fogão, atirou a lanterna para o quintal e falou para o Edmundo, olhando para ele nos olhos: “Não vais ler, não vais estudar. Vai trabalhar comigo no

Porto. Você é como eu. Você é igual a mim. Você não é mais do que isso. O Edmundo tinha se anos, irmão. Naquela noite, escondido debaixo da cama, mordeu o lábio inferior até sangrar para não chorar. Aos 5 anos de idade, o Ednaldo tinha posto o miúdo a trabalhar com ele no porto. Acordava-o às 5 da manhã.

Levava-o a andar os 3 km desde a casa de Fonseca até ao cais número 4 do porto de carga e punha-o a descarregar saco de cimento durante 6 horas seguidas. O Edmundo pesava 18 kg. O saco pesavam 25. Por cada saco descarregado, o contramestre do Porto pagava ao Ednaldo dois cruzeiros. O Ednaldo gastava os dois cruzeiros em aguardente durante o intervalo do meio-dia.

Esta decisão de o tirar da escola e pô-lo no porto foi a primeira traição do pai, estás a ver? Em 1979, quando Edmundo tinha 8 anos, aconteceu uma coisa no Porto que mudou tudo. Uma coisa que durante 47 anos o Edmundo não contou numa só entrevista. Uma coisa que as irmãs prometeram calar enquanto o O Ednaldo estivesse vivo, mas o Ednaldo faleceu em 2003.

E uma das irmãs, a Mariana Alves de Souza, em 2020, deu uma entrevista privada para um investigador desportivo brasileiro que estava escrever uma biografia não autorizada do Edmundo. A gravação existe e revela o momento exato em que o Ednaldo pôs no filho o apelido que o ia acompanhar para o resto da vida.

Mas antes de chegar neste momento do porto, precisamos dar um salto temporal de 11 anos. precisa de ir para o verão de 1990, quando o Edmundo, com 19 anos recém-completo, estreou como profissional no Vasco da Gama do Rio de Janeiro. Porque a pessoa que descobriu ele, contratou-o, defendeu-o da imprensa carioca e apresentou-o pro Brasil inteiro como nova promessa do futebol nacional, foi alguém que durante toda a carreira do Edmundo ocupou um lugar incómodo, um lugar a meio caminho entre empresário, pai adotivo, advogado, banqueiro pessoal e sócio em escândalo.

Chamava-se Wagner Ribeiro, certo? Tinha 42 anos em 1990. O Edmundo entrou no Vasco da Gama em Março, irmão, de 1990, com 19 anos. Quem descobriu ele foi o Carlos Alberto Parreira numa partida juvenil. A direcção do Vasco fez um contrato de 2 anos para ele, 70.000 Cruzeiros por mês, que em 1990 equivalia a ó.

O Edmundo entregou o cheque inteiro do primeiro mês para a mãe. A Maria do O Carmo falou-lhe na cozinha: “Isso não contes ao teu pai, Edmundo. Isso a gente guarda. Isto é o nosso futuro”. O Ednaldo descobriu o envelope escondido no terceiro mês. Irmão, gastou 7.500 00 numa semana em cachaça, prostituta e briga no bar do porto.

Voltou paraa casa de mão vazia e punho fechado. Naquela noite bateu na Maria do Carmo durante duas horas seguidas e bateu também no Edmundo, que tinha 19 anos, estreava-se como profissional e ainda não tinha tido coragem para enfrentar o pai. O Wagner Ribeiro foi quem o ajudou a montar a operação financeira para esconder o dinheiro do pai.

O Wagner virou, em questão de mês, o pai que o Edmundo nunca tinha tido. Mas o Wagner também organizava uma outra coisa por dentro. Organizava as festas, as mulheres e as primeira droga. Em dezembro de 1992, numa festa do Vasco, depois de ganhar ao Flamengo, o Wagner apresentou pro Edmundo, que tinha 21 ano, um grupo de empresário carioca que comemorava com champanhe, cocaína e mulher paga.

O Edmundo nessa noite experimentou cocaína pela primeira vez. A partir dessa noite, irmão, o Edmundo entrou numa espiral que ia durar exactamente 13 anos. 13 anos de cocaína nos finais de semana, 13 anos de aguardente todas as noites, 13 anos de fúria controlada no campo durante 90 minutos cada domingo e descontrolada na rua durante as outras 167 horas da semana.

E no meio destes 13 anos, chegou a madrugada do dia 2 de Dezembro de 1995. Avenida Borges de Medeiros, Lagoa, Rio de Janeiro. Madrugada do 2 de Dezembro de 1995, 3h30 da madrugada. Sábado, o Edmundo Alves de Souza Neto, 24 ano, goleador do Vasco da Gama, convocado para a selecção brasileira na semana anterior, saía de uma discoteca da zona da Lagoa em direção ao Leblon no seu Jeep Grand Sheroke, embriagado, com quatro acompanhante dentro, a Roberta Campos no lugar do pendura, o Marxon Pontes, amigo do jogador, atrás do condutor, a Débora Ferreira, atrás

da Roberta. E no meio do banco de trás, sentada entre o Marxon e a Débora, uma miúdo de 16 anos que tinha conhecido o Edmundo nessa mesma noite na discoteca. O seu nome era Joana Coutto, no sentido contrário vindo pela Avenida Borges de Medeiros. Um outro automóvel, um Fiat Uno, velocidade regular.

