Estávamos em 1973, uma sala cheia de fatos caros e sorrisos falsos. Pelé estava sentado na terceira fila e quando o apresentador leu o nome do vencedor, não era o dele. O silêncio que veio depois durou exatamente 11 segundos. E o que fez Pelé nesses 11 segundos destruiu a carreira de três homens para sempre.
Antes de eu contar-te o que aconteceu naquela noite, é preciso entender uma coisa sobre prémios de futebol nos anos 70. Não era como hoje. Não tinha transmissão mundial, não havia passadeira vermelha, não tinha celebridades de Hollywood sentadas na plateia. Era um evento fechado, organizado por federações, patrocinadores e políticos que usavam o futebol para lavar dinheiro e construir reputações.
Os jogadores eram convidados, mas não eram os protagonistas. Os protagonistas eram os homens de fato, os dirigentes, os cartolas, os mesmos que decidiam quem jogava, quem ganhava um prémio e quem era esquecido. E Pelé, apesar de ser o maior jogador do mundo, sabia muito bem como este jogo funcionava.
Ele tinha aprendido desde cedo que o talento não era suficiente, que num país como o Brasil, onde o futebol era religião e política ao mesmo tempo, até o rei precisava de saber quando baixar a cabeça. Mas naquela noite de Novembro de 1973, Pelé decidiu que não ia baixar mais. A A premiação era organizada pela Confederação Sul-Americana de Futebol em parceria com uma revista desportiva argentina.
que tinha muito dinheiro e pouca ética. O prémio era o de melhor jogador da América do Sul, um troféu que Pelé já tinha ganho quatro vezes. Naquele ano, toda a gente sabia que o Pelé ia ganhar de novo. Tinha feito uma temporada espetacular pelo Santos. Tinha marcado golos decisivos em jogos importantes. Tinha carregado a equipa às costas, como sempre o fazia.
Não havia outro candidato que chegasse perto, mas a política do futebol não funciona assim. Três meses antes da premiação, Pelé tinha-se envolvido numa polémica. Tinha dado uma entrevista para um jornal brasileiro criticando a forma como os dirigentes sul-americanos tratavam os jogadores. Disse que os eram explorados atletas, que não tinham direitos, que eram descartados quando já não serviam.
A entrevista causou um terramoto. Os dirigentes ficaram furiosos e um deles, um argentino chamado Héctor Almada, jurou que Pelé ia pagar por aquelas palavras. Héctor Almada era o presidente da comissão que escolhia o vencedor do prémio. Era um homem baixo, gordo, com cara de quem nunca tinha jogado uma partida de futebol na vida.
Mas ele tinha poder, muito poder, e sabia usar esse poder para destruir quem ousasse desafiá-lo. Quando Pelé chegou ao hotel onde seria a premiação, já sabia que algo estava errado. Os olhares que recebia eram diferentes, os cumprimentos eram mais frios, os sorrisos mais forçados. Coutinho, que tinha ido junto como convidado, apercebeu-se da mesma coisa.
Pelé, está estranho aqui. Esta gente tá te olhando diferente. Pelé não respondeu. Apenas ajustou a gravata e continuou a caminhar em direção ao salão principal. O salão era enorme. Mesas redondas com toalhas brancas, candelabros de cristal pendurados no teto, empregados de mesa circulando com bandejas de champanhe.
Parecia uma festa de casamento de gente rica. E no meio de tudo isto, os jogadores de futebol pareciam visitantes, estranhos num mundo que não era deles. Apelé foi direcionado para uma mesa na terceira fila. Não era a mesa principal, não estava nem perto da mesa principal, era uma mesa de apoio quase escondida atrás de uma coluna.
Coutinho olhou para Pelé com indignação. Isto é uma ofensa. Você é o maior jogador do mundo e colocam-te aqui. Pelé apenas sorriu. Calma, Coutinho. Vamos ver como a noite acaba. A cerimónia começou com discursos intermináveis de dirigentes que ninguém conhecia. Cada um falava durante 15, 20 minutos, elogiando a si próprios e aos seus patrocinadores.
Os jogadores bocejavam discretamente, os os empregados de mesa continuavam a servir champanhe. Depois de quase duas horas de discursos, chegou finalmente o momento do prémio principal. O apresentador, um jornalista argentino com sotaque carregado, subiu ao palco com um envelope dourado na mão. E agora, as senhoras e os senhores, o momento que todos esperavam, o prémio de melhor jogador da América do Sul de 1973.
O salão ficou em silêncio. Pelé endireitou a postura na cadeira. Coutinho cruzou os dedos debaixo da mesa. O apresentador abriu o envelope devagar, teatralmente, olhou para o papel, franziu o sobrolho por um segundo e depois sorriu. O vencedor é Roberto Perfumo da Argentina. Por momentos, ninguém reagiu.
O nome ficou suspenso no ar como uma piada de mau gosto. Roberto Perfumo era um bom jogador, um defesa sólido, mas não era, nem de longe nem de perto, o melhor da América do Sul nesse ano. Todo mundo sabia disso. Mas depois, da mesa principal, Héctor Almada começou a aplaudir e os outros dirigentes seguiram. E logo metade do salão estava aplaudindo enquanto a outra metade olhava em choque.
Pelé não se mexeu, não aplaudiu, não reagiu. Apenas ficou sentado com os olhos fixos no palco, onde Roberto Perfumo subia para receber o troféu com uma expressão que misturava surpresa e constrangimento. O Coutinho inclinou-se para o Pelé. Isto é uma vergonha. Vamos embora. Pelé abanou a cabeça negativamente. Não, a gente fica. Roberto Perfumo pegou no troféu, agradeceu brevemente e desceu do palco.
Os aplausos morreram. O apresentador anunciou que haveria um intervalo antes do jantar. E foi neste intervalo que tudo mudou. Pelé levantou-se da cadeira devagar, deliberadamente. Todos os olhares do salão se voltaram para ele. Caminhou em direção ao palco, passando pelas mesas, passando pelos dirigentes que tinham acabado de humilhá-lo. Héctor Almada ficou tenso.
Os seguranças aproximaram-se. Ninguém sabia o que Pelé ia fazer. Pelé subiu os três degraus do palco, agarrou o microfone que estava no púlpito e olhou pro salão lotado. O silêncio era absoluto, ninguém respirava. E então Pelé começou a falar: “Boa noite a todos. Eu não vim aqui para me queixar. Eu não vim aqui fazer escândalo.