Ao volante, Carlos Frederico Pontes, 23 anos. Estudante da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, no banco do passageiro Alessandra Perrota. 20 ano. Namorada do O Carlos fazia 3 anos. Estudava letras na Universidade Federal Fluminense. E no banco de trás do Fiat, Natasha Kat, 22 ano, amiga do casal, regressavam de jantar num restaurante de Ipanema.

O Jeep Gran Cheeroke do Edmundo, às 3h30 da madrugada andava pela Avenida Borges de Medeiros a alta velocidade. O Edmundo tinha bebido durante 6 horas na discoteca. O relatório policial posterior estabeleceu que o carro do Edmundo avançou um sinal vermelho no cruzamento com a rua Maria Quitéria.

O Fiat Uno do Carlos Frederico estava a cruzar com preferência. A embate foi frontal e lateral. O xerokei, mais pesado, capotou depois do impacto. O Fiat Uno desintegrou-se. O Carlos Frederico Pontes morreu no local do acidente, irmão, por traumatismo craniano e lesão cerebral. Tinha 23 anos. A namorada, Alessandra Perrota, morreu vítima de fratura de crânio e edema cerebral. Tinha 20 anos.

A Joana Coutto, a miúdo que estava no carro do Edmundo, foi levada com vida para o Hospital Miguel Couto, do bairro da Gávia. Morreu durante o atendimento por traumatismo do tórax e abdómen, com hemorragia interna e anemia aguda. Tinha 16 anos. Três mortos numa só madrugada, dois no Fiat Uno, um no próprio carro do Edmundo.

O Edmundo saiu do xerokei com corte na cabeça, ferimento na testa e um traumatismo cerebral ligeiro. Os três acompanhantes sobreviventes dele, a Roberta Campos, o Marxon Pontes e o Débora Ferreira, saíram com um ferimento de gravidade média. A Natasha Kets a sobrevivente do Fiat Uno, saiu com fratura múltipla. Os corpos do Carlos O Frederico e da Alessandra ficaram no asfalto durante 40 minutos até atingir a primeira ambulância.

A Joana Couto morreu na maca do Hospital Miguel Couto às 5h10 da manhã, sem a mãe, que dormia numa casa modesta do bairro de Inhaúa, na zona norte do Rio. Saber ainda que a sua única filha tivesse saído da discoteca com um jogador de futebol famoso naquela noite. A mãe da Joana se chamava-se dona Iracema Couto. Tinha 39 anos naquela madrugada.

era empregada doméstica em duas casas do bairro da Lagoa, certo? Vivia sozinha com a Joana desde que o pai da miúdo tinha abandonado as duas em 1981. E às 6h20 da manhã do dia 2 de dezembro de 1995, recebeu um telefonema do Hospital Miguel Couto pedindo-lhe que se apresentasse com urgência. Chegou ao hospital às 7:10, mostraram-lhe o corpo da filha.

explicaram que tinha morrido num acidente de viação, que o condutor do outro carro tinha sido detido e que o motorista era o jogador de futebol Edmundo Alves de Souza Neto, conhecido no Brasil inteiro como Edmundo Animal. A dona Iracema Coutto, naquela manhã no hospital não gritou, cerrou os dentes, igual a Mariana Oliveira tinha feito aos 9 anos, quando o Ednaldo apagava cigarros no braço dela.

Aguentou, assinou os papel da libertação do corpo da Joana pro cemitério do Caju. Apanhou um ônibus de regresso a Inhauma, chegou a casa às 2as da tarde, sentou-se na cadeira da cozinha e, pela primeira vez, nos 39 anos da sua vida, chorou durante 6 horas seguidas, sem conseguir parar. A A senhora Iracema CTO tinha 39 anos naquela manhã.

Nos 23 anos seguintes até à morte dela em abril de 2018 escreveu 47 carta pró Edmundo Alves de Souza Neto. 47 carta escrita à mão em papel quadriculado de caderno escolar. 47 carta enviada para o endereço da mansão do Edmundo na rua Coronel Marques Porto, bairro Barra da Tijuca, Rio de Janeiro. 47 carta que pediam sempre a mesma coisa, que o Edmundo fosse uma vez no cemitério do Caju, onde estava sepultada a Joana, uma só vez, sem necessidade de imprensa, nem de desculpa pública, nem de indemnização.

Só que ele fosse que botasse uma flor. O Edmundo Alves de Souza Neto recebeu as 47 carta. Guardou, sem abrir, numa gaveta da secretária da mansão dele. Nunca respondeu uma. Nunca foi no cemitério. E a história judicial do caso foi um pesadelo para as famílias das três vítima. O Edmundo foi condenado em 1999 a 4 anos e 6 meses de prisão por triplo homicídio negligente.

Mas os recursos legais que a equipa de advogado dele apresentou durante ano seguido conseguiram que o jogador não pisasse a cadeia. No total, durante toda a vida, o Edmundo Alves de Souza Neto cumpriu apenas 37 horas de prisão pela morte dos três jovens, 18 hor9 depois da condenação inicial. 17 hor em 2011 depois de um novo mandato de prisão.

37 hormo ano de 2011, o ministro Joaquim Barbosa, do Supremo Tribunal declarou a prescrição do crime. O Edmundo ficou livre para o resto da vida. A dona Iracema Couto faleceu em abril de 2018. Cancro do pâncreas, 62 anos. Na mesa de cabeceira dela, no quarto do apartamento que alugava no bairro de Inhauma, as duas irmã dela encontraram.

Organizada por data, cópia das 47 carta. E debaixo da última carta, uma folha solta com uma frase só escrita em letra trémula de mulher doente. A frase dizia: “Se nunca pediu perdão, é porque nunca te ensinaram. Que Deus te perdoe, Edmundo, porque não posso. O Edmundo Alves de Souza Neto, hoje, em maio de 2026, tem 55 anos.

Vive na mesma mansão da Barra da Tijuca, é comentador de TV brasileira e na sua secretária ainda guarda, sem abrir, as 47 cartas que a dona Iracema mandou durante 23 anos. Uma vez perguntaram-lhe numa entrevista porque ele nunca o tinha lido. O Edmundo respondeu com cinco palavra: “Não fui criado para ler.” Esta frase, irmão, estas cinco palavra são a verdade mais profunda e mais repugnante da vida do Edmundo.

Uma verdade que vai muito para além de leitura de cartas. Uma verdade que abrange tudo o que um homem precisa aprender de criança para se tornar adulto funcional. Pedir perdão, escrever, chorar, escutar, perdoar. Abraçar. O Edmundo Alves de Souza Neto foi criado por um tipo que durante 26 anos seguidos ensinou exatamente o contrário.

A gente vai saber o que se passou no porto de Niterói em 1979, quando o Edmundo tinha 8 anos, como o pai pôs o apelido animal no próprio filho. Porque a mãe, a Maria do Carmo, durante 17 anos, aguentou a violência sem denunciar o marido. E a noite de Maio de 1985, na cozinha da casa de Fonseca, quando Edmundo, com 14 anos, pegou numa corrente de bicicleta no quintal e destroçou o cara do pai em 5 segundos.

Para entender o que aconteceu na cozinha da casa de Fonseca em maio de 1985, precisamos voltar primeiro pro porto de Niterói. Precisa de voltar para uma tarde de fevereiro de 1979. Uma tarde quente, sem vento, com temperatura de 36º à sombra. precisa voltar ao momento exato em que o Edmundo Alves de Souza Neto, com 8 anos recém-completo, descarregava saco de cimento do lado do pai Ednaldo, no CAIS número 4, do porto de carga de Niterói.

O Ednaldo Alves de Souza tinha 42 anos naquela tarde de Fevereiro de 1979, não é? Trabalhava como estivador no Porto fazia 26 anos e bebia cachaça desde o café da manhã fazia 26 anos. Naquele dia, segundo o testemunho que a filha mais velha Mariana gravou em 2020 pro investigador desportivo brasileiro, o O Ednaldo tinha começado a beber às 6 da manhã.

Às 2 da tarde já estava com 12 copos de cachaça no corpo. E às 4 da tarde, quando Edmundo, que transportava um saco de 25 kg durante 6 horas seguidas aos 8 anos, tropeçou no saco e deixou cair no cais, o Ednaldo perdeu o controle. O que o Ednaldo fez nos 8 minutos seguintes à frente dos outros estivador do CAIS número 4 foi uma coisa que o bairro da Fonseca recordou durante 40 anos.

empurrou o miúdo contra uma pilha de saco, bateu-lhe três vezes com a mão aberta na cara, pegou-lhe pela gola da t-shirt e levantou-o do chão, deixando-o pendurado feito cão pequeno, e gritou-lhe em frente dos outros 12 estivador que olhavam para a cena em silêncio. Uma frase que pelos próximos 47 anos o Edmundo não contou em uma só entrevista pública.

A frase foi: “És um animal. Nasceste animal vai morrer, animal. Animal!” gritou quatro vez seguida. Animal, animal, animal, animal. E ao gritar a quarta vez, cuspiu na cara do miúdo e soltou ele. O Edmundo, com 8 anos, caiu no chão do Cis. esteve sentado durante 10 minutos sem se mexer. Os outros estivador voltaram ao trabalho.

O Ednaldo abriu outra garrafa de cachaça e o Edmundo, sem perceber porquê, sem saber o que tinha feito de errado, sem se atrever a levantar o olhar, escutou pela primeira vez na vida a palavra que ia definir a identidade pública dele no Brasil pelos 47 anos seguintes. Animal, 13 anos depois, viu? Em 1992, quando Edmundo se estreou como goleador profissional no Vasco da Gama, um jornalista desportivo brasileiro chamado Washington Rodrigues ia usar essa mesma palavra numa nota da Gazeta Desportiva para descrever a fúria do jovem jogador

do Vasco, animal. E o Brasil inteiro ia celebrar o apelido como se o Washington Rodrigue tivesse inventado nesse momento. Ninguém soube nunca que o apelido tinha nascido 13 anos antes, no CAIS número 4 do Porto de Carga de Niterói, na boca de um pai alcoólico, que chamava assim o próprio filho de 8 anos.