Eu vim aqui contar uma história.” Os dirigentes entreolharam-se nervosos. Ninguém sabia onde aquilo ia parar. Em 1958, quando eu tinha 17 anos, o Brasil ganhou o Campeonato do Mundo na Suécia. Eu era um rapaz, não percebia nada de política, de dinheiro, de poder. Eu só queria jogar à bola.
Pelé fez uma pausa, olhou diretamente para Héctor Almada. Depois desse Mundial, um dirigente da CBD veio falar comigo. Disse que eu ia receber um prémio especial, que eu era o futuro do futebol brasileiro. Eu fiquei feliz. Pensei que finalmente ia ser reconhecido. Outra pausa. A o salão continuava em silêncio absoluto. O prémio era uma viagem, uma viagem para Europa com tudo pago. Parecia um sonho.
Mas quando lá cheguei, descobri que não era uma viagem de prémios, era uma digressão de exibição. Eu ia jogar 15 partidas em 20 dias em campos de terra batida para plateias que pagavam bilhete caro para ver o menino brasileiro fazer embaixadinhas. Pelé sorriu, mas era um sorriso amargo. Tinha 17 anos.
Eu não sabia dizer não. Joguei as 15 partidas, voltei para o Brasil com o corpo destruído e o dinheiro dos bilhetes ficou todo com os dirigentes. Eu recebi uma placa de bronze e um aperto de mão. O murmúrio começou a correr pelo salão. Alguns dirigentes começaram a levantar-se como se quisessem sair, mas Pelé continuou. Esta história nunca contei para ninguém, mas hoje, havendo o que aconteceu aqui, decidi que estava na hora de contar, porque o que vocês fizeram comigo em 1958, vocês continuam a fazer até hoje, não só comigo, com todos os jogadores.
O Pelé olhou para o Roberto Perfumo, que estava sentado na primeira fila com o troféu no colo. Roberto, você é um grande jogador. Você merece reconhecimento, mas sabe, eu sei. Todo o mundo nessa sala sabe que este prémio não foi dado pelo seu futebol, foi dado pela política. Roberto Perfumo baixou os olhos.
Parecia querer desaparecer. E não o culpo, culpo-os a eles. Pelé apontou paraa mesa dos dirigentes. Estes homens que nunca chutaram uma bola na vida, mas que decidem quem é campeão e quem é esquecido. Estes homens que usam o nosso suor, o nosso sangue, o nosso talento para encher os próprios bolsos. Estes homens que acham que podem humilhar o maior jogador do mundo e sair impunes.
Héctor Almada levantou-se vermelho de raiva. Isto é um absurdo. Segurança. Mas os seguranças não se mexeram. Eles também estavam a assistir fascinados. Pelé continuou. A voz agora mais baixa, mais perigosa. Senora Almada, eu sei o que fizeste. Eu sei sobre os contratos fraudulentos. Eu sei sobre o dinheiro que desapareceu da Federação Argentina.
Eu sei sobre os jogos manipulados. O rosto de Almada passou de vermelho para branco em segundos. Eu tenho documentos, tenho testemunhas. E se não acredita em mim, pode ligar para o o seu contabilista amanhã de manhã. Ah, espera. Não vai conseguir porque ele já está a falar com as autoridades. O salão explodiu em murmúrios.
Almada cambaleou, segurando-se à mesa para não cair. Os outros dirigentes começaram a afastar-se dele, como se tivesse uma doença contagiosa. Pelé colocou o microfone de volta para o púlpito. Eu não preciso do vosso prémio. Eu já tenho o único prémio que importa. O respeito do povo, o amor dos adeptos, a certeza de que quando entro em campo, dou tudo de mim.
E isso, senhores? Vocês nunca vão conseguir tirar de mim. Pelé desceu do palco. O silêncio durou exatamente 11 segundos e depois algo inesperado aconteceu. Roberto Perfumo levantou-se, pegou no troféu que estava no seu colo e caminhou até Pelé. Isto aqui é seu. Pelé olhou para o troféu, depois para o perfumo.
Não, Roberto, fica com ele. Ganhou de forma justa, mesmo que a decisão não o tenha sido. Perfumo abanou a cabeça. Eu não quero um prémio que me deram para humilhar outro homem. Ah, tenho dignidade. E então Perfumo fez algo que ninguém esperava. Ergueu o troféu acima da cabeça e atirou-o para o chão. O metal fez um barulho estridente ao embater nas pedras do salão.
É o que eu acho deste prémio. O salão ficou em choque e, então, lentamente, os jogadores começaram a levantar, um a um. Chilenos, uruguaios, paraguaios, colombianos. Todos se levantaram e começaram a aplaudir. Não aplaudiam o prémio, não aplaudiam os dirigentes, aplaudiam Pelé, aplaudiam a coragem, aplaudiam a verdade.
Os dirigentes ficaram sentados, isolados, enquanto todo o resto do salão estava de pé, a aplaudir. Héctor Almada saiu pela porta dos fundos, fugindo como um criminoso. Belé ficou parado no meio do salão a receber aquela ovação e pela primeira vez nessa noite sorriu de verdade. Mas esta é apenas a primeira parte desta história, porque o que aconteceu nos dias seguintes foi algo que mudou o futebol sul-americano para sempre.
Tranquilo, porque o Pelé ganhou aquela batalha no salão. Mas depois veio o que ninguém esperava. Héctor Almada não era o tipo de homem que aceitava a derrota. Tinha construído uma carreira inteira baseada na intimidação e vingança. E não ia deixar o Pelé destruir tudo isto sem reagir. Na manhã seguinte à entrega dos prémios, a Almada convocou uma reunião de emergência com os outros dirigentes.
A reunião aconteceu num hotel diferente, longe dos olhos da imprensa, e o que foi decidido ali marcaria os próximos meses da vida de Pelé. Aquele negro brasileiro humilhou-me na frente de toda a América do Sul, disse Almada a bater na mesa. Isto não pode ficar assim. Os outros dirigentes concordaram a mais com cautela.
Eles sabiam que atacar directamente Pelé era perigoso. Era amado demais, era demasiado poderoso, era demasiado visível. Não o podemos atacar de frente”, disse um dirigente uruguaio. “Mas a gente pode atacar por trás”. Almada sorriu. Era exatamente o que ele queria ouvir. O plano era simples, mas cruel. Iam destruir a reputação de Pelé aos poucos, plantando histórias falsas na imprensa, comprando jornalistas, espalhando rumores.