Aquela tarde, quando Edmundo voltou paraa casa de Fonseca, de mão dada com o pai bêbado, a Maria do Carmo recebeu-o com um prato de arroz com ovo. Olhou-o em silêncio, viu que o miúdo estava com a bochecha vermelha. o pescoço marcado, os olhos secos e perguntou o que tinha acontecido. O Edmundo respondeu três palavras: “Nada, nada, mãe.

” A Maria do Carmo compreendeu tudo. Tinha acontecido com as duas filhinha aconteceu com ela mesma durante 15 anos e agora acontecia com o filho. Mas a Maria do Carmo naquela noite tomou uma decisão que ia mudar tudo. Não ia contar nada a ninguém. Ia aguentar, ia esperar. ia rezar para que algum dia o Ednaldo morresse sozinho de alguma bebedeira forte, sem encostar mais nos filhos.

Esta decisão da Maria do Carmo, pá, esta decisão de aguentar em silêncio durante mais 17 anos foi a outra traição silenciosa da vida do Edmundo. A traição da mãe que viu a violência e escolheu a passividade. A mãe que durante 17 anos pediu a Deus a solução que ela própria podia dar. A mãe que durante 17 anos permitiu, sem querer, que o pai continuasse a chamar o filho de um animal na cozinha, no porto, na rua, a qualquer hora do dia.

Os seis anos seguinte, entre 1979 e 1985, foram os piores da infância do Edmundo. O O Ednaldo batia-lhe duas ou três vezes por semana, por vezes com a mão aberta, às vez, às vez. Batia por qualquer motivo, por deixar cair um saco, por olhar para a parede, por respirar forte, por chorar em silêncio, por não chorar, por tudo.

E no Edmundo, as porradas calaram-no por dentro. Deixou de falar na escola, deixou de falar com as irmãs, deixou de falar até com a mãe. Aos 12 anos, segundo a Mariana contou na gravação, o Edmundo passava a semana inteira sem abrir a boca dentro de casa. Mas dentro dele, sem ninguém ver, começava a crescer uma coisa.

Uma coisa que durante 6 anos foi puro medo congelado. Uma coisa que durante 6 anos foi obediência silenciosa. Uma coisa que durante 6 anos pareceu uma rendição absoluta até uma noite de maio de 1985, uma noite quente de Outono carioca. Uma noite em que o Ednaldo voltou a casa de Fonseca às 23h30 da noite com 2 L de aguardente no corpo, com o punho fechado e com um olhar que a Maria do Carmo na cozinha identificou de imediato.

Era o olhar de antes de bater. 17 de maio de 1985, sexta-feira, 23h35, Casa de Fonseca, Niterói, a pequena cozinha com a mesa de madeira, o frigorífico velho dos anos 60, a janela que dava para o quintal onde estava encostada a bicicleta da irmã Mariana, a Maria do Carmo lavava os pratos do jantar, irmão. O Ednaldo entrou pela porta com o corpo balançando, bateu com a mão na mesa e exigiu à mulher que servisse a comida que ela tinha deixado guardada.

A Maria do Carmo, sem olhar para ele, falou em voz baixa: “Enaldo, já jantamos faz 3 horas. A comida está fria. Eu aqueço para si em 5 minutos.” O Ednaldo, estas duas frases, recebeu como uma provocação. Pegou num prato vazio da mesa e atirou-a na cara dela. A Maria do O Carmo caiu para trás. A cabeça bateu contra a esquina do frigorífico.

começou a sangrar por cima da orelha esquerda. O Ednaldo aproximou-se, pegou no cabelo dela com a mão direita, levantou-a do chão e começou a bater-lhe com a mão aberta na cara, uma bofetada atrás da outra, enquanto gritava palavra que durante ano a Maria do Carmo não repetiu em voz alta para nenhuma das filhas.

O Edmundo tinha 14 anos nessa noite, irmão. Tinha crescido, tinha desenvolvido massa muscular nos ombros e nos braços durante 6 anos de descarregar saco de cimento no porto. Pesava 64 kg, media 1,72 m. e estava a dormir no quarto que partilhava com as irmã quando escutou o grito da mãe da cozinha. acordou, escutou as porrada, escutou os tapa, escutou o silêncio entre golpe e pela primeira vez em seis ano, em lugar de ficar na cama esperando que o pai se cansasse, fez o contrário.

O Edmundo levantou-se, andou até ao quintal, de calções, sem t-shirt, descalço, viu a bicicleta da Mariana encostada à parede. Viu a corrente da bicicleta, a corrente de ferro velha, gasta, manchada de óleo negro do Zano. O Edmundo pegou na corrente, tirou-a do pinhão com um movimento rápido, enrolou à volta do punho direito, deixando 1 m de corrente solta, pendurada, e entrou na cozinha.

O Ednaldo estava de costa para a porta. Tinha a Maria do Carmo segurada pelo cabelo com a mão esquerda. Estava a bater-lhe com a mão direita, tinha-lhe rasgado o lábio inferior. A mãe sangrava e o Ednaldo, no meio de um golpe, perdeu o contacto com tudo o que estava a acontecer atrás dele. Os passos descalço do filho no chão da cozinha entraram sem o alertar.

O reflexo do miúdo à janela passou na frente dos olhos dele, sem ele registar. O que ele sentiu de repente foi o primeiro golpe da corrente de bicicleta a entrar na bochecha direita. Um golpe seco, brutal, frontal, que partiu três dentes da parte superior esquerda e abriu a pele do nariz até à orelha. O segundo golpe chegou antes do Edinaldo conseguir reagir.

Entrou na mandíbula debaixo do olho direito, partiu o osso da maçã, dobrou a cabeça para trás. O terceiro, quando o Ednaldo já caía no chão de joelho, entrou na têmpora esquerda, o quarto na testa. O quinto na boca. Quando o Ednaldo caiu completamente no chão, inconsciente, com a cara coberta de sangue e osso partido debaixo da pele, o Edmundo continuava a bater com a corrente.

A Maria do Carmo aproximou-se, pegou-lhe no braço, falou em voz baixa: “Edmundo, pára! Edmundo, vai matá-lo para!” O Edmundo parou, largou a corrente, deixou-a cair no chão e olhou pro pai pela primeira vez em seis anos nos olhos. Os olhos do Edinaldo estavam fechado, a cara estava destroçada. A Maria do Carmo nessa noite fez duas coisas.

Chamou uma vizinha de confiança, dona Albertina, que vivia duas casas paraa frente no beco. Pediu para ela ajudar a carregar o Ednaldo até ao carro do marido da Albertina, um velho Volkswagen Carocha dos anos 60, e disse ao Edmundo uma frase só. A frase foi: “Edmundo, isto não aconteceu. O seu pai caiu no porto. Se alguém perguntar, não aconteceu.

” Entendeu? O Edmundo assentiu. A Maria do O Carmo e a dona Albertina levaram o Ednaldo para o Hospital Municipal de Niterói. O Ednaldo entrou em coma, ficou internado durante 19 dias. Quando acordou, tinha a mandíbula reconstruída com duas placas de titânio, amassando o face direita fraturada em quatro pedaços, menos quatro dentes e uma cicatriz que ia do nariz até à orelha esquerda.

O Ednaldo, quando acordou do coma, declarou aos médicos o que a Maria do Carmo tinha-lhe instruído a dizer. tinha caído de costa no porto contra uma pilha de saco de cimento. Os médicos não acreditaram, a polícia também não. Mas como o Ednaldo se sustentou na versão e como a Maria do Carmo confirmou a versão e como Edmundo se sustentou na versão, o caso foi encerrado sem investigação.

O Edinaldo saiu do hospital três semanas depois e ao regressar a casa de Fonseca pegou as duas camisas, as calças velhas e o par de sapato dele num saco de papel castanho e saiu pela porta para não voltar mais. O Ednaldo Alves de Souza viveu os 18 anos seguinte numa pensão barata do bairro Santa Rosa de Niterói.

Trabalhou noutros portos pequeno do litoral quando dava. Continuou a beber cachaça desde o pequeno-almoço, mas nunca mais voltou paraa casa de Fonseca. Não ligou para Maria do Carmo, não perguntou pelas filh durante os 18 anos seguintes e não falou uma só palavra com Edmundo, nem na estreia do Vasco da Gama, nem no Brasileirão com o Palmeiras, nem no final do Mundial de 98 com o Brasil, nem depois do acidente da Avenida Borges de Medeiros em 1995.

Nem quando Edmundo, numa cerimónia do Vasco em 2002 recebeu o prémio de melhor jogador carioca da década. O Ednaldo faleceu no dia 18 de novembro de 2003, cirrose hepática em fase terminal, 66 anos, não é? Morreu na pensão do bairro Santa Rosa, sem ninguém da família do lado.

Ninguém avisou a Maria do Carmo até dois dias depois do enterro. Ninguém avisou as filha, ninguém avisou o Edmundo. O Edmundo soube por um jornalista desportivo do Globo Esporte que lhe pediu declaração sobre a morte do pai. O Edmundo respondeu em voz baixa, sem óculos escuros, sem maquilhagem, sem guião preparado, uma frase só. A frase foi: “Eu não tenho pai”.

Morreu um rapaz que tinha o mesmo nome do meu pai, mas pai nunca tive. E é aqui, pá, que a história do Edmundo Alves de Souza Neto fica mais escura do que qualquer biógrafo brasileiro registou. Porque a corrente de bicicleta de maio de 1985 não terminou nessa noite. Aquela corrente continuou a bater no Edmundo durante os 41 anos seguintes.

Só que o pai já não estava ali. Quem batia agora era ele próprio em si mesmo. E batia também nas pessoas que se aproximavam dele, tentando dar o amor que o pai nunca deu. A gente vai saber o que aconteceu em 2007, já viu? quando uma mulher chamada Sandra apareceu à porta da mansão da Barra da Tijuca com um teste de ADN, como Edmundo, com os olho do próprio pai Ednaldo, ofereceu R$ 180.000 para ela ir embora.