Iam transformar o herói em vilão. A primeira história apareceu uma semana depois. Um jornal argentino publicou uma notícia dizendo que Pelé tinha casos extraconjugais com várias mulheres. A matéria não tinha provas, não tinha fontes identificadas, mas tinha detalhes suficientes para parecer verdadeira. Pelé ficou furioso quando viu.
Era casado com Rosemy, tinha filhos. Ai tinha uma vida familiar que protegia com unhas e dentes. E agora essa vida estava a ser arrastada pela lama. Isso é mentira, tudo mentira. Ele disse pro seu empresário Marinho. Eu sei que é mentira, Pelé, mas o problema é que as pessoas vão acreditar. Então processamos o jornal e depois vais dar mais atenção à história.
É isso que eles querem. Pelé compreendeu. Era uma armadilha. Se ele reagisse, dava credibilidade à história. Se ele ficasse quieto, a história espalhava-se. Não tinha boa saída. Nas semanas seguintes, mais histórias apareceram. Diziam que Pelé maltratava os companheiros de equipa, que era arrogante, que exigia tratamento especial, que tinha abandonado a selecção brasileira por dinheiro.
Cada história era mais absurda que a anterior e cada história vinha de um jornal diferente, de um país diferente, a como se fosse uma campanha coordenada. Por que era? Héctor Almada tinha contactos em redações de jornais por toda a a América do Sul. Tinha dinheiro comprar qualquer um e ele estava usando esse dinheiro para destruir Pelé.
Mas a Almada cometeu um erro. Ele subestimou a lealdade das pessoas que conheciam o Pelé de verdade. Um dos jornalistas que foi procurado para escrever uma história falsa era um brasileiro chamado Fernando Matos. Fernando era um repórter experiente com quase 30 anos de carreira. Conhecia Pelé desde os tempos de menino em Bauru.
Quando o intermediário de Almada ofereceu dinheiro para Fernando publicar uma história sobre alegados escândalos financeiros de Pelé, Fernando fingiu aceitar, pegou no dinheiro, assinou o contrato, recebeu os documentos falsos que deveria utilizar como prova. E depois, ao em vez de publicar a história, Fernando foi logo para o Santos.
Entrou no balneário do clube com uma pasta cheia de documentos. Pelé estava ali a preparar-se para um treino. Quando viu Fernando, ficou surpreendido. Fernando, o que estás aqui a fazer? Fernando pousou a pasta sobre a mesa. Pelé, precisa de ver isso e precisa de ver agora. Pelé abriu a pasta. Dentro havia dezenas de documentos, contratos falsos, cheques fraudulentos.
depoimentos fabricados e juntamente com os documentos uma carta que explica toda a operação. Os nomes dos dirigentes envolvidos, os jornalistas comprados, os valores pagos. Almada está a tentar destruir-te, disse Fernando. E não está sozinho. Tem gente no Brasil envolvida também. Pelé leu os documentos em silêncio.
Cada página revelava mais uma camada da conspiração, não é? era muito maior do que tinha imaginado. “Porque é que me tás a mostrar isso?”, perguntou o Pelé. Fernando olhou nos olhos dele. Porque eu sou jornalista e jornalista a sério não vende a alma para ninguém, nem por todo o dinheiro do mundo. Pelé ficou em silêncio durante um longo momento, depois estendeu a mão.
Obrigado, Fernando. Eu não me vou esquecer isso. Fernando apertou-lhe a mão. Agora a questão é: o que vai fazer com isso? O Pelé olhou para os documentos de novo. Um sorriso apareceu no rosto dele. Vou fazer o que eles menos esperam. Duas semanas depois, aconteceu algo que ninguém antecipava. Pelé convocou uma conferência de imprensa no estádio dos Santos.
Não foi uma coletiva comum. Ele chamou os jornalistas de todos os países da América do Sul, correspondentes europeus, fotógrafos, cinegrafistas. O estádio estava apinhado de gente da imprensa. Quando Pelé entrou no campo transportando uma caixa de cartão, todo mundo ficou curioso. O que tinha naquela caixa? Pelé subiu para uma plataforma improvisada no centro do campo, colocou a caixa ao lado dele e começou a falar: “Senhoras e senhores, obrigado por virem.
Eu sei que muitos de vós ouviram histórias sobre mim nas últimas semanas. histórias sobre a minha vida pessoal, sobre o meu carácter, sobre a minha conduta. Eu chamei-vos aqui para esclarecer tudo isto. Os jornalistas se inclinaram-se para a frente, esperando. Essas histórias são falsas, todas elas, e eu tenho provas.
Pelé abriu a caixa, tirou os documentos que Fernando tinha trazido e começou a ler um a um à frente das câmaras. Leu os contratos que provavam o pagamento a jornalistas, leu os e-mails trocados entre dirigentes, leu os depoimentos falsos que tinham sido fabricados, mostrou os cheques com assinaturas e valores. A cada documento revelado, o choque na plateia aumentava.
Os jornalistas não estavam apenas ouvindo uma defesa, estavam testemunhando a exposição de uma conspiração internacional. Héctor Almada, presidente da comissão de prémio da Confederação Sul-Americana, é o líder desta operação”, disse Pelé. Gastou mais de 200.000 para destruir a minha reputação.
Dinheiro que veio das federações, dinheiro que deveria ir para o futebol. As câmaras filmavam tudo, os fotógrafos disparavam sem parar. Era o maior escândalo da história do futebol sul-americano, mas Pelé não tinha terminado. Eu poderia ter guardado estes documentos, poderia tê-los usado para chantagear, poderia ter vendido a algum jornal, mas eu não sou como eles.
Eu não faço negócio com mentiras. Pegou nos documentos e colocou de volta à caixa. Esses documentos vão ser entregues hoje às autoridades competentes e espero que a justiça seja feita. A conferência de imprensa terminou em caos. Jornalistas gritavam perguntas, os fotógrafos tentavam chegar mais perto.
Os seguranças faziam cordão de isolamento. Pelé saiu do campo sem responder mais nada. Ele já tinha dito tudo o que precisava de dizer. Nos dias seguintes, o sismo atingiu o futebol sul-americano. Héctor Almada foi destituído do cargo. Três outros dirigentes demitiram-se. Cinco jornalistas foram despedidos de os seus jornais.