Por que razão um miúdo de Niterói chamado Davi, 8 anos depois, num autógrafo do Vasco no estádio São Januário, descobriu a verdade e a frase exacta que o Edmundo falou para o filho não reconhecido no corredor do estádio quando o miúdo tinha 17 anos. Porque a frase que o Edmundo Alves de Souza Neto falou pro O próprio filho naquela tarde de 2015 foi a mesma frase que o pai, Edinaldo, tinha-lhe gritado no porto de Niterói em fevereiro de 1979, quando tinha 8 anos.

A frase do animal. O círculo fechou-se e o Edmundo, sem querer, sem compreender, sem conseguir evitar, tinha virado exatamente o homem que durante toda a vida tinha querido destruir. Para perceber quem apareceu na porta da mansão da Barra da Tijuca em 2007, precisamos de voltar ao verão de 1997, voltar para uma festa do Vasco da Gama numa casa da zona sul do Rio de Janeiro, depois de uma partida contra o São Paulo.

voltar ao momento exato em que o Edmundo, que tinha 26 anos, goleador do Brasileirão desse ano, recentemente separado da primeira mulher, conheceu uma jovem empregada de mesa contratada para servir as bebida. Chamava-se Sandra, tinha 21 anos, trabalhava num bar do bairro Centro de Niterói. E, nessa noite, depois de servir o whisk durante 6 horas, terminou num quarto de hotel com o jogador do Vasco.

A Sandra não pediu nada ao Edmundo depois daquela noite, irmão. Sem telefone, sem presente, nenhuma promessa. Regressou a Niterói às 9 da manhã do dia seguinte e continuou trabalhando como empregada de mesa. Três meses depois, descobriu que estava grávida. decidiu não procurar o Edmundo, decidiu ter o filho sozinha.

Em agosto de 1998, nasceu um miúdo que a Sandra registou como Davi Pereira Costa, com o apelido da mãe, sem nome do pai no documento. A A Sandra criou o Davi durante 9 anos em silêncio, vendendo pão numa padaria do bairro Centro de Niterói, guardando cada cêntimo, pagando a creche, a escola, o vestuário, sem pedir nada a ninguém, até uma manhã de Março de 2007.

Uma manhã em que o David, que tinha 9 anos, viu uma jogo de futebol na televisão, viu uma entrevista do Edmundo ao intervalo, olhou para a mãe e fez uma pergunta. A pergunta foi: “Mãe, porque é que este jogador tem a minha cara?” A Sandra naquele tarde tomou uma decisão que ia marcar o resto da vida dela. Tirou David da escola, levou-o a uma clínica particular de Niterói e pagou um teste de paternidade com uma madeixa de cabelo do miúdo.

Três semanas depois, a A Sandra recebeu o resultado num envelope fechado, compatibilidade genética de 99,9%. O pai biológico do David era o Edmundo Alves de Sousa Neto. A Sandra, naquela mesma tarde apanhou um táxi até à rua Coronel Marques Porto do bairro da Barra da Tijuca. Chegou à porta da mansão do Edmundo às 17h40, tocou a campainha e quando saiu o porteiro de segurança entregou um envelope fechado com o nome dela, o telefone, o teste de ADN e um bilhete escrito à mão de seis linha.

O bilhete dizia apenas que ela não queria dinheiro, que só queria que o Edmundo conhecesse o filho. O Edmundo recebeu o envelope três horas depois pelas mãos do Wagner Ribeiro, que chegou na mansão com o papel na mão e a cara tensa. O Edmundo leu em silêncio, olhou o teste de ADN, olhou para a assinatura da Sandra, pediu ao Wagner para verificar o teste com um laboratório independente.

A verificação chegou dois dias depois. Era autêntica, certo? O David Pereira Costa, 9 anos, era filho biológico do Edmundo. O Edmundo, na secretária da mansão da Barra da Tijuca, pediu ao Wagner Ribeiro ligar paraa Sandra e oferecer R$ 180.000 em dinheiro vivo, a troco de três condição.

A primeira, que ela assinasse um acordo de confidencialidade blindado por um escritório de advogados particular. A segunda, que o nome do Edmundo nunca aparecesse em nenhum documento legal do David. E a terceira, que ela, a Sandra e o miúdo, o David, nunca procurassem o Edmundo pelo resto da vida. O Wagner Ribeiro ligou para Sandra nessa mesma noite.

A Sandra escutou a oferta em silêncio, pediu ao Wagner dar-lhe uma hora para ela pensar. Uma hora depois, ligou de volta, aceitou. assinou os papel dois dias depois num escritório do centro do Rio de Janeiro, sem advogado próprio, sem ler as cláusulas com cuidado, com a pressa de uma mulher jovem, que de repente tinha na mão mais dinheiro do que ia ganhar em 15 anos de trabalho na padaria.

E voltou para Niterói com o cheque, o acordo assinado e uma promessa silenciosa que durante os 8 anos seguintes cumpriu o risca. Nunca contou ao Davi quem era o pai dele. O Davi cresceu em Niterói sem saber. Estudou na escola pública do bairro Centro até aos 14 anos. Jogou à bola na equipa do colégio durante 5 anos.

Foi escolhido capitão aos 12. Considerado promessa aos 13. Fez peneira nas camadas jovens do Vasco da Gama. Aos 14.º Não passou no crivo. O olheiro do O Vasco disse à Sandra depois da peneira uma frase que ela nunca esqueceu. A frase foi: “Este miúdo tem a pegada do Edmundo Animal”. A mesma pegada exacta, mas falta-lhe rua.

A Sandra naquela noite chorou em casa pela primeira vez desde a assinatura do acordo de 2007. Aos 17 anos, em março de 2015, o David descobriu a verdade por acaso. A Sandra tinha guardado durante 8 anos uma cópia do teste de ADN, juntamente com cópia do acordo de confidencialidade no prazo de uma caixa de sapatos no armário do quarto dela.

O Davi, à procura de um par de ténis velho para uma visita de estudo escolar, abriu a caixa por acaso, viu os papel, leu o teste, leu o acordo, leu o nome de Edmundo Alves de Souza Neto, repetido em três documento, e entendeu em questão de 5 minutos tudo o que durante 17 anos ninguém lhe tinha contado. O David guardou silêncio em frente à Sandra, irmão.

Fez a mesma coisa que o Edmundo tinha feito aos 14 anos com a corrente de bicicleta. calou-se, esperou e dois meses depois, em maio de 2015, foi sozinho de autocarro de Niterói até ao estádio São Januário do Rio de Janeiro, onde o Vasco da Gama estava a organizar um autógrafo aberto ao público com os jogador histórico do clube. O Edmundo Alves de Souza Neto era um dos convidados de honra.

O David chegou no estádio às 14 horas de um sábado. Tinha uma fila de mais de 400 pessoa à espera para assinar camisola, foto, bandeira. O David não estava com camisa para assinar, estava com um envelope fechado na mão. Dentro do envelope, uma cópia do teste de ADN, uma cópia do acordo de 2007 e uma folha manuscrita com quatro linha.

As linhas diziam apenas: “Eu sou o seu filho, não quero o seu dinheiro. Só quero saber porque é que você nunca me procurou.” David esperou duas horas na fila, estás a ver, irmão? Quando chegou a sua vez, aproximou-se da mesa onde o Edmundo estava sentado, estendeu o envelope, falou em voz baixa: “Isto é pró senhor. Lê, por favor.

” O Edmundo, sem olhar para ele, sem abrir o envelope, respondeu com um sorriso de cortesia profissional. “Obrigado, jovem. Próximo.” O David ficou parado à frente da mesa, insistiu, falou: “Por favor, lê agora”. O segurança do estádio se aproximou. O Edmundo, já com cara irritada, abriu o envelope, viu os papel, reconheceu o seu próprio nome, reconheceu o acordo de 2007, olhou para o miúdo pela primeira vez na cara e viu por um instante os traços exatos da mãe do seu próprio pai, a Maria do Carmo, misturado com o próprio traço dele aos

17 anos. O Edmundo, irmão, em lugar de levantar, em lugar de falar com o miúdo, em lugar de pedir desculpa, em lugar de dizer uma só palavra humana, fez outra coisa. tirou cinco palavras secas com a voz baixa para o segurança não escutar e disse ao filho não reconhecido, olhando diretamente nos olhos dele pela primeira e última vez na vida.

As cinco palavras foram: “És filho de erro”. Estas cinco palavras, filho de erro, foram as mesmas cinco palavras. Em outra forma, que o Ednaldo Alves de O Souza tinha gritado para o Edmundo no porto de Niterói, em fevereiro de 1979, quando Edmundo tinha 8 anos. Animal nasceu, animal vai morrer animal. A mesma forma de apagar o filho com uma palavra.

A mesma forma de herdar a violência silenciosa de geração em geração. A mesma corrente de bicicleta que em Maio de 1985 tinha partido a cara ao Edinaldo, agora partia uma coisa invisível, mas mais profunda no David. O David ficou parado na frente da mesa durante 10 segundos sem se mexer. Depois deu meia volta, saiu do estádio a andar.

Não correu, nem chorou, nem falou com ninguém na rua. Chegou no paragem de autocarro, regressou a Niterói, chegou a casa, devolveu a caixa de sapato à Sandra, falou só quatro palavra. Mãe, agora já compreendo tudo e nunca mais na vida voltou a falar do assunto. O Davi Pereira Costa, hoje em maio de 2026, tem 28 anos.

Mora no mesmo bairro, Centro de Niterói, onde nasceu. Trabalha numa pequena padaria, ao lado da casa onde a Sandra o criou. Tá casado com uma vizinha de infância, tem dois filhos pequenos, uma menina de 4 anos e um rapaz de 2 anos. Os filhos dele chama pelo nome a toda a hora, fala: “Amo-te”. 12 vezes por dia para eles. Quando alguém lhe pergunta no bairro se tem relação com o Edmundo Animal, ele responde sempre à mesma frase.