A revista que tinha patrocinou a premiação, pediu desculpa públicas a Pelé. Roberto Perfumo deu uma entrevista dizendo que Pelé era o maior jogador que já tinha defrontado e que se orgulhava de ter jogado o troféu no chão nessa noite. E Pelé, Pelé voltou a fazer o que sempre fez, jogar futebol. Mas esta história tem mais camadas, porque o que aconteceu com Héctor Almada depois da queda não foi o fim, foi apenas o início de outro capítulo.
Almada era um homem destruído, mas não era um homem derrotado. Ele tinha perdido o cargo, tinha perdido a reputação, tinha perdido o poder, mas ainda havia uma coisa, ódio. Nos meses seguintes à sua queda, a Almada desapareceu da vida pública. Ninguém sabia onde estava, o que estava fazendo, se ainda estava vivo. Os rumores diziam que tinha fugido para Europa.
Outros diziam que estava escondido no interior da Argentina. A verdade era mais negra. A Almada encontrava-se em Buenos Aires, num apartamento pequeno no bairro da Laboca. Ele passava os dias a beber, a fumar, a planear. O apartamento estava cheio de recortes de jornal sobre Pelé, fotos, entrevistas, matérias. Era uma obsessão.
Ele tinha um caderno onde escrevia todos os dias, anotava ideias, planos, fantasias de vingança. A maioria era delírio de um homem perturbado, mas algumas eram perigosas. Uma das notas dizia: “O Santos vai jogar em Buenos Aires em março, Taça Libertadores, jogo decisivo. Pelé vai estar lá”. Almada circulou esta anotação várias vezes, sublinhou, desenhou estrelas ao lado e depois começou a fazer chamadas.
A Almada tinha ainda contactos no submundo do futebol argentino. Gente que fazia trabalhos sujos, pessoas que não tinha escrúpulos, gente que pelo preço certo fazia qualquer coisa. A ele convocou uma reunião num bar nos arredores de Buenos Aires. Três homens apareceram. eram conhecidos apenas por apelidos lobo, touro e rata.
Nenhum deles jogava futebol, nenhum deles se preocupava com futebol. Eles importavam-se com dinheiro. “Tenho um trabalho para vocês”, disse Almada, colocando um grosso envelope na mesa. Lobo, o líder do grupo, abriu o envelope. No interior havia mais dinheiro do que ganhava num ano. O que você quer? Eu quero que vocês deem um susto em alguém, um jogador brasileiro.
Ele vai estar cá em março. Susto como? Almada sorriu. Nada que deixe marca permanente, só o suficiente para ele nunca mais querer pôr os pés na Argentina. O Lobo guardou o dinheiro. Considera feito. A notícia de que o Santos iria jogar em Buenos Aires para a Libertadores chegou para o Brasil com meses de antecedência.
Era um jogo enorme. Santos contra Boca Juniors em La Bomboneira para o jogo de ª mão dos quartos de final. A expectativa era gigantesca. Os jornais argentinos já estavam provocando, dizendo que Pelé ia conhecer o verdadeiro futebol sul-americano. Os jornais brasileiros respondiam dizendo que o Pelé ia calar a boca aos argentinos mais uma vez.
Mas nos bastidores havia preocupação. Fernando Matos, o jornalista que tinha ajudado Pelé na conferência de imprensa, recebeu uma informação de um contacto em Buenos Aires. Uma informação que o fez apanhar o primeiro avião para o Rio de Janeiro. Ele encontrou Pelé no hotel, onde a seleção brasileira estava concentrada para um jogo amigável.
Pelé, precisamos de conversar, é urgente. Pelé viu a expressão no rosto do Fernando e soube que era grave. O que foi? Almada não desistiu? Ah, ele contratou gente para lhe fazer mal em Buenos Aires. Pelé ficou em silêncio durante um momento. Tem certeza disso? Há um contacto que trabalha nos bares que esta gente frequenta.
Ele ouviu a conversa. Três homens foram contratados para te pregar um susto. O que quer que isso signifique? Pelé sentou-se na beira da cama. Ele tinha enfrentado muita coisa na vida. Defesas violentos, claques hostis, árbitros corruptos. Mas isso era diferente, isso era crime. “O que é que acha que devo fazer?”, Fernando pensou por um momento.
A opção mais segura seria não ir, inventar uma lesão, ficar no Brasil, e deixá-los ganhar. Pelé, não vale a pena arriscar a vida por um jogo de futebol. Não é sobre o jogo, é sobre o que representa. Se eu não for, eles vão saber que conseguiram intimidar-me e depois vão tentar de novo e novamente até conseguirem o que querem.
Fernando suspirou. Ele sabia que Pelé tinha razão, mas também sabia que ir para Buenos Aires era entrar na boca do lobo. Então, precisamos de um plano. E fizeram um plano. Duas semanas antes do jogo, Pelé viajou secretamente para Buenos Aires. Não foi sozinho. Levou Coutinho, Zito e dois seguranças particulares que tinha contratado nos Estados Unidos.
A missão era simples. Encontrar os três homens contratados por Almada e neutralizá-los antes que pudessem fazer qualquer coisa. Ficaram num hotel discreto no centro da cidade, longe de Laboca, longe dos locais onde o Santos normalmente ficava, e começaram a investigar. O Fernando tinha passado todas as informações que tinha, os apelidos, a descrição física, os bares que eles frequentavam.
Não era muito, a mais era suficiente para começar. Na primeira noite, Pelé e Coutinho foram a um bar chamado El Tango Rojo. Era um lugar escuro, cheio de fumo, frequentado por pessoas que não faziam perguntas. Eles se sentaram-se num canto e ficaram a observar. Não demorou muito tempo a identificar os suspeitos.
Três homens sentados numa mesa ao fundo do bar. Um deles, o mais velho, tinha uma cicatriz na cara que ia da testa até ao queixo. Outro era enorme, com braços do tamanho de troncos de árvore. O terceiro era mais pequeno, magro, com olhos que se moviam constantemente, vigiando tudo. “São eles”, sussurrou Coutinho. “Eu sei. Agora nós espera.
” Ficaram no bar até de madrugada a observar. Os três homens beberam, conversaram, riram. Em momento algum pareceram notar Pelé e Coutinho sentados ao canto. Quando os homens finalmente saíram, Od Pelé e Coutinho seguiram-no. A distância, sem se revelarem, os homens entraram num edifício velho no final de uma rua sem iluminação.
Pelé anotou o endereço e voltou para o hotel. No dia seguinte, ele fez uma visita à esquadra da polícia mais próxima. Pelé não era conhecido por acaso. Ele era o Pelé. E mesmo na Argentina ele era uma celebridade. O delegado que o recebeu ficou em choque quando viu quem estava à porta do escritório dele. Senr.
Pelé, o que o que o senhor está fazendo aqui? Pelé entrou, fechou a porta e contou tudo. A história da premiação, a conspiração de Almada, os documentos revelados e agora a tentativa de agressão. Não omitiu nada e no final fez um pedido. Eu preciso que vocês prendam estes homens antes do jogo. Eu tenho o endereço onde se encontram.
O delegado ficou nervoso. Senr. Pelé. A, isto é muito complicado. Almada ainda tem amigos na polícia. Se eu o fizer sem autorização superior, pretende autorização? Eu dou-te autorização. Pelé pegou no telefone do delegado e marcou um número. “Quem é que você tá ligando?”, perguntou o delegado. “Pro presidente da Argentina.
” O delegado empalideceu. A conversa durou menos de 5 minutos. Quando Pelé desligou, entregou o telefone de volta para o delegado. Você vai receber uma chamada em poucos minutos. Quando receber, vai ter toda a autorização de que necessita. E foi exatamente o que aconteceu. 30 minutos depois, uma equipa de polícias invadiu o edifício onde os três homens estavam escondidos.
Eles foram presos sem resistência, demasiado surpreendidos para reagir. Na esquadra, sob interrogatório, Lobo confessou tudo, deu o nome de Almada, explicou o plano e mostrou onde estava escondido o dinheiro. A polícia argentina emitiu um mandado de prisão contra Héctor Almada. Ele foi encontrado três dias depois, tentando atravessar a fronteira para o Chile.
Foi preso e levado para Buenos Aires para responder por conspiração e tentativa de agressão. O jogo entre o Santos e o Boca Juniors aconteceu uma semana depois, como programado. Pelé entrou em campo em La Bomboneira, debaixo de uma chuva de vaias. A claque argentina não se tinha esquecido a humilhação de Almada. Para eles, Pelé era o vilão que tinha destruído um dos seus.
Mas Pelé não se importava com as vaias. Ele estava ali para jogar futebol e foi exatamente o que ele fez. O jogo foi brutal. Os Os jogadores do Boca marcavam Pelé com violência, tentando intimidá-lo, mas ele desviava, driblava, passava. Cada vez que tocava na bola, os adeptos vaiavam mais alto. E cada vez que fazia uma jogada bonita, as vaias misturavam-se com murmúrios de admiração relutante.
Aos 35 minutos da primeira parte, Pelé recebeu a bola à entrada da área. Tinha três defesas à sua frente. Qualquer outro jogador teria passado. Pelé não era outro jogador qualquer. e fez uma finta para o lado direito, cortou para o esquerdo, passou por um defesa, fez outra finta, passou por outro e quando o terceiro veio dividir, Pelé deu um toque por baixo das pernas dele e saiu do outro lado com a bola.
O guarda-redes veio desesperado. Pelé esperou, esperou e no último segundo tocou na bola por baixo do corpo dele. Golo! O estádio ficou em silêncio. 70.000 argentinos mudos de choque. E depois, lentamente, algo inesperado aconteceu. Alguns adeptos começaram a aplaudir, não muitos, ou talvez algumas centenas, mas era o suficiente para ser notado.
Argentinos a aplaudir Pelé em La Bomboneira. Era algo que nunca tinha acontecido antes. Pelé não festejou de forma provocatória, apenas levantou a mão, acenou para o canto do estádio de onde vinham os aplausos e voltou ao campo do Santos. O jogo terminou 2-1 para o Santos. Pelé fez os dois golos.
Quando saiu de campo, aconteceu algo ainda mais surpreendente. Um grupo de adeptos do Boca se aproximou-se da beira do relvado. Por um momento, os seguranças ficaram tensos, pensando que ia haver confusão. Mas os adeptos não queriam briga. Eles queriam a camisola do Pelé. Por favor, Pelé, a tua camisola, por favor. O Pelé parou, olhou para os adeptos.
Eram jovens, adolescentes na sua maioria, os mesmos que o tinham vaiado durante 90 minutos. Ele tirou a camisola e atirou-a para eles. A a imagem correu mundo. Pelé sem camisa, entregando a sua camisa a Os adeptos argentinos que tinham acabado de perder para ele. Os jornais argentinos, que uma semana antes estavam publicando artigos atacando Pelé, agora publicavam uma manchete sobre a sua grandeza e generosidade.
Mas a história de Héctor Almada não terminou com a sua prisão. Almada foi julgado seis meses depois. O julgamento foi um circo mediático. Jornalistas de toda a América do Sul se aglomeraram-se no tribunal de Buenos Aires. Pelé foi chamado a depor. Quando ele entrou no tribunal, Almada estava sentado na cadeira dos réus.
Os dois homens se entreolharam. Almada, agora magro e envelhecido, com olheiras profundas e cabelo grisalho, Pelé, ereto e sereno com a dignidade de sempre. O promotor colocou questões sobre a premiação, sobre os documentos, sobre a conspiração. La Pelé respondeu a tudo com calma e precisão. E depois, no final do depoimento, algo inesperado aconteceu.
O advogado de Almada levantou-se. Senr. Pelé, tenho uma última questão. Pode fazer. O senhor odeia o meu cliente? A pergunta apanhou todos de surpresa, incluindo Pelé. Ele ficou em silêncio por momentos, olhou para Almada, que mantinha os olhos no chão. “Não”, disse Pelé finalmente. “Eu não o odeio. E por que não? Ele tentou destruir a sua reputação.
Ele contratou criminosos para magoar-te. Ele gastou fortunas para arruinar a sua vida. Pelé respirou fundo. Porque o ódio não resolve nada. Eu já vi muita gente se destruir por causa do ódio. Eu não quero ser uma dessas pessoas. O tribunal ficou em silêncio. O que o O Senhor Almada fez foi errado, muito errado, e ele precisa de responder por isso.