A frase é: “Não conheço nenhum jogador de futebol. Eu sou padeiro.” O Edmundo Alves de Souza Neto, hoje, em maio de 2026, continua a viver na mansão da Barra da Tijuca. Continua a ser comentador de televisão brasileira. Tem seis filhos reconhecido publicamente com quatro mulher diferente. Jamais falou do David numa só entrevista. E na secretária dele, segundo fonte próxima da família, guarda numa gaveta fechada a chave, debaixo das 47 cartas da dona Iracema Coutto, uma folha amassada com quatro linha escrita à mão por um miúdo de 17 anos em maio de 2015. As

quatro linhas dizem: “Eu sou o seu filho. Não quero o seu dinheiro. Só quero saber porque nunca me procurou. David e é aqui, irmão, que a história do Edmundo Animal, em lugar de fechar como tragédia, abre uma questão que nenhum espectador na sala da sua casa de Niterói, do Rio, de São Paulo, de Belo Horizonte, de Brasília, consegue travar de fazer para si próprio, olhando para tela.

Quantos animal tem ainda? Quantos pai alcoólico neste momento tá a gritar pros filhos? as palavr que pela vida inteira vão queimar-lhes a alma. Quantos miúdos de 8 anos neste momento em algum bairro pobre do Brasil tão descarregando saco de cimento do lado de um pai bêbado que lhes bate com a mão aberta em frente dos colegas de trabalho? Quantas ainda tem a Sandra? Quantas dona Iracema doente numa casa modesta escrevendo carta durante 23 anos para um tipo que nunca vai responder? A história oficial da família Edmundo conta o que a imprensa carioca escolheu

contar. O bicampeão, o goleador, a final do Mundial, a cocaína, o acidente, o escândalo, mas a história real, estás a ver? A que nenhum biógrafo registou. A que a Mariana Alves de Souza gravou em 2020 sem autorização do irmão, é outra. É a história de três geração de homem partido por dentro. O Ednaldo, espancado pelo próprio pai estivador nos anos 40, o Edmundo espancado pelo O Ednaldo nos anos 70 e 80 e o David apagado pelo Edmundo numa mesa de autógrafo em 2015.

Três geração de homem que aprenderam a não chorar antes de completar um ano de vida. Três geração de homem que receberam em lugar de um pai um animal. Isto é o Edmundo Animal, um tipo que durante 55 anos carregou três heranças sem as descarregar no chão. A herança do pai violento que bateu-lhe até aos 14 anos. A herança do empresário que o pôs na cocaína aos 21 anos e a herança silenciosa da mãe Maria do Carmo, que durante 17 anos aguentou a violência esperando que Deus resolvesse sem ela ter de agir.

O Edmundo não se tornou animal por opção, tornou-se animal por imitação, por repetição, por contágio geracional, pela única coisa que um miúdo de 8 anos consegue aprender, quando o único modelo masculino dele grita animal quatro vezes seguida em frente de 12 estivador num porto de Niterói. E tem milhão de Edmundo no mundo, pá.

Homem com pai que nunca os ensinou a ler uma carta, muito menos a responder. Homem com empresário, patrão ou amigo que abriu para eles a porta do pó branco, sabendo perfeitamente o que lhe iam fazer. Homem com um filho não reconhecido, que um dia vai entrar num estádio com um envelope na mão e vai sair destruído por cinco palavra.

Homem com três mortos numa madrugada que a justiça brasileira esqueceu-se com apenas 37 horas de cadeia na vida inteira. Homem que durante a vida inteira confunde força com violência, autoridade com grito, amor com controlo. Se é um deles, este vídeo é para você. Se conhece um homem assim na a sua própria família, liga-lhe hoje à noite.

Se teve um pai que chamou te de animal alguma vez na vida, perdoa-o se puderes. Se não der, pelo menos não faz a mesma coisa com o seu filho. Se tem um filho não reconhecido em algum lado, vai procurar ele antes de ele te procurar. Se tem uma dona Iracema à espera de uma flor em algum cemitério, vai hoje. Não espera ter 75 anos para compreender que as palavras que se grita aos 8 anos não apagam nunca, que as correntes de bicicleta não partem só a cara ao pai, partem também uma coisa invisível dentro do filho que as levanta e que os animal

não nascem, são criados, são herdados, são replicado, até que uma geração inteira decida quebrar a corrente. Se inscreve no canal Estrelas Caídas, viste? Partilha esse vídeo aí com aquela pessoa que lhe apareceu na cabeça enquanto escutava a história. Liga para ela antes de amanhã. Porque a história do Edmundo Alves de Souza Neto vai muito para além de um jogador de futebol que perdeu o controlo.

É a história de um tipo que durante 55 anos carregou três heranças em silêncio e sem querer passou para próxima geração. A pergunta que sobra flutuando no ar depois de fechar este vídeo é só uma. E ninguém no Brasil, nem o próprio Edmundo, sabe responder. Quantas vidas teriam mudado se o Ednaldo Alves de Sousa, em fevereiro de 1979, em lugar de gritar animal para o filho no porto, tivesse posto uma mão no ombro dele?

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