Mas depois de ele responder, eu espero que ele consiga encontrar a paz, porque ninguém merece viver consumido pela raiva. Almada levantou os olhos pela primeira vez. Havia lágrimas a escorrer pelo rosto dele. O julgamento terminou uma semana depois. Almada foi condenado a 5 anos de prisão por conspiração e tentativa de agressão, mas por causa da idade e de problemas de saúde, cumpriu apenas do anos em regime fechado, seguidos de três em domiciliar.
Quando foi libertado, em 1979, a primeira coisa que fez foi escrever uma carta. A carta foi enviada pro Santos Futebol Clube, dirigida a Pelé. Querido Pelé, passei 5 anos a pensar no que fiz, no mal que tentei te causar, na obsessão que consumiu a minha vida. Quando disse em tribunal que não me odiava, eu não acreditava.
Achei que era teatro, ai que estavas fazendo isso paraas câmaras. Mas depois de muito tempo a pensar, eu entendi. Você estava a dizer a verdade. Você não me odiava mesmo. E isso me destruiu mais do que qualquer castigo. Porque percebi que tu eras tudo o que nunca fui. Tinha talento, sim, mas mais do que talento, tinhas carácter, tinha dignidade, tinha tinha a capacidade de perdoar.
Eu passei a vida inteira a invejar pessoas como você. As pessoas que nasceram com dons que não tinha e essa inveja me transformou num monstro. Eu não espero que me perdoe. Eu não mereço perdão, mas preciso que saiba que me arrependo verdadeiramente e eu espero que onde quer que esteja, esteja em paz, porque merece. Com respeito, Héctor Almada.
A carta chegou aos Santos um mês depois de ter sido enviada. Pelé estava a viajar a fazendo excursões com o Cosmos de Nova Iorque. A carta ficou à espera numa pilha de correspondência. Quando Pelé finalmente leu a carta, meses depois ficou em silêncio durante um longo tempo. Depois guardou-a numa gaveta do escritório. Nunca respondeu.
Mas anos mais tarde, quando um jornalista perguntou sobre Almada, Pelé disse algo que surpreendeu a todos. Almada era um homem doente, não doente do corpo, doente da alma. Ele passou a vida tentando ser grande e como não conseguiu, tentou derrubar quem era. Isto é uma tragédia, não é motivo para ódio. Héctor Almada morreu em 1987, sozinho num asilo em Buenos Aires.
Entre os seus pertences encontraram uma caixa velha. Dentro da caixa havia recortes de jornal. Mas já não eram os recortes antigos, cheios de raiva, eram recortes novos, artigos sobre a carreira de Pelé, sobre os golos, a sobre os títulos, sobre a reforma. E numa pasta à parte estava uma foto, uma foto de Pelé sorridente, tirada durante uma entrevista.
Na margem da foto, escrito à mão, o maior de todos. Parece que no final a Almada tinha finalmente compreendido. Mas esta história tem mais uma camada. Uma camada que envolve Roberto Perfumo, o defesa que atirou o troféu para o chão naquela noite de 1973. Perfumo era um homem de convicções. Ele acreditava no futebol como arte, como expressão, como algo maior do que dinheiro e política.
E o que ele fez naquela premiação não foi um impulso, foi uma decisão. Depois de jogar o troféu no chão, Perfumo sabia que teria consequências. A Federação Argentina não ia deixar aquilo passar em branco e não deixou. Na semana seguinte ao incidente, Perfumo foi convocado para uma reunião com os dirigentes do Rassing ao seu clube na época. A reunião foi curta e direta.
Roberto, o que fez foi inaceitável. Humilhou a Federação Argentina na frente de toda a América do Sul. Perfumo não se defendeu. Eu fiz o que achava certo e por isso vai ser emprestado ao exterior. Não queremos problemas com a federação. Perfumo foi emprestado a um clube de Portugal, onde esteve dois anos a jogar longe do futebol sul-americano.
Para muitos isso seria um castigo. Para Perfumo foi uma libertação. Em Portugal, jogou futebol sem a pressão da política sul-americana, fez amigos, aprendeu uma nova cultura, desenvolveu-se como jogador e como pessoa. E durante esse tempo trocou cartas com Pelé. A primeira carta foi de perfumo para Pelé, enviado um mês depois da premiação.
Pelé, não te conheço pessoalmente. A gente enfrentou-se em campo algumas vezes, mas nunca conversamos de verdade. Mas eu quero que sabe que o que eu fiz naquela noite não foi por ti, foi por mim. Foi porque não conseguia aceitar ser parte daquela farça. Você é o maior jogador que já enfrentei e tu merecia ganhar aquele prémio.
Mas mais do que o prémio, merecia respeito. E o que fizeram foi o contrário de respeito. Não sei se essa carta vai chegar até si. Eu não sei se vai responder, mas precisava de escrever. Um abraço, Roberto Perfumo. Pelé respondeu duas semanas depois. Roberto, a sua carta chegou e li várias vezes. Eu vi o que fizeste nessa noite e eu fiquei em choque.
Não esperava que ninguém, muito menos um jogador argentino, fosse se levantar contra aquilo. O que fez foi corajoso e sei que teve consequências. Ah, soube que foste emprestado a Portugal e sinto muito por isso, mas também sei que não se arrepende. E isso diz tudo sobre o tipo de homem que é. A gente se enfrentou em campo como adversários, mas a partir de agora vou-te considero um amigo. Um abraço, Pelé.
Esta correspondência continuou durante anos, mesmo depois de Perfumo ter voltado paraa Argentina, mesmo depois de Pelé ter ido para o Cosmos, mesmo depois de os dois se reformaram, as cartas falavam de tudo, de futebol, de família, de filosofia, de vida. Eram duas mentes brilhantes trocando ideias através do papel.
Em 1995, quando Pelé foi nomeado ministro do desporto no Brasil, Perfumo mandou uma carta especial. Pelé, li a notícia da sua nomeação e confesso que fiquei com medo. Não medo de ti, medo por ti. O mundo da a política é sujo. Está cheio de gente como Almada, gente que te vai tentar usar, te derrubar, corromper-te.
Você sempre foi maior do que o futebol. Eu espero que você seja maior do que a política também. Cuida de ti, meu amigo. Roberto. Pelé respondeu uma semana depois. Roberto, obrigado pelo aviso. Eu sei dos riscos, mas alguém precisa tentar mudar as coisas. E se não for eu, quem vai ser? Eu aprendi muito na minha vida.
Aprendi que não podemos fugir dos desafios. A gente tem de enfrentar -los de frente. Você ensinou-me isso naquela noite de 1973, quando atirou o troféu para o chão. Você me mostrou que existe gente disposta a pagar o preço pela verdade. Eu vou tentar ser digno desse exemplo. Um abraço, Pelé. Roberto Perfumo morreu em 2016, aos 73 anos.
Pelé estava na Argentina para um evento quando recebeu a notícia. Ah, ele cancelou todos os compromissos e foi logo para o velório. Quando chegou, a família de perfumes estava surpreendida. Sabiam da amizade, mas não sabiam que era tão profunda. Pelé aproximou-se do caixão, ficou em silêncio durante longos minutos e depois tirou algo do bolso.
Era uma carta amarelecida pelo tempo. A primeira carta que Perfumo tinha enviado em 1973. Pelé colocou a carta no caixão junto ao corpo do amigo. Vai em paz, Roberto. Foste um dos bons. A viúva de perfumo aproximou-se de Pelé. Ele falava de si toda a semana. dizia que eras o único jogador que nunca conseguiu parar em campo. Pelé sorriu.
Ele me parou de outras formas, formas mais importantes. Mas a história da atribuição do prémio de 1973 teve mais um capítulo. Um capítulo que envolve Fernando Matos, o jornalista que expôs a conspiração. Fernando continuou trabalhando como jornalista durante mais 20 anos depois do escândalo, mas a sua vida nunca mais foi a mesma.
Depois de expor a Almada e aos seus comparsas, Fernando se tornou um alvo. Os dirigentes corruptos que tinha denunciado tinham amigos em todo o lado. E esses amigos queriam vingança. Fernando perdeu empregos. Os jornais que o contratavam recebiam pressão para o despedir. Editores que publicavam as suas matérias eram ameaçados.
A sua carreira foi destruída aos poucos, metodicamente. Em 1985, Fernando estava desempregado, vivendo num pequeno apartamento em São Paulo, sobrevivendo de trabalhos esporádicos. Tinha perdido tudo, menos a dignidade. Foi nesta altura que Pelé soube da situação dele. Um amigo em comum contou a história.
Disse que O Fernando estava a passar dificuldades, que a sua família estava a sofrer, que estava a pensar em desistir do jornalismo para sempre. Pelé não pensou duas vezes. Ligou para Fernando do telefone do escritório do Cosmos. Fernando, aqui é o Pelé. A linha ficou em silêncio por um momento. Pelé? O Pelé de verdade? Sim, o verdadeiro Pelé.
Eu soube que está a passar dificuldades. Fernando suspirou. Pois, as coisas não tão fáceis, mas eu vou arranjar maneira. Eu Tenho uma proposta para si. Que tipo de proposta? Eu estou montando uma fundação. Uma fundação para ajudar crianças pobres a terem acesso ao desporto. Eu preciso de alguém para cuidar da comunicação.
Alguém que eu confie, alguém que tem a coragem de falar a verdade. Fernando ficou em silêncio. Você está a oferecer-me um emprego? Eu estou a oferecer-te uma chance de continuar a fazer o que sempre fez, só que desta vez aá a trabalhar para uma causa que importa. Fernando aceitou de imediato. Ele trabalhou na fundação de Pelé durante 15 anos.
foi responsável pelas campanhas de comunicação que ajudaram milhares de crianças em todo o Brasil e nunca mais teve de se preocupar com dirigentes corruptos tentando arruinar a sua vida. Quando Fernando reformou-se em 2000, deu uma entrevista para um jornal brasileiro. O repórter perguntou qual tinha sido o momento mais importante da carreira dele.
Foi quando decidi vender a minha alma, disse o Fernando. Em 1973, um homem ofereceu-me dinheiro para destruir a reputação de Pelé. Recusei e essa decisão mudou a minha vida. Arrepende-se de alguma coisa? Fernando pensou por momentos: “Eu me arrependo-me de ter passado dificuldades, de ter visto a minha família sofrer, de ter perdido emprego e oportunidades.
Mas se pudesse voltar atrás, faria diferente?” Fernando sorriu. Não, eu faria exatamente a mesma coisa, porque no final não somos o que a gente ganha. A gente é o que a gente faz quando ninguém está a olhar. Fernando Matos morreu em 2012. No O seu velório, entre os presentes, estava Pelé.
Não fez discurso, não deu entrevista, apenas ficou sentado na primeira fileira, em silêncio, prestando respeito a um homem que tinha arriscado tudo por ele. Depois do velório, a viúva de Fernando entregou um envelope a Pelé. Ele pediu para te dar isso, disse que ia entender. Pelé abriu o envelope. No interior havia uma folha de papel amarelada.
Era a proposta original que Fernando tinha recebido para escrever matérias falsas sobre Pelé, o contrato que nunca tinha assinado. Na margem do papel, o Fernando tinha escrito à mão: “Algumas coisas não têm preço. Obrigado por ter sido uma delas”. Pelé guardou este papel junto com a primeira carta de perfume. Os dois documentos mais importantes da carreira dele, segundo o próprio disse uma vez, não eram troféus, não eram medalhas, não eram prémios, eram provas de que, no final as pessoas certas tinham ficado do lado dele. Mas esta história ainda tem
um último capítulo, um capítulo que aconteceu muitos anos depois, quando Pelé já estava reformado. E a premiação de 1973 era apenas uma memória distante. Em 2003, 30 anos depois do escândalo, a mesma federação que tinha organizado aquela premiação decidiu fazer uma homenagem. Uma homenagem a Pelé, reconhecendo o erro que tinham cometido três décadas antes.
A cerimónia seria em Buenos Aires, a no mesmo hotel onde tudo tinha acontecido em 1973. Os organizadores queriam que fosse um momento de reconciliação, de cura, de fecho de ciclo. Pelé foi convidado e, para surpresa de muitos, aceitou. Quando chegou ao hotel, as memórias vieram todas de uma vez. O salão era diferente, renovado, modernizado, mas as paredes eram as mesmas.
O teto era o mesmo, o palco estava no mesmo sítio. Pelé lembrou-se de subir àquele palco, de pegar no microfone, de expor a conspiração. Parecia que tinha sido ontem. A cerimónia foi emocionante. Os novos dirigentes pediram desculpa formais pelo que tinha acontecido em 1973. Apresentaram um troféu especial, criado especificamente para essa ocasião.
Mas o momento mais marcante surgiu no final. O presidente da federação chamou Pelé ao palco para receber o troféu e quando Pelé subiu, havu algo que o fez parar. Sentado na primeira fila, numa cadeira de rodas, estava um homem muito velho, magro, frágil, quase irreconhecível. era Armando Vilela, o árbitro que devia ter apitado o jogo no Maracanã em 1967, mas que tinha ficado doente.
O homem que, por causa de uma gripe, acabou cedendo o seu lugar a Nestor Ramalho. Armando tinha 91 anos. Estava ali porque tinha pedido à família para o levar. Disse que precisava de ver Pelé uma última vez. Pelé desceu do palco e caminhou até Armando. Ajoelhou-se na frente da cadeira de rodas. Senhor Armando, o senhor veio. Armando sorriu.
A voz dele era fraca, quase um sussurro. Eu tinha que vir. Eu passei a vida a culpar-me por aquele jogo. Se culpando? Por quê? Porque se eu não tivesse ficado doente, Nestor Ramalho nunca teria arbitrado e toda aquela confusão não teria acontecido. Pelé segurou a mão do velho árbitro. Senhor Armando, o senhor não tem culpa de nada. O senhor ficou doente.
Isso pode acontecer a qualquer um. Mas eu podia ter ido na mesma. Eu podia ter fez um esforço e depois o senhor podia ter desmaiado no meio do campo. Podia ter passado mal na frente de 80.000 pessoas. O senhor fez a coisa certa. Armando fechou os olhos. Uma lágrima escorreu pelo rosto enrugado. Eu vi tudo o que enfrentaste por causa daquele dia. A premiação em 73.
O Almada, a conspiração, tudo. E eu superei tudo. Eu sei, tu sempre supera. Esse é o problema. Problema. Problema para gente que te quer derrubar. Tu não cais, Pelé. Nunca cais. Pelé sorriu. Caio sim, várias vezes. A diferença é que me levanto. Armando abriu os olhos. É, quando eu era jovem, queria ser jogador, mas não tinha talento, por isso tornei-me árbitro.
E como árbitro vi muita coisa. Vi jogadores brilhantes destruídos pela arrogância. Vi talentos desperdiçados pela preguiça. Vi carreiras acabadas pela corrupção. E eu Tu foste o único que vi que era completo. Talento, trabalho, carácter. Os três juntos. Por isso você é o rei. Pelé ficou em silêncio. Obrigado, senhor Armando.
Isso significa muito para mim. Obrigado a si, Pelé, por ter mostrado ao mundo o que um ser humano pode fazer quando decide ser grande. Armando Vilela morreu três meses depois dessa cerimónia. No seu velório, tal como nos outros, Pelé estava presente. Era assim que Pelé vivia, presente nos momentos que importavam, não nas câmaras, não nos holofotes, nos momentos humanos, silenciosos, verdadeiros.
A premiação de 1973 ficou conhecida como uma das maiores injustiças da história do futebol sul-americano. Mas para Pelé, ela foi muito mais do que isso. Foi o momento em que decidiu que não ia aceitar mais ser tratado como mercadoria. Foi o momento em que usou a sua voz para falar por todos os jogadores que não tinham voz.
Foi o momento em que ele mostrou que ser grande não se resume a golos e títulos, é sobre carácter, é sobre dignidade, trata-se de estar disposto a pagar o preço pela verdade. Héctor Almada morreu sozinho, arrependido, segurando uma foto de Pelé. Roberto Perfumo morreu rodeado pela família com uma carta de Pelé no caixão. Fernando Matos morreu em paz, sabendo que nunca tinha vendido a sua alma.
Armando Vilela morreu a sorrir, sabendo que tinha visto o maior de todos jogar. E Pelé, Pelé continuou a viver. A continuou a jogar enquanto pôde, continuou a trabalhar enquanto as forças permitiram, continuou a ser Pelé, porque ser Pelé não é sobre futebol, nunca foi só sobre futebol, é sobre ser humano da forma mais completa possível.
É sobre enfrentar os desafios de frente, sem recuar, sem se corromper. é sobre levantar depois de cada queda mais forte do que antes. A premiação de 1973 tentou humilhar Pelé, tentou mostrar que era apenas um jogador sujeito às vontades dos poderosos, mas o que ela mostrou, na verdade foi o contrário. Mostrou que Pelé era maior do que qualquer prémio, maior do que qualquer conspiração, maior do que qualquer inimigo.
Porque quando um homem tem carácter de verdade, não tem nada que possa destruí-lo, nada. Os anos passaram, o futebol mudou, os prémios modernas são transmitidas ao mundo inteiro, a com celebridades e tapetes vermelhos. Os jogadores ganharam direitos que não existiam na época de Pelé. As federações, pelo menos algumas, se tornaram mais transparentes.
E muito disso aconteceu por causa daquela noite de 1973. Por causa de um homem que subiu para um palco e disse a verdade. Por causa de um defesa argentino que jogou um troféu no chão. Por causa de um jornalista que recusou-se a ser comprado. Por causa de gente que escolheu a dignidade em vez do dinheiro.
A verdade em vez da conveniência, a coragem em vez do medo. Pelé liderou esta mudança não porque fosse o mais talentoso, mas porque era o mais corajoso. E é essa a lição desta história. Não é sobre futebol, é sobre vida. Quantas vezes somos colocados numa situação em que temos de escolher entre o certo e o fácil? Há quantas vezes somos tentados a aceitar uma injustiça porque queixar-se dá trabalho demais? Quantas vezes olhamos para o outro lado porque enfrentar o problema é perigoso? Pelé nunca olhou para o outro lado. Nunca.
E por isso, décadas depois, nós ainda está aqui a falar dele, não só dos golos, dos títulos, das jogadas, mas do homem que era. Um homem que foi ignorado numa entrega de prémios, mas que minutos depois fez com que todos se levantassem em silêncio. Um homem que enfrentou conspirações, ameaças, tentativas de destruição e saiu mais forte de cada uma.
Um homem que mostrou ao mundo que o verdadeiro poder não está nas mãos dos quem tem dinheiro ou posição, está nas mãos de quem tem carácter. Esse é Pelé, o rei, o maior de todos. Não pelos golos, pela vida. Se chegou até aqui, se esta história te tocou, deixa um comentário. Conta se você recorda-se dessa época, se viveu algo parecido, se tiver as suas próprias histórias de quando o futebol era mais do que um negócio.
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